Notas iniciais do capítulo

Esse capítulo faz um resumo de tudo que aconteceu anteriormente na história, mas na visão de Raíssa. Acho fundamental para entender os sentimentos dela, que sempre foram apagados, diante dos pensamentos de Isa. Mas quem não achar necessário, desconsiderem e sigam para o próximo capítulo.

Raíssa acordara animada.

Caso sua mãe a criticasse pelas notas baixas do boletim, que recebera no dia anterior, nem se aborreceria.

Não tinha uma coisa que odiasse mais do que ir às aulas. Aliás, havia sim: Imposição de regras.

Entretanto, essas duas coisas se entrelaçavam, se transformando em uma coisa só.

Porém, hoje, nada a aborreceria.

Tivera um sonho que lhe trouxera a impressão de que seu dia seria diferente.

Algo de muito bom estaria prestes a lhe acontecer.

Levantara da cama e se arrumara às pressas.

Parecera, aos olhos de uma mãe orgulhosa do novo comportamento da filha, ansiosa para ir à aula.

Sua mãe a levara, estranhando o doce comportamento da filha, que normalmente era rebelde e agitada.

Entrara no colégio, se sentindo cada vez mais contente, sem entender o porque.

Correra até o banheiro ansiosa e esperara até o toque final.

Sentira uma grande necessidade de ir até o seu esconderijo particular.

Ouvira o sinal tocando, e o barulho de retirada, em que todos os alunos e funcionários se dirigiam aos seus respectivos afazeres.

Silêncio.

Finalmente podia sair.

Raíssa saíra correndo do banheiro em direção à saída da escola, quando se batera em alguém.

Olhara-a, e empalidecera. Parecia com a garota do sonho.

Ficara alguns instantes imóvel, meio impressionada.

Voltando a si, correra até a garota, que parecia estar para poucos amigos, e lhe ajudara a levantar.

Pedira desculpas repetidamentes, quase implorando um perdão.

Sem saber porque, desejara profundamente que a garota lhe perdoasse.

Estranhamente, sentia que aquela menina seria importante pra ela... no futuro.

Raíssa não deixara de pensar naquele encontro.

Naquela misteriosa garota, que se apresentara como Isabela Moreto.

Quem seria ? Aonde morava?

O que estaria fazendo ali?

Não a conhecia...

No outro dia, fora mais animada ainda para a aula.

Daria um jeito de encontrá-la novamente.

Quando iniciaram as aulas, buscara a garota por todos os cantos do colégio, até encontrá-la na aula de educação física.

Para sua surpresa, descobrira, era sua colega de turma.

Raíssa correra atrás da menina que conhecera, e puxara assunto.

Contara-a sobre seu segredo, que poucas pessoas sabiam. As fugas da escola...

Convidara-a para lhe apresentar a cidade e, por impulso, levara-a para conhecer o seu esconderijo, coisa que nunca havia feito com ninguém.

Consequentemente, a amizade das duas fora se aprofundando pouco a pouco, e Raíssa sentira-se cada vez mais fascinada pela outra.

Deixara de sair com outras garotas, e de ficar com quem quer que fosse como fazia antes, só como resposta à opressão da mãe.

Apenas saía com Isa, ninguém mais. Isso lhe parecia o suficiente.

Passara a frequentar mais as aulas, como desculpa para permanecer mais tempo ao lado de Isa.

Se apaixonara por Isa de uma maneira, que nunca havia se sentido por ninguém.

Ficara perdidamente apaixonada pela amiga, desde o primeiro momento em que a vira...

Dera sinais...

E percebera que Isa também se apaixonara por ela.

Raíssa conseguira conquistar, e namorar a garota dos seus sonhos.

O namoro das duas durara por três anos, porém no último ano, muitas coisas ruins aconteceram, bagunçando a relação das duas, até então estável.

A mãe de Isa descobrira o relacionamento das duas e a pressionara, de modo que tornou-se necessário Isa sair de casa.

Raíssa se sentira incomodada, embora estivesse feliz, pela idéia de morar junto com Isa.

Sempre tivera medo de relacionamentos sérios, diante de todo o terror que presenciara quando criança, no divórcio de seus pais.

Tinha a impressão de que morar juntas estragaria a relação, e que elas começariam a brigar por qualquer coisa, como presenciara no passado.

