- Finalmente, chegámos aos Algarve.

A ternura da voz de Edward desmentia a rudeza das palavras. Bella sorriu-lhe com ar radioso. A lembrança maravilhosa que tinha da noite anterior dormia ainda dentro dela. "Amo-te", tinha murmurado Edward mal acordou. Ela não lhe respondeu, mas ele sabia que Bella não precisava de responder. Todo o seu corpo gritava ainda, sem qualquer sombra de dúvida, tudo o que sentia por ele.

Daniel tinha consciência de que qualquer coisa mudara na situação e, tanto quanto podia perceber, essa mudança só podia trazer-lhe benefícios.

- E se fossemos ao cinema esta noite?

- Só se for para ver outra coisa que não seja o Harry Potter! – respondeu o pai.

Imediatamente fizeram-se ouvir duas grandes gargalhadas. Daniel e Bella estavam a gozar com ele.

- Sinto que a minha vida vai começar a ser mais difícil – disse sorrindo. O olhar que deitou a Bella provava que a ideia não lhe era desagradável.

Quando a noite chegou, Daniel escolheu a nova etapa. Já que o ambiente estava favorável, a criança resolveu ver se podia aproveitar-se um pouco da situação.

- Pára ali! Está um cavalo amarrado nas grades daquele edifício branco.

Com efeito, lá estava um cavalo amarrado. Quando entraram na pequena recepção cheia de vasos de flores artificiais, sobre naperons de renda, um homem bastante alto, com chapéu à cowboy, apareceu, vindo da antessala.

- Aquele é o seu cavalo? – perguntou Daniel.

Sam o gerente do hotel, levantou a cabeça com um certo ar, dando a entender que o animal lhe pertencia. Impressionou de tal maneira Daniel, que o menino foi incapaz de abrir a boca durante todo o tempo que Edward e Bella levaram para tratar da reserva do quarto.

O pequeno hotel tinha também mini-bungalows construídos num só piso e uns colados aos outros. Mal entrou, Daniel começou a dedicar-se ao seu desporto favorito: transformar a sua cama em trampolim. Exausta, Bella deixou-se cair na cama destinada aos adultos.

- Estás cansada de andarmos a correr pela estrada e de pensão em pensão? – perguntou o francês com voz meiga.

- Um pouco.

Ela sabia que isso lhe pesava na consciência e, por isso, não queria que ele se sentisse mais culpado do que já estava. Por isso, não lhe contava quais eram já as repercussões desagradáveis que estas andanças estavam a ter na sua vida pessoal e profissional. Para começar, não tinha grande dificuldade em imaginar qual seria o humor em que se encontrava Carlisle depois de todos os telefonemas que lhe tinha feito, a inventar pioras e melhoras da sua horrível e contagiosa gripe.

E o casamento! Já se tinha esquecido que tinha prometido a Mike que o acompanharia. Portanto, não seria má ideia telefonar-lhe a avisar que não ia ser possível acompanhá-lo.

Bella tentou falar do seu telemóvel, mas naquele lugar a rede não funcionava. Telefonou para a recepção e pediu uma ligação.

Mike respondeu ao segundo toque.

- Bella! Já começava a pensar que, se calhar, tinhas morrido!

O bom humor do jornalista foi de pouca duração.

- Como? Não vais poder vir? Onde é que estás?

- No Porto. Em casa de uma amiga que está doente e que não pode ficar sozinha…

Naquele momento, Sam, montado no seu cavalo, passava diante da janela e, segundo as palavras do garoto, o animal dava pelo nome de Jumper.

- Bella, olha! – exclamou Daniel.

Ela fez-lhe sinal para se calar, mas já era tarde. Mike tinha ouvido.

- Pensava que a tua amiga vivia sozinha…

- Vive sozinha com o filho, é por isso que precisa de ajuda…

Daniel abriu a janela e o cavalo presenteou-o com um belo relinchar.

- Eles têm policia montada aí?

- Não sejas parvo; é a televisão.

- Mas tu estás a tomar-me por parvo, Bella? O que é que se passa?

