All Hallow's Eve – Especial de Halloween.
Danse Macabre
(Extra sem conexões com a história – não corrigido)
O Halloween é o dia de maior trabalho para a Morte – o dia em que todas as almas estão na Terra. Mas quando ela se distraí com esperanças bobas, o que pode acontecer com as almas!?
"Love hurts but sometimes it's a good hurt and it feels like I'm alive
Love sings when it transcends the bad things
Have a heart and try me, 'cause without love I won't survive"
"O amor machuca, mas às vezes é uma dor boa e me faz sentir vivo
O amor canta quando transcende as coisas ruins
Tenha um coração e me teste, pois sem amor eu não sobreviverei"
Love Hurts - Incubus
Os humanos não fazem idéia do que é o halloween, ou dia das bruxas, como preferir. A data nunca mudou por uma razão óbvia, mas as pessoas que sabem o motivo disso evitam ao máximo espalhar. Geraria o pânico com a mesma rapidez do que berrar "tem uma bomba aqui" no metrô.
Eu não sou a favor disso de forma alguma, mas não é algo que eu possa controlar. Não sou a favor da data, da comemoração nem de ter criancinhas saltitando de porta em porta pedindo doces.
Explico: a véspera do dia de todos os santos é o dia em que as almas têm livres para vagar na terra. Nem todas elas são boazinhas, nem todas elas querem voltar e é aí que entra a minha raiva. Eu sou a pastora delas, a responsável por junta-las novamente e manda-las para o seu lugar de origem. Sou quem as guia sempre. Sou a Morte.
Sabe o trabalho que dá ir caçar todas as almas que se perdem? Vigiar todos os maus elementos para eles não fazerem mal a ninguém? E evitar que os demônios aproveitem a brecha e passem para o mundo humano, alguém sabe o quão difícil isso é?
Eu estava reclamando disso para os meus ajudantes no que seria o dia 30 de outubro na terra. Nos domínios da morte, não existem dias ou noites e o tempo não é exatamente linear. Apesar disso, todo ano tínhamos que nos preparar para aquilo. Era como o Papai Noel no Natal ou o coelhinho da páscoa, só que no caso a Morte não distribui presentes nem docinhos para crianças. Certo, se a criança for boazinha podemos até pensar no caso.
O ceifador me encarava com uma cara de caveira, os olhos fundos e a expressão monótona. Ele bocejou mais uma vez, movendo seus dedos cadavéricos para pedir desculpas. Azrael tinha as suas asas fechadas em torno de si mesmo, com uma expressão tranqüila em seu rosto assexuado. Anúbis com sua cara de cachorro olhava para cima, parecendo não ver a hora daquilo tudo acabar. A garota de cabelos negros e roupa vermelha me encarava, com os lábios entreabertos de impaciência e as mãos na cintura. O seu corvo dormia em seu ombro. Por fim, o homem alto, todo de negro parecia mais preocupado com um fiapo em sua capa do que com o que eu estava dizendo.
Enfim, eles estavam pouco se importando comigo. E olha que eu era a chefe da maioria deles.
- Morrigan, você cuida do norte Europeu, pode ser?
- Como sempre. – ela soou monótona. – Você sabe, eu não deveria estar fazendo esses trabalhos, Morte. Azrael deveria ser capaz de fazer tudo sozinho, você sabe.
- Eu não tenho culpa se existem mais mortos hoje do que a nossa capacidade. Culpe a Vida por isso.
- Ninguém vai culpar a minha irmã. – o homem alto falou em um tom defensivo. – Ninguém tem culpa de existirem tantas almas assim.
- A gente bem que podia reciclar algumas delas. – sugeriu Anúbis. – Ao invés de fazer almas novas.
- Você sabe que só funciona se eles acreditarem nisso. – o ceifador falou, em sua voz de túmulo. – As suas almas são as que dão mais trabalho. Sempre querendo viver como se ainda estivessem vivas.
- Não levante a sua voz para mim! Não ouse ofender minhas almas! – Anúbis se eriçou, parecendo um chacal irritado.
