Grata pelas reviews e acompanhamentos ^^
Boa leitura.
Capítulo 9 – A Garota De Cabelo Preto
Sanford, Maine.
Ikki bateu com força e rapidez na porta da casa do vidente Mú. Arrombaria se aquela porta não se abrisse em dez segundos. Felizmente Mú abriu a porta, fez uma expressão de espanto ao dar de cara com Ikki Amamiya.
- Meu Deus! O que aconteceu com você? Está horrível! – exclamou.
- Te explico depois. – falou Ikki e foi entrando. - Onde está o meu irmão? Você disse que sabia onde ele estava...
- Calma, Ikki... – tentou Mú mostrando as palmas das mãos.
- Calma o cacete! – cortou Ikki com um berro. - Não quero ter merda de calma alguma, quero saber onde está o Shun e aquele maldito fantasma que fez a cabeça dele contra mim.
Mú o encarou.
- Talvez ela não tenha precisado de muito para convencer o Shun a se afastar de você.
- O quê?!
Mú suspirou. Nesse momento o pequeno Kiki apareceu atraído pela gritaria. Encostou a cabeça no corrimão da escada e ficou observando os dois homens. O olhar de Mú para a escada fez Ikki virar a cabeça para trás. A visão do menino e sua carinha assustada fizeram os ombros largos de Ikki Amamiya despencar. Mú se aproximou e falou junto ao seu ouvido.
- Escute Ikki, não vou permitir que você assuste o meu filho de novo. Perceba o jeito que entrou na minha casa? Pela segunda vez. – a bronca dita com uma voz paciente fez Ikki baixar a cabeça. Mú colocou a mão em seu ombro. – Eu quero ajudar você. Não podemos conversar com você nesse estado. Porque não toma um banho, troca essa roupa imunda e toma um café primeiro?
Ikki puxou a gola do casaco e deu uma cheirada. Fez uma careta de nojo ao sentir cheiro de corvo.
- Desculpe, Mú...
- É. Eu sei. Estou te esperando na cozinha. Vou querer saber tudo o que aconteceu.
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Vinte minutos depois, Mú estendia uma caneca de café para um bem mais calmo Ikki. Ele havia tomado banho e vestido uma roupa limpa. Teve que jogar fora as que usava, pois estavam bastante rasgadas depois do ataque dos corvos da Vingança Negra de Jamian.
Ikki dirigira até Sanford depois que constatou que Shun não havia retornado ao hotel nem atendia o celular, foi quando Mú ligou dizendo que sabia para onde ele fora, mas só diria se Ikki visse a sua casa. Ikki Havia dormido no carro mesmo, por uns quarenta minutos só para não dar com o nariz numa árvore na estrada.
Mú já havia separado um quite de primeiros socorros para desinfetar as feridas que Ikki apresentava no braço em sua maioria. Eram feridas superficiais, felizmente. Esperou Ikki beber metade do café para iniciar a conversa.
- Me conte o que aconteceu, Ikki.
- Shun foi embora depois do caso em Newell. O caso era uma pista da sombra que raptou a Esme. Milo nos passou tudo. Acabou sendo alarme falso.
- Não era uma sombra?
- Sim, mas tinha outra natureza. Uma sombra invocada por um feitiço. Quando a coisa ficou feia eu tirei o Shun do caso. O fiz voltar para o hotel, peguei minhas armas e fui enfrentar a sombra que já tinha matado mais de meia dúzia de gente...
- Espere você foi enfrentar uma sombra com armas... Tipo, revolver...? – quis saber Mú, incrédulo.
- Sim.
- Ficou maluco, rapaz! – exclamou Mú, severo. – Não se pode atirar em uma sombra... Mas o que você tem nessa sua cabeça? – elevou mais ainda o tom de voz. – E por que não me ligou? Eu teria dado instruções...
- Eu quis resolver tudo sozinho. Achei que daria conta...
- Daria conta de quê? – rebateu Mú, com raiva. – De se matar? Pelo amor de Deus! Atirar numa sombra? Esse era todo o seu plano? Realmente achou que daria certo? Francamente, não me admira que o Shun tenha se afastado de você...
Ninguém jamais havia falado daquele jeito com Ikki Amamiya a não ser seu falecido pai. O rapaz não revidou por se sentir culpado. Fez silêncio e ouviu toda a bronca do vidente. Merecia.
- Olha eu sei que fiz merda e andei intratável nos últimos dias. – reconheceu Ikki. - Vínhamos tendo uma semana difícil, esse caso dessa fazenda acabou comigo. Shun e eu brigamos feio...
- Por que vocês brigaram?
- Por causa de um maldito fantasma. – respondeu Ikki com os dentes trincados. – Shun mentiu para mim. Ele vinha conversando com esse espírito há muito tempo, mesmo depois de eu pedir para ele parar...
- Você pediu...? – questionou Mú elevando os pontos que tinha no lugar das sobrancelhas.
Ikki Amamiya baixou os olhos.
- Não. Não pedi. Eu mandei. Fiz isso para o bem dele.
- Já entendi tudo. Você não aceita os dons do seu irmão, e ainda o trata como se ele fosse uma criança?
- Não é que eu não aceite. Eu só não acho seguro.
- Eu posso imaginar a briga que tiveram. Shun me ligou há uma semana, me pedindo conselhos sobre um espírito de uma garota que estava fazendo contatos constantes com ele. Eu disse que ia pesquisar e depois entrava em contato. Ele me disse que... Bem vou resumir, que você andava muito relutante. Ele tinha medo de te falar o que estava acontecendo...
- Está me dizendo que sabia? Sabia que o meu irmão conversava com fantasmas...?
