9 – O futuro é duvidoso

Donna caminhou tão apressadamente em direção a seu quarto, que Rachel e Mike se entreolharam e sabiam que algo não estava certo. Eles não podiam ter brigado. Eles estavam se falando. A expressão nos dois rostos não era de ira ou desapontamento. Ambos estavam em pânico. O que o casal na sala não sabia, era o motivo.

Rachel sabia que agora não era uma boa hora para conversar com Donna. Se ela quisesse, teria sido objetiva e pedido para Mike lhe dar um tempo à sós com Rachel e não foi isso que aconteceu. Donna precisava pensar e ela respeitaria isso. Quando ela estivesse pronta.

- Eu meio que posso estar envolvido com o que seja que está acontecendo entre eles. – Mike admitiu, cabisbaixo.

- Mike... o que você fez? – Rachel tirou os olhos da televisão e se virou na direção de Mike, furiosa.

- Durante a semana, Harvey estava meio... distante. Várias vezes eu passei pelo escritório dele e ele estava olhando para o nada, pensando. – Mike passou a mão pelo cabelo. – Gretchen ligou para ele na quarta 3 vezes e ele não atendeu. E ele estava ao lado do telefone, baby.

- Isso realmente é estranho. – Rachel admitiu, relaxando um pouco mais. – Mas o que você tem a ver com isso?

- Então, depois que ele não atendeu, eu fui até a sala dele. Disse para ele dizer à Donna como ele estava se sentindo. – Rachel abriu a boca, incrédula. Ao ver sua reação, Mike apressou-se em explicar. – Você também sabe que eles estão sentindo alguma coisa, nem vem.

- Eu sei. Só estou chocada que você foi até ele falar isso.

- Eu fui. Você não iria. Donna muito menos. Ela é cabeça dura igual ele. Alguém tinha que dizer alguma coisa.

- Ela também gosta dele. O que me faz crer que essa reação de agora, - Rachel apontou para o corredor, na direção do quarto de Donna. – foi algo bom. Eles devem estar em conflito com eles mesmos, até admitirem.

- Espero que dê tudo certo. Harvey merece alguém que o coloque nos trilhos. – Mike era o melhor amigo de Harvey. Apesar de ser uns anos mais novo, muitas vezes agia com mais maturidade entre os dois. Ele havia encontrado Rachel e provado que o amor verdadeiro existia. Poderia soar piegas, mas Mike gostaria de ver o amigo sentindo o mesmo.

- Donna também. Você se lembra do quanto ela sofreu com Mark, né? E eu só quero vê-la feliz. – Rachel suspirou, aumentando o volume da televisão novamente.

Donna chorou depois que Harvey foi embora.

Ela sabia o que estava acontecendo.

Ela queria mais.

Ela o queria.

Mais do que um amigo de pesquisa.

Donna estava se apaixonando.

E ela não poderia evitar isso ou esconder interpretando um personagem. Era real. E era assustador.

Harvey não a beijou por causa da maldita regra.

Ela sabia disso também. Ela mesma havia se lembrado disso durante os segundos em que o rosto dele se aproximava do dela. Talvez ele queria beijá-la. Só, talvez...

Suas lágrimas cessaram rapidamente. Donna não deixaria que esse pequeno incidente arruinasse tudo. Eles estavam nessa há apenas 5 semanas. Ainda tinha mais 21 pela frente. Muita coisa poderia acontecer. Os sentimentos poderiam desaparecer. Seria fácil lidar com essa. Ela conseguiria.

Harvey saiu do apartamento sem entender tudo o que havia acontecido naquele dia a partir do jantar. O passeio no mirante o surpreendeu, isso era óbvio. Uma coisa tão simples que teve o poder de preencher seu coração e memória como em um passe de mágica. O sorriso de Donna e a felicidade dela por saber que eles estavam tendo um bom momento quase foram apagados pelas lágrimas que ela derramou no restaurante.

Ela era maluca. E ele amava isso.

Talvez ele a amasse.

Desde o momento em que a conheceu, teve certeza que jamais teria forças para lhe negar algo. O pedido de casamento falso aconteceu por fraqueza da parte dele. O beijo que não aconteceu também deixou de existir por fraqueza da parte dele. Donna estabeleceu limites e ele não queria ser o primeiro a rompe-los.

- Tudo bem, senhor? – Assim que Harvey entrou no carro, Ray deu a partida no carro e ao olhar no retrovisor, se deparou com um par de olhos assustados.

