Hibari

Os primeiros passos foram ouvidos durante a manhã. O Guardião da Nuvem estava sentado no cômodo que utilizava como escritório, os olhos baixos e atentos às linhas que lia, enquanto suas mãos seguravam o pedaço de papel. Ao seu lado direito havia uma xícara de café – esta precisando ser reposta –; ao lado esquerdo repousava um envelope pardo que havia sido entregue na noite anterior. Rafaelle. Aquele nome havia sido lido tantas vezes que o ex-Líder do Comitê Disciplinar sentia a língua dormente todas as vezes que o pronunciava. Um jovem. Não mais do que uma mera criança.

A sensação de proximidade tornou-se mais forte, mas como um dono que já fosse acostumado à presença do animal, Hibari não se dignou a virar o rosto ou oferecer um único olhar à sua companhia. O Braço Direito ajoelhou-se na entrada antes de arrastar a porta, fazendo uma polida reverência.

"Kyou-sama." A voz de Kusakabe era grossa e poderia ser ou não impressão, mas o moreno achou que nos últimos dias ele parecia ainda mais sério. Ele sabe de algo? Não. Provavelmente não. "Você tem visita."

"Não, eu não tenho." O Guardião da Nuvem continuou a encarar o papel em suas mãos. Na noite anterior o próprio Braço Direito o visitou depois do jantar e lhe entregou o envelope pardo. O conteúdo se referia à investigação particular que Hibari estava trabalhando.

"O Guardião da Chuva dos Vongola está aqui para vê-lo, Kyou-sama." Kusakabe fez uma pausa. "Ele disse que veio conversar sobre um assunto que lhe diz respeito."

Os olhos negros encararam a porta e o ex-Líder do Comitê Disciplinar guardou o papel dentro do envelope. Seus joelhos estavam cansados por estarem em uma mesma posição, mas suas pernas deslizaram com graça e destreza pelo tatame, cortando o cômodo e seguindo para a sala ao lado. O moreno ajoelhou-se em sua almofada costumeira e colocou as mãos sobre as pernas. Duas vozes se misturaram antes que Yamamoto Takeshi surgisse em seu campo de visão, caminhando pela mesma entrada que ele havia passado há poucos segundos.

"Bom dia, Hibari."

Desde a primeira vez que colocou os olhos no moreno o Guardião da Nuvem o achou peculiar. Poderia ser os olhos, ou o sorriso ou até mesmo a personalidade, mas alguma coisa naquela pessoa chamava sua atenção por alguma maneira. O modo como Yamamoto tratava as pessoas – sem preconceito e de maneira aberta. A honestidade e sinceridade. O senso de justiça. O bom humor. Tudo isso eram coisas que ex-Líder do Comitê Disciplinar admirava, mesmo que nunca mencionasse. De todos os Guardiões, o moreno era aquele que lhe deixava menos irritado, provavelmente porque suas visitas eram extremamente raras. Em sua lista de ódio estavam o Guardião do Sol e o Braço Direito do Décimo Vongola, pessoas que Hibari simplesmente não suportava. O primeiro por ser espaçoso e não ter respeito algum pelo espaço pessoal das demais pessoas; o segundo por ter tantas similaridades com o próprio Guardião da Nuvem, que não lhe agradava se visto assim... tão próximo.

E verdade fosse dita: a única pessoa envolvida com os Vongola cuja presença nunca causou nenhum tipo de asco era Chrome Dokuro. Ela é praticamente muda, sabe seu lugar e somente diz o necessário. O pensamento o fez menear a cabeça, sentindo-se satisfeito com aquela observação mental.

Naquela manhã, além da natural peculiaridade de Yamamoto, outra coisa fez com que Hibari erguesse os olhos para encarar melhor sua companhia. Havia algo diferente no rosto daquele homem, algo que ele não conseguia apontar ou diferenciar, mas que fazia com que as sobrancelhas negras estivessem juntas e os lábios crispados em uma fina e rígida linha. Os ombros do moreno também estavam diferentes. Atleta desde sempre, o Guardião da Chuva possuía a postura certa, andando sempre com os ombros para trás e a coluna ereta. Entretanto, a pessoa que se ajoelhou na almofada à frente e o cumprimentou com um breve aceno tinha os ombros caídos e levemente inclinados, como se carregasse algo pesado. Os olhos, porém, estavam alertas, não perdendo um segundo do que viam.

"O que você quer?" A voz de Hibari saiu baixa e polida. O quanto antes ele acabasse com aquele teatrinho, mais rápido ele retornaria ao seu relatório. Pois mesmo tendo lido aquilo centenas de vezes, existia sempre a possibilidade de que alguma coisa passasse despercebida.

