14 Anos
INDIGNO:
Adjetivo.
Não digno. Vil, desprezível. Torpe, baixo. Inconveniente, impróprio. Homem indigno.
Era o inverno mais rigoroso desde que nos conhecêramos, era a época das férias de inverno e os feriados de fim de ano.
E também era o dia do seu aniversário.
Eu acordei naquela manhã sentindo mais frio do que nunca e quis ficar na cama o máximo que conseguisse, mas minhas defesas caíram por terra quando eu bati os olhos no calendário sobre minha escrivaninha e lá estava destacado em vermelho, dois dias após o Natal, o seu dia. Taquei as cobertas para o lado e fui descalço sobre a neve ainda imaculada das nossas sacadas, até a porta de seu quarto. Não bati e nem tentei entrar, só constatei se você ainda estava lá, dormindo.
Corri de volta para o meu quarto e peguei de debaixo da cama a faixa prateada com os dizeres "Feliz Aniversário, Hinata!" em azul. Eu a escondi embaixo da cama para que minha mãe não a encontrasse. Naquela época eu acreditava que minha mãe encontrar as demonstrações de carinho de mim para você era incrivelmente embaraçoso e se eu ficava completamente rabugento só de ela me pegar te dando a última fatia de torta com o morango em cima, imagine o meu estado se ela tivesse visto a faixa que eu preparei para você e preguei na sua janela da sacada. Certifiquei-me que a faixa estava bem presa e voltei para o meu quarto respirando em minhas mãos em concha para aquecê-las. Fui ao banheiro e, depois de vestido com as minhas mais grossas roupas de inverno, desci para tomar café da manhã e me deparei com uma mãe sorridente me dizendo que iríamos tomar o café da manhã na casa dos Hyuuga para o seu aniversário. Definitivamente eu não deixei minha mãe ver que eu estava muito feliz em fazer isso. Como meu pai estava viajando a negócios e arrastara Itachi com ele, nós tivemos dois convidados a menos naquele ano. E eu tive uma preocupação a menos, também. Não posso negar que eu ficava muito incomodado com a atenção extra que Itachi parecia estar dando a você todas as vezes que vinha pra casa nas folgas da faculdade, assim como seus amigos estranhos, quando ele trazia algum.
Por menos que pudesse parecer nós ainda não nos tínhamos recuperado completamente do episódio da primavera, do aniversário de Sakura, e isso me deixava realmente muito mal remoendo esses sentimentos ruins dentro de mim. Você percebia isso e fazia de tudo para que eu não pensasse que a tinha magoado ao magoar Sakura. Nunca mais tínhamos tocado no assunto e nem gostaríamos disso, mas não podíamos evitar lembrá-lo, especialmente quando Sakura estava por perto.
Quando chegamos a sua casa Neji já estava pilotando o fogão ajudando o Sr. Hyuuga a fazer as suas panquecas favoritas, de chocolate. Naquele dia minha mãe não precisaria cozinhar para você, então ela se ocupou em dar todas as suas atenções para a carente Hanabi que ficava incrivelmente mais escandalosa e mimada nos dias do seu aniversário. Eu nunca entendi isso. Sempre era ela quem recebia todas as atenções e, mesmo Hiashi gostando das duas, deixava claro em suas atitudes que Hanabi era sua favorita e ela queria atenções até no seu dia? Meu sangue fervia, e ainda ferve, sempre que penso nisso.
Não demorou muito para você descer. Você sempre gostava de acordar cedo, um dos seus espetáculos naturais favoritos era o nascer do sol, portanto na noite anterior eu tinha feito um grande esforço mantendo você conversando comigo até altas horas para acordar um pouco mais tarde no dia de seu aniversário para eu ter tempo de pregar a faixa. Você ainda estava com seu pijama de flanela, as pantufas gastas de algo que um dia já fora um urso e ainda assim descia as escadas como se fosse a mais bela princesa que eu já tinha visto. O céu lá fora parecia concordar comigo, porque ele refletia a cor de seus olhos. Olhos de nuvem de inverno.
- O... O que foi? - você perguntou ao nos ver todos reunidos na cozinha, com seu pai e Neji de avental cozinhando, e minha mãe com o sorriso mais largo e radiante que conseguia. Você não ficou espantada ao me ver ali, eu já fazia parte do cenários dos seus cafés da manhã.
- FELIZ ANIVERSÁRIO! - gritaram Hanabi, Hiashi e Minako em coro fazendo você se assustar e corar intensamente quando eles vieram te abraçar todos juntos desejando muitas felicidades, anos de vida e toda aquela conversa chata de aniversário. Como se fazer mais um ano de vida fosse uma coisa realmente tão boa assim, era o que você me dizia sempre nessa data. E mesmo dizendo isso sempre fazia questão de planejar alguma coisa para o meu aniversário.
Você agradeceu a todos como sempre fazia: calma, gentil, com a voz sussurrada e em meio a vários gaguejos. Neji foi o último a te dar os parabéns, eu nem me atrevi, pois sabia que ia ser repreendido. Depois de tudo você se sentou ao meu lado no balcão esperando o café da manhã terminar de ser colado sobre a mesa e, quando percebeu que ninguém prestava atenção em nós, disse em um novo sussurro:
- Obrigada pela faixa! - e corou virando o rosto para o outro lado, depois saltando do banquinho do balcão e sentando no lugar de honra da mesa da sala de jantar.
Não tinha como eu esconder de você as coisas que eu fazia, nunca. De alguma maneira mística você sempre ficava sabendo. E eu me senti com o peito estufado com aquele agradecimento, assim como das vezes que meu pai me chamava de "campeão". Sabe aquele orgulho gostoso de fazer uma torta saborosa, tirar um 10 ou fazer uma coisa realmente certa? Exatamente esse orgulho que eu senti no momento.
E eu ainda nem tinha te dado o seu presente de verdade.