- Tudo certo, Ray. Me leve para casa, por favor.

Com o pequeno papel ainda sem sua mão, Harvey não sabia se conseguiria abri-lo. Donna ainda estava perto demais, ele ainda podia senti-la tão perto. Seu cabelo, seu cheiro, seus olhos, seu sorriso. Sem perceber, ele balançou fracamente a cabeça de um lado para o outro, na esperança de limpar seus pensamentos com relação a Donna. Ele seria capaz de continuar com isso? Seria capaz de manter suas mãos para si quando estivesse perto dela novamente? Donna teria retribuído o beijo se ele tivesse dado o primeiro passo?

Limites, Harvey.

Se era uma boa ideia continuar com isso ou não, ele não se importava. Assim que Ray virou a esquina, afastando-se do edifício de Donna, Harvey tomou folego e abriu o papelzinho dobrado. Conforme sua consciência vasculhava seu cérebro em busca de opções para aquela letra, ele sorriu. Em 7 dias, ele veria Donna de novo.

A próxima letra precisava ajudar a recuperar o clima de descontração entre os dois. Pelo último contato que eles fizeram no sábado à noite, ele esperava que não fosse tão difícil. A reação de Donna o surpreendeu. Ela havia tido a ideia e parecia genuinamente estar animada por fazer aquilo. Os comentários das pessoas ao redor atrapalharam tudo. Se ninguém tivesse falado nada, talvez nada tivesse mudado. Mas aí ele também não saberia como era estar tão perto dela.

Donna encarou a semana estranhamente confiante. Os problemas com Stephen no horário de trabalho deixaram de a incomodar. Se ele fazia algo errado, ela simplesmente ignorava. Se não dava para consertar rapidamente, ela o mandava direto para responder à Jéssica. Ela não precisava de mais isso para pensar. Com o passar dos dias, ela foi se adaptando com a ideia de sentir algo por Harvey e isso a confortou. Era um bom sinal. Eles se davam bem. Ele já havia dado indícios de que gostava da amizade e companhia dela e era isso que ela seria. Sua amiga.

Mas nem esses pensamentos mais otimistas a impediram de observar o anel em seu dedo todas as noites antes de dormir. Donna não o retirou do lugar. Ele estava lá, intocável.

- O que você vai querer jantar hoje? – Rachel apareceu em silêncio na porta do quarto de Donna. A ruiva havia acabado de sair do banho e estava sentada em sua cama, apenas de toalha, encarando o dedo com o anel.

- Não sei, Rach. - Donna subiu o olhar para Rachel, suspirando. – Pode escolher.

- Pizza? – Rachel arqueou as sobrancelhas. As duas amigas ainda não tiveram tempo para conversar sobre o ocorrido há praticamente uma semana atrás. Era sexta-feira, o que significava que elas poderiam passar a noite conversando se Donna quisesse – e estivesse pronta – e Rachel suspeitava que uma boa noite regada à pizza e vinho seria perfeita para a ocasião.

- De marguerita com champignon? – Donna sorriu. Era o primeiro sorriso que Rachel a via esboçar há dias. Rachel precisava saber o que estava acontecendo, essa noite.

- Marguerita com champignon, então!

Quarenta minutos depois, a campainha do 206 tocou. Assim que o jantar chegou, duas mulheres adultas vestidas de pijamas coloridos e cabelos presos, sentaram de pernas cruzadas no sofá, com um prato cheio de pizza no colo. Rachel não queria soar ríspida demais ou enxerida demais. Esperou que Donna falasse no seu próprio tempo. Mas isso não aconteceu.

Elas acabaram de comer, dividiram um pedaço de chocolate que Mike havia deixado no apartamento e Donna a surpreendeu quando começou a se retirar para ir para o quarto.

- Donna, precisamos conversar. – Rachel agora havia entrado no modo mãe. Isso sempre acontecia quando uma precisava da outra. Donna sabia disso e apenas suspirou, sentando-se novamente.

- Droga, Rachel. – A mão com o anel pousou em sua testa, conforme Donna se inclinava para baixo.

- Vai me contar o que esse anel significa ou vou ter que perguntar à Harvey? – Rachel apontou para o anel e Donna a encarou, perplexa.

- Você não faria isso. – Donna se recostou no assento. – Ah, quem eu quero enganar, é claro que você faria. Não sei como ainda não o fez.

- Não perguntei nada a ninguém porque quero ouvir de você. Donna, o que está acontecendo?

