Capítulo 8

Seu rosto ardia e sua perna doía como o diabo; sua cabeça ainda latejava devido á força empregada mais cedo, quando tivera o cabelo puxado com violência.

Sua boca estava seca e os olhos pesavam, implorando por descanso, contudo, o medo que sentia em dormir e não acordar mais, lhe impedia de permitir-se alguns minutos de sono.

As lágrimas escorriam, silenciosas, por seu rosto, enquanto em sua mente, uma prece, implorando para que não demorassem muito para que conseguissem lhe tirar dali, era feita. Implorando para que, logo, pudesse estar de volta aos braços de Pierre, sabendo que este lhe protegeria do que fosse.

E, ao mesmo tempo, sua mente lhe repreendia por ter sido tão estúpido, a ponto de simplesmente ter ignorado o fato de que Bill poderia lhe seqüestrar, mesmo sem entrar em contato antes, o que, de fato, era esperado. Sentia-se ridiculamente estúpido por ter cometido esse erro; pior, sentia-se mais estúpido ainda por não ter comentado nada com Pierre.

E imaginar o que o marido devia ter passado quando, de repente, recebera a noticia de que fora seqüestrado, lhe feria de uma forma indescritível: saber que, de alguma forma, poderia ter deixado o outro avisado daquilo, fazia-lhe sentir-se idiota. Ter consciência do desespero que Pierre deveria estar sentido, fazia-lhe querer simplesmente poder voltar no tempo.

Voltar no tempo e poupar a ambos de tantos problemas; de tantas brigas desnecessárias; de tanto tempo perdido, com um medo tolo de que, de repente, Pierre pudesse se descontrolar novamente.

O que teria feito no lugar dele?, perguntou-se, erguendo a cabeça e olhando ao arredor, notando que, agora, estava completamente escuro e que sua visão era quase nula; teria agido igual a Pierre, concluiu, suspirando pesadamente e afastando, por fim, esses pensamentos.

Queria conseguir prender-se em algum tipo de universo paralelo, ignorar tudo o que estava acontecendo – ou o que não estava –, queria esquecer tudo o que acontecera desde que chegara ali. Queria, apenas, ir para casa e ser amado por Pierre; queria apenas ir para casa e perder algumas poucas horas, abraçado ao mais velho, enquanto conversavam sobre qualquer coisa banal, em sussurros, trocando sorrisos bobos e beijos apaixonados.

Queria, apenas, voltar para a sua vida, ao seu marido, e continuar como se nada disso houvesse começado a acontecer.

Gemendo baixinho de dor, remexeu-se sobre aquela cadeira desconfortável, tentando ajeitar-se, mas apenas conseguindo aumentar a dor em sua perna; cerrou os olhos, sentindo as lágrimas aumentarem de intensidade. Fixou as íris no local dolorido, tentando avaliar o dano, não conseguindo, contudo, ver quase nada.

Só conseguiu concluir que o sangue já havia parado de escorrer e, talvez, isso fosse um bom sinal.

-Chorando por que, Desrosiers? – a voz rouca e com qualquer coisa de diversão soou, de repente, fazendo seu coração falhar, em susto, e sua cabeça erguer-se numa velocidade incrível. – Saudades de casa, é? – Bill perguntou, rindo, terminando de entrar no cômodo, sem desviar o olhar de David, que acompanhava os movimentos do outro, com atenção.

Preferiu não responder, lembrando-se o que lhe acontecera na última vez que se atrevera a abrir a boca. Observou o outro homem caminhar até um dos cantos do lugar, acendendo uma vela, a qual iluminou o cômodo o bastante para que David pudesse ver algo que estivesse relativamente próximo.

Bill pegou alguns papéis sobre a pequena mesa pútrida e olhou para David; o cenho franzido e a expressão... Curiosa?

-Lhe fiz uma pergunta, Davey. – ele disse, com uma calma que David sabia que ele não sentia; o que poderia dizer? Que sim, estava morrendo de saudades de casa? Que sim, queria desesperadamente voltar para os braços do marido, para que, por fim, Bill desse seu jeito melago-maníaco de ferir Pierre? Não mesmo.

Suspirou baixinho, voltando a olhar para as próprias coxas, analisando rapidamente o ferimento feito em uma delas e, pela aparecia, pensou, aquilo não estava nada bom.

Ouviu os passos de Bill soarem pelo assoalho e, antes que conseguisse registrar, sentiu os dedos finos e gélidos segurarem, novamente, seu queixo, obrigando-lhe erguer a cabeça.

A expressão de raiva do outro fez um arrepio de medo correr seu corpo, que se tencionou; as costas sendo pressionada com força contra o encosto, como numa tentativa de se afastar. Sentiu o ar começar a chegar com dificuldade á seus pulmões, indicando que seu medo apenas aumentava mais e mais, de forma desesperadora; as lágrimas aumentaram a intensidade. E o desejo de que Pierre lhe salvasse, gritou dentro de si, mais forte do que nunca antes.

-Entenda uma coisa, David... – ele murmurou, o rosto perto o bastante para que a ponta dos narizes se encostassem. – Você só falará quando questionado, limitando-se a "sim" e "não". – ele disse, cerrando os olhos. – Eu lhe fiz uma pergunta, obviamente esperando uma resposta, então, responda-a, se não quiser sofrer as conseqüências.

Ah, dane-se!

-Vai pro inferno. – resmungou, simplesmente, sustentando o contato visual que o outro mantinha; Bill sorriu, sádico.

-Ou você é muito corajoso ou muito estúpido. – ele murmurou, como que falando consigo mesmo.

Corajoso? Não mesmo; era apenas um estúpido, com raiva do que lhe estava acontecendo. Apenas um estúpido que deixara de se importar com as conseqüências dos seus atos.

E, subitamente, uma dor insuportável atingiu seu maxilar e o gosto de sangue invadiu sua boca; sua cabeça virou e os olhos apertaram-se, antes que David tomasse consciência do punho do outro, que recuara e, novamente, chocou-se com o seu rosto.

E, no momento em que o punho tocou o seu rosto pela segunda vez, deixando-lhe saber o quanto de força Bill tinha, o sorriso sádico e divertido que ele carregava, sumiu; e tal ato deixou-lhe claro que o ódio que Bill sentia por si era tão grande, que uma simples frase poderia fazê-lo sentir uma raiva desigual.

O punho, na terceira vez que voltava, não se limitou mais á apenas o rosto, desferindo vários golpes contra toda a parte do corpo pequeno que conseguia atingir, fazendo David gemer á cada novo golpe que lhe era dado; permitindo que as lágrimas escorressem com mais força, ao se ver tão indefeso e tão submisso, mesmo que contra sua vontade.

Por menos que um minuto, Bill parou de lhe agredir; David ergueu a cabeça a tempo de ver o outro lhe analisando, ofegante, as íris ainda contendo todo o ódio possível.

Em um gesto incrivelmente rápido, Bill inclinou-se novamente, obrigando David a manter o contato visual, segurando-lhe, com força, a nuca; as unhas arranhando sua pele, fazendo-a arder.

Um pequeno sorriso voltou a aparecer no canto dos lábios de Bill, deixando claro que ele se divertia fazendo tudo aquilo; que ele sentia um prazer absurdo em cada mínima dor que fazia os outros sentirem.
David sentiu o corpo ficar tenso quando percebeu a mão livre do outro, pousar na lateral da sua coxa esquerda; ofegou, permitindo que o medo por não saber o que aconteceria, lhe invadisse na mesma intensidade do anseio que sentia de ter Pierre consigo.

E, antes mesmo que pudesse raciocinar qualquer possibilidade, e sem que sequer quisesse isso, o grito escapou por seus lábios, sofrido, quando os dedos magros e gélidos do outro pressionaram, sem qualquer piedade, o ferimento em sua perna, fazendo-o arder como se um ferro aquecido houvesse sido prensado na região.

O sangue voltou a correr, dessa vez, com mais intensidade. As lágrimas caíram, involuntárias, rápidas, enquanto cerrava os olhos, choramingando qualquer coisa inteligível até para si mesmo; sua mente pedindo aos céus que aquilo não passasse de um pesadelo; implorando para que, logo, acordasse em sua cama, com Pierre ao seu lado; implorando para que pudesse abraçá-lo, enquanto ele lhe acalmava.

-Abra os olhos, Davey. – Bill murmurou ao pé do seu ouvido; a voz arrastada, debochada; cada silaba contendo o prazer venenoso que sentia em se impor perante o outro. – Abra seus lindos olhos, banhados em dor, para que eu possa saber o quanto você me teme. – ele voltou a pedir, dessa vez longe o bastante para que pudesse observar o rosto do outro.

Relutante, David obedeceu, apenas para se deparar com um sorriso maníaco. Não se importou mais em deixar o outro saber o quanto estava amedrontado, o quanto queria apenas sair dali... Não se importou mais em deixá-lo saber como estava. De alguma forma maníaca, Bill lhe conhecia melhor do que David poderia supor.

A navalha estava de volta na mão magra, sendo rodada entre os dedos pálidos, enquanto os olhos rolavam divertidos, por todo o corpo de David, como que analisando. O promotor sentiu o ar faltar; a boca secar e os olhos arderem perante as novas lágrimas que enchiam seus orbes, embaçando sua visão.

Rindo consigo mesmo, Bill voltou a apertar o ferimento na coxa de David, só que dessa vez com menos força, arrancando apenas um ofego e um gemido baixinho.

Sorrindo, Bill encostou a ponta afiada da navalha na altura do primeiro botão da sua blusa e, quando David tentou afastar o corpo, o outro apertou a lâmina com mais força, fazendo-a entrar na pele o suficiente para fazer o sangue escorrer; e quando a primeira gota vermelha escorreu, Bill correu sua mão para baixo, cortando, machucando, até o começo de sua barriga.

Gemeu, e quando a lâmina fria se afastou, Bill voltou a aproximar os rostos; rindo.

-Aprendeu a não me desrespeitar, Davey? – ele perguntou, parecendo satisfeito, naquele momento. – Aprendeu o quão submisso você me é?

E sem pensar, sem se importar com o que mais poderia lhe acontecer, permitiu que todo o ódio que começara a sentir por Bill falasse mais alto.

Dane-se a sensatez, dane-se uma possível sobrevivência; o ódio lhe tomava, naquele momento, quase que completamente; a vontade de, alguma forma, ferir o outro, como ele estava lhe fazendo, dominando toda sua razão.

-Aprendi... – Bill sorriu ao ouvir tal resposta. – Aprendi que você não passa de um sádico estúpido, que realmente acha que vai conseguir escapar imune disso. Que acha que é inteligente e amedrontador o bastante a ponto de fazer uma pessoa temê-lo tanto, que não é mais capaz de manter sua audácia natural. Estúpido da sua parte, achar que apenas porque eu estou com medo e, admito, assustado, eu vou começar a ser submisso á alguém. Submissão forçada, Bill, só prova que você é um completo babaca.

O sorriso de Bill sumiu ao ouvir tais palavras; as íris escureceram, em sinal de que o ódio do outro chegara ao seu máximo; o peito magro começou a subir e a descer no ritmo acelerado da respiração, ofegante, devido á raiva.

Sentiu a própria respiração falhar mais ainda, finalmente repreendendo-se por, daquela vez, não ter permanecido em silêncio. Você é um idiota, David!, disse a si mesmo; um completo idiota. O arrependimento tomou-lhe completamente, mas sabia que, agora, não havia nada que pudesse fazer para mudar o efeito daquelas palavras. Nada, a não ser agüentar suas conseqüências.

E sem sequer saber o que lhe atingira, sentiu algo chocar-se contra sua têmpora, fazendo um show de luzes estourar em frente aos seus olhos, enquanto o mundo começava a girar numa velocidade incrível; não soube se fora por causa da força empregada no golpe, mas não demorou muito mais para que sentisse o corpo chocar-se contra o chão de madeira fria; o outro lado da cabeça chocando-se contra o piso de forma violenta, fazendo o mundo girar ainda mais rápido e seu estômago revirar, querendo pôr para fora o nada que o preenchia.

Sentiu dedos gélidos roçarem na pele ferida de seu pulso e, não muito tempo depois, sentiu o corpo ser puxado para cima, sendo obrigado a caminhar para um canto do quarto ao qual não tinha visão antes, por estar sentado de costas; gemeu quando foi jogado com violência contra um cano de ferro que, reparou, estava preso no teto e no chão.

Sua mente atordoada não lhe permitiu entender direito o que estava acontecendo, mas sentiu as cordas que seguravam seus punhos serem tiradas, enquanto suas mãos eram postas ao arredor do objeto metálico, ainda em suas costas; algo gelado envolveu a pele magoada, prendendo-lhe ali.

Apertou os olhos com força, ainda sentindo-se atordoado, no mesmo instante em que algo quente começou a escorrer por seu rosto, do lado em que batera no chão, e concluiu que era sangue.

Gemeu; parecia que o mundo girava mais e mais rápido e seu estômago se contorcia com toda a velocidade, com que as coisas passavam à sua frente.

Sentiu os dedos de Bill pousarem, mais uma vez, no seu maxilar; as unhas sendo pressionadas contra a pele pálida, penetrando-a, fazendo-a arder. O foragido aproximou os rostos, fazendo os narizes se roçarem.

