CAPÍTULO IX
Bella ficou desorientada ao cair na água escura. Afundou devagar devido ao peso do vestido que molhava aos poucos. Tão logo seus pés tocaram o fundo, conseguiu en direitar o corpo e erguer a cabeça até a superfície. Entre tosses e espirros, inspirou o ar quando um par de mãos agarrou-lhe a cintura.
— Eu disse para ficar quieta, Isabella!
A ira contida na voz de Edward não deixava dúvidas, e o semblante severo tornou-se ainda mais intenso. Ela balbuciou algumas explicações, mas o marquês estava muito próximo. E molhado.
Ofegante, Bella tocou os cabelos negros que, encharcados, soltavam gotas de água sobre os po derosos ombros largos. Com certeza, Edward ha via mergulhado para salvá-la, pensou, notando a camisa preta colada aos músculos do tórax.
Enquanto o coração batia de forma acelerada, ela entreabriu os lábios, tentando recobrar a respiração normal. O vapor pareceu, de súbito, sufocante.
— Você está bem? — Edward indagou, e ela foi forçada a fitá-lo no rosto antes de responder.
Durante um longo tempo em silêncio, Bella observou os olhos verdes, os quais passaram a brilhar com maior intensidade. Edward a olhava sem dis farçar o desejo. Impulsivo como um animal selva gem, envolveu-a nos braços e sugou-lhe os lábios com uma volúpia jamais imaginada por Bella. Além da densidade da noite, a tepidez da água negra misturou-se ao calor do corpo de Edward. Ele deslizava as mãos sob as roupas de Bella, estimulando áreas nunca tocadas de forma tão sensual. Dedos afoitos percorriam-lhe as costas, os ombros e, antes que ela se desse conta, o vestido cedera até a cintura, e os seios entumecidos pres sionavam o peito másculo.
Então ele a tocou. Bella soltou um gemido lânguido e inclinou-se para trás enquanto Edward explorava as curvas sinuosas. Conforme os dedos úmidos escorregavam sobre a pele alva e macia, as sensações aumentavam, avassalado ras. De repente, os lábios irresistíveis pousaram sobre os mamilos, especulando um, depois o outro.
Sensações diversas a invadiam, vibrações incontroláveis originadas nos seios difundiam-se pelo corpo e se concentravam na região do ventre. Bella movia-se, sem parar, na esperança de aliviar aquela emoção.
Por fim, a coxa musculosa de Edward afastou, de leve, as pernas esguias. As carícias roçavam o local que a queimava por dentro, e ela reprimiu um suspiro de satisfação.
Seu querido marquês sabia exatamente o que fazer!
— Oh, Edward… — murmurou, agarrando-se a ele para não se embrenhar nas águas.
A camisa preta começou a se abrir. Bella ousou acariciar-lhe a pele morena, úmida e firme. Percebia com prazer que a água estimulava os sentidos. Foi o último pensamento coerente antes de se render àquele domínio sensual.
— Edward… — sussurrou outra vez.
Então sentiu a parede lateral da piscina pres sionando-lhe as costas. Escutou o chocalhar tran quilo da água e, no céu, viu as estrelas cintilantes a observá-los. De súbito, Edward beijou-a no vamente. Abraçou-o pelo pescoço, puxando-o para si, enquanto a poderosa coxa insistia nas carícias.
As sensações daqueles movimentos agiam profun damente, ultrapassando a compreensão do ato. Bella, absorvida pelas reações até então des conhecidas, deixou-se levar, incapaz de raciocinar e fraca demais para protestar. Emitia somente gemi dos conforme os movimentos se intensificavam.
Murmurando palavras de conforto, Edward le vantou-a. Em seguida, ergueu as anáguas e postou-se entre as pernas delgadas. Logo, a parte mais íntima de Bella tornou-se exposta sob a água.
Sem dar chance a protestos ou constrangimen tos, Edward colou-se a ela. Bella sentiu o calor intenso da masculinidade, separado de sua nudez apenas por poucas roupas.
A experiência ia além da imaginação. Não havia como sentir-se mais próxima a Edward. Eston teada, ela se movia no esforço de cessar os sentimentos crescentes, à medida que o corpo viril empreendia um ritmo primitivo.
