Capítulo 9 – Sonhos Desfeitos
Rowena Fala:
"Meu filho nasceu forte e sadio, e ao pegá-lo no colo pela primeira vez, senti toda a emoção que a maternidade traz para uma mulher. No nosso primeiro contato, percebi que o meu bebê seria um homem grande, como o pai e com os mesmos cabelos ruivos.
Godric entrou no quarto pouco depois, e admirou o bebê adormecido nos meus braços.
Você está bem? – ele me perguntou, e pareceu realmente preocupado. Só um pouco cansada... É uma bela criança, Rowena... já pensou no nome? Ainda não... essa é a função do pai... dar o nome ao filho...- naquele momento, a última coisa que eu queria era ser irônica, ou provocar uma discussão com Godric. Ele adiantou-se, e tomou o bebê dos meus braços desajeitadamente. Eu tentei protestar, mas estava tão exausta que caí deitada na cama. Então eu lhe darei o nome de Northan August Griffyndor...Não fiz qualquer objeção. Godric entregou-me o bebê para que eu o amamentasse, e deixou o quarto. A sós com o meu filho, eu quase cheguei a lamentar que Northan não fosse realmente filho de Godric. Mas eu senti que o meu marido seria capaz de amar aquela criança. Isso eu havia visto nos seus olhos.
Helga deu à luz pouco tempo depois de mim, e dessa vez era uma menina que chegava à Hogwarts. Acompanhei todo o parto e, após o nascimento, corri para dar a notícia a Gawen. Passado tanto tempo, eu me lembro da decepção estampada em sua face.
Uma menina? – ele questionou. Sim – eu disse – forte e saudável, com o cabelo e os olhos da senhora Ídris, Gawen... não há motivos para se lamentar. É uma criança linda...A menina recebeu o nome de Christine – Helga fez questão que ela tivesse um nome cristão. Conforme os dias passavam, me pareceu que Gawen estava conformado com a filhinha. Mas muitas vezes o flagrei observando o meu filho, e tive a estranha sensação de que ele me invejava – e indiretamente a Salazar – por ter tido um menino. Mas só fui entender essa obsessão anos mais tarde, o que talvez tenha sido meu grande erro. Se eu tivesse confrontado Gawen antes... mas eu não podia prever o futuro, e nem que ele jamais teria um filho homem...
***
A rotina em Hogwarts pouco se alterou após o nascimento das crianças. Conseguimos boas amas para cuidar de nossos filhos, enquanto Helga e eu nos entregávamos a nossa missão. Erwin, o amigo de Godric em Londres enviou para nós uma boa gratificação em ouro para que pudéssemos melhorar a construção e aumentar o número de aposentos para os alunos. Contratamos alguns bruxos, vindos de lugares longínquos para que também dessem aulas em Hogwarts, ampliando assim a nossa fonte de sabedoria. E finalmente, após cinco anos de trabalho duro, recebíamos o reconhecimento de quase toda a Inglaterra.
Paralelamente à Hogwarts, Godric preocupava-se com as suas terras na Cornualha. A resposta do Rei demorava a chegar, e por algum tempo ele teve quase certeza de que perdera a sua herança para algum aventureiro. Assim ele pensou até uma tarde, no começo da primavera após o nascimento de Northan, quando Erwin chegou ao castelo, acompanhado de um mensageiro real.
Ele não sabia como chegar à Hogwarts, Godric...- Erwin disse – ele está aguardando no vilarejo. Não achei prudente trazer um trouxa até aqui. Você fez bem...- Godric parecia excitado – Rowena, venha comigo por favor. - aquele não era apenas um pedido. Havia tanta ansiedade em sua voz que não pude negar-lhe a minha companhia.O mensageiro nos aguardava numa das colinas que cercavam Hogsmeade. Aquela situação pareceu-me totalmente estranha – um homem do Rei merecia maior respeito – mas Godric não ligou para isso. Leu avidamente o pergaminho, e depois me encarou, os olhos brilhando.
E então – perguntei ansiosa. Você está pronta para ser a Duquesa da Cornualha, Rowena?***
Afastei as cortinas da liteira, e me assustei com a primeira visão que tive de Londres. Era muito mais que um simples vilarejo, como os que eu estava acostumada a visitar. Era muita gente junta, andando pelas ruas, pelo mercado. Eu estava ali, junto com Godric para prestarmos o juramento de lealdade ao Rei da Inglaterra. Essa cerimônia era importante, pois somente após isso Godric finalmente receberia a posse de suas terras e o título de Duque oficialmente. Obviamente, seríamos recebidos por trouxas e como tal teríamos que nos portar na Corte.
