Chapter IX – Conversas

Harry abriu os olhos lentamente, ouvia a chuva a cair de forma violenta. Puxou os cobertores quase até ao topo da cabeça. Doía-lhe o corpo todo, mas não ao ponto de o impedir de se sentir confortável.

Memórias conturbadas começaram a inundá-lo. O véu, a luz azul, vozes, o vazio… Não sabia se aquilo pertencia a um qualquer sonho, se não.

Ouvia vozes alegres vindas de algures no andar de baixo, mas não se queria levantar, no entanto, como quase sempre, a sua curiosidade vencera.

Levantou-se, vestiu-se preguiçosamente e depois dirigiu-se à cozinha.

Hermione foi a primeira a notar a sua presença.

-Harry!- Exultou sorridente, levantando-se para lhe dar um grande abraço.

-Hey Hermione, com mais calma sim!- Pediu Harry divertido, mas sentindo os músculos doridos ressentirem-se do cumprimento entusiástico da amiga.

Hermione largou-o, sempre a sorrir, com os olhos a denotarem emoção.

Foi a vez de Ron o saudar, com umas palmadinhas nas costas.

-Estávamos a ver que nunca mais acabavas o teu sono de beleza!- Disse o amigo.

Harry sorriu-lhe e olhou para os restantes presentes.

Viu Lupin, que lhe sorriu e lhe acenou com a cabeça como que orgulhoso e ao lado deste um rapaz que Harry não conhecia, mas que lhe sorria felicíssimo. Este último levantou-se, dirigiu-se a ele, observou-o por alguns momentos, para de seguida o abraçar sentidamente.

-Harry!- Disse simplesmente –Acho que é a ti que tenho que agradecer, não é rapaz?- Continuou divertido.

Harry teve então a certeza, mas de algum modo parecia-lhe impossível. Porém as palavras saíram-lhe antes de ter tempo para pensar.

-Sirius?!-

O rapaz largou-o e olhou para ele, continuando a sorrir da maneira tão característica do seu padrinho.

-Aquilo é que foi um feitiço hã! O James, onde quer que ele esteja, deve estar muito orgulhoso!-

Harry explodiu de alegria. Realmente conseguira! Trouxera Sirius de volta.

-Mas… Mas como? Quer dizer… tu estás assim!- Comentou, radiando felicidade, sentindo-se como há muito não se sentia.

-Bem, isso acho que são eles os dois que têm que explicar!- Disse Sirius, apontando para Lupin e Hermione, sentando-se em seguida.

Harry seguiu-lhe o exemplo.

-Nós apenas tínhamos teorias, mas que se confirmaram quando o Sirius apareceu assim.- Comentou Hermione.

-Como a Hermione vos deve ter explicado, quando uma pessoa atravessa o véu entra em regressão, e pelo aspecto do Sirius, essa regressão refere-se ao aspecto físico, mas convenhamos que mentalmente, também não havia muito para regredir.- Continuou Lupin.

-Moony, estou a ver que andaste a melhorar o teu sentido de humor! Fantástico, quase consegues ter graça!- Comentou Sirius divertido.

Lupin sorriu. Também a sua felicidade por voltar a ter de novo um dos seus melhores amigos era bastante notável.

-É por isso que o Sirius apareceu assim!- Concluiu Hermione.

Sirius levantou-se e deu uma volta floreada.

-Assim, simplesmente perfeito! Ah, como é bom voltar à minha verdadeira essência!- Disse, sentando-se de novo em seguida.

Todos riram, menos Harry. Ficou a observar Sirius. Finalmente percebera o porquê de, por vezes, Thomas Lestrange lhe parecer familiar. As parecenças entre ambos começaram a desenrolar-se em frente dele e pela primeira vez, apercebera-se verdadeiramente, do facto de Sirius e Lestrange pertencerem à mesma família. Não que isso mudasse alguma coisa para ele, portanto decidiu esquecer.

-Onde estão os teu pais e assim?- Perguntou Harry, dirigindo-se a Ron.

-Foram à Diagonal. Provavelmente comprar os presentes de Natal, mas eles disseram que iam estar aqui antes dos pais da Hermione chegarem.-

-Mas não ias só na véspera de Natal?- Perguntou Harry a Hermione, confuso.

-Hoje é véspera de Natal Harry! Tu dormiste dois dias seguidos.-

Harry ficou a olhar para ela surpreso.

-Harry, hoje não, ainda deves estar cansado, mas amanhã ou assim quero que me contes tudo o que se tem passado na minha ausência, ouviste!- Disse Sirius.

Harry assentiu sorridente.