Quando parecia não mais suportar a necessi dade, a escuridão, a água e Edward a envolveram. Sentiu-se inflamar pelas chamas incandescentes da paixão e restou-lhe somente expressar um grito de prazer inacreditável.
Bella teria se afogado, entregue à luxuriosa piscina das termas de Bath como a brisa de verão, se Edward não a segurasse. Sem forças nas pernas, sucumbiu quando ele a agarrou entre os braços com uma firmeza digna de admiração.
O gemido de Edward ecoou no silêncio da noite. O corpo másculo tremia, contagiado pela exultação de Bella. Teria ele sentido as mes mas sensações inebriantes?
— Oh, Edward. — Bella deitou a ca beça sobre o ombro largo, incapaz de emitir ou tras palavras.
Existia apenas o som de sua respiração sôfrega que, aos poucos, retornava à normalidade. Pode ria ela recuperar a sanidade após o que vivera? Bella começou a notar a debilidade de ra ciocínio. Que milagre Edward fizera acontecer sobre ela? Que magia era aquela que somente ele podia conjurar?
Enfim, o marquês ergueu o rosto, e Bella adquiriu coragem para fitá-lo. O semblante dei xava transparecer satisfação, no entanto, a curva sutil dos lábios a confundiu. Ela abriu a boca para falar, ou talvez beijá-lo com maior ardor, quando um barulho quebrou o silêncio. A porta.
Aflita, Bella se mexeu. Edward tapou-lhe os lábios e submergiu com ela até que seus rostos ficassem ligeiramente na superfície. Ambos estavam tensos. A lamparina, que Bella se encarregara de guardar, jazia no degrau da piscina, e a pálida luminosidade refletia finos feixes sobre a água.
— Milorde?
Ao som da voz de Jasper, Edward respirou, ali viado, e Bella sentiu os músculos relaxarem. Porém, o marquês não se levantou, permaneceu onde estava, segurando-a sob a água. De súbito, ela notou que as saias flutuavam na superfície, e o corpete encontrava-se em algum lugar próximo à cintura.
Mortificada, tentou expressar seu constrangi mento, mas foi logo impedida pelos dedos de Edward que lhe abafaram o gemido.
— O que é? — ele indagou a Jasper.
— Está aqui há muitas horas, milorde, e ima ginei ter escutado um grito. Fiquei preocupado, mas vejo que me enganei. Leve o tempo que pre cisar, senhor, e perdoe-me a interrupção — Jasper disse, tentando conter a risada.
— Tivemos alguns imprevistos. Contudo não de moraremos muito a encontrar o que viemos pro curar — Edward assegurou ao criado.
Somente depois de ouvir a porta se fechar, o mar quês a soltou. Gentil, ajudou-a a ficar de pé e vestir o corpete. Tudo pareceu voltar ao normal com tanta naturalidade que Bella se surpreendeu.
Entorpecida pelos acontecimentos, permaneceu onde estava, observando-o dirigir-se à pedra solta e resgatar o livro. Por isso haviam ido à terma? Pelo livro? Encantada e submissa ao charme exó tico de Edward, Bella apagara qualquer resquício de pensamento em sua mente. Esquecera-se de seu interesse principal, a investigação!
Ainda sob os efeitos mágicos da paixão, os movimentos tornaram-se lentos, a ponto de o mar quês tomar-lhe a mão para conduzi-la até ao local onde deixara a lamparina. A luz difusa indicava o caminho dos degraus da piscina.
— O que é isso? — ele perguntou.
Envergonhada, Bella viu-o retirar a bota, outrora lustrosa, que boiava sobre as águas ne gras. Por sorte, Edward não pôde vê-la corar.
— Parece uma bota — ela murmurou.
— Ah! E me é muito familiar — Edward acrescentou, lançando um olhar repreensivo o qual ela se recusou a enfrentar.
Ao saírem da piscina, ele jogou a bota ensopada no chão. Bella não poderia mais se esconder através da penumbra.
— Eu… — ela ensaiou.
— Não importa. Não vou lamentar a perda de uma bota quando… — As palavras o traíram. Sor rindo, Edward afagou a face rosada. Bella fechou os olhos e tremeu. — Foi por uma boa causa — ele disse, com a voz rouca. — Está ficando tarde, e preciso levá-la para casa antes que pegue um resfriado.
