A única coisa é que agora tenho de ser mesmo uma empregada doméstica.
Na manhã seguinte ponho o relógio para despertar cedo e chego à cozinha antes das sete, com avental.
O jardim está enevoado e não há sons, a não ser dois pássaros tagarelando no gramado. Sinto como se fosse a única pessoa acordada no mundo. O mais silenciosamente que posso limpo a lavadora de pratos e guardo tudo nos armários. Ajeito as cadeiras sob a mesa. Faço café. Depois olho as brilhantes bancadas de granito ao redor.
Meu domínio.
Não parece meu domínio. Parece a cozinha apavorante de outra pessoa.
Então ... o que faço agora? Sinto-me toda pinicando, só de estar ali. Deveria estar ocupada. Meu olhar pousa num antigo exemplar da Economist na prateleira de revistas perto da mesa e folheio-a. Folheio e começo a ler uma interessante matéria sobre controles monetários internacionais, bebericando o café.
Então, ao ouvir um som vindo do andar de cima, guardo-a rapidamente de novo. Empregadas não costumam ler artigos sobre controle monetário internacional. Eu deveria estar fazendo alguma coisa, geleia, por exemplo. Só que já há um armário cheio de geleia. E, de qualquer modo, não sei fazer. O que mais? O que mais empregadas fazem o dia inteiro? Enquanto examino a cozinha de novo ela me parece perfeitamente limpa. Poderia preparar o café-da-manhã, ocorre-me. Mas só quando souber o que eles querem. Então, de repente, lembro-me da manhã da véspera. Alice me preparou uma xícara de chá.
Talvez hoje eu devesse fazer uma xícara de chá para ela! Talvez os dois estejam esperando lá em cima, batendo com os dedos impacientemente, dizendo "Onde está a porcaria do chá?".
Rapidamente fervo a água e faço um bule de chá. Ponho numa bandeja com xícaras e pires e, depois de pensar um momento, acrescento uns dois biscoitos. Depois vou para cima, sigo pelo corredor silencioso até o quarto de Alice e Frank... e paro diante da porta. E agora? E se eles estiverem dormindo e eu os acordar?
Vou bater baixinho, decido. É. Uma batida curta, discreta, de empregada. Levanto a mão para bater - mas a bandeja é pesada demais para ficar numa das mãos e há um tilintar alarmante quando o negócio todo começa a se inclinar de lado.
Horrorizada, agarro-a antes que o bule escorregue para fora. Suando, ponho tudo no chão, levanto a mão e bato bem baixinho, depois pego a bandeja de novo. Não há resposta. O que faço agora?
Hesitando, bato de novo.
- Frank! Pára com isso! - A voz de Alice se filtra levemente pela porta.
Ah, meu Deus. Por que eles não escutam? Estou toda quente. Esta bandeja é pesada para cacete. Não posso ficar a manhã inteira do lado de fora do quarto deles, com o chá. Será que devo me retirar? Já vou me virar e sair de fininho.
Então a determinação me domina. Não. Não seja tão molenga. Fiz o chá e vou servir. Ou pelo menos vou oferecer. Eles podem muito bem me dispensar. Seguro a bandeja com força e bato com o canto dela na porta. Eles têm de ouvir isso. Depois de um instante a voz de Alice se eleva.
- Entre!
Sinto um jorro de alívio. Tudo bem. Eles estão me esperando. Eu sabia que estariam. De algum modo viro a maçaneta enquanto equilibro a bandeja apoiada na porta. Empurro-a e entro no quarto. Alice olha da cama, onde está esparramada nos travesseiros, sozinha. Usa uma camisola de seda, tem o cabelo desgrenhado e a maquiagem manchada nos olhos. Por um momento parece espantada ao me ver.
- Lily - diz rapidamente. - O que você quer? Está tudo bem?
Tenho uma sensação imediata, horrível, de que fiz a coisa errada. Meu olhar não se afasta do dela, mas a visão periférica começa a registrar alguns detalhes no quarto.
Vejo um livro chamado Prazer sensual no chão.
E uma garrafa de óleo de massagem com cheiro de almíscar. E...
Um exemplar muito manuseado de A alegria do sexo.
Bem perto da cama.
Aberto no "Estilo turco".
Certo. Então eles não estavam esperando o chá. Engulo em seco tentando manter a compostura, fingindo desesperadamente que não vi nada.