As íris fixaram as de David, deixando claro que a brincadeira havia chegado a seu fim. Deixando claro que David acertara em cheio na tentativa de ofender o outro homem.

-Eu juro, Desrosiers... – ele disse, num tom baixo e arrastado; o hálito quente e pútrido chocando-se contra pele do promotor, que gemeu baixinho, antes de voltar a fechar os olhos. – Juro que não ia ser mais tão cruel com você. Juro que ia te fazer sofrer pouco. E juro que não ia envolver mais ninguém. – os dedos deixaram o seu rosto, esgueirando-se para a nuca do menor, apertando-a com força. – Abra os olhos! – a ordem foi dada em um tom de voz que deixava claro que não aceitava ser contrariado. Relutante, David obedeceu. – Você me provou, Desrosiers, que merece cada segundo de dor, que eu venho sonhando em te dar nos últimos três anos da minha vida.

David piscou, lentamente, demorando em absorver e entender o que lhe era dito; sua cabeça começava a doer como o inferno e seu estômago não parava de se revirar, embora a tontura já estivesse começando a amenizar.

Bill suspirou pesadamente, antes de soltar o rosto do outro num gesto brusco; caminhou apressado, até as folhas que permitira que caíssem de seus dedos, quando David lhe provocara pela primeira vez. Agachou-se ali, demorando-se propositalmente, dando à David tempo de se recuperar dos golpes na cabeça. Queria que ele entendesse com perfeição e agilidade o que falaria agora.

Queria ver o desespero e a dor que aquela simples frase faria David sentir.

Quando um choramingo do promotor soou pela sala, Bill permitiu que um pequeno sorriso aparecesse no canto de seus lábios; olhou para os papéis que tinha em sua frente e, pegando apenas um, voltou a erguer-se, parando apenas quando estava próximo o bastante de David.

-Olhe para mim. – mandou e, poucos segundos depois, o menor obedeceu, erguendo a cabeça. – Quero que você olhe bem para essa foto, Desrosiers. – disse simplesmente, fazendo David erguer as sobrancelhas, curioso.

Bill levantou a mão, segurando a foto no nível dos olhos do promotor, que fixou as íris esverdeadas na imagem que lhe era mostrada; era uma foto de Pierre, escorado numa pequena mureta defronte ao hospital onde trabalhava; o médico estava sorrindo, enquanto ouvia atentamente o que uma senhora, com expressão doce, lhe dizia. Absorvendo as palavras que lhes eram ditas.

Piscou, sem entender aonde o outro homem queria chegar.

-Você o seguiu. E daí? – murmurou; sua voz expressando toda a confusão que sentia; não entendia, realmente, onde o outro queria chegar.

Bill sorriu, permitindo que braço caísse ao lado de seu corpo; a foto escorregou de entre os seus dedos, flutuando no ar, caindo lentamente na direção do chão.

Um sorriso debochado surgiu nos lábios de Bill, seus olhos prendendo os de David fixamente; ansioso por saber o quão desesperado o promotor ficaria; ansioso por sentir todo o "amor" que David tinha por Pierre, falar mais alto dentro do promotor. Que tipos de coisas ele seria capaz de jogar contra Bill? Que palavras, supostamente superioras, David Desrosiers lhe diria dessa vez?

Ou o choque lhe seria grande demais a ponto de impedi-lo de pensar em algo inteligente para dizer?

-Eu vou matá-lo, Desrosiers. – disse simplesmente. – Bouvier pagará por todos os erros que você cometeu.

Seu coração falhou uma batida, antes de voltar a chicotear sua caixa torácica, como se quisesse sair; o ar se perdeu em um lugar qualquer à caminho de seus pulmões; e as lágrimas voltaram a escorrer antes mesmo que tomasse consciência de tal fato.

O desespero cresceu de modo absurdo ao constatar que Bill não se importaria de envolver quantas pessoas achasse necessário.

Envolver Pierre era a última coisa que queria, e, de fato, não esperava que Bill fosse querer lhe atingir de qualquer outra forma da que já estava fazendo; não esperava que ele quisesse, também, acabar consigo emocionalmente. E se esse grande filho de uma mãe tocasse um dedo em Pierre, David não sabia, realmente, o que seria capaz de fazer, apenas para fazê-lo sentir um terço da dor que sentiria se algo acontecesse a Pierre.

Bill sorriu de leve, adorando cada lágrima que escorria pelo rosto pálido; adorando o brilho de desespero e culpa que passava pelas íris esverdeadas. Sorriu ao ver que podia afetar David muito mais do que apenas fisicamente.

-Não. – a negação escapou pelos lábios trêmulos antes mesmo que David pudesse impedi-la. – Por favor. Pierre não tem nada a ver com isso. Por favor!

E Bill riu; gargalhou da maneira com que o promotor tentara lhe fazer não ir atrás de Bouvier. Riu da maneira com que David tornava-se um ser patético, quando se tratava de Pierre Bouvier.

Era incrível, pensou, a maneira como David se permitia ser completamente de Bouvier. Incrível e ridícula.

-Devia ter pensado no seu maridinho antes de bancar o idiota, Desrosiers. – disse simplesmente, e David choramingou qualquer coisa inteligível até para si mesmo.

-Ele não te fez nada, Gibson. – fungou. – Deixe-o de fora dessa sua vingança maníaca.

Bill ergueu uma única sobrancelha, numa expressão descrente.

Como assim, Bouvier não lhe fizera nada? E o modo que aquele médico intrometido facilitara as provas para David? E a forma como Pierre Bouvier providenciara para que Jonathan Bouvier mantivesse Bill preso, enquanto aguardava o dia do julgamento? Talvez, pensou, a participação de Bouvier não fora tão repugnante quanto a de Desrosiers, mas isso não mudava o fato de que Pierre teria que pagar por ter ajudado tanto o promotor, o qual, certamente, não teria conseguido nem um ano para Bill na cadeia, sem a ajuda do maridinho idiota dele.

-Não seja tolo, Desrosiers. – murmurou, aproximando-se. – Você sabe o que ele fez; sabe o quanto ele te ajudou a me ferrar. Sabe tão bem quanto eu que ele merece sofrer por isso. – riu, segurando o pescoço de David, apertando levemente, fazendo o coração do menor disparar, com medo do que o outro poderia fazer. – Eu já te disse que a única coisa que daria à ele seria o seu corpo, mas como você me provou que não merece nenhum tipo de piedade... – deu de ombros, com fingido desinteresse. – Eu vou matá-lo e não há nada que você possa fazer para mudar isso.

David puxou o ar com força, tentando controlar aquele choro involuntário.

Era inútil, percebeu. Bill estava disposto a fazer isso e, talvez, tudo o que quisesse fosse um motivo para matar Pierre; e David, no seu impulso idiota, colocara o marido num perigo que nunca achara, realmente, que o médico poderia correr.

Contudo, sabia que devia tentar concertar a burrada que fizera; não era justo que Pierre pagasse por qualquer um dos seus erros, e, abaixando a cabeça e sentindo-se humilhado, fez a única coisa que conseguiu pensar:

-Bill... – murmurou, minutos mais tarde, quando seu seqüestrador desistiu de esperar uma resposta e começou a se afastar. Bill parou de caminhar, olhando por cima dos próprios ombros para encarar a expressão suplicante do outro.

-O quê?

-Deixe Pierre fora disso, por favor. – David suspirou, como se isso fosse fazer as palavras seguintes serem menos difíceis de serem verbalizadas. – Eu... Estou implorando para que você deixe-o de fora. – engoliu em seco e puxou mais um pouco de ar. – Eu faço o que você quiser; dou um jeito de limpar a sua ficha, de fazer os federais saírem de cima de você. Arrumo para que sua pena seja suspensa definitivamente... Mas não machuque o Pierre. Por favor.

Bill ergueu as sobrancelhas, surpreso.

Essa era, definitivamente, a última coisa que esperava ouvir de Desrosiers, depois de tudo o que o promotor havia dito até o momento. Não esperava que David fosse capaz de implorar pela vida do outro. Não esperava que ele chegasse a tanto, apenas para proteger aquele que dizia amar.

E, pensou, levando em conta que essa era a atitude mais desesperada que David podia tomar no momento, Bill se surpreendia que ele pudesse implorar e tentar fazer acordos para tentar salvar Pierre e não a si mesmo.

Piscou, tentando entender o que levaria uma pessoa na situação de David, usar sua única chance de sair vivo para salvar outra pessoa que sequer estava ali.

Caminhou os poucos passos que o separava de David; a expressão curiosa tomando conta de todo o seu rosto.

-Por que faz isso, David? – perguntou, fixando suas íris nas do outro homem. – Por que se humilha e usa sua única chance de sair vivo daqui, apenas para tentar salvar o Bouvier?

David lhe olhou parecendo confuso por essas perguntas; de fato, o promotor não esperava que Bill fizesse qualquer coisa que não fosse rir.

Soltou o ar, dando de ombros da maneira que pôde.

-Porque eu o amo. – respondeu, baixinho, pensando nas palavras que diria, com medo de que, de alguma forma, pudesse prejudicar mais ainda Pierre. – Porque eu não suportaria saber que ele se machucou por minha causa.

Bill passou uma mão pelos próprios cabelos, olhando fixamente para David, parecendo refletir; pesar as palavras que lhe foram ditas.

-Mas por que fazer algo do tipo, se você sequer tem certeza de que ele está realmente preocupado com você? – perguntou; de fato, apesar de estar curioso, tinha que admitir que gostaria de criar certas duvidas na mente de David. Gostaria de vê-lo inseguro quanto aos sentimentos daquele que queria tanto salvar. – Por que tanta devoção e amor, se você não pode ter certeza se é isso que Pierre sente por você?

David mordiscou o lábio inferior, desviando os olhos pela primeira vez e Bill sorriu; ele era realmente fácil de deixar em duvida quanto aos sentimentos dos outros, percebeu.

-Por que... – ele começou, pensativo. Voltou as íris esverdeadas para os olhos do outro, revelando as orbes marejadas. – Eu confio e acredito nele e... – voltou a mordiscar o lábio. – Ele me mostra isso...

Bill riu de leve, segurando o rosto de David entre seus dedos gelados, mais uma vez, só que de forma quase paternal.

-Ou ele é um bom ator. – disse, simplesmente. – Você realmente acha que é possível existir qualquer coisa entre dois homens, que não atração? Você realmente acha que ele está com você por te amar? Eu acho que ele só está com você por dois motivos, David.

O promotor piscou, absorvendo lentamente o que lhe era dito; sabia que aquilo era, provavelmente, uma tentativa de lhe fazer ficar confuso quanto a Pierre e, de fato, duvidava de cada uma das palavras que estavam lhe sendo ditas.

-Que motivos? – perguntou, suspirando.

-Atração. E você provavelmente é uma boa transa. – riu, dando de ombros. – Embora eu realmente não goste das mesmas coisas que você, devo admitir que você é bem bonito. – as íris correram pelo corpo magro. – Se eu fosse um maldito gay, eu provavelmente também iria querer ter alguém como você para mostrar para o mundo. Para mostrar com quem eu transo todas as noites. – deu de ombros. – Talvez, seja isso o que Pierre pense, Davey.

David balançou a cabeça de leve, negando o que lhe fora dito.

-Ninguém se casa com alguém só por causa do sexo. – replicou, embora mantivesse o tom baixinho, ainda sentido o medo de ferrar mais ainda a situação de Pierre. – Pelo menos, ninguém como Pierre. Ele pode ter quem quiser, quando quiser... Ele não se casaria comigo, apenas porque ele possa achar que eu não passe de uma boa transa. – mordeu a parte de dentro da bochecha, procurando palavras. – E quanto ao amor... – molhou os lábios, pensativo. – Nada o impede de acontecer entre duas pessoas do mesmo sexo, Bill. São todos humanos e, às vezes, é alguém do seu sexo que tem tudo aquilo que você sempre procurou. Talvez seja alguém do mesmo sexo que tem a capacidade de te fazer se sentir a pessoa mais feliz, mesmo quando você tem todos os motivos para não sorrir. Você se sente protegido perto dessa pessoa. – suspirou. - Pierre me faz isso e eu gosto de acreditar que faço o mesmo com ele.

Bill gargalhou.

-Isso é patético, David. – riu mais uma vez. – O amor não existe. Menos ainda entre duas pessoas iguais.

David suspirou pesadamente, dando de ombros; uma lágrima escorrendo solitária por seu rosto.

-Não adianta discutirmos isso, Bill. – quebrou o contato visual. – Acreditamos em coisas diferentes e vivemos em realidades diferentes. Você só vai acreditar no que eu disse, quando e se você viver isso. – deu de ombros. – Eu só... Queria que você deixasse Pierre fora disso.

Bill bufou, afastando-se do promotor.

-E voltamos para a estaca zero. – resmungou. – Já sabe que não adianta, David. Bouvier tem que pagar pela ajuda que te deu. Não adianta nada do que você diga. Não importa quantas declarações estúpidas você faça. Bouvier vai morrer.

[hr]

A mansão Desrosiers estava, finalmente, completamente silenciosa.