A possibilidade parecia fora de propósito uma vez que a presença de Edward a aquecia. No entanto Bella assentiu com passividade.
— Torça seu vestido o melhor que puder e depois olharemos o livro.
O livro! Bella endireitou os ombros. Os pensamentos errantes voltaram à evidência. A eu foria causada pelo toque de Edward transformou-se em outra espécie de emoção, o entusiasmo pela investigação voltou, de súbito, a ocupar-lhe o espírito aventureiro.
A despeito da ansiedade, ela controlou-se e tor ceu a barra das saias. Edward, por sua vez, calçou as botas e vestiu o casaco.
Claro, o vestido estava arruinado. Mas, como era uma das péssimas escolhas de sua mãe, ela pouco se importou. Os pensamentos encontravam-se voltados para o livro. Trêmula, Bella en carou Edward.
Apesar do estrago do traje bem talhado do mar quês, ele conseguiu manter a classe e a elegância quando entregou-lhe o volume. No mesmo instan te, Bella percebeu um repentino sentimento por ele, uma forte emoção, diferente da que sentira havia pouco. Edward poderia ter inspecionado a evidência sozinho, porém, ofereceu a ela a honra de verificá-la. O gesto deu origem a algo mais profundo no coração de Bella.
Depois de tentar secar as mãos na saia molhada, ela pegou o livro do vigário. Era um momento solene e de grande expectativa. Abriu-o com ex tremo cuidado. Contudo, para sua frustração, não havia nenhum compartimento ocultando o colar.
A bem da verdade, o volume continha desenhos estranhos. Bella forçou a visão e notou ima gens de um homem e uma mulher, ambos nus.
— Mas isso não tem a menor importância! — reclamou.
— Depende do ponto de vista, eu diria — Edward comentou.
Bufando de raiva, ela sacudiu o livro e nenhuma jóia despencou por entre as páginas. Então come çou a folheá-lo. Não havia compartimento algum, apenas desenhos. Incapaz de acreditar no que via deixou o volume aberto e observou um dos dese nhos que mostrava um homem segurando uma mulher cujas pernas entrelaçavam a cintura do parceiro. Estudou a gravura sob vários ângulos.
— Isso é possível? — perguntou. Edward clareou a voz.
— Sim. Certamente.
Perplexa, Bella atinou para o fato de que aquele desenho era quase réplica do que ela e Edward haviam feito na piscina. Se tivesse erguido as pernas… Soltou um suspiro ao recordar o imenso prazer.
Abrupta, virou a página e viu o mesmo tipo de posição íntima, embora dessa vez o homem esti vesse posicionado atrás da mulher.
— Oh, meu Deus — Bella sussurrou.
O vapor morno da terma sufocou-a novamente quando sentiu a presença de Edward atrás de si. Como seria caso o marquês chegasse mais perto e colasse seu corpo ao dela, tal qual mostrava o desenho? Gemeu e virou a página.
Na figura seguinte, a mulher encontrava-se ajoelhada diante do homem, e acariciava com os lábios uma parte específica da anatomia mascu lina. Tomada por espanto e curiosidade, Bella quase derrubou a evidência. O rosto corou ao lembrar-se das carícias do marquês.
De que maneira Edward reagiria, se ela em preendesse a mesma posição… O calor da terma roubava-lhe o fôlego. Fechou o livro.
Sob o pesado silêncio, as ondas de calor se dissiparam, dando lugar ao desaponto. Estivera correta quando deduziu que o livro não era a Bíblia; porém, tampouco tratava-se de um esconderijo se creto para o colar.
— Não entendo — Bella resmungou. —. Por que ele trouxe o livro até a terma?
— Acredito que suas suspeitas iniciais estavam corretas, Bella. O sr. Newton não frequenta as termas por causa de sua saúde, e sim pela excitação de ver as damas em roupas molhadas. Imerso na água a… prova de pensamentos peca minosos não seria visível.
Ao tornar-se consciente da explicação de Edward, ela soltou um suspiro de fatiga. O único suspeito, além de gatuno, devia sofrer de uma moléstia incurável.
— Sim. Espero que seja apenas isso que o sr. Newton faça aqui — Edward confessou. — Ou a idéia de entrar nesta água fétida torna-se incômoda… exceto, claro pelo meu pequeno lapso.
