Capítulo 8
Harry não conseguia se lembrar de uma época em que estivera tão frustrado. Nada parecia melhor do que parar a caminhonete e dar um sermão no irmão, ou um soco.
O que ele estava pensando? Beijar Gina? Depois de tudo que aquele idiota traidor tinha aprontado com ela? O mais nojento era que Gina parecia estar bem com todo aquele suplício. Era como se ela estivesse vendendo a alma ao diabo.
Mas, em defesa dela, Gina sempre tinha visto Rony com bons olhos. Enquanto isso, Harry, com sua gagueira, era o irmão mais velho malvado enviado para destruir o mundo com uma puxada de rabo de cavalo de cada vez.
Como podia um único olhar da garota enviá-lo de volta ao ensino médio, quando ela escolheu o irmão em vez dele? Não que ela soubesse de sua paixonite ridícula. E a gagueira dele não tinha ajudado. No mínimo, piorava as coisas. Ela entendeu o silêncio dele como ódio. Na verdade, ele tinha medo de abrir a boca porque a gagueira piorava quando ela o pressionava a falar com calma.
Tinha sido muito mais fácil perseguir a garota e provocá-la do que lhe dar as palavras bonitas que Rony dava com tanta frequência.
Mas isso não significava que Harry não nutria sentimentos por ela.
Reprimindo um xingamento, ele parou no centro da cidade. Por sorte, o escritório ficava a poucos minutos da casa de seus pais.
O arranha-céu alto brilhava na chuva sombria. O nome "Potter Enterprises" cintilava sobre a paisagem da cidade. Lutando contra a vontade de fazer cara feia para o dinheiro que o prédio obviamente representava, ele sacudiu a cabeça levemente. Não quisera uma parte nos negócios da família. Não, essa tarefa tinha sido destinada a seu irmãozinho, e Rony dava conta.
Harry tinha usado a poupança criada em seu nome e alimentada até sua maioridade para abrir o próprio rancho e criar cavalos. O rancho também funcionava como pousada. Vinte acres maravilhosos davam vista para o rio Columbia. Isso era vida, enquanto estar na cidade era sufocante. Ele puxou a camisa.
Harry parou a caminhonete, e Rony saltou.
— Eu chamo um carro quando terminar. Não devo levar mais do que uma hora. Te vejo depois, Gina. Tenta não matar o Harry enquanto eu não estiver por perto, está bem?
— Não posso prometer nada! — Gina o dispensou com um aceno e virou os olhos cheios de ódio para Harry. — Então, você tem algum plano imediato pra me matar e enterrar o corpo?
— Debaixo de uma árvore, acho. — Harry trocou a marcha da caminhonete e entrou no trânsito. — Ou, talvez, debaixo do balanço. Eles nunca vão te procurar ali.
— Rá, rá, você é hilário.
— Eu gostaria de pensar que sou. Agora, que negócio é esse de Ron te beijar? Quero dizer, eu sei que não é da minha conta, mas você não devia manter isso no nível profissional? Afinal, ele está te pagando...
— ... como uma das prostitutas dele — completou Gina. — Mas, tecnicamente, ele não está me pagando. Quero dizer, está, ele vai pagar meus empréstimos estudantis. Além do mais, estou fazendo isso pela vovó. E, de alguma forma, eu descobri que dentro do meu peito bate um coração enorme. Eu meio que devo umas ao Ron. Ou, pelo menos, ele me fez achar que eu devo.
— Eu não ia dizer que você era uma prostituta. — Harry tossiu. — Então ele realmente tem namoradas prostitutas? — Harry sacudiu a cabeça em desaprovação. — Talvez devêssemos deixar esse pequeno detalhe de fora deste fim de semana. A saúde da minha avó e tal.
— Concordo. — Gina bufou. — Ela teria um derrame se soubesse como seu irmãozinho Rony ficou egoísta. Mas eu o amo de qualquer maneira. — Gina suspirou.
— Aparentemente, senão você não estaria aqui. Mas, por outro lado... as coisas nem sempre são o que parecem, né, Gina? — Harry pigarreou.
— Apenas dirija a caminhonete, Harry. Estou com fome, e meu estômago está embrulhado depois daquele voo idiota.
Harry colocou a caminhonete em movimento.
— Ainda tem medo de voar?