- Parem vocês dois agora. Sem discussão, o plano é o mesmo de sempre. Não sei por que insisto em reunir vocês se sempre brigam. – resmunguei. – Nem sei por que essa droga de dia tem que existir.
- Está precisando de um pouco mais de sabedoria então. – O homem alto falou em um tom de chacota e eu o encarei.
- Medo irá nos ajudar também amanhã a noite.
- A gêmea da chefe vai vir, é? E, aliás, por que esse elemento está aqui? – Anúbis mais uma vez se pronunciou.
- Não é da sua conta. – o homem se empertigou.
- Só falta agora ele vir e trazer Amor, Felicidade e tudo o que há de bom para passear com os arautos na morte no Halloween.
- Por que não? Já virou festa mesmo. A gente aproveita e chama Inspiração e Desejo para virar uma festança. – eu resmunguei e olhei para os olhos azuis do homem.
Ele realmente não deveria estar ali, mas eu nunca conseguia dizer não para ele. Era um contra censo a presença dele ali. Senti a mão dele encontrar a minha suavemente, de forma discreta.
- Estão dispensados. Que amanhã ninguém decida fugir.
E o homem deu um sorrisinho suspeito. Exatamente porque ele era Esperança. E Esperança sempre sabe quando nossos desejos vão se realizar.
Ele insistiu em vir comigo e com Medo. Minha gêmea era dois dedos mais alta que eu e alguns centímetros mais esguia. Era personificada como meu oposto. Ela morena, eu loira. Ela de olhos claros, eu de olhos escuros. Ela de pele escura, eu de pele clara. Nunca seríamos sequer consideradas irmãs por algum humano que nos visse, mas fôramos criadas ao mesmo tempo (porque sem o medo da morte, a vida perde o sentido). Nossas mãos estavam dadas e Esperança ali era como uma aberração, como um alienígena. Ainda assim, havia insistido em vir.
Medo não sabia do nosso segredo. As únicas pessoas que sabiam eram Amor, Desejo e Destino e não pretendíamos que mais personificações soubessem. Só que com ele me seguindo até pro inferno, era meio difícil não suspeitarem. Eu evitava ao máximo corresponder o sentimento estranho que me fazia querer encará-lo, conversando bobagens com minha irmã. As coisas iam bem até um certo ponto em que precisaram dela em outro lugar.
E então ficamos só eu e Esperança. Ele me encarou.
- Eu acho engraçado como vocês complementam as frases uma da outra. – deu um sorriso suave, que cabia bem na expressão bonita dele. Era a ferramenta de trabalho e eu não era imune – me enchi de esperanças com aquilo.
- Nós nascemos juntas, o que você queria? – eu sorri para ele também e ele aumentou o ritmo do passo dele.
- Não adianta esconder, você sabe que eu sei.
- O quê?
- Tudo. Agora mesmo você espera que a noite continue monótona. Também espera que Medo demore. E, principalmente, que eu te beije.
- Eu odeio não ter poder sobre você. – eu resmunguei, colocando as mãos no meu bolso e o acompanhando no nosso passeio por mais um cemitério.
- Você tem muito mais poder sobre mim do que o que você imagina, minha querida.
- O que eu vou conseguir hoje a noite?
- Duas das coisas que você espera.
- Quais?
- Isso é segredo.
- Você é irritantemente petulante. Você sabe que é a única pessoa que consegue fazer isso?
- Eu achei que Amor tinha sido o único de nós que tinha brincado com você, Morte. – ele parou e eu parei. Ele me encarou.
- Não me lembre disso. – eu gemi e ele segurou o meu queixo, o levantando suavemente.
- Por que não? Não é bom? – os lábios dele estavam próximos dos meus de forma provocadora.
- É dolorosamente bom. Mas é proibido. – eu fechei os olhos, sentindo os lábios quentes dele descerem para o meu pescoço.
- Eu tenho certeza que era isso que Destino queria dizer com ter mais experiências humanas.
- Eu já tive experiências humanas o suficiente para uma eternidade. – eu sussurrei para ele, meio incerta das minhas palavras.