Após ter chegado praticamente de supetão na casa do sogro e deixá-lo saber o que estava acontecendo com David, Pierre não perdeu tempo em conseguir colocar os seus parentes, cujas profissões fossem relacionadas com as agências de inteligências, naquele caso: não lhe importava, realmente, se o governo – ou quem quer que fosse que estivesse acima deles – achava que eles tinham casos mais importantes para resolver; o fato era que David estava nas mãos de um psicopata que não hesitaria nem por um segundo em matá-lo e Pierre sentia um desespero absurdo em somente imaginar o homem mais novo sendo mal-tratado, não importando qual fosse a intensidade dos ferimentos.

Saber que, de alguma forma maníaca, David estava sofrendo coisas que, obviamente, não merecia, fazia-lhe sentir raiva de Bill; fazia-lhe sentir que seria capaz de matar Gibson, se isso fizesse com que David voltasse para a casa sem nem um arranhão sequer.

E mesmo depois de tanto tempo com David, Pierre não conseguia não se sentir assustado com a intensidade de seus sentimentos por ele; era algo muito maior do que poderia achar que, algum dia, viria a nutrir por alguém.

Era como se o sorriso de David fosse seu ar; a voz dele, sua razão; os olhos, de uma cor tão surreal e hipnotizante, sua perdição: e, de certo modo, pensou, o eram; sempre que se permitia fixar as íris esplendidas do mais novo, sentia-se perder-se num turbilhão de sensações e pensamentos, que nunca achou que alguém lhe faria ter.

E, fosso como fosse, sentia falta de tudo isso; do sorriso, dos olhos, do som melódico da voz. Das mãos pequenas correndo por seu corpo, deixando um rastro de fogo por onde passavam; fazendo um arrepio gostoso correr por todo o seu corpo, enquanto os lábios se encaixavam com perfeição – quase como se houvessem sido desenhados um para o outro –, enquanto as línguas travavam uma brincadeira deliciosa, em uma pequena batalha para decidir quem teria o controle do beijo.

Sentia falta de acordar todos os dias pela manhã e senti-lo completamente enroscado em seu corpo; os lábios bonitos roçando em seu pescoço, causando uma sensação delirante, enquanto o menor resmungava qualquer coisa durante o sono. Sentia falta de acordar, sentindo a mão pequena, intrometendo-se sob a camiseta que usava para dormir, num gesto inconsciente do outro.

E não importava que não havia nem um dia que David sumira; não importaria, tampouco, se fosse há apenas uma hora. Poderia suportar toda a falta que ele lhe fazia, desde que soubesse que ele estava bem; contudo, saber que estava sendo privado da companhia do marido por causa de um maluco qualquer, lhe feria mais do que qualquer frase raivosa que o próprio David pudesse lhe proferir.

Mas o que mais lhe doía era saber que não poderia fazer nada naquele momento, para ajudá-lo; lhe doía saber que não havia nada, absolutamente, que pudesse fazer além de esperar. De fato, já fizera tudo o que poderia, convocando pessoas especializadas para tratar do assunto; permitira que grampeassem seu celular, para o caso de Bill voltar a lhe ligar, bem como já havia dado um jeito de se livrar da responsabilidade que o hospital poderia lhe cobrar a qualquer momento.

Suspirou, permitindo-se afundar em si mesmo, ajeitando-se sobre o parapeito da janela, voltando a olhar para o imenso jardim daquela casa fabulosa.

O gramado era banhado por uma leve garoa, enquanto a fantástica lua cheia brilhava, magistral, por entre as nuvens negras. Era inútil, resmungou para si mesmo em pensamentos; ficar ali, olhando para todos os detalhes do lugar onde David crescera, apenas esperando. Era completamente inútil.

Queria-o ali, consigo, rindo baixinho, enquanto conversam sobre nada e tudo ao mesmo tempo; mas sabia que era impossível. E sentia-se culpado; culpado pelo inferno que fizera seu casamento virar, apenas por causa do seu ciúme idiota. Culpado por sua última semana com David ter sido a pior de todas: a distância e o receio de todo o descontrole acontecer novamente, sempre entre os pequenos carinhos que trocavam; sempre dominando os atos e falas de ambos. De fato, o beijo que haviam trocado antes de Pierre sair na manhã anterior, fora o primeiro beijo de verdade desde a reconciliação.

E, arriscaria a dizer, fora o melhor de todos; havia qualquer coisa de nostalgia, paixão, devoção e... Saudades; saudades imensas do tempo em que tudo corria da melhor maneira possível; saudade do tempo em que se resolviam com um dar de ombros e sorrisos constrangidos. Saudade do tempo em que era tudo mais fácil, pelo mero fato de que não havia nenhum idiota com dor de cotovelo, tentando ficar com um dos dois. Saudades do tempo em que Pierre não se deixava controlar por seu ciúme.

Bufou, cruzando os braços em frente ao peito, ainda fixando a paisagem que havia para fora da janela; era tudo sua culpa, de qualquer forma. Se não fosse tão idiota, teria notado que havia algo incomodando David; se não fosse tão idiota, teria mandando o tal paciente para os infernos e levaria David até o escritório.

Se não fosse tão idiota, não teria se descontrolado a ponto de bater no marido e fazê-lo ter medo de si, como David deixava claro – mesmo que contra a vontade – que sentia, desde que voltara para casa.

-Pierre? – o chamado veio baixo e, de certa forma, surpreso, fazendo o médico sair dos próprios pensamentos, levando os olhos para a porta do escritório de Andre, apenas para deparar-se com Réal Bouvier escorado no batente, os braços cruzados em frente ao peito e o corpo envolvido pelo sobretudo negro que ele usava para ir trabalhar.

A expressão preocupada deixava claro que havia ido até ali como pai e não como o profissional que era.

-Hey. – murmurou simplesmente, antes de suspirar e voltar o olhar para o jardim, achando-o subitamente interessante demais, antevendo o que o pai lhe falaria.

Réal caminhou até onde o seu caçula estava sentado, parando apenas quando o seu quadril escorou-se contra o parapeito da janela, de modo que pudesse ficar de frente para o filho, o qual tinha as pernas cruzadas em frente ao corpo; os joelhos na altura do peito; os olhos ligeiramente inchados e avermelhados deixavam claro que ele havia chorado; as marcas roxas que começavam a surgir, sutilmente, sob os olhos, deixavam claro que fazia algum tempo que ele não tinha uma boa noite de sono.

-Como você está? – perguntou, mesmo sabendo que Pierre consideraria essa uma pergunta estúpida. Bem, talvez fosse, contudo, tinha esperanças de que a conversa que pretendia ter com o filho o fizesse ver que não podia ficar daquela forma, por mais desesperadora e dolorosa que a situação fosse.

Pierre ergueu os olhos, erguendo as sobrancelhas.

-Como eu poderia estar? – Réal suspirou, desviando brevemente os olhos.

-Eu sei que é uma situação difícil para você, Pierre. – murmurou, voltando a encarar o filho, que lhe olhava parecendo esperar alguma frase de mais efeito. – Eu sei o quanto você ama o David; eu sempre vi o tamanho do amor de vocês, todas as vezes que os vi juntos. – suspirou. – David é, de qualquer modo, encantador. – sorriu de leve, deixando claro que, apesar de nunca ter sido o que esperava para seu caçula, o apoiava completamente. – Mas... No momento, ele precisa que faça algo mais do que ficar se culpando e lamuriando pelos cantos, chorando o fato dele ter sido tirado dos seus braços dessa forma.

Pierre arregalou levemente os olhos doloridos, perante tal frase, erguendo as sobrancelhas; a boca se abriu, mas não emitiu nenhum som, sendo fechada novamente em seguida, enquanto uma das mãos passava pelos cabelos castanhos, bagunçando-os.

-Eu... – ele murmurou, fechando os olhos e puxando o ar com força, como se isso fosse fazer seus pensamentos se organizarem de uma forma coerente o bastante para serem verbalizados e entendidos. – É tão surreal isso tudo, pai. – resmungou, sabendo que não faria o mínimo sentido. – Passamos por tantas coisas para que Andre finalmente nos deixasse em paz, mesmo que não nos apoiasse completamente. – sorriu de leve, permitindo que as lembranças lhe invadissem, enquanto falava. – Principalmente quando David lhe contou que casaríamos. – riu baixinho, lembrando-se da expressão descrente do juiz.

Réal sorriu, lembrando-se disso também; na ocasião, eles estavam num dos raros almoços onde ambas as famílias se juntavam e, aproveitando a oportunidade de poder contar a todos de uma única vez, Pierre e David escolheram aquele almoço para contarem que estavam noivos.

Fora engraçada a reação de Andre, contudo; a expressão descrente, como dizendo que não acreditava, realmente, que o filho teria coragem de dar tal passo juntamente á Pierre.

Réal tinha completa consciência da antipatia que o Juiz Desrosiers sentia por seus filhos, especialmente Pierre, contudo não se importava; chegava, até mesmo, a dar razão á Andre.

Jay sempre fora irresponsável, não se importando com o que seus atos poderiam causar. Já Pierre era, além de tudo, um grande bocudo, pensou. O filho sempre falava o que pensava, tratando as pessoas como elas lhe tratavam e, por vezes, isso fora motivo para que Pierre e Andre tivessem intermináveis discussões quando se encontravam.

-Foi uma reação... Interessante. – disse, simplesmente, voltando ao momento presente. Pierre sorriu de leve, ainda de olhos fechados.

-Foi. – ele disse, o sorriso sumindo. – Mas apesar de tudo, nós fomos felizes durante esses dez anos. – continuou, voltando a abrir os olhos, fixando-os nos do pai. – Muito felizes. Era como se nada pudesse nos atingir; como se nada pudesse acabar com a nossa felicidade. – suspirou pesadamente. – Mas aí teve aquela festa idiota... – ele resmungou e Réal lembrou-se da ligação que recebera do filho há quase um mês, perguntando-lhe o que fazer para conseguir o perdão de David, contando, então, tudo o que acontecera. – E ficamos um bom tempo afastados. – passou uma mão pelos cabelos.

Réal concordou com um aceno de cabeça, perguntando-se aonde o filho queria chegar, afinal.

-Brigas acontecem, filho. É normal, você sabe.

Pierre apenas suspirou, concordando com um aceno de cabeça, voltando a olhar para fora.

-Eu sei. – mordiscou o lábio inferior. – Mas bater nele... Por Deus, nunca me senti tão mal quanto me senti quando me dei conta do que havia feito. – sentiu os olhos arderem, sinal de as lágrimas queriam voltar. Pigarreou, tentando afastar o tom choroso que começava a aparecer em sua voz. – E naquele momento, em que eu não o tinha comigo, eu achava impossível sentir uma dor maior do que aquela que eu sentia. – fungou. – Mas... Quando eu recebi a ligação do Bill, me falando que estava com David e que iria matá-lo... – uma lágrima escorreu, solitária, pelo rosto, lentamente, deixando para trás o rastro de agonia. – Eu senti como se fosse eu que estivesse lá. Eu... Droga! Eu sou completamente dependente de David; e saber que há chances dele simplesmente não voltar... – não conseguiu completar a frase, um soluço escapando pelos lábios. Várias lágrimas escorriam, agora, pelo seu rosto, desinibidas, acompanhando a primeira.

Réal suspirou, sentando-se o mais próximo que conseguiu do filho e, pousando uma mão em seus ombros, puxou-o para si, envolvendo o corpo dele entre seus braços; uma das mãos correndo de cima e para baixo nas costas dele, enquanto a outra acariciava as mechas castanhas.

Não demorou para que os braços de Pierre circulassem o dorso do pai; o rosto escondido em seu ombros, enquanto as lágrimas corriam livremente, num prato desesperado e dolorido.

E ver seu caçula tão vulnerável como naquele momento, fez Réal ter real noção de até aonde todo aquele sentimento ia; ter real noção de que um não existia sem o outro.

Fez Réal sentir-se mais determinado em conseguir trazer o genro de volta; saber que, de uma forma estranha, aqueles dois necessitavam tanto um do outro, fazia-lhe perguntar-se o que faria alguém ter coragem de querer destruir aquilo apenas porque David estava fazendo seu trabalho.

Vingança era algo que nunca entenderia, realmente, pensou. David estava trabalhando e, isso, incluía fazer com que Bill Gibson pegasse, no mínimo, prisão perpetua. Que culpa tinha David, se Gibson havia feito idiotices? Que culpa David tinha se Gibson fora estúpido a ponto de deixar pequenas, porém incontestáveis, evidencias para trás?

-É tudo tão estranho. – Pierre murmurou, conseguindo acalmar-se o suficiente apenas para continuar desabafando. – Eu me sinto mal por não poder ir até onde quer que ele esteja e tomá-lo em meus braços, dizendo que está tudo bem. Eu me sinto mal por não poder tirá-lo de lá o mais rápido possível. Eu me sinto mal por ele ter ido para lá, quando nosso casamento estava um completo inferno. Eu queria poder... – soluçou. – Apenas trocar de lugar com ele.

Réal permitiu que um chiado, baixinho, saísse de seus lábios, tentando acalmar o filho. Tentando fazê-lo ser sensato e ver que esses sentimentos não tinham real sentido.

