Capitulo Nono.
O dia nasceu e Tywin apenas observava, perdido em divagações, a forma como a luz tocava o grande jardim que se entrevia pela janela dos aposentos em que estava com a esposa. Catelyn não estava bem, como era de se esperar. Ela não chorava, não falava, não respondeu nenhuma pergunta. Apenas adormeceu, após banhar-se longamente.
Adormecida como estava, mesmo pálida e com o rosto inchado, Tywin imaginava se haveria em alguma parte, em algum outro país, algum outro mundo, uma mulher tão bela. Torturava-se ao pensar no que lhe fez passar. Pediria perdão, estava decidido a isso. Ela fora colocada diante de uma cópia do noivo morto, ela precisou observar o fantasma de carne de Brandon Stark interagindo com a esposa e com o pequeno filho... Ele imaginou-se na mesma situação que ela.
Doía, concluiu. E mesmo machucando e sendo incomodo como um banho de magma, ela segurava sua mão, com dedos entrelaçados, apoiava-se nele, passara toda a noite junto dele, não mentiu ao ser questionada, aninhou-se em seus braços buscando refugio... E o que ele fez em retorno? Como ele retribuiu tanta entrega da parte dela? Ele a feriu.
Então estavam naqueles termos. Catelyn podia ter seus fantasmas, mas Tywin era sua fortaleza, foi nele que ela buscou apoio, era com ele que ela contava. E quando ela disse que ele havia acabado com tudo... ele de fato havia feito isso. Como seu guardião protetor podia ser o mesmo homem que a submetia a uma situação tão degradante?
Arrependimento dói fundo, ele pensou quando ela estremeceu na cama, cobrindo os olhos para afastar a luz. Ele foi rapidamente fechar as cortinas e aproximou-se da cama. Não queria perturbá-la, não queria que nada a incomodasse. Ela estava com muito medo dele, já que quando o viu tão próximo, assumiu uma expressão desalentada e apavorada, afundando o máximo possível nos travesseiros.
-Eu quero ver Lysa. –ela disse com a voz rouca, pelo sono.
-Sua irmã esta muito grávida para vir até aqui, estamos no outro extremo da Fortaleza Vermelha. Nós temos que conversar.
-Então eu quero ver Jon Arryn. –ela disse, agora firme.
-O que você quer com seu cunhado? Isso não tem proposito algum... Não! –ele entendeu o que ela queria fazer. Ela queria acusá-lo, e ele não permitiria aquilo.
-Eu não vou seguir assim... –Catelyn externou sua resolução- Não vou viver uma vida aterrorizada sobre como você vai agir, muito menos me sujeitando a abusos como o da noite passada... Eu não posso acreditar em nada que você fale, tudo o que eu sinto ao olhar pra você é medo. E decepção.
-Você é minha, você não pode...
-Eu não sou sua! –ela agora falava em voz alta, completamente transtornada- Eu não sou uma coisa, eu sou uma mulher! Eu não lhe pertenço para que você faça de mim o que quiser!
-Obviamente pertence! –ele tentou rebater.
-Não... –ela repetiu, a voz controlada e impregnada de mágoa- Eu não pertenço. Eu pertenço a mim mesma. Eu cumpro meus deveres com honra, em nome da minha familia, que era você... –ele observou bem o uso do passado em sua frase- Mas eu fazia isso com vontade, com respeito... mas cada vez mais você me fez temer suas reações, você começou a me tratar de modo diferente... Eu compreendi você pelas atrocidades cometidas aqui, contra as crianças Targeryan, mas você não pode entender que eu estava vivendo um pesadelo e precisava do seu apoio para sair dele! Você não foi capaz de retribuir! Eu precisava da sua voz me dizendo que entendia o que eu estava passando, porque de todas as pessoas no mundo, eu imaginei que você entenderia... e o que você fez? –ela perguntou num suspiro- Tywin, o que você fez?
-Catelyn... -ele tentou argumentar, mesmo sem possuir argumento nenhum.
-Você destruiu tudo, tudo o que eu sentia por você, tudo o que eu esperava de você... Eu me sinto completamente perdida!