— Achei que tinha superado, mas acusei um religioso de ser terrorista.
Harry riu.
— Em voz alta? Caramba, mulher, talvez seja melhor você voltar de trem.
Os olhos de Gina se iluminaram.
— Plano brilhante, mas leva três horas.
— Eles têm um bar.
— Onde posso comprar a passagem?
Harry deu um risinho enquanto voltava ao trânsito.
— Eu cuido disso, tá? Mas para de falar terrorista em aviões, pelo bem da sua sanidade e da sua segurança, garotinha.
— Não sou uma garotinha — soltou Gina.
A caminhonete parou no sinal vermelho. Harry virou para olhar Gina, cada pedacinho de mulher que ela era. Desde os lábios carnudos até o corpo certinho.
— É, eu sei, Gin. Eu teria que estar morto para não perceber isso. — Seu corpo criava vida quanto mais ele olhava para ela. Bem, isso era desconfortável.
— Uau, um elogio do garoto que costumava fazer xixi nas calças quando via um palhaço. Estou emocionada, de verdade. — Gina piscou e inclinou a cabeça.
— Foi só uma v-vez! — O sinal ficou verde, e Harry apertou o acelerador com fúria. — E o palhaço sabia o meu nome, Gin. Qualquer criança ficaria com certo medo. Aliás, obrigado por isso.
— O que você quer dizer, Harry?
— Você disse meu nome pro palhaço. Admite. Admite ou eu te deixo na pista de patinação no gelo.
— Você não faria isso!
— Faria, e vou fazer. Me diz, quantas mortes acidentais acontecem todo ano por causa de acidentes na patinação no gelo?
— Você é uma peste!
Harry deu um risinho.
— É o que você diz.
— Ótimo, eu disse seu nome pro palhaço, mas só depois que você me fez tropeçar.
— Ah, vitória, finalmente. — Harry suspirou. Olhou de relance pelo espelho retrovisor e viu Gina fazer uma cara feia e cruzar os braços. — Gin, não podemos pelo menos tentar ter um bom relacionamento enquanto você está aqui? Afinal, de acordo com toda a minha família, você está prestes a ser a nova nora. Eu odiaria dar a eles a impressão de que vou te matar enquanto você estiver dormindo.
Gina gemeu.
— Você está certo. E não ouse me olhar com triunfo! Isso é tudo pela vovó, tá? Estou fazendo isso pela vovó. — Ela cantarolou vovó cinco vezes antes de parar. — Harry?
Era a primeira vez que ela falava o nome dele em vez de um xingamento ou do seu apelido preferido de pestinha.
— Sim, Gin?
— Ela vai ficar bem?
— Quem? A vovó? — Ele deu um risinho enquanto entrava na grande propriedade também conhecida como "Abadia Potter". — Gin, acho que a vovó poderia passar por uma guerra nuclear e ainda assim ficar bem. Não se preocupe demais, tá? Além do mais, ver você vai fazer toda a diferença. Ela está ficando toda sentimental na velhice.
— Mas... — Gina suspirou.
Harry parou na entrada de carros, desligou o carro e virou para ver Gina roendo as unhas.
— Mas o quê? — perguntou ele.
Com as unhas ainda na boca, ela respondeu:
— E se ela descobrir? Quero dizer, duvido que Rony sequer tenha contado à vovó que não é de verdade. Então ela vai achar que estamos juntos, e...
Harry engoliu em seco para dissolver o nó que se formava na garganta. Naturalmente, essa também era uma de suas preocupações. Se a vovó descobrisse... bem, Harry teria prazer em apontar para Rony, sacudir a cabeça e acusá-lo. Mas o problema era que a avó amava Gina. Se soubesse que eles a estavam enganando para fazê-la se sentir melhor e para fazê-la acreditar que Rony era mais responsável do que ela pensava...
Então, bem, ele achava que não seria legal. Afinal, a vovó trabalhou na CIA, embora ele fosse o único membro da família que tinha conseguido arrancar essa informação da velhinha.
— Ela não vai descobrir — confirmou Harry. Porque, se ela descobrir, eu odiaria ser o meu irmão.
N/A: como eu havia falado no capitulo anterior, ai esta o capitulo 8. espero que gostem e ate o próximo.
Beijos e boa leitura :D