-Eu sei, filho. Eu sei. – murmurou, antes de pressionar os lábios contra a têmpora dele. – Mas acalme-se. Eu sei que é difícil, mas é o que você pode fazer por David agora. Não adianta você querer estar no lugar dele... Gibson é um filho da mãe e nunca aceitaria algo do tipo. Contudo, você está agindo como se estivesse lá, no lugar de David. – afastou o filho o bastante para poder encará-lo. – Você não está lá; não adianta você querer passar frio, fome, ou o que seja, apenas porque acha que é nessa situação que David está. Ele precisa que você seja forte e faça um pouco mais do que se culpar; ele precisa que você lute por ele, como estava fazendo mais cedo.

Pierre fungou; os lábios trêmulos, enquanto fixava o pai.

-Acha que podemos trazê-lo de volta? – perguntou com a voz falha. Réal sorriu, reconfortante.

-Nós vamos trazê-lo de volta.

Pierre sorriu, obrigando-se a acreditar naquilo com tanta convicção quanto o homem mais velho fazia.

[hr]

A calmaria nunca era um bom sinal.

Estava muito fácil manter Desrosiers ali e, definitivamente, não havia nenhum movimento estranho naquela região, levando em conta que era a parte velha da cidade e era muito difícil se ver alguém por aqueles lados.

Mas mesmo assim... O fato de Bouvier ter muitos contatos influentes e até agora, aparentemente, não os ter colocado para agir estava lhe deixando preocupado. Embora, provavelmente, muitos estariam comemorando tal fato, Bill sabia que era motivo de preocupação.

A falta de ação de uma pessoa apaixonada numa situação como esta... Bem, era realmente preocupante.

Suspirando, levou o cigarro que tinha entre os dedos, até os lábios, dando uma longa tragada, enquanto mantinha as íris azuis focalizando todos os cantos da paisagem podre e pobre que a janela mal limpa lhe dava.

Soltou a fumaça, ignorando os roncos de Jack no sofá pútrido atrás de si, enquanto os ouvidos estavam atentos a qualquer barulho que pudesse soar do quarto ao lado.

Mesmo que soubesse que não havia como David escapar dali sozinho, não queria arriscar nada, absolutamente. Não queria correr o risco de tê-lo tido por um dia completo, mas por algum descuido, deixá-lo fugir, antes que pudesse fazê-lo sentir, pelo menos, um terço da humilhação que o próprio Bill sentira quando sua sentença fora dada.

E de qualquer modo, pensou, se ele próprio morreria se continuasse na prisão... Bem, por que não matar Desrosiers também? Assim aquele promotor saberia como era a sensação de saber que, no final de tudo, morreria. Assim, David saberia como era passar por tanta dor e desespero, rezando para que conseguisse sair de um lugar pútrido, mas tendo consciência de que, no final, tudo o que conseguiria, era ser morto.

Deu uma última tragada em seu cigarro, antes de jogar o que restara dele dentro do cinzeiro que estava ao seu lado; as íris ainda correndo por todos os lados daquele lugar, apenas se certificando de que não havia nada de diferente; tentando enxergar entre as sombras que a luz da lua criava.

Suspirou, passando uma mão pelos cabelos, no mesmo instante em que a voz de David, chamando seu nome com certo receio, chegou a seus ouvidos, rouca e, diria, ainda chorosa.

Inferno! Esse idiota só sabia chorar?

Bufando, afastou-se da janela, lançando um olhar de desprezo ao loiro que babava e roncava no sofá podre, e caminhou na direção do quarto ao lado, entrando neste, apenas para ver David sentado, escorado no cano que havia atrás dele e as pernas cruzadas em frente ao peito; os olhos vermelhos indicavam que ele chorara por um bom tempo, mas já não o fazia mais e as marcas roxas embaixo dos olhos mostravam o quanto ele lutava contra o cansaço.

-O que você quer? – perguntou, analisando-o remexer-se desconfortável, enquanto um dos pés ia para frente e para trás, num movimento pequeno, brincando com um pedaço de corda esquecido ali.

O promotor desviou os olhos; os dentes pontiagudos mordiscando os lábios ressecados.

Descendo mais os olhos, Bill viu que o corte que fizera no tórax do outro já começava a cicatrizar; deu de ombros mentalmente. Cortara apenas o bastante para fazer sangrar, então não lhe preocupava o fato de que já começava a "sarar".

-Eu... – pigarreou. – Você poderia me dar um pouco de água?

Bill ergueu as sobrancelhas; desde que começara a planejar tudo aquilo, nunca passara pela sua cabeça que David pudesse querer beber ou comer qualquer coisa; bem, dane-se. Ele era rico e, provavelmente, comera e bebera tudo o que tivera direito nos último três anos, então, não, pensou, não daria nada a ele.

-Não. – respondeu, apenas, caminhando até onde o promotor estava, chutando para longe dele o pedaço de corda com o qual o homem menor se distraia. David suspirou e olhou para um ponto qualquer daquele quarto.

-Certo. – ele murmurou, simplesmente, não parecendo tão disposto a falas longas, como há algumas horas, o que fez Bill pensar o tamanho do esforço que o promotor fazia para não dormir, uma vez que estava na cara dele o quão cansado ele estava.

Bem, pensou, não podia fazer nada se David não queria dormir. Deu de ombros, olhando ainda mais uma vez ao arredor, vendo se não havia mais nada que o outro pudesse usar para se distrair. Não vendo nada, caminhou de volta para a sala onde estava antes, deparando-se com Jack sentado no sofá, a cara amassada de sono, embora ele acendesse um cigarro.

-O que houve? – ele perguntou, tirando o pequeno cilindro branco de entre os lábios e soltando a fumaça, antes de bocejar.

-Ele só queria um pouco de água. – respondeu simplesmente, continuando o seu caminho até o outro lado do cômodo, dando a si mesmo um pequeno gole da garrafa que havia ali, antes de prender uma arma na cintura da calça que usava e, colocando o celular de Jack nos bolsos, jogou um longo sobretudo em cima dos ombros, antes de olhar para o homem loiro, que apenas lhe observava. – Eu tenho que dar uma saída. Não dê nada ao Desrosiers, não vá até o quarto sem que seja extremamente necessário. Você está completamente proibido de tocar nele.

E, sem esperar resposta, simplesmente saiu. Tinha que ir à caça de Bouvier, embora tivesse quase certeza de que não conseguiria pegá-lo, como fizera com David.

Jack piscou, levando o cigarro até os lábios, dando uma lenta e longa tragada, soltando a fumaça em seguida; as íris ainda presas na porta pela qual Bill saíra.

-É o que vamos ver. – murmurou, simplesmente, um pequeno sorriso surgindo no canto de seus lábios.

Erguendo-se, caminhou até a mesa onde Bill estivera há alguns minutos, vendo o celular de David jogado de qualquer jeito sobre a mesa velha e, ao lado do pequeno aparelho, uma chave, a qual Jack achou que abriria as algemas que Bill colocara em David, para mantê-lo preso.

Sorriu de leve.

Bom, já que ele tinha que escolher entre obedecer ou não ao que Bill acabara de lhe falar, o faria da forma que lhe parecesse mais conveniente. Sabia que Bill iria tentar pegar Pierre Bouvier e isso lhe dava, pelo menos, duas horas completamente sozinho com David.

Rindo baixinho, acendeu outro cigarro, colocando-o entre os lábios, ainda sem desviar os olhos da chave pequena e prateada; obedecendo á Bill, corria o sério risco de ser preso por cumplicidade e, pior, sem nem chegar a ver a sua parte no acordo. Contudo, desobedecendo, teria David e, ainda, poderia ferrar com Bill. Sim... Poderia fazer algum tipo de acordo com David, já que não achava que este fosse tão fiel ao maridinho a ponto de negar á Jack uma boa transa em troca da sua liberdade.

E, bem... Se ele negasse; riu. Dane-se o que David tivesse a dizer sobre isso, com seu falso moralismo, pensou, pondo a chave e o celular do promotor no bolso de sua calça, enquanto segurava o pequeno cilindro branco entre os dedos, soltando a fumaça.

Voltando a pôr o cigarro entre os lábios, caminhou até a janela, na qual Bill passara a maior parte da noite, olhando para a paisagem, apenas para constatar que o foragido já havia sumido por entre as sombras que a luz do amanhecer criava nas paredes pútridas da parte velha de Montreal.

Dando de ombros, tragou com mais força a fumaça do cigarro para seus pulmões, como se isso fosse fazer a sua sorte permanecer a mesma. Bem, tinha pouco tempo e sua sorte não faria com que Bill demorasse muito além do previsto, por isso, apagou o pequeno cilindro no cinzeiro que fora esquecido no parapeito da janela, antes de passar as mãos pelos cabelos.

Estava na hora de ver até onde ia a fidelidade de David, pensou, antes de girar sobre os calcanhares e caminhar para fora da sala, parando apenas quando alcançou a batente da porta do quarto onde sabia que Bill estava mantendo David; a porta estava aberta, por isso, esticou o pescoço o bastante apenas para ver onde David estava.

Ele estava sentado, escorado no cano que havia atrás de si, com os joelhos dobrados na frente do peito; as mãos estavam presas atrás do seu corpo e a cabeça escondida entre os joelhos; o peito subia e descia num ritmo lento, mas ás vezes longos suspiros eram soltos, o que deixou com que Jack soubesse que ele não estava dormindo.

E antes que pudesse evitar, um sorriso debochado apareceu em seus lábios; era estanho, contudo, ver David naquela situação, analisou. Desde adolescente, David sempre achava um jeito de impor suas vontades aos outros e, se fazendo caras e bocas não funcionasse, ele simplesmente apelava para a coisa mais lógica; um acordo. E Jack tinha quase certeza de que David já havia tentando fazer algum acordo com Bill; termos, sabia, não faltariam.

Então, por que ele ainda não dera um jeito de se mandar dali? Se era óbvio até para Jack – que não tinha conhecimento total do que acontecera no julgamento – que termos não faltariam para convencer Bill a soltar David, por que este simplesmente não prometera cumprir a todos em troca de liberdade? Se o houvesse feito, já estaria em casa, nos braços do maridinho.

Bem, dane-se. Não era problema seu.

Puxando o ar com força, colocou as mãos nos bolsos e, ajeitando o corpo, apenas caminhou para dentro do quarto, sem se importar com o tempo que demoraria para que David lhe notasse ali dentro.

Andou até a mesa que havia perto da janela vendada, vendo espalhadas, sobre a superfície empoeirada, as fotos que tirara daquele almoço que David tivera com Pierre, na frente do tribunal; algumas outras fotos, dos dois em suas rotinas, também estavam jogadas ali, mostrando o quanto Bill havia planejado tudo aquilo.

Bem, ele esquecera do detalhe de que Jack, obviamente, queria sua parte do bolo e, fosse a força ou não, a teria a qualquer minuto. Dane-se o que Bill achasse.

-Jack? – a voz de David chegou á seus ouvidos rouca, baixa e ligeiramente confusa. Sorrindo de leve, girou a cabeça, apenas ver as esplendidas íris castanho-verdes lhe fixarem, numa pergunta muda do que estava acontecendo.

O seu sorriso aumentou; era óbvio que as várias noites mal-dormidas que David tivera e a, agora, passada em claro, estava começando a afetá-lo mais do que o promotor poderia querer; e, talvez, pensou, fosse isso que estivesse tornando toda aquela história de seqüestro tão mais fácil: o cansaço e, logicamente, o fato de que estava, também, sem comer, apenas fazia com que as energias que David tinha se esvaíssem mais rápido.

Huh, se o promotor morresse rápido demais, pensou, não seria por méritos de Bill.

Dane-se isso também, resmungou a si mesmo; quanto mais fraco David estivesse, pensou, sorrindo para ele, mais fácil seria ter o que tanto queria.

-Olá, David. – disse simplesmente; sua voz soando tão amigável e simpática quanto no dia em que o vira novamente na casa de Melissa; e, admitia, no mesmo instante em que o vira nos braços de Pierre, rindo e com aquele ar apaixonado, sentira-se terrivelmente atraído por ele, como achara que nunca mais se sentiria desde o colegial.

E, percebeu, fora naquele momento que soubera que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para tê-lo. Na época, não estava tão determinado sobre se juntar á Bill, mas assim que vira o quão belo David ficara, soubera que o foragido era sua única opção se quisesse ter o promotor para si, nem que fosse por uma única vez.

Bem, pensou, escorando o quadril na borda da mesa velha que havia ao seu lado e cruzando os braços em frente ao peito: parecia que sua vez chegara.

-O quê... – David piscou lentamente, tentando entender o que estava acontecendo sem que ninguém tivesse que lhe explicar; sua mente tão confusa quanto estava quando acordara, não lhe permitindo lembrar de que Jack estava na sua frente, quando sentira Bill lhe pegar. – O que, demônios, você está fazendo aqui?

Jack permitiu que um pequeno sorriso divertido surgisse no canto dos seus lábios; as íris azuis correndo pelo corpo levemente ferido do outro, memorizando cada mínimo detalhe: memorizando quão mais fascinantes as íris castanho-verdes ficavam com aquele ar de confusão mesclado, levemente, com irritação. Memorizando o quão delirante David poderia ficar com aquele ar sonolento, confuso e zangado, onde fazia um pequeno bico surgir nos lábios finos e tentadores.

Tentadores até demais, pensou, controlando os ímpetos que sentia de simplesmente ir até o menor e fazer com ele tudo o que queria, sem se preocupar em deixar claro que, num primeiro plano, David tinha uma escolha.

Mas apenas num primeiro plano. Deu de ombros.