- Nada. Está tudo sobre controlo – precipitou-se a responder. – Estarei de regresso dentro de alguns dias. Desculpa deixar-te desprevenido assim de repente.

A advogada desligou o telefone sem mais explicações. Com ar sombrio, Edward seguia-a com o olhar.

- Emmett, Mike… pelos vistos, tens uma vida sentimental um pouco complicada – murmurou o francês.

Bella virou-se para ele. Se estivessem sozinhos no quarto, ela ter-lhe-ia provado que a sua vida sentimental estava apenas preenchida com ele. A expressão do seu rosto deve ter deixado transparecer os seus pensamentos de tal maneira que, pela primeira vez, Edward corou.

- Mike não faz parte da minha vida sentimental. Ele é apenas um chato que quer fazer-me acreditar, como a todas as mulheres com que se dá, que sou a mulher da sua vida. Resumindo, é um chato.

A centenas de quilómetros do lugar onde Bella se encontrava, Mike desligou o telefone e apressou-se a apontar o número de telefone que aparecia no visor. Bastou-lhe um minuto para saber onde ela se encontrava: num pequeno hotel perto de Faro. Pensativo, abriu o mapa.

Mas o que é que Bella, que dizia estar doente, estava a fazer num sítio onde os cavalos atendiam o telefone?

Como bom jornalista que era e aspirante a namorado, tinha todo o interesse em ver mais de perto o que se estava a passar.

- Achas que podemos amar duas mamãs?

Depois de ter vestido o pijama e ter-se metido na cama, Daniel reclamou a presença de Bella junto a si.

Emocionada com a atitude da criança, a advogada pensou muito bem na resposta que ia dar-lhe.

- Vais amar sempre a tua mamã, e é assim que deve ser. Mas não tem mal nenhum se amares muito outra pessoa que também te ame muito e que tome conta de ti.

Satisfeito com a explicação dada, enroscou-se nos cobertores.

- Agora dorme, que amanhã temos uma grande estrada pela frente para percorrer.

- Como de costume – comentou Daniel.

Ela sorriu e foi para perto dele. Brincando com ela, o francês deitou-se no outro lado da cama, fazendo questão de notar-se.

- Talvez não fosse má ideia dormir no chão? – propôs, com ar de gozo.

- Se calhar não era má ideia – respondeu Bella, sorrindo.

Acabando por seguir-lhe o jogo, a rapariga foi deitar-se na outra ponta da cama. Era melhor assim, não fosse o diabo tecê-las.

Bella sonhou que a sua vida parecia um filme. Edward tinha recuperado a guarda do filho e eles corriam os três de mãos dadas num campo maravilhoso, banhado de sol. Mas a seguir veio o pesadelo. Carlisle, munido de luvas de boxe, tentava a todo o cuso abrir a porta do quarto para poder socá-la. No sonho, as pancadas na porta ressoavam cada vez mais fortes na cabeça, de tal maneira que a fez acordar em sobressalto e deu-se conta de que realmente alguém batia à porta. Edward vestiu-se num ápice e Daniel abriu um olho sem perceber nada do que se estava a passar.

- Quem é? – perguntou Bella, assustadíssima.

Diversas hipóteses foram-lhe passando pela cabeça: James, a Policia ou Jacob Black…

Edward fez-lhe sinal para ficar calada. Sem dizer palavra, pegou na mão do filho e da advogada e levou-os para a casa de banho. Depois subiu para o lavatório que, para sua sorte, era bem sólido e estava a uma boa altura para ele poder chegar à pequena janela situada um pouco acima.

- Vocês ficam aqui; daqui não saem. Vou por trás e vou apanhar o tipo pelas costas.

Bella tinha quase a certeza que era James. Sabia bem como ele era e que, certamente, continuava armado.

- Esperamos aqui sem fazer nada? – perguntou Daniel.

- Claro que não.

- Se tu desobedeces, eu também posso desobedecer.

Um grito fez-se ouvir atrás da porta. Bella procurava um objecto contundente e a única coisa que viu foi uma jarra em vidro grosso e toda facetada. Pegou nela e, com a jarra em riste, agarrou-a com firmeza, abrindo a porta de forma violenta.

