Foi um dia estranho, encerrado em um boteco fuleiro onde bebemos e brindamos à mediocridade em berros animados, chamando pessoas para brindarem conosco.
E quando pegamos o taxi e nos descobrimos sem dinheiro, de tão altos que estávamos, rimos freneticamente, tentando explicar para o homem que ele teria que esperar que buscássemos o preço da corrida no local indicado, fosse ele o apartamento do Milo ou o meu.
Estranhamente, paramos na casa de Camus - uma delas, à qual ele se instala sozinho para escrever suas histórias -, e ele estava lá fora no belo quintal, um notebook no colo, enquanto apreciava aquele vento frio como se fosse apenas uma brisa suave. Mas saiu de seu estado contemplativo ao nos divisar ao longe e logo levantou de forma decididamente inquisidora, caminhando ao portão com toda a sua pose e beleza.
"O que fazem aqui a essa hora?" – perguntou naquele seu tom polido, o que causou risadas em meu amigo que - assim que o outro abriu o portão -, se jogou sobre ele, abraçando-o como fazia comigo.
"Boa noite monsieur! Pensei que iria pra casa, mas o moço aí deve ter achado que devíamos te ver, né moço?" – ele falou meio alto, pendurando-se mais a Camus e mandando uma piscadela para o motorista, que apenas o encarou confuso, me causando um ataque de risos. – "Onde estão seus modos Camyu? E o 'boa noite' e os abraços...? Senti saudades..." – acabei rindo mais ao ver expressão ligeiramente constrangida do homem, que apenas apoiou melhor o corpo bonito de meu amigo a si antes de perguntar ao taxista quanto ficara a corrida.
Ele pagou e nós entramos, eu aparentemente melhor que meu amigo, que a cada três passos tombava ou para cima de mim ou para cima do francês, até que aquilo pareceu incomodá-lo o bastante para segurar Milo firmemente a si, resmungando algo que provavelmente tinha a ver com o trabalho que ele sempre lhe dava.
Por que conto isso? Porque apesar de não lembrar direito do que ocorreu então, sei que foi naquela noite que contei para ele sobre o tumor, enquanto meu amigo jazia adormecido no sofá sóbrio e de bom-gosto.
Em bem da verdade, não tenho muito contato com Camus, esse papel pertence à Milo. Apenas costumo ser cortês quando o vejo, afinal sou grato por tudo o que ele fez por nós. Tudo que faz, ainda.
Lembro de ter acordado com cheiro de café naquela manhã. E quando me vi deitado ao lado de meu amigo no sofá grande e macio, a tentativa de lembrar como cheguei lá parecia inútil e me causava dores horríveis de cabeça.
"Bom dia Alexander..." – levantei vagarosamente a cabeça na direção da voz firme e aveludada do homem, mas acabei fechando os olhos ao vê-lo contra a luz, seus cabelos ruivos refletindo-a de forma intensa e certamente magnânima, não estivesse eu com tanta dor de cabeça.
"... Podemos repensar a parte do 'bom'..." – murmurei doloridamente, voltando a deitar exatamente como antes.
"Não quer um café para acordar melhor? Devo ter algum analgésico também em algum lugar."
"... Por favor." – pedi imediatamente, pousando minhas mãos sobre os olhos como se isso pudesse aliviar aquela dor nojenta. Obviamente não podia.
Não sei como consegui levantar, com aquela dor latejante eu sentia, mas sei que mesmo que tenha demorado um pouco, fui para a cozinha e encontrei o homem ali com uma outra xícara de café em mãos, que me foi prontamente estendida.
"Amargo..." – murmurei em meio a uma careta ao sentir aquele primeiro gole descer quente pela minha garganta, me despertando de pronto.
"Crê estar em condições para explicar melhor a história dos exames, Alexander?" – ele perguntou enquanto me sentava de frente para ele.
Encarei-o então, um tanto surpreso com a abordagem direta, mas isso fez com que minha cabeça doesse mais ainda. – "Por que pergunta...?" – tornei curioso e confuso. – "Não vejo lá o que posso ter para contar."
"Creio..." – ele se ajeitou melhor na cadeira de respaldo alto e me encarou com aqueles olhos bonitos dele, agora livres dos óculos de aro fino. – "Na verdade, gostaria que visitasse um médico de minha confiança. Sei que muito provavelmente o resultado não esteja errado, mas creio que procurar saber mais em menos tempo seja primordial nesses casos e gostaria de fazê-lo. Em bem da verdade estou pedindo permissão para intervir."
"Eu não..." – senti-me comovido e confuso ao ouvi-lo. Como ele era capaz de ainda querer estar ali e ser aquele que sempre nos ajuda? – "... Como posso aceitar isso Camus?"
