Um anjo ciumento
N.A. Eu nunca viajei da França para Tóquio por isso não sei de forma alguma o tempo que leva um vôo com ou sem escala, tudo foi na suposição, ok? Nem me cobrem isso!
Um anjo ciumento
Capítulo IX
Zeus, chegando ao Olimpo:
- Ai! Estou cansado, há tanto tempo não descia a terra, a energia de lá é muito densa – disse se sentando em seu trono.
- E então? Como foi a conversa com os dois arcanjos tarados?
- Não fala assim dos meus rapazes, mande um dos seus subir e você verá como ficam iguaiszinhos!
- Mas, e aí, eles farão o que você pediu?
- Claro que sim, você quer alguém mais convincente que o Deus Supremo?
- Não importa o que você faça, perderá essa aposta, Zeus, é tão certo, que eu até permiti essas manobras infantis!
- Eu acho que não, meu irmão, até porque, não foi à toa que escolhi o Shaka.
- Shaka o sagrado! - riu Hades – aquele ali já está mais mortal e safado que você, já lhe disse, é um mal do Olimpo, aqui a luxúria é a ordem vigente.
- Não fale assim, titio! - disse Atena que se mantinha calada ao lado do pai – vou provar que nem todos aqui são seduzidos pelos mortais.
- Falou a virgem! - riu Afrodite (a deusa) que chegava e se colocava ao lado de Hades – mas, cara Atena, as paixões sempre foram à perdição da raça humana.
- Bem, de qualquer forma, essa missão do Shaka foi uma forma de voltarmos a nos divertir com os azares dos humanos – riu a deusa da sabedoria.
- E dessa vez também dos anjos – completou Hades, mas Zeus estava preocupado, talvez por causa daquela brincadeira dos Deuses, perdesse três arcanjos.
- Bem, veremos até onde isso irá – pensou - de qualquer jeito, de forma alguma perderei uma aposta para Hades, não mesmo!
Já era noite, depois de resolver tudo para a viagem do dia seguinte, Ikki estava exausto, mas não conseguia dormir, sua cabeça estava repleta de pensamentos enquanto ele observava seu anjo dormir.
Tão adorável! Quem imaginaria que ele causava tanta confusão? Sorriu observando aquele semblante tranqüilo, entretanto, estava preocupado demais, porque a cada hora que passava se apegava mais a ele e seria insuportável vê-lo partir.
Passou as mãos nos cabelos louros e lisos, afastando a franja, deslizando os dedos pela pintinha que ele tinha no meio da testa.
"Onde imaginaria que me apaixonaria por um anjo?" pensou e viu os olhos azuis se abrirem lentamente junto com um sorriso.
- Eu também me apaixonei por você, Ikki.
- Você tem que parar com essa mania de ler meus pensamentos – falou tentando disfarçar o sorriso que a afirmação lhe causou.
- E você deveria está dormindo.
- Você também e continuo a dizer que você tem que parar de ler minha mente.
- Em breve não precisarei mais fazer isso – disse Shaka sério voltando àquela expressão de Deus que Ikki raramente via, mas que sempre o assustava.
- Porque diz isso?
- Porque, embora você não perceba; você está começando a mudar, a ter sentimentos melhores, em breve não precisará mais de mim.
- Shaka, você é meu anjo da guarda esqueceu? Como pode dizer que não precisarei mais de você?
- Pelo menos, não aqui.
- Shaka... – Ikki começou meio sem jeito – Não haveria uma forma de você ficar?
- Eu sempre estarei com você...
- Você não respondeu minha pergunta.
- Sim, há uma forma – disse ainda muito sério – mas eu não quero.
- Não quer? - perguntou Ikki entre irritado e triste, sabia que Shaka não entendia muito bem os sentimentos humanos, mas, não entendia como ele poderia se dizer apaixonado e mesmo assim afirmar que não queria ficar com ele.
- Não é minha missão – disse calmo – eu sou um anjo, fui criado para ser um anjo, não tenho que ser mortal.
Ikki se afastou perturbado e Shaka se apoiou no cotovelo para olhar para ele. Já era alta madrugada e o céu de Paris era tingido de rosa pela aurora, eles podiam ver através das vidraças da suíte.
- Então, depois disso eu nunca mais o verei? - perguntou Ikki sem fitá-lo.
- Mas, poderá me sentir.
- Não poderei nem mais ouvi-lo?
- Sim, se abrir seu coração.
Ikki riu e voltou a se aproximar da cama, segurando o rosto do anjo.
- Você e suas histórias! Eu não sei ser bonzinho anjo, você diz que nasceu pra ser um anjo, acho que eu nasci para ser mau, então não exija que eu seja diferente.
- Eu continuo tendo esperança que vou conseguir tirar daí de dentro – ele colocou o dedo contra o peito de Ikki – a verdadeira e maravilhosa pessoa que você é; esse egoísta aqui de fora será incinerado e como fênix, um novo Ikki renascerá das cinzas.
- Fênix? - riu Ikki e puxou o anjo pra si o abraçando de forma que a cabeça de Shaka repousasse em seu peito – Gostei, mas não acredito que seja possível.
- Eu acredito em você – torno o anjo – agora, vamos dormir; você se esquece que viajamos daqui a algumas horas?
- Está bem, meu anjo – disse Ikki se deixando cair na cama.
- Ikki...
- Hum...
- Gosto quando me chama assim...
- Assim como?
- De seu anjo...
- É o que você é não estou certo?
- É que me dar à sensação que sou mais que isso pra você – disse e Ikki o envolveu nos braços e os dois adormeceram.
Shun e Hyoga chegaram bem cedo ao Plaza, o louro fez questão de levar o agora amigo, já que o rapaz não quis de forma alguma esperar o irmão no hospital.
Ikki abriu a porta da suíte meio sonolento ainda e vestindo apenas um pijama curto.
- Shun, eu disse que buscaria você – reclamou.
- Ainda posso andar, irmão – respondeu o mais novo com indiferença – e já que serei forçado a voltar, vamos fazer isso logo. – continuou olhando ao redor – onde está o Shaka?
- Dormindo ainda - respondeu o Amamiya mais velho contrafeito.
- A noite deve ter sido muito cansativa – provocou Shun sem esconder o ciúme.
- Para com isso, Shun, se você quer mesmo saber, a gente só dormiu, aliás é o que a gente sempre faz juntos, DORME! Tá legal?
