Capitulo IX: Tempestade de lembranças.

Sakura caminhava pelo quarto remoendo cada pensamento, Li tinha ligado para sua família e avisado a Touya que a irmã estava viva. O rapaz junto com Yukito largou tudo na mesma hora e foi para China reencontrar a irmã que supostamente tinha sido dada como morta. Já havia se passado duas semanas desde que ela havia desmaiado no escritório de Li. Repentinamente tudo havia mudado desde aquele dia. As seções com a doutora Miu Lay foram canceladas e Syaoran tinha definitivamente sumido da sua vida, nem parecia que eles moravam na mesma casa. Nunca mais havia visto o suposto marido, ela sabia quando ele estava por perto, ela o sentia, mas não sabia direito o que era aquela impressão, aquela sensação. Tomoyo estava muito carinhosa e ficava com ela e com Shaolin o tempo inteiro. Sakura tinha vontade de perguntar por Li mas ficava com vergonha ao lembrar de que estava pensando no marido da pessoa mais adorada que ela havia conhecido na sua curta vida.

Touya queria levá-la para o Japão, mas Li não havia permitido que levasse o filho, Sakura ainda não sabia quem era e por isso não permitiu que a guarda fosse transferida para ela. Com isso Sakura também se recusou a ir embora da China, apesar das tentativas do irmão para que ela voltasse a viver com ele e o amigo. A moça fechou os olhos dolorosamente, custava a admitir mas estava sentindo falta de Li, será que estava apaixonada por ele, mas ele era o marido de Tomoyo. Ela balançou a cabeça tentando dissipar os pensamento, quando sentiu novamente a presença dele se aproximando, ela não sabia o que era aquilo, pensou que estivesse enlouquecendo de vez.

Sakura correu até a porta do quarto, a abriu e saiu pelo corredor. Desceu as escadas e observou a sala, podia ouvir a voz de Touya, Yukito e Tomoyo conversando no jardim da mansão, provavelmente a moça estava tentando colocar na cabeça do rapaz que era imprudente levar Sakura a força para o Japão. Os olhos verdes desviaram da porta que levava ao jardim e se fixou numa outra fechada. Caminhou lentamente até ela e pode sentir mais forte a presença do rapaz. Era estranho aquilo, como ela podia ter a certeza de que ele estava ali dentro se ela não o tinha visto entrar? Colocou o ouvido na porta tentando ouvir alguma coisa e pode escutar barulho de algo batendo. Levada pela enorme curiosidade, ela entrou.

Li estava treinando. O rapaz parou imediatamente assim que ouviu o barulho da porta se abrindo e a figura de Sakura parada o observando. Ele reparou como as faces da moça estavam vermelhas o fitando sem camisa.

"O que faz aqui, Sakura?"

A moça piscou os olhos repetidamente e se virou de costas. "Me desculpe, é que eu ouvi barulho, pensei que estivesse com algum problema."

Syaoran respirou fundo tentando esfriar o sangue e caminhou até uma cadeira onde pegou uma toalha para secar o suor. "Bem, acho que você já viu que está tudo bem, eu só estava desenferrujando um pouco."

Ela se virou devagar e fitou o rapaz. "Você era lutador, não é?" Perguntou desconfiada.

Era estranho para Li contar sobre sua vida a pessoa com quem sempre a repartiu, mas o quê ele podia fazer? Aquela não era Sakura, era uma outra moça apenas com a mesma forma da esposa. Era assim que ele tentava a ver agora, ou melhor, ele tentava nem ao menos a ver novamente.

"Sim, era lutador de artes marciais antes de nos casarmos... ou melhor, antes de me casar."

Ela caminhou pela sala apreciando a tudo como uma criança curiosa. "É estranho, você é tão rico, não tinha porque entrar em campeonatos para ganhar dinheiro."

"Não é só por dinheiro, gosto de lutar..."

"Ah sim, é por isso que foi tão rápido quando desviou do Makoto", Ela disse dando um soquinho no ar e rindo.

"Estou um pouco lento, faz muito tempo que não ando treinando direito."

"Mas porque parou de lutar? Você parece muito bom!"

"Você me pediu para parar".

"Eu?"

"Não, minha esposa, ela pediu para que eu parasse de lutar."

"Mas eu sou sua esposa", Sakura falou sem querer. Li erguei uma sobrancelha encarando a jovem parada a sua frente com as faces levemente coradas com o que tinha falado. "Quer disser, eu fui sua esposa, ou sou, ou não sou... eu não sei" Disse ela se confundindo cada vez mais e fazendo Li sorrir desanimado, realmente não era justo aquela confusão na cabeça de Sakura. "A senhora Tomoyo e aqueles dois homens estão conversando no jardim", ela disse tentando desconversar.

"Eu sei", respondeu.

"O altão não vai embora até que eu decida voltar com ele para o Japão, não é?"

"Provavelmente, o Kinomoto é muito teimoso."

"Ele é meu irmão mesmo? É que ele é tão diferente de mim."

"Sim, Touya Kinomoto é o seu irmão."

"Você vai deixar que ele me leve para o Japão?"

Li franziu a testa surpreso com aquela pergunta. "você é uma pessoa livre, não vou lhe impedir de fazer alguma coisa?"

"Bem, você é o meu marido", ela se virou para ele e consertou rapidamente, "Teoricamente... gostei desta palavra... a doutora usava muito."

Li sorriu de lado, "Sim teoricamente eu sou o seu marido"

"Então... Se eu sou uma desmemoriada e desmiolada, você é responsável por mim como é para o Shaolin, não é?"

Syaoran realmente ficou surpreso com o rumo daquela conversa, Sakura queria que ele decidisse o que era melhor para ela. O rapaz caminhou lentamente até ela e parou a sua frente. "Você quer que eu decida o que é melhor para você?"

Sakura começara a ficar nervosa com a proximidade dele. "Porque parou com o meu tratamento? Porque tem me evitado? Eu não o vejo a quase um mês, você quer que eu vá embora?"

Ele se aproximou mais dela forçando a moça a dar um passo para trás. "nunca... deus sabe o quanto eu quero que fique."

"então está zangado comigo?"