- Sim, mas eu disse para o Shun te contar. – falou Mú firmemente. – Ikki, você tem que entender que a habilidade do seu irmão é muito complexa. Ele é sensitivo de mais alto grau, um médium muito poderoso, mais poderoso do que eu. Eu só consigo ouvir as vozes do além, o Shun pode ver os espíritos e interpretá-los mesmo se falarem outra língua. Lembra do caso da Natássia, mãe do seu amigo Hyoga, que falava russo e o seu irmão entendeu tudo o que ela disse? Seu irmão, Shun, é especial. Não é culpa dele, Ikki, nem se pode considerar que ele está em perigo iminente. Ele só precisa aprender a lidar com essa habilidade. Não adianta negar ou fingir que nada está acontecendo, não vai resolver. Não é um problema, é só algo que ele precisa conviver. Entende o que eu quero dizer? – Ikki assentiu visivelmente contrariado. Mal conseguia olhar nos olhos de Mú. - Quando você me disse que o Shun estava sumido eu deduzi que fosse por causa desse segredo que ele vinha guardando e também suspeitei do fantasma que ele estava mantendo contato. Por isso te chamei para cá, para conversar com você devidamente. Não era um assunto para se tratar por telefone.
- O que sabe sobre esse fantasma?
O olhar de Mú tornou-se sério.
- Ikki, este pode não ser um fantasma comum. Pode ser mais poderoso do que os que vocês já enfrentaram. Eu perguntei a muitos do outro lado, ninguém soube informar nada. A presença dela também não podia ser detectada. Alguns espíritos demonstravam medo quando ouviam o nome dela, Pandora Heinstein. Isso me deixou muito intrigado, então fui pesquisar. Só encontrei uma única informação, em um velho diário de um amigo do meu avô Shion. Seu nome era Dohko Lao Hu. Os dois formavam uma dupla de caçadores imbatível. Precisava ouvir as histórias que meu avô me contava. Enfim, Dohko investigou a família Heinstein durante um caso de bruxaria na cidade de Salem. A família Heinstein era um temido clã de bruxos, praticantes de magia negra. Quando Dohko chegou até eles aconteceu uma tragédia: um incêndio. A mansão onde morava a mãe, o pai e a filha pequena foi completamente destruída. Todos morreram, infelizmente. Incluindo o melhor amigo do meu avô. Parte do diário foi queimado, o pouco que sobrou apenas relata que os Heinstein eram bruxos perigosos. Um fato me chamou atenção enquanto lia sobre essa tragédia, o corpo da filhinha do casal nunca foi encontrado. Ela chegou a ser dada como desaparecida, mas a tese foi logo descartada por que havia testemunhas que a menina estava na casa durante o incêndio. Durante muito tempo, ninguém soube dizer o que havia acontecido com a pequena Pandora. Acabou sendo dada como morta, mas nenhum resto mortal foi encontrado.
- Então o fantasma que fala com o Shun é essa mesma Pandora que morreu no incêndio...? Ou ela pode estar viva...? – indagou Ikki para si mesmo.
- Isso mesmo. Shun chegou a me contar que tinha pesadelos com esse fantasma em um incêndio terrível.
- Faz sentido. Ela ser uma bruxinha explica o fato de conhecer o feitiço Vingança Negra e saber como desfazê-lo. Mas espere, o fantasma que aparece para o Shun é de uma mulher não de uma menininha.
Mú coçou o queixo.
- Essa e outras questões só podem ser respondidas por uma pessoa.
- Quem?
- O próprio Dohko.
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O som das folhas secas sendo esmagadas a cada passo se metia em seus pensamentos. Não gostava daquele lugar. Um arrepio violento assolou sua nuca assim que parou em frente à entrada. Shun tirou do bolso um papel onde havia escrito o endereço. Estava no lugar certo, depois de caminhar por mais de quarenta minutos. Tencionou desistir daquela ideia de procurar aquele cemitério para fazer a vontade de Pandora, mas uma curiosidade imensa lhe invadiu quando parou diante do velho portal. Sentia que precisava chegar ao fundo daquela história, ou não dormiria mais a noite.
Alguns túmulos estavam destruídos, outros abertos com muita vegetação. Conforme caminhava cemitério a dentro, notou que as tumbas conservadas ficavam para trás. Sentiu que o lugar era enorme e que se confundia com aquele bosque, só acessível por meio de uma trilha escondida. Interrompeu sua marcha ao passar por uma cripta trancada. Havia um pentagrama desenhado no topo do enorme jazigo todo em arquitetura gótica. Um novo arrepio assolou sua nuca, lhe arrancando uma careta. Um medo inexplicável lhe invadiu. A energia negativa que o lugar emanava era forte ao mesmo tempo atrativa.
Um barulho de folhas sendo esmagadas ao longe o fez esperar a aproximação de alguém, mas ninguém apareceu. Shun segurou a alça de sua mochila no ombro e voltou a andar. Deu de cara com aquela que o havia atraído para aquele lugar que só lhe despertava sensações ruins: a garota de cabelo preto. Pandora estava parada em frente a um cercado onde se podia ver três lápides. Olhava para Shun com seu olhar misterioso. Um sorriso fugidio se fez presente.
Shun não conseguiu se mover durante algum tempo. Só conseguia olhar para ela, a bela aparição. A presença de Pandora por um momento o confortou, o fez esquecer que estava ali depois de brigar feio com o irmão e que aquele cemitério lhe dava arrepios. Teve a sensação de estar sonhando. Piscou os olhos e procurou se concentrar e voltar a realidade. Caminhou até o encontro do fantasma.