-Não... –ele segurou as mãos dela -Eu fui extremamente cruel e egoista, eu lhe prometo, eu lhe dou minha palavra de honra... eu faço o que você quiser... Mas não deixe que sua afeição por mim se acabe! Eu não sei como você pode estar tão magoada por algo que estamos fazendo o tempo inteiro!
-O que? –ela perguntou em falsete, sem acreditar no que escutava- Tywin, nós fazemos amor o tempo inteiro! Nós não conseguimos permanecer vestidos se estamos no mesmo quarto, eu não consigo não beijá-lo quando estamos sozinhos... Mas o que aconteceu aqui ontem... Você me forçou, você me humilhou, me machucou!
-Eu tenho o direito de ter você quando eu quiser e como eu quiser. –ele pontuou- E se eu estiver enfurecido por vê-la choramingando por causa de outro homem e decidir lhe dar uma lição... eu sou seu marido!
-Isso não tem cabimento! –ela não acreditava que estava escutando aquilo- Você fazia isso com Joanna quando ela merecia uma lição?
-Não fale sobre ela!
-Então afaste-se de mim! –ela o empurrou, imaginando que ele seria muito capaz de agredí-la de volta- Se você vai fazer o que quiser comigo eu agirei de acordo com o que você merece! E se eu preciso invocar a memória de Joanna para saber se essa é uma prática comum de sua parte, eu o farei!
-Joanna nunca chorou por outro homem na minha frente!
-Mas quantas vezes você chamou o nome dela enquanto dormia? –Catelyn despejou, o que de fato era verdade. Mas como ela mesma sempre estivera com o pensamento entorpecido de dor por Brandon, ignorou isso, compreendeu que ele também vivenciava a dor da perda.
-Isso não é verdade. –ele rebateu.
-Jamais mentir, esqueceu? –ela relembrou a ele- Não podemos seguir assim...
-Não, nós não podemos! –ele suspirou, coçando a cabeça, buscando uma solução- Eu não deveria ter invocado tantas verdades se não seria capaz de lidar com elas! É apenas por saber o quanto você ainda ama o Stark que eu atuei daquela forma.
-Não justifica. Como ter um ataque de ciúmes e possessividade de uma mulher que está agarrada a você como quem se agarra à própria vida? Eu precisava de você! Havia um fantasma diante de mim e eu precisava que você me protegesse dele!
Tywin enfiou o rosto nas mãos. Demônios, ela sabia argumentar! Deveria existir um modo simples de sair daquilo, mas parecia que era impossível provar seu ponto. Tentar improvisar ou justificar o erro não iria funcionar. Ele precisaria lidar com suas resoluções e ser mais objetivo. Lembrar-se de não ser desleal e manter a promessa que os regia de não mentir.
- Eu não sou seu dono, eu sou seu marido, eu entendo tudo o que você está dizendo, eu sei que estou irremediavelmente errado.
Cat piscou surpresa pela atitude, mas se manteve firme. Aquilo passava longe de um pedido de desculpas convincente, mas já era um grande passo, considerando que Tywin Lannister estava confessando um erro.
-Catelyn... –ele segurou o rosto dela e uniu suas testas- Você é minha para ser amada e cuidada, para ser protegida e tratada com o máximo de devoção possível... Você é minha para gerar nossos filhos, nossos frutos, nossas crianças, e não apenas herdeiros... Você é minha para me amar, e para me deixar saber que assim sente. Você não é minha propriedade, me perdoe por atuar como se fosse apenas assim.
-Eu quero ver Jon Arryn. –ela repetiu. Sua voz cortante e fria como uma lamina de gelo. Ela não era dele.
Tywin a soltou, recuando até a janela. Estava aterrorizado agora. Ela iria pedir a proteção da Mão do Rei, e ele já fora Mão do Rei por tempo o bastante para saber que se Jon Arryn desejasse tirá-la dele, era possível. Principalmente diante do fato de que ela queria ir e que o Stark estava ali e que ele sempre apoiaria o mentor. Tywin não podia permitir, mas não queria mostrar-se ainda mais ditador. Ele precisava fazer com que ela entendesse e acreditasse em suas palavras. Mas as palavras soaram fracas até mesmo para ele.