"Ajudar."

Aquela simples palavra veio acompanhada por um simples gesto. Yamamoto abriu o terno e levou a mão para dentro da peça de roupa, retirando um envelope branco e o colocando no espaço entre eles. Seus olhos, entretanto, não saíram da figura do Guardião da Nuvem.

"Nós sabemos o que está acontecendo e queremos ajudar." O moreno empurrou levemente o envelope. "Tenho consciência de que você está a par da situação, então isso me poupará o trabalho de explicar."

"Eu não sei do que você está falando." Hibari mentiu. Não havia sinal de que ele fazia isso. Sua expressão estava branca, seus olhos baixos como sempre e sua voz transmitia o mesmo tédio. Por dentro, seu coração batia incrivelmente rápido.

"Eu não tenho tempo para isso." O Guardião da Chuva pareceu inabalável. "Nós sabemos que você sabe sobre Dino e Kyoko. E, como eu disse, estamos aqui para ajudar."

Kyoko? Pela primeira vez houve reação por parte de Hibari e a pessoa sentada à sua frente percebeu. A expressão no rosto de Yamamoto se suavizou e seus olhos se abaixaram. Ali, naquele curto instante, o moreno achou ter visto dor. Não a minha dor. A dor dele. Quem esse homem perderá no futuro? O que pode ter acontecido de tão importante para mudá-lo dessa maneira?

"Desculpe, eu achei que soubesse sobre Kyoko." O Guardião da Chuva parecia visivelmente incomodado. "Não é somente Dino Cavallone, mas Sasagawa também."

"Ele sabe?"

"Não. E não ficará sabendo." O moreno virou o rosto, encarando o jardim. A luz que entrava através da porta lateral iluminava todo o cômodo, e naquele momento iluminou também o rosto do ex-capitão do time de baseball. Havia olheiras embaixo de seus olhos e ele parecia muito mais velho do que seus vinte e um anos. "Tsuna é... uma alma gentil. Ele nunca entenderia. Então eu gostaria de pedir que também não dissesse nada. Nós estamos dispostos a ajudar, mas contamos com a sua discrição."

"Nós?" Hibari tentou ao máximo manter sua voz impassível, mas sabia que havia falhado. Havia um nó em sua garganta e o café que ele havia bebido há poucos minutos revirava em seu estômago. Quem mais sabe sobre isso?

"Eu, Chrome e... G-Gokudera."

A hesitação de Yamamoto foi tão clara que o Guardião da Nuvem teria de ser completamente obtuso para não ter percebido. Naquele momento o ex-Líder do Comitê Disciplinar simpatizou um pouco com o farrapo sentado à sua frente. Ele não tinha ideia do tipo de relação entre os Guardiões da Chuva e da Tempestade, mas ele não desejava aquele tipo de futuro para ninguém. Nem mesmo Sawada Tsunayoshi. "Como sabem?"

"Gokudera recebeu a visita de Chrome há algumas semanas, a versão do futuro. Ela entregou esses papéis a ele e disse para entrarmos em contato com você."

"Por quê?"

"Porque você precisa da nossa ajuda."

"Não, eu não preciso. Eu sei exatamente o que farei e agradeceria se vocês não se intrometessem."

"E o que você pretende fazer?" O moreno respondeu com o tom de voz um pouco mais alto. "Matar o menino? Você consegue matar uma pessoa inocente, Hibari?"

Não houve resposta imediata para aquela pergunta que havia soado muito mais como acusação. O Guardião da Nuvem encarou o envelope branco, pensando quantas vezes não havia se feito aquela mesma indagação desde que soube que seu alvo era um jovem de pouco mais de 15 anos. Se fosse um homem, um adulto e armado, as coisas seriam totalmente diferentes. Ele não será jovem e indefeso para sempre. A pessoa que mata Dino é um homem. Aquele pensamento fez seu coração se sentir apertado. Lembrar-se de Dino ultimamente levava aquela sensação para todo seu corpo, e quando ele se dava por si estava respirando com dificuldade e tendo de lidar com ataques de pânico e ansiedade.

"O que vocês sugerem? Não há outro caminho. Se o garoto crescer as pessoas morrerão."

"Nós estamos pensando sobre isso ainda, por isso estou aqui. Se tivermos você ao nosso lado pod–"

"Não. Minha resposta é não."

