Capítulo 09 – Resgate

Os pés calçados em botas baixas andavam firmes pelas pedras que revestiam a praça em meio ao Largo Grimmauld. Por um momento, o homem se deixou ficar parado em meio às árvores secas, observando ao redor. Não importa quanto tempo passasse, aquele lugar sempre lhe pareceria o mesmo. Talvez, se tivesse visto em seus tempos áureos a casa que surgia a sua frente imponente, mesmo que decrépita, tivesse outra impressão. Mas para ele, em um, dois, dez anos, aquele largo continuaria sujo da mesma maneira.

Não que isso o impedisse de pisar nas pedras mais uma vez, se fosse preciso.

Nunca fora chamado ali, sempre vinha por sua própria vontade. Sua vida era assim, e se sentia bem com isso. Amava seus pais e irmãos, mas era a sua vontade que o guiava, em sua profissão, em suas escolhas, na guerra, em sua vontade de voltar.

Em estar ali quando todos diziam que não adiantava mais.

Voltou a andar, seguindo diretamente aos degraus que davam acesso à porta da frente, imponente e escura, com sua maçaneta em forma de serpente já avisando o que se encontraria em seu interior. Girou e nada.

Não esperava mesmo uma recepção calorosa, mas a quantidade de feitiços que sentia presente na porta o surpreendeu. Ela estava magicamente trancada, de dentro para fora, de uma forma quase que vedada.

Era como se, mais do que tentar impedir que alguém entrasse, algo lá dentro queria impedir alguém de sair.

O homem olhou para cima, examinando a fachada do palacete, e localizou o que queria: a janela da sala de estar. Estava fechada também, mas ele sabia que as fadas mordentes haviam prejudicado permanentemente a estrutura da casa ali. Conjurou sua vassoura com um feitiço silencioso e alçou vôo, planando em frente ao seu alvo.

Os vidros sujos estavam fechados e cortinas negras, pesadas, vedavam sua visão do interior da casa. Havia feitiços de proteção ali também, mas, como supôs, não eram tão efetivos quanto os da porta, e conseguiu removê-los o suficiente para poder forçar o trinco e abri-la em segurança.

Passou o corpo para o interior da casa com cuidado para não fazer barulho, se mantendo abaixado, afastando minimamente as cortinas para ter acesso ao ambiente. Parou para ouvir, atento, e deu um passo em direção à porta que levaria à escada.

Mas no instante em que as cortinas se fecharam às suas costas, ouviu um guincho e seu corpo foi atirado contra o chão, com força, unhas arranhando seu peito, rasgando sua roupa enquanto o peso de alguma coisa sobre seu corpo o mantinha preso. Gritou um feitiço e todas as janelas da casa se escancararam ao mesmo tempo, as cortinas pesadas se abrindo, as salas e corredores banhados repentinamente pela luz forte do sol. A criatura o deixou, choramingando de dor, indo se encolher entre a mesa e o armário no canto, perdido nas sombras.

- Harry? – perguntou, assustado.

Um ser, que lembrava um adolescente pequeno, estava encolhido contra a parede. Seu corpo agressivamente magro tremia de forma descontrolada, abraçado às pernas pressionadas contra o peito, a respiração saindo em um chiado, as roupas sujas e rasgadas, os cabelos longos caíam sobre seu rosto, bagunçados, deixando entrever em meio às mechas as duas contas verdes brilhantes.

Harry parecia somente um animal encurralado, não uma pessoa. O homem se agachou, olhando o menino nos olhos, e o ouviu soltar um grunhido e esconder o rosto, tremendo mais veementemente. Engoliu em seco, olhando à volta.

Fazia mais de uma semana que Harry Potter deixara Hogwarts, e o que fazer a respeito ainda estava em debate no Conselho que rege o colégio junto ao ministério. Pelo visto, Harry esteve trancado ali todo esse tempo, sozinho, com o incubus.

Sem se alimentar.