-Eu acho que vou preparar as coisas que são para levar para casa.-

-Eu vou ajudar-te.- Disse Ron rapidamente.

-Hum… Ok…-

Hermione começou a colocar alguma roupa na mala, mas momentos depois parou. Ron estava encostado à porta do quarto, a observá-la, com uma expressão estranha.

-Muito bem Ron, o que é que se passa?- Perguntou.

Ron desviou o olhar e manteve-se em silêncio.

Hermione colocou as mãos na cintura, impaciente e ficou à espera.

Por fim, Ron resolveu-se a dizer alguma coisa.

-Bem Hermione… Eu… Quer dizer… Nós…-

Respirou fundo e voltou a ficar em silêncio.

-Ok, isto está a ficar estranho Ron! Fala de uma vez!- Disse Hermione.

Ron encarou-a. Desta vez fora Hermione a desviar discretamente o olhar. Ele nunca a olhara daquela maneira, e ela não estava propriamente a sentir-se confortável.

Era uma expressão demasiado insegura, demasiado meiga, demasiado…

'Apaixonada?!'

Hermione quase se riu quando este pensamento a assomou, mas a voz de Ron fez com que se contivesse.

-Hermione, há já algum tempo que eu acho que devíamos ter tido esta conversa! A verdade é que eu… enfim… por ti…-

Hermione já não ouvia o que Ron dizia. Não estava a gostar do rumo daquela conversa, porque, tinha quase a certeza de como ela ia acabar. Só sabia que tinha de parar aquilo, por Ron, por ela e principalmente, pela amizade de ambos. Sabia que naquele momento não podia dar a Ron as respostas que ele queria ouvir, portanto não tinha lógica aquilo prolongar-se.

-Ron!- Exclamou Hermione precipitadamente.

O rapaz calou-se e olhou para ela confuso.

Hermione sorriu e continuou.

-Vamos ter com eles lá a baixo! Os teus pais já devem estar quase a chegar, não?-

-Sim, talvez, mas Hermione…- Disse Ron meio desorientado.

-Ouve, vamos ter com eles.- Disse Hermione, sem deixar de sorrir, mas num tom decidido.

Ron hesitou por alguns momentos, mas acabou por dar meia volta e sair, sem mais uma única palavra.

Hermione sentou-se na cama e suspirou.

Sentia-se aliviada, mas ao mesmo tempo confusa e mal consigo mesma.

Aquilo não fora nenhuma surpresa para ela. Inclusive, uns tempos atrás, ela até chegou a imaginar aquele momento com Ron, nessa altura ela talvez até correspondesse. No entanto, momentos atrás, quando o vira prestes a declarar-se, apercebeu-se que não queria que Ron o fizesse de maneira alguma.

Apenas um amigo, era o que ele agora representava para ela. Não sabia quando é que os seus sentimentos por ele mudaram, quando é que Ron deixara de ser aquele de quem ela queria sentir um toque mais especial, por quem ela queria ser abraçada, quando é que ele deixara de ser aquele que fazia o seu coração bater mais rapidamente aquando de um olhar mais doce do mesmo.

O facto é que não se apercebera dessa mudança, mas agora, notava-a de uma forma substancial. Não sabia sequer o que provocara todas estas modificações.

Ron não merecia o que ela lhe fizera, só merecia que ela ouvisse tudo o que ele tinha para lhe dizer, e por fim, correspondesse. Mas não conseguia, não conseguia sequer sentir-se atraída, não conseguia! Algo a impedia, ela não sabia dizer o quê, mas algo a impedia!

Um pouco frustrada, levantou-se e dirigiu-se para a cozinha.

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A noite de Natal chegou e por alguns momentos, na Toca, todos se deram ao luxo de esquecerem os tempos conturbados pelo qual passavam. Por momentos esqueceu-se que Voldemort estava cada vez mais forte, esqueceu-se profecias, esqueceu-se os acontecimentos terríveis que sucediam quase todos os dias.

Harry estava cheio, o jantar tinha sido maravilhoso.

Olhou à sua volta. Lupin, Sirius, Mr Weasley, Bill e Charlie conversavam perto da lareira, Mrs Weasley e Fleur discutiam algo, alegremente, sentadas na mesa, Ron, que desde que Hermione se fora embora, tinha andado um pouco distante, jogava agora, divertido, xadrez com Fred, enquanto George e Ginny assistiam.

Harry sentia-se extremamente bem, estava rodeado de quase todos aqueles que sempre haviam sido a sua verdadeira família. Queria que aquele momento durasse mais que aquela simples noite, mas sabia que isso era impossível, então tentou a todo o custo gravar aquela cena na sua memória, os rostos, os gestos, os sorrisos. Indagou se alguma vez viveria outro Natal assim, daquela forma, ou mesmo se chegaria sequer a viver outro Natal.