Hibari ficou em pé e lançou um frio olhar na direção do homem ajoelhado à sua frente. Ele não trabalhava em grupos, e naquela situação ele não correria nenhum risco. Se os herbívoros falhassem ele não teria outra chance, e aquelas palavras foram ditas através dos lábios do próprio Guardião da Tempestade. Eles não podem me ajudar, ninguém pode.

"Saia." O moreno deu as costas.

"Hibari, você precisa reconsiderar. Nós não temos tempo para os seus caprichos."

"Eu não vou repetir, Yamamoto Takeshi." O Guardião da Nuvem disse com a voz ainda mais baixa. Sua paciência estava no limite.

A respiração do Guardião da Chuva tornou-se mais pesada e não era preciso virar e ver com seus próprios olhos para saber que a expressão no rosto daquele homem era pesada. "Dessa vez você não pode lutar sozinho. Nós estaremos disponíveis se quiser reconsiderar. E pense neles e não em você. Nós não estamos ajudando por pena, Hibari."

Os passos finalmente foram ouvidos e em poucos segundos o ex-Líder do Comitê Disciplinar estava sozinho novamente. Seus olhos estavam fixos no chão, digerindo o que havia ouvido e pensando no que deveria fazer. Hibari não contava com a ideia de ter mais pessoas envolvidas em toda aquela bagunça. Lidar com isso, sozinho e sem nenhum plano, já era ruim o suficiente. Saber que os herbívoros sabiam o deixava incomodado e receoso. Eles podem estragar tudo e eu não posso correr esse risco. O moreno virou-se e encarou o envelope branco que estava no mesmo lugar que o Guardião da Chuva dos Vongola havia deixado. Sua mão esquerda esticou-se e seu corpo fez menção de abaixar-se, mas ele não o fez. Sua atenção e sentidos foram todos roubados pelo barulho do telefone, e uma onda de pavor fez com que o Guardião da Nuvem desse um passo para trás.

O telefone tocou novamente e novamente. No quarto toque Hibari conseguiu caminhar para frente, cruzando o cômodo e entrando em seu escritório. O aparelho ficava no canto, próximo à porta de madeira que dividia os cômodos. Por um momento ele hesitou, encarando o telefone sem saber se conseguiria mover um músculo sequer. No sexto toque sua mão esticou-se com rapidez, sabendo que não haveria uma sétima tentativa.

"Por Deus, Kyouya, onde você estava?" A voz soou com uma mistura de preocupação e gracejo. As pernas do moreno vacilaram e ele apenas sentiu o peso do corpo quando seus joelhos tocaram o tatame. Não havia parte de seu corpo que não tremesse e seu coração batia tão rápido que seria impossível não ouvi-lo. Ele apenas torcia para que a pessoa do outro lado da linha não escutasse. "Kyouya?"

"Eu estou aqui." A resposta saiu baixa. Os lábios do ex-Líder do Comitê Disciplinar encostaram-se ao aparelho e ele fez o possível para que sua voz não soasse trêmula. Aquela não era a primeira vez que ele reagia daquela forma tão patética. Ultimamente, todas as vezes que o telefone tocava seu corpo simplesmente deixava de funcionar. Seu coração se tornava apertado e automaticamente ele se lembrava da conversa que tivera no futuro; seu guarda-roupa e principalmente seu jardim. Sem vida, sem futuro, sem nada... sem ele.

"Eu estava preocupado. Está tudo bem?"

"Eu estou bem."

"Eu sinto tanta sua falta, Kyouya. Eu queria que você pudesse ter ficado um pouco mais."

O Guardião da Nuvem encostou-se à parede de madeira e sentou-se mais confortavelmente ao chão. Seus olhos se fecharam e ele se permitiu apenas ouvir a voz daquele homem pelo tempo que fosse possível. Dino repetiu várias vezes que sentia saudades e, apesar dos assuntos que tinha para relatar não serem novos ou inéditos para o moreno, ele ouviu a tudo, concordando aqui ou ali apenas para mostrar-se presente. Hibari havia passado uma semana na Itália. Aquela súbita viagem não estava em seus planos, mas ele não se arrependia. Ver o louro vivo e em carne e osso havia sido uma experiência extremamente benéfica, e ele não teria conseguido manter sua sanidade se tivesse permanecido em Namimori naqueles dias. Entretanto, o trabalho o chamou de volta ao Japão, e mesmo não tendo um dia em que sua mente e coração não retornassem àquela semana que passou ao lado do Chefe dos Cavallone, o Guardião da Nuvem sabia que não tinha tempo a perder.

"Quando você vem a Namimori?"

