CAPÍTULO VII
Gina começou a rir baixinho, mas, aos poucos, seu riso se transformou em uma gargalhada. Harry se espantou com a reação dela. Esperava uma resposta seca ou uma recusa direta, mas nunca uma gargalhada.
A certa altura, porém, ele notou que o riso se transformara em lágrimas. Lágrimas de desespero.
— Oh, Gina...
Ele a abraçou com gentileza e ela não tentou se afastar. Entretanto, Gina estava muito tensa quando Harry começou a acariciar suas costas, tentando consolá-la de alguma maneira.
— Por que está chorando?
— N-não estou chorando. — soluçou ela. — Estou rindo.
— Está chorando, e não há motivo para isso. — insistiu Harry.
Gina encostou o rosto junto ao peito dele, grata pelo conforto que ele estava lhe oferecendo. No entanto, não deixou de sentir o apelo sensual do corpo másculo de Harry.
— Por que não? — indagou ela, com voz trêmula. — Imaginar um empresário do ramo de petróleo se transformando em babá e cozinheiro é suficiente para fazer qualquer um chorar!
Harry riu.
— Não acho que a gasolina do mundo vá terminar se eu ficar longe do trabalho por mais alguns dias.
— Não foi isso o que eu quis dizer!
Gina tentou se afastar, mas ele entrelaçou os dedos entre os cabelos dela e se aproximou, fazendo o rosto de ambos ficar a centímetros de distância.
— E então, aceita minha sugestão? — insistiu Harry. Gina não pôde deixar de admitir que a oferta dele a tocara profundamente. Ainda assim, não podia aceitá-la.
— Acho que você é maluco. — respondeu. — Não pode ficar aqui comigo!
Harry não havia pensado no detalhe de que teria de ficar com ela durante as noites, mas o fato de Gina ter mencionado o detalhe, fez com que ele percebesse que sua ajuda não seria muito útil se ele não ficasse o dia inteiro com ela.
— Por que não? — perguntou a ela.
Gina desejou que ele a soltasse. Não conseguia pensar direito quando Harry a mantinha junto de si daquela maneira. Sua maior vontade era se render aos braços dele e não pensar em mais nada, porém seu lado mais racional não permitia que ela fizesse isso.
— Porque... ficaremos sozinhos. — ela respondeu.
— Os bebês estarão conosco. — argumentou ele.
Gina gemeu.
— Harry, são dois bebês com dez meses de idade!
— Acha que precisamos de alguém para nos vigiar?
Ela respirou fundo.
— Depois de ontem à noite, acho que sim.
Harry não contestou. A lembrança da noite anterior continuava viva em sua mente. Aproximou-se devagar, até que seus lábios tocassem os dela.
Gina disse a si mesma que deveria se afastar de Harry. Chegou até a levar as mãos ao peito dele, mas elas permaneceram ali, como que aprisionadas pelo magnetismo daquele corpo másculo.
— Gina... — murmurou ele, deslizando os lábios pelo pescoço dela.
Surpresa com a intensidade das reações de seu próprio corpo, Gina reuniu forças suficientes para se afastar.
— É exatamente por isso que você não pode ficar aqui, Harry!
Notando o brilho de desejo ainda presente nos olhos dela, ele disse:
— Não pode dizer que não gostou do que acabamos de fazer.
— Eu... — Clara hesitou. — Ok, confesso que gostei. Mas é justamente esse o problema!
Harry franziu o cenho.
— Chama isso de problema?
— Harry! Não ouviu nada do que eu lhe disse nos últimos dias? Não quero me envolver com ninguém!
Ele balançou a cabeça.
— Gina, o que sentimos um pelo outro não é uma mera brincadeira.
— Talvez. Mas continuo achando que não podemos levar isso adiante.
— Por causa de quem sou?
— Em parte, sim.
E quais eram os outros motivos?, Harry sentiu vontade de perguntar. Todavia, algo lhe disse que esse não era o momento adequado para questioná-la.
— Ok, Gina. Esqueça o que aconteceu nos últimos minutos. Isso não voltará a ocorrer. Não me ofereci para ajudá-la a cuidar dos bebês com a intenção de seduzi-la.
Dizendo isso, ele a soltou. Gina o olhou, com ar incrédulo.
— Não foi o que pareceu minutos atrás.
Harry passou a mão pelos cabelos, frustrado.
— Não sei direito o que aconteceu comigo. Foi uma espécie de urgência incontrolável.
— E como posso ter certeza de que isso não voltará a lhe ocorrer?
— Gina...
Harry deu um passo à frente, mas ela levantou a mão para impedi-lo de se aproximar.