Seus pais só foram realmente felizes, ao se separarem.

E hoje, cada um vivia uma vida de solteiros, relacionando-se com quem quisesse, e sem dever nada a ninguém.

Não havia brigas, nem ciúmes, ninguém cobrando o que fazer, nada...

Apenas conseguira mudar esse sentimento ao conhecer Isa.

Passara a sentir vontade de estar com ela, apenas com ela.

Quis namorar, manter um relacionamento sério.

Não teve dúvidas momento algum, do quanto Isa era importante para ela.

Mas, tão de repente, morar juntas, lhe parecera absurdo.

Não tivera coragem de contar para Isa a verdade, inicialmente.

A deixara ficar, embora tivesse tantas dúvidas e medos.

Não conseguiria dizer algo que iria magoá-la, então preferira se calar.

Pela primeira vez, em toda a história do amor delas, Raíssa escondeu algo de Isa.

E Isa estivera tão absorta em seus próprios problemas familiares que nem percebera o comportamento estranho da namorada.

Tempo depois, ela e Raíssa começaram a brigar por pequenas coisas.

Pequenas bagunças, ou pequenos esquecimentos de Raíssa.

Isa era muito exigente com as coisas e, sem perceber, fora responsável pelo medo de Raíssa aumentar.

Sentira como se seu namoro estivesse indo pelo mesmo caminho que o dos seus pais.

Enquanto isso, Isa começara a fazer as pazes com a mãe.

Passava os domingos na casa dela, mas nem pensava em voltar pra casa.

Raíssa recorria então para as suas amigas, especialmente Fabiana, sua mulher amiga.

Fabi se transformara em uma especíe de confidente de Raíssa, e fora pivô de outras brigas que Isa e Raíssa tiveram.

Embora Raíssa garantisse a Isa que ela era apenas sua amiga, Fabi não escondia de ninguém um interesse maior em Raíssa, e sempre que Isa se aproximava, dava em cima da garota.

Raíssa preferia levar na brincadeira, porque somente ela sabia a verdade.

Não tivera coragem de contar para nenhuma outra amiga, pois todas as outras eram muito amiga de Isa também.

Assim, Raíssa passara alguns domingos trocando conversas com Fabi, online, enquanto sua namorada passava o dia com a mãe.

Por vezes, Raíssa chorara de frente ao computador, contando o que estava acontecendo entre elas.

O relacionamento esfriara, elas haviam parado de fazer coisas juntas, e apenas brigavam.

Isa, embora sentisse, já não demonstrava tanto interesse em permanecer com ela.

Fabi, tentando fazê-la se sentir melhor, a chamara para dar uma volta no centro da cidade.

Raíssa decidira ir, e tentar esquecer um pouco dos problemas.

No entanto, enquanto Fabi permanecera sóbria por estar dirigindo, Raíssa bebera... muito além da conta.

Caminhara pelo parque da cidade trocando as pernas e gritando, levando aos outros que as observavam a idéia de que ela era louca.

"ISA! ISA! CADÊ VOCÊ, ISA?!",

ela olhava em volta, como se realmente estivesse esperando pela namorada.

"ESTOU AQUI ISA!" , dizia abraçando o vento por várias vezes, como se a visse e pudesse tocá-la.

"CADE VOCÊ?", questionou, percebendo que Isa não estava... que estivera se enganando todo o tempo... estava sozinha.

"Te amo, Isa...", dissera quase que sem voz, enquanto lágrimas caíam do seu rosto.

De repente, Raíssa sentira uma sensação de solidão tamanha que, se jogara na grama de joelhos, chorando.

Mal conseguia manter-se em pé, e muito menos sentada. Obviamente, caíra de lado.

Fabi não conseguia parar de rir da cena, mas correu para ajudá-la.

Como se tivesse tido um pesadelo, Raíssa abrira os olhos assustada e dissera, voltando a si.

"Preciso sair daqui"

Fabi se aproximara, com cuidado.

Faria qualquer coisa para não perder um momento como aquele.

Raíssa estava vulnerável.

Era o melhor momento para agir.

"Ei, não tem porque você ficar com medo... Estou aqui... Isa"

Raissa a olhara, incrédula.

Sentira no fundo de sua alma que não era Isa, mas seus olhos a traiam.

Via coisas e pessoas que não existiam, e não conseguia determinar ao certo quem via.