Ao se aproximar suas sobrancelhas se contraíram. Por um momento o cabelo de Pandora não parecia tão negro, sua pele não tão branca e seus olhos não tão brilhantes. Por poucos segundos ele teve a impressão de estar olhando para uma mulher muito viva que respirava, não um fantasma. Então teve uma vertigem e quando tornou a olhá-la ela parecia de novo um fantasma, cujo corpo se confundia com a névoa.
- Estou feliz que tenha cumprido sua promessa, Shun. – falou Pandora com um ar animado.
Shun meneou a cabeça e fechou os olhos.
- Pandora... – sua voz saiu cansada. – Não me sinto bem. Esse lugar... Tem alguma coisa aqui. Você pode sentir também?
- Não se preocupe, Shun Amamiya. – ela sorriu e deu um passo a frente. Ergueu a mão e quase tocou o ombro do jovem. – Logo vai passar. A única coisa que sinto são seus sentimentos confusos pela grande preocupação de seu coração. Brigar com o seu irmão de propósito não te fez bem.
- Não mesmo.
- Tudo ficará bem. Eu te prometo, Shun. – Pandora sorriu.
Shun suspirou.
- Por que quis que eu viesse aqui? – indagou encarando-a.
- Precisava te mostrar uma coisa... – falou saindo da frente de Shun revelando as três tumbas quase totalmente cobertas por musgos e folhas secas.
Shun se aproximou. Notou que os musgos e as folhas tinham outra tonalidade apenas em cima das tumbas, na área cercada por grades. A sensação estranha, o medo inexplicável ressurgiu, mas em menor grau. Ele entendeu que ela queria que ele visse as tumbas, as mesmas de seus pesadelos naquele cemitério, com aquele mesmo fantasma, mas por quê?
Intrigado abaixou-se diante da lápide do meio e afastou os musgos dos nomes talhados no mármore. Leu Margareth Heinstein, 1820-1999. Foi para o túmulo à direita, limpou os dizeres, Sigmund Heinstein, 1814-1999. No terceiro túmulo leu Pandora Heinstein, 1993-1999. Então levantou e olhou para o rosto do espírito com um grande sinal de interrogação em sua expressão.
- Este é seu túmulo? – ela fez que sim com a cabeça. – Quem são os outros?
- Meus pais. Eles morreram num incêndio.
- Eu sinto muito, Pandora. – falou Shun com sinceridade. – Por que quis me mostrar o túmulo de sua família?
Pandora fechou os olhos.
- Eles não são minha família. Meu verdadeiro pai está naquela cripta. – e apontou para a construção repleta de energia bizarra que tanto perturbou o mais novo Amamiya. – Me ajuda a entrar lá, Shun? – pediu com uma voz doce.
- Claro.
Não havia como negar um pedido daqueles. Pandora o havia ajudado tantas vezes, a última até salvou a vida de Ikki quando revelou como destruir a sombra do caso da fazenda Spencer. Shun sabia que tinha uma dívida com ela. Ele caminhou atrás dela em silêncio, pensando nos motivos de Pandora para trazê-lo até lá. Sentiu que de alguma forma ela precisava dele e que só ele no mundo poderia ajudá-la.
Ao parar em frente às grades da cripta escura, Shun recuou.
- Está trancado. Infelizmente não poderemos entrar.
- Não está trancado, Shun. Não para você. – falou Pandora, séria.
Shun não entendeu nada, mas mesmo assim se aproximou da grade. Analisou a fechadura. Não havia buraco para chave. Estranho. O mais estranho veio depois. Quando tocou as grades, elas se moveram sozinhas. Abriram-se para dentro como se puxadas por cordas invisíveis. Shun Amamiya segurou um grito de espanto.
Teve uma sensação ruim. Procurou Pandora ao seu lado e viu-se sozinho. O fantasma havia desaparecido. Nada fazia sentido. Tirou da mochila uma lanterna e examinou o lugar de longe antes de pensar em entrar, embora sentisse muita vontade. A luz revelava um cômodo de paredes de pedra bastante empoeiradas, apenas um castiçal solitário com seis velas ao fundo. A parede exibia algumas gavetas para caixões. Aparentemente uma cripta comum. Quando passou a lanterna no chão, viu alguma coisa.
Entrou com passos cautelosos, segurando firme a lanterna. Um símbolo havia sido entalhado no chão da cripta, era um imenso pentagrama, igual ao da entrada. Ele teve a sensação de já ter visto aquele pentagrama antes. Significava algo para ele, tinha certeza, mas o significado não surgia em sua mente. Não era algo que já tivesse visto nos livros dado por Mú, era algo que só ele sabia.
Intrigado, abaixou-se para analisar o símbolo mais de perto. Quando levantou a cabeça viu as grades serem fechadas. Uma jovem de longos cabelos negros, jeans e jaqueta de couro andou até ele. O rosto o fez ficar de pé de boca aberta. Era a garota de cabelo preto! A mesma que ele via e conversava desde o caso da Harpia de Walpaca. Não era mais um fantasma, Era uma mulher de carne e osso. Viva.
- Pandora? – interrogou abismado.
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Na residência em Sanford, Mú recebia das mãos de seu filho Kiki o último item para realizar uma invocação espiritual: o diário do caçador Dohko Lao Hu.
- Ainda não acredito que vai usar bruxaria para chamar um fantasma. – resmungou Ikki parado atrás do vidente com as mãos enterradas no bolso do casaco.
- O que estou fazendo não é bruxaria. – respondeu Mú ainda agachado. – É um ritual de invocação jamais realizado por bruxos. Os objetos servem apenas para atrair espíritos bem intencionados e sábios que só conseguem se comunicar por intermédio da energia espiritual de um médium. – Mú se levantou e encarou Ikki Amamiya. – Em outras palavras, vou emprestar minha energia para o fantasma para mostrar minhas boas intenções.
- Ele vai incorporar em você?
