BRENNAN

Por um segundo inteiro eu deslizei naquele beijo, levada pelas minhas emoções afloradas, a carência à flor da pele. Mas então logo eu estava congelada, paralisada diante dele, porque aquilo era muito mais que um beijo. Eu podia senti-lo como nunca tinha sentido antes, não havia nada menos que entrega ali e isso me assustou ferozmente. Booth sentiu a minha mudança, mas sua reação foi apertar-me ainda mais em seus braços e aprofundar o beijo. Eu me debati algumas vezes contra ele, até que finalmente consegui fazer com que ele me soltasse. Boca vermelha, respiração arfante e um mar de dúvidas em seus olhos.

Ele me encarou por um longo tempo, parecendo procurar respostas em mim. Respostas que eu mesma queria encontrar, porque eu não tinha ideia do que havia acontecido aqui. Depois de alguns minutos, o silêncio se tornou pesado demais e eu fui a primeira a quebrá-lo.

-você, definitivamente, tem que parar de me beijar. Eu sei que é um impulso forte, uma clara reação movida pela nossa relação passada, mas nós somos amigos agora, Booth. E, antropologicamente, amigos não se beijam. –ele me olhou confuso, como se eu nem mesmo estivesse falando sua língua. O silêncio voltou mais uma vez.

Booth desviou seu olhar para o chão, me fazendo refletir sobre as minhas palavras. Talvez eu tivesse dito algo que o magoou ou talvez toda a minha história tivesse sido demais para ele, ele finalmente tinha percebido que eu não era uma boa pessoa.

-olha, eu sei que não é fácil ouvir tudo o que eu disse, não é uma história bonita. Eu vou entender se...-respirei fundo, eu estava prestes a dar a ele a oportunidade de se afastar sem ressentimentos, porque isso estava doendo mais que qualquer coisa? – eu vou entender qualquer decisão que você queira tomar.

De repente sua cabeça disparou para cima, seu olhar se fechado com o meu em uma intensidade fora do comum. Ele balançou a cabeça algumas vezes antes de começar a falar.

-você não entendeu nada, não é? Você nunca entende! –ele disse em forma de acusação, decepção pingando em sua voz. Nós estávamos indo por um caminho totalmente confuso para mim.

-como assim eu não entendo nada? –perguntei na defensiva, ele não podia simplesmente sair me acusando sobre coisas que eu nem mesmo sabia o que era. –Booth, do que você está falando?

Mais uma vez o silêncio. Booth se levantou do sofá e começou a caminhar lentamente pela sala, suas mãos enfiadas em seus bolsos, sua expressão parecendo perturbada. Eu estava começando a ficar preocupada, revivendo toda nossa conversa mais uma vez em minha mente para tentar encontrar o meu erro. Mas quanto mais eu puxava pela memória, menos eu tinha ideia sobre o que ele estava falando.

-Eu disse que quero cuidar de você, te proteger. Que eu nunca mais deixarei você sozinha...-ele repetiu suas palavras de antes, como se eu não lembrasse delas. Eu jamais esqueceria aquelas palavras.

-e eu agradeço muito por isso. A sua amizade, mesmo que curta, significa muito para mim, Booth. Foi por isso que eu contei a você toda a minha história. Foi uma prova de confiança. –eu esperava que ele entendesse o que aquilo significava, eu nunca tinha dito isso para outra pessoa a não ser Angela. Eu queria que ele soubesse quem eu era de verdade, como eu havia chegado até aqui.

-eu não quero ser seu amigo! –ele disse cada palavra pausadamente, dando ênfase a cada uma delas.

-eu sabia que isso poderia acontecer. É algo bastante aceitável depois de tudo que contei, não se sinta culpado. –custou-me muito dizer aquelas palavras, mas eu não tinha outra opção a não ser aceitar a sua decisão.

-porque é sempre tão complicado conversar com você? –ele pareceu fazer essa pergunta retoricamente, então eu não respondi. –o que eu estou querendo dizer é que...isso não está funcionando, pelo menos não para mim. Eu não quero ser apenas seu amigo. Não posso mais sentar ao seu lado e fingir que nada está acontecendo, porque eu estou mentindo para mim mesmo e isso está me matando. Desde o dia que eu te conheci eu soube que algo não estava certo, na verdade estava certo demais. Você acha que todas essas coisas que me falou me assustaram? Bem, você está completamente enganada, elas só me fizeram te querer mais. E eu cansei de segurar isso para mim, Bones. Eu nem mesmo sabia que estava segurando até que me dei conta que eu tenho esses sentimentos por você e eu não quero mais escondê-los.