Li se aproximando dela fazendo a moça dá vários passos para trás, quando sentiu a parede fria da sala nas costas e o corpo quente do rapaz a poucos centímetros do seu. "Não me respondeu se está bravo comigo, eu fiz alguma coisa errada?" Insistiu ela.

"Não, você não fez nada errado", disse aproximando o rosto do dela. Sakura sabia o que viria a diante e pela primeira vez tinha se esquecido da senhora Tomoyo, era errado o que sentia, mas que droga, ela também era esposa dele, ela também queria a atenção dele. Li tocou de leve os seus lábios nos dela, fazendo a moça sentir arrepios por todo o corpo, ela não lembrava como era beijar, para ela aquele estava sendo novamente o seu primeiro beijo. Ela fechou os olhos e entreabriu os lábios dando permissão para que ele aprofundasse mais o beijo. Sakura tocou de leve o braço do rapaz e deslizou sua mão até o rosto dele onde passou os dedos nos cabelos molhados de suor do rapaz. Syaoran a segurou pela cintura e se aproximou mais dela fazendo seu corpo tocar por completo o da esposa. Os dois só se separaram quando ouviram um barulho vindo por trás. Li se afastou enquanto Sakura ainda precisou de um tempo para recuperar o equilíbrio e se afastar da parede que impedia que ela caísse no chão.

Em poucos segundos a porta se abriu e Tomoyo entrou na sala, observando os dois que tentavam disfarçar o que acabara de acontecer entre eles.

"O que está fazendo aqui, Reyume? Está muito tarde e eu tenho que descansar".

"Precisamos ajeitar as coisas, senhor Wing, aquela vadia está viva e daqui a pouco acabará lembrando de tudo."

"Isso tudo aconteceu por imprudência sua, se tivesse feito o que lhe mandei nada disso tinha acontecido!"

"Como poderia imaginar que ela sobreviveria, ela se jogou de um barranco de quase vinte metros, era impossível que sobrevivesse".

O velho senhor bateu forte com o seu cetro no ombro do rapaz fazendo ele se ajoelhar, "Idiota, você não verificou se ela estava realmente morta, se esqueceu que ela é a mestra das cartas Clow?"

"Senhor, eu apenas..."

"Apenas resolveu satisfazer sua curiosidade de como era a esposa de Xiao Lang, agora, o problema é seu, se ela se lembrar de tudo e principalmente do seu rosto, eu não moverei uma palha para lhe ajudar!"

"Mas eu fiz isso a mando do senhor!" Se revoltou o rapaz.

"Eu mandei você matá-la, não forjar sua morte para poder se aproveitar dela. Você foi imprudente e agora terá arcar com as conseqüências!"

O rapaz se levantou e encarou o velho, "Se eles me descobrirem, descobrirão o senhor também. Não serei eu apenas a me prejudicar."

"Está me ameaçando moleque?"

"Só estou avisando que não serei eu apenas o culpado."

O senhor sorriu de forma debochada para o rapaz. "Olhe para mim! Sou Wing Chieng, o ancião mais respeitado do clã e olhe para você rapaz, não passa de um..."

"Sou o primogênito de Shang Li! Estou cheio disto tudo, eu é que deveria ser o líder do clã, não o fraco do Xiao Lang!"

Wing riu com gosto, fazendo o rapaz explodir de raiva. "Você é um bastardo! Não possui nem mesmo poderes, não passa de um assassino imprudente e burro! Fique contente apenas trabalhando nas empresas Li, que já é muito para a sua capacidade!"

O rapaz soltou a espada da bainha silenciosamente, quem era aquele velho para disser que ele não era nada? Ele era o líder do clã Li por direito.

"Agora suma da minha frente inútil!" Gritou o velho, " Você é lixo perto de Xiao Lang! Ele sim é o líder que eu escolhi!"

O velho se virou de costas caminhando para a saída de seu escritório quando sentiu duas flamejadas em suas costas. O senhor caiu ainda se contorcendo. Reyume molhou os lábios enquanto limpava a espada nas vestes sagradas do ancião. "Inútil é você, velho, eu sou o líder dos Li!"

Reyume ouviu passos e certificou rapidamente que o velho estava morto, não poderia cometer o mesmo erro duas vezes. Olhou para janela e correu até ela, enquanto corria pelo quintal pode ouvir os gritos da criada que encontrou o corpo do seu senhor sem vida.

"O próximo será Xiao Lang" declarou enquanto corria pelas ruas desertas de Hong-Kong.

"Mas como vai embora?" Perguntou Li para Tomoyo que arrumava a sua mala. "Você não pode ir embora agora, Sakura precisa de você, Shaolin precisa de você!"

Tomoyo levantou os olhos e viu o rosto atordoado de Syaoran. Ela sorriu docemente. "As coisas já estão arrumadas aqui, Sakura já está conseguindo se virar sozinha e Shaolin já gosta muito dela, aos poucos vocês começarão a se entender".

Li caminhou pelo quarto ainda abalado com a declaração da esposa de que estava indo para Londres. Tomoyo foi até ele forçando a parar de caminhar de um lado para o outro do quarto. "Syaoran, Deus sabe como me custa deixar tudo que eu amo para trás, mas a minha presença aqui apenas atrapalhará você e Sakura."

"Não, Sakura só confia em você agora, ela irá se desesperar com esta sua decisão."

"Ela tem você para lhe dar forças..."

"Não, Tomoyo, ela não me aceitará como marido, talvez nem como amigo. Ela tem medo de mim!"

"Ela te ama!" Quase gritou a moça. Li arregalou os olhos para a bela companheira. Tomoyo respirou fundo e repetiu, "Ela te ama, Syaoran."

"Você enlouqueceu? Ela nem se lembra direito quem eu sou."

Tomoyo voltou a arrumar as suas roupas na mala. "Ela pode não se lembrar de quem é e quem você é, mas ela te ama. Conheço Sakura como ninguém jamais a conhecerá e vejo nos olhos dela todo o amor que ela pensa que esqueceu."

Li parou ao lado de Tomoyo e segurou suas mãos impedindo que continuasse a fazer a mala. "Por favor Tomoyo, não me deixe agora, eu... eu não sei o que fazer direito... eu não sei como agir com ela".