Certo, se ele queria o prêmio de "A personificação que domou a Morte", podia levar. Era só parar com aquilo. Ou melhor, continuar. Eu já não tinha muita certeza do que eu queria naquela altura da eternidade.
Os lábios dele encostaram nos meus, fazendo Desejo nos perceber naquela noite sombria. A lua nos iluminava fracamente e eu fechei meus olhos, sentindo como se o meu corpo fosse derreter com aquele toque tão sutil entre os nossos corpos. Uma onda passou pelas minhas costas, me fazendo arrepiar inteira enquanto brincávamos com nossas bocas e nossos corpos se tocavam suavemente.
Então eu ouvi um barulho e soltei um gemido suave. Minha pele arrepiou, não por causa dele, e logo soube qual das minhas esperanças não iria se realizar. Monótona seria a última palavra para descrever aquela noite.
***
Era a quarta alma em meia hora que tinha o seu dia de folga cortado pela metade. Parecia que alguém havia soado o alarme de "Atenção, a Morte está mais ocupada com outros assuntos. FUJAM AGORA" para todas as almas rebeldes e elas decidiram fazer isso AO MESMO tempo. Quanto mais eu resmungava, mais Esperança ria da minha cara e isso me irritava.
- Você nem pra me ajudar.
- Isso está fora dos meus domínios.
- Faça eles quererem ficar quietinhos e voltarem para onde vieram então!
- Eu não controlo o que as pessoas querem. – ele tinha um sorriso no rosto.
- Mas você sabia que elas esperavam fugir quando pudessem!
- E sabia que você esperava ser beijada. Fiz três esperanças se realizarem com uma ação só.
- Três?
- A minha também conta.
Eu dei um sorriso, tirando o meu livro do bolso.
- A próxima alma é...
- Cidade mais próxima, uma festinha de Halloween.
- Como você sabe?
- Ele espera desesperadamente por algo, então eu sei exatamente onde ele está.
Eu suspirei, tentando disfarçar que eu gostava quando ele me ajudava. Seguimos então para a próxima cidade.
Nós chegamos à festa no seu auge. Lanternas de abóbora iluminavam o caminho até a casa que vibrava com a batida grave da música. O som era agradável e me trouxe memórias de um tempo estranhamente feliz que tive na Terra. Esperança tinha um sorriso no rosto, provavelmente compartilhando meu pensamento. Mas não era a hora para aquilo. Havia uma alma que não deveria ali e meu trabalho era reavê-la.
A mão dele estava na minha cintura de forma possessiva quando entramos na confusão de corpos fantasiados que se espremiam dentro da casa. Bruxas, vampiros, coelhinhas e bombeiros se misturavam, se movendo no ritmo da música. Todos vivos, constatei. Todos seguindo as batidas dos seus corações enquanto dançavam, comiam, bebiam e riam. Concentrei-me em localizar minha alma desgarrada, mas não pude encontra-la e fiquei ansiosa. Isso só acontecia se a alma tivesse encarnado novamente – e isso queria dizer que havia alguém possuído ali.
- O que houve?
- Ela está aqui e ainda assim não a encontro.
- Talvez esteja escondido.
- Só se for em alguém.
Ele demorou um pouco para entender o significado daquilo. Quando entendeu, olhou para a multidão como se fosse capaz de encontra-la. Talvez fosse, porque a pessoa que tivesse como esperança voltar a viver seria a nossa alma. Não demorou um minuto procurando e segurou a minha mão gentilmente.
- Tem certeza que é aqui? – ele sugeriu em um tom gentil, provavelmente com medo de causar a minha fúria ao insinuar o meu erro.
Abri meu livro mais uma vez e chequei.
- Sim, é aqui.
- Eu não o sinto mais.
- Não tem como uma alma sumir. – eu estava intrigada.
- E se ele possuiu uma coisa inanimada? Eu não o sentiria.
- É, de fato, possível. Mas por quê faria isso?
Ele deu de ombros.
- Talvez apenas espere ser capaz de ver alguém.
- Mas...