BOOTH

Era como se um peso tivesse saído de mim quando eu terminei de falar. Eu sabia o que toda minha confissão poderia me custar, mas eu precisava arriscar. Ver Bones tão quebrada enquanto me contava sua história tinha me feito entender o que eu já desconfiava sentir antes. E o fato dela ter confiado em mim para me contar tudo que aconteceu selou minha decisão. Eu esperava que o beijo fosse o suficiente para fazê-la entender, mas eu deveria saber que ela me faria dizer as palavras, ela sempre tornava tudo mais complicado. E talvez esse fosse uma das razões que me fizessem sentir o que sinto.

Ela ainda estava parada e olhando para mim, eu não tinha ideia sobre o que ela estava pensando ou sobre como ela reagiria, mas no fundo eu só queria que ela me dissesse que se sentia da mesma forma e que me deixasse cuidar de todas suas feridas do passado.

-você não sabe o que está falando. Quanto você bebeu esta noite, Booth? –foi tudo que ela disse inicialmente. Ela esperou que eu respondesse, que talvez eu fosse confirmar o que ela estava dizendo, mas eu só continuei lá, parado de frente para ela, encarando-a. –nós somos amigos, lembra? Isso é só uma grande confusão! Só uma reação perfeitamente normal a tudo que você ouviu de mim. Antropolgica...

-não me venha com essas suas "reações antropológicas", Bones. –eu a interrompi antes que ela pudesse terminar. –você não pode explicar o que eu sinto com antropologia. Eu fiquei tocado pelo que você me contou? É claro, eu sou um ser humano, assim como você é! Mas os meus sentimentos, eles já estavam aqui antes, eu só não sabia reconhecê-los.

Sentei ao lado dela mais uma vez, esperando que ela me dissesse algo. Por mais que eu soubesse que essa batalha já estava perdida antes mesmo de começar, uma parte de mim confiava que ela se sentia da mesma forma, que ela me deixaria entrar e nós poderíamos consertar as coisas juntos.

Eu queria continuar falando, talvez assim eu pudesse convencê-la, mas as palavras sumiram. Tudo que eu consegui fazer foi ficar lá, sentado enquanto esperava sua resposta.

-eu não sinto o mesmo que você sente, Booth. Eu não consigo. –ela disse depois de um longo tempo, seus olhos nunca encontrando os meus enquanto ela falava. –não há espaço para um relacionamento aqui, porque eu não acredito nisso. Relacionamentos são falhos, eu já tive a minha prova. Você se apaixonou pela pessoa errada, eu sinto muito.

No fundo eu sempre soube que ela me rejeitaria, mas realmente ouvir aquelas palavras era muito mais difícil do que eu imaginei. Minha boca se abriu para contestar, para dizer que ela estava errada, mas seria inútil. Ela não se abriria assim tão fácil, ela nunca teve motivos para isso. Bones não confiava em ninguém e muito menos confiava que fosse capaz de sentir algo, ela não se permitiria.

Mas eu mostraria a ela que poderia ser diferente. Que era diferente agora.

-como ficamos agora? –ela perguntou, finalmente olhando para mim. No fundo dos seus olhos eu vi o medo de ser abandonada mais uma vez. Ela precisava mais de mim do que ela mesmo sabia.

-você continua sendo minha Bones e nós continuamos amigos. –eu sorri para ela, tentando mostrar de todas as formas que eu não me afastaria. –nada mudou, ok?

Ela me deu um aceno de cabeça e um sorriso tímido em forma de agradecimento. A puxei para um abraço apertado em vez disso, eu a seguraria em meus braços para sempre se fosse necessário.

A noite havia sido mais que cansativa para nós dois, então eu resolvi que era hora de ir embora. Bones não protestou, acho que ela precisava do seu tempo sozinha, depois de tudo. Nós caminhamos em silêncio até a porta e não dissemos nada até que ela a abriu. Seus olhos me encararam timidamente, incerta sobre o que dizer e mais uma vez eu sorri para ela.

-está tudo bem, Bones. Não se preocupe comigo. –eu comecei, querendo tranquilizá-la. –eu sei que você passou por muita coisa e que não tem nenhuma razão para acreditar no que eu sinto. Mas eu vou provar a você que eu não vou embora e eu prometo a você, eu nunca vou te magoar. Pode contar com isso.