Tomoyo passou de leva a mão no rosto tenso do marido e beijou de leve os lábios dele. "Meu querido, aja com ela como você sempre agiu".

"Tomoyo..."

"Agora não vamos mais discutir isso, certo?" Falou animadamente, "Só quero te pedir uma última coisa, você pode fazer?"

"O que você quiser, Tomoyo."

Ela sorriu e o beijou novamente de leve nos lábios, "Não desista de Sakura"

" Nunca faria isto... eu... só tenho medo que ela não... não sei..." A jovem sorriu docemente para o rapaz. "Não vou proibir que vá embora desta casa, mas quero que saiba que ela sempre estará aberta para você e que eu desejo profundamente que você seja feliz."

"Eu sou feliz, Syaoran. Se as três pessoas que eu mais amo neste mundo são, eu também sou feliz. Agora me deixe terminar de fazer a mala, que eu tenho um monte de coisas para fazer antes de embarcar para Londres."

Li sorriu sem graça e saiu do quarto ainda um pouco abalado com a resolução da segunda esposa, mas ele não tinha o direito de pedir que ela ficasse ali, ela tinha todo o direito de viver. Arrumou a gravata e a camisa enquanto caminhava pelo largo corredor da mansão Li, parou em frente ao quarto de Shaolin e entrou para ver o filho. Sakura estava brincando com ele e se virou para apenas constatar de que a presença era do marido.

"Ela vai embora mesmo?"

"Vai, eu não posso impedi-la de ir."

Sakura olhou para Shaolin que brincava com sua espadinha de plástico. "Ele vai sentir muito a falta dela."

"Eu sei, e só você que poderá dar apoio a ele."

Sakura balançou um pouco a cabeça e fitou Li. "Acho que ela está indo embora por minha culpa. Acho que ela sabe o que fizemos..." Choramingou.

"Sim, ela sabe."

Sakura arregalou os olhos assustada. "Meu Deus! O que eu fiz?"

"Você não fez nada, quem fez alguma coisa errada fui eu."

"Ela me odeia, não é? Ela foi tão boa para mim e foi assim que retribui o carinho dela."

"Ela nunca a odiaria, Sakura. Tomoyo a ama muito mais do que você pode imaginar."

"Eu não sei..."

"Se ela acha que o melhor para ela é ir embora desta casa, eu não a impedirei de fazer isso, não tenho o direito de interferir nas decisões dela, apenas desejar que ela seja feliz."

Sakura respirou fundo ainda se remoendo de remorso pelo que tinha feito. Tomoyo tinha sido a pessoa mais amável que ela tinha conhecido, não fora fiel beijando o marido da amiga.

"Preciso ir agora, venho mais cedo para levá-la para o aeroporto."

"Está bem."

Li beijou a testa de Sakura e passou a mão nos cabelos de Shaolin. Sakura o observou caminhando de forma triste até a porta, ele tentou sorrir para ela, mas ela sentiu o ar de tristeza no rosto dele.

"Ele a ama." Sussurrou para si mesma ainda observando a porta fechada por onde Li havia saído. "Tenho que impedir que ela vá embora." Falou decidida.

Aquele estava sendo um dia estranho para Li. O rapaz tinha chegado tarde no trabalho por causa da confusão que Tomoyo tinha feito revelando que partiria de Hong-Kong, que partiria da sua vida. Ele amava Tomoyo, ela tinha sido a companheira perfeita, assim com Sakura tinha sido. Ela tinha lhe dado apoio como nenhuma outra pessoa havia lhe dado antes e agora ela estaria indo embora de sua vida. Era difícil aceitar esta partida, mas também sabia que não estava no direito de pedir para que ela ficasse. O que queria? Ter duas esposas ao mesmo tempo? Isso era inadmissível para um homem de verdade. E ele era um homem com honra. Já tinha prejudicado demais a vida da amiga de infância para pedir para que ela ainda permanecesse mais tempo na China. O rapaz largou as contas que estava fazendo e se inclinou para tras da confortável poltrona. Mas havia algo a mais dentro do seu peito, algo não estava bem, algo ainda o perturbava e não era apenas a partida de Tomoyo, era algo maior, algo mais grave.

Ainda por cima tinha recebido a notícia que Wing Chieng tinha sido encontrado morto no seu escritório particular. Quem mataria o líder dos anciões de forma tão bárbara? É claro que as suspeitas caíram sobre ele. Todos sabiam que ele e o ancião nunca se deram bem e nunca fizeram esforço de mostrar o contrário para quem quer que fosse? Naquela tarde tinha recebido a visita do delegado de Hong-Kong e viu que era claro a opinião do velho senhor Guang Xue. Ele era quem estava no topo da lista de suspeitos, até porque a perícia já havia determinado que o velho ancião fora morto por golpes perfeitos de espada. E todos sabiam que espada era uma das modalidades de luta onde Syaoran era o melhor.

Ele olhou para o relógio. Cinco para seis da tarde. Se levantou e arrumou os papeis, não era do feitio dele sair antes das seis e meia, mas hoje tudo estava errado, isso não seria um absurdo.

Sakura abriu os olhos e viu a sala deserta, estava deitada num dos sofás da mansão Li, antes de desmaiar ela sentiu uma forte pancada na cabeça. A moça levou a sua mão até onde doía e viu que realmente tinham lhe acertado, pois sentiu sangue entre os seus dedos. Ela tentou se lembra o que tinha acontecido.

"Já acordou boneca?" Uma voz gélida cortou os ouvidos da moça.

"Não fuga de mim gracinha, vou fazer você alcançar os céus!"

A moça se levantou rapidamente e se virou para onde a voz vinha. Sentado na poltrona que Syaoran normalmente se sentava estava um rapaz vestido de preto a encarando com um sorriso maldoso nos lábios.

"Onde está o meu filho?"

"Ele está bem, por enquanto, está preso com a respeitosa senhora Li." O tom dele era de deboche.

Sakura se levantou ainda trêmula. "O que quer conosco? Onde está Tomoyo?"

"Ah sim, a outra japonesa de Xiao Lang, esta ainda está desmaiada." O rapaz fez um gesto com a cabeça e Sakura virou os olhos para o lado onde pode ver Tomoyo desmaiada num outro sofá com um profundo corte na testa. Ela se virou novamente para o rapaz.