- Não questione as esperanças dos outros. Nem a personificação da Esperança.
- Você é muito petulante. – eu reclamei. – Nunca me ouve.
- Você é o sentido da vida. – ele deu de ombros. – Isso não importa, importa?
- Não estamos falando de nossas características. Bem, estamos, mas não nas características das nossas funções.
- Você é o sentido da minha existência. Isso é uma característica sua.
- Você ainda é teimoso. – eu tinha um meio sorriso no rosto.
- Dizem que a Esperança é a última a ser tocada pela Morte.
- Apesar do contrário ser o mais freqüente.
- A Morte é frequentemente tocada pela Esperança? – ele tinha um sorriso largo.
- Eu diria abusada sexualmente, se preferir. – eu resmunguei, segurando um sorriso.
- Eu te abuso sexualmente!? Você gosta! – ele estava próximo de gargalhadas.
- Não muda o fato de ser um abuso! Esperança, não mude o rumo da conversa! Me ajuda! – eu senti minhas bochechas corarem quando ele começou a gargalhas da minha cara.
- Só se... – ele fez uma pausa dramática. – você me prometer uma coisa.
- Sim?
- Só prometa.
- Mas eu nem sei o que é!
- Se não prometer, não ajudo.
- Você... – meu tom era irritado.
- Pode ir fazer sozinha. Vai lá, eu fico aqui torcendo por você. Posso arrumar até pompons.
- Você é um chato.
- Prometo não ficar rindo enquanto você não encontra.
Eu revirei os olhos, respirando fundo.
- Eu prometo.
- Eu sabia. Venha.
Ele me puxou pela mão e eu o acompanhei por entre as pessoas. Elas não nos viam, mas não era agradável passar no meio delas. Ele me levou até o segundo andar da casa, onde ficavam os quartos.
- A coisa que eu recebi mais forte dessa alma foi a esperança de reencontrar alguém. E de ainda encontrar uma caixinha de música no processo.
- Seguindo o seu raciocínio, a alma teria se escondido nessa caixinha quando percebeu que eu estava aqui para pega-la?
- Eu disse que precisava da minha ajuda.
- Você nunca disse isso, mocinho. Pare de me provocar.
- Eu gosto quando você fica irritada.
Eu ri e nós passamos pela porta de um dos quartos. Era grande e branco, com uma cama imensa no meio e uma penteadeira. Lá em cima havia uma caixinha de marfim, meio perolada. Eu olhei para ele.
- Como você acertou o quarto de primeira?
- Segredo.
- Irgh! Como você me irrita! – eu dei um tapa no braço dele de brincadeira, mas ficando levemente irritada. Ele provavelmente havia mentido para mim da primeira vez. – E ainda por cima é um mentiroso.
Ele fingiu que o tapa tinha doido.
- Ai, ai, sua louca. – ele se afastou. – Não sei nem porquê eu ando com você.
- Você só mente.
- E você é ingênua demais. – ele pegou a caixinha e a estendeu para mim. – Lembre da sua promessa.
- Eu não sei o que eu prometi, como posso me lembrar dela?
- Lembre-se que prometeu algo.
- Ah, boa, garotão. – eu segurei a caixinha e finalmente a senti.
A pequena alma se aninhava o quanto podia dentro da caixa, tentando fugir de mim como um animal ferido. Eu dei um sorriso suave.
- Não tenha medo, eu não vou fazer nada ruim com você.
Não adiantou muito. A alma se contorcia, como se quisesse fugir da caixinha, mas sem poder. Com uma das minhas mãos, a busquei na caixa, a aninhando com cuidado para retirá-la de dentro. Com um movimento, a puxei e quando estava livre do corpo da caixa, se transformou em um menino de uns 12 anos. Ele estava parado entre eu e Esperança, olhando de um lado para o outro. Então se agarrou em Esperança, sem querer solta-lo.
- Não deixe ela me levar, não deixa. Eu não quero ir agora. – ele escondeu o rosto de mim e Esperança olhou para mim como se eu devesse sentir vergonha daquilo.
- O que foi?