"Em alguns dias." A pergunta pareceu alegrar o louro. Sua voz soou mais doce e mesmo não enxergando o italiano diretamente, o moreno sabia que ele estava sorrindo. "Já está com saudades?"

Sim. "Não."

"Você está mentindo para si mesmo, Kyouya. Eu sei o quanto você sente minha falta."

"Você está delirando, Cavallone. Eu mal lembro da sua existência." Hibari sentiu os lábios se repuxarem em um meio sorriso. Ele havia esquecido aquelas conversas. Aqueles momentos bobos pareciam existir em um passado distante, na vida de outra pessoa. Alguém que não precisava se preocupar com um futuro negro e escolhas presentes que mudariam a vida de todos.

"Pois eu sinto sua falta, Kyouya. Todo dia, todo o tempo. Eu queria que estivesse aqui. Eu queria que nunca tivéssemos de ficar longe um do outro." Dino suspirou. "Eu não consigo imaginar minha vida sem você, sabe..."

O sorriso transformou-se em uma fina linha nos lábios do ex-Líder do Comitê Disciplinar e toda a alegria que ele sentiu nos últimos segundos pareceu deslizar por seus dedos. A voz de seu amante entrava por seus ouvidos e parecia se alojar diretamente em seu coração, fazendo-o lembrar-se do que precisava ser feito.

"Kyouya? Você está ai, Kyouya?"

"Estou aqui."

"Eu preciso ir agora. Romário vai me descobrir aqui escondido a qualquer minuto. Tentarei ir a Namimori o quanto antes, ok? Se alimente direito e qualquer coisa entre em contato, nee?"

"Eu irei." O Guardião da Nuvem sentiu quando sua mão segurou o telefone com um pouco mais de força. "Dino..."

A voz do outro lado calou-se, mas era possível ouvir a respiração próxima ao aparelho. "Eu estou aqui, Kyouya."

O moreno engoliu seco, sentindo o rosto tornar-se um pouco mais vermelho. Em ocasiões normais ele jamais seria tão ousado ou sincero, mas ele não estava em uma situação normal. Muito dependia dele e de suas escolhas, e principalmente de suas ações. "Eu estarei esperando, então se apresse e volto logo."

"Eu irei. Eu te amo, Kyouya."

A última parte foi seguida pelo som do sorriso do italiano e então a ligação terminou.

Hibari permaneceu com o telefone em mãos por mais alguns segundos antes de juntar as forças necessárias para pousá-lo na base. Seus joelhos o colocaram em pé, e seus olhos fitaram o envelope branco no outro cômodo. A voz de Yamamoto soou em seus ouvidos e, apesar de absurda, a ideia de trabalharem juntos não pareceu tão impossível naquele instante. Não havia nada que o Guardião da Nuvem detestasse mais do que multidões, grupos e principalmente os Guardiões dos Vongola. O pensamento de trabalhar junto com os herbívoros o fazia sentir ânsia, tamanho o asco. Entretanto, não havia nada que ele amasse com mais afinco do que certo louro idiota, e pela primeira vez em sua vida Hibari estava com medo. Seu inimigo era invisível, ele não poderia tocá-lo com seus tonfas ou amedrontá-lo com seu olhar ou palavras. Sua maior adversidade era ele mesmo e o receio em falhar e não receber uma segunda chance. Então, o que fazer? Os herbívoros teriam uma melhor ideia além do óbvio? Ele poderia confirmar nas pessoas menos confiáveis que existiam?

O envelope branco estava em suas mãos antes que ele notasse. O conteúdo ainda lhe era desconhecido, mas naquele momento o Guardião da Nuvem sentiu-se um pouco mais esperançoso e menos desesperado. Por trás daquela muralha de autocontrole e confiança Hibari sentia-se acuado. Ele nunca vivenciou aquele nível de ameaça antes. Quando visitou o futuro as coisas não eram daquela forma. Dino estava vivo. Dino o treinou, o idiota estava ali ao seu lado. O que havia dado errado? Qual atitude desencadeou aquele futuro? Eu não tenho tempo para perguntas. Eu preciso apenas das respostas. O ex-Líder do Comitê Disciplinar abriu o envelope e encarou seu conteúdo. Se para proteger seu presente e futuro ele precisasse ter um pouco de fé nos Vongola, então ele pensaria em abrir uma exceção. Porém, se nada surtisse efeito, ele resolveria as coisas ao seu modo, mesmo que isso significasse ter de sujar as próprias mãos.

