IX

'Saga...'

A voz de Shion soou clara em sua mente, mais delicada do que o costume para o novamente Grande Mestre. A presença dele continuou em sua psique e Saga até responderia ao apelo até então mudo que Shion fazia, mas não tinha forças para fazer mais nada além do que estava fazendo.

Nunca mantivera seu cosmo aceso por tanto tempo.

Ele sabia, na teoria, que manter o cosmo elevado por períodos prolongados era algo que apenas os deuses mais poderosos eram capazes de conseguir. E mesmo eles tinham um limite até onde poderiam ir antes de destroçar o corpo físico em que habitavam. Agora aprendia na prática ao sentir seu corpo lhe falhando, seu coração claudicando várias batidas junto com as oscilações de seu cosmo; mantido minimamente estável por nada mais do que sua férrea força de vontade.

Seu peito contraiu-se em um espasmo de dor, e ele sentiu os braços de Shion o apanhando do chão para apoiá-lo no estrado da cama onde estava seu irmão. 'Saga, você precisa parar', a voz dele sussurrava, e tudo em seu corpo esgotado lhe dizia para ceder ao apelo do Grande Mestre. Mas se ele parasse, seu irmão estaria totalmente entregue à dor lancinante de sua alma ferida até que seu corpo entrasse em colapso pela sobrecarga nervosa. E mesmo com seu corpo morto, sua alma seguiria se contorcendo em sofrimento. Shion sabia, porque através dele qualquer telepata conseguiria sentir uma mínima fração do sofrimento que Kanon sentia mesmo com o apoio de seu cosmo.

Tudo o que ele fazia, ali, era aliviar uma parte do sofrimento de seu irmão. Um sofrimento que ele causou em sua tentativa de libertá-lo.

Os músculos do seu diafragma voltaram a se contrair, como que se perdessem a coordenação motora necessária para que ele seguisse respirando. Os braços de Shion – ou alguém que parecia Shion, não tinha mais tanta certeza – eram quem lhe sustentavam, e por isso ele tinha que dar graças porque se ele se deitasse no chão ele sabia que perderia a consciência. Mas o que lhe causava terror não era perceber que agora estava fraco a ponto de afogar-se com suas próprias tentativas de respirar; e sim perceber que seu cosmo se apagava contra sua vontade.

Tentou levantar os olhos para ver Kanon tendido na cama, pálido de morte, coberto por uma capa de suor frio que denunciava a enormidade da dor que sentia; porém nem isso conseguia mais.

- Saga... – Os dedos de Atena deslizaram pela sua testa molhada, e um arremedo de sorriso brincou em seu rosto. Ela havia voltado, como prometeu que voltaria. Forçou sua vista a focar-se para buscar Zeus, pois Atena lhe jurara que não voltaria sem trazer consigo o Rei do Olimpo para que ambos fechassem as feridas que Poseidon, através de Nibelungo, abriu na alma de seu irmão.

Não havia ninguém junto dela, talvez ele não estivesse conseguindo enxergar. Fez mais um esforço para olhar agora para os olhos de sua Deusa, porque não podia, simplesmente não podia perder a consciência sem ter a certeza de que Kanon ficaria bem.

Os olhos dela brilhavam pelas lágrimas, seus lábios se apertavam um contra o outro para disfarçar o tremor.

Zeus não veio. Zeus não viria.

- Não, Saga, não. Você tem que descansar, já fez tanto... – Outra carícia em sua testa, Atena refreou delicadamente sua tentativa de elevar o cosmo em direção a Kanon. – Eu vou fazer isso. Eu não vou deixa-lo sofrer assim, Saga, eu juro.

Seu cosmo, cálido e poderoso, fez o corpo de seu irmão relaxar. Sua pele ganhou algo de cor, assim como aconteceu quando ele elevou seu cosmo para tentar curá-lo pela primeira vez.

- Princesa... - A voz de Shion era agora grave, e Saga intuía o porquê.

Sem Zeus, Atena, ele, qualquer outro Cavaleiro que dispusesse a ajudar, todos estariam apenas adiando o inevitável enquanto sacrificavam seus cosmos – e seus corpos - na tentativa de ajudar a Kanon.

Um a um morreriam para minorar o sofrimento dele, e em vão.

Atena também sabia, claro. Mas não se importou.

Saga tentou falar, dizer que aquela era uma missão dele. Ele sabia que ela não deveria se sacrificar assim por Kanon, ela tinha tantas outras obrigações. Seria pedir demais que a Deusa colocasse sua vida em risco pela alma de seu irmão apenas. Mas ele mal conseguia segurar as lágrimas ao perceber a dor de seu irmão diminuindo, o bálsamo daquele pequeno respiro no meio de seu sofrimento.

