Capítulo 17 – O fim do quinto ano
Tema: morte
Faltava muito pouco tempo para os OWLS quando o tempo finalmente começou a melhorar, e foi bem a tempo, porque a parte baixa da Escócia já estava ameaçada de inundação. Harry ainda estava triste com a separação, mas era culpa dele, e agora ele não tinha aprendido Oclumência, como tinha prometido a Dumbledore. E Dumbledore tinha se sacrificado para Harry permanecer em Hogwarts.
Ele se sentia um fracasso total. E sozinho.
Quando as provas começaram, ele se sentiu outro fracasso. Mais ainda quando vieram retirar Hagrid. Harry viu tudo da torre de Astronomia. Hagrid resistiu, os homens do Ministério o perseguiram. McGonagall tentou impedir, e foi atingida por quatro feitiços paralisantes. Quatro! Desnecessário dizer que ela foi parar em St. Mungo's.
Mais do que nunca, Harry estava sozinho. E durante a prova de História da Magia, quando ele teve a visão de Voldemort, ele não pensou duas vezes em tentar ver se Sirius estava em Grimmauld Place. E Kreacher lhe disse que seu padrinho não estava, que ele estava no Departamento dos Mistérios.
Harry mal teve tempo de pensar em outra coisa, pois Umbridge o capturara (junto com Hermione, Neville, Luna, Ginny e Ron) e logo pensou que tudo estava perdido. Até que Umbridge mandou Draco Malfoy trazer o Prof. Snape.
Snape. Ele podia falar com Snape. Alertá-lo.
Foi com isso em mente que ele despejou as palavras totalmente desconjuntadas:
– Ele pegou Padfoot! Ele prendeu Padfoot no lugar onde está escondido!
Os momentos foram de tensão, com Umbridge a pressioná-lo, e Snape a ignorá-lo solenemente. Harry preferiu não depositar suas esperanças num enigmático Snape, alguém em quem ele nunca conseguiu confiar completamente, de qualquer forma.
Especialmente depois dos últimos acontecimentos.
Portanto, Harry e sua pequena tropa da Armada Dumbledore saíram voando para o resgate de Sirius. Não sabiam o que tinham deixado para trás.
Quem ficara para trás tinha sido Severus Snape, que se sentia infeliz e agitado. A mensagem enigmática que Harry tinha tentado lhe passar não tinha sido grande coisa, mas a sua Legilimência mais uma vez não o deixara na mão.
Harry acreditava que o Lord das Trevas tinha conseguido prender Black no Departamento de Mistérios. Obviamente, a mensagem que Harry recebera tinha vindo através de Legilimência, mas Snape tratou de primeiro verificar o paradeiro de Black. Usando o método de comunicação preferido da Ordem, ele mandou seu Patrono para Grimmauld Place.
Para conjurar o Patrono, ele se lembrou de Harry folheando o Kama Sutra e pedindo a página 137.
Mas Severus verificou que Black estava vivo, são e salvo na casa de seus pais, embora angustiado por causa do hipogrifo, que estava ferido. Aquilo deixou o Mestre de Poções em alerta. Ele podia usar seus novos poderes – ele vinha aperfeiçoando-os o quanto podia –, mas não sabia se podia confiar neles para algo tão importante.
Talvez tenham sido justamente os novos poderes, talvez tenha sido seu aguçado instinto, mas o fato é que Severus manteve o estado de prontidão quando ele não viu Harry voltar do "passeio" na Floresta com Dolores. Era preciso avisar a Ordem.
Ele arriscou a lareira.
– Snape?
Ele se viu na cozinha de Grimmauld Place, onde diversos membros da Ordem estavam no momento, desfrutando das duvidosas delícias do chá de Nymphadora Tonks, sob o olhar suspeitoso e o mau humor do elfo Kreacher. Foi Lupin quem convidou:
– Tem tempo para um chá, Severus?
– Dificilmente, Lupin. Algo está acontecendo em Hogwarts. – Ele explicou rapidamente do que se tratava, e concluiu: – É razoável presumir que o garoto tenha ido ao Ministério da Magia para efetuar o resgate de seu padrinho.
Moody, Shacklebolt, Lupin e Tonks se levantaram imediatamente.
– Vamos atrás do garoto – decidiu Moody.
– Melhor correr – disse Lupin. – Não sabemos que armadilhas Voldemort preparou para ele.
– Eu vou com vocês – disse Sirius, decidido.