— Já tenho problemas demais, Harry. A última coisa que desejo é ser seduzida por você..
— Não farei isso.
Ela apenas cruzou os braços.
— Não sou um irresponsável. — declarou Harry. — Quero apenas uma chance para ajudá-la. Além disso, nossa principal preocupação deve ser os bebês, e não eu ou você.
Gina admitiu que ele tinha razão. Se Harry conseguisse se manter a distância, como prometera, seria até interessante deixá-lo ficar, para que ele visse que não era fácil cuidar de dois bebês.
— Tem razão. — disse a ele. — Os bebês são mais importantes.
— Então vai aceitar minha proposta?
Antes que Gina pudesse responder, o telefone começou a tocar. Grata pela interrupção, ela tirou o aparelho do gancho. Reconheceu a voz de Hermione do outro lado da linha.
— Tenho novidades para você, Gina.
— Sobre Kitty? Com certeza, ela ainda não foi operada, porque faz apenas algumas horas que Luna a levou para Roswell.
— Eu sei. Luna falou que iria ficar lá até o final da cirurgia, quando Kitty estivesse fora de perigo. Ainda não recebi notícias delas. Você recebeu?
— Não.
— Bem, liguei para contar que Rony já fez aquela investigação sobre Harry Potter.
Gina olhou para Harry, sentindo-se culpada. Ficou ainda pior ao ver que ele começara a lavar a louça para ajudá-la.
— E... o que ele descobriu? — perguntou, no tom de voz mais casual possível.
— Não sei se ficará surpresa, mas Harry é um homem muito digno e respeitável, Gina. Ele não tem nem sequer uma multa de trânsito!
Gina sentiu-se feliz e apreensiva ao mesmo tempo.
— Bem... pelo menos não nos resta mais essa preocupação. — falou.
Após uma breve pausa, Hermione falou:
— Parece estranha, Gina. Está se sentindo bem? Não se preocupe demais com tia Kitty. Ela e Lucille estarão jogando cartas amanhã, você vai ver.
— Não estou preocupada com tia Kitty. Estive pensando no que terei de fazer para cuidar dos cavalos e do estábulo. Luna e Emily não conseguirão fazer tudo sozinhas.
— Rony se propôs a ir até aí logo mais, para ajudá-las.
Gina continuou a olhar para Harry, entretido em lavar a louça. Ela nunca vira um homem trabalhar na cozinha, mas ele fazia aquilo com naturalidade, como se estivesse acostumado com a tarefa.
— Agradeça a Rony pela oferta, mas diga a ele que conseguirei dar conta de tudo sozinha.
— Mas os bebês...
Hermione tentou argumentar, mas Gina a interrompeu:
— Eles ficarão bem. Já consegui alguém para me ajudar.
— Sobre o que está falando? Sei que está com dificuldades, mas não estamos em condições de pagar uma empregada!
— Não terei de pagar essa pessoa, Hermione.
Após outra pausa, Gina ouviu a irmã suspirar do outro lado da linha.
— Oh. meu Deus, está falando sobre Harry?
— Sim.
— Gina! O que ele lhe fez?
A escolha das palavras de Hermione fez Gina enrubescer.
— Nada. Sei o que estou fazendo, não se preocupe. Explicarei tudo depois.
Desligou antes que Hermione dissesse algo mais e aproximou-se de Harry. Quando ela se encostou na pia, ele se virou para olhá-la.
— Era minha irmã, Hermione. — explicou.
— Ela recebeu notícias de sua tia?
Gina balançou a cabeça negativamente.
— Ela telefonou para dizer que Rony realizou a investigação que eu pedi sobre você. — confessou. Diante do silêncio de Harry, prosseguiu: — Não o culpo por ficar bravo com isso. Mas quero que saiba que não tive intenção de aborrecê-lo.
Harry sentiu uma onda de respeito diante da sinceridade de Gina.
— Acho que eu deveria ficar indignado com o que fez a meu respeito, mas... — Ele deu de ombros. — Não estou aborrecido. Se eu estivesse no seu lugar, provavelmente agiria da mesma maneira.
Gina não entendeu por que se sentiu tão aliviada. Só sabia que não queria magoar Harry.
— Fico contente que encare o fato dessa maneira. — disse a ele. — Eu... falei para minha irmã que você iria me ajudar com os bebês.
Harry colocou o último prato no escorredor e pegou uma toalha para enxugar as mãos. Sorrindo, falou:
— Não vai se arrepender, Gina.
— Cheguei à conclusão de que seria uma boa oportunidade para descobrirmos como você se sairia como pai dos bebês.