- Não. Eu trabalho de outro modo. Você verá...
Kiki acendeu a vela em frente à reunião de objetos. Mú sentou na poltrona da sala, respirou fundo algumas vezes de olhos fechados. Ikki não tirava os olhos do menino que estava muito quieto.
- É seguro para ele, Mú? – indagou.
- Sim. Kiki já está acostumado, Ikki. Não se preocupe. – falou Mú com uma voz serena. – Agora preciso de silêncio absoluto.
Ikki Amamiya coçou o queixo e esperou. Só queria saber o quanto ia demorar. Nada daquilo lhe agradava, a sala trancada, os cheiro dos incensos, os objetos estranhos reunidos no chão, incluindo plantas e cristais, os desenhos em volta de cada coisa, a postura de Mú na cadeira, o fato do amigo emprestar sua energia para um espírito. Mesmo sendo de um caçador, Ikki não conseguia confiar. Não achava direito. E se o espírito tomasse energia demais de Mú? Informação em troca de energia dos vivos não lhe parecia direito.
Suspirou baixinho. No fundo ele não entendia. Porém estava desesperado, por isso aceitava rituais espirituais e doação de energia. Qualquer coisa para saber onde seu irmão mais novo estava e em que havia se metido. As luzes piscando interromperam seus pensamentos. Olhou para Mú e o viu ainda calmo, sentado na poltrona, sua lábios se mexiam discretamente. O vidente parecia rezar.
Um minuto depois as luzes da sala se apagaram e a temperatura caiu bastante. Lufadas de ar frio saiam da boca de Kiki. O ruivinho observava atentamente a vela acesa no chão. A chama crescia pouco a pouco. Então os pelos do braço de Ikki se levantaram. A voz de Mú soou em meio a já escuridão da sala:
- Dohko, grande amigo do meu querido avô Shion, precisamos de sua presença aqui. Precisamos ouvir o que sabe sobre Pandora Heinstein. Por favor, Dohko, nos dê a honra de sua presença...
Houve uma pequena explosão que fez com que a chama da vela triplicasse de tamanho. No segundo seguinte um homem baixo surgiu em frente à vela. Usava um sobretudo marrom. O cabelo castanho escuro cobria suas orelhas e pescoço. Ikki notou que parecia levemente chamuscado nas pontas. Quando o fantasma levantou a cabeça, Ikki o encarou. Gostou de sua expressão, parecia lhe dizer 'olá amigo'. Não era um fantasma tão mal, pensou Ikki. E tinha cara de caçador mesmo. Um olhar bastante atento.
- É bom ver você de novo, Mú. – falou Dohko com uma voz bastante clara. – E como você cresceu! A última vez que te vi era só um garoto.
Kiki foi o primeiro a se aproximar do fantasma.
- Meu bisavô veio com você? – perguntou com uma expressão ansiosa.
- Não, pequenino. – respondeu o fantasma com um sorriso terno. – Ele mandou lembranças. – voltou-se para Mú sentado na poltrona. – Ouvi que precisavam de mim. A propósito, o sal no seu bolso não servirá de nada, Ikki Amamiya. Não vai precisar lutar comigo.
Ikki recebeu um olhar repreensivo de Mú.
- Foi só por garantia. – explicou-se.
Dohko riu alto.
- O rapaz é realmente desconfiado. Precisa aprender a confiar nas pessoas, meu caro.
- É que venho tendo muitos problemas com... Fantasmas. – falou Ikki com cuidado.
Ikki estranhou o fato de ter que falar com o fantasma sozinho, mas logo entendeu que ele só havia conseguido se materializar graças a energia de Mú. Pelo visto era algo que não duraria muito, sob pena de extenuar o vidente.
- Eu entendo. Bem vamos logo com isso, nosso amigo Mú está tendo um pouco de trabalho. Você precisa correr, Ikki. Precisa afastar o seu irmão da Pandora.
- Sim, o fantasma da garota de cabelo preto. O que ela quer com o meu irmão?
- Primeiro, ela não é um fantasma, é uma bruxa. Enganou vocês.
- Como assim? Como é possível uma viva se passar por um fantasma?! – espantou-se o caçador.
- Com um feitiço. Como eu disse, ela é uma bruxa e muito perigosa. Deve ter colocado um saquinho de feitiçaria nas coisas de vocês. Provavelmente no carro, na casa de vocês ou na mala do seu irmão. É assim que as bruxas agem. A primeira coisa a fazer, Ikki, é achar esse saquinho e queimá-lo.
- Já entendi. Vou procurar a porcaria assim que sair daqui. Fale-me mais sobre essa Pandora e o que a ela quer com o meu irmão.
- Pandora é herdeira de um famoso e temido clã de bruxos. Ela forjou a própria morte, queimou a casa onde vivia para matar os pais. Era só uma garotinha, mas já possuía grande poder. Eu investiguei o clã por algum tempo. Tudo o que consegui descobrir antes de morrer foi que a família vinha metida em algo grande, algo que podia trazer grande desgraça para o mundo inteiro. Eles atacaram a cidade de Salem na época para realizar um feitiço potente. Os bruxos quase mataram a cidade inteira só para liberar a alma do senhor dos mortos. O sacrifício de centenas de pessoas era só o primeiro passo do grande plano.
- Senhor dos mortos...? Grande plano...? – Ikki fez um careta. – Mas o que significa tudo isso?
Nesse momento a imagem de Dohko ficou borrada e sua voz baixou de volume, como se algo interferisse na comunicação. Kiki correu para amparar o pai que parecia sofrer com algo. As mãos de Mú tremiam.