"O que quer de nós? Se quiser dinheiro é só pegar e ir embora!"

O rapaz levantou-se com o rosto sério e deu um tapa na cara da moça a fazendo cair no chão. "Dinheiro? Dinheiro não é nada comparado com que Xiao Lang me tirou, vadia!"

"Fica quieta, vadia!"

Sakura levantou o rosto ainda de joelhos no chão. "O que quer de nós? O que quer de Syaoran?"

Ele se abaixou até ela e pegou o seu queixo com força. "Ele roubou a minha vida."

"Syaoran nunca faria isso".

"E porque não? Acredita tanto assim na integridade do seu maridinho?"

Sakura não respondeu.

"Ah sim, é claro, ele é o senhor todo poderoso, o mais inteligente, o mais esperto, e tem aquela besteira de poderes mágicos, tudo não passa de bosta, perto de mim! Eu é que deveria estar morando nesta mansão, eu é que deveria esta na presidência da empresa e até... pensando bem..."

Sakura arregalou os olhos e se esquivou dele vendo que o rapaz se aproximava dela. Ela a prendeu pelo braço e parou seu rosto a centímetros do rosto dela.

"Eu é que deveria ser o seu esposo."

"Você será minha! E vai gostar e muito!"

"Me solta!" Gritou tentando se livrar dele. Ela conseguiu acertá-lo com um chute e saiu engatinhando na procura de alguma coisa para se proteger daquele louco. O rapaz se levantou e encarou a moça pegando uma das ferramentas da lareira para se proteger dele. O rapaz riu com gosto.

"Nos deixe em paz, seu louco!"

"Já deveria ter aprendido a lição, boneca. Ou se esqueceu do nosso último encontro?"

"Me solta!" Sakura lutada com todas as forças para se soltar daquele homem asqueroso. Ele a agredia na tentativa de que ficasse quieta, mas ela não permitiria que ele a possuísse, ela não permitiria que nenhum homem a possuísse que não fosse o seu marido.

O homem tentava a todo custo tirar-lhe a roupa e ficar entre suas pernas, foi quando Sakura sentiu algo próximo ao seus dedos, era um pedaço de ferro que estava largado no meio do mato, Deus sabe como. Ela se esticou e o pegou e com toda força desferiu contra a cabeça do rapaz. Ele a largou e esta foi a deixa para que a moça fugisse dele.

"Vadia louca! Olha o que você fez?" gritou ele com uma das mãos na testa onde havia um grande corte. "Farei você meu brinquedo até que implore para que eu a mate!"

Sakura sabia que não tinha como lutar contra ele, que era infinitamente mais forte que ela. Sozinha no meio do nada, ela não tinha como pedir ajuda. Ela sentia o seu corpo todo dolorido com enormes machucados e hematomas, com certeza não duraria muito nas mãos dele, mas pelo menos ela não seria dele. Deu alguns passos para trás e se sentiu que o chão lhe faltava, virou-se rapidamente e pode ver o enorme barranco que tinha atrás de si.

"Está sem saída, garota. Agora seja uma boa menina e vamos continuar onde paramos".

"Não..."

Ele riu com gosto novamente, se deliciando com o desespero que havia naqueles lindos par de esmeraldas.

"Não é que o idiota do Xiao Lang encontrou uma esposa virtuosa? Pois lhe digo, boneca, tudo que é dele será meu, a começar por você!"

"Não, a mim você nunca terá."

Seu último pensamento foi em Shaolin e Syaoran, ela os deixaria para sempre agora, mas tinha certeza que não importava para onde fosse depois da morte encontraria com sua mãe e seu pai e velaria pela felicidade deles.

Lágrimas rolavam pelos olhos de esmeralda, era triste constatar que sua primeira lembrança tinha sido justamente a que ela mais tentava fugir. Apertou mais forte a ferramenta que tinha nas mãos. Ela não permitiria que ele lhe fizesse mal novamente.

"Vejo que voltou a se lembrar do nosso encontro romântico."

"Cala a boca!"

"E voltou a se comportar como uma menina má novamente", falou se aproximando dela.

"Não se aproxime!"

"Sabe boneca... você nunca saiu da minha mente... nunca desejei tanto uma mulher como eu desejo você." Falou brincando com a espada nas mãos. Ele franziu a testa encarando-a. "Mulheres como você merecem muito mais do que homens como o idiota do meu irmãozinho caçula."

"Eu não entendo o que fala."

Ele foi para cima dela, Sakura tentou lhe acertar com o instrumento que tinha nas mãos, mas o guerreiro foi mais rápido em poucos segundos estava desarmada e no chão com ele em cima dela beijando-lhe o rosto.

"Eu lhe disse que tudo que é de Xiao Lang será meu."

Syaoran parou pelo imponente portão da mansão Li e estranhou o silêncio. Desceu do carro ali mesmo e observou que o pátio estava vazio. "Onde estão os seguranças?" Ele sentiu que algo não estava certo. Tirou o terno, a gravata a dobrou as mangas. Olhou para cima do muro e começou a escalar, algo estava acontecendo e ele sabia que um guerreiro nunca entrava num ringue sem saber quem realmente era o seu oponente. Correu agachado pelo imenso jardim e se encostou contra a parede externa da casa. Espiou por um dos janelões e viu a pior cena de sua vida. No meio do salão principal, ele pode ver sua esposa no chão tentando lutar contra um homem que estava por cima dela tirando-lhe as roupas. Sem pensar o guerreiro arrombou a porta.

"Sai de cima dela agora!"

Reyume parou e se levantou puxando Sakura pelo braço para que se levantasse com ele. Li estava estático vendo a esposa ser ameaçada com uma afiada espada no pescoço.

"Chegou mais cedo para a nossa festa, irmãozinho."

Li franziu a testa, mas tentou não fazer nenhum movimento brusco para que ele não machucasse a esposa. "O que quer de nós?"

"Ele quer te matar, Syaoran, fuga daqui!" Gritou Sakura quase que em desespero.

"Cala a boca, vadia!"

Li sentiu o sangue ferver dentro dele ouvindo aquele homem se referir a sua esposa daquela maneira.