Harry teve de se conter para não abraçá-la de pura alegria. Gina estava começando a depositar pelo menos um pouco de confiança nele.
— Irei até o hotel agora mesmo para pegar minha bagagem. — anunciou. — Acho que conseguirei estar de volta dentro de, no máximo, uma hora e meia. — acrescentou, olhando para o relógio.
— Vai começar hoje? — Gina se surpreendeu.
— Por que não? Você precisa cuidar dos cavalos. Enquanto isso, poderei ficar com as crianças.
— Não esqueci que você não entende nada de crianças. — salientou ela.
Harry sorriu, com charme, fazendo o coração de Gina acelerar.
— Nunca convivi com bebês antes. — admitiu. — Mas entendo muito menos sobre cavalos e acho que será mais seguro se eu ficar com as crianças.
Gina também sorriu.
— Aposto que vai querer reavaliar essa idéia daqui a alguns dias. — brincou.
— Não acredito que seja um trabalho muito pesado. — contestou. — Cuidar de dois bebês e cozinhar não pode ser tão complicado assim. Será um período de férias, se comparado às horas de tensão que passo na empresa.
— Ótimo. — anuiu Clara, sorrindo por dentro. — Tenho certeza de que esse tipo de férias é justamente o que você está precisando.
— Gina, não encontrei nenhum envolvimento criminal no passado de Harry Potter. — disse Rony, enquanto ela guardava um pouco de feno a um canto do estábulo. — Mas isso não significa que ele seja confiável o suficiente para ficar na mesma casa com você e os bebês.
Ela fez um gesto de indiferença para o cunhado, que havia acabado de sair do trabalho e ainda estava usando o uniforme de xerife.
— Você disse a Hermione que ele era digno e respeitável. — lembrou a ele.
— Claro que eu disse! — admitiu ele. — Hermione dará à luz nosso filho daqui a algumas semanas. Não quero que ela se preocupe com nada.
Gina carregou algumas ferramentas até um outro compartimento do estábulo. Voltando-se para Rony, perguntou:
— Não considera Harry confiável?
— Eu não falei isso. Não conheço Harry, nem estou em posição de julgá-lo. Espero apenas que saiba o que está fazendo.
Gina suspirou.
— Está preocupado porque Harry ficará na casa... com os bebês. — afirmou.
— E com você. — acrescentou ele.
A preocupação de Rony a deixou comovida. Ele e Neville eram como seus irmãos, e ela valorizava as opiniões de ambos, assim como os sentimentos que tinham em relação a ela. Porém, a intuição lhe deu a certeza de que não tinha nada a temer de Harry. Pelo menos, não do ponto de vista físico.
O aspecto emocional, no entanto, era uma questão bem diferente.
— Sei me cuidar, Rony. Eu não deixaria uma pessoa ficar próxima dos bebês, se não confiasse nela. Você sabe disso.
Rony a olhou em silêncio, por um momento. Das três irmãs, Gina era a mais difícil de se relacionar, talvez por ter dificuldade em expor suas vulnerabilidades, pensou ele. Por trás daquele dinamismo que ela mostrava ao mundo, Rony acreditava que sua cunhada era uma mulher frágil e sonhadora.
— Ok, Gina, confio no seu julgamento. Não voltarei a tocar nesse assunto. — Olhando em volta, perguntou: — O que posso fazer para ajudá-la?
— Não precisa se preocupar, Rony. Já alimentei quase todos os cavalos. Ainda tenho de dar a mamadeira de Martin, mas, do jeito que ele é esfomeado, isso não vai demorar mais do que alguns minutos. Luna me ajudará nas tarefas que ficarem para amanhã.
— Como quiser. — respondeu ele.
— Obrigada por ter vindo, Rony. Se quiser mesmo me fazer um favor, passe em casa e cumprimente Harry. Quando o deixei, há duas horas, um dos bebês estava dormindo e o outro estava chorando de fome. Talvez ele esteja precisando de um apoio moral.
Rony sorriu, despedindo-se com um aceno.
— Pode deixar. Ligue-me, se precisar.
Já havia anoitecido quando Gina voltou para casa. Assim que entrou na cozinha, um aroma delicioso chegou às suas narinas.
Não viu Harry em nenhum lugar. No fogão, havia uma panela de espaguete sendo preparado e outra com molho já pronto.
— Harry? — chamou-o, indo em direção à sala.
— Estou aqui!
A resposta foi logo seguida por um grito contrariado de Adam. Ao chegar ao quarto dos bebês, Gina viu Harry tentando pegar Anna, que estava engatinhando pelo chão com apenas metade da fralda presa ao corpo. Adam estava no berço, berrando a plenos pulmões.