- Eu... trouxe uma xícara de chá - digo com a voz estalando de nervosismo. - Achei que vocês...gostariam.
Não olhe o A alegria do sexo. Fique com os olhos levantados.
O rosto de Alice relaxa.
- Lily! Você é um tesouro! Ponha aí! - Ela balança o braço vagamente para a mesinha de cabeceira.
Estou começando a ir para ela quando a porta do banheiro se abre e Frank sai, nu a não ser por uma cueca samba-canção apertada demais, mostrando o peito espantosamente peludo.
Meu Deus. Não sei como consegui não jogar a bandeja toda no chão.
- Eu... sinto muito - gaguejo recuando. - Não sabia...
- Não seja boba! Entre! - exclama Alice toda alegre, agora parecendo completamente reconciliada com o fato de eu estar em seu quarto. - Não somos puritanos.
OK, mas estou desejando que eles fossem. Cautelosamente vou em direção à cama, passando por cima de um sutiã de renda cor de malva. Acho um lugar para a bandeja na mesinha-de-cabeceira de Alice empurrando para o lado uma foto dela com Frank numa banheira de hidromassagem, erguendo taças de champanha. Sirvo o chá o mais depressa que posso e entrego uma xícara para cada um.
Não consigo encarar Frank. Em que outro emprego você vê o chefe pelado? Apenas uma outra ocupação me vem à mente. E que não é muito encorajadora.
- Bem ... vou indo - murmuro de cabeça baixa.
- Não saia tão depressa! - Alice toma um gole do chá com prazer. - Hum. Já que estamos aqui, eu queria bater um papinho! Ver em que pé estamos.
- É... certo. - Sua camisola está se abrindo e posso ver a borda do mamilo.
Rapidamente desvio o olhar e me pego olhando o cara barbudo do A alegria do sexo se contorcendo.
Sem querer, tenho uma visão súbita de Alice e Frank exatamente naquela posição. Não. Pára com isso. Sinto o rosto chamejando de embaraço. Que tipo de esquisitice surreal é essa, eu parada no quarto de duas pessoas, praticamente estranhas para mim, praticamente vendo como eles fazem sexo?
E os dois não parecem nem remotamente incomodados.
E então me ocorre. Claro. Sou empregada. Não conto.
- Então, tudo certo, Lily? - Alice pousa sua xícara e me dá um olhar concentrado. - Estabeleceu sua rotina? Tudo sob controle?
- Sem dúvida. - Procuro uma expressão que pareça competente. - Estou bastante...montada na situação. - Aaargh. - Quero dizer...com a mão na massa.
Aaaargh.
- Bom! - exclama ela. - Eu sabia! Você não precisa de orientação o tempo todo! Sabe se virar numa casa!
- Pois é!
Alice sorri de volta e toma um gole de chá.
- Imagino que vá lavar a roupa hoje.
Lavar a roupa. Eu nem tinha pensado em lavar a roupa.
- Só que eu gostaria que você trocasse os lençóis quando fizesse as camas - acrescenta ela.
Fizesse as camas? Isso também não tinha me ocorrido. Sinto uma pontada de ligeiro pânico. Não somente não estou nem de longe "montada na situação" como não tenho a menor ideia do que é "a situação".
- Obviamente tenho minha própria...ah...rotina estabelecida - digo tentando parecer casual. - Mas poderia ser bom se a senhora me fizesse uma lista de tarefas.
- Ah. - Alice parece um pouco irritada. - Bem, se você realmente acha que precisa.
- E eu, Lily, devo examinar seus termos e condições mais tarde - diz Frank. Ele está parado diante do espelho, segurando um haltere. - Informar em quê você se meteu. - Ele dá um risinho, depois, com um ligeiro grunhido, levanta o peso acima da cabeça. Sua barriga está ondulando com o esforço. E não de um modo bom.
- Então... vou continuar com ... as coisas. - Começo a recuar para a porta, os olhos fixos no chão.
- Vejo você depois, no café-da-manhã. - Alice me dá um acenozinho animado, da cama. - Tchau, tchau!
Não consigo acompanhar as mudanças de humor de Alice. Parece que saltamos direto do patroa-empregada para o "pessoas curtindo um cruzeiro juntas".
- É ... então tchau! - digo imitando seu tom alegre. Faço uma reverência, passo de novo por cima do sutiã e saio do quarto o mais rápido que posso.