- Certo, mas é o que você quer, irmão? - perguntou o jovem de cabelos verdes.
Ikki ruborizou.
- Shun eu acho que isso não é de sua conta! Disse nervoso.
- Vocês dois querem parar de discutir ou perderemos o avião – falou Hyoga e Shun olhou pra ele surpreso.
- Perderemos? Você virá conosco, Hyoga?
- Sim, eu vou, Shun.
- M...mas, por quê?
- O Ikki me pediu – disse o rapaz desconfortável.
- Mas, Hyoga, sua vida... Seu curso...
- Você é mais importante, Shun – sorriu o louro e se virou para Ikki – é melhor você acordar o seu amigo.
- Certo – concordou o Amamya mais velho rumando para o quarto.
Shun continuava olhando Hyoga pasmado.
- Não deixarei que faça isso! Disse depois de um tempo – você tem uma vida aqui!
- Shun, é só durante um tempo, depois eu volto.
- Hyoga, você não entende, acabou! Eu não sirvo mais pra você, eu não sirvo mais pra ninguém! - o rapaz escondeu o rosto com as mãos caindo sentado no sofá e tentando não soluçar.
- Shun, o que está acontecendo com você, porque você não confia em mim? - perguntou Hyoga sentando ao lado dele.
- Porque você vai querer me ajudar e eu não quero ajuda – confessou o mais jovem – é melhor que você fique longe de mim.
- Porque, Shun? Eu só gostaria de entender! - Hyoga passou as mãos nos cabelos louros e rebeldes – não me leve a mal, Shun, não estou fazendo cobranças e nem pedindo que fique comigo, mas acho que ainda sou seu amigo...
- Eu traí você, Hyoga – disse Shun baixando a cabeça e o rapaz o olhou pasmado sem nada dizer. – você percebe agora porque não pode ser meu amigo, ninguém pode, eu... Eu não presto!
- Você não faria isso, Shun, eu sei e descobrirei o que aconteceu. – tornou o russo se levantando e indo para a sacada, tentava aparentar frieza e confiança, mas aquela informação arrasou com ele, não era possível, não podia acreditar, porque Shun o trairia? E pior, porque mentiria para magoá-lo?
Hyoga se virou ao ouvir a voz de Shaka e Ikki, eles arrastavam as malas.
- Você está bem, Shun, onde está o Pato? - perguntou Ikki preocupado, vendo as lágrimas que o irmão tentava disfarçar.
- Estou aqui, Ikki – disse Hyoga mantendo a voz fria – vamos para o aeroporto.
Ikki se abaixou próximo ao irmão.
- Shun, algum problema?
- Não, Ikki, desculpe não ser igual a você que nunca chora, talvez eu seja mesmo um fraco.
- Não fale bobagens, Shun! Irritou-se o Amamiya mais velho – você não é fraco, eu só gostaria que confiasse em mim.
- Vamos embora – disse o mais jovem se levantando, ainda caminhava com dificuldade e tinha o braço preso numa tipóia embora não estivesse quebrado, havia deslocado o ombro no acidente – Shaka, você me ajuda?
- Claro, Shun, eu levo suas malas...
- Pode deixar que eu levo. – disse Hyoga taciturno saindo na frente arrastando as malas de Shun e as suas próprias.
O jovem de cabelos verdes ficou olhando parado enquanto ele se afastava, tinha vontade de chorar, mas, não poderia, era melhor para Hyoga ficar longe ele.
Quando chegaram ao Japão ainda era dia; e depois de mais de vinte e quatro horas dentro de um avião, foram todos para o apartamento de Ikki; estavam exaustos.
Ikki se resignou, afinal tinha conseguido as passagens de emergência e por isso nem poderia reclamar das escalas do vôo, só quando chegou a Tóquio foi que percebeu que durante todos aqueles dias, não havia dado se quer um telefonema para a agência e nem recebido nenhum, tratou logo de corrigir o erro, ligando para Kanon e se interando da situação dos negócios. Ouviu que estava tudo bem e que ninguém quis ligar, pois, sabiam que ele estava passando por uma situação delicada.
Desligou o telefone se sentindo frustrado, descartado, como se não fosse nem um pouco importante.
- Ei, para com isso, Ikki! - riu Shaka dos pensamentos do protegido.
- Parede ler meus pensamentos! – pediu Ikki irritado.
- E para de ser tão egocêntrico! - volveu o anjo levando as malas para o quarto.
- Escuta aqui, anjinho!
- Anjinho? - Ikki parou de falar, porque Shun estava atrás dele, falando com ironia. – Francamente, irmão, e você ainda quer me convencer de que vocês não tem nada um com o outro?
- Shun, vai arrumar suas coisas no seu quarto, e cala a boca! – Esbravejou o irmão.
- Esse é o velho Ikki que conheço! - ironizou o adolescente saindo.
- Assim, você não conseguirá fazer as pazes com ele! - reclamou Shaka com calma.
- A culpa foi sua, não me provoque, anjo!
Shaka não respondeu e começou a tirar as roupas de dentro da mala, Shun apareceu mais uma vez no quarto.
- Shaka, você quer sair comigo? - perguntou.
O anjo e Ikki se entreolharam.
- Claro, mas pra onde, Shun?
- Ah, estou precisando comprar algumas coisas, tem algum problema irmão? - perguntou sério.
- Mas, e o Pato, Shun?
- Ele fica aí com você, vocês estão se dando tão bem ultimamente – ironizou o caçula.
- Escuta, Shun, eu não sei o que acontece com você, mas para mim, seja o que for não justifica a forma que você tem tratado o Hyoga, e sabe por quê? Porque apesar de nossas diferenças, ele gosta de você, aceitou vim pra cá por sua causa! - falou Ikki nervoso.
- Eu não pedir nada. – disse Shun se encolhendo.
- Pois é, e mesmo assim ele veio, porque gosta e se preocupa com você, então ao menos tenha um pouco de consideração, tá legal?
Shun não disse nada, apenas baixou a cabeça e lutou para não chorar.
- Eu não quero ser um peso pra vocês – sussurrou – não precisa me acompanhar, Shaka, eu vou sozinho.
O rapaz saiu do quarto e Shaka encarou Ikki com um sorriso, depois caminhou até ele e o abraçou:
- Você acaba de dar mais um pássaro para se transformar em minha fênix.