-Tecnicamente, eu deveria estar sentadinho na sala ao lado, me virando para passar o tempo, vindo aqui apenas se você aprontasse alguma coisa... – respondeu, com desinteresse. David ergueu as sobrancelhas.

-Mas...? – perguntou, mesmo sabendo que, provavelmente, iria se arrepender de tê-lo feito no momento em que ouvisse a resposta.

-Mas saber que estamos apenas você e eu nesse fim de mundo, com ninguém perto o bastante para te ouvir e saber, também, que eu tenho um dos caras mais... – os olhos correram pelo corpo de David novamente, enquanto a língua passeava pelos lábios, de forma até faminta. – Desejável de Montreal ao meu alcance, para fazer o que eu quiser, me impediu de pensar em qualquer outro passatempo.

Segundos de silêncio, nos quais David ficara encarando Jack, como que esperando que o outro apenas risse do seu modo superior, dizendo que era uma brincadeira estúpida e que estava ali, na verdade, para lhe soltar; mas nada disso aconteceu e o brilho de frieza e determinação nos olhos dele, lhe deixaram saber o quão disposto ele estava a conseguir o que queria.

O que ele queria desde o colegial, David obrigou-se a lembrar. Eram mais de dez anos de desejo insatisfeito; mais de dez anos de recusa atrás de recusa. O que acontecera na casa de Melissa, pensou, fora apenas uma humilhação maior do que a que Jack – aquele que sempre tivera o que quisera de quem quisera – agüentara pelos últimos dez anos. E, agora, ali estava ele, David Desrosiers, preso, indefeso e sozinho com um homem que acabara de deixar claro que poderia fazer qualquer coisa que estivesse em seu alcance para ter, finalmente, o seu maior desejo atendido.

Seu coração disparou, a respiração falhou e os olhos arderam de modo absurdo, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro levemente, numa negação. Jack apenas sorriu mais.

-Não... – o promotor murmurou, remexendo-se de modo que deixou claro que, se estivesse solto, teria recuado; o brilho das íris sendo substituído por um temeroso.

Jack apenas encolheu um único ombro, caminhando até o menor e se ajoelhando em frente a ele, fixando suas íris. Tocou-o no joelho e notou o corpo de David ficar tenso.

-Eu quero fazer um acordo com você, David. – David piscou, confuso, embora ainda tenso.

-Um acordo? – repetiu num murmúrio, amedrontado demais até para piscar com uma freqüência maior.

Jack suspirou, permitindo que todo o seu deboche sumisse, bem como qualquer traço de que aquilo ainda lhe era divertido; deixara de ser no momento em que Bill lhe culpara por todos os pequenos erros que acontecera no decorrer no plano, e decidira que Jack não poderia mais ter sua parte no acordo.

-Sabe por que entrei nessa história? – David negou com um aceno de cabeça. – Por sua causa, apenas. Você sabe que apesar de tudo o que eu fiz quando namorávamos, eu sempre senti uma atração muito grande por você. Mesmo quando você terminou tudo e, meses depois, começou a sair com Bouvier, eu continuava terrivelmente atraído. – os dedos passaram pelos fios negros do cabelo de David. – Eu nunca consegui algo que fosse além de um bom amasso com você. E isso sempre me frustrou.

Uma lágrima escorreu, silenciosa e solitária pelo rosto de David, enquanto este se encolhia sob o toque da mão gelada do loiro a sua frente.

-Você sabe que eu nunca gostei de ser apenas mais um. – o moreno murmurou, encolhendo-se mais e tentando desviar do toque do ex-namorado. – Sabe que eu nunca gostei da idéia de ser apenas uma transa.

Jack sorriu de leve, quase nostálgico, permitindo que seus dedos longos escorregassem dos fios lisos, para o rosto de pele pálida e lisa, tão macia quanto a situação permitia. As pontas dos dedos tocaram, quase delicadas, a região à baixo dos olhos do promotor, secando a lágrima que tentasse escorrer.

-E eu sempre admirei isso em você, por mais irritado que ficasse. – respondeu, memorizando cada traço do rosto bem desenhado á sua frente. – Sempre tive inveja da forma como você conseguia viver de forma intensa seus namoros, mesmo que não houvesse paixão de verdade ou, ainda, sexo. Mas isso não quer dizer nada. – murmurou, as íris ficando vidradas num ponto qualquer. – O fato é que eu nunca aceitei, realmente, que você não aceitasse ir para a cama comigo, mas com Bouvier você fosse; que ele você permitisse lhe tocar, logo no começo, de forma que apenas [i]me[/i] permitiu te tocar depois de meses.

Um pequeno soluço escapou por entre os lábios de David, que apenas olhava para o homem a sua frente, tentando entender porque alguém estragava sua vida de tal forma, apenas por causa de uma atração não atendida.

-Você não precisa fazer nada disso. – murmurou tão baixo, que não sabia se o outro estava lhe ouvindo, realmente. – Você tem uma vida toda pela frente. Pra quê estragá-la de tal modo?

As íris azuis queimaram em raiva.

-Você é minha obsessão, David. Desde que eu te conheci, tudo o que faço é te querer mais e mais. – crispou os lábios. – E tudo o que você sempre faz é me rejeitar. Eu te quero e não vou mais viver com esse desejo. Não vou! – completou num grito, que fez o promotor ofegar, assustado, apertando os olhos, permitindo que grossas lágrimas corressem, livres, por seu rosto, enquanto encolhia-se ainda mais, como se isso fosse possível. – E isso nos leva ao acordo. – terminou, voltando a falar num murmúrio quase amoroso.

O corpo pequeno estremeceu, antes que David puxasse o ar com força e se obrigasse a abrir os olhos. Fungou.

-Qual é?

Jack sorriu; um sorriso frio, macabro... Maníaco.

-Você quer sair daqui, não é? – o menor concordou com um aceno de cabeça. – E eu quero transar com você. Então, se você aceitar transar comigo apenas dessa vez, eu te ajudo a fugir.

David fungou novamente.

-Bem, então pode ir se virar para arrumar algum passatempo. – murmurou, sarcasmo e nojo em cada sílaba, deixando claro que não faria nada do que estava lhe sendo proposto. – Não me interesso por transar com idiotas. – resmungou, por fim; e, pensou, não importava quem fosse que estivesse ali, na sua frente, lhe propondo aquilo: nunca trairia Pierre apenas para poder sair dali. Somente tal idéia já lhe dava náuseas.

Contudo, Jack não parecia satisfeito com sua resposta, pois apenas crispou mais ainda os lábios, enquanto as íris fixavam, completamente frias, David, como que esperando que ele dissesse que havia mudado de idéia.

Minutos de silêncio se seguiram dessa forma, antes do loiro suspirar pesadamente e, dando de ombros, sorrir de maneira debochada.

-Bem, você teve sua chance.

E, lentamente, ele tirou as coisas que estavam no bolso de sua calça, depositando o celular de David e uma pequena chave ali perto; o promotor apenas observou-o, silencioso, temeroso, perguntando-se o que ele faria agora. Tentando entender o que ele pretendia.

E sem que em algum momento realmente esperasse, David viu Jack apenas sorrir maliciosamente, antes de, num gesto incrivelmente rápido, avançar sobre si, as mãos segurando-lhe firmemente pelos braços, enquanto os lábios se apossavam dos seus e a língua invadia a sua boca, ansiosa, apressada em explorar cada recanto desconhecido.
E apenas esse toque fez com que David sentisse o seu estômago se revirar, como se fosse liberar o nada que o preenchia; apertou os olhos, enquanto grunhia, debatendo-se da maneira que pôde, tentando livrar-se do outro.

-Eu esperei tanto por isso. – Jack murmurou, ao separar as bocas; seus lábios correndo para o pescoço de David, que continuava lutando da maneira que conseguia; choramingando, se debatendo, resmungando coisas inteligíveis até para si mesmo.

Gemeu em dor, quando os dentes do outro seguraram a pele sensível do seu pescoço com força; uma das mãos geladas correu de seus braços, passando pelo seu corpo, parando apenas quando alcançou sua cintura, esgueirando-se para dentro da sua blusa, tocando sua pele; um arrepio correu devido à diferença de temperatura, mas isso passou despercebido.
Em sua mente, tudo o que passava era o quanto aquilo era humilhante e o quanto Pierre não merecia que algo do tipo acontecesse; o quanto ele próprio não merecia nada daquilo, por mais que o nojo por Jack e por si mesmo apenas aumentasse a cada segundo mais.

-Não. – pediu, num murmúrio rouco, sentindo a outra mão de Jack soltar seu braço, pousando sobre o cinto da sua calça; seu corpo enrijeceu, seu coração disparou e as lágrimas simplesmente correram. – Por favor... Não. Por favor.

Mas foi ignorado; um soluço escapou por seus lábios, enquanto as mãos e a boca de Jack simplesmente corriam por seu corpo, explorando, provando... Se deliciando com um prazer que apenas o loiro sentia; se deliciando com todo o desespero, medo e nojo que o moreno sentia. Se deliciando com o fato de que, fosse a força ou não, teria, finalmente, tudo aquilo pelo que passara dez anos sonhando.

Era tudo o que queira, afinal. Sempre tivera o que queria, na hora de queria, de quem queria. E não seria diferente daquela vez, pensou, enquanto terminava de correr a blusa branca de David pelos braços dele, até onde lhe foi permitido pelas algemas; permitiu que seus olhos corressem pelo torso magro e pálido, deliciando-se com a visão que estava tendo; teria David, não importava que este lhe odiasse mais ainda depois.

Sorrindo, inclinou-se sobre o corpo dele, mordiscando, beijando, chupando e lambendo todo o pedaço de pele que conseguisse alcançar, pouco se importando para o fato de que o menor não parava de se debater, tentando a todo custo sair daquela situação.

Voltou a tomar-lhe a boca na sua, saboreando o gosto delicioso desta, misturando ao salgado das lágrimas que corriam livremente pelo rosto de David; grunhiu quando sentiu os dentes do moreno pressionaram-se com força absurda contra sua língua, machucando-a.

Mas não permitiu que essa óbvia recusa lhe abalasse; soltou a boca dele, sentindo o gosto do próprio sangue. Deu de ombros mentalmente; dane-se.

Correndo as mãos pela lateral do corpo pequeno, foi descendo, deixando para trás uma trilha de pequenos beijos, parando apenas tempo o bastante para livrar David do resto de suas roupas.

O promotor choramingou, tentando encolher-se, mas Jack não permitiu, deitando o próprio corpo por sobre o outro e, desajeitado, abriu o zíper de sua calça, enquanto sua boca se divertia na curva alva do pescoço de David, que, agora, se debatia ainda mais violentamente; dos lábios finos escapavam pedidos de que parasse; ele chegava até mesmo a implorar, notou, terminando de abaixar sua calça, sentindo-se ereto.

David debateu-se ainda mais quando sentiu a óbvia excitação do outro contra si, permitindo que as lágrimas escorressem ainda mais intensas por seu rosto; o desespero era demais para que pudesse simplesmente entender qualquer coisa do que estava acontecendo.

Queria que aquilo acabasse; queria que Pierre lhe salvasse; queria que acontecesse qualquer coisa para impedir aquilo de, realmente, acontecer. Qualquer coisa, Deus, por favor, pensou, sentindo as mãos de Jack correram até as suas e, subitamente, sentiu os pulsos livres, enquanto os dedos de Jack terminavam de tirar sua blusa.

E sem pensar no que estava fazendo, sem parar para sequer cogitar como fazer, simplesmente ergueu seu braço e, juntando toda a força que possuía, chocou seu punho contra o rosto do loiro que estava em cima de si.

Jack grunhiu, sentindo a dor espalhar-se por todo o seu rosto, enquanto algo escorria de seus lábios; filho da puta! E quando viu o braço de David se impulsionar novamente, simplesmente segurou-o, torcendo-o e, pela careta e urro de dor que David soltara, soube que havia quebrado o braço dele.

E, sem esperar que David se recuperasse da dor e surpresa de ter seu braço quebrado, separou-lhe as pernas com os próprios joelhos e simplesmente penetrou-o, sem se importar em prepará-lo, sem se preocupar em fazê-lo com cuidado.

A dor se espalhou, o ar faltou e toda sua determinação para que isso não acontecesse, simplesmente esvaiu-se. Permitiu que seu corpo voltasse a apoiar-se completamente no chão – não se lembrava de quando havia se deitado pela primeira vez, entretanto –, enquanto as lágrimas corriam grossas e rápidas por seu rosto, deixando claro o quanto tudo aquilo estava lhe ferindo.

Sentia-se sujo; sentia nojo de si mesmo e de Jack. Sentia-se pior que um verme, pensou, soluçando. E, em sua mente, tudo o que passava era Pierre.

Não merecia Pierre, pensou; não merecia nenhuma das sensações maravilhosas que o marido já lhe dera; não merecia nenhum dos sorrisos que ele colocara em seus lábios; não merecia todo o amor que o mais velho dizia sentir por si; não merecia toda a felicidade que apenas Pierre lhe dava. Não merecia.

E Pierre não merecia nenhuma das merdas que fizera nos últimos meses; ele não merecia o modo que o tratara na última semana; ele não merecia seu receio ou o seu medo; ele merecia apenas sua devoção, amor, respeito e admiração, pensou.