- Eu fiz Harvey me pedir em casamento no restaurante sábado. – Donna admitiu, olhando para Rachel.

- Como assim? – A morena estava confusa. Como eles chegaram nesse ponto?

- Eu disse que se ele me pedisse, ganharíamos a sobremesa de graça e mais um jantar. Você sabe que eu sempre quis fazer isso e Mark nunca topou. – O olhar de Donna era de arrependimento, mas Rachel sabia que ainda não era sobre isso.

- Sim, eu sei. Mas e aí? Ele não quis e vocês brigaram?

- Não, Rachel. Droga. Ele quis. Ele me pediu, na frente de todo mundo. De mentira. – A voz de Donna foi aumentando os poucos. Esse era o ponto que Rachel estava esperando que ela chegasse.

- E? Não vejo problema algum nisso. Era mentira, vocês concordaram.

- Era mentira até umas senhoras perto de onde estávamos gritarem para nos beijarmos.

Rachel abriu a boca em compreensão. Por essa ela não esperava. Agora tudo fazia sentido. Eles se beijaram. Donna estava pirando. Harvey estava pirando. Ela não se conteve e soltou uma risada.

- Isso é engraçado, Rachel? Ótimo saber que eu te divirto. – Donna levantou e seguiu para o seu quarto. Antes que pudesse fechar a porta, Rachel a alcançou, entrando no cômodo atrás dela.

- Não é engraçado. É que vocês dois são absolutamente iguais.

- Obrigada pelo conselho. – Donna começou a arrumar a cama e caminhar em direção ao banheiro.

- Donn, agora é sério. Não fica assim por causa disso. Você pelo menos gostou? – Rachel arqueou as duas sobrancelhas sem parar. – Fala sério.

- Não teve beijo.

- COMO ASSIM? TUDO ISSO PRA NADA? – Agora sim Rachel estava pasma.

- Foi um selinho, uma encostada de boca, no cantinho. Não foi um beijo.

- Pelo amor de deus, mulher. E vocês estão assim com cara de enterro POR NADA? Vocês já são adultos, não preciso lembra-la disso. Eu desisto. – A morena levou as duas mãos para o ar, em rendição.

- Por tudo, Rachel. Talvez eu nem veja ele amanhã por causa disso. – Donna disse, tristemente. Ela realmente esperava que pudesse vê-lo. Gostaria de pedir desculpas pelo clima que os colocou.

- Ah, você vai vê-lo amanhã. Ele estava tão animado hoje que não me surpreenderia em vê-lo aqui amanhã cedinho.

- SÉRIO? – Os olhos de Donna brilharam.

- Nunca falei tão sério. – Rachel revirou os olhos e caminho até seu quarto. – Vocês me cansam.

Enquanto escovava os dentes, Donna ouviu a porta do quarto de Rachel se fechar. Com poucas palavras, Rachel conseguiu fazê-la ver alguma esperança na amizade com Harvey. Talvez ficasse tudo bem. Iria ficar tudo bem.

Harvey como sempre apareceu no apartamento para buscar Donna às 14 horas. Ele não sabia o que esperar ou o que dizer quando a visse outra vez. Não houve nenhum contato durante a semana e ele esperava que isso tivesse dado à Donna o tempo necessário para lidar com a situação da forma que fosse melhor para ela.

Ao soar da campainha, Donna olhou no relógio da cozinha e automaticamente um sorriso enorme surgiu em seus lábios. Ela sabia quem era. Abriu a porta e se deparou com um Harvey também muito sorridente.

- Oi. – Harvey disse, tímido.

- Oi. – Donna sustentou seu olhar.

- Acordou agora? – Harvey captou a abertura que Donna deixou na porta como sinal para que ele entrasse e notou que ela ainda vestida pijamas e seu cabelo estava amarrado em um rabo de cabelo desgrenhado.

- Não, eu... só fiquei com preguiça. Rachel acabou de sair então eu pensei que eu podia ter uma pista de onde vamos hoje, para não correr o risco de colocar a roupa errada.

- Você é boa com desculpas. Acho que não foi nada disse. – Harvey riu da cara de espanto que ela fez. – Acho que você não quer mais ir. Ou só está me falando isso para eu te contar antes onde vamos.

- Não! Não é isso... – Donna percebeu o olhar divertido de Harvey e começou a rir também. – HARVEY! É sério. Só uma pista. Roupa de calor ou frio?

- Calor. – Harvey apontou para a janela. – Está o maior sol lá fora, não percebeu?