- Isso é uma loucura. – Ouviu a voz de Máscara da Morte, e só então viu que havia outros cavaleiros ali. Os cavaleiros de Ouro, os cavaleiros de Bronze, alguns cavaleiros e amazonas de Prata.

- Não importa. – A voz de Ikki, ali também. – Nós nos revezaremos.

Shion o aninhou em seu ombro, ele percebeu os soluços rasgando seu peito.

Máscara da Morte tinha razão, ele sabia. Ele sabia. Mas nunca sentira tamanha gratidão em toda sua vida.

OOO

- Princesa? - A voz do criado interrompeu Atena em sua preparação psíquica. - Temos um visitante que deseja uma audiência com vossa senhoria.

- Meu jovem rapaz, não estou em condições de receber ninguém.

- Senhora... O visitante insiste.

A deusa uma risada amarga. Suspirou, apertando os lábios e pensando que os problemas sempre vêm aos grupos.

Não era culpa do jovem noviço que alguém procurasse por Atena requisitando uma audiência agora, justo agora que ela acabara de revezar sua posição com Shion, depois de ter mantido seu cosmo elevado por horas enquanto se prostrava ao pé da cama de Kanon. Mas uma parte de si não conseguia deixar de se ressentir com o rapazinho, seria ele assim tão cego a ponto de não perceber que, diante daquela crise, qualquer visitante deveria ser mandado porta afora? Não haveria audiência com a Deusa, não. Não havia sequer uma saída daquela situação infame, quanto mais uma audiência.

Ela falhara.

Mas o jovem mensageiro seguia ali, os olhos insistentes de quem não via outra escolha.

- Leve-me até este visitante. – Bufou, e o jovem se apressou em outra mesura.

- Não há necessidade, Sobrinha. – A voz profunda a fez tremer. – Tomei a liberdade de adentrar-me por estes aposentos.

Atena apertou os olhos, tentando impedir que sua irritação se transformasse em cólera.

- Salve, Crônida que agita a Terra. - Apertou os punhos com muita força e se forçou a uma mesura, mas nada no mundo impediria sua voz de pingar ácido quando lhe dirigia as palavras de cortesia.

- Demoraste a atender meu chamado, Tritogênia. Onde estavas?

- Lutando como posso para salvar o guerreiro de quem retalhaste a alma, onde mais? E tu, ó tio, vieste conferir a qualidade de teu trabalho? – Sua voz era agora um silvo, seu cosmo elevou-se involuntariamente numa provocação muda, porém aberta. Poseidon poderia fazer guerra disso, ela sabia, como também sabia que queria o ícor de seu tio em suas mãos desde que descobrira o que ele fez com Kanon.

E agora ele tinha o disparate de vir até seu santuário, até ela, para escarnecer de sua situação?

Poseidon, porém, não retaliou. Baixou seus olhos, se manteve em um silêncio contrito.

Atena amainou seu cosmo.

- Onde ele está? – A voz de Poseidon quebrou o instante de silêncio, agora sem tanta majestade.

- Por que queres saber?

- É meu general...

- Não é nada seu. Nada. – A voz dele era um sussurro, mas ela ainda assim o cortou. – E tu não tens nada para fazer aqui.

- Nem toda tua boa intenção o salvará, sobrinha. Já eu... Mandar-me embora é tirar dele toda a esperança. Eu posso salvá-lo. Sou o amo de Nibelungo, e sou um dos Três Reis.

- E por que o salvaria, se foste tu o responsável por sua ruína? Por que o salvaria, desobedecendo a uma ordem direta de meu pai? O que ganharias com isso?

Poseidon ficou em silêncio.

- Acaso me tomas por tola, meu tio? - Atena respirava fundo, vendo cada músculo do rosto de seu tio retesar-se e relaxar-se. – Me tomas por tola?

- Se pensas que podes salvá-lo sem mim, sim, eu te tomo por uma tola. Tola e orgulhosa, tal como teu pai. – Os olhos dele brilhavam, a voz estava mais rouca do que o costumeiro. Pesada pela fúria que ele mal conseguia conter.

Não era um ato de magnanimidade fingida, ou mesmo uma estratégia de diplomacia. Ele queria atacá-la, ela sentia isso, ele queria passar por cima dela, do próprio Zeus todo-poderoso e levá-lo embora dali, curar sua alma e reconvertê-lo em seu General. Mas ele continha sua fúria. E, se a continha, era porque sabia que Kanon não poderia ser levado dali à sua revelia.

Ele queria salvá-lo, se arriscava ao fazer isso, e queria sua anuência.