O quadro que a esperava era, no mínimo, trágico de tal forma, que a deixou sem poder abrir a boca e incapaz de balbuciar sequer um som.

Com o braço direito, o francês estrangulava o rapaz que se encontrava no chão e cujo o rosto, aos poucos, ia mudando de cor. Quando olhou para ela, foi com esforço que conseguiu dizer:

- Isabella!

- Mike! Edward, larga-o; se continuas vais matá-lo.

Desconcertado, Edward largou a presa.

- É o tipo com quem falaste ao telefone?

Mike ia-se levantando conforme podia e, massajando o pescoço, perguntou:

- E ele, quem é? Um psicopata que vais ter de defender em tribunal?

- Claro que não. É apenas um cliente e não é um psicopata, posso assegurar-te.

Pouco à vontade, Edward tentou desculpar-se.

- Peço desculpa, tenho andado um pouco nervoso nos últimos tempos.

- Ultimamente, andas a tratar-me muito bem, não haja duvida, Bella! Se pensas que é agradável estar tanto tempo sem saber da namorada…

- Mike! Nunca fui nem serei tua namorada e peço desculpa se, durante as conversas que temos tido sobre esse assunto, não consegui ser suficientemente clara.

Mike olhou para Bella e Edward e não teve quaisquer dúvidas; aqueles dois amavam-se. Bastava ver o brilho que eles tinham nos olhos quando olhavam um para o outro. O jornalista teve de render-se à evidência. Aquele brutamontes, todo virado para o combate de rua, fosse ou não cliente de Bella, era também, com certeza, mais alguma coisa.

Edward fingiu tossir. Aquele tipo fazia-o perder as estribeiras com o olhar possessivo pousado na advogada. Só tinha vontade de recomeçar a fazer com ele o que estava a fazer quando Bella abriu a porta.

A advogada apercebeu-se do que estava a passar-se com o francês e o lhou para ele com ar conciliador.

- Vou deixar-te a conversar com o teu amigo, minha querida.

A rapariga conteve o sorriso, quando ele acentuou a palavra querida. Edward ficava com uma expressão muito amorosa quando mostrava os ciúmes que tinha.

- Daniel, anda, vamos tomar o pequeno-almoço.

- Mas ainda estou em pijama!

- Isso não tem importância nenhuma; aposto que vamos estar sozinhos com o Sam e o Jumper.

Agarrando na mão do filho, levou-o para a recepção.

- Por que é que a Bella ficou sozinha com aquele homem?

- Porque é um amigo dela – respondeu o pai, com ar taciturno.

- Mas ela não vai deixar-nos, pois não?

O pai contemplou o filho em silêncio. Na realidade, nunca tinham falado sobre o futuro… Fez uma festa na cabeça de Daniel e respondeu:

- Não sei, mas espero que não.

Quando Mike e Bella se juntaram a eles, o semblante do jornalista mostrava bem a sua contrariedade e Edward rejubilou de alegria. Tendo compreendido que tinha um rival a menos, voltou ao seu estado normal e até se deu ao luxo se mostrar-se simpático.

- Não quer tomar um café connosco?

- Estou sem tempo. Temos apenas o tempo necessário para fazer a entrevista antes de eu voltar para Lisboa.

- Entrevista?

- Pois é, meu amor. Contei-lhe tudo o que se passava e ele prometeu guardar segredo até ao dia da audiência. Em contrapartida, prometi-lhe que lhe dava uma entrevista exclusiva.

- Estou à espera. – Disse o jornalista – Conte-me tudo sobre "O motivo porque raptei o meu próprio filho".

Bella viu o rosto do namorado ficar inquieto e a boca crispada.

Continua….

Olá a todos.

Quero deixar um agradecimento em particular a todos os que estão a seguir a fic e a comentar. Estou a adorar os vossos comentários, vocês são espectaculares. Muito, mas muito obrigada.

Que me dizem a este capítulo, com o aparecimento do Mike? Acham que ele vai respeitar a promessa?

Até ao próximo capítulo, que prometo que vai ser breve.

Beijinhos.