"Quem é você?" Perguntou tentando manter a calma.

"Sou seu irmão mais velho, deveria me respeitar, Xiao Lang!"

"Irmão? Não estou entendendo." Perguntou observando a sala e tentando traçar um plano para agir.

"Sou filho de Shang Li, sou o filho que ele teve quando ainda não o tinham obrigado a se casar com Yelan. Ele nos abandonou, abandonou eu e minha mãe e apenas nos dava uma merreca para vivermos!"

"Filho de Shang Li?"

"Isso e como sou o primogênito tenho todo direito de assumir o posto de líder do clã Li!"

"Então porque não veio falar comigo?"

Reyume não esperava aquela pergunta, o que Xiao Lang estava planejando? Ele sabia que o irmão mais novo era um guerreiro de elite, um ótimo estrategista e um adversário muito além do que ele poderia enfrentar, por isso invadiu sua casa e pegou de refém sua família, queria ter vantagem, não poderia lutar contra ele de igual para igual.

"Não brinque comigo, Xiao Lang!"

"Preferiu procurar quem? Wing Chieng? Aquele velho asqueroso e traiçoeiro? Você não pode ser meu irmão! É muito fraco para ser manipulado por aquele ancião!"

Reyume olhou com ódio para Syaoran, mas uma vez ele tinha provado que era realmente o merecedor do cargo de líder. Apertou mais forte Sakura contra ele fazendo a moça como escudo que o protegia da presença imponente de Syaoran.

"E o que ele mandou você fazer? Matar minha esposa? Como você é burro, você fez com que eu voltasse para a China, para o lugar que eu tinha deixado e que você poderia ocupar!'".

"Cale-se!"

Li estava fazendo o que queria, estava o deixando confuso e desorientado, ele tinha que ser perfeito, não poderia falhar ou isso mataria Sakura. Ele não suportaria perdê-la novamente.

"Porque? Está começando a enxergar as coisas? Está começando a ver as drogas que você fez?"

"Nunca vou lhe perdoar por ter me tirado tudo!"

Li olhou para o chão e sorriu, depois fitou o rapaz com raiva. Sakura perdeu a respiração e sentiu medo daquele olhar.

"Não, quem nunca irá perdoar algo aqui serei eu!"

Reyume olhou para ele em pânico. O tom de voz com certeza não era nem um pouco amigável. Apertou mais a espada no pescoço de Sakura.

"Se tentar qualquer coisa eu mato ela! Eu juro que mato!"

"E o que pretende fazer? Ficar parado olhando para a minha cara?"

Reyume empurrou Sakura para o lado fazendo a garota cair no chão. Xiao Lang estava sem arma, ele o mataria com um só golpe. O rapaz correu até ele armado. Sakura gritou o nome do marido em desespero, já imaginando-o atingido pela espada afiada do irmão.

Li se esquivou do primeiro ataque, Reyume atingiu forte uma coluna do imenso salão. Li deu uma cambalhota pela sala evitando mais um ataque do rapaz e pegou uma cadeira para se proteger dele. O irmão mais velho voou em cima dele o golpeando com mais e mais raiva. Cada golpe que Li esquivava fazia o rapaz sentir mais ódio.

Reyume atingiu Li a cortando a altura do abdome, Sakura entrou em desespero, as lembranças começavam a invadir a sua mente enquanto observava a luta entre os dois homens. Aos poucos os rostos que antes eram soltos em sua mente ganhavam nomes e histórias, Touya, Yukito, Ywe, seu pai, sua mãe, Eriol, Kaho... todos tinham nomes agora, todos ela conhecia.

"Eu não sou bom com as palavras, mas...bem...hã... Casa comigo?"

"Quero que volte a ser a minha esposa, Sakura".

"Não fuja mais de mim"

"Eu te amo, minha flor..."

Tudo era tão claro agora, tudo era tão obvio. Ela o amava, ela amava aquele homem, ele era a sua vida. "Não!" Gritou quando viu Li ser acertado novamente por um golpe de Reyume. Lágrimas rolavam pelos olhos de esmeralda, como poderia ter se esquecido de tudo, como pode ser capaz de se esquecer da sua vida! Ela virou o rosto e viu Tomoyo ainda desmaiada, foi até a amiga e tentou acordá-la. "Tomoyo, acorda, Tomoyo, por favor..." Suplicava enquanto balançava o corpo da amiga.

"Eu vou te matar, Xiao Lang", Gritava Reyume tentando golpear o rapaz que se esquivava como podia. "Eu vou ter tudo que você tem, eu serei você!" O rapaz estava tomado não só pelo ódio, mas pela inveja. Era este o mais profundo desejo de Reyume, ele queria ser Xiao Lang, ele queria não apenas possuir o que o irmão tinha, ele queria a vida dele. Por isso tentou possuir a esposa que sabia que o irmão tanto amava, assim naquele momento ele seria o irmão. Levado por este pensamento doentio, armou tudo para que Sakura perdesse a direção do carro e batesse, mas foi rápido o suficiente para tirá-la desacordada de dentro do veiculo, colocasse uma outra jovem que por azar cruzou o seu caminho, colocou a aliança no seu dedo e tacou fogo no carro para que fosse impossível reconhecer os corpos. Com isso ele teria a esposa do irmão para si. E assim ele seria Xiao Lang.

"Eu te odeio! Você não é nada!" Se descontrolava Reyume vendo que seus ataques eram desviados por Li.

Tomoyo abriu os olhos e se deparou com as duas belas esmeraldas. Sakura se abraçou a ela com força. "Graças a Deus, está bem!"

"O que aconteceu?"

Sakura se afastou dela. "Vamos, precisamos chegar até as minhas cartas. Onde elas estão?"

"As cartas?" Tomoyo olhou assustada para Sakura. "Você se lembra das cartas?"

"Me lembro, Tomoyo. Não dá tempo de explicar. Vamos!" Sakura literalmente pegou Tomoyo pela mão e puxou ela para o segundo andar. As duas corriam pelos corredores da enorme mansão. Elas podiam ouvir Reyume insultando Li de tudo quanto é nome e o barulho da espada dele destruindo as coisas da casa. Tomoyo entrou no quarto e olhou no armário. "Eu não sei onde ele guardou o seu livro."

