Capítulo IX

O Pérola mantinha seu curso para Port Royal, e o fazia numa velocidade admirável, como era de se esperar para aquela embarcação em especial. Afinal, o Pérola Negra era uma lenda nos mares que singrava rapidamente. Não pegaram tempestade ou nenhum problema sequer até aquele momento. Elizabeth estava em sua cabine, analisando mais uma vez os mapas que Jack deixara sob seus cuidados. Olhava atentamente o trajeto assinalado por ele entre as ilhas do caribe até chegar à costa da Flórida, onde pairava um ponto sob o qual havia escrito: "Aqua de Vida".

Ela suspirou, recostando-se na cadeira e fixando o olhar num ponto vazio do quarto, perguntando-se em voz alta:

- Será que conseguiremos livrar Will do maldito Holandês Voador?

Fechou os olhos, deixando que as lágrimas escorressem pelos cantos, traçando finos rios sobre seu rosto. Há dez anos convivia com aquela ausência, mantendo acesa a chama que ardia em seu peito desde a última vez que o vira. As imagens de seu último encontro com ele gravadas a fogo em sua mente, em sua pele. Bastava pensar em Will para que voltassem tão reais e intensas quanto foram naquele dia.

Logo depois que ele partiu, Elizabeth voltou ao mar, e se entregou à pirataria, mas uma dúvida sempre pairava em seus pensamentos: seria esse seu destino até reencontrá-lo? Vagar no mar na esperança de vê-lo, mesmo que ao longe?

A resposta a sua pergunta veio em forma de um novo ser que crescia dentro dela, e por alguns meses viu-se obrigada a interromper suas viagens. Desfrutando imensamente do fato de que seria mãe. Will não podia tê-la deixado com uma lembrança melhor daquele dia, nem entregue a mãos mais carinhosas e protetoras. O pequeno William trouxera uma nova razão para Elizabeth ansiar mais ainda pelo próximo encontro a nove anos, e a passagem deles não foi menos feliz. Conforme o menino crescia, Elizabeth o levava com ela em suas aventuras. Eram cúmplices, amigos e piratas.

Um sorriso aflorou em seu rosto ao pensar no filho. Como sentia falta dele nos últimos dois meses, e como foi difícil se separar do menino. Mas aquela não era uma viagem para um jovem da idade dele. Apesar dos protestos de Jack, ela resolveu deixá-lo em mãos seguras, na cidade de Port Royal. Afinal, não se sabe o que se pode encontrar quando se lida com piratas; ela sabia disso muito bem. O que Jack oferecera era de fato um alento para seu coração, mas não sabia o preço que teria que pagar por isso. Antes de viajar, no entanto, tomou a decisão de deixar com o filho a localização do baú onde estava o coração de Will. Caso ela não voltasse, ao menos ele saberia que ela o havia esperado, e lutado pela felicidade de ambos, até o último momento.

Nada importava mais para ela do que aqueles dois homens, nada lhe era mais caro; e em nenhum momento ela hesitaria em arriscar sua vida para mantê-los inteiros e resguardados. A falta de Will agora era substituída pela frágil alegria de poder vê-lo uma vez mais, de poder apresentá-lo ao filho. Elizabeth deixou-se levar pela imaginação, a vontade de tocá-lo, beijar seus lábios, senti-lo... A emoção de tê-lo mais uma vez em seus braços. Sem perceber, ela crispou as mãos sobre os próprios braços, num abraço acolhedor dos braços que não estavam ali. Deixou-se acalentar pelo calor do corpo que não estava junto ao seu, e beijou a brisa que entrava pela janela, num desespero cego de torná-lo real.

Deitou a cabeça sobre os mapas, encobrindo-a com os braços, enquanto vários soluços atravessavam seu corpo e os lábios murmuravam:

- Will...

Ela não percebeu o dia amanhecer e o sol resplandecer no horizonte, só acordou com a batida insistente na sua porta, que não parecia ter sido a primeira.

- Entre – ordenou, a voz ainda meio rouca.

Gibbs entrou com o que parecia ser o dejejum, e Elizabeth saudou-o preguiçosamente:

- Bom dia, Sr. Gibbs.

- Bom dia, Capitã. – Sorriu. – Estamos perto do porto de Ponta Negra. Não seria bom tentarmos negociar algumas provisões?

