CAPÍTULO 8 –

Campos


Centro da França, Início de Novembro de 1943

"Fogo!", alguém gritou e diversos disparos foram ouvidos ao mesmo tempo.

Era a ordem para que invadissem o perímetro da base alemã, alojada no meio de um vilarejo abandonado. Havia prédios de dois, três e até quatro andares em ruinhas; os que estavam de pé serviam de esconderijo para os atiradores de elite. Os Aliados estavam em número muito superior, mas os alemães tinham vantagem por conhecerem o território e seus melindres.

"Não é muito inteligente se oferecer para eles desse jeito", Ginny ouviu um francês resmungar ao seu lado, numa trincheira improvisada.

Ela concordava, mas, desde que saíram na base dos Aliados e seguiram rumo ao centro da França para desestabilizar e quebrar a ocupação alemã no país, a infantaria da qual fazia parte parecia disposta a qualquer coisa para avançar no território. Ginny precisava concordar que estava em uma equipe com tendências suicidas.

Mas funcionava.

Os loucos que se jogavam no meio das balas eram rápidos demais;

Os mais lentos eram inteligentes e sempre pegavam os inimigos de surpresa;

Os mais velhos eram experientes em guerras e sedentos por recuperar o que era deles por direito;

Os mais eram completamente insanos e não se importavam e morrer por ideais.

Aquele francês que tinha resmungado era uma exceção, porque, no fim das contas, tiveram poucas baixas. Realmente poucas, se fossem comparar com as demais infantarias com estratégias mais cuidadosas.

"Chegar, mirar e atirar", o outro falou, rebatendo o primeiro. "Não pense. Atire!"

"Vai! Vai! Vai!", ela ouviu às suas costas.

Eram quinze homens seguindo por uma rua que era a menos vigiada. Havia escombros, sangue, marca de explosões e tiros. Não havia corpos no caminho.

"Separar", Ginny ouviu e fez como sempre fizeram nos últimos dias. Seguiu por entre as paredes, com um grupo composto por mais quatro homens. Ela cobria a retaguarda da equipe na primeira etapa das infiltrações. Depois revezavam e ela apoiava uma das pontas e no final da última rotação ela era responsável por cobrir os flancos.

Eram organizados, os malditos. Loucos e organizados. Uma mistura perigosa. O exército alemão era assim no começo, ela tinha ouvido dizer. Cães raivosos que atiravam primeiro e perguntavam depois. Aos que sobreviviam ao ataque nos arianos, um destino pior era aguardado nos campos de concentração. Ginny nem conseguia imaginar.

"Limpo", o líder do grupo falou. "Tudo limpo", repetiu, visivelmente intrigado.

"Só eu achei estranho não ter ninguém nesse prédio estratégico?", o mais novo questionou.

Ginny só pensava neles assim: o líder, o mais novo, o mais velho, o baixinho, o sardento, o cara do sotaque engraçado e o que fazia café. Não sabia muito sobre as vidas dele, porque falar com eles era expor sua situação, então trabalhava, quieta, visivelmente concentrada em ser uma máquina de matar naquela guerra. Com aquilo, em uma semana ganhou o apelido de Senhor Silêncio.

"Hey, Silêncio, venha comigo", pediu o sargento, o líder daquele grupo. "Precisamos relatar ao capitão. Vocês três organizam o perímetro e vigiam da torre do prédio. Quem entrar, morre. Se encontrarem alguém aqui dentro, morre também. Se alguém passar na rua, morre também e se-"

"Senhor? Permissão para falar livremente".

"Diga".

"Não seria mais interessante pegar um desses e interrogar? O resto a gente mata, mas precisamos saber o que houve aqui".

O sargento pensou um pouco e concordou.

"Positivo, cabo. Você tem a ordem. Vamos, Silêncio".

Ginny o seguiu como uma sombra. Cobrindo a retaguarda e sendo cuidadosa. Ele fazia o mesmo. O sargento era um homem extremamente competente que ela passara a admirar.

"Sargento, movimentação às nove horas".

Ele averiguou e fez sinal de positivo. Era a segunda equipe de reconhecimento, acompanhando um civil.

"Tem gente aqui", ela falou espantada. "Quero dizer, civis. Esperava os alemães, não franceses".

"De certo houve uma batalha aqui e depois eles se refugiaram".

