CAPÍTULO 9
It's my Life
Mary Alice: Verdades são valorizadas em relacionamentos. Seja entre marido e mulher, seja entre pais e filhos, ou ainda entre amigos, é sempre importante que haja sinceridade. Espera-se de um relacionamento que a outra pessoa dê tudo de si e, em troca, damos tudo de nós mesmos, desejando sempre que toda a verdade nos esteja sendo dita. Mas o que fazer quando a verdade é omitida? Diz o ditado "confiança é como um espelho, você pode consertar se estiver quebrado, mas ainda vê a rachadura no rosto de quem lhe traiu".
Andrew entrou em casa correndo, sem se importar em tocar a campainha, passando como um raio e batendo a porta com força enquanto procurava pelos cômodos. Não encontrou nada no andar inferior, então subiu as escadas, dois degraus por vez, até parar ofegante diante do quarto da mãe. Assustada, Bree levantou o rosto, que estivera escondido entre as mãos, revelando as marcas de lágrimas. Respirou fundo e levantou-se da cama com o que lhe restava de dignidade.
- Orson me deixou – disse em um tom mórbido.
- Por que? – Ele foi bem direto.
Desejando evitar a resposta, Bree deu-lhe as costas e foi arrumar o lençol de cama, deixando-o perfeitamente reto e sem amassados, como estivera quando deixara a casa para ir ao socorro de Gabrielle. Queria que o tempo voltasse àquele momento e nada tivesse mudado, mas era inútil desejar algo que nunca se realizaria.
- Foi por causa da senhora Solis? – Andrew tentou um pouco mais. – Foi o que ela me disse, que ela foi até você. Isso é verdade?
- Andrew...
Bree largou o lençol e se aproximou do filho, procurando pelas palavras certas para evitar desaponta-lo. Enquanto o fazia, notou a mão do rapaz, com alguns arranhões sobre os nós dos dedos e bastante vermelha. Segurou-a com carinho.
- O que houve com a sua mão? – Perguntou preocupada, já imaginando que o filho entrara numa briga por causa dela.
- Nada – ele puxou o braço de volta, escondendo-o atrás do corpo para evitar novas distrações na conversa. – Não mude de assunto, só me responda.
- Você bateu em Carlos? – Ela perguntou indignada.
- Sim! Sim, eu bati nele, mas só porque ele te insultou na frente da vizinhança inteira! – Argumentou Andrew inquietando-se. Passou a mão pelos cabelos e perguntou mais uma vez, respirado fundo e tentando ser paciente. – Ele disse que você estava dormindo com a mulher dele.
Nervosa, Bree respirou algumas vezes antes de poder dizer qualquer coisa. Jogou os cabelos para trás e juntou as mãos à frente do corpo, tomando postura. Para o filho, sua demora foi suficiente. Andrew pôs-se a andar pelo quarto, derrubando um abajur no chão para descontar sua raiva.
- Andrew! – A mãe reclamou sobressaltando-se com o gesto violento.
- Por que não me contou? – Ele perguntou furioso. - Eu sou seu filho! Achei que podíamos compartilhar nossas vidas, que não houvesse mais segredos! – E complementou triste. - Achei que nossos problemas tinham ficado para trás. Parece que me enganei.
- Por favor, Andrew – ela segurou-o pela mão mais uma vez, parecendo que começaria a chorar a qualquer minuto. – Eu não queria que nada disso acontecesse, não queria lhe envolver em meus problemas. Você tem todo o direito de estar furioso comigo, eu não mereço seu perdão. Se quiser, pode me odiar pelo resto de sua vida, pois sei que eu mereço por ter sido hipócrita e não ter te apoiado no passado, por ter traído seu padrasto como seu pai fez comigo. Eu mereço toda a raiva que sente por mim.
- Pare de falar isso! – O filho gritou e, dando-se conta que a havia assustado, sentou-se na cama. Bagunçou os cabelos mais uma vez e continuou um pouco mais calmo. – Você é parte da minha vida, assim como eu sou parte da sua. Eu não ligo se você traiu seu marido, isso não é problema meu. Nem ligo se você se descobriu uma lésbica de meia-idade. Só queria que tivesse confiado em mim o suficiente para me contar, que me considerasse o bastante para ter me dito. Pelo amor de Deus, eu sou gay, deveria ser a primeira pessoa a saber de minha própria mãe! – E disse ainda mais. – Eu te perdôo por todos os seus atos, mas não sei se posso ter perdoar por não ter confiado em mim.
- Andrew querido – Bree sentou-se ao lado dele, segurando-o no braço. – Eu tive tanto medo, depois de tudo que lhe fiz passar em sua adolescência... Tive medo que não me aceitasse.
- Deixe pra lá – ele a interrompeu. – Eu te fiz passar o inferno naquela época, e você me aceitou de volta. Eu aprendi.