Sakura procurou em todo o armário com a ajuda de Tomoyo, olhou no lugar que sempre o guardava, mas Li o tirou de lá por motivo de segurança. "Eu não sinto a presença das cartas, Syaoran deve ter o trancado com alguma magia!" Começava a se desesperar.

"Já sei!" Gritou Tomoyo saindo do quarto da amiga e indo em direção ao seu quarto. Ela tentou abrir a primeira gaveta da escrivaninha de Li, mas estava trancada. Sakura olhou para ela. "Acha que está aí?"

"Tenho certeza. Uma vez o pequei chorando e o vi trancando esta gaveta assim que me viu entrar no quarto."

Sakura olhou para a amiga, era estranho agora saber que ela era a esposa de Syaoran, do seu marido. As duas ouviram um grito. "Syaoran!" Gritaram as duas em desespero. Sakura pegou uma espátula usada para abrir cartas e forçou a gaveta com toda a sua força. Ela nem mesmo reparou que havia cortado a mão. Tomoyo correu até a porta e correu pelos corredores, ela sabia que não poderia fazer nada, mas precisava tentar ajudar Li. Pegou uma espada sagrada que enfeitava o enorme corredor da mansão e correu para a sala.

Sakura abriu a gaveta e a puxou com força fazendo-a cair no chão. Lá estava o livro lacrado no chão no meio de inúmeras fotografias dela. A moça arrancou a chave do pescoço e com as mãos tremendo e sujas de sangue abriu o livro com ela. Kero apareceu como quando a menina o vi pela primeira vez. Mas ela mal cumprimentou o amiguinho. Pegou as cartas e se levantou.

"Sakura..." Foi a única coisa que Kero falou observando a sua mestra viva e na sua frente.

"Chave que guarda o poder da minha estrela, mostre os seus verdades poderes sobre nós e os ofereça a valente Sakura que aceitou esta missão. Liberte-se!"

O báculo se formou nas mãos da moça e ela pegou a sua carta mais perigosa, mas a mais importante. "Tempo!"

Ela correu de volta a sala acompanhada por Kero que voava ao seu lado, logo ouviu uma explosão, onde uma das portas voou longe. E a bela figura de Ywe apareceu a sua frente. Atrás dele estava Yelan com o pequeno Shaolin nos braços berrando!

"Sakura!" Gritou Ywe observando sua mestra correndo com o báculo nas mãos.

Sakura desceu as escadas e gritou vendo Li com uma das mãos no abdômen que sangrava sem parar. "Syaoran!" Gritou a menina correndo até ele.

O rapaz caiu de joelhos no chão. Ela olhou em volta e viu Reyume caído semi-morto. Sakura correu até Li e o abraçou. O Tempo voltou a correr normalmente e ela pode ouvir a agonia de Reyume finalmente morrendo.

"Tomoyo" Foi a última palavra de Li antes de cair desacordado nos braços da esposa.

"Tomoyo?" A moça virou o rosto e viu a amiga no chão sangrando. "Meu Deus! Tomoyo!"

Sakura olhava para a bela lua cheia que iluminava aquela noite de verão em Hong-Kong. Tudo era tão claro agora para ela. Uma criada perguntou se ela queria mais alguma coisa, a moça respondeu em chinês que não e agradeceu. Ela se abraçou com seus próprios braços pensando em tudo que lhe aconteceu durante estes últimos anos. "Que loucura" Pensou em voz alta. Ela se virou e subiu as escadas, foi em direção ao quarto de Shaolin e lhe deu boa noite com um estalado beijo na testa. Ficou admirando o filho por alguns minutos, ele era tão lindo, tão parecido com Syaoran, pensou para si. Uma lágrima teimou em sair de seus olhos lembrando do tempo que ficou afastado do seu pequeno tesouro.

A moça respirou fundo e cobriu melhor a criança, que se mexeu um pouco antes de cair no sono novamente. Ela apagou a luz do abajur e saiu do quarto, antes de fechar a porta deu uma última olhada para ver se estava tudo bem com o filho.

Sakura caminhou lentamente pelo corredor e parou em frente a porta do quarto de Li. Ela ficou um tempo parada antes de criar coragem e entrar. Li estava deitado com o abdômen enfaixado. Caminhou até a cama e sentou na beirada dela. Levou sua mão até os cabelos dele e fez um pequeno cafuné, mas suficiente para acordar o rapaz.

"Como está?" Perguntou sorrindo.

"Dolorido".

"O médico disse que era para ficar em repouso ao máximo. Está com fome? Posso preparar alguma coisa para você."

"Estou sem fome".

Sakura viu como ele sofria. Tomoyo estava no hospital ainda. Os médicos disseram que seria um milagre a moça sobreviver. Li se sentia culpado, Tomoyo foi gravemente ferida tentando lhe salvar e foi graças a ela que ele conseguiu a brecha para atacar Reyume e o acertar.

"Está certo." Falou se levantando e caminhando lentamente pelo quarto pouco iluminado.

"Como está Shaolin?"

"Está bem, pergunta pela Tomoyo toda hora."

Li levou uma das mãos até a testa. "Droga, é a segunda vez que isso acontece."

"Posso imaginar..."

"Ele fazia a mesma coisa quando você morreu... quer disser... droga."

"Tudo vai ficar bem."

Li se levantou , sentando na cama. "Não, tudo não tem como terminar bem."

'Hei, não pode se levantar! O médico falou que poderia sair do hospital, mas era para permanecer em repouso."

"Eu preciso levantar", falou já se pondo de pé, apesar dos protestos de Sakura.

Ele caminhou com uma das mãos no ferimento até a janela.

"Você não teve culpa."

"Não estou tão certo disso."

"Tomoyo vai ficar boa, eu tenho cer..."

"Tomoyo está morrendo e a culpa é minha! Eu não fui capaz de te proteger, não fui capaz de protegê-la e agora ela está lá, naquele hospital, morrendo!" Explodiu o rapaz.

Sakura sentiu lágrimas rolarem pelo seu rosto, Li virou o rosto evitando fitar a esposa. A moça caminhou até ele e lhe fez um pequeno carinho no braço forte do rapaz. "Você não teve culpa", repetiu.