Fabi aproveitou-se do momento de confusão de Raíssa, que nem teve tempo para raciocinar, quando a outra lhe puxou para um beijo.

Ela acabara se entregando ao beijo, embora permanecesse com a mente confusa. Sem entender o que acontecia.

Acordara no outro dia com uma lembrança vaga do que ocorrera na noite anterior.

Levantara com um beijo da namorada que nem podia imaginar o que acontecera.

Apenas ao falar com Fabi novamente [online] soubera do que havia feito.

Convenientemente, Fabi omitiu alguns aspectos do beijo, levando Raíssa a acreditar que havia feito intencionalmente.

A jovem se torturara. Se arrependera totalmente pelos seus atos, e passara a evitar a garota desde então.

Entretanto, por erro do destino, ou não, Isa ficara sabendo, e a largara.

Sentira como se fosse morrer. Depois de tudo que havia vivido com Isa, não conseguia imaginar uma vida sem ela.

Raíssa sofrera por meses, tentando encontrá-la.

Ligava para sua casa, e quando Isa atendia, a ignorava ou simplesmente desligava a ligação; Quando a mãe de Isa atendia, aproveitava para jogar na cara da garota, que sabia desde o início que ela não prestava, por ter tido coragem de fazer aquilo com sua filha. E que a relação delas não teria futuro nunca, porque relacionamentos desse "tipo" são sempre passageiros, e por luxúria. Que era pecado, e blá blá blá... Como a mãe dissera várias vezes em discussão com a filha, não deixava de repetir para Raíssa como se sentia afortunada de que aquele tormento tinha acabado logo. Que agora veria a filha amadurecer, casar e ser feliz com um bom rapaz, que a merecesse. E pedia também, é claro, não podia faltar, que ela ficasse longe da sua filha, ou que chamaria a polícia.

Raíssa permanecera tentando, sofrendo a cada ligação, a cada rejeição, a cada ofensa, até descobrir que Isa tinha se mudado.

E a mãe de Isa, claro, lhe recusara a dar seu número.

Isa ignorara seus emails por meses, até que Raíssa desistira.

E a vida de Raíssa fora um poço de lamentações, correndo de mão em mão, sem se fixar em ninguém.

Nunca gostara de ninguém. Nunca quisera encontrar alguém para um segundo encontro.

Vira defeitos em todos, porque ninguém era como a mulher que amara no passado.

Assim, com seu amadurecimento pessoal, após 7 anos buscando Isa nas pessoas que ficara, decidira ficar sozinha.

Desistira dos encontros furados, e das tentativas fracassadas.

Simplesmente não valia a pena. Era perda de tempo.

Permanecera sozinha pelos últimos três anos, até que, por força do destino, voltara a encontrar Isa, 10 anos depois.

E a chama do amor reascendeu, numa esperança de conseguir seu perdão e reatarem o namoro, o qual nunca conseguira se desprender.

Na livraria, soubera o local onde a outra trabalhava, e sentira-se radiante por perceber que ainda mexia com os sentimentos de Isa, que deixou em evidência o quanto estava nervosa e constrangida com a situação.

Sentira-se cada vez mais perto de atingir seu objetivo de vida, que sempre fora:

Encontrar sua primeira namorada, e reconquistá-la. E não ferrar tudo, da próxima vez.

Deixara passar um tempo para disfarçar, e forçara um segundo encontro, seguindo-a do trabalho até o restaurante.

Fizera uma surpresa, e aproveitara o momento para assumir seus sentimentos.

Entretanto, embora Raíssa acreditasse nos sentimentos de Isa, que eles a correspondia, a morena não reagira nada bem à revelação, e saíra correndo do local.

Petrificada, Raíssa observara Isa sumindo de suas vistas.

Pagou a conta que a outra havia esquecido de pagar, e simplesmente saiu do restaurante sem destino.

Chorava sentindo-se impotente diante do sofrimento de Isa.

Nunca queria ter feito ela passar por isso.

Lembrara do passado.

Aquele passado que nunca conseguira esquecer, que sempre manteve-se tão vivo em sua memória.

E, de repente, tivera um insight.

Sabia exatamente aonde Isa iria.

Ao menos, tinha um palpite de onde ela poderia estar.

E, embora não conseguisse deixar de duvidar da veracidade dele, desejara com todo seu coração que fosse verdade.