Capítulo IX
Foi bom para Kat ter dormido bem. Especialmente quando no dia seguinte teria aulas com Dechamps. Com leotard preto, meias rosas e um coque rígido dirigiu-se ao salão acompanhada por sua amiga. Ao chegarem, juntaram-se as outras "cópias". "Produção em série", pensou Kat, lembrando do que Tommy diria se visse aquilo.
Sentiu-se estranha por ter lembrado de Tommy naquele momento. Não era nenhuma hora especial, nem estava concentrada em algo diferente do balé ou de Dechamps, ou ainda das coisas que tinha a fazer. Não tinha visto nem ouvido nada que tivesse qualquer relação, nada que pudesse despertar suas lembranças quanto a ele. Era estranho perceber que as memórias poderiam vir fáceis apesar do tempo e recriminou-se ao perceber que tinha achado graça daquilo.
Durante as preparações do alongamento e aquecimento, tentou afastar quaisquer pensamentos alheios. Não poderia permiti-los: não podia pensar em Tommy, era uma resolução tomada para si mesma. Muito menos durante as aulas de Dechamps.
Quando soaram as primeiras notas do piano, teve sua última oportunidade de deixar Tommy de lado e se concentrar no que deveria ser feito.
Exercícios de centro: sabendo que não estava em seus melhores dias, preferiu ficar numa posição onde não ficaria tão exposta. Por mais que estivesse tentando dispor de todo o foco que podia para memorizar a seqüência de passos. Era melhor não arriscar. Seis garotas fariam aqueles exercícios: poderia muito bem ir para a segunda fileira.
-- Parem...! – disse Dechamps, interrompendo a música e a entrada das alunas. – Srta. Hillard, para a frente.
Após um suspiro de desânimo praticamente inaudível, Kat obedeceu sem demoras. Rezou para ter gravado toda a seqüência.
Ao som de uma música mais vivaz, iniciaram o exercício. Tentava seguir o ritmo, não pensando em qualquer possibilidade de erro. Se cometesse não poderia mascará-lo, então o jeito era torcer para que não fosse o centro das atenções.
Giros, pequenos saltos... aquela era uma pequena variação de uma coreografia que já tinham feito antes. Nada que fosse anormalmente complexo, mas como sempre eram passos fáceis de serem confundidos. Na atitude final, Kat colocou-se na melhor postura que pôde.
-- Certo... – Dechamps disse ao fim, para em seguida bater palmas chamando as outras.
Não houve nenhum recado explícito por parte de sua professora. Nada mais que olhares frios aos quais Kat já estava acostumada. Por mais que ter de suportar aquilo fosse deprimente, ainda era melhor que a humilhação pública. Apesar disso Kat estava mais preocupada em manter os pensamentos sobre Tommy longe daquela aula.
-- Srta. Hillard... – Dechamps veio ai seu lado ao fim da aula, com todo seu típico ar de sabedoria. – Sugiro que enquanto estiver aqui, tente se concentrar no que está fazendo, fui clara?
Concordou, com um gesto de cabeça. Com outro gesto igualmente silencioso foi dispensada por sua professora. Ao sair, suspirou, como se tivesse engolido as palavras que queria ter dito.
-- Mas que demora, hein? – Jenny estava esperando no corredor, encostada a parede com jeito de quem estava parada há horas. – Ihhh, o que houve? A bruxa velha te disse alguma coisa?
-- Nada de mais. Só as ladainhas de sempre.
-- Se foi o de sempre, por que a cara de desgosto?
-- Porque ela está certa... aliás, como sempre.
-- E qual foi o sermão pedagógico dessa vez?
-- "Sugiro que enquanto estiver aqui, tente se concentrar no que está fazendo" – repetiu a frase dita por Dechamps, mas em seguida fez uma meia-culpa. – Eu estava realmente distraída.
-- Hummm... e o que aconteceu pra tirar sua cabeça do balé hoje?