- Ikki! Me escute! – exclamou Dohko com urgência, sabendo que precisa ser rápido. – Seu irmão corre perigo... – a continuação da frase fora cortada. Em seguida a imagem de Dohko piscou. – Precisa deter a bruxa Pandora... e o Grande Plano... Rápido!
No segundo seguinte, a imagem de Dohko desapareceu quando a vela se apagou. As luzes voltaram a piscar, agora com violência. Por alguns segundos, Ikki teve a impressão que toda a sala tremia. Os quadros despencaram das paredes. Kiki correu e se agarrou as pernas de Ikki morrendo de medo. Os objetos do ritual se espalharam pelo chão e um vento súbito apagou os símbolos que Mú havia desenhado. O caos só durou alguns segundos e quando finalmente terminou, o coração de Ikki Amamiya estava na garganta.
Viu a cabeça de Mú baixar entorpecida, então instruiu o garotinho a ajudar o pai. Ikki segurou o pescoço de Mú e tentou despertá-lo. Os olhos do vidente estavam revirados, ele ainda estava em transe, mas parecia se esforçar para acordar. Gemeu e suas íris voltaram para o lugar ao ouvir o chamado aflito do filho.
- Mú, por favor, diga alguma coisa. – pediu Ikki.
Mú engoliu em seco. Esperou até sua respiração se aliviar.
- Algo interferiu na comunicação, algo muito poderoso e maligno.
Os olhos de Ikki ficaram sérios ao receber a informação.
- Kiki, vá buscar um copo de água para o seu pai. – ordenou ao menino que correu para a cozinha.
Ikki só queria ficar a sós com o vidente. Também não queria assustar mais o garoto.
- Tenho certeza que algo não queria que você soubesse de nada. Eu ouvi toda a conversa de vocês. Sei onde o Shun pode estar. Ele me contou que sempre sonhava com um cemitério. Eu pesquisei e descobri que o lugar realmente existe. Pandora deve ter atraído o seu irmão para lá, para esse cemitério. É nossa única pista.
- Entendi. – falou Ikki com um sorriso agradecido. – Obrigada por tudo, meu amigo...
Antes que pudesse se levantar, teve seu braço agarrado por Mú.
- Você não vai sozinho. Tenho a impresso que esse caso é complexo demais. Vou com você. Quero saber mais sobre esse senhor dos mortos.
- Tem certeza, Mú?
- Tenho. Só preciso de um lugar seguro para deixar o meu filho.
Ikki ajudou o vidente a ficar de pé. No fundo, apesar de toda a preocupação com o irmão mais novo, se sentiu bem por receber a ajuda de Mú. Seria bom tê-lo por perto. Era um caçador experiente, apesar de um pouco enferrujado, como ele mesmo já havia reconhecido. No fundo sentia que precisava de toda a ajuda possível. O aviso do fantasma Dohko não saia de sua cabeça.
Quando levou o amigo para a cozinha já sabia com quem deixaria o pequeno e levado Kiki.
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Quase uma hora depois, um surpreso Shiryu abre a porta de sua casa. Seu amigo Ikki Amamiya, um homem de cabelos lilases e um garoto ruivo o observam.
- Ikki...? – faz Shiryu confuso. – Algum problema?
- Sim, preciso de um favor. – disse Ikki e foi entrando antes de ser convidado como sempre fazia na casa do amigo.
Encontrou a namorada do rapaz, Shunrei, na sala. A jovem abre um sorriso simpático para os visitantes. Ikki logo percebe que os dois estavam ocupados, mas não se importa. Mú se apresenta e coloca Kiki a sua frente mantendo as mãos sobre os ombros do filho.
- Se estiver ao meu alcance. – fala Shiryu.
- Está sim, não se preocupe... – começa Ikki conduzindo o rapaz para a cozinha. – Pode ficar de olho naquele garoto pelo dia de hoje?
Shiryu desvia o olhar discretamente para o menino que já conversava com sua namorada. Shunrei adorava crianças.
- Quem é ele, Ikki?
- Filho do cara de cabelo cumprido, o nome dele é Mú. Ele é vidente.
- Vidente?
- Ele fala com espíritos, essas coisas. O pai do garoto e eu vamos resolver um assunto... – Ikki falou gesticulando. – Então pode tomar conta do moleque?
- Eu posso, mas que assunto é esse? Onde está o Shun?
- O Shun é o assunto. Olha, não quero que se preocupe. O Shun se meteu numa encrenca, mas eu vou resolver como sempre...
- Que espécie de encrenca? – indagou Shiryu com notas de nervosismo. – Ikki, o que está acontecendo, não estou gostando disso. Vocês ficam fora por quase um mês, sem dar uma notícia se quer. Ficamos preocupados, sabia? Seiya, Hyoga e eu. Você sabia que o policial Dante anda dizendo que você está foragido por ter matado a Esme e pretende te caçar pelo país?
- Aquele filho de uma puta! – rosnou Ikki. – Shiryu, não é nada disso que o canalha anda falando. Estamos fora justamente para achar a Esme...
- Hyoga comentou comigo por alto, que vocês estavam investigando por conta própria. Mas porque tanto mistério, Ikki? Somos seus amigos, podemos te ajudar...
- Não. – Ikki colocou a mão no ombro de Shiryu. – Cara, eu detesto essa situação. De verdade. Mas, infelizmente, não posso falar nada no momento. Posso apenas garantir que estou fazendo de tudo para encontrar a Esmeralda e não estou fazendo nada de errado.
Shiryu assentiu e suspirou.
- Acredito em você. Mas estou preocupado. Prometa-me que vai ligar se algo der errado ou precisar de ajuda. Está bem Ikki? – perguntou o estudante de psicologia Shiryu Gāogui Lóng com toda paciência.