O homem avaliou a situação superficialmente. Com o garoto naquele estado, não conseguiria nada, precisava fazer alguma coisa, trazê-lo de volta ao domínio de seu corpo, pelo menos.

Devagar, voltou para perto da janela, deixou sua varinha e a capa arrumados no chão, sob o sol, ao alcance da mão, e voltou a olhar o menino que o encarava em silêncio. Em movimentos sutis, tocou a varinha uma última vez, sussurrando o feitiço que fechou as cortinas novamente, mergulhando o ambiente em escuridão.

E esperou. Os olhos verdes o encararam desconfiados, ofegando, antes de se lançar para cima do visitante com um grunhido.

O homem caiu deitado no chão, imobilizado pelo outro, seus corpos se atritavam com quase violência enquanto o demônio violentava sua boca em algo que supunha ser um beijo, mas que era quase uma tentativa de sugar sua alma pela boca. A mão deixava sua pele marcada, tamanha a ânsia com que o tocava, rasgando suas roupas em busca de mais contato.

Quando o toque frio do demônio conseguiu romper a barreira de sua calça, o homem tremeu violentamente, gemendo, sentindo o torpor se espalhar por seu corpo e a sensação de fraqueza aumentar na mesma proporção dos movimentos da mão de Harry.

A boca do demônio abandonou a sua, se dedicando a morder e chupar seu pescoço como se fosse capaz de devorá-lo vivo. Os olhos do estranho piscaram molemente e ele tentou afastar o rapaz, mas já não tinha forças. Tateou o pouco espaço que havia entre os dois corpos cegamente enquanto Harry tentava se livrar de sua calça, e encontrou sua varinha, sussurrando o feitiço.

A luz voltou a se espalhar livremente pelo ambiente e Harry deixou seu corpo de forma brusca, voltando para as sombras. O demônio gritou em protesto, em um impulso de seguir sua presa, mas o contato com a luz o fez recuar novamente, somente observando de longe o homem deitado no soalho empoeirado, tentando respirar.

Um ruído fraco, baixo, parecido com um rosnado entrecortado, soou do canto onde o garoto se encolhera, e o homem virou molemente a cabeça e para olhá-lo, piscando. Harry chorava.

- Estou bem, – disse, rouco, tentando controlar a respiração – só me dê um minuto.

Passou a mão no rosto e se arrastou até a capa, tirando de seu bolso uma garrafa com uma poção. Tomou metade de seu conteúdo e conseguiu se sentar, respirando fundo. Ainda esperou alguns segundos até sentir as batidas do coração voltarem ao ritmo normal e ter confiança nas próprias pernas para tentar se pôr de pé. Olhou para frente, observando o garoto que ainda chorava, quieto.

- Harry? Está melhor?

Ele não esperava exatamente uma resposta, talvez um aceno, um grunhido, uma ameaça. Mas não somente a continuidade daquele estado em que o garoto se encontrava: encolhido e tremendo nas sombras, o encarando entre o medo e a hostilidade.

Aquela pequena aventura que acabara de ter com o demônio não era, certamente, o suficiente para alimentá-lo, deixá-lo forte de novo, mas deveria ter sido o bastante para aplacar sua fome, e, portanto, sua fúria, deixando o garoto menos animalesco. Mas, aparentemente, não dera certo.

O homem se ergueu com cuidado, mantendo a varinha em punho, e se aproximou do garoto, que somente fechou os olhos e se encolheu mais, abraçando o próprio corpo, fosse em um gesto defensivo, fosse para se evitar de fazer algo.

E foi na ausência da fúria em verde que o homem percebeu: o demônio não estava mais no controle. Funcionara. Mas o próprio Harry sentia fome e medo e sua própria fúria com isso.

- Eu quero ajudar, Harry. – disse, baixinho, se abaixando a sua frente, tentando tocá-lo com algum receio, tendo como resposta o garoto se encolher mais e voltar a encará-lo com o brilho maníaco nos olhos.

Não, ainda não era seguro.

Um feitiço, mais forte do que o utilizado em humanos, e o garoto se entregou, caindo desmaiado em seus braços.