Pierre era algo parecido com um anjo, concluiu. Ele podia muito bem simplesmente ter-lhe desprezado logo no inicio do namoro, quando seu pai começara a colocar tanto empecilhos.

E, ainda assim, pensou, Pierre continuara consigo, lhe apoiando, lhe ajudando a superar toda a dor que as brigas com seu pai causavam. E, depois, quando tudo se acertara e David se recusava a dormir com o mais velho, ele continuara ali, esperando, paciente e respeitoso. Pierre devia ter-lhe chutado logo, concluiu.

E, além de tudo o que já fizera ao outro, ainda não fora capaz de manter Jack longe de si; não fora capaz de negar até a morte á transar com Jack, mesmo que contra vontade. Não conseguira, não fora capaz... Soluçou.

Pierre não merecia ter um marido tão ridículo quanto David o era, sentenciou, sentindo a dor triplicar-se quando Jack iniciou seus movimentos de entra e sai. Gemeu de dor, sentindo-se rasgar a cada investida, sabendo que o sangue já devia estar escorrendo. Apertou os olhos, tentando transportar sua mente para um momento qualquer; não queria lembrar-se do quão sujo era; do quão pequeno e insignificante realmente era. Do quão humilhado estava sendo.

Os gemidos de prazer de Jack soavam por todo o cômodo, fazendo apenas com que tudo parecesse ainda pior; fazendo com que tudo parecesse ainda mais nojento.

-Mas o que, diabos, está acontecendo aqui? – uma nova voz soou, raivosa, pelo ambiente e David sentiu Jack ser retirado de cima de si bruscamente; encolheu-se imediatamente, chorando quase compulsivamente; o corpo pequeno tremendo devido aos soluços e o medo.

Obrigou-se a abrir os olhos, apenas para deparar-se com Bill parado ali perto, segurando Jack pelo colarinho da camiseta, olhando-o com ódio.

-Que porra foi que eu te disse, antes de sair? – Bill berrou, gotículas de saliva respingando no rosto de Jack, que pareceu se encolher sob as mãos do outro, mas manteve uma expressão debochada, esforçando-se para se vestir.

Estava morto, David pensou, encolhendo-se mais ainda, as íris correndo ao arredor, tentando pensar no que fazer.

E foi quando viu seu celular, esquecido ali perto e uma idéia simplesmente passou por sua mente. Dane-se que era arriscado, dane-se que poderiam notar: aquela era sua única chance de sair dali com vida e sabia disso.

Puxando o ar com força e obrigando-se a parar, momentaneamente, de chorar. Voltou a olhar para os outros dois homens, que agora gritavam um com o outro; Bill passando as mãos pelos cabelos e jogando os braços para cima, enquanto Jack revidava, lhe apontando.

Nenhum dos dois, no entanto, estava prestando atenção no que estava fazendo. E, ignorando toda a dor no seu braço quebrado, sentou-se da maneira que pôde, esticando-se o bastante para conseguir segurar o pequeno aparelho entre seus dedos trêmulos; olhou-o pelo tempo o bastante para ver que a bateria poderia acabar a qualquer momento, mas mesmo assim obrigou-se a digitar o número há muito decorado.

-Não era para você tocá-lo!

Pierre. Chamando.

-Eu não vou ficar com as mãos sujas junto de você, para não ter minha parte!

Pousou o aparelho no chão, olhando brevemente para a discussão que continuava a acontecer, sem se importar em prestar real atenção ao que era dito; voltou a olhar para o visor: continuava chamando.

Droga, Pierre! Atende!, ordenou em pensamentos.

-Você foi inútil durante todo o seqüestro. Quer ganhar prêmio por inutilidade? – Bill berrava, jogando os braços para cima; uma arma brincando entre seus dedos. – Se quiser, vá falar com o seu papai.

E, quase como se pudessem adivinhar seus pensamentos, os dizeres do celular mudaram.

-Eu não sou obrigado a ouvir o que um detento filho da puta tem a dizer. – Jack resmungou, cruzando os braços.

Tempo de chamada.

E foi nesse instante que o disparou soou.

[hr]

Ele estava quase conseguindo cochilar pela primeira vez, desde que recebera a noticia, quando tudo aconteceu.

Depois de ter tido uma conversa com o seu pai – o qual lhe fizera ver que chorar não ajudaria em nada, a não ser inchar seus olhos –, eles caminharam lado a lado até a sala de jantar da mansão Desrosiers; a qual fora transformada numa quase sala FBI, tendo um notebook de última geração, repousando sobre uma das pontas da longa mesa, conectado á tantas outras máquinas – que ele não se sentia nem minimamente inclinado a descobrir a utilidade, sabendo somente que elas permitiam que ouvissem suas ligações –, esperando os últimos comandos.

Sentados ao arredor da mesa, estavam: Jonhatan Bouvier, fazendo qualquer coisa no seu aparelho celular, distraindo-se; sentado na direção do irmão de Pierre, do outro lado da mesa, estava Andre e vê-lo ali não lhe surpreendeu realmente; era óbvio para o médico que toda aquela situação era muito mais difícil para um pai.

Réal tomou um lugar ao lado do filho mais velho, iniciando uma conversa aos cochichos.

Escorado num canto, com uma xícara fumegante e olhando para o nada, estava o técnico em tecnologia do Departamento de Investigação Federal, apenas esperando o momento em que tivesse que entrar em ação, para rastrear qualquer ligação.

E talvez, pensou, o pior de tudo – além, obviamente, de ter a pessoa mais importante da sua vida em perigo –, era a espera; era algo agonizante, concluiu. Ter que sentar e esperar para conseguir uma informação, que lhe permitiria salvar David, era terrível, pois sabia que, enquanto esperava, o marido poderia estar passando por situações horríveis; só Deus sabia exatamente o que o mais novo estava sofrendo e Pierre seria capaz de dar tudo o que tinha, para saber que ele sairia de lá bem e sem nenhum arranhão; em estado de choque, talvez, mas esperava que nada mais que isso.

Fosse como fosse, ele sentia-se acabado e, por isso, sentou-se num canto da mesa que estivesse vazio e, apoiando os braços sobre a superfície lisa da mesa, escondeu o rosto ali, permitindo-se pensar em como se sentia horrível; em como fora burro em, mesmo depois da reconciliação, não ter percebido que havia qualquer coisa incomodando David; talvez isso explicasse o porquê do marido ter passado a última semana se mexendo com mais freqüência na cama; aliás, nem saberia dizer se David vinha dormindo bem nos últimos sete dias: acordava com o promotor remendo-se, mas encontrava-se sempre em tal estado de estupor, que não conseguia sequer abrir os olhos para ver o que estava acontecendo; de fato, voltava a dormir poucos minutos depois.

Bem, isso era bom para que aprendesse a prestar mais atenção com o que incomodava David.

E pensando nessas coisas, ele quase adormecera. Quase. Seu celular começara a tocar, perdido num canto qualquer daquela mesa repleta de fios; demorou alguns segundos até que ele conseguisse encontrar o aparelho e, quando o fez, olhou imediatamente para o pequeno visor. David.

Tudo o que precisou fazer foi lançar um olhar para Richard – o técnico -, que caminhou apressado até seu computador, praticamente jogando-se sobre o acento de sua cadeira; os dedos começaram a voar sobre o teclado, digitando as últimas ordens, antes de murmurar qualquer coisa para Andre, que pegou um dos fones conectados á toda aparelhagem, e colocou o aparelho – Pierre estava ciente que o sogro estava disposto a ouvir cada ligação que Bill Gibson fizesse em seu celular e, por mais que achasse que isso não faria bem ao sogro, não havia nada que pudesse fazer.

Apertando uma última tecla, Richard lhe olhou.

-Você terá que mantê-lo na linha por um minuto e meio ou dois minutos; como é uma ligação de celular para celular, é um pouco mais difícil de rastrear, além do fato de que o sinal da operadora de ambos os celulares não é muito bom. – ele disse, simplesmente, olhando para a tela do computador. – Pode atender. – permitiu, por fim, antes dele mesmo colocar um fone e, no mesmo instante em que Pierre apertava o botão para aceitar a ligação, o outro apertava um botão qualquer do computador, o que fez a máquina começar uma contagem regressiva, enquanto procurava.

Levou o celular ao ouvido, pronto para dizer a saudação, quando foi interrompido pelo som de um disparo; o som estava próximo demais para que pudesse cogitar a possibilidade de ter sido qualquer outra pessoa a ter disparado.

E quando o som terminou de soar e tudo o que ouviu do outro lado foi o silêncio, seu coração disparou, chicoteando a sua caixa torácica; o ar tornou-se rarefeito, perdendo-se no caminho de seus pulmões; seus olhos arderam de forma sublime, voltando a encher-se de lágrimas.

-David... – murmurou; e sua razão simplesmente foi dar uma voltinha pelos jardins da mansão, pois sem sequer pensar no que, demônios, estava fazendo, simplesmente permitiu que o celular escorregasse de seus dedos, caindo sobre o chão com um baque; suas pernas pareciam ter vontade própria, caminhando o mais rápido que podiam até onde Richard estava e, pegando a todos de completa surpresa, Pierre simplesmente pegou o técnico pelo colarinho de sua blusa, erguendo-o, fazendo o fone escorregar de seus ouvidos. Os olhos incrivelmente cinzentos do outro, se arregalaram.

-Rastreie essa merda de ligação, agora. – murmurou e só então percebeu que grossas lágrimas escorriam por seu rosto. – ACHE-O NESSE INSTANTE, DROGA! – berrou, balançando o outro homem, como se isso fosse fazer o computador andar mais rápido.

O desespero que sentia alcançava uma dimensão inexplicável; era algo que o dominava completamente; dominava seus sentimentos; dominava sua razão. Fazia com que a dor que sentia, aumentasse de uma forma que apenas a idéia de ter acabado de perder David de forma definitiva, fizesse o desejo insano de ir junto dominar todos os seus pensamentos. Mas a dor, notou, fazia-lhe querer ver para crer; fazia com que precisasse ver o corpo de David, sem vida, para então, de alguma forma ilógica, tentar aceitar tal fato.

Sentiu a mão de alguém segurar seus pulsos, fazendo-lhe soltar Richard e, sem nem mesmo notar quem era, apenas se permitiu externar toda a dor que apenas aquele som lhe causara; agarrou-se ao corpo da outra pessoa, chorando e permitindo que soluços escapassem por seus lábios, sem se importar para o fato de que poderia estar parecendo um fraco.

Seu David... Era o seu David, por Deus! Era a pessoa que mais amava no mundo que poderia ter acabado de levar um tiro; era a pessoa que, de uma maneira muito estranha, lhe tinha da forma mais completa, que poderia ter acabado de morrer. E, céus, isso doía como o diabo.

Doía saber que nunca mais veria o sorriso sincero; doía saber que nunca mais poderia ouvir o som delirante de sua risada; doía saber que, talvez, nunca mais ouviria o tom preguiçoso e ligeiramente arrastado da voz apaixonante de David.

Doía saber que nunca mais sequer veria o brilho maravilhoso que as íris castanho-verdes possuíam; droga! Era injusto que David tivesse que pagar com a vida, por apenas ter feito seu trabalho. Injusto e ridículo.

E não importasse o que a pessoa a quem estava agarrado dissesse, nada faria com que o nó em seu peito diminuísse. Nada faria com que a sua dor sumisse... Apenas se David estivesse vivo faria com que sua vida tivesse algum sentido.

Puxando o ar com força, afastou-se de quem quer que fosse, pronto para mandá-lo parar de dizer que não fora em David que haviam atirado, mas quando viu que a pessoa era Andre, entendeu que o sogro apenas precisava convencer a ele mesmo de que David estava bem.

Abriu a boca para falar algo que ele mesmo não sabia o que era, mas foi interrompido antes que pudesse emitir qualquer som.

-Encontrei! – Richard disse, digitando alguma coisa no seu computador. – A ligação veio da parte velha do porto de Montreal.

Pierre secou o rosto com as costas da mão, obrigou-se a se acalmar, pensando que não valia a pena sofrer por antecedência.

Ia ter David de volta. Tinha que tê-lo.

[hr]

E foi nesse instante que o disparo soou.

O silêncio que se seguiu foi quase sepulcral; olhos arregalados em surpresa; corações disparados; um ofego de dor; pingos de sangue começando a preencher o assoalho de madeira velha e podre. Um filete de sangue escorrendo pelo canto dos lábios, entreabertos em surpresa.

O cheiro da pólvora preenchia o ar, enquanto a mão que segurava a arma começava tremular, mostrando que não era sua intenção, realmente, dispará-la naquele momento, embora o rosto de seu portador não mostrasse nenhum arrependimento; nos olhos azuis opacos, apenas certa satisfação e... Prazer.

O sangue escorria com mais força agora, e tudo o que o ferido pôde fazer foi levar uma das mãos trêmulas até o local que queimava e ardia, como se um ferro em brasa houvesse sido posto contra a sua pele, pressionando os dedos no ferimento; gemendo de dor, antes de erguer o braço até a altura dos olhos, vendo os dedos manchados pelo liquido vermelho-escuro.