Durante a tarde não foi surpresa nenhuma quando Kiba, Shino, Naruto e até Lee e Tenten apareceram na sua casa com presentes bem embrulhados e sorrisos radiantes para te dar os parabéns. Mesmo não gostando de todas aquelas atenções, você sorria gentilmente e agradecia por tudo, corada e tímida. Durante a tarde tivemos que ficar dentro de casa, o tempo escureceu ainda mais e esfriou fazendo a neve cair mais pesada. Ninguém, definitivamente, reclamou de ficar perto da lareira tomando o seu chocolate quente.
Naruto e Kiba ficavam o tempo todo tentando arranjar assuntos com você, o que parecia deixar Neji extremamente incomodado com aquela atenção extra. Como se eles já não te dedicassem um atenção demasiada normalmente. Especialmente Kiba Inuzuka. Eu me irritei, também. Na verdade eu fiquei enciumado. Mas nunca admitiria isso para você naquela época, nem sob tortura. Hoje, e sob as atuais circunstâncias, eu não tenho vergonha de fazê-lo. Você ficara muito amiga de Tenten nessa época e ela também ia freqüentemente a casa dos Hyuuga, ora para conversar com você e dormir lá, ora simplesmente para poder ficar um pouco mais perto de Neji. Todos percebiam, mesmo que ela tentasse esconder, a admiração que ela sentia por ele, apesar de ficar muito irritada quando ele se fazia de orgulhos e inalcançável. Todos - menos ele - percebiam.
Foram incontáveis as vezes que eu olhei pra fora para ver se a nevasca tinha parado naquele dia. E a cada badalada do relógio sobre o console da lareira meu peito parecia ficar menos apertado. Estava chegando a hora de todo mundo se mandar dali para que eu pudesse, em paz, te entregar o seu presente sem ficar muito constrangido. Eu nunca fui muito bom com essas coisas, definitivamente. Eu não era nem um pouco criativo como você para planejar algo especial, nem pensava também em ser romântico ou qualquer coisa assim, pois você poderia interpretar mal. Apesar de que a sua personalidade a faz ser incapaz de pensar maldades das pessoas. E assim que Naruto, que foi o último, saiu de casa eu quase dei um pulo de contentamento. Não o fiz. Me mantive como você me conhece, sério, frio e insensível. Nem Sakura e nem Ino apareceram aquele dia para te dar os parabéns. Você não se importou e disse que elas deviam ter um compromisso mais importante. Eu, mesmo não gostando delas, achei muita falta de consideração.
Subimos as escadas para o seu quarto, eu e você. E Neji na nossa cola. Ele foi muito pegajoso nessa época e mais uns anos pra frente, irritantemente pegajoso e ainda mais super-protetor pra cima de você. Quando chegamos à porta do seu quarto eu virei pra ele, sério mais que o costume, e encarei os olhos cinzentos como somente tinha feito nos primeiros dias depois de nos conhecermos e naquelas malditas duas semanas em que você me evitou. Você pareceu perceber a tensão no ar, mas não disse nada.
- Neji, eu preciso falar com a Hinata. Sozinho.
- Fora de questão - disse Neji simplesmente.
- Neji - você chamou de forma gentil e nós dois nos viramos para de encarar. Você já estava dentro de seu quarto e meio que escondia seu corpo com a porta - De-deixe Sasuke falar comigo.
- Hinata... - ele tentou, mas não prosseguiu. Um olhar suplicante seu era o suficiente para colocar as pretensões de Neji de lado. Ele me olhou uma última vez e entrou em seu próprio quarto enquanto eu entrava no seu. Fechou a porta atrás de mim e sentou-se na cama ao lado dos presentes que ganhara.
Ficou um silêncio muito, muito constrangedor entre nós naquele momento e eu não sabia por quê. Eu fora até ali com o intuito de falar com você sinceramente como sempre fazíamos quando estávamos sozinhos e entregar o seu presente, mas parece que a situação se inverteu para o meu lado. O pior de tudo, acho, foi a expectativa de saber se você gaguejaria comigo. Engoli em seco várias vezes antes de recuperar a calma habitual, a frieza e controlar o meu sangue para ele não subir todo junto para minhas bochechas e orelhas. Ter a pele tão pálida não ajuda em nada nesses momentos.
Retirei o embrulho comprido que trazia embaixo da camisa e estendi pra você sem te encarar. Fiquei olhando fixamente para a faixa de felicitação que eu colocara em sua janela. O vento bateu forte durante a tarde, mas não foi o suficiente para arrancá-la. Você ficou olhando surpresa para o embrulho ante de eu sentir que o tinha pegado. Voltei minhas mãos para os bolsos e te olhei de relance. Estava corada, com um sorriso no rosto e suas mãos delicadas e ágeis desfaziam o laço de cima logo retirando o papel. E foi nesse instante que eu me senti um completo idiota. Você nunca gostaria de um presente tão simples e como aquele. Kiba, Shino, Naruto e até Neji deveria ter te dado coisas muito superiores, como um vestido bonito ou um par de brincos de pedrinhas brilhantes mesmo você não tendo as orelhas furadas ou alguma sandália ou ainda alguma outra coisa que você podia ter comentado com algum deles estar querendo ganhar. E eu te dei...
- Obrigada! - um caderno de desenhos. E porque você estava chorando sobre a capa de couro branco dele? - Obrigada... Sasuke!
Eu fiquei espantado. Desfiz a face séria e fiquei parado olhando você abraçar o caderno contra o peito e chorar em meio a um sorriso radiante. Não era absolutamente nada de mais. Foi um caderno que vi quando passei por uma loja de presentes uma vez, tinha já uns dois meses. Ele tinha a capa branca, as folhas tão brancas quanto, era comprido o suficiente para os seus desenhos e tinha muitas folhas. Comprei sem pensar duas vezes e mandei gravar suas iniciais em linha prateada num dos cantos. Naquela época eu já sabia que a cor prata combinava perfeitamente com você. Quando eu o comprei achei que era o melhor presente que eu poderia dar para você na minha vida inteira, mas quando chegara o momento de te presentear eu fiquei receoso e ali estava você, chorando abraçada a ele.
- Hinata? - eu chamei, mas tudo o que você fez foi colocar o caderno sobre a cama, saltar dela e me abraçar.
E eu não consegui te abraçar de volta.
Não por, pelo menos, um minuto inteiro.