O café-da-manhã é quase um pesadelo. Faço três tentativas fracassadas antes de perceber como se deve corta uma toranja ao meio. Elas deveriam ser feitas de modo mais óbvio. Poderiam desenhar linhas de orientação ao redor, ou ter perfurações, ou algo do tipo. Enquanto isso o leite para o café derramou - e quando mergulho a cafeteira, o café explode para tudo que é canto.
Por sorte Alice e Frank estão tão ocupados discutindo aonde vão no próximo feriado que não parecem notar o que acontece na cozinha. Nem ouvem meus gritos. Do lado positivo, realmente acho que estou começando a entender a torradeira. Quando eles terminaram, empilho os pratos sujos na lavadora e estou tentando desesperadamente lembrar como fiz com que ela funcionasse ontem, quando Alice entra na cozinha.
- Lily, o Sr. Longbottom gostaria de vê-la no escritório - diz ela. - Para falar do salário e das condições. Não o faça esperar!
- É... Muito bem, senhora. - Faço uma reverência, depois aliso o uniforme e saio ao corredor.
Chego à porta do escritório de Frank e bato duas vezes.
- Entre! - diz uma voz jovial. Quando entro, Frank está sentado atrás da mesa: uma coisa enorme, de mogno e couro trabalhado, com om laptop de aparência cara. Está totalmente vestido, graças a Deus, com calça marrom e camisa esporte, e todo o cômodo cheira a loção após-barba.
- Ah, Lily. Pronta para nossa reuniãozinha? - Frank sinaliza para uma cadeira de encosto reto e eu me sento. - Aqui estamos! Os documentos que você estava esperando! Com ar de importância ele me entrega uma pasta de papel onde está escrito CONTRATO DE SERVIÇOS DOMÉSTICOS.
Abro e encontro uma folha de rosto em papel-pergaminho creme impresso para parecer pergaminho antigo. Com letras ornamentadas, de estilo medieval, estão as palavras:
CONTRATO DE TRABALHO Entre Lily Evans e o Sr. e a Sra. Frank Longbottom firmado neste 2º dia de julho do ano dois mil e quatro de Nosso Senhor.
- Uau -digo surpresa.- Um... Advogado redigiu isso?
Não imagino nenhum advogado que conheço redigindo um contrato em letras estilo Disney-medieval. Quanto mais imprimindo num pergaminho de mentirinha.
- Não precisei de advogado. - Frank dá um riso de quem sabe das coisas. - Não faço esse jogo. Eles cobram os olhos da cara só por um pouquinho de latim metido a besta. Acredite, Lily, essas coisas são bastante simples se você tiver meio cérebro. - Ele me dá uma piscadela.
- Tenho certeza que o senhor está certo - digo finalmente.
Viro a folha de rosto e passo os olhos pelas cláusulas impressas. Ah, meu Deus. O que é esse palavreado? Preciso morder o lábio enquanto capto expressões aqui e ali. ... Lily Evans (a ser conhecida daqui em diante como a QUERELANTE) ...
A querelante? Ele ao menos sabe o que é uma querelante?
... Pari passu, não obstante a provisão de serviços culinários, de modo que deverá, prima facie, incluir no entanto não excluir tira-gostos leves e bebidas...
Meus lábios estão apertando. Não devo rir.
De conformidade com o acima posto, ipso facto, todas as partes manterão os direitos acima mencionados para além de qualquer dúvida razoável.
O quê? O quê? O negócio todo é um absurdo total. Um pouco de jargão jurídico soldado em expressões sem sentido supostamente impressionantes. Examino o resto da página, desesperadamente mantendo o rosto impávido, tentando pensar numa resposta adequada.
- Bom, sei que parece amedrontador! - diz Frank, interpretando mal o meu silêncio. - Mas não se intimide com todas essas palavras compridas. Na verdade, é bem simples! Você teve chance de olhar o salário?
Meu olhar salta para a quantia citada em negrito embaixo de "Salário Semanal". É ligeiramente menos do que eu cobrava por hora como advogada.
- Parece extremamente generoso - digo depois de uma pausa. - Muito obrigada, senhor.
- Há alguma coisa que você não entende? - Ele sorri jovialmente - Basta dizer!
Por onde começo?
- Ah... esta parte. - Aponto para a Cláusula 7: Horas. - Isso significa que tenho todo o fim de semana de folga? Toda semana?
- Claro. - Frank parece surpreso. - Não esperaríamos que você trabalhasse nos seus fins de semana! A não ser que seja uma ocasião especial, caso em que pagaremos mais... você verá na Cláusula 9...