- Eu prometo, cara. E agradeço por tudo. Mais uma coisa, faça o Hyoga levar um recado ao delegado Mitsumasa Kido, de que Shun e eu logo estaremos de volta. Pode fazer isso?
- Posso, mas não sei se o Hyoga...
- Ele vai sim. Está me devendo um favor. Lembre isso a ele.
- Ok.
Ikki agradeceu de novo e os dois voltaram para a sala. Shiryu se apresentou para Kiki. Mú deu algumas recomendações, avisou que o filho era alérgico apenas a camarão e que precisava dormir cedo. Pai e filho se despediram com um abraço apertado. Mú fez Kiki prometer que ia se comportar e Ikki discretamente ofereceu duas pratas caso o pequeno colocasse a casa do pacato Shiryu a baixo.
- 5. – aumentou Kiki.
- 5 pratas?! – espantou-se Ikki. Kiki o encarou firme. Amamiya deu de ombros. – Feito.
Selaram o acordo com uma piscadela. Shunrei segurava a mão de Kiki em frente a porta da casa enquanto Shiryu se despedia de Ikki e Mú em frente ao Impala.
- Gostei da cara do Shiryu. – falou Mú quando Ikki acelerou. – Parecer ser um bom rapaz.
- Ele é mesmo.
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De repente tudo se encaixou. Ela estava viva. Por isso lhe dava a impressão de não ser tão fantasma às vezes. Pandora não era um fantasma, nunca foi. Ele não imaginava como ela havia conseguido aquela coisa tão incrível que era se passar por um fantasma.
A raiva veio logo depois, conforme olhava para a garota parada a sua frente. Pandora permanecia em silêncio, o fitando com tristeza, até certa timidez. Shun queria evitar ver alguma coisa do doce fantasma naquela garota viva. Ela mentiu, não podia esquecer disso. Só queria saber por quê.
- O que significa tudo isso, Pandora?! – perguntou com nervosismo.
Sentiu vontade de agarrar os ombros dela e chacoalhá-la com força até ela falar. Pandora finalmente se manifestou. Deu um passo a frente. Seus olhos estavam marejados.
- Perdoe-me, Shun! Por favor me perdoe meu imperador... Eu imploro!
Aquela reação cheia de emoção o deixou mais confuso.
- Se não me disser o que está acontecendo aqui eu vou embora... – deu um passo decidido em direção a porta da cripta. Teve seu braço agarrado pela jovem.
- Não! Por favor não vá! Sua presença nesse lugar é muito importante, Shun.
Shun Amamiya fitou a moça com olhos firmes. Empurrou-a de leve. Tudo ficava mais estranho a cada segundo.
- Me devendo explicações. – ela assentiu colocando o cabelo escuro atrás da orelha, parecendo muito envergonhada. – Pode começar.
- Não queria ter mentido para você. Eu juro que não. Mas foi preciso. Espero que um dia me perdoe por isso. – continuou de cabeça baixa.
- Como conseguiu se transformar num fantasma?
- Usei um feitiço. Eu sou uma bruxa, Shun. Sou remanescente de um antigo clã de bruxos. Meu nome é Pandora Heinstein. Deve estar se perguntando se sou a mesma Pandora da lápide. Tecnicamente sim. Eu tive que simular a minha morte para me proteger de meus perseguidores.
- Quem?
- Minha própria família. – respondeu Pandora com tristeza. – Eles queriam me sacrificar em um ritual. Graças aos meus poderes consegui fugir deles. Eu só tinha seis anos, mas já era muito poderosa, possuía talento natural. Era temida. Minha própria família não me aceitava. Me viam como ameaça. Eu consegui fugir de suas intenções malignas usando fogo, então... – ela fez uma pausa. – Houve um acidente causado pela minha inexperiência com o elemento...
- Você começou o incêndio que sempre me mostrava em meus pesadelos? – questionou Shun.
- Sim. Não queria fazer mal a eles, só queria fugir. – Shun a viu chorar sem que sua expressão se alterasse, como se ela não notasse as lágrimas.
- Eu sinto muito. – disse por instinto. – Mas porque fingir estar morta, porque me atrair para cá?
Ela o encarou profundamente. Os riscos de lágrimas em seu rosto tornavam seu olhar mais sombrio. Pandora andou em volta dele jamais deixando de fitá-lo.
- Eu precisava me aproximar de você, precisava saber se estava pronto, se seu corpo suportaria o teste final. Precisava te trazer até esse lugar, Shun Amamiya.
- Seja mais clara. – exigiu Shun seriamente.
- Ainda não entendeu o quanto é especial, Shun? – falou Pandora em seguida abriu um sorriso. Silenciosamente aproximou-se dele, virou o rosto dele para olhá-lo nos olhos. – Você é mais do que especial, não só porque consegue se comunicar com espíritos, mas por sua inteligência, bondade, pureza... – os lábios vermelhos da garota estavam quase colados aos dele. Shun queria, mas não conseguiu se afastar para impedir o beijo. – Você foi escolhido, meu bondoso Shun. Ele quer você...
O beijo era só uma desculpa. A bruxa queria tê-lo bem próximo para sussurrar certas palavras em seu ouvido. Como também possuía dons, Shun percebeu as intenções da jovem, mas antes que pudesse se afastar foi enfeitiçado. Acabou caindo de joelhos. A sensação era de ter os pensamentos embaralhados.
Pandora acariciou seus ombros e recuou alguns passos. Quando seus pés deixaram de tocar o pentagrama desenhado no chão da cripta, a mágica aconteceu. O desenho se iluminou. Um brilho tão intenso que podia ser visto por quem estava fora da cripta, nesse caso, um homem chamado Radamanthys. o mais leal servo da bruxa Pandora. estava lá para dar segurança ao ritual e não deixar Shun fugir, caso ele tentasse.