Era a primeira vez que você me abraçava, me deixava tocá-la mais que acidentalmente, desde o que aconteceu na primavera. Era a primeira vez em meses que eu sentia o seu cheiro tão perto de mim como se fosse meu, era a primeira vez que eu de fato sentia a maciez da sua pele, a delicadeza de seu corpo, a sensualidade das suas curvas e como você crescera. Era a primeira vez que eu te abraçava e te sentia sendo um homem, ou melhor, um adolescente que não ficava tão próximo de uma garota desde a primavera. Era a primeira vez que eu não te sentia somente como seu melhor amigo.
- Obrigada - você sussurrou pela última vez próxima do meu ouvido provocando sensações boas demais para que eu deixasse passar despercebidas. E foi assim que eu consegui mexer os meus braços para passar em volta da sua cintura fina, colocar minha mão de dedos gélidos sobre o pedacinho de pele que sua blusa fizera o favor de deixar a mostra ao subir, encher os pulmões de ar e responder:
- Qualquer coisa pra você.
O inverno e a primavera são duas estações completamente diferentes.
A primavera trazia momentos bons, que me deixavam satisfeito de poder desfrutar, mas que depois de um tempo eu enjoava e preferia que acabasse rapidamente. A primavera era muito rosa, muito doce, muito alegre, muito escandalosa e muito enfadonha. A primavera era boa para ser desinibido, sem vergonha, pois ela era vulgar, sensual e sem escrúpulos. A primavera me irritava depois de um tempo, depois que a diversão acabava, depois que eu estava saciado de brincar com ela.
O inverno trazia ainda mais momentos bons, que era como um desafio. O inverno reavivava meus sentidos, me fazia querer mais e mais e ainda assim passava muito rápido. O inverno era muito branco, muito frio, muito neutro e muito aconchegante. O inverno era bom para se ficar junto, se aquecer do fogo e para desejar possuir, pois ele era delicado, tímido e envergonhado. O inverno me regozijava depois de um tempo, depois que a neve derretia, depois de eu estar saciado de cuidar dele. Não, o inverno nunca me saciava. Sempre que ele acabava eu pedia para que o verão, a primavera e o outono passassem logo, para voltar a ser inverno.
Chegara o dia. Era fim de inverno e começo de primavera, mas não é isso o importante. Depois das férias de fim de ano as estratégias do time de basquete foram refeitas, com a ajuda dos membros do Clube de Xadrez, um em particular, e finalmente eu e Naruto tínhamos sido escalados para jogar em um jogo oficial. Nós dois, obrigatoriamente, tínhamos de ser escalados juntos, porque o nosso jogo individual era ótimo, mas os nossos ataques em dupla eram simplesmente imbatíveis. Um sempre sabia em que lugar da quadra o outro iria estar.
Nas duas semanas que antecederam o jogo eu devo ter te visto somente umas duas ou três vezes. Estávamos treinando muito duro, então eu tinha que ir para a escola mais cedo, passava o horário do almoço treinando e chegava muito tarde em casa. Nós não tínhamos mais tempo para conversar direito e, apesar de eu me sentir muito incomodado agora que Kiba estava andando muito mais com você sem eu ou Neji - que, como capitão do Time, tinha ainda mais responsabilidades. As líderes de torcida, também, estavam treinando mais para fazerem tudo perfeitamente no dia do jogo e, ocasionalmente, os jogadores acabava ficando mais tempo com elas. Acredito que isso tenha sido um dos motivos que culminou no nosso afastamento. Você não faz idéia de todas as vezes que eu me amaldiçoei por entrar naquela porcaria de time.
E eu me sinto sujo. Sujo por não cumprir uma das promessas que eu fiz a mim mesmo por você. Me sinto sujo até hoje por, mesmo depois de ter prometido a mim mesmo que por você eu não colocaria mais as mãos em Sakura, eu coloquei. A minha sede adolescente não estava mais se contentando com aquelas revistas de mulheres seminuas dos caras do time, nem dos vídeos na Internet que Naruto, mesmo sem eu pedir, me passava e mesmo os banhos "mais longos" eram demasiados chatos. Então eu voltei a ficar com a Sakura. Uma, duas, três, várias outras vezes. Nas primeiras vezes ela ficou temerosa que ficássemos e eu depois a maltratasse, mas disse que não o faria se ela guardasse segredo. Eu a abordei na saída do vestiário feminino e a puxei para um dos corredores já vazios e meio escuros da escola.
- Não quer que Hinata saiba, não é, Sasuke? - ela riu com desdém - Pobrezinha. Ela já beijou alguém?
Dei de ombros. Não gostei nem um pouco daquele tom, mas somente Sakura, eu sabia, dizia me amar tanto a ponto de deixar eu me satisfazer com o corpo dela. Naquela época eu só queria umas passadas de mão por baixo das roupas e alguns beijos mais ardentes.
- Acho que ela vive em um mundo de faz de conta. Será que ela sonha em casar virgem?
- Você aceita ou não? - perguntei ríspido e ela se calou imediatamente.
Depois de abrir um sorriso eu não precisei mais que ela respondesse, simplesmente a coloquei contra a parede e a beijei. Na primeira vez eu fui com calma, conservei minhas mãos na cintura dela e foi o suficiente. Foi assim na segunda, terceira e até na sexta vez. Depois foi ela quem me concedeu espaço. Sempre depois dos treinos nós escolhíamos um lugar vazio da escola e ficávamos nos amassando até ouvirmos Naruto, escandalosamente, deixar o vestiário. Eu contara a ele, tivera que contar, ele era o meu melhor amigo e o que melhor me entenderia, já que eu não podia contar a verdade a você. Ele me recriminou um pouco, urrou que eu a magoaria, mas ainda assim ele me acobertou. Eu nunca vou achar outro amigo igual a Naruto. Eu me juntava a ele e a Neji na volta pra casa e você a Ino Yamanaka. Na sétima vez eu ainda estava com a mão na cintura dela quando a mão da rósea pousou sobre a minha e, sem interromper o beijo, levou-a para sua coxa por baixo da saia preta da escola. Ela sorriu no beijo e assim as carícias aumentaram conforme os dias passavam.
