Fruto Proibido

Obs1: Saint Seiya não me pertence, como todos devem saber. Por ser um fic de Universo Alternativo os personagens deverão sofrer algumas alterações em suas personalidades.

Obs 2: : O nome Carlo foi dado ao personagem Máscara da Morte pela escritora Pipe. Portanto, todos os créditos à ela.

Obs 3: Esse é um fic Kamus e Milo. Há muito tempo não escrevo um fic com esse casal, mas gosto dos dois juntos. Na verdade, como devem saber, gosto de todos com todos D.

Obs 4: Esse é um fic de presente de aniversário para a Shiryuforever94. (Dia: 29/04). Fofa, Parabéns pelo seu dia. Tu sabes que te adollo né? Beijinhos e espero sinceramente que curta o seu fic.

9

Kamus percebeu de imediato a mudança em Milo Scorpio. Era final de tarde, e ele indicou um riacho que serpenteava por entre algumas árvores. As águas cristalinas brilhavam ao sol poente.

- Vamos parar para descansar ali adiante – disse Milo – e dessa vez faremos uma pausa mais longa. Que tal lhe parece a idéia? Está de acordo?

Kamus ficou de queixo caído. O loiro quase não falara nada o dia inteiro, e agora estava perguntando a sua opinião. Perguntando, imagine!

Mudo de espanto, ele se limitou a assentir com um gesto de cabeça, enquanto se perguntava o que teria provocado tal mudança. Até o momento de desmontar e deixar os cavalos beberam água, porém, Kamus ainda não encontrara uma resposta.

Enquanto Flama e Fuego matavam a sede, Milo apontou para um local riacho acima e sugeriu. – Você pode ir tomar água e se refrescar um pouco ali. Eu ficarei cuidando dos cavalos aqui, e depois os deixarei num lugar onde possam pastar antes de ir me juntar a você, combinado?

- Combinado – murmurou Kamus, tentando imaginar por que o sorriso que Milo lhe dirigiu o fez ter a sensação de ter ganhado um lindo presente.

Devo estar delirando... Scorpio, sendo gentil comigo?

O ruivo lhe sorriu de volta, inseguro, e começou a afastar-se. Sentiu um leve puxão numa mecha de cabelo que escapara do coque e virou-se, surpreso.

- Você parece ter tomado sol demais – disse Milo. – É melhor passar mais um pouco de protetor solar, antes de ficar com o nariz e as faces ainda mais vermelhos. – Ele acariciou-lhe as orelhas, acrescentando. – Passe um pouco de protetor nas orelhas, também.

Kamus sentiu um ligeiro arrepio de prazer. Permaneceu paralisado por alguns segundos, sem conseguir se mover ou falar, tentando adivinhar se existiria no mundo algo mais azul que os olhos de Scorpio; tentando adivinhar que misteriosa lei da natureza dava a certos homens cílios tão grossos e longos.

Mais tarde, Kamus se deu conta de que a sua estranha paralisia teria durado muito mais se Flama não houvesse escolhido aquele exato momento para relinchar. O relincho da égua puro-sangue foi o que bastou para acabar com o torpor de Kamus, que baixou a cabeça e murmurou algo ininteligível antes de pegar a sua maleta e afastar-se as pressas.

Milo o seguiu com o olhar, refletindo que o ruivo possuía o andar naturalmente gracioso de um bailarino, movendo-se como uma flor em botão soprado pelo vento. Kamus podia ser jovem, mas mesmo sob as roupas sérias que usava dava para perceber que tinha um corpo de homem. Imagine só, uma beldade daquelas saindo de um convento!

Franzindo a testa, Milo pensou no marido que Don Kamie escolhera para Kamus. Era bem típico de um mafioso falso moralista obrigar o filho a casar antes de deixá-lo aproveitar um pouco a vida. Um garoto ainda tão novo...

Milo contraiu os lábios numa careta de desgosto. Mas era essa a intenção, não era? Obrigar o filho a subir ao altar enquanto ainda era jovem, inexperiente e tolo – inexperiente e tolo demais para saber no que estava se metendo – e daí ele passava a ser responsabilidade do marido. Uma "responsabilidade" que, em geral, costumava ser mantida trancafiada dentro de casa.