Embora Bella não entendesse as palavras do marquês, algumas delas faziam sentido, como "incômoda" e "lapso". Então, endireitou o corpo e fitou o pescoço de Edward. A camisa estava aberta, e ela pôde apreciar os músculos do peito exuberante, uma distração que anulava qualquer poder de concentração.
— Lamento ter criado tantos problemas ao con vencê-lo a vir aqui — murmurou.
— Não vejo nenhum problema — Edward dis se, segurando as mãos macias e delicadas. — Você, srta. Swan, é tão divertida que estar a seu lado torna-se… um prazer imenso.
As últimas palavras foram pronunciadas de modo mais significativo. Bella corou até a raiz dos cabelos. Grata por ele não poder ver o rubor explícito em sua face, sentiu uma lânguida sensação envolvê-la. Em seguida, desviou o rosto.
Até onde seu assistente levaria aquele flerte? Os desenhos do livro tanto a alarmaram quanto a exci taram. E, como a curiosidade era uma forte característica de sua personalidade, interessava-se pelas experiências humanas das mais variadas formas. En tretanto, a sociedade era implacável, e sua mãe, em particular, não aprovaria aquele tipo de pesquisa.
Desvencilhando-se, ela olhou para o chão.
— Quanto ao prazer… — Ela se calou, confusa diante da presença de Edward.
— Perdoe-me, Bella — disse ele, acarician do o rosto delicado.
Apesar de relutante, ela se voltou ao gesto, tal qual uma flor em direção à luz do sol.
—- Não pretendia ir tão longe, embora eu só lamente você não ter encontrado o que procurava. Ou encontrou?
Bella não tinha certeza. Às vezes o homem se utilizava de enigmas para se expressar. Como poderia raciocinar, se ele continuava a absorvê-la com sua presença?
Afastando-se, ela tentou se concentrar.
— Devo lembrá-lo de que temos de manter nos sas mentes dirigidas à investigação e… nada mais.
— Como? — Edward indagou, em um tom divertido. Agora refeita e mais atenta ao caso, Bella preferiu ignorá-lo.
— É óbvio que o colar não está no livro, no entanto, o sr. Newton é ainda o principal suspeito. — Fez uma pequena pausa para refletir sobre o vigário. — Cedo ou tarde, irá cometer um deslize e revelar-se. Nesse meio tempo, ficaremos de olho nele.
— Tem razão — Edward concordou. — Ante tantas evidências, eu não me importaria de per manecer próximo ao bom vigário.
Bella repreendeu o assistente com o olhar, e ambos ciaram na gargalhada. Ainda aos risos, saíram da terma e caminharam pelas ruas escuras de Bath. Ela voltou a sentir certa exaltação de ânimo. A frustração fora esquecida, sendo subs tituída pela deliciosa sensação de aventurar-se, esgueirar-se entre as sombras, tal qual verdadei ros investigadores.
Contudo, pela primeira vez em sua vida, Bella tinha dúvida quanto ao estímulo que a impelia. A causa seria a investigação em si ou o assistente?
As dúvidas de Bella permaneceram até o dia seguinte. Embora acreditasse que tal emoção embotava-lhe o raciocínio, impedindo um julgamento claro e objetivo, a descoberta das peculia ridades do sr. Newton haviam estimulado o en tusiasmo de continuar a segui-lo. Talvez não hou vesse estabelecido distância suficiente de seu sus peito, refletiu e deixou de lado o pensamento frus trante para ponderar mais tarde.
A preocupação contínua com o assistente tor nava-se idéia fixa. Bella não conseguia sus tentar nenhum pensamento coerente. Mas não era covarde a ponto de negar a profunda consciência de Edward, um fator ainda pior que a distração sofrida anteriormente. E quem poderia culpá-la após o que haviam partilhado na terma?
O que acontecera, de fato, Bella não sabia. Lembrou-se dos estudos profundos acerca da repro dução humana e concluiu, certa, que sua virtude permanecia intata. Porém, seria difícil continuar sendo a mesma após o momentâneo interlúdio.
Depois de entrar sorrateira em casa, os aconteci mentos da noite se repetiram em sua memória com muita insistência. Quando, enfim, conseguiu ador mecer, os sonhos surgiam repletos de imagens de Edward e, ao despertar, sentiu a alma em conflito.