— Algum problema? — perguntou ela. Harry lhe lançou um olhar frustrado.
— Por que ela não consegue ficar parada enquanto troco a fralda? E ele... — Olhou para Adam. — Não tem motivo para estar chorando. Acabou de tomar a mamadeira há poucos minutos!
Gina se aproximou.
— Os bebês choram por outros motivos, além de fome, Harry. Ele deve estar aborrecido em ver você e a irmã dele nessa espécie de "batalha".
— Bem, não posso nem pensar em colocá-lo no chão. — explicou ele. — Ele desaparece de vista em questão de segundos!
Decidindo ajudá-lo, Gina disse:
— Veja se consegue pacificá-lo enquanto eu termino de trocar a fralda de Anna.
Ele tirou Adam do berço e ambos saíram do quarto. Quando ela terminou de trocar a menina, levou-a para a cozinha. Harry estava diante do fogão, tentando balançar Adam no colo enquanto mexia o espaguete.
— A massa passou do ponto. — anunciou ele, frustrado. — Aposto que isso nunca aconteceu com Kitty.
Gina se esforçou para não rir.
— Bem, ela já teve seus momentos de fiasco na cozinha.
— E você? Aposto que faria isso com uma mão amarrada nas costas.
Ficou evidente para Gina que Harry era um homem exigente consigo mesmo.
— Não exagere. — disse a ele. — Não precisa se censurar por causa de um espaguete. Ninguém espera que você seja perfeito em tudo que faz.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— E quem disse que quero parecer perfeito?
Nesse momento, Adam encontrou a orelha de Harry e tentou puxá-la. Gina riu, enquanto ele tentava se livrar da mãozinha certeira do bebê.
— Todos os homens querem ser perfeitos. — respondeu ela. — E tenho certeza de que você não é uma exceção.
— Não sinto que tenho um ego que precise ser alimentado. — argumentou Harry.
— Ótimo, porque, no momento, estou mais preocupada em alimentar nossos estômagos. — respondeu ela, com um sorriso. — Estou faminta!
Depois de colocar Anna no chiqueirinho, foi até a despensa olhar seu estoque de alimentos.
Harry ficou de lado, observando a curva sensual do quadril de Gina, enquanto ela se encontrava ligeiramente inclinada, examinando a despensa.
— Não há mais massa fresca, se é isso o que está procurando. — avisou ele.
— Ainda resta um pacote de massa de macarrão no armário. — respondeu ela.
— O espaguete não ficará tão saboroso.
— Que importância tem isso? Com a fome que estou, sou capaz de comer qualquer coisa!
Harry riu. Também estava faminto. Ficou frustrado porque queria oferecer um jantar agradável para Gina depois das horas de trabalho difícil.
— Ok, eu farei o macarrão. — disse.
Gina estendeu os braços para pegar Adam no colo.
— Então deixe-me colocá-lo no chiqueirinho com Anna. Não conseguirá fazer nada com ele no colo.
— Mas ele vai começar a chorar de novo. — avisou Harry.
— Se isso acontecer, deixe que chore um pouco. Não fará mal ele chorar por alguns minutos. Caso contrário, Adam ficará mimado e chorará de vez em quando, para que você o pegue no colo.
— Depois de todo o trabalho que tive nas últimas horas, você ainda acha que estou mimando Adam? — Harry se indignou.
Gina tirou o bebê dos braços dele.
— Harry, quer se acalmar, por favor? Eu não quis dizer isso. Estou apenas tentando lhe dar um conselho.
Dizendo isso, colocou Adam no chiqueirinho e voltou para junto de Harry. Ele estava de pé, no centro do aposento, como que esperando para ouvir o que mais ela tinha a dizer.
— Não costumo criticar as pessoas que se oferecem para me ajudar, Harry, e quero que saiba que lhe sou muito grata pelo que está fazendo. Pouco me importa que você mime ou não as crianças.
Ele ficou visivelmente mais relaxado.
— Acho que me coloquei em uma postura muito defensiva, não? — perguntou a ela.
Quando Gina assentiu, os lábios dele se curvaram em um sorriso.
— Não tenho intenção de causar nenhuma confusão por aqui.
Ela também sorriu.
— Acho que a única confusão presente aqui é a minha. — declarou, olhando para as próprias roupas empoeiradas. — Se puder me esperar durante alguns minutos, irei tomar um banho e trocar de roupa.
Quando Gina se retirou, Harry se ocupou em preparar o macarrão. Enquanto colocava uma nova panela com água para ferver, perguntou-se o que o estaria fazendo agir como um idiota. Sabia que Gina não esperava que ele se tornasse um pai perfeito para os gêmeos.