Desci do veículo exausta , sentindo falta de Northan, que ficara em Hogwarts com Helga. Mas a expectativa de ser recebida na Corte atenuaram o meu desconforto, e quando vislumbrei o castelo real, com Godric segurando a minha mão, senti que a nobreza do meu sangue jamais desapareceria. Usava um vestido novo, feito de seda azul e portava as jóias que um dia pertenceram a minha mãe. Eu não desejava, de modo algum, decepcionar Godric.
O grande banquete estendeu-se por quase toda a noite. Para mim, foi entediante ficar sentada entre mulheres completamente vazias, que existiam apenas para cuidar de filhos e serem obedientes aos maridos. Naquele momento, percebi como Helga me fazia falta e me reconfortou saber que eu a tinha como amiga. Eu me sentia só no grande salão, cercada pela alta nobreza. Após o juramento, o Rei chamou um grupo de músicos e deu continuidade à festa, dessa vez regada com mais vinho. Me entusiasmei com as belas canções, e ingeri mais vinho do que estava habituada.
Quando finalmente a festa acabou, Godric e eu nos dirigimos para nossos aposentos, ele me amparando, pois eu estava zonza. Foi só aí que ele percebeu que os criados haviam preparado apenas um quarto para nós dois...
Eu posso pedir para o camareiro preparar outro...- ele começou a dizer. E deixar que todos saibam que dormimos em quarto separados? – eu retruquei – será por apenas uma noite... não quero dar vazão a mexericos a nosso respeito.O aposento era grande e tinha um espaço reservado para a troca de roupa, onde tirei meu vestido e coloquei minha roupa de dormir. Saí de dentro da pequena câmara ainda com as jóias, mas com o cabelo solto, e surpreendi Godric apenas com uma túnica simples de lã crua. Enquanto o observava, um pouco sem-graça, eu lutava para soltar o fecho do meu colar. Minhas mãos tremiam, o que eu imaginava ser efeito do álcool, mas eu tinha plena consciência do que estava acontecendo. Godric era um homem bonito e jovem, e eu percebi, pelo modo como ele me olhou, que me desejava.
Deixe-me ajudá-la – ele se ofereceu, e eu afastei o cabelo para que ele soltasse a jóia. Senti os seus dedos tocarem a minha nuca, e por instantes me lembrei que Salazar também fizera o mesmo um dia. Mas Godric não se limitou apenas à nuca... ele deslizou a sua mão pelas minhas costas, e senti que ele encostava o seu corpo ao meu. – O seu colar...- eu me virei, e ele me enlaçou num abraço. Não falei nada, mas suas mãos continuavam a me acarinhar, e ele se aproximou ainda mais de mim. Naquele momento percebi que jamais poderia evitá-lo. Beijamo-nos delicadamente, e depois Godric me conduziu calmamente para a cama. E nós finalmente nos tornamos de fato marido e mulher.Ele adormeceu nos meus braços, mas eu permaneci acordada, acariciando o seu cabelo. Eu não o amava, disso eu tinha plena consciência. Mas admirava Godric, e agradeci a Deus por tê-lo comigo. De Londres partimos para a Cornualha, e Godric tomou posse de toda a sua herança. Durante os vários dias que permanecemos ali, ele percorreu as terras de sua infância, me mostrando os lugares que mais lhe despertavam lembranças. E não passamos sozinhos nenhuma daquelas noites.
Eu amo esse lugar... mas temos uma grande missão em Hogwarts...- ele comentou certa manhã, ao despertar. E quais são os seus planos para essas terras, Godric? Manter a paz entre o nosso povo e os trouxas... eu nomeei um intendente, que cuidará dos meus negócios por aqui, enquanto estivermos em Hogwarts... e pretendo uma vez ao ano viajar para cá... Eu soube de um grupo de renegados... que vivem em uma ilha... Eles não preocupam. Estão confinados naquela ilha há tanto tempo que provavelmente já se esqueceram da Cornualha... agora, Rowena, acho que é hora de voltarmos para Hogwarts.Concordei com Godric, aliviada. Já não agüentava mais de saudades do meu filho. Porém, ao me levantar lembrei-me, surpresa, que minhas regras estavam atrasadas novamente.