- Venha cá. – ele fez carinho na cabeça do menino e se abaixou, ficando da altura dele. – Ela não vai te machucar.
- Mas eu não quero voltar ainda.
- Querido, você saiu da área. Você sabe que quando isso acontece, você tem que voltar para onde veio.
-Mas ela não chegou ainda! Eu não quero ir enquanto ela não chegar!
Eu olhei para Esperança confusa. Ele olhou para o garoto então.
- Ela quem, pequeno?
- Ela! Ela! Ela me prometeu que me encontraria aqui! Eu não posso deixar ela chegar e não me encontrar! Por favor! Depois eu vou com você se você quiser.
- Ela quem? - eu insisti. - Eu posso trazê-la se você quer tanto assim.
- Não! Ela tem que vir porque quer vir! - ele pareceu um pouco histérico. - Se não for assim, vai perder o sentido!
Eu suspirei. Era disso que eu estava falando quando mencionei ter trabalho. Eu poderia muito bem forçá-lo a ir embora, mas aí ele seria infeliz pelo resto da eternidade. Não poderia fazer isso com um menininho daqueles.
- Por favor... - ele implorou. - Me deixe esperar por ela.
- Você prometeu. - Esperança sussurrou para mim e eu suspirei.
- Foi isso que eu prometi?
- Sim.
- Então sim. - eu olhei para o menininho. - Eu te deixo esperar. Mas vou ficar te vigiando para que não fuja mais uma vez.
- Certo! Eu prometo que vou me comportar. - o garotinho deu um sorriso genuíno e correu para me abraçar. - Obrigado, senhorita Morte!
Eu ri e fiz carinho na cabeça dele.
- Os méritos não são meus.
Assim, fomos para o jardim para esperar por "ela". Deleguei as demais almas para meus ajudantes e me sentei ao lado de Esperança em um tronco, observando o menino andar de um lado para o outro no quintal da casa.
- Quem estamos esperando? - Esperança perguntou.
- Ela! Aquela menina que é bonita como um raio de sol e tem uma vozinha assim, de rouxinol. Aquela do ursinho amarelo com a fita vermelha no cabelo!
- Você não sabe o nome dela.
- Ela prometeu que me encontraria aqui, ela não pode faltar.
- Hunm... - eu o encarei e ele me encarou de volta.
- Eu sei que ela vem, não me olhe assim.
- Eu não disse nada. - dei um sorriso tranqüilizador para ele e olhei para Esperança.
- Nós já voltamos, certo? Preciso conversar com a Dona Morte aqui. - ele se levantou e o garoto murmurou um "tudo bem".
Eu o segui e nos afastamos apenas o suficiente para não sermos ouvidos.
- Quem é a menina?
- É o amor da vida dele. - eu constatei. - Ele a conheceu poucos anos antes de morrer e prometeram que se encontrariam aqui no Halloween do ano que ele faria 13 anos para fugirem juntos. Só que ele morreu antes disso e ela continuou viva. A caixinha foi o presente que ele deu para ela antes de ser internado no hospital. Nunca souberam o nome um do outro.
- E por que ele a está esperando?
- Porque ela morre hoje.
A expressão de Esperança ficou um pouco fúnebre, como se saber daquilo doesse nele. Ele era muito mais humano do que eu, muito mais apegado aos sentimentos que se tem em vida e mais acostumado a eles. Eu era estranha e alheia a tudo aquilo e era melhor assim. Eu sentia compaixão pelos que sofriam, mas não enxergava o problema em morrer. Principalmente porque eu sabia o que tinha depois.
Eu o abracei, passando uma mão pelos seus cabelos negros e despenteados.
- Eu não imaginei...
- Você só sabe partes da história. Ela vai para um lugar melhor. Está muito velha e doente e já perdeu tantas pessoas na sua vida que vai ser mais feliz do outro lado.
- Quem vai levá-la...
- Isso acontece naturalmente. Mas provavelmente terá um guia. Principalmente se aqui for uma das suas paradas antes de ir para onde deve ir.
- Mas se todos vocês estão ocupados com o Halloween, quem seria?