-- Como assim, "hoje"?
-- Aula da bruxa velha, ora... você sempre fica vidrada nesses dias.
-- E o que você acha?
Kat preferiu que ela adivinhasse. A resposta era óbvia, o assunto era antigo, de modo que não haveria surpresas.
-- Tá, já entendi... e como foi isso?
-- Quando nós entramos no salão eu vi todas as outras garotas vestidas iguais... pensei que ele diria... : "nossa, produção em série!"
Riram. O riso de Jenny foi algo parecido com surpresa. Kat logo imaginou que viria uma piada, então tentou se preparar para não lhe dar um fora.
-- Ah, meu Deus... que piada horrível! – ela riu, colocando a mão na boca para disfarçar. – Quer dizer... que senso de humor admirável...!
Kat não resistiu e acabou rindo também. Por mais que o cinismo e ironia de Jenny pudessem ser irritantes, também a faziam rir, nas horas certas.
-- Ele diria isso mesmo?
-- Diria... diria sim.
-- Ai... confesso que esperava mais desse cara, sabia?
-- Por trás daqueles músculos existe um verdadeiro palhaço. – riu, fazendo como se estivesse suspirando mas logo parou – Palhaço no bom sentido.
Elas riram, mas logo depois Kat ficou séria, semblante pesado.
-- Kat, isso já tá virando um problema.
-- Virando, não. Já é um problema.
-- Você tem que tirar esse cara da sua cabeça.
-- Ah, parabéns! – bateu palmas, sendo irônica – Como eu não tinha percebido isso antes?
A expressão de Kat era artificial, forçada. O tom de voz era sarcástico. Algo que causou muita estranheza em Jenny. Tudo soava muito falso na voz dela. Sabia que aquele assunto deixava-a nervosa,, então preferiu guardar uma de suas respostas malcriadas para uma outra ocasião. Limitou-se a levantar as mãos como quem diz "tá bom, tá bom, você venceu."
-- Ah, desculpe, Jen... desculpe... eu não tinha que falar desse jeito.
-- Eu sei que esse assunto te deixa nervosa...não devia ter falado nisso.
-- Droga, não sei mais o que fazer... já era tempo de ter esquecido isso e ter seguido em frente, mas parece que estou parada no mesmo lugar!
-- É que quanto mais você pensa que deveria ter esquecido, mais ligada a ele você fica.
-- Está me dizendo que eu simplesmente devo deixar de pensar nisso? – parecia espantada.
-- Nisso e em tudo que te aflige.
-- Então você quer que eu deixe de pensar em tudo? – Kat perguntou, rindo mas com tom triste.
-- Pelo menos por algum tempo já que não dá pra fugir da academia... e nem de mim.
-- Eiiii, você não me aflige. – olhou para Jenny, que lhe fez uma careta. – Tá bom, tá bom... de vez em quando você me aflige, sim.
-- De vez em sempre, sua mentirosa!
Já estavam a caminho do alojamento. Ficaram caladas até saírem do corredor lotado e entrarem no quarto.
-- O que estou querendo dizer é que precisa se distrair, fazer outras coisas...
-- Outras coisas... por exemplo?
-- Ver TV é uma delas. Há quanto tempo você não faz isso? Ler também... – Jenny abriu uma gaveta, de onde foi tirando alguns livros e revistas. – Material é que não falta. Eu te empresto, sem problemas.
-- Não é disso que estou precisando... – referiu-se aos romances, pegando alguns deles e passando o olho pelas capas, sem interesse. – Aliás, eu preciso é ficar longe desse tipo de leitura.
-- Por acaso vai deixar de ler romances só porque um namoro seu não deu certo? – o tom foi inquisidor.
-- É só um receio natural... aliás, ler também não têm me ajudado em muita coisa.
-- Claro, fica aí lendo esses livros sobre dança, sobre balé... já vive dentro de uma academia. Não pode viver nessa paranóia!