- Ah é, não entendo por quê?
- Porque você está realmente preocupado com o Hyoga.
- Eu e o Pato temos nossas diferenças, mas passamos a infância juntos, e sei que ele gosta mesmo do meu irmão.
- Fico feliz que pense assim – disse Shaka e se afastou – Agora eu vou com o Shun, Ikki, por favor, explica para o Hyoga que ele não tem que ter ciúmes, o Shun apenas sabe quem eu sou.
- Explico sim, não com essas palavras, mas explico pode deixar.
- Você está sendo um humano muito bonzinho, Ikki – sorriu Shaka – Agora vou tomar um banho que estou suado, nossa! Odeio suor, Ikki, não sei como vocês agüentam o suor...
O anjo seguiu para o banheiro ainda falando e Ikki ficou um tempo parado pensando no irmão, como aquele rapaz doce, incapaz de dizer uma palavra rude se tornou tão áspero de repente?
Shaka saiu do banho alguns minutos depois, se vestiu com sua amada camisa de anjo e calça jeans e foi atrás de Shun, que aceitou sua companhia e os dois saíram.
Ikki aproveitou a ausência do anjo encrenqueiro para colocar o trabalho em dia, dando alguns telefonemas e solicitando alguns documentos, fazendo questão de enlouquecer a pobre secretária. Depois, quando já estava cansado de "estressar" as pessoas, se juntou a Hyoga que olhava a vista da sacada do imenso apartamento com um livro nas mãos.
- Pato, você deve saber de alguma coisa, ninguém muda tanto de uma hora para outra, o que aconteceu, afinal?
- Ikki, a última vez que falei com o velho Shun, foi a um mês, numa noite nos falamos por telefone e depois, ele enlouqueceu...
Flash Back:
- Oi amor, ainda estudando? - perguntou Hyoga enquanto andava entre a difícil tarefa de falar ao celular, carregar os livros e pegar a chave do carro.
- Ainda, hoje ficarei até tarde no laboratório – respondeu Shun – tem algumas cobaias que ficarei supervisionando, é um medicamento novo que estamos testando.
- Ah, que pena, amor, eu acho que sairei para comer uma pizza, enquanto você fica sendo babá de ratinhos! - Hyoga riu e Shun riu também do outro lado da linha.
- Não me provoca, Hyoga, você tem que me incentivar, um dia serei um grande cientista, você vai ver!
- Ah, disso eu tenho certeza, com tanta dedicação não tem como não ser, abandona até o namorado para cuidar dos seus preciosos ratinhos. – provocou fingindo-se de triste.
- ...
- Shun?
- Ah, Hyoga, estou aqui sonhando em comer essa pizza com você, não fala assim, amor, se não desisto de tudo e vou atrás de você! – disse o adolescente choroso.
- Desculpa, meu amor, não vou mais te torturar, quer que eu passe para buscá-lo? - Hyoga em fim entrou no carro.
- Não, estou com meu carro, vou direto pra casa lá pelas... Duas da manhã, certo?
- Certo, eu estarei te esperando acordado, eu te amo!
- Eu também te amo, Hyoga, um beijo.
Momento atual:
- Na manhã do dia seguinte – continuou Hyoga a contar a história a Ikki - já passava das sete, eu passei a madrugada inteira tentando falar com Shun, o celular chamava e ele não me atendia, fiquei preocupado, liguei para o laboratório da faculdade, ninguém atendia lá também, quando finalmente ele chegou em casa estava sujo e despenteado, com um olhar perdido e aparentava ter chorado muito.
Flash Back again:
Hyoga correu até ele o abraçando.
- Estava preocupado com você, amor, o que aconteceu com seu celular, onde você estava?
- Eu? - ele respondeu perturbado.
- Não vejo mais ninguém aqui além de nós dois – sorriu Hyoga enquanto o mais jovem se afastava dos seus braços.
- Estava por aí – respondeu sem interesse e completou: Hyoga, estou indo embora do seu apartamento.
- Shun, para com essa brincadeira – disse o louro, mas pela expressão do amado, percebia que ele não estava brincando, além do mais as roupas abarrotadas, os cabelos despenteados, aquele não era seu namorado.
– Shun, você está me assustando!
- Eu só disse que vou embora – volveu o Amamiya mais jovem – eu não quero mais ficar com você, acabou.
Hyoga ficou um tempo atônito tentando digerir a informação.
- Para de brincadeira, amor, aconteceu alguma coisa, porque você está desse jeito?
- Você é surdo por um acaso! - gritou Shun – eu disse que vou embora só isso, acabou entre a gente!
- Nada acaba assim, Shun, há algumas horas estava tudo bem entre a gente e agora você me diz essas coisas, o que está havendo com você? - Hyoga segurou os ombros dele.
- Não é algo de repente, Hyoga, passei a madrugada toda pensando, eu... Eu tenho que deixar você.
- Shun, olha pra mim, por Deus, olha pra mim! - Hyoga segurou o rosto dele entre as mãos olhando dentro dos vazios olhos verdes.
- Seja lá o que aconteceu, Shun, estou do seu lado!
- Mas, é isso que eu não quero, Hyoga, eu... Não quero você do meu lado – disse o rapaz de olhos verdes se afastando dele e começando a fazer as malas.
- Shun, o que aconteceu com você? - gritou Hyoga desesperado – eu mereço saber pelo menos!
- Eu só... Não te amo mais, Hyoga – respondeu sem olhá-lo, continuando a fazer as malas.
Fim do Flash back.
- Nada adiantou, Ikki – suspirou Hyoga – eu gritei, disse ao Shun que o amava, mas, ele não me ouviu, eu também tenho meu orgulho e não ficarei correndo atrás dele de forma alguma, desde então, mal temos nos visto, só soube do... Acidente, porque a equipe de resgate achou meu telefone na carteira dele...
- Como você soube que foi... Que ele... – Ikki não conseguia falar aquilo.
- As testemunhas do acidente disseram que ele acelerou o carro em direção ao muro, ele estava parado e acelerou em direção ao muro, foi isso.
- Eu vou descobrir o que está acontecendo com meu irmão, eu tenho que salvar o Shun – disse mais pra si do que para o louro a sua frente.