- Não são só os arautos da Morte que guiam as almas. - eu dei um sorriso e encostei os lábios nos dele. - Não se preocupe.
- Eu não consigo ver se as esperanças dele serão realizadas. É como se fosse uma névoa... e são tantas!
- Não se preocupe. Quando as pessoas estão no limiar entre a vida e a morte, as coisas ficam assim mesmo. O meio do caminho sempre é a pior parte.
Ele suspirou e passou uma mão nos cabelos.
- E se ela não vier?
- Vai dar meia noite e um e ele terá que voltar de qualquer forma.
- Não estou falando disso. Como ele vai ficar? Ele está tão confiante.
- Então ela virá.
- Mas...
- Não discuta com a Morte quando o assunto é uma das suas almas. - eu dei um sorriso gentil.
- Mas como você sabe disso?
- Segredo. - eu dei uma piscadela para ele, dando um sorriso e o fazendo sentir a mesma frustração que ele me provocava quando fazia a mesma coisa.
Ele me segurou pelos braços, me encarando.
- Você quer que eu insista na pergunta?
- Você sabe qual a principal característica de um amor verdadeiro?
Ele balançou a cabeça e eu encostei a mão no rosto dele, suavemente. Encostei meus lábios nos dele mais uma vez.
- É que o amor verdadeiro é a única coisa que não pode ser tocada pela Morte. É o sentimento mais puro e mais real que existe, o único que sempre foi claro para mim, mas que nunca tinha feito sentido real até que eu entendi o que eu sentia por você.
Ele deu um sorriso suave, passando um braço pela minha cintura e beijando a minha testa.
- Isso é tão raro, ouvir você dizer uma coisa dessas.
Eu ri.
- Você quer que eu te mande flores todos os dias com cartões dizendo que eu te amo? Já não basta me ter ao seu lado, já não basta me deixar trêmula, incapaz de negar um pedido seu?
- Eu não disse nada além da verdade, Morte. - ele me beijou suavemente. - Eu tenho provas o suficiente de que o que você sente é real.
- Principalmente porque Amor é seu irmão. - eu resmunguei e ele riu.
- Não importa, o garoto está olhando para nós.
- Ele não vai nos dedurar.
- Mas não podemos deixá-lo esperando sozinho. Ele parece ansioso.
E mais uma vez voltamos ao menino que estava sentado, brincando de jogar pedrinhas numa árvore. Ele se levantou de uma vez.
- Já voltaram?
Eu concordei com a cabeça, me encostando na árvore.
- Que horas são? - ele perguntou mais uma vez.
Eu tirei o meu relógio do bolso e olhei.
- Onze e meia.
- Ainda falta meia hora. Ela vai vir.
Eu olhei para Esperança e ele parecia um pouco desesperado, como se a sombra do que o que ele costumava ser tivesse voltado. Quando passamos nossa temporada como humanos juntos, ele havia perdido o sentido de ser há milênios e talvez aquela espera estivesse lembrando a ele daqueles tempos. Eu me sentei ao lado dele e o abracei, o acalmando.
- Quem deveria estar nervoso é ele, não você.
- Eu sinto que ela não virá, Morte. - ele sussurrou.
- Eu já disse, ela virá.
- Mas eu não consigo ver! - ele insistiu, sussurrando com um pouco de violência.
- Você não é Destino. Ela virá.
Ele encostou a cabeça no meu ombro. Eu chamei o garoto para sentar conosco e ele aceitou e em alguns instantes eu o havia acomodado com a cabeça no meu colo. Os dois estavam mais nervosos do que o que deveriam.
- Ela me disse que viria. Ela tem que vir. Ela disse que me amava. Se eu não parei de amar ela, por que ela pararia de me amar?
- Talvez ela esteja presa em algum engarrafamento de almas. - Esperança sugeriu.
- Isso não existe. - eu falei, num tom absurdo.
- Essa é a casa dela! Ela tem que voltar para cá.
- Por que tem uma festa na casa dela? - Esperança perguntou.
O menino deu de ombros.