Algum problema, Rowena? – Godric perguntou, estranhando a minha expressão. Nenhum... eu estou esperando um filho, Godric...- respondi-lhe simplesmente, sorrindo.***
Fundar Hogwarts, num momento de euforia de quatro jovens, alimentados por uma antiga lenda, fora fácil. Contavam com o entusiasmo e a força próprios da juventude. Mas, passados os anos, eles viram que dirigir uma escola era algo muito mais complexo que simplesmente ensinar algo para jovens bruxos.
O primeiro desafio para Godric surgira na época em que Salazar deixara o castelo: tentar consertar as idéias que o outro incutira em vários de seus alunos. Não era raro ouvi-los usando termos como sangue-ruim de forma pejorativa, para ofender os colegas. Com o tempo, Gawen recusou-se a continuar com a antiga turma de Salazar, o que forçou uma redistribuição dos alunos entre os quatro, o que estava completamente fora das regras por eles mesmo estabelecidas. E ainda havia o chapéu, em cuja mente estavam registrados as características dos quatro. Por mais que tivesse tentado, Godric não conseguiu anular o feitiço. E quando ele decidira abolir o uso do chapéu, provocou polêmica entre Rowena e Helga, e alguns de seus alunos mais velhos. No fim, as palavras sensatas de Helga o fizeram calar-se.
A profecia dizia que quatro bruxos tomariam posse dessas terras, Godric...e durante quatro anos, foi assim. Nós trabalhamos em harmonia durante todo aquele tempo, e Salazar teve tanta importância quanto você, eu e Rowena. Ele também fundou a escola, e não poderemos simplesmente ignorar os traços que ele deixou em Hogwarts. Mas Helga...foi ele quem disseminou nesse castelo essa discriminação dos nascidos trouxas...você acha isso positivo? Acho – foi a resposta dela – forçá-los a ignorar as diferenças não iria nos adiantar muito...vamos mostrar que elas existem, mas que não influenciam em nada... Você concorda com a Helga, Rowena? – Godric perguntou, e a esposa o encarou, sem expressão alguma no rosto. Por mim, tanto faz... – respondeu, em tom definitivo. Aquela era sempre a sua atitude quando o nome de Salazar aparecia nas conversas sobre os destinos de Hogwarts: não emitir opinião. Isso irritava Godric muito mais do que se ela eventualmente se mostrasse favorável às idéias do outro. Mas com o passar dos anos, Rowena passou a usar o silêncio quando alguém tocava no nome de Salazar.Com a ampliação do castelo, e a matrícula de mais alunos, novos professores foram contratados. Eram bruxos que vinham de diversas regiões, e encontravam em Hogwarts um refúgio seguro para os seus poderes e idéias. Alguns passavam pouco tempo no castelo, e partiam em busca de aventuras pelo mundo. Outros, idealistas, permaneciam.
E assim, Hogwarts prosperava. Nesse meio tempo, Godric deixou de lecionar e passou a se dedicar exclusivamente à administração e direção da escola. Passou o controle da sua turma para Gawen, que ensinava técnicas de luta para os rapazes. Para os alunos cujas características encaixavam-se com as determinadas por Salazar, contratou uma bruxa irlandesa, de origem celta, chamada Ceridwn. Era uma mulher de meia-idade, viúva cujos filhos haviam freqüentado Hogwarts em seus primeiros anos. E foi ela, ao ver o enorme trabalho que Helga tinha para controlar as equipes de limpeza e cozinha do castelo, quem teve a idéia de trazer para o castelo pequenos seres dóceis e fáceis de se domesticar.
Na Irlanda, eles são usados para serviços domésticos em geral, principalmente nas grandes propriedades. E que criaturas são essas? – perguntou Rowena, os olhos brilhando só de imaginar que poderia passar longe da cozinha e das tinas de roupas sujas. São uma espécie inferior de elfos...nós os apelidamos de elfos-domésticos...No dia em que Hogwarts completou vinte anos de existência, foram inauguradas as novas alas do castelo: duas residenciais, para as duas famílias, uma para os professores e quatro alas exclusivas para os alunos. E cada uma delas foi batizada com os nomes originais dos quatro fundadores: Griffyndor, Ravenclaw, Hufflepuff e Slytherin.
