Capítulo IX

Como um dejà-vu diferente de qualquer outro que pudesse sentir, ele observou as águas se agitarem lá embaixo, batendo com violência contra as rochas. Não era algo parecido com um dejà-vu apenas. Era uma cena de fato já vista, um sentimento já vivido e vívido. Mais do que qualquer coisa, era uma lembrança tão clara quanto um filme rodando diante de seus olhos.

- Eu contei para o mestre sobre seus planos, Kanon.

Kanon arregalara os olhos.

- Por que fez isso, seu traidor? Era tudo para o nosso bem, para ficarmos juntos! Como pôde contar! - esbravejara.

Se soubesse o que tudo aquilo desencadearia, teria feito de novo? Descendo pelo rochedo, quase tão vacilante quanto naquela longínqua ocasião, ele indagava a si mesmo. Sim, faria de novo. Mas não havia outra saída, disso ele deveria ter desconfiado. Fora egoísta ao achar que sanaria o problema se livrando de Kanon, como se ele próprio fosse somente uma vítima.

- Se não fossemos irmãos, você não iria até o fim, não é mesmo? Está se culpando por estes sentimentos e vai punir a mim!

A frase parecia ecoar não apenas em sua memória, mas em seus ouvidos, ricochetando no ar gélido da noite que se aproximava. A dúvida, a culpa e a vergonha haviam se esculpido tão profundamente em sua alma que não poderia haver outra saída.

Sua descida lenta pelo rochedo prosseguia.

Era a única saída.

oOo

Tão logo Kanon alcançou a entrada da Casa de Gêmeos, sentiu aquela pontada atravessando-lhe o peito, feito uma agulha. Seria uma brincadeira de mal gosto de Milo? Não, a dor fora séria demais para ser piada. Ademais, nem por brincadeira Milo teria uma atitude covarde. Kanon soube então imediatamente. E temeu, como nunca antes. Como pudera subestimar o bom senso de Saga? Era óbvio que ele não saberia lidar com o que acontecera. Era previsível que ele lidaria extremamente mal com os fatos.

Sem pensar duas vezes, o geminiano deu meia volta e desceu as escadarias em disparada. Sabia onde ele estava.

Seu cosmo lhe dizia.

oOo

Saga sentira dois filetes mornos escorrerem por sua face ao tocar as grades da antiga prisão do rochedo. Nunca se sentira tão fraco e nunca desejara tanto a fraqueza. Ia abrir mão de seu cosmo para que a morte não fosse ainda mais lenta. Ia, no entanto, morrer lentamente, pois só desta forma seria absolvido pelo menos parcialmente de seu inescrupuloso pecado.

Ele sacudiu o corpo inerte com desespero, ainda sentindo o próprio corpo trêmulo e ofegante.

- Pare de estupidez, seu idiota! Não é hora de desmaiar, tampouco de morrer! – Kanon segurou os cabelos molhados do irmão e puxou, buscando qualquer reação. – E o dever para com Athena, han? Foi ela quem nos devolveu a vida.

A voz de Kanon trovejava pelo Cabo Sunion. Quando chegara no alto do rochedo, avistara imediatamente o corpo do gêmeo à deriva. O choque fora instantâneo, porém durara menos que um raio, e no momento seguinte ele se apressara para o mar. Em poucos minutos Saga retornara à terra firme, nos braços de seu gêmeo. Estava inconsciente e com leves escoriações.

Um pouco mais controlado, Kanon agora tentava pensar em uma forma de despertar o outro cavaleiro. Ergueu a cabeça dele sem perceber e então Saga começou a tossir e a expelir água. O mais novo se deu conta de que deveria ajuda-lo a liberar a água ingerida que o levara ao afogamento. Começou a massagear e comprimir o peito do irmão, e logo vieram os resultados. Saga tossiu mais e expeliu novas quantidades de água. Kanon deu continuidade ao procedimento até sentir que não havia mais o que liberar. Apesar de livre da água, o cavaleiro de Gêmeos permanecia inconsciente. Desta feita, Kanon passou a aquecê-lo com seu cosmo, brandamente, enquanto o mantinha com a cabeça apoiada em seu colo.

- Sabe, Saga, eu não queria que as coisas fossem desse jeito. Se eu tivesse sido esperto e calculado as conseqüências talvez eu não tivesse ido tão longe, mas eu duvido. – ele respirou fundo e deixou a mão sobre o peito do gêmeo, sentindo-lhe a respiração. – Eu sei que... sei que o... sei que o amo, isso não tem porque ser errado. E agora sei como é me sentir... não sei, completo. Quando nossos corpos se fundiram eu senti que o vazio se fora.

Ele ficou em silêncio, ouvindo o barulho do mar agitado lá embaixo e quase ouvindo a respiração do amante no mesmo ritmo. Esperava, pois pressentia que era isso que deveria fazer. Depois de um tempo calado, recomeçou.

- Eu até imagino como para você isso tudo deve ser complicado. A mãe deve ter te dado uma boa educação. Já eu sempre fui meio louco, como nosso pai. Talvez o bafo de pinga do velho tenha me afetado, sei lá. – fez uma pausa. – Eu só não me importo em seguir certas regras. Eu não ligo se um deus considera isso errado, porque a mim parece certo. E nunca me foi problema enfrentar os deuses.

Ele riu e ficou com o olhar perdido no horizonte, até ouvir Saga tossir e sentir o corpo dele se sacudir, devido aos espasmos. Quando a tosse passou, ele voltou a ficar inerte.

- Será possível que não vá acordar nunca? Eu não tenho a vida toda, desse jeito me compensará mais buscar outro amante! – riu alto. – Vamos, Saga. Duvido que a mãe ia desejar que você se matasse. Você foi o filho escolhido, afinal.

Havia um quê de mágoa em sua voz, mas não de raiva.

As circunstancias os haviam obrigado a se separar quando tão pequenos que mal recordavam a existência um do outro. Isso era passado, agora.

Kanon deslizou as costas da mão pela face de seu reflexo.

- O que faço para você despertar, bela adormecida? – sorriu imediatamente. – Ah, claro! Como pude me esquecer da lenda?

Ele ajeitou o corpo do gêmeo em seu colo e, com um sorriso malicioso de antecipação, aproximou os rostos, depositando um breve beijo nos lábios do irmão.

- Você é louco ou o quê?! – com um filete de sangue escorrendo pelo canto da boca, Kanon encarava o irmão, ambos em pé.

- Eu, louco? Você quem não respeitou minha inconsciência! O que pensa que estava fazendo!?

- Te acordando, bela adormecida.

Saga quase partiu para cima do irmão novamente. A reação fora imediata ao beijo: desferira um soco no queixo de Kanon.

- Vamos para casa. – disse enfim.

- Você não ia se matar?

- Vamos para casa, Kanon.

oOo

N/A: Demorou (e como demorou!), mas aqui está! O PENULTIMO capítulo, sim! Será que existe alguma alma que ainda não desistiu dessa fic? REVIEWS, please. E obrigada a quem for persistente e ler! Hehe Beijos, até... logo?