- O domínio dos vivos não me pertence mais. Eu só quero ela!
Eu passei uma mão pela cabeça dele, o acalmando.
- Nós temos 15 minutos ainda.
- Ela não vai chegar! - o menino exclamou, se levantando num salto. - Eu não acredito...
- Acalme-se. Ainda faltam 15 minutos.
- Em breve faltarão 5 e então será meia noite e estará tudo acabado! Como a história da cinderela.
- Você não é uma princesa, ninguém vai virar abóbora e mesmo 5 minutos é tempo o suficiente para ela chegar se tiver que chegar.
- Mas, senhorita Morte! Se ela decidiu ir embora direto?
- No dia de hoje é impossível. Ela ficaria na espera.
- E se ela não me reconhecer? E se eu não a reconhecer?
- Você deveria ter pensado nisso antes de fugir e vir para cá.
Ele se sentou um pouco aborrecido ao meu lado. Esperança ainda repousava a cabeça no meu ombro.
- O que vocês dois têm, hein?
- O quê?
- Vocês dois. São namorados?
Nós dois ficamos calados.
- Eu não sabia que isso acontecia. Eu quero namorar com ela se ela vier. Para sempre dessa vez.
Eu dei um sorriso e passei uma mão pelos cabelos dele.
- Quantos minutos?
- 10.
O garoto deitou no meu colo novamente, olhando para cima.
- Se ela vier, eu vou mostrar para ela tudo que é legal. Vou explicar como funcionam as estrelas e a levar para vê-las lá no céu, que é o lugar mais bonito. Vou trazer flores do paraíso para enfeitar os seus cabelos e pedir para ela cantar uma música que supere o coro de anjos do céu. Vou brincar de pique-esconde até cansarmos nos jardins do éden e depois dormir ao lado das fontes que jorram mel.
Esperança tinha um sorriso no rosto e eu soube que aquilo era obra dele.
- O que você faz para a Senhorita Morte, senhor?
- Eu? Eu dou tudo que ela pede para ela e a sigo aonde quer que ela vá. Sou o servo mais fiel da mais nobre das damas. Se ela quiser que eu traga uma estrela do céu para ela, eu trago sem pensar duas vezes. Se ela quiser doces, trago as frutas mais doces do Jardim das Esperanças para lhe dar de comer. Se quiser o mundo, eu o embrulho em papel de presente e entrego para ela sem hesitar.
- Isso é bonito. - o menino suspirou. - Será que eu também posso fazer isso se ela quiser?
Uma coisa estranha se apoderou de mim. Minha garganta ficou seca e eu olhei mais uma vez no relógio. Faltavam quase 5 minutos. Ela não iria vir. Olhei para o rosto do garoto e os meus olhos encheram de lágrimas. O coraçãozinho daquele garoto que tinha um amor tão puro iria ser quebrado com tanta facilidade assim? Ela havia escolhido não vir encontrá-lo, não vir vê-lo? Escondi meu rosto no cabelo de Esperança e ele se arrumou, me encostando contra o peito dele e acariciando o meu cabelo.
- Você não deveria... - ele sussurrou para mim.
- Ter esperado que ela viesse. - eu continuei e ele beijou meus olhos. - Eu só achei que se ele se sentia assim...
- Nem todo amor é correspondido, querida. Nós temos sorte.
Eu olhei mais uma vez para o garoto, que tinha fechado os olhos. Uma linha fina de lágrimas passava pela sua bochecha. Ele também sabia que ela não viria. Senti mais vontade de chorar ao ver aquilo.
- Morte? - a vozinha saiu de trás de nós e eu me virei para ver quem era o dono.
O garoto tinha os cabelos vermelhos bagunçados e os olhos grandes e verdes. Seus lábios eram vermelhos e grandes como os de uma menina e ele era baixo e desengonçado, mas graciosamente fofo. Sardas cobriam suas bochechas brancas e um sorriso imenso se abriu ao nos ver. Esperança virou e o encarou.
- Amor! - ele soou um pouco surpreso e eu abri um sorriso também. O garoto se levantou, parecendo um pouco confuso.