No dia da véspera do jogo eu estava com Sakura num dos corredores, as pernas dela ao redor da minha cintura, uma mão em suas nádegas e a outra em um dos seus seios por cima da blusa e nossos lábios cheios de vontades por serem saciadas. O nosso tempo de amassos já estava acabando e aquele dia eu sentia que teria de terminar um pouco mais cedo, então retirei minhas mãos de onde estavam para colocá-la sentada sobre minha perna e sentir sua calcinha levemente molhada antes de colocá-la totalmente no chão. Fui até a outra parede do corredor, sentei-me no chão com as pernas dobradas e esperei enquanto Sakura ajeitava suas roupas. Como sempre nós pegaríamos duas direções opostas e nos encontraríamos com nossos amigos. Sem conversas, sem culpas, somente o segredo.
- VAMOS PRA CASA! - ouvi Naruto gritando ao sair do vestiário, Neji deveria estar ao seu lado, então me levantei e peguei a mochila. Sakura já correu para o lado oposto e eu só a vi quando estava me aproximando dos dois e ela estava saindo com Ino, toda sorridente. Eu me aproximei deles como se sempre estivesse lá e eles não me fizeram perguntas.
- Capitão! - chamou um dos reservas do time, um dos que tinha assumido a limpeza das bolas e a lavagem dos uniformes que antes eram tarefas minhas e de Naruto. Ele aproximou-se correndo de Neji, de mim e Naruto. As duas líderes também pararam para ouvir, ele parecia alarmado - Já é tão tarde, eu acho que ela ficou esperando você.
- Do que é que você está falando? - Neji perguntou categórico.
- Ela está dormindo numa das arquibancadas, Capitão. Sua prima.
Hinata era prima de Neji e fora a ele quem o calouro viera avisar, mas quem saiu correndo o mais rápido que pode ao encontro dela fui eu, logo então seguido de Naruto e só depois de Neji. Eu cheguei lá muito mais depressa do que eu pensara que chegaria - sentindo durante todo o percurso os olhos esmeraldinos raivosos sobre minhas costas - e lá estava você, dormindo na arquibancada com a cabeça apoiada na mochila, o casaco não muito grosso de fim de inverno cobrindo as pernas. Eu me aproximei de você e tencionei acordá-la naquele momento, mas não o fiz. Eu estava sujo, me sentia sujo e enojado. E eu sabia, eu jamais ousaria tocá-la naquele estado.
- Naruto! - chamei e o loiro se aproximou. Meus olhos se cruzaram seriamente com os de Sakura e depois os de Ino que diziam "Você não pode tocá-la, não é?". Sakura contara a ela.
- Fala.
- Me ajuda, eu vou colocar ela nas suas costas.
- Eu?! - Naruto arregalou os olhos com o que eu falei. Acho que ele esperava que eu dissesse para ele me ajudar a colocar você nas minhas próprias costas - Se liga, tem certeza, Sasuke?
- Anda logo.
Sem acordá-la e tentando tocá-la o menos possível eu te ajeitei nas costas de Naruto. Neji não reclamou do que eu tinha feito, só me olhou como se soubesse da situação e pegou sua mochila começando a andar para que Naruto o seguisse. Até hoje eu acredito que o único que tenha sabido da minha relação com Sakura desde o início, sem eu ter contado, fora Neji. Praticamente nada se escapa dos olhos claros dos Hyuuga, especialmente de Neji Hyuuga.
Naruto a levou até em casa comigo e Neji em seu encalço. Chegando a sua porta Neji te tirou das costas de Naruto e te levou no colo para dentro. Você não acordou, nem ao menos se mexeu demais ou falou durante o sono. Eu fiquei lá fora até depois de Naruto ir embora, já era noite e eu vi a luz do seu quarto ser acesa, depois apagada, então acesa de novo e apagada de novo. Você deveria ter acordado. Eu entrei em casa já dizendo para minha mãe que estava sem fome. Era uma sexta-feira em que Itachi tinha vindo para casa e estava estirado no sofá assistindo televisão. Me tranquei no banheiro e, de novo, como vinha repetindo muito freqüentemente nessas duas semanas, me esfreguei até deixar toda a minha pele totalmente avermelhada pela força. Os músculos dos meus braços agora já estavam mais salientes, assim como das minhas coxas e da minha barriga, mas eu e Naruto ainda éramos garotos franzinos e baixos demais.
Sai do banheiro e me tranquei no meu quarto, as cortinas azuis cerradas e eu só ficava olhando para o teto iluminado pela luz também azul do meu abajur de lava. Eu não consegui te tocar depois de tocar Sakura com medo que o cheiro dela ficasse em você, mas eu ainda tinha coragem de te olhar nos olhos? Patético. Era isso que eu ficava passando na minha cabeça aquele dia, que eu era um nojento, desonrado e patético. E não fui eu quem foi até a sua janela naquela noite. Já era muito tarde e eu ainda estava acordado quando as suaves batidas no vidro me fizeram sentar na cama e olhar para as cortinas fechadas. Eu reconheci a sua silhueta curvilínea e estremeci antes de ir até lá abrir a porta. Você me presenteou com um sorriso e um com algo que trazia nas mãos.
- Trouxe um pedaço de torta pra você - foi o que você me disse estendendo o que tinha nas mãos.
E o nó em minha garganta deu mais um puxão. Sentamo-nos lado a lado com as costas no beiral da sacada e eu comecei a comer a torta. Cada pedaço, eu sentia, iria voltar depois. Mas você estava lá, quietinha e quase imperceptível ao meu lado, observando além da porta da sacada que eu deixara aberta.
- Amanhã é o jogo, não é? - você me sorriu de novo.
- É.
- Eu vou ir assistir, torcer por você, pelo Neji e... - você hesitou e corou furiosamente tentando esconder o rosto com o cabelo agora bem mais comprido, já descia além da linha de seus ombros - Naruto.
- Você estava esperando Neji? - o seu rosto se voltou para mim perdendo a vermelhidão gradativamente - Não devia ficar lá até tão tarde.