Uma onda de raiva invadiu Milo ao imaginar Kamus sendo submetido a tal destino. Que injustiça... O garoto podia ser jovem e inexperiente, sim, mas não era nem um pouco tolo!

Ele se lembrou de Kamus depenando e destripando o peru selvagem com determinação, e um sorriso curvou-lhe os lábios. Quem quer que fosse o tal Carlo Cancerini que Don Kamie escolhera para ser marido do filho, era melhor que o sujeito tivesse pulso firme. Kamus não parecia ser do tipo que se submetia com docilidade a...

Mas ele passara doze anos fazendo exatamente isso, submetendo-se ao estilo de vida rígido do seminário. Fora por esse motivo que don Kamie o deixara ao cuidado dos padres, certo? O pai desejara que o filho aprendesse a ser submisso e dócil.

Mas, e Kamus? O que é que ele desejava?

Milo observou a figura esguia ajoelhada à beira do riacho, lavando o rosto. Com mil diabos, mesmo fazendo uma coisa tão simples quanto lavar o rosto, Kamus era gracioso... Gracioso e belo...

Balançando a cabeça, Milo procurou controlar a raiva que sentia ao pensar no futuro que Kamiereservara para o filho. Talvez Kamus estivesse de acordo com os planos do pai. Talvez ele não desejasse mais nada da vida além de se casar com o tal rapaz italiano.

No fundo, porém, Milo não acreditava nisso.

Olhando para o relógio, ele viu que já passava de quatro e meia. Havia tempo suficiente para descansar um pouco e depois prosseguir viagem por mais um par de horas, antes de montar um acampamento improvisado onde pudessem passar a noite. Tempo suficiente para puxar conversa com Kamus e descobrir como ele se sentia a respeito de ser obrigado a casar só para satisfazer o orgulho e a ambição do pai.

Milo tornou a sorrir, malicioso. Já sabia até como abordaria o assunto sem amedrontá-lo...

Minutos mais tarde, ambos estavam sentados frente a frente, cada um recostado no tronco de uma árvore. Kamus enxugou o rosto com um lencinho de cambraia que tirou da maleta. Milo, que também se lavara no riacho, usou a manga da camisa para enxugar o próprio rosto; em seguida, coçou o queixo e comentou. – A barba provoca coceira quando está crescendo, especialmente quando faz calor. Certa vez, quando eu estava a serviço na Itália, fui obrigado a deixar crescer a barba por razões que não vêm ao caso agora. – prosseguiu Milo. – Era verão, fazia um calor de matar, e o meu trabalho me obrigava a passar longas horas ao ar livre, ao sol.

Milo tornou a coçar o queixo, num gesto que tinha algo de sensual. Observando-o, Kamus teve a impressão de estar vendo um gato espreguiçando-se ao sol.

- Houve ocasiões, na primeira semana, em que pensei que fosse ficar louco por causa da coceira que sentia no rosto. – continuou Milo. – Roma, no verão, é um verdadeiro inferno. Não é a toa que os romanos ricos abandonam a cidade e vão para suas casas de praia, no verão.

Kamus assentiu. Sabia que os Cancerini tinham uma villa em Capri. Era lá que Carlo e ele passariam o verão quando voltassem da viagem de lua-de-mel pelas ilhas gregas, no iate particular de don Kamie.

Pensar na lua-de-mel fez Kamus enrubescer de novo. Ele baixou a cabeça, embaraçado. De repente, percebeu que o seu rubor não tinha nada a ver com a intimidade que partilharia com Carlo, e tinha tudo a ver com Milo Scorpio.