***
Cada vez que parava para pensar em sua vida, Godric muitas vezes se perguntava se acertara ao se casar com Rowena. Durante os primeiros anos, quando as crianças ainda eram muito pequenas, havia um certo encanto na relação de ambos, e ela quase nunca hesitava quando ele a procurava durante a noite. Agora, passados quase dezesseis anos, ele sentia que jamais houvera amor verdadeiro entre os dois. Pelo menos não da parte dela. Quanto a ele, Godric, ele não sabia dizer se ainda amava Rowena, ou se simplesmente acostumara-se com sua companhia. Sentia uma certa inveja de Helga e Gawen que, apesar dos anos ainda pareciam apaixonados. Mas esses eram sentimentos que ele guardava apenas para si. Mas toda vez que percebia que Rowena estava silenciosa demais, ele se perguntava se ela estaria pensando em Salazar.
Mas eram os filhos que compensavam a Godric toda a insatisfação de seu casamento. Rowena ainda dera a luz mais duas vezes: depois de Northan, nascera Adham, e por último a única menina do casal, Gwyneth. Cada um dos três trazia consigo um personalidade diversa, e para Godric era um desafio entender as diferenças entre as crianças, sendo que todos haviam recebido exatamente a mesma educação. Northan, ao mesmo tempo que se mostrava gentil com a irmãzinha, podia ser extremamente arrogante com qualquer adulto que tentasse lhe impor ordens, enquanto Adhan era mais tranqüilo e obediente aos pais. Gwyneth abusava da sua posição privilegiada de filha caçula, e era a mais mimada dos três.
As crianças cresceram juntas em Hogwarts – os três filhos de Rowena e Godric, e as quatro meninas de Helga e Gawen. Este, ao que parecia havia se conformado em não ter tido um menino, e exigia que suas filhas tivessem a melhor educação possível. E como todo pai, sonhava com bons casamentos. Enquanto crianças, ele não se incomodava que suas filhas brincassem junto com os meninos. Mas conforme o tempo foi passando, Gawen começou a se perturbar. Principalmente quando ele finalmente percebeu que Christine, com quase dezesseis anos, já era uma mulher feita, pronta para se casar. Mas ela ainda agia como uma menina, com seus longos cabelos negros sempre soltos . E sempre em companhia de Northan.
***
- There's no time for us
- There's no place for us
- What is this thing that builds our dreams
- yet slips away from us ?
A colina era alta e talvez por isso Christine sentisse o ar lhe faltar. Ou talvez por estar tão preocupada naquela tarde que não conseguia se concentrar na própria respiração. Parou por um instante arfante, e viu logo acima o rosto zombeteiro de Northan.
Parece que você jamais subiu essa colina antes, Christie... Então porque você não age como um cavalheiro e me ajuda a subir? – ela respondeu, fingindo raiva. Eu não sou um cavalheiro – ele disse, mas não deixou de descer alguns metros e dar a mão para a moça – vamos, estamos quase chegando ao fim.Do alto, a visão panorâmica de Hogwarts, com a Floresta de um lado e Hogsmeade do outro, enchia os olhos de qualquer pessoa, e mesmo Northan e Christine se impressionavam, todas as vezes que subiam o monte. Já haviam perdido a conta de quantas vezes fizeram aquele caminho. Desde sempre estavam juntos – fosse em brincadeiras ou castigos – e não cogitavam que um dia tudo aquilo poderia mudar. Christine vestia-se com simplicidade, os cabelos estavam soltos. Ela não se importava com sua aparência, por mais que a mãe e o pai lhe dissessem que ela era desleixada. Northan a achava bonita, e apenas a opinião dele valia a pena. Sentaram-se lado a lado e mais uma vez contemplaram, juntos, a vista.
Então – disse por fim Northan, quebrando o silêncio – você me chamou até aqui porque tinha algo importante para me dizer... que não podia ser dito em Hogwarts...Christine o contemplou com seus grandes olhos negros, e Northan percebeu que havia algo muito sério no ar. Algo que ele ainda não conseguia compreender.
