Capítulo Nove


NAS CORDAS PARA SEU VIOLINO Jack gastou uma soma que há alguns anos não se permitiria gastar, mas ele saiu sorridente e assoviando da loja e parou na calçada para admirar o belo dia ensolarado, uma coisa rara na estação. Cumprimentou os transeuntes, particularmente conhecia cada pessoa naquela área da cidade, e quando fitou a botica do outro lado da rua, seus olhos se prenderam na dona de uma sombrinha de cor azul clara. Era uma moça de cabelos negros e pele alvíssima, que brincava girando a sombrinha diante da vitrine. Subitamente, a moça se virou para ele e o cumprimentou, Jack polidamente respondeu ao cumprimento, mas pegou-se tentando encontrar em sua mente quem era a beldade. Distraído, nem percebeu que ela entrara na botica e ele permaneceu a procura dela por alguns instantes antes de atravessar a rua e descobrir que ela estava falando com Stanford, o boticário, e os dois admiravam um grande telescópio sendo desmontado e empacotado. A curiosidade de Jack focou-se no objeto e ele adentrou a botica com os olhos fixos na enorme lente do telescópio, que agora estava nas mãos da moça. Quando o boticário o viu, logo correu a lhe apertar a mão e o chamou para admirar a bela peça que havia comprado de um português.

— Jack, não é mesmo uma beleza? - disse Stanford, eram conhecidos e cultuavam a mesma atividade de recreio, nas poucas horas de lazer que tinham: a astronomia. - Esta lente, esta lente que vê na mão da senhorita foi lapidada por ela mesma!

Jack fitou a moça e estagnou no momento, certamente era uma moça muito bela, mas era muito nova para poder entender da arte da lapidação.

— A senhorita conseguiu essa lente com lady Keller?

— Oh, não, Jack, que bobagem? A própria Gigi aqui foi quem a lapidou. Não é uma beleza? - repetiu e colocou o grande pedaço de vidro nas mãos de Jack, que não conseguiu desviar os olhos da moça. - Foi lady Keller quem a apresentou a mim, mas foi esta menina quem fez esta obra prima que estarei inaugurando o mais tardar amanhã à noite, nem que eu precise acoitar alguns...

— O senhor não faria isso, faria? - a moça pediu polidamente, mas com os olhos mostrando indignação.

— Não, não, minha menina. É só uma forma de expressão, não se preocupe. Espero que este aqui - e ele deu uns tapinhas no caixote onde o telescópio estava sendo armazenado - seja tão bom quanto o que você fez para seu pai, Gigi. Não espero menos.

— E nem deveria - ela respondeu sorrindo.

— Quando você tiver mais tempo, Jack, vou convidá-lo, e a Gigi também, para que venham a minha casa discutir sobre o assunto. - Stanford parecia atordoado e fora da realidade, virou-se de costas, guardou a lente, envolta em veludo, numa caixinha e voltou a ficar diante deles, ao balcão.

— Bem, senhores, peço licença. Boa tarde.

A moça deixou a botica e tomou o caminho da igreja.

— Não é uma beldade? E que inteligência, Jack, que inteligência. Aquela menina conhece cada canto do céu. É como se ela fosse uma máquina, não, não, é como se fosse um gênio. Você se admiraria em ouvi-la falar, ah, tenho certeza disso!

Jack não disse nada, apenas fitou o negro de Stanford lacrar o caixote, depois se despediu e voltou à rua, a caminho de casa. Iria se despedir de Sophia passando a última noite em casa. Algo, contudo, o levou a cruzar pela rua da igreja, e ao passar diante dela viu o pároco no terraço acenando para ele. O pároco também era um amante da astronomia, apesar de manter isso por baixo dos panos por achar que a maioria de seus paroquianos não entenderia e acreditariam ser um pecado mortal. Jack subiu pela escada caracol, logo atrás do confessionário, e descobriu que o pároco não estava sozinho.

— Jack, meu caro, Jack, já viu coisa mais bonita do que esta? - o religioso apontou para a moça, mas na verdade falava do grande telescópio ao lado dela.

— Olá novamente, senhor - cumprimentou ela sorrindo e deu espaço para Jack, que se aproximou fitando-a e ao aparelho com grande curiosidade.

— Veja, veja! O cais, que beleza, que beleza! - o pároco disse entusiasmado. - Não é uma pérola, essa menina? Que dom Deus deu a ela! - mas então, uma voz chamou pelo pároco e ele teve que descer ao confessionário.

— Poderia jurar que está me seguindo, senhor.

Jack tirou o olho do telescópio e a fitou sorrindo, depois tornou a mergulhar no aparelho, por onde via o cais com tamanha nitidez que era assustadoramente lindo.

— Foi a senhora quem... lapidou a lente?

— Fui eu sim - ela disse sem modéstia. - Mire o horizonte, senhor. A bela fragata de três cores chegando a es-noroeste. - Jack empertigou-se, fitando-a espantado, mas a insistência dela o fez tornar a observar pelo telescópio, e o que viu quando ela ajeitou a lente foi uma fragata completamente límpida. Era mesmo uma fragata de três cores, era a Relic tornando para o porto para reabastecer e sair em comboio. - Ela vem com a mezena largada. Deve estar muita vontade de tornar a casa.