Ouviram quando Shun e Shaka chegaram e foram encontrá-los na sala, eles carregavam algumas sacolas, estavam alegres, mas Shaka reclamava de alguma coisa.
- Shun, eu não acredito que você me enganou, não acredito! Dizia o anjo – Ikki olha o que o Shun...
O anjo estancou nas palavras, porque Ikki o olhava com uma expressão tão atônita que era impossível dizer alguma coisa.
- Ikki, está tudo bem? - perguntou Shaka enquanto Hyoga ria da situação.
- Eu só dei uma melhorada em seu anjinho! - ironizou Shun.
Ikki se aproximou em silêncio de Shaka e do irmão.
- Bem, eu pensei em cortar mais, contudo, cabelos longos combinam com ele e combina com seu novo visual – continuou o Amamiya mais jovem – Os brincos ficaram um charme não?
Ikki examinou os três piercings que o anjo tinha preso a orelha esquerda, seus cabelos foram cortados e agora paravam no meio das costas e ele vestia ao invés das roupas anteriores uma camisa preta de banda, com toda as parafernálias de coleiras, correntes, spakes, etc., além de uma bizarra maquiagem preta nos olhos.
A expressão de Ikki passou rapidamente de atônita para furiosa, enquanto ele começava a arrancar tudo do corpo do Shaka, inclusive à maldita camisa, quando chegou nos brincos o anjo se encolheu e gemeu, afastando as mãos dele.
- Ai, Ikki! Não pega que ainda está dolorido! - reclamou e ele desistiu de remover os brincos, pelo menos naquele momento, deixou Shaka e se virou para Shun que também estava ao mesmo estilo, só que Shun havia colocado um piercing na sobrancelha.
- Shun, eu não acredito que fez isso! Bradou indignado.
- O melhor, você ainda não viu! - riu o mais jovem e virou Shaka de costas – tcharan! Essa é em sua homenagem, irmão!
O coração de Ikki falhou uma batida; havia uma tatuagem no lado esquerdo das costas brancas do anjo, um pássaro de fogo, uma fênix e dentro se lia o nome Ikki em letras pretas.
- Shun, eu vou matar você – disse Ikki aturdido e o adolescente riu.
- Ah, irmão, está tão bonitinho, ele que escolheu o desenho!
- Mas eu não sabia o que você faria, Shun, não é certo dizer que a culpa é minha! Reclamou Shaka – Além do mais, doeu sabia?
- Ah, você não sabe o que se faz num estúdio de tatuagem?
- Eu nem sei o que é um estúdio de tatuagem, ou melhor, não sabia!
- Calem a boca os dois! Bradou Ikki e os dois estremeceram. – Shaka
Para o quarto agora, Shun, você vem comigo.
Nisso, ele saiu arrastando o irmão para dentro do quarto, Hyoga que assistia a cena, achava melhor não se intrometer, eles que se entendessem, porém, estranhou o fato do louro ser tão submisso a Ikki, se bem que, ele sabia se impor realmente quando queria. Voltou para a sacada tentando se concentrar em ler alguma coisa.
No quarto de Shun:
- Solta meu braço, Ikki, você esquece que ainda sinto dores! Reclamou o mais jovem, tentando se libertar da mão de ferro do irmão sem sucesso.
- Pois não parece, Shun, que diabos você fez com o Shaka e com você mesmo?! Gritou furioso.
- Só mudei o visual do seu namoradinho, não gostou?
- Não, e nem ele e nem muito menos você vão continuar a desfilar na minha frente parecendo dois mortos vivos! Além do mais, foi muita maldade se aproveitar da ingenuidade dele para me agredir!
- Ah, você se acha mesmo o centro do universo, não é, irmão? Você poderia cogitar que ele quis fazer aquilo! - disse o mais jovem sarcástico vendo o irmão tirar a tipóia que segurava seu braço, mas sem reagir.
- Eu sei que não, você não sabe quem é o Shaka!
- Ele já é bem grandinho e sabe o que faz!
- Não, ele não sabe, Shun, e me admira muito, tanta maldade vinda de você! - Ikki falou e o rapaz emudeceu por um tempo.
- Talvez as pessoas tenham me ensinado a ser mau, inclusive você! -gritou, os olhos marejados – porque você não me esquece, Ikki? Eu quero ir embora, não quero ficar aqui!
- Não vou te esquecer por mais que queira, Shun, e quem manda em você sou eu por enquanto, até você completar a maioridade, será do meu jeito!
- Eu faço o que eu...
- Cale a boca!- gritou Ikki tentando se controlar, não queria brigar com Shun estava preocupado demais com o estranho comportamento dele, mas não conseguia olhar o irmão daquela forma, aquilo era agressão pura e simples e não permitiria aquele tipo de atitude, quanto mais envolvendo Shaka, usá-lo para feri-lo foi perverso demais.
Arrastou o mais jovem para o banheiro.
- O que você está fazendo... – Shun perguntou soltando um gemido ao sentir a água fria do chuveiro cair sobre seu corpo – merda, Ikki! Está fria sabia?
- Sabia, agora tire essas roupas ridículas e lave essa cara!- tornou o mais velho e Shun não teve forças para desobedecer; começou a tirar a camisa.
- Vai ficar aí me olhando? - perguntou malcriado.
- Na verdade sim, e trate de tomar banho direito ou pegarei o escovão como fazia quando você era pequeno! - volveu Ikki sentando na tampa do vaso sanitário.
Shun terminou de tirar a roupa contrafeito esfregando o sabonete no rosto para tirar a maquiagem preta.
- Shun, eu realmente gostaria que você me dissesse o que está acontecendo com você, eu quero te ajudar,meu irmão.
- Eu não preciso de ajuda, Ikki – respondeu Shun lavando o rosto – aliás queria saber por que todo mundo acha que eu preciso de ajuda, eu não sou tão inútil assim?!
- Shun, não é nada disso, eu amo você e me preocupo com você!
O mais jovem fitou o irmão pasmado, nunca ouvira Ikki falar aquelas palavras. Ficou olhando o irmão de boca aberta embaixo do chuveiro.
- Pensei que soubesse disso – tornou Ikki constrangido com a aparente surpresa do irmão. – Shun, você é meu único irmão, minha única família, achava mesmo que eu não me importava com você?