Meu pai disse que está na hora de arrumar um marido para mim, Northan... Ele quer que você se case, Christie? Mas você é muito nova... Eu vou completar dezesseis anos daqui três luas...- havia certa urgência em sua voz – talvez ele tenha razão... Mas você quer se casar? – o rapaz se pôs de pé, e chutou algumas pedras a sua frente – quero dizer... nós prometemos que iríamos nos casar um dia...- ele lembrou, constrangido. Ele não vai deixar que eu me case com você...- Christine disse num sussurro – ele vai escolher o meu marido... um homem mais velho, provavelmente. E eu não acredito que você consiga ser tão passiva, que aceita tudo o que seu pai impõe a você!! – Northan explodiu, o rosto vermelho de raiva – então quer dizer que eu não bom o suficiente para ser o seu marido? Eu tenho muito mais ouro que qualquer um por aí, Christine, se é isso o que ele quer. Um dia eu serei duque!! – completou. Você agora está sendo injusto! – a moça levantou-se, e o encarou – eu não devia ter lhe dito isso... eu sabia que você não iria entender... Então me responda: porque ele não quer que você se case comigo? Eu não sei... tudo o que ele me disse é que eu já não sou uma criança... que não posso mais agir como tal, e que ele vai escolher um homem de bem para ser meu marido... um homem mais velho, ele enfatizou, não alguém da minha idade... Quer dizer... tudo foi decidido sem sequer ouvir a sua opinião... O que você quer que eu faça? Brigue com meu pai? Nós podemos fugir... ir para a Cornualha, nos casamos por lá e quando a gente voltar para Hogwarts, ninguém poderá dizer nada... – tocou os cabelos de Christine, enquanto imaginava no absurdo daquela situação. Sempre estiveram juntos, e ele não podia deixar que alguém se interpusesse entre os dois. Estreitou-a em seus braços, como para provar que a amava – e aquilo o assustou, porque só poderia chamar de amor o sentimento que havia entre ambos – e quando beijaram-se, sentiu que Christine fazia parte de sua vida . – Assim que o meu pai voltar da Cornualha, vou pedir a ele que interceda por nós.***
Um dos homens de maior confiança de Godric na Cornualha, Lord Tristan de Almock, era filho de um antigo colaborador do Duque August, e conhecia a verdadeira origem do duque atual, assim como tinha consciência da existência de comunidades de bruxos espalhadas pela região. Era um homem alto e forte, de cerca de trinta anos, e substituíra o antigo intendente do Duque quando aquele morrera subitamente. Conhecido na Cornualha por sua gentileza e tolerância, durante anos recebeu apoio tanto da Igreja quanto dos líderes bruxos para ser o legítimo representante de Godric na região. No entanto, uma facção dos bruxos considerava desonroso serem governados por um trouxa, e ameaçavam colocar no poder um deles se o duque não tomasse uma providência.
Chamado às pressas, Godric decidiu que seria mais seguro se viajasse para a Cornualha e verificar a situação pessoalmente. E depois de uma rápida conferência, percebeu que por mais que se esforçasse, Tristan não era totalmente imparcial. A influência que ele sofria do bispo era forte e provavelmente isso estivesse colocando a comunidade bruxa em desvantagem.
Mas eu não tenho a intenção de prejudicá-los, senhor...- o rapaz disse em própria defesa, após a constatação de Godric. Eu sei disso, Tristan, mas eu estou perdendo influência. O meu pessoal não está reconhecendo em você um verdadeiro representante... Talvez se o senhor enviasse seu filho mais velho...talvez poderia aliviar a situação... O Northan ainda não tem capacidade de conciliar esses conflitos. Ele pouco ligaria para esses conflitos, desde que pudesse caçar ou praticar seus jogos sem que alguém o importunasse.Tristan silenciou, pensando numa outra saída, quando ouviu passos leves no corredor, e uma das aias entrou trazendo pela mão uma garotinha de aproximadamente seis anos.