E quando sentiu a pontada de uma dor fulminante na região em que fora atingido, suas pernas bambearam, cedendo sob o seu peso; tossiu, permitindo-se expelir mais sangue, manchando mais ainda o chão; as íris prenderam-se em Bill, fitando-o com ódio, enquanto as mãos corriam, mais uma vez, para o ferimento, apertando-o, tentando fazê-lo parar de doer, mas o contato da pele, salgada e suja, contra a lesão apenas fez a dor aumentar.

Abriu a boca para falar qualquer coisa, mas tudo o que conseguiu emitir foi um gemido e, antes que pudesse impedir, sua consciência lhe abandonou, fazendo seu corpo tombar para um dos lados, chocando-se contra o chão com um baque surdo.

Bill ainda ficou alguns minutos, perdido em pensamentos, apenas fixando o corpo que julgou sem vida; um pequeno sorriso surgindo no cantos dos lábios; um sorriso debochado, desrespeitoso para com aquele momento; por mais repugnante que o ferido fosse, ainda era humano e, talvez, ainda merecesse algum respeito no que deveria estar sendo seu último momento.

-Palerma. – ele resmungou, voltando a trava a arma, que ainda segurava, e colocou-a presa na cintura de sua calça. – Talvez, assim você aprenda a acatar ordens.

Rindo baixinho, finalmente voltou as íris opacas para o outro homem, paralisando no lugar onde fora deixado; os olhos arregalados em receio e surpresa, enquanto as íris fixavam o corpo caído, tentando processar o que acabara de acontecer; o coração ainda aos pulos e o ar perdido em um ponto qualquer do caminho até seus pulmões.

Trêmulo, ainda demorou alguns segundos até que percebesse que era observado por Bill; hesitante, ergueu as íris para o fugitivo, vendo-o lhe analisar, quase como se pudesse ler seus pensamentos; quase como se pudesse ver que, em sua mente, corriam pensamentos de que quem poderia ter acabado de tomar um tiro, era ele próprio.

E foi nesse momento que tomou consciência do real perigo que correra, ao pegar seu celular e discar o número decorado; num primeiro momento, admitia, fora burro a ponto de achar que Bill lhe puniria como fizera antes, lhe batendo ou lhe machucando com a navalha, mas agora havia percebido: Bill, naquele momento de óbvia fúria por ter sido desobedecido, poderia ter descarregado a arma em si, se lhe visse tentando pedir ajuda, de alguma forma.

-Se vista. – a ordem, dita num tom de quem não aceita ser contrariado, soou pelo quarto com a mesma intensidade de um trovão; seu corpo tremulou com mais violência nesse momento; suas íris voltando a focar seu raptor, notando-lhe as orbes opacas a lhe observar; todo e qualquer ar de deboche havia sumido, dando lugar ao brilho de ódio, raiva e repugnância.

Engoliu em seco, e isso lhe fez ter a sensação de que mil pedrinhas pontiagudas desceram por sua garganta, arranhando-a, machucando-a. Seus olhos arderam, perante a dimensão do mais puro sentimento de medo que lhe tomou; sua visão embaçou, mas ele recusou-se a permitir que uma única lágrima escorresse por seu rosto. Recusou-se a continuar mostrando-se fraco, embora soubesse que o era.

Sustentando o olhar do outro homem, ignorou a dor quase delirante em seu braço, erguendo-se, levando consigo cada peça de sua roupa; vestiu-a o mais rápido que seu corpo trêmulo e ferido, lhe permitiu; sentia, a cada movimento, os olhos do outro em si, lhe observando, queimando sua pele, como acontecera há três anos. Vigiando cada um de seus movimentos, agindo como se a qualquer momento fosse sair correndo, desesperado por liberdade e segurança.

E por mais sedento por liberdade e segurança que estivesse, tinha total consciência de que não as conseguiria, correndo, fugindo. Tinha consciência de que tinha que se atar ao único sentimento bom que achava dentro de si naquele momento, e ter esperança de que não demoraria muito mais para a pessoa que lhe era mais importante, apenas aparecesse ali e lhe salvasse. Que a pessoa que amava mais que qualquer coisa, aparecesse ali e lhe segurasse entre seus braços, lhe passando todo o sentimento de proteção, que apenas ele poderia passar.

Tinha esperanças de que, agora, fosse apenas uma questão de tempo até que Pierre aparecesse; tinha esperanças que a ligação tivesse ajudado em algo, além de ter-lhe colocado em um perigo de vida ainda maior ao que já estava exposto.

-Ande logo com isso. – a voz rouca chegou a seus ouvidos, furiosa, fazendo um arrepio correr seu corpo, que se tencionou em medo. Suspirou pesadamente, parando de fingir que estava ainda fechando sua blusa; parando de fingir que não estava sentindo-se péssimo; parando de fingir que não queria apenas ir embora.

Ergueu o rosto, fixando as próprias íris no outro, observando-o, analisando-o, tentando descobrir o que aconteceria agora. Tentando adivinhar o que lhe fora reservado para aquele momento, onde era óbvio que Bill não se controlaria; onde era óbvio que ele não mais iria se divertir lhe machucando.

Talvez, analisou, a diversão daquele momento fosse matar; ele já começara, atirando em Jack; e, embora a atitude inicial do fugitivo deixasse claro que não queria fazê-lo no momento em que o fez, Bill não esboçara nenhuma reação de estar, mesmo que minimamente, arrependido. David até arriscaria a dizer que ele sentira prazer ao realizar tal ato; ou, talvez, ele sentira-se poderoso ao ter a opção de decidir quem, dentro daquele lugar podre, iria viver ou morrer.

Ele era doente, e isso já não era apenas mais uma especulação. E ele era um doente perigoso; do tipo que não hesitaria, nem se arrependeria, de fazer o que achasse necessário para ter suas vontades atendidas; ele não hesitaria em se vingar, ao ser contrariado.

E isso fazia com que o sentimento de medo crescesse a cada segundo mais e tornasse-se mais difícil tentar não se mostrar fraco; suas pernas queriam sair correndo dali, para qualquer lugar longe o bastante de todo aquele sentimento de ódio e desprezo. Para qualquer longe daquele sentimento de repugnância e... Sadismo.

Suas pernas queriam simplesmente dar as costas para aquele lugar asqueroso; queriam correr para qualquer lugar em que pudesse sentir o mínimo sentimento de proteção; queria correr para qualquer lugar em que pudesse se livrar daquela sensação de estar... De ser sujo, corrigiu-se.

Queria correr para um lugar onde pudesse se livrar daquela sensação de que não merecia Pierre – embora, nesse momento, já se sentisse completamente convencido disso –; queria correr para um lugar onde nada do que passara ali, fosse real.

Sentia que precisava acreditar que isso tudo não passava de uma brincadeira de sua mente; precisava acreditar que tudo isso não passava de um pesadelo; precisava acreditar que logo acordaria, em sua cama, e que Pierre estaria lá, para lhe acolher entre os braços fortes, enquanto lhe acalmava. E, então, quando conseguisse ver que tudo não passara de uma ilusão, iria rir.

Mas sabia que tudo era a mais pura e cruel realidade; sabia que fora real toda a humilhação e ferimento ao qual fora exposto. Sabia ser real a dor que sentia, não importando se esta era física ou emocional.

Sabia que, agora, tudo o que iria acontecer não seria mais tão – arriscaria dizer – inocente, quanto antes: agora, era onde viriam as dores mais profundas e que, muito provavelmente, lhe marcariam por muito mais tempo do que qualquer outra coisa que Bill houvesse lhe imposto até aquele momento.

Mas, ao mesmo tempo, sabia que precisava ser forte o bastante para Pierre; precisava ser forte por si mesmo. Precisava ser forte, se quisesse sair dali com vida: tinha que ser forte se quisesse ter alguma chance de, alguma maneira, reconquistar qualquer coisa que Pierre sentisse por si, uma vez que não acreditava – nem minimamente – que depois de tudo o que Jack lhe impusera, o mais velho pudesse se interessar por si, não importando como. Não importando, se tal interesse pudesse ser bom, ou ruim. Seria... Indiferente, pensou, para Pierre se David estaria bem ou não. E, concluiu, a indiferença era pior que o ódio que o médico poderia ter por si.

Mas estava disposto a ser forte, para conseguir, ao menos, o perdão do marido. Contudo, tinha plena consciência que, para isso, não poderia mais provocar Bill; mesmo porque, este já estava suficientemente irritado com tudo o que Jack fizera.

Estava tão perdido em seus pensamentos que, quando percebeu que Bill se aproximara de si, já era tarde demais para conseguir se defender de algum modo: fosse o que fosse que o outro tivesse na mão – tendo pego enquanto David estava imerso em seus pensamentos – fez o objeto chocar-se contra a lateral do corpo magro, sem qualquer piedade, colocando no gesto toda a sua força.

A pele cortou-se e o sangue começou a correr, forte e rápido; e foi como se houvessem simplesmente arrancado seus pulmões, tamanha foi a falta de ar que sentiu quando a dor dilacerante invadiu seu corpo e suas pernas cederam sob o seu peso, seus joelhos chocando-se num baque surdo contra o piso de madeira; num reflexo, ergueu a mão, apertando-a contra suas costelas, sentido-as doer como se houvessem sido quebradas: e, de qualquer modo, ele não duvidava de que houvessem.

Sua visão embaçava, devido às lagrimas de dor, que escorriam por seu rosto sem sua permissão; e, sem dar tempo para qualquer outra reação da parte de David, Bill pegou as grossas correntes, que estavam jogadas de qualquer modo no chão; um sorriso maníaco brincando em seus lábios.; aquilo estava lhe divertindo horrores e não havia como negar.

E sem qualquer piedade, e sem se importar com o quanto poderia doer ou machucar, simplesmente ergueu o braço e, colocando toda a sua força naquele ato, fez com que a pesada corrente chocasse-se contra as costas de David que, pego de surpresa, permitiu que um grito de dor escapasse por seus lábios, sentindo sua pele arder e rasgar-se, como se estivessem tentando tirá-la de seu corpo; as lágrimas correndo com mais vontade agora; a dor aumentando mais e mais, conforme Bill voltava a repetir o ato inúmeras vezes, dando-lhe a mesma sensação de antes, fazendo suas costas latejarem, enquanto sentia algo quente começar a escorrer por sua pele, sabendo que era sangue.

Sua mente estava confusa, perante tanto sofrimento; perante tantas partes de seu corpo, doendo. Não tinha, realmente, forças para conseguir se livrar daquilo; não tinha, nem sequer, mais alguma vontade de tentar se desvencilhar, torcendo para que o seu raptor se cansasse de correr atrás de si, para lhe ferir. Apenas permitia que as lágrimas e os gritos e gemidos escapassem, sentindo seu corpo ser ferido cada segundo mais, e com mais ferocidade que antes; com mais raiva que antes; com mais ódio com antes; com mais força que antes; com mais desejo por sangue, que antes.

Com mais vontade de lhe ver morto que antes.

E quando estava preste a começar a implorar para que Bill acabasse logo com aquilo; que lhe matasse logo e sentisse-se feliz com tal ato, o foragido simplesmente parou de lhe agredir. Simplesmente jogou a corrente, encharcada com seu sangue, longe, lhe olhando de modo superior, parecendo analisar sua situação; parecendo deliciar-se com o sangue que escorria; parecendo se excitar com cada corte causado, tendo a certeza de que a maioria deles iam se transformar em cicatrizes... Se é que David teria a sorte de sair vivo dali, completou em pensamentos.

Rindo para si mesmo, simplesmente empurrou o outro, fazendo-o cair de bruços sobre o chão sujo, choramingando e contorcendo-se de dor: e vê-lo tão mais submisso do que em qualquer outro momento desde que o pegara, fez com que a satisfação que Bill estava sentindo triplicasse de modo absurdo; quase como se presenciar tal cena o fizesse ganhar de volta todo o tempo que perdera preso; como se ver o homem menor praticamente implorando para ser morto recompensasse toda solidão, frustração e ódio que Bill sentira ao ser preso.

-Vire-se. – murmurou, sua voz soando fria; mas o sorriso em seu rosto deixava claro o quanto estava se satisfazendo e se divertindo com tudo aquilo; o brilho em seus olhos deixava claro que não se importaria em repetir tudo. Mas já estava cansando de dar a David novas oportunidades. Queria vê-lo morto logo.

Demorou alguns segundos, mas David obedeceu da melhor maneira que seu corpo debilitado lhe permitiu, choramingando com mais vontade quando os ferimentos em suas costas tocaram a sujeira na madeira sob si.

E Bill sorriu mais; sorriu como há muito não fazia: sentia-se estupidamente feliz; sentia-se ridiculamente satisfeito com o pouco que fizera com David, mas o suficiente para saber que o promotor entendera o recado.

Os olhos esverdeados, completamente chorosos e desesperados, lhe fixavam, esperando para saber o que viria agora; e Bill riu ao notar que Desrosiers esperava mais algum ferimento como os que lhe fora causado até aquele momento. Riu. Doce ilusão.

Chega de brincar; chega de correr riscos de vê-lo sair dali. Bem, que ficasse sangrando até que Bill fumasse um cigarro e, então, atirasse nele.

Caminhou até a mesa no canto, onde encontrou um maço e tirou um dos pequenos cilindros brancos de lá, colocando-o entre os lábios; as mãos correram para os bolsos de sua calça, não demorando em encontrar o isqueiro, de modo que acendeu o cigarro, dando uma longa tragada e soltando a fumaça logo em seguida, enquanto as íris opacas corriam ao arredor.