- Ikki, eu... – Shun estava sem palavras, não sabia o que dizer, desligou o chuveiro e se enrolou numa toalha indo para o quarto sem olhar para o irmão, estava muito perturbado.
O mais velho o seguiu depois de um tempo, o encontrando sentando na cama, ainda enrolado na toalha, seus olhos eram distantes e vazios.
- Shun, é melhor você se trocar, vamos sair para almoçar, certo? Estou com fome, ainda não comi nada desde que chegamos.
O rapaz piscou se libertando de seus pensamentos.
- Eu... Eu não estou com fome, Ikki, eu prefiro ficar...
- Shun, eu não vou deixá-lo aqui sozinho, ou você vem com a gente ou peço pizza – sorriu Ikki e recebeu de volta um sorriso, tímido, mas o primeiro em todos aqueles dias.
- Certo, tudo bem eu vou sim, vou me arrumar.
- Não demora – disse o mais velho saindo e batendo a porta, suspirou: Agora é sua vez, anjo maluco!
Encontrou Shaka no quarto como tinha mandado, ele estava em frente ao enorme espelho, limpando o rosto com um lenço e se esforçava tanto pra se livrar da maquiagem preta que sua pele já estava ficando avermelhada
. Só depois de alguns minutos percebeu Ikki atrás de si, o olhando divertido.
- Ah, Ikki, não me olhe assim, estou parecendo um demônio! Reclamou num suspiro.
- E porque você deixou o Shun fazer isso com você?
- Porque ele parecia feliz – disse o anjo calmo – embora eu consiga sentir o quanto ele sofre.
- Shaka, porque você não me diz logo o que aconteceu com meu irmão? Você sabe, eu tenho certeza!
O anjo saiu de onde estava e começou a caminhar para o banheiro, sendo seguido por Ikki que o segurou pelo braço.
- Aonde você vai?
- Tomar um banho e me livrar dessa tinta – respondeu contrafeito.
- Não antes de me responder!
- Eu não posso e nem vou falar nada, não importa o quanto insista – tornou o anjo sério.
- Está vendo que tenho razão quando digo que vocês brincam com a vida das pessoas, você não se importa anjo, vocês estão à cima do bem e do mal, não é? Então pouco importa que mortais imbecis sofram como acontece com meu irmão!
- É uma pena que pense assim – disse o anjo ainda muito sério, sem alterar a voz, apenas fechando os olhos por alguns instantes.
- É a verdade, Shaka, afinal porque você está aqui ainda? - perguntou irritado – se você queria apenas que eu me reaproximasse do Shun, já conseguiu, eu não vou mais FRACASSAR com meu irmão, fique tranqüilo!
- Está me mandando embora, é isso? Perguntou o anjo, mas dessa vez, Ikki notou que ele não parecia magoado, apenas cansado, hesitou.
- Eu... Não, eu não estou mandando você embora, só achei...
- Minha missão não terminou, Ikki Amamiya, quando terminar se verá livre de mim, por enquanto continuarei aqui.
Ikki engoliu em seco, não esperava aquela atitude, pensou que aconteceria o mesmo de sempre, o anjo se justificaria, se atrapalharia nas palavras e se mostraria magoado. De onde diabos veio toda aquela tranqüilidade?
- Shaka... Eu...
- Por favor Ikki, preciso de um banho – disse o anjo com indiferença caminhando para o banheiro.
- Ei! Não me deixe falando sozinho! Bradou Ikki irritado o seguindo.
- Ah, o egocêntrico Ikki Amamiya não gosta de ser ignorado – ironizou o arcanjo começando a tirar a calça, estancou no que fazia olhando para ele.
- Quer me dar licença? Pediu.
- Ué, você nunca se importou com essas coisas, tira a roupa tão fácil que até pare um streap – riu Ikki.
- Mas agora estou zangado com você e não quero fazer isso! Reclamou o anjo cruzando os braços.
- Acho que você está se tornando um anjo muito temperamental, está aprendendo com o Shun é isso?
- Olha, Ikki, eu só não vou ficar zangado com você, porque você tem sido um humano bonzinho, mas não me provoque por que...
- Ah, eu não acredito! Você está ameaçando seu protegido? Anjos podem fazer isso?
- Anjos podem incinerar pessoas ruins!
- E no caso, a pessoa ruim sou eu?
- Ikki, estou sentindo algo estranho, uma vontade de bater em você! Regougou Shaka desconfortável.
- Isso se chama raiva, Shaka, e o que eu falei pra deixá-lo tão zangado, hein?
Shaka respirou fundo, na verdade ficou magoado quando o rapaz sugeriu que já era hora dele partir, entretanto, não entedia o por que; porque daqueles sentimentos? Deveria está feliz, as coisas estavam acontecendo da melhor forma, Ikki estava mudando, em breve Shun veria isso e voltaria a ser quem realmente era, então porque aquele sentimento?
- Eu não sei – respondeu sem muita convicção.
- Você não sabe, ou não quer dizer?
- Os dois! Agora me deixa em paz – pediu o anjo baixo e Ikki ficou mais confuso com aquilo, as atitudes dele estavam muito estranhas.
- Olha, Shaka, estou com muita fome para discutir com você, agora, tome banho e limpe essa maquiagem ridícula que vamos sair para almoçar, certo?
- Sim – disse o anjo e Ikki deixou o banheiro.
Os quatros: Ikki, Shaka, Shun e Hyoga, chegaram ao sofisticado restaurante, logo se acomodaram e fizeram os pedidos.
Enquanto os outros três conversavam amigavelmente, Shun permanecia calado e introspectivo; perdido e mal tocava a comida.
Hyoga toco-lhe o braço o despertando de seus pensamentos.
- Shun, não acredito que a comida esteja tão ruim assim – brincou – deve está melhor que as gororobas que fazíamos na França, não?
- N-não... Eu só estava distraído – disse puxando o braço, mas sorrindo em resposta ao sorriso do amigo.
- Você tem que comer, Shun, para se recuperar logo – falou Ikki olhando o irmão desconfiado.
- Eu já estou recuperado, irmão – disse sem jeito – só não estou com muita fome.
Ikki percebeu que ele havia tirado o piercing do supercílio; "bom sinal" pensou.
Shaka olhavam todos à mesa com uma expressão enigmática, percebendo que em breve tudo estaria resolvido.