"Será que tem alemão por aqui?", ela questionou.

"Não sei. Acho que as demais equipes também não encontraram nada além de-"

Mas ele não concluiu a frase, pois uma bala atravessou sua garganta, fazendo o sangue espirrar no rosto de Ginny. De onde veio? De onde veio? Ela se perguntava, escondendo-se na curva do hall de entrada. Vasculhou a escada, depois olhou por um buraco na parede e procurou por movimentos nos andares superiores dos prédios que circundavam o que estava.

"Os malditos estavam aqui o tempo todo. Ah, mas vocês vão se arrepender de mexer comigo, seus filhos da mãe. Vão sim", reafirmou para si mesma, saindo rapidamente de onde estava escondida e correndo pela rua pela qual tinham vindo. Escutou o barulho das balas assoviando ao pé dos seus ouvidos.

Ginny não lembrava de ter corrido tão rápido em toda a sua vida.

Ela forçava suas pernas ao máximo, procurando passar por obstáculos no meio do caminho, para que dificultasse a mira. Ouviu gritos dentro dos prédios e não precisou ver nada para saber que os três grupos de reconhecimento tinham caído em uma armadilha. À sua frente ouviu mais tiros e gritos. Eram os loucos do seu esquadrão vindo direto para a briga, pois de certo escutaram os tiros e quiseram participar também. Ela saltou um muro e não percebeu a besteira que tinha feito antes de ser tarde demais...

No instante seguinte ela estava engalfinhada em um varal de roupas que foram esquecidas, rolando por um barranco coberto de grama verde, que terminava no começo de uma floresta que ela rezava para não estar cheia de alemães escondidos.


Centro da França, Início de Novembro de 1943

Draco, vestindo o uniforme do exército alemão, contrastava com as roupas civis de alguns dos membros da infantaria – usadas para confundir o exército dos Aliados. Ele só esperou por dois segundos antes de atirar no primeiro inimigo que apareceu dentro do perímetro depois que os primeiros tiros começaram a estourar na pequena cidade.

A estratégia tinha funcionado. Os que foram encontrados, colocados estrategicamente nas linhas de frente, desarmados, foram confundidos com civis franceses. Era só não abrir a boca que estava tudo certo. Era o plano. Daria tempo para fazer um mapa rápido da infiltração dos Aliados e atirar em cada um deles sem perder nenhum membro do exército alemão. Eles não podiam se dar ao luxo de morrer ali.

Draco, Theodore, Miles e Marcus tinham uma missão especial e estavam ali apenas para auxiliar. Se a coisa ficasse ruim eles precisavam fugir sem olhar para trás e continuar com a verdadeira missão. Eram as ordens. Mas por enquanto estava tudo seguindo o planejado. O exército de franceses, misturados a alguns ingleses parecia ser composto por loucos que procuravam a morte. Eram mais numerosos, mas em muito lembravam a fúria do exército alemão.

Eles também morreriam pela pátria. Pelo orgulho.

Mais dois minutos e uma explosão. Mais um minuto e outro estrondo, seguido por gargalhadas e comemorações. O que diabos estaria acontecendo?

Draco saiu pela porta dos fundos da construção em que tinham montado posto, com cuidado. Foi seguido de perto por Marcus e Miles; Nott cobria a retaguarda do grupo.

"O que diabos deu errado?", Miles já começou a reclamar. Ele ainda estava ligeiramente debilitado por conta dos últimos embates. "Já era para estar silencioso a esta hora".

"Estão resistindo", Marcus concluiu.

"Estão com reforços", anunciou Theodore apontando para o horizonte.

Eram aviões. Aviões ingleses.

"Esses porcos não vieram sozinhos", xingou Miles. "Armaram para nós, estavam esperando para mandar os bombardeiros. Filhos da mãe! Filhos da mãe! Porcos judeus filhos de uma-"

"Miles, cala a boca e corre!", ordenou Marcus, esgueirando-se por um beco que dava em uma escadaria que levava a uma ribanceira que desencadeava na floresta.

"Vai! Vai! Vai!", apressou Theodore.

Não achavam bonito fugir. Não era algo que tinham orgulho de fazer, mas era correr ou morrer e a segunda alternativa – para aquele grupo de resgate – era algo totalmente fora de questão.