Porque, no fundo, o ruivo não sabia quase nada sobre a intimidade de dois homens. Tinha uma vaga idéia das preliminares, claro, graças aos filmes que Kanon "contrabandeara" para dentro do seminário. Não tinha, porém, nenhuma experiência pessoal sobre o assunto. Ver um ator fazer amor com um outro na tela da tevê não significava experimentar a sensação de fazer amor. Assistir em Brokeback Mountain dois homens se acariciando não era a mesma coisa que ter o seu próprio corpo acariciado por mãos másculas. Kamus era totalmente ignorante nesse tipo de coisa, e era enervante se dar conta disso sob o olhar penetrante de Milo Scorpio, que o fazia sentir-se tolo e inexperiente.

Milo notou o rubor nas faces de Kamus, mas não deu muita atenção ao fato. Estava mais preocupado em dirigir a conversa para o assunto que o interessava.

- Passei por um desconforto terrível naquela primeira semana em Roma, pode acreditar – comentou o loiro. – A propósito, se conseguirmos nos safar da enrascada em que estamos metidos, você irá para Roma, não é mesmo?

- Sim – respondeu Kamus, gostando da mudança de rumo da conversa. – Mas chegarei lá em junho, no comecinho do verão. Acho que ainda não vai estar fazendo muito calor.

- Você já esteve em Roma antes?

- Duas vezes, quando meu... Quando eu ainda era bebê. É óbvio que não me lembro de nada.

Milo pensou ter visto uma sombra de tristeza passar pelos belos olhos azuis, mas não deu muita importância ao fato e voltou a perseguir o seu objetivo.

- Duvido que você passe calor em Roma, "padrecito". Afinal, quando estiver na cidade, o mais provável é que você só freqüente lugares onde exista ar condicionado.

- É verdade.

- Ah, como o invejo! Você conhecerá a Cidade Eterna em grande estilo: pátios floridos e sombreados, limusines com ar-condicionado, piscinas... – Como quem não quer nada, ele acrescentou. – Deve ser legal ter a vida toda planejada e não precisar se preocupar com o lugar onde vai morar, esse tipo de coisa.

- É conveniente, mas para mim isso não é novidade. Vivi toda a minha vida assim.

- Compreendo... Bem, acho que o seu pai sabia o que estava fazendo quando arranjou esse casamento para você. Não foi má idéia, foi? Parece que você vai passar da vida antiga para a vida nova sem maiores problemas.

Os olhos de Milo o fitava com atenção, e mais uma vez Kamus ficou fascinado ao notar o quanto eles eram vivazes. Vivazes e penetrantes. Emoldurados pelos cílios longos, claros e espessos, os olhos de Milo pareciam alcançar-lhe o íntimo, onde algo doce e desconhecido começava a despertar.

- Os planos de meu pai para o meu futuro têm lá o seu mérito, eu suponho. – murmurou ele, por fim.

- Sim, com certeza. Ah, isso é que deve ser vida! Não ter preocupações nem decisões a tomar, obrigações a cumprir... Não precisar erguer um dedo para... Ei, o que foi? Eu disse algo errado?

Kamus franzira a testa quando o real significado das palavras de Milo começara a penetrar-lhe a mente. A vida que ele estava vangloriando, a vida que o ruivo levaria casando-se com Carlo, era exatamente uma das coisas que mais o irritara quando o seu noivado fora anunciado. O assunto ainda o irritava, quando se permitia pensar nele. Uma irritação provocada pela idéia de vir a ser esposo de um sujeito que nem conhecia. Ninguém nunca lhe perguntara se desejava casar-se com Carlo. Ninguém! Será que Milo Scorpio, ao elogiar o seu estilo de vida super protegido, já havia parado para pensar nisso?

- Não! – exclamou Kamus, de repente.

Milo ergueu uma sobrancelha, obrigando-se a permanecer sério. Sabia que as suas suspeitas em relação ao que Kamus pensava sobre o casamento arranjado iam ser confirmadas. No entanto, limitou-se a perguntar, fingindo inocência. – "Não" o que?

- Não é isso que é vida! Como você se sentiria se soubesse o que, e como, estaria fazendo dia após dia, ano após ano? Você acha legal não ter preocupações nem decisões a tomar? O que me diz de ver alguém sempre tomando as decisões por você, sem consultá-lo?