Shun Amamiya arreganhou a boca quando sentiu algo se apoderar de sua alma. Cada parte de seu corpo formigou infernalmente. Ele tentava gritar a única palavra que vinha inteira a sua mente era o nome do irmão. Shun estava apavorado. Então subitamente toda a agonia desapareceu. Perdeu os sentidos e caiu desmaiado sob o pentagrama já apagado.
Pandora jogou-se sobre ele. Primeiro procurou ouvir se o coração do rapaz ainda batia. Agradeceu ao constatá-lo vivo. Emocionada acariciou o rosto suado de Shun suavemente. Beijou-lhe a bochecha em seguida, não conseguiu se controlar. Ele era a pessoa mais importante de sua vida. Aquele encontro fora muito esperado.
- Bem vindo... – sussurrou. – Bem vindo meu senhor dos mortos. Quando acordar, sua mais leal seguidora estará ao seu lado, te protegendo e cuidando. Sempre. Meu amado imperador Hades.
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Muitas horas depois, Ikki e Mú chegaram ao cemitério abandonado em Salem, onde Shun havia caído aos pés da bruxa Pandora. Notaram a cripta aberta e entraram. Era por volta de meio dia, mas a grande tumba não recebia luz do sol alguma, obrigando Ikki a ligar sua lanterna para caminhar com segurança. Mú fez o mesmo. Os dois analisaram o pentagrama entalhado no chão.
- Algo ocorreu aqui, exatamente neste lugar. – falou Mú em voz baixa. – Posso sentir um resquício de energia obscura. Lembra um pouco o que me afetou em casa.
- Shun esteve aqui? – quis saber Ikki.
- Não sei dizer...
- Mas como! Ele sonhava com esse lugar, o fantasma da maldita bruxa o queria aqui. Consulte os espíritos, Mú!
O vidente fez um sinal para Ikki esperar, em seguida fechou os olhos, parecia buscar concentração.
- Não consigo ouvir os espíritos aqui, é como se eles não conseguissem entrar nessa cripta. O que quer que tenha acontecido por aqui os está repelindo ferozmente. Eles sentem medo.
- Então vamos sair daqui.
Em frente à cripta, os caçadores se dividiram em busca de alguma pista da passagem de Shun Amamiya pelo cemitério. Mú encontrou as tumbas dos Heinstein's e chamou Ikki para ver.
- O túmulo da Pandora, que provavelmente está vazio. – observou o rapaz.
- Isso mesmo, como o Dohko falou. – Mú apontou para as duas lápides ao lado onde se lia o nome de Pandora. – Estes devem ser dos pais dela. Ikki, agora pouco consegui ouvir uma voz me dizendo para sair desse lugar. É um lugar proibido, amaldiçoado. Energias muito obscuras protegem esse lugar de invasores. Tudo emana daquela cripta.
- O que mais os espíritos dizem? – insistiu Ikki. – Falam alguma do meu irmão? Ele esteve aqui?
Mú negou com a cabeça.
- Só dizem para sairmos daqui o mais rápido possível, pois algo muito ruim foi liberado naquela cripta.
- Não podemos sair daqui sem respostas. Esse lugar é nossa única pista. – falou Ikki, nervoso.
- Eu sinto muito. Vamos encontrar respostas, mas não aqui. Ainda precisamos saber tudo sobre o tal senhor dos mortos que Dohko mencionou antes de desaparecer. Talvez seja nossa próxima pista. – sugeriu Mú com paciência.
Ikki apertou os olhos e suspirou. Sentia que o tempo estava passando rápido demais.
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A cabeça de Shun pesava uma tonelada quando acordou. Olhou em volta tentando descobrir onde estava. Estava num luxuoso quarto. Os móveis pareciam ter saído de um palácio real, sua cama possuía um dossel. As cortinas estavam fechadas e cobriam as amplas janelas. Um abajur ao lado de sua cama tornava bastante agradável a iluminação do ambiente.
A lembrança de Pandora e do que havia acontecido na cripta era algo vago. Porém Shun tinha certeza que havia caído numa armadilha. Esforçou-se para pensar com mais clareza. Nesse momento viu a porta se abrir. Pandora entrou no quarto segurando uma bandeja de prata seguida por um homem loiro, alto e corpulento. Shun lhe lançou um olhar entre raivoso e interrogativo. Pandora pôs a bandeja coberta em cima de uma mesa encostada à parede e voltou-se para seu acompanhante:
- Pode ir agora Radamanthys, eu chamo se precisar.
O sujeito olhou rapidamente para Shun na cama e deixou o quarto em silêncio. Pandora se aproximou quando a porta do quarto se fechou. Shun a fez parar mostrando a mão.
- Não se aproxime... – estranhou sua voz sair tão cansada.
- Shun... – ela lhe dirigia olhos culpados.
- Eu quero respostas, Pandora! Porque estou aqui? O que aconteceu naquela cripta?! – exclamou e no segundo seguinte sua visão escureceu.
Parecia que havia ingerido uma droga pesada. Mesmo assim tentou levantar. Acabou cambaleando. Pandora se precipitou para ampará-lo. O abraçou com gentileza e o deitou delicadamente na cama, ajeitando os travesseiros sob sua cabeça por fim.
- Não deve se esforçar, meu senhor.
- O que você é, Pandora?
- Sou uma bruxa, já lhe expliquei.
- Não. – Amamiya respirou fundo lentamente. Deu um olhar atravessado para a mão de Pandora sobre seu peito. Não queria receber o carinho dela, não confiava mais nela. – Não explicou nada. Quero saber o que fez comigo?