- Na verdade, Sasuke - e a vermelhidão voltou junto com a brincadeira frenética que você, atualmente, começara a fazer com os dedos quando estava embaraçada - Eu estava com saudades de conversar com você.
E foi ai que eu realmente senti aquele pedaço de torta voltar. Levantei-me de um salto e corri o mais rápido que pude através da minha casa escura até o banheiro. Ouvi seus passos vindo atrás de mim com um grito sussurrado pelo meu nome. Cheguei ao banheiro, me debrucei na privada e vomitei aquela torta. Você se colocou meu lado de joelhos no piso frio e segurou minha franja com uma das mãos, a outra em minhas costas fazendo círculos e sussurrando palavras do tipo:
- Vai ficar tudo bem, Sasuke - como se estivéssemos em uma situação desesperadora - Eu estou aqui.
Eu me sentei no chão depois de vomitar tudo me sentindo ainda mais grotesco. Eu fazendo aquelas coisas enquanto com Sakura - mesmo tempo prometido a mim mesmo, por você, que não mais o faria - e você ali: trazendo-me tortas, não suspeitando de nada, querendo apenas mais tempo com o seu melhor amigo que agora se dedicava mais a um esporte e segurando minha cabeça quando eu estava mal e vomitando. O que eu estava fazendo para merecer alguém como você, Hinata? Nada louvável, devo dizer.
- Será que foi a torta? - você se perguntou sentando ao meu lado depois de me ajudar a lavar a boca na água da pia e voltar para minha cama. Ficou ali por muito, muito tempo.
Até que eu fechei os olhos, ainda ouvindo sua respiração, e você disse:
- Mas já dormiu? - perguntando para o nada - Eu não queria ter que contar assim, Sasuke, mas... - eu ouvi sua voz um pouco mais longe e até temerosa - Kiba pediu se eu queria sair com ele amanhã depois do jogo - meu estômago embrulhou, a porta da sacada rangeu e eu ouvi sua voz vinda dessa direção - E eu aceitei.
E então a porta se fechou.
Eu corri para o banheiro e vomitei mais uma vez.
Era noite do jogo de basquete da escola. O ginásio estava um festival de luzes e vozes, eu estava espiando pela fresta da porta do vestiário. Os uniformes pretos de números e calção vermelho ainda ficavam um pouco largos em mim e em Naruto ao meu lado que a todo o momento exclamava um "Cara, se liga, quanta gente!". As arquibancadas estavam lotadas de gente com as bandeirolas negras e vermelhas do time da casa, os Dragões de St. Louis, e as bandeirolas amarelas do time adversário, os Canários de RiverHill. As líderes de torcida com roupas pretas e amarelas faziam suas acrobacias no meio da quadra antes do jogo começar.
Meu pai estava lá, olhando para mim, e eu me sentia aquecer. O meu primeiro jogo foi o único a que meu pai assistiu. Minha mãe estava ao seu lado com uma máquina fotográfica, aquela mesma que ficou nos seguindo aonde íamos durante festa de formatura do primário. Hanabi e o Sr. Hyuuga estavam lá, também. Hanabi como uma escandalosa e o Sr. Hyuuga sóbrio, impassível, mas ansioso. Se tinha uma coisa que eu, Neji, meu pai e o seu tinham em comum era o gosto pelo basquete. E um pouco mais afastada deles estava você. Eu nunca vou me esquecer dessa visão, de você através das líderes de torcida, em meio a todo aquele barulho, um pontinho iluminado na arquibancada. Seus cabelos já estavam bem longos, poucos centímetros abaixo do ombro e o casaco branco. Uma coisa que eu adorei foi o lápis preto delineador de olhos que você passou a usar, presente de aniversário de Tenten, só deixava os seus olhos claros ainda mais expressivos e destacados. Eu me lembro que, quando você me viu espiando pela fresta da porta, você sorriu, mas foi Naruto quem abriu a porta, colocou a cabeça e um dos braços para fora e gritou:
- HINATA! - acenando pra você. Você corou furiosamente e desviou os olhos colocando a mão sobre o colo, apertando a barra da saia preta.
Só então eu vi os dois guarda-costas ladeando você, porque era isso que Shino e Kiba tinham se tornado, dois seguranças. Mas eles deviam saber, eles sabiam. Eles sabiam o que eu estava fazendo com Sakura e o que isso iria causar em você, causas que nem eu mesmo sabia naquela época. Eu, seu melhor amigo desde os seis anos de idade. Meus olhos passaram ainda pelos óculos escuros de Shino e depois pelas fendas dos olhos de Kiba. O primeiro estava inexpressivo, enquanto que Kiba pareceu cerrar os dentes pra mim em um rosnado. Meu sangue subiu até a cabeça com a lembrança de que vocês dois iria sair, juntos, para algum lugar sem mim ou Neji ou até mesmo Naruto depois do jogo. Cerrei os dentes com tanta força que acreditei que iria quebrar minha mandíbula. Então eu vi os olhos verdes de Sakura, ela me deu uma piscadela, e eu puxei Naruto fechando a porta.
O treinador veio gritando para que nos preparássemos para entrar em campo e foi o que fizemos. Eu, Naruto e Neji estávamos juntos, por perto. Shikamaru estava ali, também. Ele iria dar uma ajuda estratégica para o time, mas com a cara de entediado que ele estava fazendo eu tinha certeza que ele iria conseguir fugir de fininho para debaixo das arquibancadas e tirar um cochilo, mesmo com todo o barulho e os gritos. A mascote do time, um garoto vestido de dragão, ficou em frente aos jogadores e as portas se abriram logo depois do locutor anunciar os jogadores. Eu fiquei com medo naquele momento. Ladeado por Neji, já experiente, e por Naruto, outro novato como eu que deveria estar tão ou mais nervoso, mesmo sem aparentar, eu senti vontade de sumir, de não estar ali de jeito nenhum, de simplesmente te puxar, levar para nossa sacada e deitar a cabeça no seu colo para conversar sobre qualquer coisa.