Foi quando viu, jogando de qualquer modo no chão, o celular de David.

Erguendo as sobrancelhas, de forma até mesmo cômica, segurou o cigarro entre os dedos; os olhos presos fixamente no pequeno aparelho, tentando controlar toda a raiva e ódio que começava a aflorar naquele instante, de uma maneira até insana.

Puxando o ar com força, disse a si mesmo para não descontrolar novamente, já que não tinha tempo de dar o devido castigo á David; e, depois, nem sabia se fora culpa dele – não que isso realmente lhe importasse, pensou.

Mesmo morto, Jack podia ser bom saco de pancadas, meditou, desviando brevemente os olhos para o corpo do loiro, jogado de qualquer forma sobre o chão; o sangue correndo, mesmo que com menos intensidade que antes.

Dane-se.

-Como, diabos, essa merda de celular chegou aqui, Desrosiers? – sua voz soou completamente sem emoção; David choramingou, talvez pela dor em suas costas; não importava, de qualquer modo.

-Jack trouxe. – ele murmurou, a voz saindo baixa, em sinal de que a dor já o tomava quase completamente.

-Hum... – murmurou, simplesmente, ainda fixando o aparelho, levando o cilindro branco aos lábios, dando uma tragada lenta. Tinha alguma coisa errada, sabia. Pudera sentir o incomodo na voz de Desrosiers, ao ser questionado sobre uma coisa tão simples. O incomodo fora quase palpável.

Apagando o cigarro de qualquer maneira sobre a mesa velha à sua frente, soltou a fumaça, sem nunca deixar de olhar para o pequeno telefone; olhou brevemente para David, vendo-o ainda deitado no chão, choramingando baixinho; as mãos apertando o corte na lateral de seu corpo, como se isso fosse fazer parar de doer.

Caminhou lentamente até o celular; seu peito queimava em puro ódio e, a cada passo mais próximo que ficava do aparelho, mais sentia os olhos de Desrosiers em suas costas, monitorando seus movimentos, como se fosse ele a vitima.

Isso era interessante, pensou: David não estaria tão interessando no que Bill iria fazer, a não ser que tivesse feito algo que não devia: e, para o bem dele, que não fosse nada do que o foragido estava pensando.

Agachando-se, segurou o aparelho entre os dedos, levando a mão até a altura dos olhos: chamada terminada.

Ergueu as sobrancelhas: bem, ainda poderia ter sido Jack, murmurou para si mesmo em pensamentos, antes de dar os comandos para ver o registro de ligações feitas.

Demorou um pouco, mas finalmente encontrou a mais recente: Pierre.

Filho. Da. Puta!

Um urro de raiva saiu por seus lábios, antes que pudesse impedi-lo de escapar de sua garganta; soltou o celular bruscamente, virando-se e erguendo-se numa velocidade incrível, alcançando David em duas passadas largas.

Puxou-o pelo colarinho, praticamente erguendo-o no ar, antes de prensá-lo contra a parede mais próxima, com violência, fazendo um sonoro gemido de dor escapar pelos lábios finos e ressecados.

-O que acha que Bouvier pode fazer por você, Desrosiers? – perguntou; seu rosto perto o bastante para conseguir sentir o hálito quente do outro se chocar contra sua pele, cada vez que ele choramingava. Sentiu as mãos pequenas espalmarem seu peito, numa tentativa completamente frustrada de lhe afastar. – Você não dá valor para sua vida, idiota? – completou num berro, fazendo o promotor apertar os olhos com força; as lágrimas voltando a escorrer com violência pelo rosto pálido; o corpo magro começando a tremular sob suas mãos.

O lábio inferior foi mordido com força, quase o rasgando, mas nada saiu pela boca do seqüestrado.

-Responda, Desrosiers! – berrou novamente, puxando-o para si, antes de empurrá-lo, fazendo com as costas feridas chocarem-se violentamente contra a parede; o gemido de dor saiu mais alto e o corpo pequeno se contorceu como pôde, tentando fazer a sensação incomoda ir embora. – O que você espera que Bouvier faça por você? – perguntou novamente; e, num gesto que David julgou incrivelmente rápido, uma das mãos do foragido soltou seu colarinho pelo tempo o suficiente para ir até a cintura da calça surrada, e tirar de lá a arma, destravando-a e pressionando-a contra a parte de baixo do seu queixo.

E aquilo fez o desespero superar qualquer dor que sentisse; choramingou, tentando livrar-se do aperto que o outro fazia em seu corpo; tentando desviar a cabeça da mira da arma, mas isso se provou inútil.

-Eu espero, sinceramente, que ele te mate. – murmurou, baixinho, deixando as lágrimas correrem ainda mais fortes; deixando os lábios tremerem violentamente, enquanto as íris esverdeadas fixavam as azuis opacas a sua frente, num pedido mudo para que não fizesse nada.

Um sorriso pequeno brincou no canto dos lábios de Bill; um sorriso divertido e debochado.

-Bouvier não é capaz nem de te proteger, David. Como ele irá lhe salvar? – perguntou, divertindo-se em ver a dor que essas palavras causaram no outro, que permaneceu em silêncio, apenas sustentando seu olhar.

Bill riu, antes de "jogar" David de volta no chão; mais um gemido de dor; mais lágrimas; mais choramingos. E isso estava lhe irritando de uma maneira, que ele jamais julgara ser capaz de sentir-se; onde estava aquele promotor seguro de si? Onde estava aquele promotor que nada abalava? Onde estava aquele maldito promotor que nunca perdia a classe? Que nunca se rebaixava? Onde estava o maldito, por Deus?

Apontou a arma para o peito dele, engatilhando-a; um sorriso surgiu em seus lábios, quando o horror tomou a expressão do seqüestrado; quando o óbvio medo e desespero começavam a dominar-lhe as expressões.

Estava preste a rir, quando tudo aconteceu.

Foi como um filme rodando em câmera lenta: num momento estava preste a disparar a arma que estava entre seus dedos e, no momento seguinte, a porta de madeira velha fora aberta com um estrondo, chocando-se violentamente contra a parede, ao mesmo tempo em que vários agentes invadiam o quarto, posicionando-se em um quase circulo ao arredor de Bill. Suas armas estavam todas miradas no foragido.

Entrando, naquele momento, com a arma em punho, enquanto os olhos corriam ao arredor, memorizando cada um dos detalhes em questão de segundos, vieram Jonhathan e Réal Bouvier.

O mais novo, tomou seu lugar entre os outros agentes, apontando a própria arma, enquanto Réal aproximava-se de Bill o quanto achava que era seguro para David, ele se aproximar.

-Bill Gibson, o senhor está preso por, obviamente, ter escapado da prisão e por seqüestro e obvia tortura. – a expressão fria deixava claro que o agente apenas ditava os direitos por praxe e não porque gostaria, realmente, que o seqüestrador soubesse o que poderia lhe acontecer: - Como pode ver, o senhor está cercando tanto pela CIA, quanto pelo FBI. E, acredite, se tem amor á sua vida, é melhor soltar essa arma agora.

Aquilo não podia estar acontecendo. Era simplesmente inaceitável; não podia aceitar que chegara tão perto de realizar aquilo que viera sonhando nos últimos três, para que no momento de glória... Para que no momento em que veria a vida se esvaindo das íris esverdeadas do outro, simplesmente fosse impedido por meia dúzia de playboys armados.

Não, não, não! Não podia aceitar isso; não podia acreditar nisso. Não havia como... David! Ele sabia que Bouvier faria de tudo para lhe encontrar e por isso ligara para ele. Filho da puta.

Filho da puta!

Era tudo culpa de David Desrosiers: fora por culpa dele que fora preso; fora por culpa dele que perdera o que lhe era mais precioso: fora por causa do Juiz Desrosiers, que seu pai fora preso e morto na prisão. Era tudo culpa dos Desrosiers! Tudo! Eles tinham que pagar por tudo o que acontecera em sua vida; e não era justo que bem no instante em que o faria pagar com a vida, simplesmente tentassem lhe impedir.

Não era!

Sentiu todo o seu controle se esvair; sentiu qualquer sensatez simplesmente ir dar um mergulho: e antes que pudesse sequer imaginar o que lhe poderia acontecer, voltou a erguer o braço, mirando tolamente para o promotor, ainda caído á sua frente, que apenas choramingava baixinho; os olhos apertados e as lágrimas correndo. A expressão que queria no rosto de David quando o matasse. Perfeito.

Dane-se o que lhe aconteceria!

Mas antes que pudesse pressionar – mesmo que minimamente – o gatilho, os agentes dispararam, fazendo-o sentir sua carne ser queimada e rasgada pelas balas; o sangue começou a escorrer, enquanto os olhos se arregalavam e os lábios se abriam, num grito mudo; as mãos tremularam violentamente, o que fez a arma escorregar de seus dedos, caindo no chão com um baque surdo.

Mãos lhe puxaram pelo braço para longe do corpo do promotor, como se ainda temessem que tomasse alguma atitude desesperada. Era o fim, sabia. Sentia sua vida simplesmente esvair.

Chegara tão perto.

David sentiu o alivio tomar o seu corpo por completo, quando viu tirarem Bill de perto de si; era uma sensação tão forte, que ele quase conseguira esquecer as dores em seu corpo. Finalmente aquele pesadelo havia terminado. Finalmente.

Permitiu que as lágrimas corressem mais fortes por seu rosto, enquanto seu corpo tremia violentamente; acabara.

-David! – a voz dele soou por todo o cômodo, chegando a seus ouvidos como a única coisa que poderia lhe acalmar. Sentiu o toque terno em seu braço e, esquecendo-se de toda a dor que sentia nas costas, esquecendo até mesmo que seu braço estava quebrado, ergueu-se numa velocidade incrível, agarrando-se ao pescoço dele, chorando de modo compulsivo.

Seu corpo tremia sob seus soluços e ele quase não conseguia respirar, tamanha era a necessidade que tinha de chorar; queria falar, mas não conseguia emitir nenhum som; conseguia apenas fazer seus lábios tremerem tão violentamente quanto seu corpo.

-Me perdoa. – conseguiu murmurar entre um soluço e outro, apertando o corpo forte do outro contra o seu; sentiu os braços de Pierre lhe enlaçar com cuidado, para não lhe ferir mais ainda. Merda! Por que ele tinha que ser assim? – Me perdoa. – repetiu tolamente, sentindo os lábios do outro pressionarem-se, carinhosos, contra sua bochecha.

-Ta tudo bem, amor. – Pierre respondeu, sentindo seu peito se apertar a cada novo ferimento que localizava no corpo magro entre seus braços; como Bill tivera coragem de fazer aquilo, por Deus? Queria tanto ter tido a chance de tê-lo matado. – Fique calmo, Davey.

Mas tudo o que conseguiu foi fazer o outro chorar com mais vontade; o rosto delicado e machucado indo esconder-se no seu pescoço, enquanto as mãos pequenas apertavam com vontade um punhado de pano da sua camiseta; sentia o corpo de David tremer; sentia as lágrimas intensas molharem sua pele e tudo o que conseguia fazer, era sentir vontade de chorar junto ao marido.

Nunca o vira tão descontrolado; nunca o vira tão desesperado. Era um sentimento tão forte, que chegava a ser palpável. Chegava até a lhe dominar.

E vê-lo em tal estado, fazia o nó em sua garganta apertar-se de tal modo, que chegava até a ser difícil respirar. Correu os dedos entre as mechas negras do cabelo dele, sentindo-o lhe apertar mais ainda entre os braços magros.

-Pie. – ele choramingou, antes de soluçar copiosamente. – Desculpa. – ele repetiu e Pierre ergueu as sobrancelhas. Pelo que, afinal, ele estava pedindo desculpas? – Eu não queria. – soluçou.

-Não precisa se desculpar, meu bem. – murmurou, sem saber o que deveria dizer. Por Deus! Sequer sabia do que David estava falando. – Já passou, esqueça.

David se afastou o bastante para poder lhe encarar; correu os olhos pelo rosto pálido, notando as manchas roxas que começavam a aparecer no maxilar e em uma das bochechas. As íris castanho-esverdeadas, outrora tão vivas e alegres, agora se encontravam opacas e cheias de lágrimas, as quais escorriam violentamente pelo rosto dele.

Mordeu o lábio inferior, correndo os dedos pelas lágrimas que escorriam cada vez mais fortes e rápidas, tentando fazê-lo parar, mas sabia que era inútil.

-Só... Me perdoa. – ele murmurou, uma das mãos pequenas e geladas indo segurar-lhe o maxilar. – Por favor.

Sorriu de leve, tentando confortá-lo.

-Eu te perdôo, anjo. – disse, por fim, mesmo sem saber do que o perdoara. Isso pareceu passar pela cabeça de David também, mas este apenas fungou, antes de voltar a esconder o rosto no pescoço de Pierre.

-Me tira daqui. – pediu num murmúrio, fazendo Pierre guiar-lhe as pernas magras para ao arredor de sua cintura, erguendo-se e caminhando para fora daquela casa abandonada.

Tinha-o de volta e era o que importava. Sabia que demoraria, mas iria ajudá-lo a se recuperar de cada sofrimento que passara naquele lugar asqueroso.

E era uma promessa.