A Noite é Escura...
O dia iria raiar em breve. A porta do quarto estava fechada e os gritos ainda eram ouvidos. As horas foram marcadas por aquele som e pelo terror que Jon tentava combater dentro de si.
A cada minuto que se passava o grito dela era mais fraco e o risco para a vida da mãe e do filho aumentavam. Ele tentou manter a calma durante todo aquele tempo. O septão entoava cantos junto à porta e servos rezavam pela rainha. Jon não seguia a religião dos Sete, mas seria grato por toda ajuda que pudesse ter.
Queria que Bran estivesse ali, com um de seus sonhos verdes, prevendo um dia de alegria para todos. Tyrion tentou iniciar uma conversa algumas vezes, mas sem sucesso. Jon estava preocupado de mais para conseguir dizer qualquer coisa coerente.
Sua falta de senso de oportunidade havia causado aquilo. Não devia ter discutido outra vez com ela, nem mesmo insistido em perguntas que agora eram secundárias. Estavam casados e ela parecia feliz o bastante com ele, que importância tinha o resto, agora que ela corria perigo?
Ele deixou os corredores do Rochedo e foi até o bosque sagrado. Ajoelhou-se diante da árvore coração e rezou para os deuses novos e antigos. Se os espíritos podiam ouvi-lo, que levassem um pedido aos ouvidos de sua mãe, Lyanna, que havia morrido logo após lhe dar a luz. Que Arya fosse poupada. Tudo o que ele queria era que ela vivesse.
Pediu também ao espírito de Ned Stark que olhasse por sua filha. Pediu desesperadamente que não a levassem tão nova, nem o deixassem sozinho agora que ele havia se afeiçoado tanto a presença dela.
Jon deixou o bosque sagrado e foi até as masmorras. O dia ainda não havia nascido e o lugar estava terrivelmente escuro. Gendry estava acordado, o semblante sério e compenetrado.
Se encararam por longos segundos, sem que nenhum deles dissesse uma única palavra. Diziam que ele era parecido com o Usurpador. Não era um homem feio, também não tinha qualquer cicatriz aparente, ao contrário de Jon. Um rosto bem mais agradável de se encarar, Jon supunha. Aquele era o tipo de pensamento que não traria nenhum bem naquele momento.
- Que surpresa vê-lo por aqui tão cedo. – Gandry provocou – Teve a chance de gritar o bastante contra ela? Aposto que lhe deu uns bons tapas na cara, mas pode acreditar, ela não tem culpa de nada.
- Cale a boca! – Jon ordenou, frio e seco. Quem ele pensava que era para presumir tal coisa a respeito dele? Jon podia ter muitos defeitos, mas os deuses eram testemunha de que ele abriria a própria garganta antes de levantar a mão para Arya – Eu não estou aqui pra lhe dar satisfações em relação a minha mulher!
- Então por que está aqui? – Gendry se virou para ele – Não por causa da minha bela aparência, eu aposto.
- Queria olhar para sua maldita cara. Ela esta em trabalho de parto desde que saímos daqui ontem. – Jon disse num rosnado. O prisioneiro arregalou os olhos em espanto e preocupação.
- Até agora? – Gendry se levantou de uma vez – Mas...É muito tempo. Isso não é perigoso?
- Óbvio que sim. – Jon retrucou – E se ela ou meu filho morrerem por causa de uma maldita discussão que não existiria se não fosse por você, pode ter certeza que vou encurtá-lo uma cabeça, seu bastardo de merda!
- Ao invés de me ameaçar, por que diabos não vai para junto dela? – Gendry rosnou – Ou apele para seus deuses! Me ameaçar não vai adiantar de nada!
- Reze para os deuses para que ela viva, do contrário você não vai durar muito. – Jon resmungou dando as costas.
- Farei isso. Se me permitir, eu gostaria de uma vela acesa. Não rezo para os Sete, nem para os deuses antigos, mas rezarei para O Senhor da Luz para que a proteja. – Gendry disse num tom quase solidário – A noite é escura e cheia de terror, mas logo virá a alvorada. Se ela viver, eu juro pelos deuses novos, antigos e pelo Senhor da Luz, eu abandonarei qualquer pretensão ao trono. Dobrarei meus joelhos e serei leal a vocês e seus filhos.
Jon o encarou incrédulo, mas nada no semblante de Gendry dizia que aquilo era uma mentira.
- Por que faz isso? – ele perguntou por fim.
- Pode até ter se casado com ela e ficar furioso, mas eu não vou deixar de amá-la só porque você está aqui, disposto a me encurtar uma cabeça. – Gendry disse severo – O que eu sinto não vai mudar, mas Arya jamais deixará você por minha causa. Nem por isso eu quero que ela morra. Agora, se puder me garantir este favor, me dê a vela acesa e me deixe em paz para fazer minhas preces.
Jon ascendeu a vela em uma das tochas acesas ao longo do corredor e entregou a Gendry. O bastardo Baratheon se ajoelhou diante da fama e começou a sussurrar suas preces ao deus da Mulher Vermelha de Asshai.
Ele deixou as masmorras e voltou para os salões superiores do castelo. Pessoas ainda rezavam e Tyrion estava inquiete. O sol nascia no horizonte e ao surgir dos primeiros raios um último grito ecoou pelos salões, seguido de um choro forte.