Orgulhosa do homem que seu filho se tornara, Bree o abraçou, não podendo conter as lágrimas de felicidade que lhe escapavam. Estava feliz, finalmente pudera tirar algo de bom do meio de sua catástrofe pessoal. A relação com Andrew estava mais sólida do que nunca, como deveria ser entre mãe e filho, como sempre sonhara que um dia conseguiria.
- Sem mais segredos – ele pediu, afastando-se um pouco para olhá-la.
- Nunca mais – a mãe concordou.
Agora, com a situação devidamente resolvida, Bree sorria alegre, enquanto enxugava o rosto com as mãos. Andrew passou as pontas dos dedos delicadamente sobre o rosto da mãe, sorrindo-lhe largamente, porém, não como ela fazia, algo parecia se esconder em seu olhar. Bree olhou-se de forma a indagar o que estaria pensando, mas o filho logo disse o que tanto maquinava:
- Quer dizer então que o meu "gene gay" veio de você – disse rindo.
- Andrew! – Ela reclamou constrangida.
- Ora, mãe, somos todos iguais aqui – brincou. – Eu tinha que herdar de alguém meu lado gay, não é? Eu sabia que Orson era um indicativo. Digo, ele sempre me pareceu meio no armário, só não esperava que ele fosse te mostrar a maçaneta.
- Orson não fez nada, isso foi uma descoberta completamente independente dele – Bree logo se justificou, defendendo o ex-marido.
- Então isso explicaria porque a senhora sempre foi assim tão impecável, controladora, pra não dizer louca. Era tudo a vontade contida de colar o velcro – ele continuava tentando parecer que analisava a situação com seriedade, mas não conseguia e acabava rindo.
- Pare! – Bree reclamava da forma do filho falar, mas, no fundo, ficava feliz que ele aceitasse a situação, ainda que com humor negro.
- Certo, certo, vou parar, mas só me diga uma coisa – e ficou bem sério para falar. - Você é ativa ou passiva? – Depois justificou. – Por que eu nunca consegui te imaginar como passiva, quer dizer, meu pai te fazia bater nele com um chicote e tal...
- Certo, agora definitivamente a conversa de mãe e filho acabou – ela levantou-se da cama fazendo esforço para não sorrir.
Andrew acompanhou-a no gesto, deu mais um abraço e saiu da casa, deixando a mãe mais uma vez sozinha. Ainda que estivesse mais tranqüila, Bree não poderia deixar de estar triste e a única coisa que a impedia de abrir o armário de bebidas era saber que isto terminaria de arruinar sua vida. Decidiu ocupar-se, então foi até a cozinha e começou a preparar um chá. Nesse momento, ouviu baterem na porta.
- Bree, é Katherine – identificou-se a amiga. – Posso entrar?
Não obtendo resposta, Kath entrou na casa assim mesmo, aproveitando que a porta não estava trancada. Andou pela sala, procurando pela amiga, até encontrá-la na cozinha, sentada sozinha diante da bancada central, os olhos fixos numa xícara fumegante e intocada à frente.
- Bree? – Chamou tocando-a no ombro, fazendo com que se sobressaltasse. – Está tudo bem?
- Sim, tudo bem – a ruiva respondeu automaticamente em sua mentira usual, levantando-se e indo até a geladeira, não sabia exatamente para que, mas apenas para desviar e não olhar diretamente para sua visita.
- O que foi aquilo na rua? As garotas estão preocupadas com você. Foram com Gaby para a casa de Susan e me pediram para passar aqui e saber de você – Katherine continuou.
- Pois pode dizer a elas que estou bem e que gostaria de ficar sozinha, se não se importa – Bree respondeu com frieza, ainda remexendo na geladeira.
Irritando-se, Katherine se aproximou e fechou a porta da geladeira com grosseria, assustando a amiga. Pegou-a pelo braço e puxou até a sala, obrigando-a a se sentar no sofá e permanecendo em pé de frente para ela, encarando-a.
- Melhor começar a falar, ou eu não vou sair daqui – disse.
Sem muitas escolhas, Bree juntou as mãos, abaixou o rosto e, como quem sabe que já atingiu o fundo do poço, tratou de contar tudo que acontecera entre ela e Gabrielle, sem nenhum pudor. Quando acabou, o ambiente permaneceu em silêncio. Katherine sentou-se ao lado da amiga no sofá e a abraçou apertado dizendo:
- Por que não me contou antes? – E afastou-se para olhá-la nos olhos. – Você é a minha irmã, esqueceu?
- Não sabia como reagiria – Bree respondeu o óbvio.
- Ora, sua tola – E a abraçou de novo. - Não importa o que aconteça, eu sempre estarei ao seu lado. Isso não muda em absolutamente nada nossa relação.
- Obrigada por entender.
- Quer dizer, eu sabia que você ia pirar em algum momento, digo, Orson não era lá um machão, só não esperava que fosse ter um caso com uma de suas melhores amigas – brincava Kath.
- Que graça – a ruiva sorriu.