Jack se ergueu e fitou a moça com curiosidade.

— Ela saiu em sabatina - disse Jack, compenetrado nos olhos da moça. - Colocaram um novo mastro de mezena nela.

— Oh - a moça exclamou. - Perdoe-me.

— Não se preocupe com isso. Muito boa a lente. Um belo trabalho. Também tenho um telescópio, mas minha lente é de nove milímetros, nada comparada a essa. Tenho certeza de que a senhorita fechou um pouco a porta do céu para o padre.

A moça soltou uma divertida gargalhada e voltou os olhos para o horizonte. O silêncio constrangeu Jack, mas a moça não parecia nada intimidada.

— O céu é o que todos nós procuramos, não é mesmo, senhor? - perguntou sorrindo.

O pároco apareceu no terraço e parou ao lado de Jack com os braços nas costas.

— Preciso ir, padre. Tenho que preparar meu malão para amanhã.

— Vá, minha menina, e que Deus esteja com você. E quando voltar trate de passar aqui para conversarmos.

— Com toda certeza - ela respondeu sorrindo. - Boa tarde, senhor - murmurou para Jack e então saiu pela portinhola.

— Uma bela criatura desafortunada - disse o padre com pesar. - Sinto tanto pelos homens não darem grande valor a mulheres como esta que acaba de nos deixar. São seres inteligentes e abençoados, mas mal compreendidos que acabam encarcerados e minguados por homens de mente pequena, cujo ciúme e aparências movem a vida.

Jack fitou o pároco e depois voltou seu olhar para a imensidão azul.

— É por isso que eu amo o mar - foi o que Jack contrapôs, não tinha a intenção de começar uma discussão com o padre, mas queria permanecer algum tempo ainda com os olhos na Relic.

Os sinos em terra tocavam quase em uníssono com os da esquadra, avisando a algum viajante distraído que o comboio partiria em menos de uma hora. Jack esperava impacientemente pelos serviçais do almirante Hathaway que já haviam embarcado os pertences da filha e agora a traziam num pequeno bote para bordo da Surprise. Sua impaciência se dava porque Jake Jankins acompanharia o comboio até Madeira e ele estava ali em seu convés, ao lado de lorde Kipling, observando o zênite e filosofando sobre o tempo.

— A Srta. Georgine Hathaway - anunciou o mestre-arrais com certa pressa, ao fitar a impaciência ainda visível em seu comandante. Jack caminhou para a proa, retirou o chapéu e estendeu a mão para a moça que subira, ainda usando um grande chapéu de palha que a protegia do sol forte daquela manhã.

Ela retirou o chapéu, fitando o chão, porque o navio balançava com as poucas ondas, e quando elevou os olhos para encontrar os do comandante, se surpreendeu, o pretendente perfeito que achara ter encontrado já possuía sua cara metade.

— Comandante Aubrey - sorriu recatada e estendeu a mão.

Jack estava tão surpreso quanto ela, jamais imaginara que a moça que conhecera em terra pudesse ser ainda mais influente do que era.

— Senhorita Hathaway - ele estendeu a mão, mostrando a ela a entrada dos camarotes, a fim de livrá-la do sol escaldante, mas foi impedido por lorde Kipling.

— Então finalmente posso conhecer você, Srta. Hathaway - o importante homem se pôs ao lado de Jack, estendendo a mão para tomar a dela e beijá-la educadamente. - Lorde Kipling, ao seu dispor.

— É um prazer, senhor - ela respondeu.

— Este é o almirante Jankins, a nau dele os escoltará até Madeira - continuou o lorde.

A moça observou o jovem almirante de cima a baixo, cumprimentou-o e depois tornou a olhar para o comandante.

— Se o senhor não se importa, poderia pedir a um de seus homens que mostrasse meu alojamento?

— Com prazer, senhorita.

— Poderia, por gentileza, avisar ao Dr. Maturin que cheguei? - ela pediu sorridente.

— Sim, senhorita, pedirei a ele que suba para recebê-la.

Os olhos de Jankins seguiram a moça até perderam-na de vista porta de camarote adentro e encontraram repreensão e descontentamento ao pousarem nos olhos do comandante da Surprise. Jankins desviou o olhar, despediu-se de Kipling e em seguida dos surprises e rumou para bordo de sua nau. Desde o desentendimento no almirantado, e para não prejudicar o amigo, Jake concordava em jantar e se encontrar com Aubrey, mas não fazia questão, já não o via com admiração e nem mesmo com bons olhos, já não reconhecia a imagem de herói que sempre lhe pintara.