Mas eu não fiz. Porque quando as luzes faiscaram em meus olhos, quando o treinador pediu para nos juntarmos e gritarmos o grito de guerra e até o momento em que eu fiquei no centro da quadra frente a frente com um jogador muito mais alto e agressivo do que eu que eu me lembrei que eu não era mais o pequeno Sasuke que ficava na sacada com você, que ajudava a velha Sra. Wahin, que passava os dias assistindo séries de televisão. Agora eu era um Sasuke sujo, grotesco e que não te merecia. Eu não merecia ter medo. E quando o jogo começou eu pulei tão alto que consegui bater as pontinhas dos meus dedos na bola e passá-la para Naruto. O primeiro ponto foi de Neji, de três pontos. Eu olhei pra você que me sorriu largamente, mas eu vi a mão de Kiba em volta de seus ombros e voltei a ficar sério. Eu não tentei buscar seus olhos mais alguma vez durante o jogo, nem mesmo os de Sakura. Olhei para meus pais uma vez, mas ele estava ao telefone e minha mãe tinha um olhar preocupado para ele. Devia ser algum problema com Itachi. Ele desligou, se levantou e puxou minha mãe pelo braço para fora do ginásio. Eles não voltaram para ver o jogo, nem mesmo voltaram para casa naquela noite. Somente no dia seguinte eu ficaria sabendo que eles passaram a noite na delegacia arranjando um jeito de soltar Itachi de lá.
Depois daquilo eu uni minha raiva de vê-los partindo, com a de Kiba se atrever a ficar te tocando, mais a sujeira de Sakura em meu corpo e toda a sede de vitória que eu tinha que marquei a maioria dos pontos no jogo. Eu estava sério e num momento mais calmo Naruto conseguiu se aproximar de mim e perguntar:
- Sasuke, tá tudo bem?
- Ótimo.
- Cara, se liga, vai com calma que tem mais quatro jogadores para marcar pontos.
Eu não o escutei. Eu não me importava com nada, com quem eram os nossos adversários ou se o time tinha cinco ou cinqüenta jogadores. Aquela estava sendo a minha forma de extravasar a raiva. Foi nesse dia que eu me tornei um completo imbecil. O jogo terminou, nós ganhamos. Os jogadores reservas vieram me erguer e a Neji, o capitão. As líderes de torcida fizeram um escarcéu, assim como a maioria da torcida. Era o primeiro jogo que ganhávamos em três anos. Mas sobre os ombros dos meus colegas de equipe eu estava sério. Eles nos desceram enquanto os torcedores iam saindo. Entramos todos no vestiário com Naruto gritando e eu liguei a minha ducha favorita, a do último reservado, aquela que todos evitavam porque não tinha água quente. Encostei a testa na parede, respirei por dois minutos e sai. Vesti-me incrivelmente rápido e quando já estava quase alcançando a porta Naruto me chamou e pediu para esperar, só faltavam ele e Neji ali. Me recostei a parede e esperei e nesses poucos segundos eu ouvi sua voz, voz que eu queria evitar aquela noite.
- Vamos embora, Hinata! - dizia Kiba irritadiço.
- Eu qu-quero cumprimentar Neji, Kiba - ela disse baixinho - E Naruto e... Sa-sasuke.
Algo dentro de mim se torceu. E eu ignorei aquele sentimento. Foi naquela noite que eu comecei a aprender a ignorar os meus sentimentos por você, mas somente ignorar. Por mais que eu quisesse eu não consegui mandá-los embora, então eu comecei a te tratar mal, te fazer sofrer, te magoar com palavras e ações pensando que assim eu estaria te protegendo de ficar perto do Sasuke Uchiha sujo e desonrado que eu me tornara. Ah, como eu não queria ter feito isso, Hinata!
- Vamos! - disse Naruto com o sorriso de orelha a orelha abrindo a porta - Hinata! - ele exclamou ao vê-la, que sorriu e corou.
Neji estava atrás de Naruto, ela os cumprimentou e congratulou, mas quando chegou a minha vez ela me abraçou. A minha decisão de afastá-la estava muito recente e naquele momento eu quase desisti na idéia, mas a afastei pelos ombros, sério. Você me olhou assustada e colocou as mãos sobre o peito.
- Sasuke, o que você...? - mas Naruto não terminou, eu simplesmente me virei e andei até Sakura, segurei-a pela cintura e a beijei, bem ali na frente de todo mundo. Agora não era mais segredo, não tinha como evitar. Eu quase pude ouvir o seu coração se estilhaçando, apesar de não saber o que significavam aqueles cacos de vidro que eu ouvia quebrar.
- Hinata? - era a voz de Kiba já um pouco afastada. Você havia se agarrado ao braço dele, dado meia volta e puxando-o a passos curtos e apressados para longe dali.
Olhei para Sakura que me sorriu alegremente e me beijou de novo. Naruto passou por mim, bateu com força em meu ombro, e disse:
- Você é um idiota, Sasuke.
É, ele tinha razão.
Sabe o que penso dessa minha atitude atualmente? Eu estava morrendo de ciúmes.
Eu arrastei Sakura para qualquer canto escuro do St. Louis Park para a sessão de amassos mais intensa desde que começáramos a ficar. Acabamos deitados na grama fria debaixo de alguma das muitas árvores de lá e quando terminamos Sakura teve que procurar a blusa dela embaixo de alguns arbustos ali perto. Não transamos naquele dia, mas chegamos muito perto. Muito perto. Me levantei e ajeitei as calças e tirei a grama do cabelo enquanto ela recolocava a blusa e o casaco. Coloquei as duas mãos nos bolsos e fomos voltando para casa, Sakura enrolada como uma cobra no meu braço direito tinha o maior sorriso do mundo, mais ainda que o de Naruto depois de ganharmos o jogo.
- Sasuke?
- O quê?
- Agora nós estamos namorando? Quero dizer, já que todo mundo viu e tudo o mais.
- Tá, pode ser.