- Por quê? – Ela enfrentando seus olhos dourados. – Por quê?

- Não importa. – Foi o que ele lhe devolveu em um sussurro, os olhos brilhando como dois sóis.

O cosmo de Shion falhou por um momento, o então Grande Mestre prontamente se recuperou. Os olhos de Poseidon, porém, lhe diziam – gritavam, na verdade – que era só uma questão de tempo até que ele precisasse ceder lugar a ela, novamente.

Olhou para ele, e num meneio mudo de sua cabeça o chamou para segui-la.

OOO

Atena o guiou até onde mantinham seu General, mas se ela não o fizesse isso não teria importância. Localizá-lo-ia de qualquer maneira, pois a alma dele seguia atraindo a sua.

Lá estava ele, fraco, pálido e vulnerável, a alma despedaçada se desfazendo em agonia e dor que também reverberava em si. Não que ele sentisse também o que seu General sentia. O que ele sentia era totalmente diferente, e não passaria com o alívio que iria lhe proporcionar.

Talvez aquela inquietude que lhe torcia as vísceras e gelava seus dedos piorasse depois que ele entranhasse sua essência à dele uma vez mais.

Sua alma se ressentia pela falta daquela fusão, seu corpo se ressentia da falta daquela pele, daquele cheiro.

Poseidon, o que não amou sua esposa Anfitrite, dela se descasou para possuir outras tantas e tantos. Poseidon, o que amou tantos mas nunca amou ninguém...

- Saia daqui – A primeira estrela de Gêmeos não conseguia elevar a voz em mais do que um sussurro, totalmente exausto pelo esforço continuado de manter a agonia de seu irmão em níveis menos insuportáveis. Mas por acabado que ele estivesse, ainda o olhava como que quisesse mata-lo, e Atena tentava acalmá-lo como se ele realmente pudesse. – Eu não quero você aqui.

Deveria esmagá-lo com seu cosmo, ou mesmo dar-lhe um safanão para que ele não o perturbasse. Mas não se sentia no direito.

Por mais frequentes que tenham sido as brigas entre os Dióscuros ao longo de suas muitas encarnações, por mais sérias que tenham sido as traições aos deuses e entre si próprios, por ridiculamente prepotente que lhe soasse aquela tentativa de desafiá-lo... Os olhos verdes faiscavam com uma raiva genuína. Ali, naquele momento, ele daria a vida para defender o irmão que era e seria para sempre a única família que tinha, por mais que tenham sempre se atacado.

Aquela dualidade incongruente, bem como a solidão partilhada entre eles, seria para sempre uma marca indelével de parte da herança olímpica que deveriam ter tido. Era a parte que lhes cabia na maldição do sangue de Zeus, seu irmão, e também do seu.

Tocou a mão gelada do seu General, seu cosmo ainda se ligava ao dele sem esforço algum. Sentiu o baque da dor lancinante que ele sentia, ele sabia que o fato de ligar seu cosmo ao dele o faria sentir uma fração daquilo, e também sentiu como seu cosmo imediatamente minorou aquela dor com mais eficácia do que ninguém jamais teria. Elevou seu cosmo e deixou a energia fluir, e à medida que seu poder fazia o trabalho de curá-lo, sobrava apenas aquela sensação familiar daquele cosmo entranhado no seu, dos calos daquela mão quando lhe tocava a pele.

Quando acabou estava de joelhos diante do leito de seu General. Exausto, mais exausto do que se imaginara ficar em centenas de anos. Não só fisicamente, emocionalmente também. Mas ele estava melhor, suas chagas estavam sanadas, e por uma fração de segundos isso lhe era recompensa suficiente. Porque no instante seguinte ele entenderia as consequências daquele pensamento, de como sua condena daria àquela alma partida para todo o sempre sua bendição... Mais, mais do que isso.

Muito mais.

Os dedos dele se fecharam nos seus como que por reflexo, e engoliu em seco. Aquele era o último enlace de mãos, a última vez que o tocaria.

Atena se debruçava sobre ele, como a irmã zelosa que gostaria de ser.

- Ele vai ficar bem, não o acorde. – Sua voz estava pesada como nunca. Mas levantou-se sem ajuda apesar de sua vista escurecer, precisava pelo menos parecer altivo. – Ele tem muito o que descansar.

Caminhou para fora do quarto sabendo que não mais o veria, mas o laço de cosmo que um dia os uniu – uma mentira, uma mentira criada por ele próprio, mas que agora era o mais verdadeiro que tinha em si – seguia arraigado em si, apesar de desfeito.

Sua punição, essa era sua punição. Ligar-se irremediavelmente à única alma que tinha todos os motivos para não perdoá-lo jamais.

OOO