Exaltado, Kamus ficou de pé e começou a andar de um lado para o outro. Toda a energia que trazia reprimida entro de si extravasara agora, de modo selvagem, trazendo-lhe lágrimas aos olhos.

- Você acha mesmo que "é vida" nunca poder tomar decisões, grandes ou pequenas, que vão influenciar a sua vida de modo definitivo? – perguntou o ruivo, zangado.

Chocado diante da reação de Kamus, Milo arrependeu-se do jogo que começara. Pretendera apenas satisfazer uma curiosidade íntima, mas acabara tocando num nervo sensível.

- Não, não acho – respondeu o loiro, por fim.

A seriedade do olhar de Milo arrefeceu a fúria de Kamus por um instante. O ruivo percebeu que estava melhor preparado para lidar com Milo quando ele o provocava e bancava o machão, e não quando se mostrava sincero. Ao notar que estava com o rosto banhado de lágrimas, Kamus enxugou o rosto e desviou o olhar, embaraçado, enquanto concluía. – Nesse caso, sr. Milo Scorpio, sugiro que pare de fazer comentários sobre assuntos que ignora totalmente!

Em silêncio, Milo pôs-se de pé, Sentia-se confuso com o que acontecera. Como explicar que apesar de tudo por que passara Kamus não derramara uma única lágrima nas últimas vinte e quatro horas, mas que a simples menção do seu casamento e do seu futuro o fizera chorar?

Desejando jamais ter tocado no assunto, Milo olhou para Kamus, que se virara de costas, e balançou a cabeça. Crianças e animais... Será que nunca aprenderia? Crianças e animais era o seu ponto fraco, e se não tomasse cuidado...

Inexplicavelmente aborrecido com Kamus e consigo mesmo, Milo aproximou-se dos cavalos, dizendo. – Já perdemos tempo demais, vamos seguir em frente!

O sol já se punha no horizonte quando Milo decidiu que era hora de parar outra vez. A ravina pouco profunda parecia um bom lugar para montar acampamento. As chuvas recentes haviam alimentado o riacho que passava por ali, portanto havia água em abundância pra todos e pasto de sobra para os cavalos. Além disso, na área que cercava a ravina, não havia árvores nem pedras que pudessem servir de esconderijo para alguém que quisesse se aproximar sem ser visto. Milo já havia decidido acender uma grande fogueira de sinalização, que fosse nos seus termos, pelo menos.

Ele olhou para Kamus, que acabava de descer de cima de Flama, e perguntou-se se não estaria exigindo demais dele. O jovem cambaleou por um segundo, e foi obrigado a apoiar-se na égua para não cair. Era evidente que estava exausto, mas não reclamara de cansaço nem uma vez.

- Por que você não vai até o riacho para se refrescar um pouco, enquanto eu cuido das coisas por aqui? – sugeriu Milo, em tom gentil.

Kamus fitou-o com gratidão, assentiu e foi para perto do riacho, levando a maleta consigo.

Milo levou os cavalos para beber água e depois os deixou pastar. Notou que os animais estavam em boa forma, apesar da grande distância que havia percorrido. Satisfeito, acariciou-lhes a crina e foi montar o acampamento.

Acender uma fogueira foi fácil. Havia muitos gravetos e galhos de árvores, trazidos pelo vendo, espalhados pelo chão. Comida, no entanto, era um problema. O peru selvagem que haviam assado de manhã já terminara, e não era boa idéia desperdiçar munição. Se não houvesse outro jeito, porém...

Olhando na direção do riacho, Milo avistou Kamus sentado numa pedra, com as pernas nuas dentro da água. Ele havia lavado os cabelos, e agora os torcia para retirar o excesso de água.

Molhados, os cabelos ruivos tinham a cor de vinho tinto, exceto pelas mechas iluminadas pelos últimos raios solares, que brilhavam feito cobre. Milo surpreendeu-se ao ver o quanto os cabelos de Kamus eram longos, agora que ele desmanchara o coque.

- Tem certeza de que não há roupas secas na sua maleta? – perguntou o loiro, de longe, ao notar que a cueca branca de algodão e a camisa de Kamus estavam molhadas.