– Espere, Black – disse Snape. – Alguém precisa ficar na sede da Ordem para alertar Dumbledore do que está acontecendo. Ele vai querer ser informado de tudo.
– Bom, eu é que não vou ser. Eu vou salvar meu afilhado, Snape, e é bom não tentar me impedir.
Severus agarrou o braço de Sirius, e arregalou os olhos:
– Não! Não pode ir! Black, por favor, me escute: você é mais valioso aqui!
Lupin tentou convencê-lo:
– Severus pode ter razão, Sirius. Pode ser perigoso.
– Droga, Remus, está dando razão a ele? Eu não agüento mais ficar aqui! Harry precisa de mim! Se ele – apontou para Severus com desprezo – não quer ir, o problema é dele, mas eu me preocupo com Harry!
Moody deu de ombros:
– Mas ele tem bons argumentos. Albus vai querer ser informado e alguém pode reconhecê-lo, Black. Ficar não é má idéia.
– De jeito nenhum! Voldemort está emboscando Harry nesse momento, e vocês perdem tempo com discussões inúteis como essa! – Sirius se virou para o elfo. – Você! Quero que conte tudo que se passou aqui ao Prof. Dumbledore. Entendeu?
– Kreacher ouve terrível traidor do sangue e vai obedecer, porque Kreacher é elfo dos Black, apesar de Kreacher querer apenas servir a Sra. Malfoy, ela sim, uma verdadeira herdeira dos Black...
– Cale a boa, cale a boca, seu traste inútil!
– Tratando Kreacher como elfo, mesmo que tenha sido banido da casa por grande Sra. Black, uma mulher distinta e nobre...
– Então vamos logo! – chamou Moody. – Vamos ver em que encrenca o menino se meteu agora.
– E você, Snape? – indagou Sirius, com desprezo. – Não vai entrar em batalha?
– Meu lugar é em Hogwarts, mantendo um olho nas coisas na ausência de Dumbledore.
– É, Snivellus, eu não achei que você fosse mesmo arriscar seu precioso pescoço Slytherin. – E virou-se para ir.
– Black!
O chamado fez Sirius e Remus se virarem.
– O que é agora?
– Lembre-se de que eu tentei impedi-lo de ir.
– O que é, Snivellus? Alguma paixão remanescente do tempo de escola?
– Não, seu cretino. Estou fazendo isso por Harry.
Remus franziu o cenho e Sirius também. Nenhum dos dois tinha ouvido Snape se referir a Harry antes pelo primeiro nome. Era sempre Potter, e com uma dose nada pequena de desdém. Houve um momento de tensão.
– Pela última vez! – chamou Moody. – Ou vocês vão, ou vocês ficam! Vamos lá!
Sirius, Remus e Severus ainda se entreolharam pela última vez. E Severus sabia que seria mesmo a última vez.
Todos desaparataram rumo ao Departamento de Mistérios. Severus voltou a Hogwarts, onde sabia que tinha que avisar seu outro Mestre do que estava se passando.
E o desastre aconteceu.
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A Escócia estava salvo de uma inundação, pensou Severus, mas Londres não tivera a mesma sorte. Desta vez era porque Sirius Black estava morto. Ele revia mentalmente os acontecimentos, ou pelo menos os que ele tinha conseguido reunir, com relatos aqui e acolá. Ainda precisava sentar seriamente com Dumbledore e tomar algumas decisões. Mas Harry continuava deprimido, ele sabia. Era só olhar pela janela, ver a chuva, e saber.
Todos os seus instintos de Koboldine diziam que ele tinha que falar com Harry. Tinha que fazer isso, precisava.
Então, num domingo, a chance apareceu.
– Potter! – Ele gritou, no Hall de Entrada de Hogwarts, bem ao lado das ampulhetas gigantes com os pontos das casas.
Mas Harry parecia estar prestes a lançar um feitiço sobre Malfoy, e sobre seus gorilas Crabbe e Goyle. Droga, pensou Severus. Ele não podia falar com Harry com os filhos de Lucius e de outros colegas Death Eaters ouvindo tudo.
– O que está fazendo, Potter?
Mesmo antes de chegar ao lugar onde os quatro estavam, Severus podia sentir as ondas de ódio, uma após a outra, chegando até ele. Para seu desespero, essas ondas vinham justamente de Harry, de seu pesseguinho. Ele ignorou o seu coração se quebrando em mil pedacinhos.