"Juro que se escapar dessa, nunca mais falo palavrões", prometeu Miles.

"Para de falar besteira", advertiu Marcus. "No instante em que você estiver com seu traseiro a salvo dentro daquela floresta você vai proferir todos os palavrões que você conhece só para comemorar".

"Não vou. Prome-"

Ele não conseguiu completar. O grupo foi atirado para frente pela força de uma explosão muito próxima. Os aviões estavam em cima do vilarejo, dando rasantes e despejando munição.

"Estamos fu-"

"Olha o palavrão", lembrou Nott, se levantando devagar e reiniciando a corrida.

"Não estamos na floresta ainda", rebateu.

"Corram! Deixem para conversar quando estivermos inteiro e a salvo", Draco aconselhou. Tinha acabado de ganhar um corte profundo no braço, que manchava o uniforme bege do exército.

E eles correram, saltaram e lutaram contra a gravidade que quase os derrubou diversas vezes enquanto corriam pelo barranco inclinado e cheio de buracos.

"A floresta. A floresta! Quase!" Miles pensava alto, quase torcendo para que a floresta se movesse magicamente para ficar mais perto.

Quando estavam a alguns passos, se jogaram de qualquer jeito entre os primeiros arbustos, ocultando-se às sobras, ouvindo gritos, bombardeios e tiros que vinham do cenário de guerra que tinham acabado de deixar para trás, e agora estava coberto por uma nuvem de fumaça.

Eles respiraram fundo, em silêncio, cada um com seus pensamentos, olhando para o alto das árvores, ou apenas de olhos fechados – como Theodore. Por pouco. Por pouco. Por pouco.

"Nos safamos", Miles sussurrou. "Estamos vivos"

"Por sorte", lembrou Nott.

"E por pouco", Draco acrescentou.

Eles riram. Uns levaram a mão ao rosto, ainda sem acreditar. Draco abriu os braços, ainda deitado no chão. Esticando-se, sentindo que estava inteiro, conferindo se cada parte do seu corpo ainda estava ali. E estava tudo no lugar. Sorriu. E riu das gargalhadas de Miles, que parecia estar cada dia mais insano.

"Somos uns sortudos filhos de uma mãe!", bradou rindo, levantando-se. "Venham, seus porcos! Com a gente ninguém pode!", gritou.

Draco e Theodore trocaram olhares preocupados. Tinham sérias dúvidas sobre a saúde mental do companheiro alucinado. Era certo que Miles nunca fora um exemplo de disciplina e seriedade, mas a guerra o estava deixando anormalmente eufórico e precipitado. Tudo nele, absolutamente tudo, era exagerado.

"Temos que nos afastar disso. Quando terminarem ali virão procurar na floresta", Marcus previu, levantando-se.

"Que venham!", Miles exclamou feliz.

"Não provoca, criatura", Nott aconselhou, rindo. Levantou-se com certa dificuldade e soltou uma exclamação de dor, que matou o seu sorriso. "Porcaria, machuquei o joelho", reclamou consigo mesmo.

"A gente vai devagar, o que importa é sair daqui agora", Draco já se adiantou, mas logo foi ultrapassado por Miles.

Margearam a floresta até encontrar um local em que pudessem entrar na mata, onde não fosse tão fechada.

"Puta Merda", Miles soltou uma exclamação de surpresa.

"Pensei que não iria mais falar palavrões se conseguíssemos sobreviver", Marcus lembrou, se aproximando e afastando um arbusto.

Então os outros três viram.

"Isso realmente merece todos os palavrões do mundo", Draco falou, trocando olhares com os companheiros.


N/A.: Sei que tinha prometido um capítulo maior, mas eis que travei bonito depois dessa parte e passei esse tempo todo tentando continuar a partir daí. Eu sei o que deve acontecer, tanto que abri outro documento, entitulei "Capítulo 9" e a coisa fluiu. Ou seja, já comecei o capítulo 9 e esse vem mais rápido. Acho que foi o POV do Draco que me deu problemas, mas a partir do próximo essa coisa de POV não vai mais me dar dor de cabeça *suspiro*. COMENTEM por favor! Podem me matar, eu deixo. Fiquei triste porque mais ninguém comentou nada, e eu sei que estão lendo... Foi para me colocar de castigo e eu atualizar, né? Né?? Maldade *choro*