- Eu lhe explicarei tudo se prometer não tentar se levantar de novo. Precisa descansar para recuperar suas forças. – Shun concordou com a cabeça. – Muito bem... – Pandora sentou na cama colocando as mãos juntas sobre as coxas. – Eu precisava me aproximar de você, saber se estava preparado para receber a alma do nosso imperador. Então te atrai, armei os casos desde Walpaca. O diretor Valentine, a Harpia, era um de meus subordinados. Eu liberei o espírito do noivo da Hilda e por fim, mostrei o feitiço Vingança Negra para Jamian. Meu objetivo era testar seus poderes e capacidade de raciocínio, Shun. Você se saiu muito bom ao lado de seu irmão. Após o caso no hotel das irmãs Hanveig, eu senti que estava pronto verdadeiramente, apenas restava tirar algo de nosso caminho. O seu irmão mais velho...
- O caso na fazenda Spencer serviu apenas para me afastar do Ikki...? – concluiu Shun, decepcionado.
- Sim. Ikki jamais entenderia os seus dons, Shun. Ele não consegue lidar com o fato de você ser melhor do que ele. Não vê que está melhor agora, longe dele?
Ela pôs a mão na testa de Shun que recebeu o toque com uma expressão apática. Perguntava-se como fora tão estúpido de cair na conversa de uma bruxa disfarçada de fantasma.
- Ikki estava certo o tempo todo. – falou baixinho, com uma voz desprovida de emoção. – Não devia ter ouvido você.
A frase arrancou lágrimas de jovem. Shun continuou olhando-a inexpressivamente, ainda se mostrando apático para Pandora achar que tudo ainda estava sob seu controle. Evitou olhar para ela. Não queria se comover com aquelas lágrimas que julgava falsas.
- Sei que mereço seu desprezo pelas minhas mentiras e ações. – falou Pandora de cabeça baixa. Em seguida levantou e parou em frente à janela, de costas para a cama. – Agi em nome da causa. Doeu muito fazer tudo o que eu fiz, mas eu tive que fazer. Precisava preparar o seu corpo para receber a alma do nosso libertador.
Shun fechou os olhos. Esforçou-se até ficar calmo. Sentia suas forças voltando gradativamente. Um plano de fuga já se estruturava em sua mente. Ele sabia que tinha que fazer qualquer coisa para escapar daquela bruxa. Entendia que ela o via como uma espécie de receptáculo. Algo estava dentro dele, quase podia-a sentir sua energia. Agora ele se lembrava perfeitamente do ritual na cripta. Por mais que quisesse saber o significado de tudo, precisava escapar daquele quarto e encontrar Ikki. Se desculpar por tudo o que disse e fez.
- Suponho que não vai me dizer nada sobre esse libertador.
- No momento não posso. – respondeu Pandora ainda de costas. – Quando estiver plenamente recuperado, contarei tudo o que precisa saber.
Shun assentiu e tentou ficar sentado. Gemeu para chamar atenção da bruxa.
- Preciso ir ao banheiro, pode me ajudar?
Pandora imediatamente foi até ele. Ajudou-o a ficar de pé e fez seu corpo de apoio para Shun chegar até o banheiro. Aproveitando-se que ela havia entrado na frente, Shun a empurrou a fazendo cair sentada na privada fechada, trancou a porta por fora antes que ela pudesse reagir. Correu até a porta do quarto e sem perder tempo abriu-a. Deu de cara com o sujeito loiro. Era tão grande quanto um armário, devia ter mais de dois metros de altura, tomava conta de toda a passagem.
Shun estancou fitando o rosto sério do capanga. Empurrou-o para sair de sua frente, mas foi inútil, o sujeito nem se moveu. Ignorando a reclamação de Shun empurrou-o de volta para o quarto com força. Shun foi ao chão com extrema facilidade. Eram mais de 95 kg contra os seus 63. Lutar seria inútil. O loiro lhe dirigiu um olhar frio e o arrastou do chão de volta para a cama. Com rapidez, sacou uma arma.
- Não vão se safar dessa. – ameaçou Shun lançando um olhar inflamado para o loiro.
Foi solenemente ignorado. O gigante loiro abriu a porta do banheiro com uma chave de um molho que tirou do bolso do casaco. Sempre mantendo a arma apontada para Shun. Pandora saiu com uma cara assustada. Olhou bem para Shun como querendo se certificar se ele estava bem, então respirou aliviada.
- Me perdoe por isso, Shun. – voltou-se para o gigante e ordenou: - Prenda-o, Radamanthys.
Shun fez questão de guardar bem esse nome, Radamanthys. Entendeu que ele era uma espécie de segurança da bruxa. Depois de cumprir a ordem, em completo silêncio, Radamanthys e Pandora saíram do quarto. Shun percebeu que ela chorava, enquanto o segurança se mantinha sério.
- Pandora! – gritou Shun agitando os pulsos presos, fazendo a cama toda tremer. – Deve saber que meu irmão está me procurando. Ele não vai parar ate me achar. Está ouvindo, Pandora?! Pandora!
A bruxa ouvia os gritos de Shun encostada a parede, chorava por ter que mantê-lo preso, mas era preciso. Precisava protegê-lo. Assustou-se ao sentir a presença enorme de Radamanthys ao seu lado.
- Eu posso sedá-lo se quiser, senhorita. – falou o gigante loiro.
- Não. Não será necessário, Radamanthys. – respondeu a bruxa limpando os olhos úmidos. – Ele logo vai perceber que é inútil lutar. Quando se acalmar eu volto. O irmão deve estar realmente a caminho. Esteja preparado, Radamanthys.
- Estarei, senhorita.
- Obrigada por tudo, Radamanthys.
Ele meneou a cabeça querendo dizer de nada. Ficou a observando caminhar pelo corredor com um olhar calmo.
Até o próximo capítulo.