Ela não disse mais nada. Acompanhei-a até metade do caminho até a casa dela, precisava voltar logo para a minha para saber como você estava. Eu podia estar querendo me afastar de você, mas eu nunca perdi a bendita mania de me preocupar com o seu bem estar. Se algum cara te fizesse chorar eu iria espancá-lo e você não ficaria sabendo. Era isso que se passava na minha mente em fazer caso Kiba fosse muito ousado. Eu fui um egoísta tremendo naquela época, porque mesmo te maltratando eu ainda queria você pra mim. Você era minha melhor amiga desde os seis anos de idade, eu não queria outros marmanjos te tocando como eu gostaria de tocar, te dizendo coisas que eu queria dizer, mas não diria por ser indigno. Como será que as coisas teriam sido, Hinata, se eu simplesmente tivesse ficado com você no dia do seu aniversário? Será que todo seria menos doloroso?
Eu terminei de tomar um banho em que, mesmo tentando te afastar, eu me esfreguei muito. A minha pele estava toda vermelha. Ouvi o cachorro do senhor da esquina latir uma vez, duas. Você estava chegando. Esgueirei-me sorrateiramente para trás da porta da sacada, encoberto pela cortina azul, mas ainda podendo ver vocês. Kiba segurava sua mão e te trouxe para perto da nossa árvore, recostando-se nela. Quando ele fez o movimento de te puxar para colocá-la recostada nele você se afastou, incerta. Ele não insistiu mais. Kiba aproximou-se e ergueu seu queixo para encará-lo e passo os dedos por sua bochecha limpando uma lágrima que, mesmo eu não tendo visto-a escorrer, sabia que era por culpa minha. Quis pular da sacada, de cabeça.
Por uma única lágrima.
- Hinata, esqueça isso.
- Ele vai... Vai acabar ma-magoando-a.
- É, talvez, mas tanto Sasuke como Sakura estão nessa porque querem, Hinata. Não fique triste - Kiba se aproximou de você de uma forma que eu conhecia bem, ele queria te dar um beijo. Um beijo nos lábios, mas você percebeu as intenções dele e deixou a cabeça pender para baixo fazendo-o beijar-lhe a testa. O Inuzuka não parece ficar muito indiferente a sua recusa, mas se contentou.
Despediram-se e ele só começou a andar rumo à própria casa quando a sua porta da frente bateu. Eu corri e me taquei na cama, demorou-se ainda um pouco antes de você aparecer no seu quarto e acender a luz. Fechou as cortinas, trocou-se e abriu-as. Colocou sobre o colo o bloco de desenhos que se tornara o seu novo bloco de desenhos especial, o bloco que eu havia lhe dado há apenas um mês atrás, após sentar-se sobre a poltrona. Eu fiquei acordado remoendo a idéia de te afastar, te observando discretamente com apenas os olhos descobertos pelo edredom, até você terminar o desenho, colocar o bloco especial aberto no cavalete que seu pai havia lhe presenteado e enfiar-se na cama. Demorou-se ainda mais algum tempo até eu ficar curioso o suficiente para empurrar as cobertas, abrir a janela da sacada e ir até a sacada ao lado ver o seu desenho. Éramos eu e você, com roupas de inverno, juntos. O desenho não tinha nada de mais, era apenas de uma única linha e sem sombreado. Bem atípico dos seus outros desenhos. Aquele foi o único desenho de seu bloco especial que eu vi durante nossa adolescência.
Os dias que se seguiram na escola foram muito estranhos. Eu e você e Neji íamos pra escola juntos, mas você ia ao lado dele quieta e introvertida, enquanto eu ia sério e impassível uns poucos passos atrás. Naruto se aproximava e sempre tentava de tudo para te animar, mas sempre que estava comigo você passara a ser muito recatada. Apesar de ainda gaguejar com todos, você não gaguejava de maneira alguma comigo. Devia ser algum bloqueio. Assim que eu pisava na escola Sakura já vinha me presentear com um beijo matinal com seu hálito de bala de cereja e íamos para as aulas juntos. Você começou a passar muito mais tempo na sala da sua classe de desenho e nos víamos muito pouco. As coisas começaram a se tornar como víamos muitas vezes naqueles filmes de adolescentes: Você, a estranha, tímida e recatada garota que um dia fora amiga de um cara que se tornara popular e esnobe, eu. Nossa vida se tornou um maldito filme. Tudo por minha culpa.
Eu passava os almoços com os caras do time e as líderes de torcida, apesar de achar tudo aquilo inacreditavelmente mesquinho e hipócrita. Sakura não largava do meu pé um segundo sequer, pra ir ao banheiro eu tinha que levar Naruto comigo, se não ela pensava que eu a estava traindo, coisa que eu somente comecei a fazer tempos depois. Ela era chata e grudenta, só não era pior que Ino que começou a jogar o seu chame pra cima de mim. Belas amigas ela e Sakura eram. Kiba, Shino e você. Eram três pessoas que eu nunca via na hora do almoço. Eu só fui descobrir onde vocês ficavam quando Naruto um dia desapareceu, eu escapuli de Sakura e fui procurá-lo. Encontrei-o junto a você, Shino e Kiba sob uma árvore do outro lado do campo de futebol. Ele estava te fazendo rir. Mesmo me doendo dizer isso, eu acho que Naruto foi o seu primeiro amor, Hinata. Ele era tudo o que eu não era e tudo o que você queria e precisava, naquela época. Era o seu verdadeiro príncipe encantado.
Nos "jantares em dobro" que se passavam na sua casa ou na minha pelo menos uma vez por mês você mudou de atitude. Você sempre foi uma garota meiga, educada e tímida. Três qualidade que minha mãe muito admirava e você não ia deixar de ser assim só porque eu tinha resolvido te ignorar. Numa dessas noites nós estávamos em casa, seu pai tinha ido a uma de suas viagens de negócios e Itachi estava em casa. Na mesa estávamos meu pai e minha mãe, cada um em uma ponta, Neji e Hanabi de um lado da comprida mesa e você entre mim e Itachi. Depois de passado o susto inicial de eu começar a te maltratar, você achou que fosse exclusivamente porque eu tinha realmente começado a gostar de Sakura e, como ela parecia ser um pouco ciumenta, pedira para eu ficar mais longe de você. Ou, pelo menos, fora isso o que Naruto lhe dissera para deixar você mais alegre e Neji com um instinto menos assassino pra cima de mim, além, é claro, das preocupações que começaram a cair sobre os meus ombros em relação ao time. Você me sorria às vezes, sempre dizia "por favor" e "obrigada" e ainda não gaguejava quando falava comigo, mas eu sempre me esquivava sendo grosso e frio. Isso a fazia recuar, mas com um sorriso e um consentimento, como se tivesse entendido que eu a estava afastando por Sakura, quando eu, na verdade, a estava afastando por si mesma. Você não pode não acreditar, mas o sofrimento que eu sentia te afastando era convertido na raiva e na fome de vitória que eu tinha nos jogos. Eu precisava fazer alguma coisa para extravasar, afinal.