Kamus lembrou que Milo já vira a roupa indecente que Kanon colocara em sua maleta e não teve vergonha de mencioná-lo.

- Fora algumas peças de baixo, não tenho nenhuma outra roupa na maleta.

- Bem... trate de tirar essas roupas molhadas e visto algo seco antes de eu voltar para o acampamento. Não se esqueça de que vai esfriar bastante quando anoitecer.

Kamus assentiu e observou-o afastar-se, com a pistola na mão. Será que ele conseguiria caçar outro peru selvagem ou algo do gênero?

Vendo os cavalos pastarem a poucos metros de distancia, Kamus obrigou-se a não pensar em comida. Se Milo caçasse algo, ótimo; caso contrário, passaria uma noite de estomago vazio, e daí? O desaparecimento do avião, com certeza, já fora notado. Equipes de resgate aéreas e terrestres já deviam ter sido acionadas. Seu pai não perderia tempo tentando descobrir o que acontecera, tentando encontrá-lo.

Tremendo de frio por causa da brisa que começara a soprar depois que o sol desaparecera atrás da montanhas, Kamus saiu apressado do riacho. Tirou a camisa e a cueca molhada, que aproveitara para ensaboar e enxaguar – sem tirá-los do corpo – enquanto lavava o corpo e os cabelos com sabonete e xampu. Por sorte Kanon colocara na maleta todos os artigos de toalete necessários!

Kamus pegou a cuequinha extravagante e hesitou apenas um segundo antes de vesti-lo. Depois, vestiu a calça e o casaco do conjunto creme, que continuavam sujos, mas que serviriam para protegê-lo do frio. Logo em seguida, calçou os sapatos.

Sentindo-se mais aquecido, e também cansado e sonolento, foi para perto da fogueira. Viu que Milo estendera os pára-quedas sobre uma camada de folhas e sorriu. Sentando-se na cama improvisada, começou a pentear os cabelos.

Continuou a sorrir enquanto pensava em Milo Scorpio. O guarda-costas gringo era tão estranho... Kamus riu baixinho ao perceber que usara o termo "gringo"; devia ter aprendido a palavra vendo um dos filmes que Kanon costumava levar às escondidas para o seminário.

De qualquer modo, Scorpio correspondia bem à imagem. Alto e forte, parecia um daqueles pistoleiros que apareciam em velhos filmes americanos de faroeste: um herói solitário que dependia da inteligência e da destreza para sobreviver. Como um personagem vivido por Clint Eastwood ou John Wayne, era durão e perigoso.

Sem mencionar que também é bonito, refletiu Kamus, enrubescendo.

Mas a beleza de Scorpio tinha algo de rústico. Ao contrário de Carlo Cancerini, por exemplo, que era bonito de um jeito muito "certinho". Comparando os dois homens, Kamus pensou numa ametista lapidada que vira certo dia na vitrine de uma joalheria. A pedra fora colocado ao lado de um geodo contendo cristais de ametista em estado bruto. Carlo era a ametista lapidada.

Milo Scorpio era uma ametista em estado bruto.

Talvez compará-lo a um pedregulho sem valor fosse uma analogia ainda mais adequada, corrigiu-se Kamus ao pensar no modo como Scorpio o vinha tratando desde que se conheceram. "Padrecito", imagine só! Alternando zombaria e silencio, Scorpio era um homem indecifrável. Às vezes Kamus chegava a pensar que ele o culpava por tudo de ruim que acontecera até o momento. Sendo assim, talvez fosse mais seguro obedecê-lo e ficar calado. E manter-se afastado dele tanto quanto fosse possível.

No entanto, quando Kamus começara a chegar à conclusão de que Milo Scorpio não passava de um machão insensível, ele mudara de comportamento: fora gentil a ponto de montar o acampamento sozinho, enquanto permitia que ele se banhasse e descansasse! Bocejando, sonolento, Kamus guardou o pente na maleta e deitou-se, enquanto sua mente tentava desvendar o enigma representado por Scorpio.