- Percebi mas... Confortável ou chique? – Donna arregalou os olhos em expectativa.

- Hum, acho que confortável. E pega um casaco para noite. Vamos voltar um pouco tarde. – Ele a observou enquanto a ruiva caminhava feliz em direção ao seu quarto. Em cerca de 20 minutos, uma Donna linda e confortável refez o caminho até a sala. Harvey sentiu seu coração descompassar algumas batidas.

- Pronto. Agora podemos ir. – Donna pegou sua bolsa e a chave o apartamento.

- Então... – Harvey simulou um serviçal antigo, fazendo com o braço como se estivesse abrindo caminho na frente deles para uma princesa passar. Ocorreu tudo muito bem, ele pensou. Ela já estava melhor.

Harvey manobrou o carro no enorme estacionamento de um parque que ficava afastado no centro de Nova York. Donna percebeu a movimentação e a quantidade de carros. Avistou várias crianças fantasiadas e com os rostos pintados.

- Onde estamos? – Seus olhos brilhavam em excitação. Ela desatou o cinto quando Harvey desligou o carro.

- O nome do parque eu confesso que não sei exatamente. Sei que eu vinha até aqui algumas vezes ao ano com meu pai. Mas não para fazer o que vamos fazer hoje.

Depois de caminharem por alguns minutos na direção em que várias pessoas também estavam indo, Donna percebeu ao longe uma roda gigante não tão gigante assim e uma mini montanha russa.

- É um parque de diversões? – Donna praticamente gritou.

- Não. – Harvey disse, rindo. Ao ver a reação desapontada de Donna, ele riu um pouco mais. – É um circo! Minha letra é C.

A alegria de Donna era contagiante. Um casal que estava andando ao lado deles não conteve o sorriso ao verem a ruiva tão feliz.

- Eu nunca estive em um circo antes. Isso tudo é muito novo para mim. – Harvey admitiu, guiando-a para a fila de entrada.

- Você realmente é uma caixa de surpresas Harvey. – Donna tocou em seu braço, reconfortando-o. – Vamos despertar essa criança aí dentro. Vai ser incrível. E já vi que aqui fora é um miniparque de diversões, então depois podemos comer algo antes de irmos embora.

O espetáculo já estava prestes a começar. Havia alguns assentos vazios na primeira fila e Donna insistiu para que eles se sentassem lá. Faz parte da experiência, ela disse. Aparentemente, o clima pesado que pairava entre eles se dissipou completamente. Eles voltaram a serem os mesmos de uma semana e um dia atrás. Isso era o que deixava Harvey mais feliz.

Dois palhaços fizeram alguns truques para animar a plateia e principalmente, as crianças. Havia muito balão e muita coisa colorida. As crianças riam descontroladamente com as peripécias dos palhaços e quando eles chamaram uma delas para participar, a multidão foi ao delírio torcendo para a pequenina agora no centro do picadeiro.

- Agora, nós precisamos de um adulto para fazermos umas perguntas. – Um dos palhaços falou, olhando para a plateia à procura de alguém que lhe chamasse a atenção.

- Não me escolhe, não me escolhe. – Donna sussurrou baixinho, quase como um mantra, para ver se o universo a livrava dessa.

E como o universo é um senhor digno de contradições, Donna foi a adulta escolhida.

- Ei, você! Ruivinha cor de água de salsicha, vem cá. – O outro palhaço caminho em sua direção, pegando em sua mão e levando-a ao centro do picadeiro.

- Vou te fazer uma pergunta muito, muito, muito, muito importante agora. Presta atenção. – Ele colocou uma coroa de rainha na cabeça de Donna. – Se você acertar, ganha uma consulta com a nossa cartomante. É ganhar ou chorar.

- Tá bom. – Donna estava tão constrangida e apreensiva que nem conseguiu raciocinar direito o que o palhaço lhe dizia.

- Vamos lá. A pergunta é... – Alguns tambores começaram a ecoar no picadeiro e as pessoas batiam o pé na arquibancada. – Ai meu deus, esqueci a pergunta.

Todos caíram na gargalhada. O outro palhaço foi até seu companheiro e sussurrou algo em seu ouvido.

- Ahhhh sim, lembrei. Agora eu sei. – Ele fez sinal para os tambores recomeçarem e voltou sua atenção para Donna. – A pergunta é... qual é o seu nome?

- Donna. – Ela respondeu sem pestanejar.