"Se não fosse por mim, vocês nunca passariam pelo que passaram."

"Se não fosse por você nós nunca seriamos felizes, Syaoran."

Ele virou o rosto fitando a esposa com carinho. Deu um fraco sorriso para ela. Agora ela voltara a ser a sua Sakura, a sua esposa, a mãe de seu filho. "Tomoyo é forte ela irá sobreviver. Tenho certeza disso."

Syaoran respirou fundo, tentando se acalmar novamente. O telefone toca e Sakura o atende. Li ficou admirado ao vê-la falando novamente em chinês como ela havia aprendido com ele. Era tão estranho, agora ela era Sakura, a dois dias atrás era Keiko a moça que ele encontrou dentro de uma casinha humilde. Sakura voltou a vestir as roupas que usava antes, apenas o cabelo permanecia longo, mas agora estava solto, antes ficava sempre preso a uma enorme trança. Ela desligou o aparelho e fitou Li, ele estava tão absorvido pensando na esposa a sua frente que não ouviu o teor da conversa que Sakura teve ao telefone.

"Tomoyo acordou."

Li sorriu. "Vamos ao hospital agora."

"Não." Ela respondeu, "Tomoyo pediu para que eu apenas fosse ao seu leito, ela quer falar comigo."

"Porque só com você?"

"A enfermeira pediu para que eu me apressasse, ela não vai agüentar muito tempo."

"Está me dizendo que..."

"Os médicos não deram esperança para ela."

Sakura fitou Li e depois saiu do quarto, enquanto cruzava o corredor pensou que as coisas nunca mais voltariam a ser como antes entre ela e seu marido, Tomoyo sempre estaria entre eles, seja viva ou em espírito.

Pouco tempo depois Sakura já estava no hospital observando a amiga no leito, Tomoyo estava fraca, respirava graças a ajuda de aparelhos. Sakura pensou que nunca havia visto a amiga tão alva como agora. Ela pegou a mão dela entre as suas. Tomoyo abriu os olhos sentindo o contato.

"Sakura..." sussurrou fraquinha tentando abrir um sorriso.

"Não se esforce tanto, os médicos disseram que era para você descansar", falou lutando contra as lágrimas que se formavam em seus olhos de esmeralda.

"Não se... não se preocupe". Tomoyo fez uma pausa e voltou a fitar a amiga. "Queria te pedir desculpas..."

"Desculpas? Por que Tomoyo?"

"Fiquei no seu lugar e..."

"Não, isso não é verdade. Você fez o que me prometeu, cuidou do meu filho melhor do que eu e cuidou de Syaoran..."

"Eu ocupei o seu lugar... Tomei conta da sua vida... fui a mãe do seu filho, a mulher do seu marido... me desculpe... me...desculpe."

Sakura apertou a mão da amiga mais forte, não controlando mais as lágrimas. "Obrigada, Tomoyo, obrigada por tudo."

As duas ficaram se olhando por um tempo, nenhuma falava nada.

"Você é muito especial, Sakura."

'Você também. Por favor, Tomoyo, não nos deixe, precisamos de você."

"Eu agi mal, eu..."

"Por favor, melhore logo. Eu, Shaolin e Syaoran precisamos de você." Disse interrompendo a moça.

Tomoyo balançou a cabeça negativamente enquanto lágrimas não paravam de sair de seus olhos violetas. Depois fitou Sakura intensamente. "Agora está na vez de você cuidar da minha família, Sakura. Cuide de Shaolin e Syaoran por mim."

O aparelho começou a apitar mais alto, Sakura entrou em desespero vendo a amiga fechar os olhos enquanto ouvia pequenos gemidos dela. "Tomoyo, não, por favor Tomoyo!" A moça saiu do quarto gritando pelos corredores pela enfermeira. Logo um batalhão de pessoas vestidas de branco entraram no pequeno quarto onde a amiga estava deitada. Sakura podia ver os médicos lutando para reanimá-la. Uma enfermeira a puxou do quarto, ver uma pessoa querida morrendo era forte demais para qualquer um, mesmo para ela que também tinha visto a própria morte tão de perto.

Shaolin brincava de um lado para o outro do enorme pátio da mansão Li. Sakura observava o filho correndo atrás da bola, pelo jeito seria tão bom quanto ela em esportes pensou para si com um sorriso. O sol não estava forte, mas o dia estava muito bonito em Hong-Kong. Sakura acenou para o filho que sorriu para ela, vendo que a mãe o observava, começou a melhorar sua performance como jogador. O menino estaria completando logo cinco anos e doía saber que logo ele entraria na escola. Ela tinha perdido quase dois anos da vida dele e gostaria de ficar com ele sempre, além disso ele era o seu entretenimento na enorme mansão Li, ela voltaria a ficar sozinha como antes.

Sakura virou-se para o lado e viu Syaoran. Era estranho o relacionamento dos dois agora, Dormiam em quartos separados e mal se viam, Syaoran voltava a ficar atarefado como antes da gravidez de Sakura, e agora era pior, porque a moça sabia que havia algo mais entre eles além do trabalho e obrigações de Li com sua família. Havia a eterna presença de Tomoyo.

"Voltou cedo? O que aconteceu?" Perguntou a moça.

"Acabei de voltar da delegacia, o caso de Reyume já foi arquivado. Não sou mais suspeito da morte de Wing Chieng."

"Loucura terem pensado que você fosse capaz de matar alguém."

"Mas eu matei." Replicou ele lembrando-se do irmão mais velho e louco.

"Se você não fizesse isso, eu o faria."

Li virou-se finalmente para a esposa, até agora estava apenas observando o filho. Pensou que ela apenas tinha falado aquilo da boca para fora, Sakura seria incapaz de matar alguém, pelo menos, ele achava que sim.

"Mas isso não era motivo de voltar tão cedo, o que mais aconteceu?"

"Acabei de entregar uma carta de renuncia a presidência das corporações Li", falou calmamente.

Sakura arregalou os olhos e se virou rápido para o marido. "Como?"

"Isso mesmo que você ouviu, iremos voltar para o Japão amanhã de manhã. É bom começar fazendo as malas."