Vá Alice, pedir a benção do seu pai para dormir – disse a serva, enquanto a menina, timidamente aproximava-se de Tristan. Somente depois que a filha deixou o salão, o rapaz voltou-se para Godric. Ela está crescendo, e sente muito a falta da mãe. Eu estou pensando seriamente em me casar novamente – os olhos de Tristan então brilharam – a sua filha, senhor Godric, por acaso não está em idade de se casar? Seria uma forma de legitimar o meu poder... A Gwyneth acabou de completar treze anos, Tristan. Ela ainda não tem idade para se casar...se pudéssemos esperar mais dois ou três anos seria perfeito, mas na atual situação...- Godric se pôs a pensar – há a minha afilhada – disse por fim – Christine...ela está prestes a completar dezesseis anos, e é uma moça muito bonita. Eu posso conversar com o pai dela, e talvez uma aliança desse tipo, pelo seu casamento com uma moça do meu povo, possa apaziguar essa situação.***
Quando Godric chegou à Hogwarts, a notícia de que Tristan pedira Christine em casamento já correra por todo o castelo. Na verdade, ele achou por bem enviar uma coruja à Gawen, solicitando a permissão, que fora aceita no ato. Por alguns instantes, logo após ser comunicada sobre o noivado, e que Lord Tristan viria pessoalmente formalizar o pedido, Christine pensou que o pai estava enlouquecendo. Era uma idéia absurda, enviá-la para tão longe. Mas quando percebeu que era sério, entrou em pânico. Primeiro tentou dissuadir a mãe. Estavam as duas sozinhas no quarto da moça, e Helga escovava os cabelos da filha, enquanto Christine tentava convencê-la de que aquele casamento não deveria se realizar.
Me dê apenas um argumento, Christine e eu converso com seu pai... Eu não conheço Lord Tristan...não quero partir para a Cornualha...e ele é trouxa!Helga suspirou. No fundo, não queria que a filha partisse. Mas após longas conversas com Gawen, ambos chegaram à conclusão de que Tristan seria um bom marido.
Ele é o segundo homem mais poderoso da Cornualha, Christine...ele tem influência, e precisa de uma mulher inteligente ao lado dele...você pode levar parte do conhecimento de Hogwarts para lá, e ajudar a disseminar nossa cultura...você tem a visão...– disse Helga pacientemente – ele é um homem jovem, e perdeu a primeira esposa muito cedo...ele está solitário...eu tenho certeza que ele a amará... – completou, esperançosa. E o que eu sinto, não conta? Pouco me importa o poder dele...pouco me importa a Cornualha...vocês não me entendem...eu só queria o direito de escolher, como a senhora teve... Eu vivi uma realidade completamente diferente da sua, Christine...eu não tinha família e tive que trilhar sozinha o meu caminho...e quem você iria escolher? Você conhece tão poucas pessoas...A moça não respondeu. Preferiu ficar calada, enquanto a mãe terminava de escovar o seu cabelo. Mas sentia que suas chances diminuíam cada vez mais. E na manhã do dia em que Godric chegaria acompanhado de Lord Tristan, procurou Northan assim que possível. Este, desde que a notícia chegara, permanecia o mais afastado possível de Christine, e nas poucas vezes que ela tentou se aproximar, ele se mostrara arredio. Então a moça resolvera esperar ele sair do castelo, e o seguiu silenciosamente. Northan entrou no estábulo, e Christine o surpreendeu alimentando os cavalos.
Eu não entendo por que o futuro Duque da Cornualha presta-se a esse serviço, já que temos um cavalariço em Hogwarts – Christine o provocou – então é aqui que você tem se escondido? Não devo satisfações a você... – ele respondeu, de má vontade – o que eu faço não diz respeito a você e a mais ninguém, entendeu?! Você tem agido assim desde que aquela maldita carta chegou...e meu pai concordou com o casamento...Northan, me escute, a culpa não é minha... Então porque aceitou? Hein, vamos, me responda... – ele se aproximou, os olhos chispando de raiva – Porquê? Eu não posso contrariar o meu pai... Ah, mas ele pode fazer de você um brinquedo...ele e o meu pai estão te manipulando, você não percebe? Tudo por interesse... Tudo o que eu quero é que você entenda que eu vou me casar contra a minha vontade. Não...você vai se casar porque é mais cômodo, Christine – ele a segurou pelos braços – porque tem medo...- agora, ambos sentiam a proximidade de seus corpos, e o rapaz não hesitou em beijá-la mais uma vez. Ele tinha a mente entorpecida e não hesitou em debruçá-la sobre o feno. Mesmo que Christine o tentasse impedir, sabia que seria inútil controlá-lo. Deixou que Northan a acariciasse, e não protestou quando ele passou a mão por suas pernas e por debaixo do seu vestido. Queria que o mundo parasse ali e ela não fosse obrigada a se preocupar com mais nada. Mas um tropel inconfundível de cavalos soou ao longe, ao mesmo tempo que o sino do castelo tocou, anunciando a chegada de Godric. Ao mesmo tempo, ouviram a voz de Gawen muito mais próxima. E antes dele aparecer diante do estábulo, Northan e Christine tiveram tempo apenas de se levantarem e tentar limpar o feno de suas roupas. Então – disse, com o rosto lívido – o seu noivo está chegando, e eu a encontro aqui...junto aos cavalos...se comportando como uma rameira! – gritou ao mesmo tempo em que a agarrou pelo braço – o que você quer? Jogar o meu nome na lama? – e se virou para Northan – e você, seu fedelho? O que pensa que estava fazendo?! Quem lhe deu o direito para tocar na minha filha? O que você pensa o que é seu...seu... Ela não quer se casar com aquele trouxa nojento! – o rapaz gritou – ela me disse isso.Christine arregalou os olhos, e quando o pai a encarou ela tremia. Fez um sinal para que Northan se calasse, mas agora parecia impossível controlar o ódio que ele sentia. E pela primeira vez, ela sentiu realmente medo.