- Eu nunca achei que iria viver para ver Esperança perdendo as esperanças antes da Morte. - ele zombou e deu um abraço em cada um de nós. - Ela está aqui. - ele acrescentou, falando um pouco mais baixo.
Eu olhei no relógio. Faltavam cinco minutos para a meia noite.
- Eu disse que ela viria! - eu falei e Amor fez um "Shh" que superou a minha voz.
- Ela está com medo dele não a reconhecer. - ele sussurrou para nós.
- Ele irá reconhecê-la! - eu sussurrei de volta.
- Ela está velha e diferente da menina que ele conheceu.
- Peça para ela sair do seu esconderijo. - Esperança disse. - Diga que tudo ficará bem.
- Tem certeza?
Eu confirmei e ele saiu correndo para onde tinha vindo. Voltamos para o garoto.
- Ela veio. - eu disse.
- O quê!? - ele parecia radiante.
- Mas... ela está com medo de te reencontrar.
- Por que? Eu a esperei por tanto tempo!
- Ela tem medo de você não gostar dela porque ela está velha.
Nesse instante ela apareceu, caminhando ao lado de Amor. Era uma senhora meio encurvada e enrugada, com os cabelos brancos presos em um coque e uma aparência meio doentia. O menino deu um passo tímido e depois outro e em um instante estava correndo para encontrá-la.
- É você! É você mesmo! - ele parou perto dela, com um sorriso imenso.- Eu não acredito que veio!
- Eu prometi. - a senhora parecia um pouco tímida. - E nunca esqueci. Se apenas você não tivesse mor-
- Shh... isso não importa agora. Você cumpriu a sua promessa. - o garoto sorriu para a velha e ela também sorriu, radiante. Ele a abraçou, batendo no máximo no ombro dela.
Amor saiu de perto dos dois suavemente e parou ao meu lado, sussurrando uma explicação para a sua demora. Eu balancei a cabeça.
- Eu tenho mais um presente antes da meia noite para eles.
E, com um piscar de olhos, a senhora era o espelho da sua imagem de quando tinha 20 anos, uma beleza loira e cheia de energia. E o menino uma sombra do que teria sido se tivesse vivido aos vinte. Ele virou para mim e deu uma piscadela, agradecendo e segurou a sua amada pela mão, desaparecendo na noite.
- Todo Halloween é emocionante desse jeito? - Esperança me encarou com um meio sorriso.
Eu retribui o sorriso e segurei a sua mão. Amor deu um sorrisinho maroto e desapareceu da mesma forma que veio.
- Só os que tem Amor no meio.
Enfim ;D O conceito para esse "conto" foi baseado levemente de Sandman. Para quem leu sandman, percebeu as referências. Para quem não leu, eu explico: sandman trata de Morpheus, oSonho, que é uma personificação antropomórfica desse elemento. O conto todo trabalha com personificações de valores da humanidade. É estranho associar Esperança com um homem, mas conforme você vai lendo, você percebe que na verdade ele é meio esperança e meio desejo. Desejo, Esperança e Desespero compartilham um poder similar e poderiam ser facilmente agrupados em uma personificação só, mas optei por separá-los. A morte é uma jovem loira e baixa, geralmente gentil, lembrando, nesse aspecto, a Morte que é exibida em Sandman. Só que eu acho que para aí. A Morte que eu exibo nesse conto é um pouco incerta de si, se sentindo mais segura no seu campo de atuação do que em qualquer outro. Ela é inexperiente em sentir sentimentos humanos, diferentemente de Esperança. Por isso, apesar dela ser mais velha (porque a morte existe para todos os seres vivos, enquanto a esperança é um sentimento que considero Humano) parece que Esperança é mais velho e mais experiente. (Ele realmente é, no que condiz sentimentos)
Enfim, se um dia eu chegar a escrever essa história, Esperança começaria sendo um homem meio melancólico que não consegue lidar com a decepção dos outros e que por ser tão egocentrico é geralmente odiado pelos outros. ;D
FELIZ HALLOWEEN, leitores! Espero que tenham gostado!