- Ikki! - todos se viraram ao ouvir aquela doce voz feminina atrás deles, admiraram a bela loura, vestida num vestido vermelho insinuante e segurando uma bolsa tipo carteira. Ela sorriu para todos e estancou o sorriso ao reconhecer Shaka, que sorriu para ela naturalmente.
- Olá, Esmeralda – Ikki cumprimentou desinteressado.
- Olá, não esperava encontrá-lo aqui, pensei que freqüentasse outros espaços agora – provocou – Bem, de qualquer forma, soube que teve um problema com seu irmão, está tudo bem?
- Sim, Esmeralda, esse é o Shun – apresentou e Shun se ergueu apertando a mão da moça.
- Nossa! Seu rosto me é tão familiar – disse a loura e olhou para o Amamiya mais velho sem jeito – Ikki, será que eu posso dar uma palavrinha com você em particular?
- Ah claro! Disse o moreno se levantando – volto já.
Acompanhou a moça até a área externa do restaurante.
- Ikki, preciso me desculpar com você – começou ele – eu não tinha o direito de fazer o que fiz, e nem dizer às coisas que disse, a vida é sua e você faz com ela o que quiser, foi ridícula a forma que tratei você e seu amigo.
- Tudo bem, Esmeralda, eu também errei, eu deveria ter avisado sobre o que aconteceu.
- Sim eu sei, o Kanon me explicou depois, mas como disse isso não justifica minhas atitudes, me comportei como uma patricinha mimada, e você sabe que não sou assim.
- Sim eu sei – sorriu Ikki – foi exatamente por você ser bem diferente disso que me encantou a primeira vista.
- Ah, Ikki, eu deveria está surtada pra lhe dizer todas aquelas coisas, meu Deus! Riu a moça – eu realmente gosto de você, Ikki, e quero o melhor pra você.
- Eu sei, apesar de tão pouco tempo, sinto algo muito especial por você, Esmeralda – disse Ikki meio sem jeito – você está desculpada, certo?
- Obrigada – falou a moça o enlaçando pelo pescoço e lhe dando um suave beijo nos lábios o que fez o moreno corar – Bem, agora voltarei para minha mesa, meu pai está me esperando e você pode voltar para os seus amigos. Nos vemos, então?
- C-claro! Gaguejou Ikki e cada qual voltou a sua mesa.
Ikki retornou e percebeu que todos haviam terminado a refeição e estavam na sobremesa, acabou perdendo o apetite e pediu também a sobremesa para acompanhar o grupo.
Shun e Hyoga estavam sorrindo e conversando e aquilo muito o aliviou, finalmente apôs vários dias, via o irmão sorrindo, mesmo que ainda sem o brilho de antes. Entretanto, o anjo comia seu pudim de chocolate em silêncio com uma expressão preocupada no rosto.
- Shaka, o que você tem? - perguntou Ikki aproximando mais a cadeira da dele que estava ao seu lado e se inclinando para falar mais baixo, não queria chamar a atenção dos outros dois.
- Eu? - perguntou o anjo intrigado, mas sua voz soou fria e indiferente – não entendi a pergunta.
- Você está com uma cara preocupada e essa sua resposta me diz que tem alguma coisa errada sim!
- Não importa – respondeu o anjo num fio de voz.
- Certo, hoje você está cheio de evasivas, eu desisto! Tornou Ikki irritado e isso chamou a atenção de Shun e Hyoga.
- Vocês estão discutindo de novo? Riu Hyoga.
- Não enche, Pato, acho melhor pedir a conta! - tornou Ikki mal humorado.
Pagaram e saíram, Shaka enxergou o mar e pediu para andar na areia, Ikki mesmo chateado, resolveu fazer sua vontade e agora estavam os quatro passeando a beira mar, Hyoga e Shun iam mais atrás e Ikki se esforçava para acompanhar o anjo que estava quase correndo.
- Shaka, anda mais devagar, você não queria admirar o mar? Reclamou o moreno.
- Não, eu queria andar na areia – disse afundando os pés nus na areia macia, pois deixara os tênis no carro estacionando próximo – é uma sensação estranha, no entanto, boa e eu quero ficar sozinho.
- Então por isso está andando tão rápido, para eu não acompanhá-lo? Perguntou Ikki frustrado.
- É.
- E porque, posso saber? Você mesmo disse que deveria ficar o tempo inteiro comigo se lembra? Agora não parece fazer mais questão, sai sozinho com o meu irmão, quer andar sozinho na areia, quero saber o que está acontecendo com você?!
Shaka parou e olhou dentro dos olhos dele.
- É que...é que...
- Para de gaguejar, anjo, e fala logo! - riu Ikki do embaraço dele que chegou a corar.
- É que... Ficar com você... Está começando a doer, Ikki... É uma sensação estranha, mas, entendo que é dor...
Ikki ficou sem palavras, não entendia muito bem o que ele queria dizer com doer, será que teria sido duro demais com suas broncas?
- Shaka, o que você quer dizer com doer? Eu magoei você é isso, foi porque gritei com você mais cedo?
- Isso você faz o tempo todo, Ikki – disse o anjo triste desviando o olhar para o mar.
- Então... Eu não sei o que fiz dessa vez...
- Eu também não sei por que me incomodou tanto, você beijar a Esmeralda – falou o anjo – mas... É algo estranho, algo que queima e machuca...
Ikki o olhava pasmado.
- Eu não sabia que você... Que você podia ver aquilo – gaguejou o Amamiya mais velho ruborizando.
- Eu posso ver tudo o que acontece com você.
- E ficou com ciúmes – sorriu com o canto dos lábios Ikki.
- Ciúmes? Então isso é ciúme?
- É ,Shaka, isso é ciúme, o mesmo que eu senti quando você agarrou o Kanon e aquele seu amigo anjo, se lembra disso? - perguntou divertido.
- O monstro de olhos verdes, como disse o Bardo*? - indagou Shaka maravilhado, nunca ser humano lhe pareceu tão interessante e doloroso.
- Isso mesmo! Riu Ikki.
- "O ciúme é um monstro de olhos verdes que zomba do alimento de que vive*" – declamou o anjo com expressão maravilhada, mas depois fechou a cara e completou:
- Ciúme não é bom, sei que as pessoas cometem crimes por ciúmes e eu... Eu não quero me tornar um criminoso!