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Os momentos de felicidade sempre eram inferiores àqueles de pura tristeza e desconforto, e Hibari Kyouya sabia disso melhor do que ninguém. Seu dia havia começado bem, com um longo e demorado café da manhã que envolveu sopa misô e dois onigiris feitos por ele mesmo. As notícias foram lidas e quando se levantou da pequenina mesinha da sala de estar, o Guardião da Nuvem sentiu-se satisfeito consigo. Seu humor nunca estava excelente, mas poderia ser dito que naquele dia o moreno estava um pouco melhor. O jardim lhe ocupou algumas horas, assim como um rápido passeio pela propriedade. Quando a manhã terminou e o ex-Líder do Comitê Disciplinar encarou o relógio seus lábios quase sorriram. Finalmente.

Havia um motivo para toda aquela estranha e contida alegria. O motivo havia chegado a Namimori na noite passada, mas por motivos profissionais os dois não puderam se encontrar. Quando conversou ao telefone com Dino, há quatro dias, Hibari achou que teria de esperar pelo menos uma semana até encontrar o louro. Entretanto, no meio da noite anterior havia uma mensagem em seu celular avisando que a viagem até a América havia sido cancelada e o italiano estava a caminho do Japão.

O Guardião da Nuvem não voltou a dormir.

Naqueles quatro dias muito havia sido feito com relação à missão, plano e até mesmo problema que o moreno tinha nas mãos. Descobrir o paradeiro do garoto ainda estava sendo um problema, mas as informações sobre a Família foram fáceis. Aliás, eles não escondiam nada, e cinco minutos no telefone com um Chefe inglês e Hibari descobriu mais do que gostaria. Aparentemente os Moretti estavam buscando alianças com diversas Famílias ao redor do mundo, utilizando o discurso de que era hora de reconstruírem o que haviam perdido. Mas vocês não vão usar o sangue dele nessa construção, o ex-Líder sentiu o estômago rodar ao pensar nesse assunto.

O almoço transcorreu calmo e tranquilo. O croquete de camarão caiu perfeitamente com o arroz, e o Guardião da Nuvem cogitou a ideia de cozinhar o mesmo no dia seguinte, pois Dino apareceria para o jantar. Não que eu me importe com o que ele come. Eu farei isso para mim. O sorriso de satisfação o acompanhou até o quarto, onde o moreno se despiu e trocou o kimono negro pelo terno e a gravata. Está calor. A tranquilidade, porém, não duraria muito. A gravata havia sido ajeitada e Hibari arrumava o terno quando ouviu os passos do outro lado da porta de madeira. Duas sombras foram projetadas rentes à porta de seu quarto – esta em frente, criando passagem para a sacada –, e ele sabia que embora uma fosse de Kusakabe, a outra não pertencia ao Chefe dos Cavallone. Mais idiotas. Eles se reproduzem em uma velocidade absurda.

O moreno suspirou e deixou o quarto, cruzando o corredor e seguindo na direção de seu escritório. Ele sabia que encontraria seu Braço Direito lá, ajoelhado em frente à larga porta de madeira, pronto para anunciar quem quer que fosse. O ex-Líder do Comitê Disciplinar apalpou os tonfas dentro de seu terno, sorrindo contente. Se a pessoa fosse novamente Yamamoto Takeshi ele não perderia um segundo sequer ouvindo aquelas mesmas bobagens do outro dia. Se não fosse... bem, ele também não ouviria. Não hoje. Não agora. Nunca.

Hibari adentrou seu escritório, mas a visão que se apresentou diante de seus belos olhos negros foi um pouco diferente daquela que ele tinha em mente. A larga porta estava aberta, deixando que a luz do dia entrasse e clareasse todo o cômodo. Kusakabe, entretanto, não estava ajoelhado, mas sim em pé e pedindo para que o visitante não entrasse no escritório. Sua voz era baixa, quase um sussurro e até mesmo enquanto tentava expulsar o homem, o Braço Direito soava educado.

"Eu não tenho tempo para isso."

Gokudera Hayato já estava dentro do escritório. Seus olhos verdes se ergueram ao encarar o dono do templo e Hibari automaticamente levou as mãos para seus tonfas. Ele não tinha tempo para perder com herbívoros, e depois da visita do Guardião da Chuva, a segunda pessoa que ele não queria ver era justamente o Braço Direito do Décimo Vongola.

"Nós precisamos conversar, Hibari."

"Vocês herbívoros utilizam o mesmo discurso," o moreno recordou-se que aquelas foram as exatas palavras que Yamamoto Takeshi disse ao vê-lo naquela manhã, "e a minha resposta será a mesma: saia."