Elizabeth se levantou, indo até a janela da cabine e fitando o céu azulado durante alguns minutos.

- As condições para a viagem se mantém favoráveis, e nós estamos três dias adiantados. – Manteve um sorriso nos lábios ao virar-se e encarar o imediato do Pérola. – Diga aos marujos que essa noite dormirão em braços macios.

- Sim, Elizabeth... – respondeu, confuso, e se corrigiu: – Quero dizer, capitã.

- Mas não se esqueça, quero-os embarcados amanhã nos primeiros raios de sol – completou, séria.

- Não faltará um! - Sorriu e, fitando-a com atenção, perguntou:- Você não vai à terra?

- Não – disse simplesmente, tomando o líquido da caneca a sua frente, enquanto repassava algumas de suas anotações.

- Eu não gosto de me intrometer, mas... - Usou um tom ameno, mas foi interrompido por ela.

- Eu fico. – Ela o encarou, firme. – Arranje as provisões necessárias e uma bela e fogosa morena, sr. Gibbs... - E, levantando o dedo indicador, completou: - Rum, não se esqueça do rum.

Um leve sorriso aflorou em seus lábios, não conseguia deixar de pensar em Jack quando a conversa girava em torno do rum.

- Não quer mesmo descer e ver outras paisagens? - insistiu o imediato.

- Outras paisagens, você diz? – ela gracejou. – Não gosto de mulheres, Sr. Gibbs. Nem tampouco de rum... O que faria em Ponta Negra?

- Se é assim... Vou avisá-los e repassar suas ordens, capitã – anuiu, e virou-se para sair.

Elizabeth levou novamente a caneca aos lábios enquanto voltava sua atenção para as anotações sobre a mesa.

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Porto de Mahajanga – Canal de Moçambique

Um homem maltrapilho andava pelo cais, seus olhos vagueavam estreitos por cada embarcação ancorada ali. Os passos eram meio trôpegos, não por bebida ou nada parecido, mas simplesmente por estar há dias no mar. A exaustão e a fome serviam-lhe de companhia, quando um homem de idade avançada e estatura mediana, roupas encardidas e mau cheirosas com um lenço amarrado sobre os cabelos castanhos, saiu de trás de alguns caixotes, impedindo-lhe a passagem. O homem roto fixou sua atenção no rosto sulcado e queimado de sol a sua frente, e num tom firme exigiu:

- Saia da frente!

O marujo sorriu-lhe, mostrando a falta de alguns dentes na boca, e rebateu sério:

- Capitão Long Silver?

- Isso depende de quem o procura – retrucou com malícia.

- Meu nome é Bill Trevis, sou o imediato do Storm – disse, analisando-o atentamente.

- Está certo – retrucou irritado. - Mas a que devo a honra de ser reconhecido por um pirata?

- Talvez ao fato de já ter sido um, não concorda? – Bill disse mordaz. – Não temos muito tempo, capitão, se quisermos seguir o Raio. Sugiro que as apresentações parem por aqui e subamos a bordo. – Com os olhos brilhantes, completou: - Lá dentro também encontrará algo para saciar sua sede e fome. – Sem esperar uma resposta afirmativa, o imediato seguiu por entres os barris, conduzindo-o até o navio.

- E que tipo de embarcação é o Storm? – Long Silver perguntou, seguindo apressadamente o homem a sua frente. Tudo parecia ainda muito surreal para, e ele se perguntava como Calypso conseguia aquelas coisas com tanta facilidade.

O Sr. Trevis parou em frente a um imponente navio de quatro mastros e, num gesto eloqüente demais para o gosto de Silver, respondeu:

- Um galeão!

- Não era para ser uma caçada? - replicou Silver, analisando o calado do navio. A análise continuou pelas velas púrpuras que tremulavam ao vento e sobre o costado, onde se via duas fileiras de canhões. – Essa belezura vai demorar décadas para chegar a algum lugar. O Raio nos deixará para trás facilmente.

- Não duvide da velocidade desse navio! - rosnou o homem, e completou: - Suba logo!

- Como queira! - respondeu rude e tomou a direção da rampa.