- Calma, anjo, também não é pra tanto! Riu o moreno segurando-lhe o queixo – e também não precisa ficar triste, aquilo... Aquilo não significou nada pra mim...
"Que diabos estou fazendo, me justificando como se tivéssemos um relacionamento, ou será que temos? Mesmo assim não importa, ao final ele vai embora e me deixar" Pensava Ikki confuso.
Shun e Hyoga se aproximaram deles.
- Vamos pra casa, eu não estou me sentindo muito bem. – disse Shun com tristeza, na verdade queria fugir da companhia de Hyoga, porque se ficasse tão perto dele não resistiria mais.
- O que você tem, irmão? Perguntou Ikki olhando o rosto corado de Shun.
- Nada sério, é que ainda quero sair à noite – disse o mais jovem.
- Fora de cogitação, Shun – disse Ikki – você ainda não está cem por cento.
- Preciso sair, Ikki, espairecer, fico sufocado dentro daquele seu castelo de vidro!
- Vocês podem conversar sobre isso em casa? - pediu Shaka se afastando em direção a estrada, estava se sentindo cada vez mais estranho, mais humano e fragilizado, se sentia abandonado pelos deuses, seu coração mortal doía porque sabia que em breve teria que deixar Ikki, deixar aquela vida que estava gostando mais do que convinha a um anjo e sabia que aquilo não era real, não poderia continuar, coisas estranhas estavam acontecendo com ele, sabia que fosse o que fosse que estivesse acontecendo entre ele e o protegido, poderia levar dor a Ikki e isso não queria, então o melhor era tentar manter a distância e parar de agir como um humano.
- Ah, mas é tão difícil! Gosto tanto dos seus beijos! Falou Shaka, sem perceber que falava alto.
Já estavam no carro e Ikki olhou para ele pelo retrovisor, já que ele e Hyoga estavam no banco de trás, porque Shun insistiu em seguir ao lado do irmão, também fugindo do louro russo.
- Shaka, afinal o que você é do Ikki? - perguntou Hyoga baixinho, para não chamar a atenção dos Amamiyas.
Shaka se inclinou e falou ao ouvido dele:
- Eu sou o anjo dele.
- Isso, eu já sei, já o ouvir chamá-lo de "meu anjo" – riu o russo.
- Então você sabe?
Hyoga balançou a cabeça rindo.
- Vocês gostam mesmo de privacidade, tudo bem, eu desisto.
Chegaram ao apartamento, e Shun resolveu se trancar no quarto sozinho, Hyoga também se recolheu ao seu quarto inconformado com a rejeição do amado e Ikki chamou Shaka para deitar um pouco, pois ainda estavam cansados da viagem. O anjo concordou e depois de um banho, os dois ficaram deitados na cama, olhando o teto sem nada dizer, Ikki vestindo apenas uma cueca boxer preta e Shaka com uma samba-canção branca de seda. O anjo havia prendido os cabelos com um elástico, coisa que lhe foi ensinado por Shun, até então nunca havia prendido os cabelos e Ikki achou que ele ficou ainda mais belo daquela forma, pois seus traços delicados ficavam mais destacados.
Porém, naquela tarde, Shaka estava sério demais, não fazia nenhuma pergunta e o moreno se indagava se isso teria alguma coisa a ver ainda com o beijo.
- Louro?
- Hum?
- Chega mais perto – disse desconfortável, porque o anjo estava do outro lado da imensa cama, bem longe dele o que não era de seu costume.
Shaka obedeceu, se arrastando pelos lençóis macios, até apoiar a cabeça no peito forte de Ikki que percebia como sua pele bronzeada, contrastava com a brancura do anjo.
- Shaka? Chamou novamente o moreno, porque o anjo permanecia em silêncio.
- Sim?
- Amanhã vamos a um lugar, certo?
- Que lugar, Ikki?
- Um posto de saúde, você precisa de algumas vacinas, para não ficar doente novamente, pode ser pior que da última vez.
- Certo – disse e suspirou – Ikki?
- Fale, meu anjo – Ikki instintivamente beijou os cabelos cheirosos dele.
- Você poderia me ajudar numa coisa?
- O quê?
- Sei que em breve estarei partindo, porém, eu sinto alguma coisa estranha e uma curiosidade muito grande sobre essas coisas que eu sinto, eu preciso saber, não entendo porque essa necessidade de conhecer, mas eu tenho e ela está me atormentado, eu até sei que não deveria, mas... Não consigo.
- Do que você está falando exatamente, Shaka? – Ikki olhou os olhos azuis inocentes, tão puros, pois Shaka havia erguido o queixo para olhá-lo também.
- Sexo – disse o anjo no mesmo tom inocente – eu quero fazer sexo com você.
Ikki ficou boquiaberto e nada disse, Shaka baixou a cabeça triste.
- Tudo bem, eu procuro outra pessoa...
- Não! Não é isso! - as palavras do anjo o tirou de seu torpor. – Eu não disse que eu não quero, eu só... Espera aí QUE HISTÓRIA É ESSA DE "EU PROCURO OUTRA PESSOA?"
- Não sei, talvez o Camus ou o Milo, até mesmo o Hyoga, ele é tão bonitinho – falou, com um sorriso sapeca no rosto.
Ikki rolou sobre ele, segurando-lhe os pulsos, enquanto o olhava.
- Ah, você acha engraçado é isso? Reclamou, mas não estava zangado, nem conseguia fingir, acabou rindo também.
- Eu já disse que só tiro a roupa pra você – respondeu Shaka libertando a mão e afastando a franja da testa dele – eu estava... Te provocando, não é isso? Eu não falava sério...
- Isso é bom, porque sou muito ciumento, louro, você não imagina como e não quero meu anjo da guarda por aí tirando a roupa pra qualquer um!
- Você sente mesmo ciúmes de mim? Perguntou o anjo ainda olhando dentro dos olhos azuis escuros de Ikki.
- Sinto... Eu... Bem, mas você vai embora, então isso não importa. – falou o moreno tentando não aparentar tristeza, rolando para o lado e o libertando, o anjo permaneceu na mesma posição deitado de costa na cama.
- Você não respondeu minha pergunta – tornou sério.
- Eu realmente tenho que responder isso, Shaka? - Ikki perguntou rindo – você está me colocando numa situação bastante complicada dentro dos meus princípios morais que são poucos, mas existem.