Katherine teve que interromper a conversa, pois sentiu o celular tocar em seu bolso. Afastou-se novamente do abraço e atendeu a chamada:
- Oi, está tudo bem por aqui. Como estão as coisas aí? Certo, estamos a caminho – desligou e olhou para a ruiva. – Era Edie. As garotas estão nos esperando – e, notando o olhar esperançoso da amiga, acrescentou. – Gabrielle está bem, se é o que quer saber.
Com um sorriso tímido, Bree levantou-se do sofá e acompanhou a amiga para fora. Atravessaram a rua e logo estavam na soleira da casa de Susan. A ruiva mexia os dedos tão nervosa que foi necessário a amiga segurar-lhe a mão para que parasse. Bree temia a rejeição das vizinhas, mas Katherine lhe dava o apoio e a confiança para enfrentar a situação. Era necessário contar cedo ou tarde às amigas o que estava acontecendo, e antes saído da boca dela do que de Carlos, assim pensava.
- Quando quiser – disse Kath.
Cabia apenas a ela, Bree, decidir como seria. Precisava enfrentar seus temores e aceitar que a amizade verdadeira é posta á prova por diversas vezes e este era um dos momentos. Logo separaria quem eram suas verdadeiras amigas, daquelas que não valiam mais a pena se relacionar. Respirou fundo e, ainda que o medo da descoberta a dominasse, tocou a campainha.
Antes disso, dentro da casa de Susan, Gabrielle estava sentada no sofá, cercada por Edie, Lynette e Susan, duas garrafas de tequila, limões e um balde de gelo. Os copos estavam distribuídos nas mãos, necessários enquanto Gaby contava a história dos últimos acontecimentos, somente assimilados à base de álcool.
- E foi isso – a latina finalizou com um grande gole de bebida.
Deixou as amigas a encararem estarrecidas, exceto por Edie, que já sabia o que estava se passando e por isso mexia seu drink com a ponta do dedo, entediada. Lynette foi a primeira a sair do estado de choque:
- Por que não nos contaram? Somos todas amigas!
- Eu sabia – comentou Edie displicentemente, ao que Gabrielle lançou-lhe um olhar de reprovação. – O que? – Se fez de desentendida. – Você me contou antes mesmo.
- Lynette – Gaby ignorou o comentário da outra -, eu sei que somos amigas, e íamos contar, mas estávamos esperando ter mais certeza das coisas e nos ajustar melhor antes de tornar isso público.
- Isso porque vocês são lentas demais para perceberem – disse Edie pegando o celular e discando um número. – Eu saquei num instante.
- Gaby – foi a vez de Lynette ignorar os comentários -, nós lhe apoiamos no que vocês decidirem. Se é o que lhes fazem felizes, nós ficamos felizes também. Vamos ajudar no que for necessário.
- Com certeza – apoiou Edie abaixando brevemente o celular de sua ligação.
- Obrigada, meninas.
Lynette pegou na mão de Gabrielle sorrindo em um gesto simbólico. Porém, logo seu olhar, assim como o de Gaby e o de Edie recaíram sobre Susan, que permanecera calada até então, cobrando uma atitude. Percebendo que todas a olhavam, Susan pareceu acordar de um transe:
- Oh – disse ainda um pouco lenta em suas reações. – Sim, vamos.
Enquanto as amigas confraternizavam com margaritas, ouviram a campainha ser tocada. Susan foi abrir a porta e deixou Katherine e Bree entrarem. Foram instantes de tensão, nos quais os olhares vagavam de Gabrielle até a ruiva e de volta, esperando por algo extraordinário e diferente de tudo ao que estavam acostumadas. Não atendendo às expectativas, Gaby levantou-se do sofá e foi a passos largos até a amada, abraçando-a com força.
Ainda que fosse um momento íntimo, antes de mais nada era um momento de amizade e especial carinho entre todas aquelas mulheres que eram amigas há tanto tempo. Todas juntaram-se em um abraço coletivo, demonstrando sua força e seu poder, a união e a fidelidade entre aquelas que apenas desejavam o melhor umas para as outras neste momento de crise.
Mary Alice: Sim, confiança é como um espelho. Porém, não é sempre que a rachadura permanece. O valor que se dá a verdade pode ser superestimado, ofuscando a motivação que levou a omiti-la. Mas, se refletir devidamente, veremos que tudo não passou de medo, de perder o marido, de perder o filho, de perder as amigas. Permanece o amor à estas pessoas, que ressignifica a verdade e faz nascer renovada a confiança.
N.A.: Soooooooooooooooooooooono! Minha editora me fez trabalhar a noite toda e escrever esse capítulo enorme em um só dia T.T E amanhã estréia Harry Potter! *-* Aviso aos navegantes, Mozi voltou de viagem, o que significa que postarei menos. E Bana-Banana (Shizu), vê se comenta! (Agora que sei que você lê) U.U Ah, só pra constar, é "It's my life" de Bon Jovi. Beijos a todos!