O navio era de fato grande, mas naquele momento, Long Silver precisava saciar sua sede e sua fome. Um jantar digno de um bom capitão lhe foi trazido em sua cabine, a qual o imediato de pronto lhe mostrara quando subiram a bordo. A tripulação do Storm ainda se divertia pela cidade, mas em pouco tempo estariam de volta ao navio e sob suas ordens. Long Silver se serviu de vinho e arrancou um pedaço grande da coxa de uma galinha.

Revigorado, ele resolveu inspecionar o Storm, e junto com Trevis, reviraram cada parte do navio. Tudo parecia em ordem, inclusive as provisões para a viagem. Só faltava a tripulação para que zarpassem rumo ao Caribe, e já que teriam que esperá-la por ainda algum tempo, abriram uma garrafa de rum. Depois de alguns goles, estavam debruçados sobre a amurada da popa e o Sr. Trevis comentou:

- Parece menos arredio agora, capitão. – Sorriu e tomou mais um gole. – Como vê, o Storm está bem equipado para nossa viagem e fará dentro do prazo.

- Não duvido – respondeu, enquanto fitava o horizonte e levava a garrafa aos lábios. – Diga-me, tem muitos assuntos pendentes com ela, também?

- Não muitos – gracejou -, mas sou um pirata, e qual de nós alguma vez não fez um pedido para Calypso, ou não aceitou um acordo em troca de algo?

- Então, isso é um pagamento? - Silver sorriu ao encará-lo.

- Talvez. – O imediato o olhou mordaz. – Entretanto, espero tirar proveito de alguma forma dessa longa viagem.

- Como todo bom pirata – concordou Silver.

- Justamente – assentiu.

Alguns marujos começavam a retornar para o navio, ou seja, a aurora não tardaria acontecer. Trevis devolveu a garrafa para Long Silver e, antes de deixar a ponte de comando, disse:

- Rumo ao Caribe, capitão?

- Sim, Sr. Trevis. – Com um sorriso mordaz completou: - Sabe exatamente o que fazer. Quero esse navio a toda velocidade atrás do Raio!

- Sim, senhor – anuiu, descendo as escadas em direção a proa.

Um leve brilho cintilante passou por seus olhos, enquanto os primeiros raios pálidos de sol começavam a surgir no horizonte.

- Eu vou atrás de você, Sparrow... – murmurou. – Nem que seja a última coisa que eu faça em minha vida!

Ao longe ele podia ouvir as palavras do imediato:

- Abrir as velas, levantar âncora! – bradava o homem. – Andem com isso seus molengas!

Silver foi até o leme e virou-o a bombordo. O Storm começava sua viagem deslizando suavemente pelo canal de Moçambique.

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Havia duas semanas que tinham deixado o sul da África, rumando para o porto de Ponta Negra. Jack estava em sua cabine calculando a distância a ser percorrida e o tempo que ainda levariam até chegar em Tortuga. Os mapas de navegação que Silver possuía não chegavam nem perto dos que estavam com Elizabeth a bordo do Pérola, e ele bufou, largando o compasso displicentemente sobre a mesa.

Voltou sua atenção para a garrafa de rum sobre a mesma e bebeu um longo gole. Correu o olhar pelo aposento, deixando-o cair sobre a cama ao canto e deu um leve riso de desdém, lembrando-se de Amira. Desde aquela fatídica noite, ela não lhe dirigia uma palavra sequer, preferira até dormir com a tripulação, exatamente na cela onde Jack a achara. É incrível o que uma mulher faz num navio – pensou sorrindo. Dias antes inspecionara, por "curiosidade", o porão do Raio. Não que ele temesse que Amira fosse atacada por algum daqueles homens, mas intimamente, ansiava por ver como ela estava se virando lá embaixo. Descobriu que ela havia improvisado um pequeno cômodo dentro da cela e que quaisquer olhos curiosos não a invadiriam sem permissão, alguns pedaços de madeira formavam uma parede ao redor da pequena estrutura. Não voltou de todo satisfeito com o que vira, preferia que ela tivesse se rendido ao conforto de ficar em sua cabine, mas não estava surpreso, conhecendo-a como a conhecia, ela dificilmente o perdoaria pelo que fez.

Levou mais uma vez o rum aos lábios e murmurou:

- Como pode ser tão turrona? - Fez uma cara de desprezo que depois se transformou num leve sorriso.