A sensação de cansaço, calor e frustração per seguiram-na durante o período da manhã.
Quanto mais tentava convencer-se de que a as sociação com o marquês possuía um caráter pro fissional, mais complicado era direcionar a energia apenas à investigação quando outro tipo de rela cionamento a perturbava.
Para piorar, Edward encontrava-se lindo e ma ravilhoso à luz do dia durante o encontro que tive ram a fim de discutir o caso. Bella se flagrava observando-o, em vez de concentrar-se no roubo.
Notou o movimento sutil dos cachos em contato com o colarinho, a suave curvatura dos lábios, os gestos das mãos e os músculos das coxas. E lembrou-se. Conhecia a sensação de ter aquele corpo colado ao seu, a textura da pele molhada e o calor das carícias. Trêmula de prazer, ela queria esquecer o que acontecera enquanto, ao mesmo tempo, desejava repetir a experiência.
Nunca estivera tão confusa; até nos casos mais difíceis havia mantido o raciocínio claro e bem direcionado. Como acréscimo à confusão, Edward apareceu frio e elegante, alheio às mazelas do mundo. Bella teria deduzido que imaginara o momento íntimo, se não fosse o brilho ocasional dos olhos azuis que refletiam paixão.
Tais olhares intrigantes a faziam pensar em quão longe Edward levaria aquela relação. Apesar da possibilidade tentadora de mergulhar nos mistérios insondáveis do ato amoroso, ela sa bia que uma donzela nem sequer poderia conceber idéias semelhantes. Muito menos ignorar certa preocupação a respeito do marquês.
Teria ele o mesmo comportamento com outras mulheres? Bella não pretendia incluir-se na lista de amantes por mais curiosa que estivesse em aprender acerca dos prazeres da paixão. Abo minaria ver Edward jogado a seus pés, como a maioria dos jovens admiradores. No íntimo, gos taria que ele sentisse algo por ela, um afeto mo derado talvez, e muito respeito pela habilidade nata de detetive.
Infelizmente, não pôde deduzir nada na expres são sóbria de Edward e tampouco sentia-se à vontade para tratar de um assunto tão pessoal Precisava concentrar esforços somente na inves tigação. Contudo, até aquele momento, o sr. Newton fizera pouco para despertar algum interesse.
De fato, o dia do vigário progrediu de modo se melhante ao anterior. Havia passado a manha em sua residência, aliás, um descanso desmere cido, antes de visitar o Pump Room, onde ficou conversando com várias viúvas, enquanto Bella e o parceiro tentavam parecer discretos.
Se estivesse sozinha, tinha certeza de que se sairia muito bem. Edward era charmoso e gran de demais para passar despercebido pela multi dão. Preferia que ele usasse um disfarce, porém o marquês, como sempre, riu diante da sugestão e tocou-lhe a ponta do nariz. No esforço de evitar outro toque, Bella abandonou o assunto.
Agora ela percebia a idiotice de sua renúncia. A despeito de estarem escondidos atrás da orquestra, uma matrona os avistou e, acompanhada da filha em idade para casar, aproximou-se do marquês.
Bufando, Bella preparou-se para escapar, mas sem sucesso pois Edward segurou-a pelo braço.
— Vou seguir o vigário — ela sussurrou, ten tando se desvencilhar.
— Não vai. — Edward a encarou como se estivesse se divertindo quando, na verdade, ele a mantinha prisioneira. Bella fez menção de protestar, mas perdeu a oportunidade de falar.
— Meu Deus! Que prazer vê-lo em nosso amado Pump Room! Não esperávamos ter a honra de sua presença esta tarde. Não é, querida? — a mulher indagou à filha. A moça, uma loira alta, assentiu, obediente, e sorriu constrangida para o marquês.
Enfastiada, Bella queria sair dali. Em vez disso, ensaiou um sorriso falso. O esforço foi um desperdício, já que a atenção estava voltada ape nas ao marquês.
— Lembra-se de minha filha, Forsythia, milorde? — a matrona perguntou, puxando a garota.
Edward murmurou algo convencional o que resultou no relato das inúmeras qualidades de Forsythia, as quais perdiam apenas para a beleza da moça, segundo os olhos da mãe. Bella, porém, possuía uma opinião mais crítica, principalmente em relação à falta de maneiras de ambas.