Quando voltou ao acampamento meia hora mais tarde, Milo encontrou Kamus adormecido. A fogueira estava reduzida a um amontoado de brasas avermelhadas. A lua já surgira no céu, e sob a pálida luz prateada do astro noturno, Milo pôde observar as linhas do rosto de Kamus. Um rosto delicado, emoldurado como um camafeu pelos cabelos soltos, espalhados sobre a seda do pára-quedas.

Milo precisou controlar-se ao máximo para não acariciar os cabelos ruivos a fim de verificar se eram tão macios quando pareciam. Meter-se com Kamus Aquarius é encrenca na certa, meu chapa. Nem pense em chegar perto dele!

Virando-se de costas, Milo jogou mais lenha na fogueira e colocou a codorniz que caçara num espeto improvisado. Enquanto a ave assava sobre o fogo ele foi lavar-se no riacho, onde encontrou um sabonete e um aparelho de barbear descartável em cima de uma pedra.

"Padrecito" atencioso, pensou, sorrindo.

Barbeou-se e banhou-se às pressas. Embora a brisa tivesse parado de soprar, a temperatura estava caindo bastante.

Retornando ao acampamento, terminou de assar a codorniz. Em seguida, despertou Kamus.

- Ei, "padrecito", acorde! – chamou, chacoalhando o ruivo de leve pelos ombros.

Kamus abriu os olhos e bocejou.

- O jantar está pronto, belo adormecido – anunciou Milo. – Não quer comer um pouco?

O ruivo esfregou os olhos e sentou-se.

- Você conseguiu caçar alguma coisa? O quê? Humm, o cheiro está delicioso!

Rindo, Milo entregou-lhe um pedaço da codorniz. Nesse momento, Kamus o fez lembrar uma criança que fica feliz ao ganhar um doce.

De repente, sem querer, ele olhou para o casaco aberto de Kamus e virou-lhe o peito à mostra, todo definido. Engolindo em seco, desviou depressa o olhar, murmurando. – Cacei uma codorniz, "padrecito". Agora fique quieto e coma logo, enquanto a comida ainda está quente.

Kamus baixou a cabeça, procurando esconder a mágoa que as palavras ditas em tom rude lhe provocaram. Afinal, não era a primeira vez que Scorpio se mostrava gentil para depois voltar a mostrar-se bruto. Já devia estar acostumado com isso.

Enquanto comia o pedaço de carne que tinha nas mãos, o ruivo atreveu-se a erguer os olhos por um segundo. Viu que Milo estava perto da fogueira, com uma asa da codorniz esquecida entre os dedos, olhando para o fogo. Ficou a imaginar no que ele estaria pensando, mas logo deixou a curiosidade de lado. Talvez fosse melhor não saber.

Suspirando, Kamus contentou-se em observar o corpo musculoso. Notou que Milo usava as mesmas roupas, claro, e notou também que ele tomara banho e fizera a barba. Os cabelos loiros ainda estava úmidos, e mesmo a distância ele podia sentir o perfume do sabonete. Um sorriso maroto curvou-lhe os lábios. Será que Scorpio gostava de perfume de jasmim?

Terminando de comer, Kamus jogou os ossos da codorniz na fogueira. Estremeceu, reparando pela primeira vez o quanto a temperatura abaixara. Segurou as pontas da faixa de linho que trazia na cintura, pensando em fechar melhor o casaco – e abafou uma exclamação de susto.

Aberto, o casado deixava seu peito praticamente à mostra e o ruivo nem tinha notado isso antes! Com o rosto ardendo de embaraço, Kamus apressou-se a fechar o casaco, amarrando bem a faixa na cintura. Envergonhado com a possibilidade de Scorpio ter visto seu corpo, duvidou que fosse conseguir dormir.

Mas o dia fora longo e cansativo, e o ruivo loco começou a cabecear de sono. O seu último pensamento, antes de adormecer, foi que talvez Milo Scorpio nunca mais o chamasse de "padrecito" outra vez.

Milo esperou que Kamus dormisse antes de mover-se. Abafou o fogo, depois se virou para observar a figura adormecida a menos de dois metros de distância.