- Então, sexo não é bom? - o anjo se voltou pra ele com um olhar curioso.
- Depende...
- Depende de que, Ikki? Me diz, me explica!
- Calma, meu anjo, você está muito ansioso! - riu Ikki puxando o louro pelos braços pra si – não é assim que as coisas acontecem...
- Não? Como não é assim? Eu já vi você fazendo isso, vocês simplesmente tiram as roupas se beijam, se agarram e...
- Eu não acredito que você ficava me espionando nessas horas Shaka! - reclamou Ikki irritado.
- Eu sou seu anjo da guarda esqueceu? - respondeu o louro.
- Mas... Você não deveria prestar atenção nessas coisas!- continuou sem jeito, corando.
- Eu já entendi, Ikki! - disse o anjo se levantando da cama – você não quer fazer sexo comigo, tudo bem, não precisa mais!
Shaka saiu do quarto pisando firme e Ikki o seguiu pasmado sem entender, mas com medo daquele anjo ensandecido ir mesmo procurar outra forma de matar sua curiosidade.
- Shaka, pra onde você vai? Volta para o quarto agora! - pedia Ikki no ápice da irritação.
- Eu não vou, preciso achar alguém que faça sexo comigo! - gritou o anjo também irritado.
- Cala essa boca, seu anjo maluco, você quer que o Shun e o Hyoga escutem essas coisas? – falou baixinho segurando o louro pelo braço.
- Porque eles não podem ouvir? Porque eles não podem saber que você não quer fazer sexo comigo hein? - perguntou ainda com a boca no mundo.
- Shaka, não é que eu não queira, eu não posso! - Ikki continuava sussurrando e olhando os olhos quase chorosos do anjo.
Nesse momento Shun e Hyoga chegaram à sala, atraídos pelos gritos de Shaka.
- O que está acontecendo, irmão? - perguntou o Amamiya mais novo meio sonolento – porque o Shaka está gritando?
- Não é nada...
- É sim, Shun! O Ikki não quer fazer...hum...hum... – Shaka não conseguiu terminar a frase, porque Ikki tapou sua boca com a mão e o segurou fortemente pela cintura.
- Como eu disse, não é nada, vamos voltar para o quarto – tornou o Amamiya mais velho com um sorriso irônico.
- Puxa, Ikki, controla ele, eu estava dormindo depois de meses, que saco! - reclamou Shun voltando para o quarto, Hyoga que ao contrário de Shun havia ouvido toda a conversa, não perdeu a oportunidade de provocar o ex-cunhado.
- Já negando fogo, Ikki, com essa idade? - riu se afastando.
- Vai para o inferno, Pato! - disse Ikki arrastando Shaka ainda com a boca tapada para dentro do quarto, enquanto ele esperneava, lá chegando, jogou o louro em cima da cama e ele acariciou a mandíbula com uma expressão chorosa.
- Você me machucou, isso não é bom! - reclamou.
- Porque você me tira do sério, anjo! - Ikki ainda estava muito irritado. – o que as pessoas vão pensar se você sair por aí as convidando para fazer sexo, como se fosse para uma partida de tênis?
- Então me explique, porque sexo não é bom?
Ikki suspirou e se sentou ao lado dele na cama, como explicaria uma coisa daquelas, tentou começar: "Vamos lá, Ikki Amamiya, fale como se estivesse conversando com alguém de cinco anos..."
- Shaka, sexo é uma coisa boa sim, entretanto, requer algumas responsabilidades e de forma alguma pode ser feito com qualquer pessoa e de qualquer jeito...
- Mas, você fazia com qualquer pessoa e de qualquer jeito...
- Mas, eu não sou exemplo pra você! - irritou-se Ikki e tentou se acalmar novamente – Escute, nem sempre as coisas que eu faço são as certas.
- Ah, isso eu sei e eu sei o que é sexo, Ikki, também não sou tão bobo assim, mas eu preciso saber o que é fazer, porque as pessoas perdem o controle, as sensações,você entende?
- Entendo que você está apenas curioso como uma criança que acabou de se dar conta do mundo, como um bebê que usa a boca pra saber o gosto de tudo, mas o problema é que você é um bebê de um e oitenta e ninguém achará isso normal!
- Eu não sou um bebê, eu sou um arcanjo! - reclamou Shaka cruzando os braços – bebês não sabem o que fazem e eu sei o que estou fazendo, não me trate como uma criança!
- Shaka, façamos o seguinte, falamos sobre isso depois, certo?
- Não quero falar mais sobre isso com você, Ikki, você não quer e pronto, não mais o incomodarei – disse sério virando de bruços na cama e fechando os olhos.
Ikki se deixou cair ao seu lado e segurou uma mecha dos longos cabelos louros; suspirou: como desejava fazer o que ele pedia; tocar com mais ousadia e liberdade aquela pele que cheirava a sândalo e lavanda, mas... Não tinha coragem, se sentia verdadeiramente um aproveitador, todas as vezes que tinha aqueles pensamentos, afinal, nunca havia se deparado com tamanha inocência e sinceridade e além do mais não demoraria a Shaka ir embora e o que faria depois? Não, deveria se afastar ainda mais dele, não era justo que...
- Ikki... – o sussurro do anjo cortou seus pensamentos.
- Hum...
- Eu amo você.
- Eu também te amo, Shaka – disse Ikki o abraçando, mesmo achando que o anjo falava de um amor bem diferente do que ele sentia – eu também te amo.
Adormeceram.
Continua...
Notas finais: O Shaka está perdendo a inocência, daqui a pouco se torna um anjo taradinho igual o Camus e o Milo, tá, eles não apareceram nesse capítulo, mas, por favor, paciência, os próximos virão.
Esse capítulo foi mais sério certo? Sei que vcs estão com saudade de confusões, aguardem o próximo, prometo que vai acontecer.
Obs. Gente sou apaixonada pelo Bardo inglês, Shakespeare é mais que inspiração, a frase que o nosso anjinho recita é da sua famosa obra "Otelo".
A gente, mais uns clichezinhos básicos, como a aposta divina, alusão ao livro de Jô (não foram feitas nesse capítulo, mas, será nos próximos com certeza) então se preparem para mais confusões!
Deixem reviews ou vou me suicidar e não termino a Fic nem no Tártaro (ameaça)!
Obrigada de antemão a todos que leram e deixaram review!