"Eu não sei do que você está falando." O homem de cabelos prateados caminhou até o meio da sala. Aquele espaço foi cruzado com passos rápidos e Hibari achou que aquela pessoa não tinha noção de limites. Ele estava implorando uma surra.

"Kusakabe, jogue-o para fora. Eu estou de saída."

O Guardião da Nuvem lançou um olhar de puro desdém para seu intruso, caminhando na direção da porta aberta. Seus sentidos sentiram a mão antes que ela tocasse seu braço, e um dos tonfas teria acertado o rosto de Gokudera se ele não tivesse se esquivado no exato momento. O braço do ex-Líder do Comitê Disciplinar ficou estendido e seus olhos se apertaram.

"Eu trouxe informações novas e gostaria de debater o que faremos." A voz do Braço Direito do Décimo soou séria. Durante todos aqueles anos as visitas que aquela pessoa havia feito sempre terminaram em lutas. Os assuntos eram o tédio básico dos Vongola e toda aquela conversa sem sentido que Hibari nunca estava interessado. Porém, havia um brilho diferente nos olhos do homem de cabelos prateados. Um estranho e convidativo brilho. "Dez minutos. É o tempo que eu peço e depois irei embora."

"Cinco minutos." O moreno respondeu baixo. "Kusakabe, me espere no fim da escadaria com o carro ligado. Eu estou de saída."

"Sim, Kyou-sama." O Braço Direito fez uma polida reverência antes de seguir pelo corredor de madeira da varanda.

Os dois Guardiões permaneceram em silêncio por um breve momento. Partiu de Gokudera a iniciativa para iniciar a conversa:

"A Varia está procurando pelo garoto e aparentemente uma pista importante surgiu. Squalo a investigará pessoalmente e teremos resultados em poucos dias."

"Aonde ele está?"

"Eu não direi." O Guardião da Tempestade respondeu sério.

"Eu descobrirei e farei o que tem de ser feito."

"Você não pode matar um inocente Hibari. Nem mesmo você é capaz disso."

"E desde quando você sabe do que eu sou capaz, Gokudera Hayato?" As palavras saíram afiadas através de seus lábios. Quem aquele herbívoro inútil achava que era?

"Eu o conheço a tempo suficiente para saber que, embora seja egoísta, arrogante e oh, eu poderia continuar indefinidamente, você jamais machucaria um inocente."

"Inocente?" Um sádico meio sorriso cortou os lábios do moreno antes que ele pudesse notar. Você não estava lá. Você não viu o que eu vi, garoto.

"Nós vamos cuidar disso, Hibari, mas precisamos que você não faça nada estúpido."

"Eu já disse para o outro herbívoro idiota que não trabalho com vocês ou para vocês. Eu farei as coisas do meu jeito e espero que não se metam no meu caminho. O assunto de vocês é a mulher. O restante não lhe diz respeito."

A expressão de Gokudera Hayato tornou-se pesada. Por um momento o Guardião da Nuvem esqueceu a dedicação que aquele homem oferecia a Sawada Tsunayoshi. Não que ele se importasse...

"Seus cinco minutos terminaram. Saia."

"Você não pode dizer nada ao Jyuudaime. Ele não pode saber."

O Guardião da Nuvem apertou o tonfa com força. O que era aquilo? Ele estava recebendo ordens daquele insolente? Justo... ele?

"Você deveria cuidar da própria vida, Gokudera Hayato. O que eu faço ou deixo de fazer não lhe fiz respeito. Agora saia da minha propriedade antes que eu o enxote."

"O que você faz me diz respeito quando envolve àqueles que são importantes para mim." A voz do homem de cabelos prateados soou bem mais alta e claramente a conversa estava tomando um rumo mais energético. "Eu não estou fazendo isso somente pelo Jyuudaime. Eu estou fazendo isso pelo Haneuma. Porque ele é um amigo da Família, porque ele é o irmão mais velho do Jyuudaime e porque se aquele homem morrer você ficará ainda mais insano!"

Poucas pessoas tinham coragem de dizer certas coisas para um homem como Hibari Kyouya. A grande maioria nem sequer se dignava a olhá-lo direto nos olhos. Aquela havia sido a rotina durante toda a sua vida, e o mudo respeito que transmitia às pessoas sempre o deixou satisfeito. Aqueles que não o olhavam, não falavam. Aqueles que não falavam, não o aborreciam. Aqueles que não o aborreciam, não existiam. Era um círculo. Um círculo interminável que havia sido quebrado por um estrangeiro idiota, que havia entrado em sua vida com um sorriso fácil, palavras doces e uma personalidade pegajosa. Dino era a única pessoa que falava francamente com ele. Desde o primeiro encontro no terraço do Colégio Namimori; desde a primeira vez que o italiano havia lhe dito: "A partir desse dia eu serei seu Tutor", o moreno não teve mais paz. A cada frase, a cada declaração, a cada toque... as palavras e sentimentos do Chefe dos Cavallone fluíam até ele como um raio de Sol que atravessa a cortina e atinge seus olhos no melhor momento do seu sono. Um belo incômodo.