Levantou-se e, o mais discretamente possível saiu.

A brisa nocturna de Inverno envolveu-o de imediato. Apertou o seu casaco contra si e sentou-se nos degraus da entrada.

O céu estava límpido, uma infinidade de veludo negro repleto de diamantes.

A lua brilhava em todo o seu esplendor, o que quase instantaneamente lhe lembrou Liah. A forma como os cabelos ondulantes da rapariga brilhavam quando banhados pelo luar, a forma como o olhar da mesma resplandecia intensamente, deslumbrante…

Alguém lhe tocou no ombro e Harry não conteve o susto.

-Calma, sou eu!- Disse Sirius sorrindo-lhe.

Sentou-se ao lado dele e ofereceu-lhe uma caneca fumegante de chocolate quente, a qual Harry aceitou agradecido, pois já se sentia a gelar.

Mantiveram-se em silêncio durante alguns momentos, mas Sirius resolveu quebrá-lo.

-O Dumbledore já me contou tudo sobre a profecia, Harry!-

-Ah sim…- Murmurou Harry. O que menos precisava naquele momento era que lhe recordassem a maldita profecia.

-E eu quero que estejas ciente que não és obrigado a rigorosamente nada!-

-Quando é que o Dumbledore te contou?- Perguntou Harry, desejoso por mudar de assunto.

-Hum… ele veio cá, no dia a seguir ao que tu me tiraste lá do véu. Tu estavas a dormir.- Respondeu o padrinho.

Harry acenou levemente com a cabeça e continuou a beber o seu chocolate silenciosamente.

Sirius olhou para ele e começou a sorrir misteriosamente.

-O que foi?- Perguntou Harry curioso.

-Algo me diz que não era propriamente a minha companhia que tu querias, para estar aqui contigo.-

-O quê? O que é que queres dizer com isso?- Perguntou Harry.

-É que quando o chato do teu pai se punha a pensar na Lily, ele ficava exactamente assim, como tu! Afinal quem é que é a sortuda?-

Harry sentiu as suas faces, antes geladas, começarem a aquecer rapidamente.

-Não sei do que é que estás a falar!- Disse, apressadamente.

-Oh, vá lá Harry, sou teu padrinho, podes contar-me.- Disse Sirius, que parecia deliciado com o embaraço do sobrinho.

Harry ponderou durante algum tempo. Havia muito que desejava poder falar com alguém sobre Liah, sobre como ele se sentia confuso, sobre o efeito que ela tinha sobre ele. Alguém que não o recriminasse, que não lhe dissesse que estava maluco por gostar de uma Slytherin.

-Bem… há uma rapariga e… Sirius ela é inacreditável, ela é linda… e eu realmente não sei o que se passa comigo, só sei que quando a vejo tudo o resto deixa de fazer sentido, quando a vejo quase deixo de ter controlo sobre mim, sinto frio, calor, sinto tanta coisa ao mesmo tempo e isto anda a dar comigo em doido!-

-Bem e então, qual é o problema, porque é que ainda não estás com ela?- Perguntou Sirius.

-O problema é que ela é uma Slytherin, é esse o problema!-

-Oh, estou a ver… Mas isso é um problema assim tão grande?-

-Não, não é grande, é enorme! Um Gryffindor e uma Slytherin, pois sim… O Ron e a Hermione nunca mais iam querer olhar para mim!-

-Ela alguma vez vos deu razões para não gostarem dela?- Perguntou Sirius.

-Tirando o facto de ter sido seleccionada para os Slytherin, não nenhuma.- Respondeu Harry.

-Harry, se tu realmente gostas dela, o que é que isso interessa? Assim que voltares para Hogwarts, vai falar com ela e diz-lhe tudo! O Ron e a Hermione são teus amigos, talvez no início não aceitem muito bem, mas isso passa-lhes rápido. Eu próprio no meu tempo, andei com algumas Slytherins, bem mázinhas ás vezes, mas tão… pois, mas, bem, o que eu quero dizer é, eu também era um Gryffindor, e ninguém me crucificou por andar com elas!-

Harry sorriu-lhe e pensou seriamente que talvez Sirius tivesse razão, que talvez ele estivesse a ser um idiota! Afinal seria assim algo tão grave um Gryffindor e uma Slytherin?

-Mas agora vamos para dentro, que já se está a formar gelo nos meus pés!- Disse Sirius.

Continua...