Não estou escutando. Todo fim-de-semana livre. Não consigo absorver a ideia. Acho que não tenho um fim de semana totalmente livre desde que estava com uns 12 anos.
- Fantástico. - Levanto os olhos, incapaz de parar de sorrir. - Muito obrigada!
- Seus patrões anteriores não lhe davam os fins de semana de folga? - Frank parece perplexo.
- Bem, não - digo sinceramente. - Na verdade, não.
- Parecem escravocratas! Você vai descobrir que somos muito mais razoáveis! - Ele sorri. - Bom, vou deixá-la a sós por um tempo, para ler o contrato, antes de assinar.
- Já li tudo... - paro quando Frank ergue a mão, reprovando.
- Lily, Lily, Lily - diz como se fosse um tio carinhoso, balançando a cabeça.- Vou lhe dar uma pequena dica que servirá para toda a vida: sempre leia os documentos jurídicos com muito cuidado.
Encaro-o por alguns instantes, com o nariz pinicando pelo esforço de manter a cara de pau. - Sim, senhor - digo finalmente. - Tentarei lembrar isso.
Quando Frank desaparece da sala, olho de novo o contrato, revirando os olhos. Pego um lápis e automaticamente começo a corrigir o texto, refazendo as frase, cortando e acrescentando dúvidas à margem. Então, abruptamente, paro. Que diabo estou fazendo? Pego uma borracha e apago rapidamente todas as emendas. Apanho uma esferográfica e vou até o fim da página, onde uma coruja de desenho animado, com roupa de juiz, aponta para a linha pontilhada.
Nome: Lily Evans
Ocupação:
Hesito um momento. Depois ponho "Empregada doméstica".
Enquanto escrevo as palavras tenho um rápido clarão de incredulidade. Estou realmente fazendo isso. Estou realmente aceitando esse trabalho, a quilômetros de minha vida anterior em todos os sentidos. E ninguém sabe.
Tenho uma visão súbita do rosto da minha mãe, da expressão que ela faria se soubesse onde eu estou agora mesmo... se pudesse me ver de uniforme... Ela iria pirar. Quase me sinto tentada a ligar para ela e contar o que estou fazendo. Mas não. E não tenho tempo para pensar nisso. Preciso lavar a roupa.
Tenho de fazer duas viagens para levar toda a roupa suja até a lavanderia. Largo os cestos atulhados no chão de ladrilhos e olho a máquina de lavar de alta tecnologia. Isso deve ser bem simples. Não sou exatamente experiente nessa área. Em casa mando tudo, a não ser a roupa de baixo, para a lavanderia a seco. Mas isso não significa que não possa fazer. É só uma questão de usar o cérebro. Experimentalmente abro a porta da máquina e no mesmo instante um mostrador eletrônico começa a piscar para mim. LAVAR? LAVAR?
Fico imediatamente incomodada. Obviamente quero que você lave, sinto vontade de responder cheia de irritação. Só me dê a chance de colocar a porcaria das roupas dentro.
Respiro fundo. Fique calma. Uma coisa de cada vez, Primeiro passo: encher a máquina. Pego um punhado de roupas - e paro. Não.
Primeiro passo: separar as roupas.
Satisfeita comigo mesma por ter pensado nisso, começo a separar a roupa suja em pilhas no chão, consultando as etiquetas.
Brancas 40. Brancas 90. Lavar pelo avesso. Lavar cores separadas. Lavar com cuidado. Lavar com MUITO CUIDADO.
No fim do primeiro cesto estou totalmente perplexa. Fiz umas vinte pilhas diferentes no chão, a maioria consistindo em apenas um item.
Isso é ridículo. Não posso fazer vinte lavagens. Vai demorar a semana inteira. O que eu deveria fazer? Como vou entender tudo isso? A frustração está crescendo por dentro. E um ligeiro pânico. Estou aqui há quinze minutos e nem comecei.
Certo... vamos simplesmente ser racionais. Pessoa lavam roupa todo dia, em todo o mundo. Não pode ser tão difícil. Só terei de misturar um pouco as peças. Pego um punhado de roupas no chão e enfio no tambor. Depois abro um armário próximo e me pego olhando toda uma variedade de sabões em pó. Qual?
Minha mente está cheia de palavras familiares, dos anúncios de TV. Brancos impecáveis. Mais branco que branco. Não-biológico. Máquina de lavar duram mais com Calgon.