Entretanto, naquele momento, outra pessoa foi capaz de atingi-lo.

O Braço Direito do Décimo o olhava com uma mistura de raiva e indignação. Seu rosto estava levemente vermelho e a ira em sua expressão era algo novo para o Guardião da Nuvem. Seus tonfas estavam em mãos, mas ele simplesmente não conseguia se mover. Havia mais...

"Você não sabe a sorte que tem, não é? Durante todos esses anos você teve tudo nas mãos e agiu como se merecesse todas as coisas que aconteceram." O Guardião da Tempestade deu um passo à frente e sua voz tornou-se ainda mais alta. "Você não passa de um ingrato. Você não merece nada disso... Nada!" Gokudera abriu os braços, referindo-se ao templo. "Sua família te deu o templo, o Jyuudaime te deu o cargo de Guardião e o Haneuma..." O homem de cabelos prateados engoliu seco. "O Haneuma é completamente devotado, mas nós dois sabemos muito bem que no fundo ele merece muito mais do que alguém como você."

A mão que não conseguia se mexer lembrou-se como era erguer-se. A perna que havia se esquecido como era andar de repente cruzou o espaço em uma velocidade espantosa, levando seu corpo à frente de Gokudera Hayato. O golpe que atingiu o Braço Direito do Décimo só não foi mais rápido do que o pensamento do moreno e a incrível e insaciável vontade que ele sentiu de acabar com aquele homem. A porta de madeira que separava o escritório da sala de jantar foi quebrada e o Guardião da Tempestade a atravessou como se fosse feita de seda. Uma segunda porta –unindo a sala de estar a um dos corredores – também foi destruída, e o homem de cabelos prateados teria atravessado uma terceira porta se não fosse feita de concreto. O corpo de Gokudera caiu com barulho ao chão e Hibari deu o primeiro passo na direção de sua vítima. Seu sangue fervia e ele morderia o herbívoro insolente até a morte.

"Kyou-sama." A voz veio de trás e foi seguida por uma calma e gentil mão pousada em seu ombro esquerdo. O moreno virou o rosto, não ficando surpreso ao ver Kusakabe. O Braço Direito tinha um meio sorriso nos lábios e quando seus olhos se encontraram o homem balançou a cabeça em negativo. "O carro está ligado e os cinco minutos já passaram. Eu cuidarei do restante."

"Mas eu ainda preciso mordê-lo até a morte." A voz de Hibari soou baixa.

"Ele está inconsciente, Kyou-sama." Kusakabe apontou para frente. Gokudera Hayato estava imóvel, no mesmo lugar em que havia caído.

"Entendo." Os tonfas foram guardados a contragosto dentro do terno e o ex-Líder do Comitê Disciplinar bateu o pó de sua roupa. "Eu não voltarei hoje, então feche o templo."

"Sim, Kyou-sama."

Foi com uma breve reverência que Hibari deixou o escritório e seguiu pelo corredor de madeira da varanda. A cada passo sua cabeça se tornava mais clara e a raiva deixava seu corpo. Da casa no templo ele cruzou o jardim e desceu a longa escadaria, encontrando seu carro. O veículo estava levemente abafado por ter ficado exposto ao Sol, mas a temperatura não o incomodou. O carro seguiu pela rua, porém, ao chegar ao cruzamento, o Guardião da Nuvem encarou o volante. Sua ira havia se acalmado, mas a irritante voz do Braço Direito do Décimo soava em sua cabeça repentinamente, como um mantra. Kusakabe deveria ter me deixado terminar o serviço. Eu nunca mais teria de ouvir aquele homem novamente.

Ele merece muito mais do que alguém como você.

O veículo virou à esquerda e o ex-Líder do Comitê Disciplinar continuou a dirigir. O hotel em que Dino estava hospedado ficava do outro lado, mas aquele seria seu último destino. Ele precisava visitar outro lugar antes, e aquela realização o atingiu tão de repente que o fez se perguntar por que não havia feito isso antes.

Ele merece muito mais do que alguém como você.