Sakura balançou a cabeça ainda um pouco atordoada. "Porque isso?"

"Quero voltar a nossa vida de antes. Antes do acidente. Sorte eu não ter resolvido vender o nosso apartamento em Tomoeda."

"Porque isso, Syaoran? Quer fugir desta casa como fez quando pensou que eu tinha morrido?"

"Talvez" respondeu dando os ombros. "Talvez eu não seja o todo poderoso guerreiro chinês que pensam."

Sakura não sabia se ficava feliz ou desesperada com uma atitude tão drástica de Li. "E a sua família?"

"Minha mãe está bem aos cuidados das minhas irmãs e Meilyn, não há necessidade de estarmos aqui. Acho que vou vender esta mansão já que ela vai se mudar para a casa de Fenmei ou Shiefa."

"Vender esta casa? Os anciões vão enlouquecer."

"Não se preocupe, eles me deram carta branca se eu permanecesse trabalhando na empresa, não serei mais o presidente, mas estarei sempre auxiliando eles."

Sakura sorriu. "Ah já sei! Quer um emprego mais light?"

"Isso mesmo, quero curtir mais a minha família. Perdi você uma vez Sakura, não quero perdê-la novamente." Disse fitando o belo rosto da esposa.

A moça abraçou forte o marido que reclamou um pouco, ainda não estava totalmente curado das feridas da sua luta contra o irmão mais velho. "Desculpa" Pediu ela se afastando um pouco, mas Li a segurou próximo a ele.

"Eu te amo".

Sakura sorriu por pura felicidade, era como se a sombra que vivia sob os olhos de Li tinha finalmente saído. Ela levantou o rosto e tocou de leve os lábios quentes do rapaz. Os dois se beijaram apaixonadamente, tentando de alguma maneira procurar conforto um no outro depois de tantas reviravoltas em suas vidas. Shaolin observou os pais com curiosidade, mas voltou a jogar sua bola e marcar mais um gol espetacular, como ele pensava que era.

"Pronta para voltar a ser a senhora Li Syaoran?" Perguntou Li ainda abraçando a esposa.

"Eu nunca deixei de ser ela, eu apenas tinha me esquecido disso." Respondeu sorrindo.

"Vou providenciar para que nunca mais se esqueça de mim."

Ela fez um carinho de leve no rosto do marido e sorriu. "Nunca mais sairei do seu lado, meu amor."

"Espero que sim, não suportaria viver se você novamente, Sakura."

"Nem eu, sem você."

Os dois voltaram a se beijar. A partir daquele momento poderia nunca mais ser como antes, mas isso não importava, pois eles estariam novamente juntos e reconstruiriam suas vidas novamente, como sempre fizeram.

Eriol estava apoiado num dos balcões do aeroporto de Londres. Nakuru estava ao seu lado visivelmente contrariada.

"Porque estamos aqui, mestre Eriol? O senhor veio se encontrar com alguém? Ai não agüento mais ficar em pé com estes sapatos altos, como estas humanas conseguem usar algo tão desconfortável?"

"Nakuru, tome!" Disse Eriol lhe estendendo uma quantia de Libras. "Vá fazer compras no shopping."

Nakuru abriu um enorme sorriso e pegou rapidamente as libras da mão de seu mestre. "Obrigada mestre, vou comprar um monte de roupas!"

Eriol observou sua guardiã se afastando dando saltinhos pelo ar. Era incrível como Nakuru ao mesmo tempo que reclamava da sua condição de humana adorava os prazeres femininos humanos. Ele ajeitou os óculos no rosto e fitou o painel onde informava os vôos que chegavam e saiam do aeroporto. Olhou para o relógio e respirou fundo. Talvez fosse apenas impressão pensou, a muito tempo não usava magia, talvez estivesse enferrujado um pouco, pensou para si. Ele se desencostou do balcão e ajeitou o casaco no braço, estava pronto para ir embora quando o portão de desembarque abriu saindo de dentro dele inúmeras pessoas apressadas para cumprimentarem seus entes queridos ou correrem para o trabalho, pois estavam atrasados.

Eriol olhou para o grupo tentando procurar alguém, pensou que realmente estivesse enlouquecendo de vez, quem ele estaria procurando entre aquelas pessoas se nem ao menos sabia de onde aquele vôo estava vindo?

Sua resposta veio quase um minuto depois. Uma bela moça vestida simples, mas com elegância vinha puxando uma malinha com rodinhas em direção a saída. Ele sorriu vendo aquela bela figura. Era nítido que estava um pouco abatida e mais magra do que da última vez que eles se viram, mas os olhos, os olhos continuavam com o mesmo belo brilho de quando eles se viram pela primeira vez aos 11 anos de idade.

A moça o avistou e ele pode ver que ela se assustou com a presença dele ali. Eriol caminhou até ela e cumprimentou com a cabeça.

"Como está, Tomoyo?"

A moça abriu um bonito sorriso depois que se recompôs do susto. "Estou bem. O que está fazendo aqui? Como soube que eu vinha para Londres?"

"Mágica!" Respondeu com o mesmo sorriso malicioso de sempre.

"Certo! Por acaso não foi uma mágica chamada 'telefonema de Sakura'?"

"Não, com certeza você pediu para que ela não me avisasse, e pelo que conhecemos da bela mestra das cartas, ela nunca a desobedeceria."

"Sei."

"Poço ajudá-la com as malas?" Perguntou já pegando das mãos dela. Tomoyo deu os ombros e não recusou a ajuda.

Os dois caminharam em direção a saída do aeroporto conversando sobre os últimos acontecimentos, mas logo mudaram de assunto.

"Tem uma exposição de Picasso no museu principal de Londres."

"Jura? Que máximo!" Se animou a moça, "Faz tanto tempo que não visito uma boa exposição!"

"Podemos marcar então. É mais agradável quando estamos acompanhados por pessoas que apreciam as mesmas coisas."

Tomoyo sorriu e Eriol retribuiu. O rapaz abriu a porta do carro para que a ex-esposa entrasse, depois colocou as malas atrás e contornou o carro. Antes de entrar deu uma olhada para o céu nublado da velha Londres e depois entrou no carro onde sua bela alma-gêmea o esperava.

*****FIM*****