– Estou tentando decidir que maldição usar em Malfoy, senhor.
Harry parecia tomado de ódio. Severus o encarou.
– Guarde sua varinha imediatamente – ordenou, curto e grosso. – Dez pontos de Gryff...
Ele olhou para as ampulhetas gigantes e deu um sorrisinho de desdém.
– Ah, posso ver que Gryffindor não tem mais pontos para se retirar. Nesse caso, Potter, vamos ter que simplesmente...
– ... dar mais pontos?
McGonagall acabara de chegar de St, Mungo's e tinha chegado com um timing impecável para salvar seus pequenos grifos dos apuros, pensou Severus. Ele não se importou de fazer o papel de perdedor. Ainda mais que McGonagall ordenou que Crabbe e Goyle levassem sua bagagem para seus aposentos, depois ela saiu com Malfoy.
Deixou-o sozinho com Harry. Era, finalmente, a chance pela qual Severus vinha esperando desde que Sirius tinha morrido no Departamento dos Mistérios. Harry precisava saber.
Mas antes que Severus pudesse abrir a boca, o garoto se virou para seu dominante, os olhos verdes brilhando com frieza e avisou:
– Escute aqui: não interessa o que Dumbledore pense, e no que ele acredita. Eu sei melhor. Você matou Sirius. Eu sei, você não estava lá e não cometeu o crime, mas você é tão culpado quanto quem o fez. Você é culpado, Snape. E eu não vou te perdoar nunca por isso.
– Harry, por favor...
– Não, Snape, me escute bem. Sei que daqui a nove anos eu vou ficar diferente de novo, daquele... jeito que fiquei antes. Tudo bem, eu aceito isso. Mas até lá, quero que você me esqueça. Se me vir, vire a cara, porque vou fazer o mesmo. Nesses dois últimos anos de Hogwarts, procure me evitar ao máximo, e esteja certo de que estarei fazendo o mesmo. E mais, se você me irritar, vou fazer de sua vida aqui um inferno.
– Precisa me ouvir, Harry, por favor...
– Não, não preciso, e não precisamos nem mais nos falar, Snape. Vejo você daqui a nove anos – se estivermos os dois vivos.
E foi-se embora. Severus abaixou a cabeça, e uma sensação de vazio completo ameaçava engolir todo o seu peito, como nunca antes na sua vida. Será que ele seria obrigado a carregar esse sentimento em seu peito pelos próximos nove anos? Respirou um pouco, tentando dispersar o sentimento, sem muito sucesso. Talvez, com o tempo, melhorasse.
Severus ergueu a cabeça e olhou os jardins de Hogwarts. A chuva finalmente tinha parado, e havia até um pouco de céu azul por meio de algumas insistentes nuvens cinzentas.
Harry Potter não estava mais deprimido. A Escócia podia respirar, com alívio. Londres podia começar a se recuperar dos prejuízos.
Mas Severus não iria ter um instante de alívio dali para frente.
Próximo capítulo: O tempo passa, o tempo voa, mas nada continua numa boa
Capítulo 18 – Cada dia eu te amo menos e menos...
Tema: traição
Foi mais ou menos um ano mais tarde que a coisa toda explodiu espetacularmente. Severus temeu o ano inteiro por aquele momento, e quando o momento chegou, ele não pôde fugir de sua natureza.
Ele protegeu seu submisso.
Que, no momento, estava mais concentrado em persegui-lo e tentar impedir sua fuga de Hogwarts.
– Corra, Draco! – gritou Snape.
O cenário era dramático. Death Eaters fugindo para além dos portões da escola, a partir dos quais podiam aparatar, a noite fresca iluminada pela Marca Negra que pairava acima da escola. Sujo de sangue, lama e um visco que não queria nem identificar, Harry perseguia Severus, que se virara para detê-lo enquanto Draco e os demais prosseguiam em desabalada carreira. Ele não queria lembrar a cena no alto da torre, não queria ter que acreditar que Dumbledore estava morto.
E que Snape o tinha assassinado, bem na sua frente.
Com uma onda de um ódio fervente percorrendo-lhe as veias, ele apontou a varinha:
– Cruc...
Severus o derrubou antes que ele conseguisse completar a maldição. Um Death Eater usou o feitiço incendiário para colocar fogo na cabana de Hagrid, e o gigante correu para dentro, para resgatar seu fiel cão Fang.