Santo zeus, será que Kamus faz idéia do quanto seria fácil para mim...

Resmungando um palavrão, Milo interrompeu o pensamento pela metade. Nada a respeito da presente situação era fácil, principalmente o filho virgem de don Kamie Aquarius.

Milo olhou ao redor , imaginando se seria confortável dormir encostado nas pedras do lado oposto à fogueira. Tornando a praguejar, decidiu deitar-se na cama improvisada. Não permitiria que nada nem ninguém o impedisse de ter uma boa e confortável noite de sono!

Não se preocupou com a possibilidade de alguém se aproximar do acampamento enquanto dormia. Anos de condicionamento o haviam ensinado a pressentir o perigo mesmo enquanto dormia.

Já passava da meia-noite quando Milo acordou de repente. Alerta, demorou apenas alguns segundos para perceber que nada ameaçava o acampamento. Só então se deu conta de qual era o problema.

Enquanto dormia, Kamus mudara de posição, aproximando-se, e agora se encontrava aninhado de costas contra o corpo de Milo. Milo, por sua vez, respondera inconscientemente ao calor do corpo do outro; abraçara Kamus, e uma de suas mãos estava apoiada sobre o peito quente e macio.

Para piorar as coisas, o membro viril de Milo, ereto de excitação, estava pressionando contra as nádegas do outro.

Maldição!

Trincando os dentes contra o desejo que lhe incendiava as veias, Milo tentou afastar-se sem despertar Kamus. Mal havia feito o primeiro movimento quando Kamus mudou de leve de posição, e a pontinha do mamilo de Kamus roçou a palma da mão do loiro.

Milo fechou os olhos e respirou fundo, lutando contra a luxúria que o invadia. Jamais se sentira tão excitado em toda a sua vida; o calor do corpo masculino, o perfume e a maciez dos cabelos que lhe roçavam o rosto o estavam levando à loucura.

Mas quem se encontrava a seu lado era Kamus Aquarius, o filho de um poderoso chefão mafioso, a isca que ele iria usar para capturar Wyvern. Não podia se esquecer disso, assim como não podia entregar-se à realização do desejo que o consumia, a menos que quisesse ser um homem morto. O melhor que tinha a fazer era levantar-se e ir tomar um banho gelado no riacho, antes que fosse tarde demais.

Kamus despertou de mansinho, sem saber direito onde estava, e percebeu que uma deliciosa sensação lhe percorria o corpo todo. Uma sensação nova, vibrante, com promessas de um prazer ainda maior. Era como se estivesse sonhando...

De repente ele se lembrou de onde se encontrava, percebeu o que estava acontecendo. O corpo de Milo moldava-se ao seu, transmitindo-lhe calor. Podia sentir a respiração dele em sua nuca, e segundos depois sentiu que era beijado num ponto sensível atrás da orelha.

Mas o centro de toda sensação era um calor gostoso na virilha. Um calor que aumentou ainda mais quando os dedos de Milo acariciaram um dos seus mamilos e...

Milo o ouviu gemer baixinho e ficou paralisado. Logo em seguida, afastou-se para o extremo oposto da cama improvisada e ficou à espera... De quê? Recriminações? Lágrimas?

Quando viu que Kamus permanecia em silêncio, levantou-se e foi até o riacho, recriminando-se por quase ter cometido um grande erro.

Continua...

Olá, pessoal. Gostaram do capítulo. Me desculpem se não consegui atingir as expectativas de vocês. Ultimamente eu tenho estado bastante depressiva e a cada dia parece que tudo está piorando de alguma forma. Ao menos uma coisa me deixa feliz: Escrever fics e jogar RPG com meus amigos, papear no msn... E gostaria de agradecer a todos aqueles que têm me apoiado neste momento tão difícil. Akane M.A.S.T principalmente, porque além de ser minha querida beta, sempre tem estado comigo, me apoiando e acima de tudo, me animando. Eu quero muito continuar o fic... e então, quem é que vai deixar meus dedinhos felizes agora em? Afinal, dedinhos felizes digitam mais rápido ^-^ Beijos a todos da Muk-chan \o/