Catelyn escutou as declarações do marido com uma fria negativa. Um homem capaz de ordenar o assassinato de crianças e capaz de possuir a própria esposa sem o consentimento dela não era alguém cujas palavras deveriam ser levadas em conta. Muito menos quando ele reitera seu sentimento indiscriminado de posse sobre ela. Não... ele a machucou uma vez, ele machucará quantas vezes ele desejar. E quando estiverem de volta ao Rochedo, ela não terá como e nem por onde fugir.
Uma parte dela o amava. Uma boa parte dela o amava, confiava nele, desfrutava de sua presença... E essa parte não deixara de existir, mas fora amarrotada, chutada e violada com as ações dele na noite anterior. Era isso o que mais doía: olhar para a figura despenteada e desalentada de seu marido, agora afundando em culpa, e perceber que o amor que sentia agora era repulsa. Mesmo assim, ela não queria vê-lo tão desesperado. Mas seu orgulho não permitia agir de outra forma.
-Eu chamarei Jon Arryn. –ele anunciou, recompondo-se e deixando o quarto.
Repentinamente Catelyn sentiu-se perdida. E o que faria quando Jon estivesse ali? Contaria tudo e pediria asilo? Deixaria Tyrion e o Rochedo para trás? Deixaria Tywin?
-Tywin! –ela gritou, tentando erguer-se da cama.
Antes de chegar à porta, ele a escancarou. Ficou então diante dela, de pé, meio incerto sobre segurá-la ou não. Ela apenas olhava para o chão, ofegante. Erguera-se tão rapidamente que estava ficando tonta. Estendeu uma mão e ele a segurou prontamente, ainda mantendo a distância que ela havia estabelecido.
-Tywin... –ela murmurou, os olhos fixos nos padrões do tapete, que envolvia seus pés descalços com delicadeza- Tywin. –e o olhou nos olhos, percebendo que ele parecia esperançoso.
-Eu estou aqui.
-Sem mentir.
-Sem mentir. –ele garantiu.
-Você será capaz de ser cruel comigo novamente? E quando eu digo cruel, eu me refiro a qualquer atitude que possa me deixar desgostosa, magoada ou ferida como agora.
-Não. –e ele de fato acreditava que machucá-la seria o mais impensável e irremediável ato do mundo- Eu não seria capaz de fazer absolutamente nada que pusesse lágrimas em seus olhos ou que fizesse você duvidar de seus bons sentimentos a meu respeito, ou qualquer outra coisa do tipo.
-Sem mentir, Tywin... –ela implorou- Sem mentir...
-E se mentiras vão machucá-la, eu não mentirei. E se verdades sejam cruéis demais eu não permitirei que elas cheguem muito bruscas até você. Eu a protegerei, minha senhora, eu o farei com todo o meu poder. –ele beijou a mão que segurava- Eu lhe digo isso sem mentir, eu lhe digo isso com meu inteiro coração. Catelyn, eu sinto tanto... –ele deu um passo adiante, tocando o rosto dela com a ponta dos dedos- Eu sinto muito. Eu talvez não mereça, mas me perdoe mesmo assim.
-Sem mentir? –ela invocou o pacto novamente.
-Sem mentir.
-Você me ama? –ela sustentou o olhar do marido.
-Você tem alguma duvida?
-Muitas, em verdade.
-Pois não duvide. –ele aproximou-se um pouco mais e a envolveu em seus braços- Não duvide. –murmurou com os lábios roçando sua orelha- Porque eu tenho certeza disso.
E era afinal quando ele estava se dando conta daquele fato. Ele a amava, ele não suportava que existisse outra pessoa em sua vida, em sua memória. E quando ele reiterava o fato de que ela o pertencia, ele sempre se recordava dos votos de casamento. "Eu sou sua e você é meu". Ele ainda podia escutá-la dizendo isso. Ele estava feliz, o que não acontecia desde a morte de Joanna. E isso era consequência do fato de que ele conseguia amar novamente. E era Catelyn o alvo desse amor. Bastava apenas que ela se convencesse disso.