Harry tentou gritar de novo:
– Cruc...
– Não, Potter, nada de maldições imperdoáveis para você.
Harry tentou novamente, e novamente Severus o bloqueou. O garoto se enraiveceu:
– Lute! Lute, seu covarde!
– Não me chame de covarde. Não vamos nem falar de seu pai, que só lutava na proporção de quatro para um.
Harry tentou mais um feitiço, e Severus mais uma vez o bloqueou:
– Precisa aprender a manter sua boca calada e sua mente fechada, Potter!
O Death Eater jogou alguma maldição em Harry, que Severus apressou-se em bloquear:
– NÃO! Temos nossas ordens! Vamos, vamos!
Os Death Eaters correram para os portões e Severus viu Harry se erguer, o rosto que tanto amava despejando apenas ódio para ele:
– Sectum...
De novo, Severus o deteve, o controle explodindo:
– Não, Potter! – Harry foi ao chão, a varinha longe, estava indefeso e caído, e Severus podia sentir que ele pensava em Dumbledore. Aquilo explodiu uma raiva dentro do ex-Mestre de Poções. – Não se atreva a usar meus feitiços contra mim, eu, o Príncipe Mestiço!
Severus viu que Harry ia atrás da varinha e ele a fez voar para dentro da escuridão.
– Por favor, Harry. Você precisa entender. Você precisa descobrir a verdade.
– Me mate – pediu Harry, a voz destilando raiva e desprezo. – Me mate como você o matou, seu covarde.
– NÃO ME CHAME DE COVARDE!
Os próximos minutos passaram-se literalmente voando. Severus tentou se livrar de um imenso e irado hipogrifo, enquanto Harry tentava localizar sua varinha. Assim que pôde, Severus desaparatou.
Com um plano já formado.
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Harry ainda estava numa espécie de estupor emocional quando voltou, pela última vez, à casa de seus tios. Em poucas semanas, ele completaria 17 anos e seria maior de idade, no mundo bruxo.
Ele não tinha planos de voltar a Hogwarts. Não com a escola daquele jeito, não sem Dumbledore.
Além do mais, ele tinha que achar as malditas Horcruxes para destruir o nojento Voldemort de uma vez por todas. E Severus Snape também, pensou, com um ódio vivo a consumi-lo.
Algo estava tão ácido no seu humor que fazia seus parentes se manterem à distância. Por isso, ele não esperava quando sua tia entrou no quarto.
– Alguém está aí para vê-lo.
– Alguém?
– Eu pensei que fosse um vagabundo. Mas ele diz que veio entregar sua parte numa herança qualquer. Vá logo. Não quero que nenhum dos vizinhos veja um tipo desses na minha porta.
Harry desceu, intrigado, e ao ver quem era, ficou surpreso:
– Prof. Lupin?
O lobisomem parecia ter posto suas melhores roupas, mas ainda assim eram bem furrequinhas. Provavelmente por isso tia Petúnia tinha torcido o nariz, pensou Harry.
– Não sou mais seu professor, Harry. Pode me chamar de Remus.
– Por favor, entre. Podemos conversar no meu quarto.
– Como achar melhor. Com sua licença, Madame.
Tia Petúnia virou a cara, mas não impediu a entrada do homem de cabelos grisalhos. Harry acomodou Lupin na sua cama enquanto ele se sentou à escrivaninha.
– É uma surpresa vê-lo aqui. Pensei que estivesse na tal colônia de lobisomens. Aconteceu alguma coisa?
– Na verdade, sim. Minerva me pediu que viesse. Aparentemente, Dumbledore deixou uma missão para mim, algo que eu não sabia.
– Uma missão?
Ele abriu o surrado casaquinho de lã e de lá tirou três pequenas garrafas, colocando-as na escrivaninha de Harry.
– Ele lhe deixou esses depoimentos para que você os assistisse depois de sua morte, Harry. – Ele tirou uma pequena tigela de pedra do bolso e colocou ao lado das garrafinhas. – Também tomei emprestado esse Pensieve para que você possa vê-los. Na verdade, eu vi os depoimentos também, e você precisa saber de tudo que está aí. Isto é, se é que você tem planos de sobreviver ao que está vindo.
Harry franziu o cenho:
– Mas...
– Escute tudo, Harry. – Lupin deu um sorriso suave. – E depois escute de novo. Olhe, amanhã estarei aqui de novo. Você certamente vai querer discutir como faremos isso.