Na verdade, queria puxar a manga de Edward a fim de que as damas a notassem. Ao mesmo tempo, não pretendia chamar a atenção para si. Ainda as sim não conseguia evitar o sentimento de posse pelo marquês. Afinal, ele era seu assistente, e Forsythia não devia fitá-lo de forma tão atrevida.
Caso desse vazão aos impulsos, Bella teria esmurrado os olhos da outra jovem, uma atitude lamentável para alguém de mente lógica e objetiva. Sempre havia se considerado superior ao res to da população feminina, carregada de futilidades. No entanto, agora parecia vítima do mesmo tipo de tolice. Aliás não se conhecia mais. Quem era culpado? Edward!
Fitando o companheiro, que conversava com as admiradoras, percebeu que havia se esquecido do sr. Hawkins. Ele poderia escapar enquanto estava ali amarrada a Edward.
Cerrando os dentes, ela afastou-se do assistente e foi puxada de volta pelo braço forte.
— Perdoem-me, já conhecem a srta. Swan? — Edward perguntou, de maneira casual, sem largar Bella. — Srta. Swan, permita-me apresentá-la a Forsythia e sua mãe…Ele encarou a matrona à frente. — Creio que não recordo seu nome, senhora.
— Sra. Gilcrest — a mulher respondeu, parando de sorrir. — Diga-me, milorde…
— Ah, deve nos desculpar… — Edward fitou o outro extremo do salão, como se algum conhecido lhe chamasse a atenção.
Antes que a mulher fizesse menção de conti nuar, ele se afastou, puxando Bella consigo até se esconder atrás de dois homens, que pareciam cochilar em suas cadeiras.
— Não é possível! — Bella murmurou, quando ele finalmente a soltou. Seria irritante ter de dividi-lo com tantas devotas. — Agora que foi visto, seremos abordados por todas as preten dentes e suas respectivas mães!
— Quieta — Edward disse, indicando a entrada. Bella não estava disposta a receber ordens,
Mas a curiosidade tornou-se maior que a irritação. Ela se voltou à porta do Pump Room e divisou o vigário conversando com lady Culpepper em pessoa. A cena era ainda mais intrigante uma vez que o sr. Newton desdenhava a mulher.
— Veja, ele a está tiranizando — sussurrou.
— Como? — Edward perguntou.
— Após anos de estudo, aprendi a conhecer a mente criminosa — Bella explicou. — Supo nho que nosso ladrão obtenha um prazer perverso ao zombar da suplicante porque sabe que o objeto de valor inestimável, a ela, está em seu poder.
— Tem razão quanto ao lado perverso — Edward concordou. — Mas me parece que ele está pedindo um favor à dama. Talvez o bom vigário queira ganhar os dividendos que a família Culpepper possui em Sussex.
Para evitar argumentos, ela dispensou a suposição. Enfim, o vigário fazia algo interessante. Então, manteve o foco no homem, a despeito da perturbadora proximidade do assistente.
— E, Isabella querida, um dia desses você precisa me iluminar com seu conhecimento a res peito da… mente criminosa — Edward sussur rou, sedutor, fazendo-a estremecer ante a sensa ção já familiar.
Embora zonza, Bella notou quando lady Culpepper adentrou o salão. O vigário foi aban donado com uma expressão infeliz no rosto. Contudo ele não se deixou abalar pela frustração e logo se recobrou, mascarando o sentimento.
— Viu? — indagou a Edward, em um tom triunfante.
— O quê? Sei que ele não gosta da mulher, o que não é nenhuma novidade pois poucas pessoas a apreciam — o marquês retrucou.
Por necessidade, a conversa não se prolongou. O suspeito voltou a se movimentar. Na tentativa de não chamar atenção, ambos permaneceram no mesmo local, atrás dos cavalheiros adormecidos, enquanto observavam o vigário.
Como o Pump Room não estava apinhado de visitantes, não havia dificuldade em manter os olhos no sr. Newton. Eram as interrupções como as da sra. Gilcrest que a incomodavam. Até aquele momento, haviam conseguido evitar membros da família Swan e os poucos conhecidos de Bella, mas Edward era alvo de cobiças e logo seriam notados novamente.