Paranóia era um exagero de Jenny, mas sabia que ela estava certa: ou era atormentada por lembranças de Tommy ou pelas cobranças do balé. Era como estar entre a cruz e a espada. Não sabia o que poderia ser menos doloroso.
-- Precisa sair... espairecer... – Jenny continuava falando, alheia aos seus pensamentos – Vai acabar enlouquecendo. Há vida fora dessas paredes!!!
-- Sair? – perguntou, como se aquilo parecesse um absurdo. – Não, nem pensar... estou cansada demais pra pensar em pôr o pé na rua.
-- As vezes sair já é um descanso. Quando eu saio pra telefonar ou pra comprar alguma coisa já me sinto como se estivesse livre.
Kat lembrou-se da última vez que saiu: o dia em que esteve em crise depois da humilhação de Dechamps e da conversa com Gallagher. Um dia péssimo, mas que no final teve um saldo positivo: Gabriel, um bom amigo.
-- Queria poder acreditar nisso, mas pelo menos por enquanto vou preferir descansar mesmo... da forma tradicional.
-- Afff... – Jenny suspirou – Tá, isso vai te fazer melhorar mesmo...já é um progresso... – deu um sorrisinho de quem desistia de um debate. O olhar indiferente da amiga não dava margens para continuarem com aquele assunto.
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Mais uma semana "daquelas" para as garotas. Aulas puxadas por horas a fio.
Kat não se importou. Achava até bom já que isso lhe daria menos tempo para pensamentos impróprios... mesmo que significasse tensão extra com Dechamps. Estava disposta a esquecer de Tommy por pelo menos um dia inteiro, e nos momentos de descanso o cansaço parecia ser o remédio certo.
Acordes variados de piano, saltos, giros e outros passos nos quais deveria se manter atenta, muitos detalhes para se preocupar, pouco tempo para ócio mental ou recordações indesejadas. Durante esse tempo pouco pôde conversar com outras pessoas, até mesmo com Jenny, sua companheira de quarto, isso já parecia ser difícil. Ao fim de um dia a única coisa que queria era sua cama. Bastava deitar sua cabeça no travesseiro para desmaiar.
Também foram dias em que pouco conseguiu falar com Gabriel: encontravam-se durante o pas de deux, mas sequer conseguiam trocar palavras. Estava distraída pela atenção extra do professor e por sua promessa de resolver em breve o problema da falta de partner. Além disso, Valerie tinha voltado, exigindo atenção total de seu parceiro e fazendo insinuações sobre peso ideal ou boa técnica. Kat sabia que era o alvo mas não estava se importando. Tudo que importava eram o cansaço e o entorpecimento que lhe dariam a sensação de dever cumprido no balé, e a falta de possibilidades de pensar em Tommy.
-- Se continuar desse jeito, vai acabar caindo dura por aí. – dizia Jenny, num sermão que já era costume. Estavam no refeitório, observando a amiga que mal conseguia comer. – Vamos! Come...
-- Não estou conseguindo. – mexia a comida com o garfo, num gesto de desinteresse.
-- Está cansada demais até pra comer... – aquilo soou aos ouvidos de Kat como um diagnóstico. – Desse jeito não vai dar... não é o melhor jeito de fazer isso.
-- De fazer o quê?
-- De esquecer.
-- Não tem a ver com Tommy. Ele é uma parte disso mas não tudo. Só estou fazendo o que tem de ser feito.
Jenny não disse mais nada, temendo piorar a situação. Apenas observou o prato intocado de Kat. Era um alívio saber que não era uma dieta, mas preocupante ao ver que era cansaço. E via-a num esforço claro para se alimentar, mas sabia que não conseguiria da mais que duas ou três garfadas.