A rua que Hibari procurava era calma e extremamente agradável. Ele havia visitado aquele local muitas vezes em seu tempo de Colégio, não necessariamente para visitar os donos da casa, mas sim um dos moradores. Este mesmo morador estava na entrada quando seu veículo foi estacionado, e os olhos que o receberam eram sérios e cheios de significados e conhecimento... Ele sabe.

"Eu poderia pará-lo se eu quisesse, Hibari." Reborn ergueu os olhos. Os dois eram basicamente da mesma altura, o que sempre deixava o Guardião da Nuvem incomodado. Ele havia se acostumado a abaixar o olhar quando conversava com o Hitman, mas depois do fim da maldição dos Arcobalenos a adaptação fez-se necessária.

"Se você realmente quisesse me parar o teria feito há muito tempo." O moreno sorriu de canto. Ele sempre sorria quando estava na companhia de Reborn. "Você sabia, não é? Você sabe de tudo."

"Saber não significa resolver. Eu estou com as mãos atadas assim como você." O Hitman ajeitou o chapéu. "Você o fará sofrer sem necessidade e você sabe disso."

"Ele precisa saber. Ele precisa decidir o que fará."

"E você já decidiu o que vai fazer?" O tom de voz do ex-Arcobaleno fez o sorriso nos lábios de Hibari se tornar mais largo.

"Farei aquilo que precisa ser feito."

"Dino nunca o perdoará."

O ex-Líder do Comitê Disciplinar fez um breve menear de cabeça antes de abrir o portão e pisar no jardim dos Sawada. A presença de Reborn desapareceu conforme ele caminhava, e, ao parar na soleira, o Guardião da Nuvem encarou as próprias mãos. Ele merece muito mais do que alguém como você. A campainha foi tocada e a espera durou poucos segundos. A figura do Décimo Vongola surgiu do outro lado, e Tsuna deu vários passos para trás ao vê-lo, batendo as costas na parede e derrubando o pano de prato que tinha nas mãos.

"H-H-Hibari-san!" A voz do homem de cabelos castanhos soou trêmula. O medo era tão visível através daqueles olhos que o ego de Hibari sentiu-se levemente satisfeito.

"Nós precisamos conversar, Sawada Tsunayoshi." O Guardião da Nuvem deu um passo à frente e ergueu levemente as sobrancelhas. A ironia de utilizar essa frase. "Ou melhor: eu falarei e você escutará atentamente o que eu vou dizer, fui claro?"

"S-S-Sim..."

Tsuna teria ido além da parede se fosse possível. Quando o moreno deu o primeiro passo, o corpo do Décimo praticamente se jogou contra o concreto. Era patético de se observar.

Hibari encostou a porta com uma de suas mãos, encarando o corredor. Não havia mais ninguém na casa, então eles poderiam ter aquela conversa sem interrupções. Seus olhos negros voltaram a encarar sua companhia, e pela primeira vez desde que havia chegado o pavor no olhar do Décimo havia se transformado em preocupação. Ele merece muito mais do que alguém como você.

"Em dez anos uma Família chamada Moretti irá ter força suficiente para criar fortes alianças. O Chefe dos Moretti se chamará Rafaelle e ele terá tanto poder quanto você. Este homem se transformará em um assassino e em maio, daqui a nove anos, ele matará o Chefe da Família Cavallone e a esposa do Décimo Chefe dos Vongola." O Guardião da Nuvem não tinha expressão. As palavras deixavam seus lábios como se tivessem sido feitas para serem proferidas. "Dino Cavallone e Sawada Kyoko serão mortos por esse homem se não fizermos alguma coisa. Seus Guardiões não queriam que você soubesse, mas eu não trabalho para você e é direito seu saber, Sawada Tsunayoshi. Eu não direi o que deve ou não ser feito, mas eu tomei a minha decisão."

O som do silêncio era pesado e ensurdecedor. O medo nos olhos do Décimo, que havia se transformado em preocupação há poucos segundos, mudara para algo que o moreno nunca havia visto. Hibari abaixou o olhar e deu meia volta, abrindo a porta e saindo. O Sol brilhava no céu azul e, enquanto caminhava na direção de seu carro, o Guardião da Nuvem só conseguia pensar qual expressão ele exibiu em seu rosto quando a versão futura de Gokudera Hayato o contou sobre Dino. Eu tenho certeza absoluta que não reagi como Sawada Tsunayoshi, o ex-Líder do Comitê Disciplinar deu partida no carro, eu jamais teria derramado uma lágrima na frente de outra pessoa.

Continua...