"... Por Milo." - ouvi-o murmurar e por um momento pensei ter imaginado aquilo. – "Ele está perturbado com isso, tenho certeza."
"Tanto que rechaça o assunto antes mesmo de ouvi-lo..." – completei amargurado, recebendo um olhar condescendente em resposta.
"Deve estar apavorado com a idéia de poder perdê-lo" – ele respondeu e por um momento me perguntei se ele estava defendendo a ele, mas não poderia dizer ou pensar realmente nisso, com minha cabeça sensível e dolorida como estava. – "Deixe-me fazer isso."
Permaneci calado por alguns instantes, dando de ombros então quando divisei a figura bonita de meu amigo se aproximando pelas costas de nosso protetor enquanto esfregava insistentemente os olhos. Os cabelos louros um tanto bagunçados e adoráveis.
"Vêm cá, anotaram a placa do caminhão?..." – perguntou num humor sonolento, sentando-se então e encerrando aquele assunto.
Tomamos café silenciosamente e permanecemos boa parte do dia naquela casa agradável, na companhia quieta e intelectual do francês, até que Milo não suportou mais e fomos embora, isso apenas ao fim da tarde.
De lá fomos para seu apartamento, onde sou conhecido pelos visinhos fofoqueiros como a aparição loira... Era divertida a idéia de ir morar com ele, pensando nesse aspecto, porque muitos deles ainda não tinham ligado minha imagem à do homem de cueca, no outdoor próximo ali. Causaria um burburinho de semanas, minha possível ida lá e isso devia divertir meu amigo de alguma forma, ou jamais permitiria...
Bebemos novamente, desta vez algo mais refinado como vinho e de forma mais moderada também, apenas o suficiente para ficarmos altos e leves.
Acho que dizer que passei a noite com ele é até mesmo dispensável, pois era impensável, colocar-nos em algum lugar privado e esperar que nada ocorresse. O desejo de contato sempre falava mais alto e eu era incapaz de não me perder naquele sorriso lido ou na voz máscula e aveludada. Nos cachos displicentes e meigos e na forma fluida e sensual dele se mexer.
Talvez nunca chegue a encontrar alguém que me desperte maior fascínio.
Ele é uma peste. Implicante, vingativo, potencialmente dissimulado, irritantemente cínico. Mas é justo, íntegro, meigo, divertido, criativo, forte... E tão bonito que poderia ser considerado um crime.
Sim, ele sempre foi bonito, mas depois - bem cuidado e vaidoso -, se tornou o tipo de ser sobrenatural e irresistível.
Insisto novamente, mesmo que imagine que jamais entenderão isso: Isso não é um romance. Seria uma definição restrita demais, condicional demais.
Morrer por amor pode parecer lindo, poético, mas morrer por sua família é algo nobre, digno... até mesmo justo. Eu tenho de ir além ainda e insistir, ele é minha vida. É tudo o que realmente conheço, é minha verdadeira casa.
Sei que chamarão isso de amor romântico e pouco me interessa o que pensarão, mas quero que ele entenda. Que, quando vir isso, chore e entenda que isso tudo é tão real e sincero que chega a parecer bobo.
Não sei como a história do tumor se espalhou. Foi antes de eu aceitar ir ao médico que Camus fez tanta questão de me encaminhar. Talvez tenha sido alguém do antigo hospital, porque não?
Apenas sei que logo tornei a ser destaque de noticias, mas agora não havia nenhum empresário desequilibrado para desviar a atenção de mim.
Eu estava morrendo, segundo eles. Estava em fase terminal de câncer...
Talvez nunca Aldebaran tenha tido tanto trabalho como meu segurança, como teve nesses últimos malditos meses e tenho de agradecê-lo enormemente por isso.
E também penso que nunca recebi um numero tão escandaloso de propostas de trabalho, cartas de fãs, pedidos de entrevistas, presentes e também procuras de ex-clientes
Sim... Cheguei a ser procurado durante esse tempo todo, bem como Milo, e recebi apelos, propostas, ameaças... Mas agora queriam tudo ao mesmo tempo. São pessoas estranhas e patéticas, hoje sei, mas antes me pareciam assustadoras.
Também recebi cartas e pedidos de encontros. Essa parte me divertiu muito, tenho que admitir, pois vinham cartas perfumadas e fotos, algumas bem interessantes, de todo o país.
Mas não vou entrar nesse assunto. Não vim aqui contar vantagem, vim relatar minha vida. E até onde sei, nosso tempo é curto e a história está acabando de qualquer forma.
Mas há algo que quero contar. Algo que talvez seja importante ou talvez não passe de uma bobagem, mas que de qualquer forma faz parte dessa história.
Eu estive mais uma única vez na presença do empresário. Ele veio me procurar.
Era de se esperar que ele não fosse preso, afinal o que eu era em comparação a um homem rico?...
(TBC)