O dia amanheceu como todos os outros, o vento continuava favorável e o Raio cortava rapidamente as águas do Atlântico. Jack subiu até o convés e encontrou o Sr. Craven debruçado sobre a amurada. Perguntou desconfiado:

- Algum problema, Sr. Craven?

- Não, senhor – o homem respondeu, assustado. – Estava apenas apreciando as águas calmas que estamos navegando. – E acrescentou rapidamente, antes que Jack o deixasse sozinho sem respostas: – Nunca fiz uma viagem em tão boas condições, Capitão.

- Vá se acostumando, meu caro. – Sorriu mordaz. – Não creio que haverá muitas mudanças no tempo durante nosso caminho até Tortuga. – E completou, satisfeito consigo mesmo: - Os deuses estão do nosso lado...

Entretanto, essa pequena observação o fez olhar para ponte de comando, e seus olhos se fixaram na figura feminina ao leme, os cabelos negros ao vento. O Sr. Craven percebeu o olhar estreito de Jack sobre Amira, e arriscou um gracejo:

- Parece que já temos uma a bordo, não, Capitão?

- Sr. Craven... - Jack o fitou com os olhos escuros, mas usou um tom suave ao falar. – Não se deixe enganar pela aparência das mulheres, todas têm seus ardis. – Sorriu-lhe complacente. – Eu não arriscaria meu pescoço para dizer isso a ela, e aconselho que ninguém o tente fazer. Entenda, o último que tentou tocá-la acabou com uma cicatriz no rosto. – E sussurrou com seus modos afetados: – Foi criada no mar, age praticamente como eu ou você. Não vale a pena.

- O senhor está me dizendo que foi ela quem fez aquela cicatriz no capitão Long Silver? - devolveu-lhe no mesmo tom a pergunta.

- Exato! – rebateu Jack. – Acredite em mim, mon ami, só o rosto é de anjo.

Craven olhou para Amira estupefato, enquanto Jack sorria vitorioso, sem que ele percebesse. Quando Craven voltou seu rosto para onde Jack estava, ele já havia deixado o convés. Como Jack dissera, não houve alteração nenhuma nas condições de viagem, e na noite do dia seguinte, atracaram em Ponta Negra. Os marujos desceram para terra, e Craven foi até a cabine falar com Jack.

- Capitão? - disse ao entrar.

- Sim, Sr. Craven? - Jack estava debruçado sobre uma pilha de papéis.

- Os homens já foram à terra, senhor.

- Sim – assentiu sem levantar seu olhar para o imediato. – Pode fazer o mesmo, mas não se esqueça das provisões e do rum, meu bom homem.

- O senhor não vem conosco? - indagou preocupado.

- Não, alguém precisa ficar e cuidar do navio – disse indiferente. - Em qualquer outra ocasião eu me sentiria tentado a descer, compartilhar a bebida e arrumar uma bela rapariga, mas hoje não...

- Se é assim... – anuiu, desconcertado.

- A senhorita deixou o navio? - A voz dele tinha uma leve nota de preocupação.

- Não, senhor – o imediato respondeu, firme.

- É tudo – disse. – Pode ir...

O Sr. Craven fez mais um meneio com a cabeça e deixou a cabine. Só nesse instante foi que Jack interrompeu o que fazia, os olhos brilhando em direção à porta. Dois quartos de hora depois, ele se levantou, deixando o aposento.

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N/A: Primeiramente, eu gostaria de informar que Long Silver pode parecer um nome deveras familiar a alguns, e de fato o é. Eu não fiz propositalmente, mas acabei esbarrando no fato de que no livro "A Ilha do Tesouro" de autoria de Robert Louis Stervenson, existe um Long John Silver, em nada o meu Long Silver tem haver com este, mas fica aqui minha homenagem ao autor e sua obra. Há também no livro referências a "Marca Negra" e as peças de oito, não com o mesmo intuito do filme, mas acredito que haja uma tênue ligação entre os nomes. Bom, para aquelas que adoram consumir um livro como eu, fica aí a dica. O porto de Ponta Negra descrito na fic se situa na República do Congo, África.

"Segundamente e reverencialmente"... Eu gostaria muito de agradecer todas as reviews deixadas por vcs, em especial: Ety, Aline, Mah, Cap"Lara, Lady Morgan e Dora... Vcs naum sabem como fico feliz com cada palavrinha que me deixam, com todo o carinho que recebo de vcs! Muito obrigada!