Jon arregalou os olhos. Tyrion ficou estático e por alguns segundos todos ficaram em silêncio, esperando por mais um sinal de vida. O choro era persistente e forte... Os deuses eram bons. A criança estava viva e bem.
Levou algum tempo para que a porta do quarto fosse aberta e o maester saísse de lá, tilintando sua corrente. O velho encurvado fez uma breve reverência ao jovem rei e a Tyrion Lannister, anunciando que Jon poderia ver sua esposa e a criança se assim desejasse.
- Ambos estão bem? – ele perguntou temeroso.
- Estão bem. – o maester disse – Mas foi demasiado desgastante para a rainha. Pequena de mais para a criança, que estava virada dentro do útero. Descanso é do que ela precisa. Tanto quanto for possível.
- Ela terá outros filhos? – foi Tyrionn quem perguntou.
- Ela é jovem ainda e forte como o diabo, não fosse por isso ela teria se esvaído em sangue e morrido na cama de parto. É uma guerreira, se querem saber. – o maester disse convicto – Vai se recuperar e não há razão para crer que não possa ter quantos filhos quiser.
Jon fez um breve aceno de cabeça e entrou nos aposentos dela.
Por um momento ele teve de respirar fundo e tentar acalmar o estômago. Já havia participado de incontáveis batalhas, mas isso não tornava a visão menos assustadora. Lençóis e mais lençóis encardidos com sangue fresco, bacias de água quente tingida de sangue, tesoura e pinças. Arya, pálida como um cadáver sobre a cama. Seus olhos semi abertos davam uma aparência ainda mais assustadora a ela.
Ele caminhou cuidadosamente até ela e segurou sua mão. Beijou-lhe os dedos um a um. A mão dela se ergueu debilmente e acariciou o rosto dele.
- Antes que possa se martirizar, me faça o favor de olhar pro seu filho primeiro e me deixar descansar. – ela resmungou fiapo de voz.
- Você assustou todo mundo. – ele disse – Achei que ia perder você. Não tem autorização pra me deixar, entendeu? Isso é uma ordem real. – ela riu um riso sem graça.
- Não vou. – ela disse num sussurro – Eu fiz meus votos. Não vou deixar você, Jon. Agora vá ver seu filho, ou eu vou ter motivos pra te infernizar o resto da vida.
Foi quando ele se virou para encarar a serva que segurava um pequeno embrulho nos braços. Com cuidado, ele pegou aquele amontoado de panos no colo e afastou uma das mantas para ver o rosto da criança e o sexo.
Lembrou-se de quando estava prestes a se juntar a Patrulha e Benjen Stark disse que ele não fazia ideia das coisas que estava abrindo mão. E não fazia mesmo.
Ele não tinha palavras para descrever aquele momento, só sabia que era poderoso e incomparável. Riu como um bêbado, ou um tolo, sem dar qualquer importância a isso. Cinco dedinhos minúsculos em cada mão e em cada pé. Dois olhos cinzentos e uma penugem escura sobre a cabeça. Lembrou-se de Bran e Rickon quando nasceram, mas este era muito mais bonito do que qualquer uma das crianças Stark.
Era seu filho. Seu primeiro filho e era perfeito.
- Como vamos chamar você? – Jon perguntou em voz alta, avaliando o rosto da criança – Eddard, Brandon? O que acha?
- Um nome Targaryen, Jon. – Arya murmurou meio adormecida, meio acordada – Ele é seu herdeiro, precisa de um nome Targaryen.
Jon ponderou por um segundo e a resposta veio de forma clara em sua mente.
- Conheci um grande homem, um homem sábio, com sangue do dragão nas veias. – ele disse – Seu nome será Aemon, como príncipe Aemon, O Cavaleiro Dragão e como Aemon, o maester de Castle Black, meu tio avô.
- Um bom nome. – ela respondeu fechando os olhos – Digno de canções. Até Sansa gostaria.
Jon se virou para encará-la. Ela fechou os olhos e se aninhou de baixo das cobertas, pronta para desfrutar de algum descanso. Amanhã falariam e ela poderia receber as felicitações de todos, mas naquela noite ela era apenas uma guerreira exausta em razão da batalha.
Ele segurou o filho com mais força ainda. Na manhã seguinte ela acordaria descansada e bem disposta e talvez Jon pudesse agradecê-la por ter lhe dado aquele presente.
Nota da autora: Tralalá! Pois é gente, é um menino e ninguém acertou o nome XD. Não quis colocar Rhaegar, pq apesar do Rhaegar ser o pai biológico do Jon, eles nunca se conheceram. Aemon é um nome valyriano e o Maester Aemon foi uma figura importante na vida do Jon, então acho que era a escolha mais certa. Então, eu sempre imaginei Jon com uma renca de filhos, o que pode significar que este é apenas o início do Jardim de Infância de King's Landing. Primeira interação entre ele e o Gendry foi bem...Camarada eu diria XD.
Queria saber se o capitulo anterior tá aparecendo direitinho pra todo mundo, pq eu só consegui acessar ele agora a pouco. Qualquer problema me avisem que eu posto ele de novo.
Bjux
Bee