- PARABÉNS! Resposta certa. – O picadeiro continuou animado, rindo. – Você ganhou uma sessão com a nossa cartomante. Passa lá depois, ela lê o futuro. Palmas para Donna.

A plateia bateu várias palmas para Donna e ela retornou para o seu lugar, ao lado de Harvey.

- Pensei que você não ia conseguir responder essa, tão difícil. – Harvey ria. Ele se inclinou na horizontal e bateu seu ombro junto com o dela, fazendo graça.

- Nem eu. – Donna agora ria também, levantando a mão para retirar a coroa da cabeça. – Muita pressão.

- Não, deixa ela aí. – Harvey segurou em seu pulso, voltando a coroa no lugar. Donna sustentou seu olhar e sorriu. Alguns – ou muitos – minutos depois, o espetáculo acabou. Donna não saberia dizer. No momento em que Harvey tocou seu pulso, seus pensamentos não lhe pertenciam mais.

Donna ficou mais empolgada com a consulta que ganhou do que com o circo em si. Ela sempre duvidou desse tipo de "magia", mas também nunca foi em uma cartomante para saber como era. Assim que saíram do picadeiro, Donna agarrou a mão de Harvey e saiu a procura da tenda em que ela ficava.

- Veio a calhar que cartomante começa com C. – Harvey riu enquanto era arrastado de um lado para outro por Donna. – Podemos fingir que eu planejei isso?

- Claro. – Ela olhou para ele, sorrindo. – Que não. Que abusado. Isso foi mérito dos meus amigos palhaços.

- Ah, chama eles aqui então para irem com você.

- Harvey! – Donna soltou a mão dele, dando uma gargalhada tão gostosa que ele não se conteve e riu junto com ela.

- Vamos logo, preciso achar antes que a fila fique muito grande.

Cartomante Michely era na verdade uma jovem muito simpática e cheia de vida. Vestia um vestido moderninho estilo cigana e um óculos redondo.

Donna não demorou para achar a tenda e quando achou, ficou surpresa com a entrada vazia. Michely estava na porta, esperando pela próxima consulta.

- Olá querida. Eu estava à sua espera. – Ela abriu espaço para Donna entrar. – Você gostaria de acompanha-la?

- Acho melhor não. – Harvey lançou um olhar carinhoso para Donna. Ele realmente não gostava dessas coisas e não fazia questão de participar. – Vou dar uma volta por aqui e depois volto aqui para te encontrar.

- Tem certeza? – Donna não queria deixa-lo sozinho. Ela não queria ficar longe dele.

- Tenho. – Ele se afastou, acenando com a mão.

- Bom, podemos começar? – Michely disse, sentando-se em uma cadeira, com uma vazia do seu lado oposto para Donna. A ruiva balançou a cabeça, concordando. – Eu vou embaralhar essas cartas e fazer uma pilha. Vou separá-la em 6 montes e você precisa me dizer quando parar. Conforme eu for fazendo isso, preciso que você pense em cada aspecto da sua vida, passado, presente e futuro. Tudo bem?

- Claro. – Donna estava apreensiva. O lugar era escuro e um pouco intimidador demais.

A cartomante misturou as 36 cartas de modo uniforme sob a mesa. Assim que ela deu um sinal de positivo para Donna, começou a soltar as cartas em sua outra mão. Donna disse para ela parar 6 vezes e conforme as pequenas pilhas se formavam, Donna ficava mais ansiosa.

- Muito bem. Podemos começar do lado direito para o lado esquerdo. A primeira carta da pilha é a que representa seu passado. – Michely virou a primeira carta e o desenho de um coração apareceu. – Coração. É sinal de alegria e felicidade. Significa a explosão dos sentimentos, amor eterno e emoções em alta. É representada pela figura de um grande coração e simboliza o amor fraternal, a solidariedade universal, a paixão forte e a felicidade que está presente neste momento de sua vida. Você viverá uma grande paixão em breve. Também indica que deverá ajudar as pessoas que pedirem o seu auxílio.

Donna sorriu. Emoções em alta.

A cartomante virou a próxima carta.

- O Cão. Representa confiança, amizade sincera, carrinho, afeto. Significa que pode confiar nas pessoas com quem convive. Amigo fiel, aquele em que se pode confiar, com que se pode contar, que pula na frente para nos defender, um grande aliado. Confie nas pessoas que o cercam. No amor, grande fidelidade e compreensão. Na necessidade, terá mãos estendidas. Na alegria, terá braços amigos.