Não me interessa absolutamente o que ela disse ou deixou de dizer a você, Northan. O casamento já foi marcado, e nada justifica a cena que eu acabei de presenciar. Eu imaginava que você poderia ser diferente...mas eu vejo que há algo muito podre em você...não passa de um garotinho mimado e arrogante – e ao dizer isso, Gawen se afastou, levando Christine. Ele afrouxara a mão em torno do braço da filha, mas ainda assim a segurava. No fundo da sua mente, lembrava-se do dia em que descobrira toda a personalidade vil de Salazar e como se decepcionara. No fim, sabia que o filho dele não sairia diferente. E se sua filha não for mais uma donzela? – Gawen ouviu a voz desafiadora de Northan – vai entregá-la assim mesmo ao trouxa?Gawen encarou a ambos, e pela expressão de Christine ele percebera que o rapaz estava blefando. A moça sentiu os lábios tremerem, e sustentou o olhar interrogativo do pai.
- Não houve nada...- ela sussurrou, virou-se na direção de Northan, magoada – não precisamos de mentira...você não devia ter feito isso...- completou.
***
Naquela noite houve uma grande festa em Hogwarts, para comemorar o noivado de Christine com Lord Tristan. Ela usava o seu melhor vestido, e conversou educadamente com o seu noivo. Pelo menos ele era um homem educado, ela pensou, enquanto ele lhe falava sobre a filha, e a vida tranquila que ambos teriam na Cornualha. As lembranças daquela manhã estavam quase apagadas de sua mente. Procurou não pensar em Northan – que não comparecera à festa – e a dúvida que ele suscitara em Gawen. Ela estava magoada, mas se cansara de tentar fazer o rapaz entendê-la.
Notando a ausência de Northan, Rowena fez menção de procurar pelo filho, e convencê-lo a descer e participar da festa. O fato de que o rapaz tentara desonrar Christine naquela manhã não se espalhara pelo castelo e o próprio Lord Tristan o ignorava. Mas Gawen fizera questão de narrar, em detalhes a cena que ele vira, e a discussão com Northan para Rowena e Godric. E agora, ela relembrava a desagradável conversa que haviam tido.
" - Ele simplesmente considerava mais justo que ele e Christine se casassem, Gawen, e eu não discordo do meu filho...eles cresceram juntos, e têm afeição um pelo outro." – disse Rowena, ao fim da discussão
" – Seu filho não tem juízo, Rowena. Ele não passa de um moleque arrogante, que pensa estar acima de todos. E isso – ele a encarou friamente – é culpa sua, que o mimou mais que a qualquer outro de seus filhos..."
" – Eu não vou admitir que você me critique dessa forma – a voz de Rowena soou baixa, porém firme e inflexível – e também não vou admitir que você continue a acusá-lo. Eu duvido que ele tenha tentado forçar Christine a qualquer coisa."
" – O seu filho é capaz de qualquer coisa, Rowena...sendo ele filho de quem é, não duvido de nada..."