– O quê? Como faremos o quê?
– Vai entender depois que ouvir o que Dumbledore tem a dizer. Não preciso dizer que não deve dizer a ninguém. É melhor eu ir agora. Vou aproveitar e tomar um chá com a querida Arabella. Faz tempo que não a vejo. Até amanhã, Harry.
Harry despediu-se do seu ex-professor e encarou as garrafinhas, pensativo. Ele não tinha idéia do que elas continham, mas sabia que elas provavelmente iriam mudar tudo.
Ele só não tinha idéia do quanto.
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Era um Pensieve, só que com as tais garrafinhas. As memórias de Dumbledore provocaram em Harry, inicialmente, uma dor no peito. O rapaz viu aquele rosto enrugado, os olhinhos azuis muito vivos, os óculos, o sorriso doce, a expressão terna, e sentiu a dor daquela perda ainda mais presente. Ele sentia falta da presença física de Dumbledore como se tivesse perdido um membro do corpo.
Passado o choque, porém, restava enfrentar o conteúdo das memórias. Isso foi um pouco mais difícil. Começou desde a primeira garrafinha que ele assistiu.
Primeiro Harry entrou em estado de negação. Negou a si mesmo que as garrafinhas fossem verdadeiras, e tentou se convencer de que aquelas memórias de Dumbledore eram forjadas. Por alguns minutos, ele se deixou entrar numa fantasia louca. Tudo aquilo era um plano malévolo e Lupin era na verdade Snape, com Polissuco, agora tentando atraí-lo para algum lugar de onde o levaria para ser entregue, de bandeja, a Voldemort. A raiva era intensa, alimentada pelo ódio a Snape.
Mas, segundo Dumbledore, Severus fizera tudo cumprindo suas ordens. As memórias de Dumbledore garantiam a lealdade do ex-Mestre de Poções de Hogwarts à causa da Ordem. Aquele tinha sido o único meio de capaz de assegurar a posição de espião de Severus dentro do círculo dos Death Eaters, e possivelmente dissipara qualquer dúvida de Voldemort a respeito de Severus.
Harry ainda estava em negação, e navegava em ondas de ódio em seu coração, mesmo enquanto via as cenas: as constantes discussões de Snape e Dumbledore, em que o recém-nomeado professor de Defesa contra as Artes das Trevas alternadamente implorava contra a missão que o diretor de Hogwarts lhe impusera ou se rebelava contra ela. Dumbledore insistia, explicava a situação do jovem Draco.
De olhos arregalados, quase em choque, Harry acompanhava as discussões entre os dois, e as explicações de Dumbledore, que aparentemente foi colhendo esses depoimentos ao longo de todo o ano, com a explícita intenção de deixá-los para Harry – e, como ele mesmo disse, para ser eventualmente usado no julgamento de Severus.
Dizer que Harry estava confuso era subestimar a situação. Desde a morte de Sirius, quando eles tinham se separado, o rapaz passou a nutrir um ódio especial por Snape, tentando provar a Dumbledore que ele era um traidor, que ele não merecia confiança. Até olhar o conteúdo da primeira garrafinha, Harry acreditava, com toda a sinceridade, que Dumbledore tinha cometido um erro ao confiar em Snape. Que o coração do velho bruxo era grande demais, e ele confiava na bondade do coração de Snape, sem se querer acreditar que Snape era um cobra sem coração e sem sangue quente, traiçoeiro e desleal – fiel a ninguém, mas a si mesmo.
Mas Dumbledore pedira que Snape o matasse, que poupasse Draco de virar um assassino. Isso podia parecer inacreditável, mas Harry conhecia o velho professor e sua inesgotável capacidade de pensar o melhor das pessoas. Até aquele momento, Harry acreditava que tinha sido justamente essa qualidade que o matara, que não o deixara ver a víbora que era Severus Snape. Mas não tinha sido assim.
Será que Harry tinha cometido uma tremenda injustiça?
A culpa ainda corroía seu coração quando ele abriu a próxima garrafinha. E a seguinte.
Ao mesmo tempo em que as peças se encaixavam no lugar, como um quebra-cabeça, elas abriam imensos claros cheios de pontos de interrogação e deixavam tudo de pernas para o ar.
Nada seria o mesmo. Tudo mudara.
Próximo capítulo: As revelações de Dumbledore deixam Harry duvidando de si mesmo mais do que de todo o mundo.