Dessa vez, foi ele quem soltou um murmúrio de alerta, e Bella preparou-se para ver outra matrona a perturbá-los. Entretanto, deparou com a figura de um homem diante deles.
Era alto como Edward, possuía cabelos negros e sagazes olhos escuros que, no entanto, pareciam passivos. Surpresa, Bella reconheceu o sr. Jacob Black, o nobre que havia enviado o investi gador de Bow Street a Bath.
Por tê-lo visto somente a distância, não havia re parado em certos detalhes, mas agora via que o Jacob Black era uma figura cativante. Moreno e ele gante, à primeira vista ele se parecia com Edward. Mas as feições eram duras e emanavam uma frieza muito distinta à do marquês. Bella sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
— Edward. — Jacob inclinou a cabeça, mas sua expressão não traduzia cordialidade, e os olhos emitiam faíscas, como se existisse algum segredo entre eles.
Algo naquele homem abalava as estruturas de Bella. Edward devia ter pressentido o mes mo, pois respondeu o cumprimento sem o menor entusiasmo.
Em geral, ele se mostrava sereno e educado, mas havia uma certa tensão no ar. Quem era aquele homem?
— Usufruindo das águas? — Jacob per guntou. — Que estranho encontrar um nobre de talentos tão particulares aqui em Bath. Ou talvez, após o último evento, o fato não seja tão incomum — Jacob murmurou, insinuando algo que Bella não compreendeu.
— Não tão incomum quanto sua visita — Edward replicou. — Imaginei que Bringhton lhe agradasse mais.
— Estou aqui por um forte motivo. Um dever tamiliar, na verdade. Com certeza, sabe que tenho algum parentesco com lady Culpepper, não? — Jacob indagou.
Quando Edward assentiu sem demonstrar in teresse, o recém-chegado sorriu, tal qual um preda dor. Ele se aproximou, de forma ameaçadora, e Bella recuou. O marquês continuou estático.
— Vim assim que soube do roubo das esmeral das — Jacob explicou. Olhou a multidão. — Admito que fiquei decepcionado com o investigador que contratei. Já faz quatro dias, e ele ainda não revelou o responsável pelo crime.
Bella também estava desencantada com o sr. Jeffries, mas sabia que a morosidade do in vestigador lhe dava certas vantagens.
— Tenho minhas suspeitas — ela informou, in trometendo-se no assunto que mais adorava.
Antes que pudesse prosseguir, Edward interrompeu-a.
— Conhece a srta. Swan? É uma detetive amadora e vem acompanhando o caso muito de perto.
— Verdade? — A atenção de Jacob vol tou-se a ela.
A intensidade do olhar sombrio a fez estreme cer. Embora agarrasse qualquer oportunidade para expor suas teorias, sentiu-se desconfortável ante aquela pessoa. A garganta parecia travar en quanto Jacob mantinha uma súbita mudez. Pela primeira vez, ela foi incapaz de elaborar um pensamento lógico.
— Talvez eu possa me sair melhor que o sr. Jeffries — disse, tão logo conseguiu falar.
Ao invés de zombar como os outros, Jacob olhou Edward e virou-se a Bella com um sorriso nos lábios. Os olhos escuros começa ram a brilhar com maior intensidade.
— Talvez sim, srta. Swan. Entretanto vou aguardar o momento certo para ouvi-la.
O tom de Jacob sustentava uma promessa sinistra. Bella prendeu a respiração até ver o indivíduo se distanciar. Então, soltou o ar bem devagar.
— Quem é ele? — perguntou a Edward. — E por que o odeia tanto?
Por um instante, o marquês ficou em silêncio. Apenas observava Jacob com uma expressão devastadora, como se fosse atacar seu pior inimi go. Ansiosa, Bella puxou-lhe a manga do ca saco. Edward a fitou, frio e distante.
— Ele desenvolveu alguma desavença comigo, mas não imagino a razão. De qualquer forma, é um homem muito poderoso e não merece confiança pois abusa do poder que tem para submeter os fracos a sua vontade.
Após lançar um último olhar em direção a Jacob, Edward readquiriu a postura natural. De repente, tomou o braço de Bella e conduziu-a entre os frequentadores do Pump Room.
A princípio, ela imaginara ser um gesto de ca valheirismo por parte do marquês, mas logo re parou que o sr. Newton havia desaparecido.