" – Agora já chega – Godric, que até então estivera calado, interviu – Eu não vou aceitar que você insinue isso novamente, Gawen. Pela nossa amizade, peça desculpas a Rowena."
" – Eu não preciso que ele me dê desculpas...eu estou apenas decepcionada – encarou Gawen – espero apenas que você se arrependa...e que esse Lord seja um bom marido para Christine."
" – Seu imaginasse que o meu filho tivesse tanta afeição por Christine a ponto de se casar com ela, eu jamais teria arranjado esse casamento, Gawen – concluiu Godric, aborrecido".
A raiva momentânea já passara, mas Rowena estava magoada com Gawen o suficiente, e evitou-o durante toda a festa. Porém, conforme a noite avançava, a preocupação dela com o filho aumentava e decidiu de uma vez procurá-lo. parei aqui
Subiu ao quarto que o rapaz dividia com irmão, e não o encontrou. Como se fosse guiada por uma estranha força, Rowena abriu os baús do filho, e prendeu a respiração ao ver que a maior parte dos pertences de Northan não estavam ali, inclusive a espada que fora de Godric, com a qual o rapaz fora presenteado em seu último ano. Deixou o quarto imediatamente e, ignorando a festa no salão, saiu do castelo, e correu para os estábulos. E quando viu que o cavalo do filho também não se encontrava, sentiu as pernas bambas, e chorou. Dor ou raiva, os sentimentos se confundiam, mas ela não fazia questão de tentar entendê-los. Sabia apenas que seu filho fora embora sem nem ao menos dizer adeus.
***
Christine entrou em seu quarto aborrecida com a repentina partida de Northan, embora aquele fosse o comportamento esperado do rapaz. Sentiu-se culpada, e pela primeira vez teve raiva de si mesma pela sua própria passividade. Mas ela mesma sabia que seria incapaz de ir contra qualquer ordem ou determinação de seu pai. Sentou-se sobre a cama, e viu, surpresa, sobre o seu travesseiro um pergaminho dobrado. Abriu-o, e reconheceu a caligrafia de Northan:
"Estou a sua espera na nossa colina.
Sempre teu,
N. A. Griffyndor "
Fazia frio naquela madrugada, mas Christine tremia de medo de ser surpreendida fora do seu quarto àquela hora. Desceu as escadas silenciosamente, e respirou um pouco mais aliviada quando sentiu o ar fresco da noite em seu rosto. Correu pelo jardim, e tomou o caminho para as colinas. Pouco tempo depois, conseguiu vislumbrar por entre as sombras a silhueta de Northan, iluminada apenas pela lua.
Que brincadeira é essa, Northan? – disse, a chegar mais perto – estão todos lhe procurando, sua mãe...ela está apavorada. Eu vou embora, Christine...e queria que você fosse a única a saber...isto é...a não ser que você queira vir comigo... Você está ficando louco...é óbvio que não vou fugir com você, Northan...para onde iríamos? Para onde você vai? Para a Corualha? Aquele é o último lugar que eu espero pisar, Christine...principalmente com você lá...casada com o Lord Tristan – a voz dele estava carregada de desprezo – você vem comigo ou não? Eu já disse que não...e você devia voltar para o castelo...sua mãe e seu pai estão preocupados... Danem-se os meus pais! – Northan gritou – eles tiveram participação em toda essa...essa armação do seu casamento... Você está sendo injusto...seu pai, tudo bem, ele teve a idéia...mas a sua mãe? Northan, a senhora Rowena está desesperada... Então volte logo para aquele maldito castelo e diga a ela que fui embora, e não sei se volto – foi a resposta do rapaz. Ele montou no cavalo, e encarou Christine – se você tivesse dito "não" ao seu pai, tudo isso teria sido diferente. – Ele esporou o animal, e saiu a galope, sem nem ao menos olhar para trás.Christine deixou-se ficar naquela colina até que Northan sumiu de sua vista. Um estranho arrepio percorreu seu corpo, e ela soube que aquele não seria o fim. Imagens confusas apareceram em sua mente, e mesmo depois dela ter voltado para Hogwarts, e se refugiado em sua cama, continuava a Ter visões – não somente o presente, como já se acostumara – mas algo que lhe parecia o futuro. E quando por fim viu sangue diante de si, gritou desesperada pela mãe, antes que tudo ficasse escuro e ela desmaiasse exausta.