Terminado o jantar ficamos todos assistindo qualquer coisa na sala. Eu me coloquei na poltrona, enquanto você e Itachi eram separados somente por Neji no sofá de três lugares. Hanabi dormiu em dois segundos e você pediu a Neji para levá-la para casa que também iria logo em seguida, após usar o banheiro. Quando estava descendo as escadas Itachi te abordou, eu lembro, eu pude ouvir a conversa que se seguiu de onde eu estava na poltrona da sala.
- E aí, Hinata? - ele começou - Você e o galinho estão estranhos um com o outro, o que aconteceu?
- Ah, nã-não é nada, Itachi, mas... Sasuke agora está namorando.
- Sério? Quem é a infeliz?
- Sakura Haruno - sua voz tinha um timbre magoado por ele ter dito aquilo de Sakura, mas sumiu logo.
- Aquela de cabelo rosa? Meu irmão é muito burro, ele deveria ter ficado com você.
- I-itachi! - você exclamou e eu apostaria todas as minhas fichas que você estava corada.
- Mas agora que o Sasuke está com a Haruno, que tal me dar um beijo, Hinata? - com aquela frase eu pulei do sofá com os punhos cerrados pronto pra partir pra cima do meu irmão. Agora eu estava um pouco mais forte, mas mesmo assim eu tinha certeza que se brigasse com ele ia acabar muito mais espancado do que espancaria. Mas não tive tempo de dar nenhum passo até a escada, Neji fora mais rápido.
- Itachi! - exclamou a voz autoritária dele, de quem está acostumado a mandar e ser obedecido - Solte-a.
- Chegou o protetor - disse Itachi, mas ele recuou, pois logo os passos apressados de Hinata desceram a escada e ela agarrou-se ao braço de Neji - Tudo bem, eu não tenho pressa, Hinata.
Ninguém respondeu. Antes de sair os olhos cinzentos de Neji ainda deram mais uma olhada mortal em direção a meu irmão, mas os seus olhos cor de nuvem de inverno olharam para mim. Eu não consegui desvendar o que eles diziam. Queria ter conseguido. Naquela noite você dormiu no quarto de Neji pela segunda vez, você ficara assustada com a primeira investida de Itachi. Passado mais algum tempo você ficaria experiente em escapar das garras dele e evitar ficar sozinha em algum canto da minha casa quando ele estivesse nela.
Eu voltei a sentar com o peito desapertando ao saber que você estava bem. Maldita preocupação que, mesmo se eu estivesse no Pólo Norte e você no Pólo Sul eu ainda estaria sentindo. Preocupação é o sentimento que predomina em mim no presente momento. Itachi voltou para a sala com um sorriso de orelha a orelha e esticou-se do sofá. Eu estava com as sobrancelhas muito franzidas quando ele me olhou, os olhos negros com um brilho vermelho.
- Você é um completo idiota - disse-me - Trocar a Hinata por aquela Haruno? Francamente, você nem parece meu irmão.
- Cala a boca, Itachi.
- Ah, toquei na ferida, não é, Sasuke? - ele estava tão certo que me fazia querer socá-lo e ele sabia disso - Você deve ter feito algo que não devia e agora quer afastar a Hinata, magoá-la dessa forma, para não magoar de uma forma pior.
Eu não respondi.
- Bom, já que você quer a Sakura, eu vou ficar com a Hina - ele se levantou, assim como o meu sangue que foi até as orelhas.
- Itachi - eu murmurei - Fique longe dela.
- Fala sério, Sasuke - ele riu e subiu as escadas.
Itachi demorou a fazer qualquer coisa com Hinata, mas ele fez.
Era reconfortante saber que ela continuava com os pensamentos puros e benevolentes e que não aparentava estar magoada comigo, mas mesmo assim era ruim saber que ela estava se tornando foco de garotos. Ela sempre fora tão pequenina e introvertida que era considerada completamente sem graça por todos os garotos com quem eu conversava, eles até me repreendiam por andar com ela e não com as líderes de torcida, mas agora que eu faço o que eles diziam para eu fazer desde o início esses mesmo garotos estavam indo pra cima de você como abutres em carniça. Era como se eles estivessem esperando que eu me afastasse para atacar. Eu não consegui dormir naquela noite, era o fim da primavera que pra mim era muito bem vindo. O verão passaria incrivelmente rápido e logo viria o outono para ser inverno depois. Eu necessitava do inverno, somente ele era capaz de me fazer sentir você sem realmente te ter ao meu lado.
Olá!
Gente, que susto que eu passei hoje, quase que não posto o capítulo! Um vírus maluco se infiltrou no meu PC e fez as minhas coisas todas sumirem, um monte de capítulos meio escritos de fics desapareceram e foi uma luta encontrá-los de novo. Que bom que eu consegui! Na pressa de postar esse capítulo algum erro pode ter escapado a minha revisão, espero que não se importem.
E agora? O Sasuke se tornou um cretino namorado da rosada e magoou a Hinata profundamente! No próximo capítulo teremos as idiotices dele, as ferroadas da Sakura, assim como duas surpresas inesperadas!
Obrigada a todas as pessoas que leram, mandaram review ou não, mas que mesmo assim fizeram os hits da fic aumentarem! Muito obrigada!
AGRADECIMENTOS:
Prii O., FranHyuuga, Haruno-Sakura19, Ketz, I-Dalice E-Mily, Maria Lua, Hanari, Persephone Spencer, 00 Gabi Duque 00, Milia-chan e Marcy Black.
OBRIGADA POR LEREM!
Beijos, Tilim!