Confie nas pessoas que o cercam. Rachel.

- Oh, a Estrela. É uma carta maravilhosa! É a carta dos sensitivos e dos videntes. Daqueles que possuem uma comunicação especial e direta com o cósmico. Ela é o nosso anjo da guarda, nosso protetor e guia espiritual que nos orienta, nos mostrando o caminho a seguir para conquistarmos o que queremos. É vitória em todos os campos da vida. A nossa boa estrela nos guiando para a realização dos nossos desejos.

Donna sorriu. Ela com certeza era sensitiva e um pouco vidente.

- A Raposa. Bom, observe as pessoas que a cerca no momento ou alguém novo que chegou ou ainda vai chegar em sua vida. Prestar atenção também em situações do dia a dia. Cuidado com aqueles que gostam de elogiar, praticar bajulações pois, é dessa forma que a raposa conquista suas vítimas, depois observa a nossa vida e os nossos passos. Não fale de seus planos, negócios, investimentos e ganhos para qualquer um. Se vender algo, não fale pois, com certeza a raposa irá pedir dinheiro emprestado e não pagará.

Essa era uma incógnita.

- Os Pássaros. – Michely sorriu. – Um casal de pássaros lembra como é bom estarmos apaixonados, namorando ou simplesmente sendo alvo de uma paquera ou flerte. A vida passa a ficar mais colorida e mais leve. Todo encantamento do início de namoro que nos deixa felizes, cheios de vida e entusiasmados pela vida.

Donna sorriu, lembrando-se do homem que estava esperando por ela do lado de fora.

- E por último, as Nuvens. A carta das nuvens representa tristeza, preocupação, medo, dúvidas e insegurança. Quando elas aparecem, as mudanças são lentas, há a sensação de incapacidade, a mente fica confusa, falta uma direção. É preciso deixar a poeira baixar e refletir melhor sobre o problema para não ser precipitado e piorar as coisas. – Michely pegou na mão de Donna. – Mas não se preocupe querida, as nuvens são passageiras, o problema irá passar. Mas é bom saber se comportar diante dele para que passe logo.

Donna se despediu da cartomante com muito o que pensar. As coisas que ela havia dito eram tão reais. Tudo fazia sentido. Cada pequena coisinha. Donna nem percebeu que Harvey estava ao seu lado até ele colocar a mão em sua cintura.

- Você está aí. – Ele sorriu. – Tudo bem?

- Tudo! Harvey, ela é incrível. Você precisava conhece-la. – Os olhos de Donna brilhavam de excitação e surpresa.

- Eu não gosto dessas coisas, prefiro deixar as coisas acontecerem naturalmente, sem interferência de ninguém. O que tiver de ser será. – Ele tirou da sacola que carregava um pacotinho branco. – Comprei um cachorro-quente para você. Não aguentei e já comi o meu.

- Muito obrigada. Estou faminta. – Donna ficou tocada com o gesto de Harvey. – Vou comer aí podemos voltar para casa.

O caminho de volta para o apartamento de Donna foi regado com uma Donna eufórica sobre o circo e a cartomante. Ela não parava de dizer o quanto a mulher era incrível em ler as cartas.

- Ele nem perguntou meu nome, Harvey. – Ela acenou com as mãos, intensificando a fala. – Estou chocada. Você realmente não quer saber o que ela me falou?

- Tenho. E você já me perguntou isso 90 vezes. Deixa o destino Donna, ele sabe o que é melhor para você. – Ele olhava para ela enquanto o último sinal antes do edifício estava fechado.

- Eu espero que ele realmente saiba. – Ela suspirou.

- Nem acredito que já é minha vez de novo. Está passando muito rápido. – Donna estava com uma energia de uma criança de 5 anos e isso encantava Harvey. Era bom vê-la feliz e guardar essa imagem para pensar durante a semana que passaria longe dela. – Segura aqui. Balança ela, Harvey.

Harvey segurou a touca e depois de fazer o que Donna mandou, abriu na frente dela.

- Uma letra boa, por favorrrrr. – Donna sussurrou, enquanto retirava a mão de dentro, com um papelzinho entre os dedos.

- Bom, essa é minha deixa para ir embora. – Harvey sorriu. Dessa vez, para não correr o risco de ficar em um abraço de Donna, ele foi em sua direção e lhe abraçou. Donna retribuiu o gesto, demorando mais que o necessário. – Até sábado, capitã.

- Até sábado, Harvey.

Alguns hábitos nunca mudam.