Não quero que esta máquina dure mais. Só quero que lave a porcaria das roupas. Por fim pego uma caixa coberta de imagens de camisetas brancas, jogo um pouco de pó na pequena bandeja da parte de cima e um pouco no tambor, só para garantir. Fecho a porta com firmeza. E agora?
LAVAR? A máquina continua piscando para mim. LAVAR?
- É...sim! - digo. - Lave. - E aperto um botão no acaso. ENTRAR PROGRAMA?, pisca de volta. Programa? Meus olhos saltam de um lado para o outro em busca de pistas e vejo o manual enfiado atrás de um frasco de spray. Pego e começo a folhear.
A opção de meia carga para pequenas quantidades de roupa só é disponível para o programa de pré-lavagem A3 a E2 e os programas de super enxágüe G2 a L7, não incluindo o H4.
O quê? Qual é! Tenho diploma de Cambridge. Conheço latim, pelo amor de Deus. Posso deduzir isso. Viro outra página.
Os programas E5 e Fi excluem o ciclo de centrifugação A NÃO SER que o botão "S" seja apertado por cinco segundos antes de começar OU dez segundos durante o programa, no caso do E4 (não lã).
Não dá. Minha prova sobre litígio corporativo internacional era um milhão de vezes mais fácil do que isso. Certo, vamos esquecer o manual. Vamos só usar o bom senso. Aperto rapidamente o teclado com meu melhor estilo empregada competente. PROGRAMA K3? - pisca a máquina para mim. PROGRAMA K3? Não gosto da idéia de programa K3. Parece sinistro, Como a face de um penhasco ou uma trama secreta do governo.
- Não - digo em voz alta, cutucando a máquina. - Quero outra coisa.
VOCÊ ESCOLHEU O PROGRAM AK3, pisca ela de volta.
- Mas eu não quero o programa K3! - digo consternada. - Me dá outra coisa! - estou apertando todo os botões, mas ela me ignora. Ouço água entrando na máquina e uma luz verde se acende. K3 COMEÇANDO,pisca a tela. PROGRAMA PARA TAPEÇARIA PESADA. Pesada? Tapeçaria?
- Pára com isso - digo baixinho e começo a apertar todos os botões. - Pára! - chuto a máquina em desespero. - Pára!
- Está tudo bem? - diz a voz de Alice na cozinha e eu salto para longe da máquina, alisando o cabelo.
- É...está! Está! - prego um sorriso profissional no rosto quando ela aparece à porta. - Só estou...lavando a roupa.
- Muito bem. - Ela me estendeu uma camisa listada. - Bom, o Sr. Longbottom precisa que você pregue um botão nesta camisa, por favor.
- Sem dúvida! - Pego a camisa, engolindo em seco disfarçadamente.
- E aqui está a sua lista de tarefas! - Ela me entrega uma folha. - Não está completa, claro, mas deve servir para você começar...
Enquanto percorro a lista interminável com os olhos, sinto-me um pouco tonta.
Fazer as camas... varrer e limpar os degraus da frente...arranjar flores... polir todos os espelhos... organizar os armários... lavar roupa... limpar banheiro diariamente...
- Bom, não há nada aqui que possa lhe causar problema, há? - pergunta Alice.
- Ah... não! - minha voz está meio estrangulada. - Não, deve ficar tudo bem!
- Mas primeiro cuide de passar a roupa - continua ela com firmeza. - Há muita, como você deve ter visto. Ela tende a se acumular... - Por algum motivo Alice está olhando para cima.
Com uma ligeira premonição acompanho seu olhar. Lá, acima de nós, há uma montanha de camisas amarrotadas penduradas num secador de madeira. Pelo menos trinta. Enquanto olho para elas, fico meio bamba. Não sei passar camisa. Nunca usei um ferro na vida. O que vou fazer?
- Espero que você faça isso o quanto antes! - diz ela toda animada. - A tábua de passar está logo ali acrescenta com um movimento de cabeça.
- Ah, obrigada! - consigo dizer.
O importante é parecer convincente. Vou pegar a tábua de passar roupa, esperar até ela sair... depois bolar um novo plano.
Estendo a mão para a tábua de passar, tentando parecer casual como se fizesse isso o tempo todo. Puxo rapidamente uma das pernas de metal mas ela não se mexe. Tento outra, sem sorte. Estou puxando cada vez com mais força até ficar quente de tanto esforço, mas a porcaria não se mexe. Como devo abri-la?