O homem o amparou, ainda receoso, mas quando não teve nenhuma reação do ser em seus braços, se sentiu mais confortável em passar o outro braço sob suas pernas e erguer-se, trazendo-o no colo. Ele era leve demais para um homem de dezessete anos, e alimentá-lo de alguma forma se tornava sua principal preocupação.

Andou pela casa escura, mas já sua conhecida, tentando lembra-se do melhor local para tratar de Harry. Chutou a porta do quarto que um dia ocupara por alguns dias e ficou satisfeito de não sentir nenhuma presença mágica no ambiente. Estava empoeirado, mas habitável.

Depositou o menino sobre a cama de solteiro e parou para pensar por alguns segundos, o encarando. Com um gesto amplo de varinha, limpou o ambiente, abrindo as janelas e deixando que ar puro e luz do sol entrassem abundantes.

O garoto gemeu em angustia e se encolheu em seu sono induzido na cama. Outro gesto de varinha e cortinas leves, mas de tons escuros, cobriam as janelas, deixando o quarto em uma penumbra confortável, aparentemente para ambos.

Receando deixar o quarto, o homem executou esperançosamente o feitiço convocatório, torcendo para que Kreacher não tivesse mexido nos estoques de poções mantidos pela Ordem durante seu período na casa. Snape podia ser intragável, mas estavam em guerra e tê-lo por perto tinha suas utilidades. E, depois que a verdade veio à tona, ele tinha certeza de que o ex-professor ficaria feliz de saber que pôde salvar a vida de Harry mais uma vez.

Os vidrinhos entraram flutuando pela porta e pararam à sua frente. O homem os examinou, escolhendo quatro, e derramou seu conteúdo pelos lábios do garoto, ajudando-o a engolir. Ele ainda precisava de uma refeição no melhor estilo Molly Weasley, mas aquilo deveria promover alguma melhora imediata.

A pele continuava pálida demais, as olheiras pesando em seu rosto, as faces fundas de tão magro. Preso na casa sem poder sair para caçar, aparentemente o demônio não hesitou em usar seu próprio hospedeiro para sobreviver. Por que ele ainda não havia abandonado Harry era uma questão que o homem não entendia. Será que o garoto era tão valioso assim?

Se sim, porque se arriscar em deixá-lo naquele estado de quase morte constante e cada vez pior?

Os dedos calejados tocaram a face castigada do garoto e se perderam em meio aos cabelos escuros. Harry era quase um irmão para ele, além de um homem e um bruxo admirável, ele não entendia como tantas pessoas que diziam se preocupar e cuidar tanto dele o haviam simplesmente abandonado daquela forma. Ele era quase uma criança.

Seus dedos se enroscaram nos fios negros embaraçados e ele notou o quanto estavam sujos. Com mais um feitiço, resolveu o problema, limpando minimamente o corpo de Harry e o livrando dos trapos que vestia.

O sol se punha e a escuridão já era quase total no quarto. O homem suspirou, sabendo que não se arriscaria a ficar na casa com o demônio durante a noite, período de sua maior força, mesmo que estivesse debilitado. Harry estava sedado, mas ainda havia um demônio ali.

Reforçando o feitiço que manteria o garoto inconsciente, o homem cobriu seu corpo nu com um lençol limpo e saiu do quarto, deixando a casa depois de renovar os feitiços para que tivesse certeza de que, quando voltasse, ele ainda estaria ali.

Não queria fazer de Harry um prisioneiro, mas aquilo ainda era necessário.

Por enquanto.

-:=:-

NA: Oi, pessoas.

Então, cara, a fic ta fluindo bem. Devagar, mas bem. Então eu resolvi tentar postar um capítulo por semana. Vamos ver se eu consigo.

Preciso de feedback de como está ficando isso aqui depois de tanto tempo parado. E aí, quem ainda está lendo?

Queria reforçar o dado de que Supernatural só vem na continuação. Isso aqui ainda e Harry Potter e só, povo. Não tenham medo.

Beijos ^^