A filha do almirante era uma jovem alegre e divertida, que contagiava a todos com sua disposição. Ela também sabia cantar e dançar, o que agradava os marujos, mas desagradava o comandante, que não acreditava ser apropriado a uma mulher como ela se misturar com meros marujos. Mas tinha que admitir sua fanfarronice, as piadas dela certamente eram as melhores que já ouvira e dificilmente algum permanecia de mau humor ao lado dela, o que lhe era muito útil. A viagem até Madeira foi imprevisível e divertida, foi um tempo de calmaria e felicidade, e Jack nem mesmo se perturbou em ter que ir a bordo da Relic para jantar com seu anfitrião.

A jovem fez amizades como se fosse o próprio diabo, mas não havia maldade alguma na moça e estar do mesmo lado que os marujos não causaram citações de que mulheres abordo traziam má sorte. Estar ao lado deles lhe rendeu admiradores, especialmente numa tarde quente de domingo, quatro dias depois de zarparem de Madeira, quando uma calmaria os encontrou e o calor assolou, fazendo com que até os mais medrosos caíssem n'água. Uma grande vela foi estendida na água, suportada por barris vazios, improvisando uma piscina àqueles que não sabiam nadar.

— Não sabem nadar? - a expressão de Georgine mudou repentinamente. - Como assim, Stephen? Eles são homens do mar, pelo amor de Deus!

— Não se altere, minha cara. Mas é a pura verdade. A maioria dos marujos jamais sobreviveria se caísse no mar.

— Eu não posso acreditar nisso. Você deve estar enganado, Stephen. Talvez somente os surprises é que não saibam nadar.

Jack parou ao lado de Georgine, empunhou a luneta e fitou o horizonte.

— Comandante, por favor, explique-me, porque eu não posso compreender o que Stephen tenta enfiar em minha cabeça.

Jack sorriu de cima de seus um metro e noventa de altura e fitou a moça indignada.

— Ele me disse que a maioria de seus marujos não sabe nadar. Diga a ele que está errado!

— Minha querida Srta. Hathaway, temo ter de desapontá-la. Stephen tem toda razão.

Ela arregalou os olhos, colocou as mãos na cintura e depois bufou, indo espiar os homens que se divertiam na improvisada piscina. Jack passou por ela sorrindo e desceu para o camarote, iria beliscar algo e depois descansar. Stephen sentou-se na popa, num lugar apropriado para suas observações e seus escritos, enquanto a jovem, ainda indignada, sentou-se recostada na amura, debaixo de um largo cordame, onde o sol não a atingia. De repente, um grito e um baque seco ecoaram ao redor da Surprise, Stephen ergueu os olhos e viu um alvoroço na proa, onde Georgine clamava por alguém que acudisse, por algum dos marujos para que pulasse n'água e salvasse o pobre homem que afundava e tornava a aparecer sucessivamente. Dando-se conta de que ninguém entraria no mar, nem mesmo os que já estavam lá embaixo sobre a grande vela - o máximo que faziam era jogar bóias salva-vidas -, Georgine despiu o vestido e atirou-se de cabeça na água à ré do navio, aonde o homem submergira de vez. Stephen correu, berrando juntamente com o mestre:

— Homem ao mar! Homem ao mar!

— Dois? - exclamou Jack, que vinha correndo de camisão aberto, descalço e esfregando os olhos. Quando descobriu que se tratava de Georgine Hathaway quase teve um enfarte, estava preparado para pular na água também, mas a moça já trazia, debaixo do braço, um homem desacordado. Ela se recusou a ser içada antes dele e quando já no convés, ela sentou-se ao lado de Stephen, que fazia massagem abdominal na tentativa de fazer o homem respirar, sem sequer se importar se estava molhada e inapropriadamente vestida.

Assim que o homem se moveu, respirando e tossindo ao mesmo tempo, Jack jogou um cobertor sobre os ombros de Georgine e a puxou para o camarote, pronto para lhe dar um sermão. Era inadmissível tamanha ousadia, tamanha burrice, tamanha insensatez, ou fosse qualquer outro substantivo que lhe viesse à cabeça.

— Comandante, o senhor pode providenciar para que aquele homem seja bem agasalhado? A água estava quente na superfície, mas...

— Não se preocupe - ele respondeu sorrindo e sentando diante dela -, Stephen cuidará disso. Quero que me prometa, senhorita, que jamais fará isso novamente. Jamais! Seu pai me mataria se algo lhe acontecesse.

Georgine desviou os olhos para o chão.

— O senhor também não gosta de mim, não é?

— Isso não vem ao caso, senhorita. Seu pai nem faz idéia de que esteja a caminho de resgatá-lo. O que ele faria comigo se eu a perdesse?

Ela não respondeu, levantou da cama, devolveu-lhe o cobertor e saiu.

— Senhorita - Jack a chamou antes que ela deixasse o camarote -, prezo muito sua companhia, mas temo pelo que pode lhe acontecer. Jantarei mais tarde esta noite, o vento leste vai chegar e quero dar as ordens antes de ir descansar... A senhorita aceita jantar comigo? Seremos somente nós dois. Talvez eu possa lhe esclarecer que não há nada que eu não goste em você.

Jack sabia que arrancaria dela um sorriso e não se enganou. Naquela noite jantaram juntos e foi uma noite agradabilíssima.