Ainda assim, queria mostrar seu melhor lado a ela. Desejava que Gina o visse não apenas como um empresário bem-sucedido, mas também como alguém com quem ela poderia contar em todos os momentos. Seria uma exigência de seu ego ou de seu coração?, questionou-se.
Apesar disso, tinha noção de que teria de esquecer essa idéia de ficar agradando a Gina. Não estava ali por causa dela, mas sim pelos bebês.
Quando ela voltou para a cozinha, algum tempo depois, os gêmeos estavam brincando no chiqueirinho e o macarrão já estava preparado e regado com o molho.
— Hum, que aroma delicioso! — exclamou. — Posso ajudar em alguma coisa?
Ao vê-la, Harry não pôde deixar de admirar a beleza de Gina mais uma vez. Ela estava usando uma calça branca e um suéter cor-de-rosa que a deixaram com uma aparência sedutoramente feminina.
— Prefere vinho ou alguma outra bebida? — perguntou a ela.
Gina não gostou muito da idéia. Tomar vinho à noite, em companhia de Harry, não parecia uma decisão muito sensata.
— Prefiro um refrigerante. — respondeu.
Enquanto ele colocava os pratos sobre a mesa,
Gina pegou as bebidas.
— Qual dos bebês você prefere alimentar? — perguntou ela, arrumando as cadeirinhas dos dois próximas à mesa.
Harry nunca havia dado comida a um bebê durante sua própria refeição. Mas se Gina era capaz da fazer aquilo, ele devia pelo menos tentar.
— Deixe Adam comigo. — respondeu. — Ele está mais acostumado comigo do que Anna. Além disso, ele vem tentando me causar indigestão nas últimas noites e chegou a hora de eu me vingar.
Depois de colocarem os bebês nas cadeirinhas, Gina e Harry sentaram-se à mesa.
— O que os dois comerão? — perguntou ele. — Mais daquele creme estranho que comeram à tarde?
Gina riu da expressão de desgosto de Harry, ao se lembrar do aspecto do creme de cenoura e espinafre que ela dera às crianças.
— Não. — respondeu. — Daremos um pouco de macarrão a eles. Você vai ver como eles gostam.
Harry já havia saído para jantar com muitas mulheres elegantes, vestidas com roupas de estilistas famosos, com penteados e maquiagens impecáveis. Porém, nenhuma delas tinha aquele ar encantador de Gina. E nem o ambiente dos restaurantes era tão agradável quanto aquela cozinha aconchegante e com atmosfera familiar.
Se Sandra o visse nesse momento, diria que ele devia estar louco. Poucos dias antes, ele próprio pensaria o mesmo. Só que dias antes ele não conhecia Gina e os bebês. Nunca imaginara que ficar em companhia de uma mulher pudesse se tornar algo tão agradável e simples ao mesmo tempo.
— Houve tanta agitação desde que você chegou que esqueci de contar que sua irmã, Luna, telefonou. — falou ele. — Ela disse que a cirurgia de Kitty já terminou. Tudo correu bem e Luna virá vê-la amanhã.
— Oh, que boa notícia. Ela disse quanto tempo tia Kitty terá de ficar no hospital?
— Ela terá alta amanhã mesmo. — respondeu Harry.
Gina adquiriu uma expressão de alívio.
— Vou telefonar para ela amanhã. Tia Kitty deve estar curiosa para saber se tudo está bem por aqui.
Harry ofereceu uma porção de macarrão a Adam. O bebê olhou para a colher como se estivesse diante de um ser alienígena.
— Veja só .— Harry disse a Gina. — Ele continua o mesmo.
— Coma você mesmo o macarrão.
— O quê?
Gina riu ao ver a expressão de espanto de Harry.
— Eu disse para você mesmo provar o macarrão. Ele também vai querer assim que o vir comer.
Harry seguiu o conselho e comeu o macarrão. Adam olhou o gesto com interesse e soltou um risinho. Anna logo decidiu imitar o irmão e, no processo, deixou cair pedacinhos de macarrão no babador.
Gina gemeu, limpando a boca da menina com um guardanapo.
— Pelo visto, seu conselho não surtiu muito efeito — salientou Harry.
— Não tenho culpa se os dois acham você engraçado. Na maioria das vezes, isso funciona.
— Bem, pois acho que dessa vez o tiro saiu pela culatra.
Durante os dias seguintes, Gina esperava poder ensinar Harry a descobrir seus próprios métodos para lidar com os bebês. Talvez ele aprendesse que a formação de uma criança não se resumia a oferecer apenas conforto material, mas principalmente muito amor e carinho.