- Tem uma trava! - diz Alice me olhando surpresa. - Embaixo.
- Ah, claro! - Dou-lhe um sorriso e depois tateio desesperada, sondando e apertando, até que, sem aviso, a coisa toda se expande num triângulo deslizante sobre pernas. Em seguida escapa da minha mão e rapidamente baixa até uns sessenta centímetros de altura, onde se trava.
- Certo! - dou um riso sem graça. - Só vou... ajustar isso, então. Levanto a tábua e tento deslizar as pernas - mas elas não se mexem. Minhas bochechas estão queimando enquanto tento interminavelmente ajeitar a tábua, virando de um lado para o outro.
Como essa porra funciona?
- Na verdade, pensando bem - digo casualmente -, gosto de uma tábua de passar baixinha. Vou deixar assim.
- Você não pode passar aí embaixo! - diz Alice com riso atônito. - É só puxar a alavanca! Precisa de puxão forte... vou mostrar.
Ela pega a tábua comigo e em dois movimentos ajustou exatamente na altura certa.
- Acho que você usava um modelo diferente - acrescenta com sabedoria enquanto ela se trava de novo. - Cada uma tem seus truquezinhos.
- Sem dúvida! - digo agarrando-me com alívio a essa desculpa. - Claro! Estou muito mais acostumada a trabalhar com uma... uma... Nimbus 2000.
Alice me olha, surpresa.
- Essa não é a vassoura do Harry Potter?
Porra. Eu sabia que tinha ouvido em algum lugar.
- É. É - digo finalmente, com o rosto em chamas. - E também uma conhecida marca de tábua de passar roupa. Na verdade, acho que o nome da vassoura foi dado... ah... por causa da tábua de passar.
- Verdade? - Alice parece fascinada. - Eu não sabia! - Para meu horror, ela se apóia cheia de expectativas na porta e acende um cigarro. - Não se incomode comigo! - acrescenta com a voz abafada. - Vá em frente.
Ir em frente?
- Ali está o ferro - acrescenta com um gesto. - Atrás de você.
- Ah... ótimo! Obrigada! - Pego o ferro e ligo na tomada, o mais lentamente possível, com o coração batendo de pânico. Não posso fazer isso. Preciso de uma saída. Mas não consigo pensar em nenhuma. Meu cérebro está totalmente vazio.
- Acho que o ferro já está bem quente! - diz Alice, solícita.
- Certo! - Dou-lhe um sorriso rápido. Não tenho escolha. Precisarei começar a passar. Pego uma camisa no alto e abro-a desajeitadamente na tábua de passar roupa, tentando ganhar tempo. Nem sei por onde começar.
- O Sr. Longbottom não gosta dos colarinhos engomados demais - observa Alice.
O quê demais? Meus olhos giram loucamente e pausam num frasco com rótulo Goma Spray.
- Certo! - Engulo em seco tentando esconder o pânico. - Bom, provavelmente ... chegarei ao estágio de engomar... num minuto... Incapaz de acreditar no que estou fazendo, pego o ferro. É muito mais pesado do que imaginei e emite uma nuvem aterrorizante de vapor. Muito cautelosamente começo a baixá-la para o tecido de algodão. Não faço ideia de que parte da camisa estou visando. Acho que meu olhos devem estar fechados.
De repente há um tilintar na cozinha. O telefone. Graças a Deus... graças a Deus... graças a Deus...
- Ah, quem é? - pergunta Alice franzindo a testa, - Desculpe, Lily. Preciso atender...
- Tudo bem! - Minha voz sai esganiçada. - Sem problema! Só vou continuar ...
Assim que Alice sai da lavanderia pouso o ferro com um estrondo e enterro a cabeça nas mãos. Devo estar louca. Isso não vai dar certo.
Não sirvo como empregada doméstica.
O ferro solta vapor na minha cara e dou um pequeno grito de susto. Desligo-o e desmorono encostada à parede.
São apenas 9h20 e já sou uma ruína total.
E eu pensava que ser advogada era estressante.
N/A: Olá, eu disse que postaria o capítulo na segunda, ontem, mas tecnicamente já é terça. Então, nesse capítulo não temos James, mas temos algumas situações peculiares... Ontem, na segunda, fiz 16 anos, oba, então como presente vocês podiam deixar umas reviews né? Eu vou adorar. Beijos.