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-- Srta. Hillard... quero lhe apresentar uma pessoa... esse é Oliver Nash. Está entrando hoje nessa turma e será o seu novo partner... – olhou-a, e ligeiramente Ethan Kulik mudou seu tom de voz – Se é que você permite...
Kat balançou a cabeça indicando que sim. Não havia bem o que pensar e nem o que permitir. Seria um alívio ter um parceiro, fosse ele quem fosse. Agora poderia ensaiar direito, da forma certa.
-- Oi, meu nome é Katherine. Prazer.
O que ouviu não foi bem uma resposta. Nem dava pra saber se aquilo era um som ou um resmungo que pretendia ser silencioso. Logo depois disso ele afastou-se, indo em direção ao canto oposto do salão. Kulik já dava as primeiras instruções do alongamento e do aquecimento.
Cabelos ruivos, olhos verdes e grandes, rosto de traços delicados, corpo delgado. Muita habilidade e poucas palavras. Foi o que Kat pôde descobrir nesse pouco tempo. Dados imprecisos já que estavam distantes.
Quando começaram a ensaiar juntos teve mais percepções: movimentos precisos, toque seguro, porém impaciente. Parecia querer antecipar os passos embora estivessem no ritmo da música. Ao fim, ainda tentou falar com ele, mas Oliver não lhe deu atenção, dirigindo a ela apenas um olhar enquanto secava o rosto com uma toalha, afastando-se em seguida.
-- ... foi um prazer. – disse, para si mesma, em voz audível o que pretendia dizer ao seu novo partner.
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De volta aos alojamentos.
-- Como foi com seu novo partner, Kat?
-- Foi... – tentou escolher bem uma palavra. – Estranho.
-- Como assim "estranho"?
-- Ele não falou comigo.
-- Como não? Nenhuma palavra?
-- Nenhuma palavra. – disse, sem pensar se aquele primeiro resmungo depois de serem apresentados era alguma tentativa de se comunicar. – Nem pra dizer o próprio nome... talvez ele estivesse nervoso...
-- Por que ele estaria nervoso, Kat? Isso foi no mínimo mal educado.
-- De qualquer modo é melhor não tirar conclusões precipitadas. – sentou-se num banquinho e começou a massagear os pés. – O que achou dele?
-- Ei...você disse que não queria tirar conclusões precipitadas... – riu – Por acaso mudou de idéia?
-- Quanto a isso, não. Mas é que você costuma fazer uma boa análise... muitas vezes sem errar.
-- É... tantos romances tem que servir pra alguma coisa... – gracejou, balançando a cabeça e levantando as mãos num gesto brincalhão. – Muita habilidade, poucas palavras... eu não vi o jeito como ele agiu com você mas vi a sua cara... você não me parecia muito feliz...
-- Não é todo dia que sou solenemente ignorada...
-- ... nem ele.
-- Quanto a Oliver não posso dizer nada.
-- Aconselho a chamar só de "Nash".
-- Por que diz isso?
-- Aqui nós costumamos chamar pelo nome as pessoas mais íntimas... e algo me diz que não vai ser o caso entre vocês, pelo menos por enquanto.
-- Alguma coisa a ver com a sua análise?
-- Ah... nada muito concreto... mas é que ele me pareceu frio, estranho... gelado. Talvez não seja uma boa pessoa.
-- Talvez seja. – Kat tentou intervir.
-- Talvez. São só percepções, nenhuma certeza... só a minha opinião.
"Só uma opinião", pensou, com uma pontinha de preocupação começando a surgir. Eram apenas impressões iniciais a respeito de uma pessoa que acabara de conhecer. Eram suposições, mas lembrar disso não lhe trazia nenhum alívio momentâneo: Jenny costumava estar certa quando falava sobre alguém.
Kat não teve um bom pressentimento, mas procurou esquecer. Não adiantava se preocupar antes da hora... sabia disso, mas algo lhe dizia que não era um assunto a ser deixado de lado... nem que fosse por um minuto.
