Capítulo Nove
Era eu quem estava segurando o pulso de David, mas era ele que estava guiando o caminho até seu dormitório, me arrastando atrás dele. Eu sabia onde seu dormitório era, mas nunca tinha pisado um pé lá antes, eu nem sabia quem era seu colega de quarto, ele nunca mencionava isso.
Ele me puxou pelo corredor, esgueirando-se facilmente por entre partes multidão e passando direto por outros grupos, fazendo-os se dispersar. Eu não sabia dizer se ele estava bravo, chateado ou preocupado. Entretanto, eu tinha total certeza de que ele não estava bravo, por que quando eu quase tropecei, ele olhou para trás e perguntou se eu estava bem.
Parecia que todos os quartos nesse lugar eram pintados do mesmo jeito, todos os móveis nos mesmos lugares. As paredes do quarto de David eram cobertas por pôsteres Green Day e No Doubt – "Grewn Stefani, a única garota que eu já achei atraente", ele tinha dito – e havia uma pequena mesa próxima a cama dele, cheia de livros, todos marcados e um pouco amassados pela leitura repetitiva. Ele já tinha desfeito suas malas.
Andando para frente, eu parei exatamente no centro do quarto, enquanto ele permanecia na porta, o ponto perfeito para quem estava planejando fugir se as coisas saíssem de controle.
-O que você quer? – ele perguntou.
-Eu gostaria de falar com você sobre o que aconteceu.
Ele deu alguns passos para frente, com os braços estendidos.
-Bem, se você vai atirar, então faça logo.
-Eu não vou gritar, eu não estou bravo com você, mesmo. – eu garanti.
Ele ergueu uma de suas sobrancelhas, o mesmo lado de sua boca subindo também.
-O quê?
-Eu não estou bravo com você. Por quê? Você achou que eu estava?
Ele corou.
-Sim.
-Por que eu estaria bravo com você?
Na frente dele, havia uma manta circular que parecia muito com um alvo, começando com um circulo azul escuro no meio, aí um anel de azul claro o circulando; ele ergueu a borda da manta com a ponta do seu tênis.
-Eu te deixei bêbado e te beijei.
Eu balancei minha cabeça.
-Não, você não fez isso. Eu mesmo me embebedei e aí beijei você.
-E você se arrepende?
Olhando da esquerda para a direita, como se procurando sinais de arrependimento ao meu redor, eu dei de ombros: - Absolutamente não.
Os olhos de David se cerraram, o delineador escuro destacando a cor de suas íris. Eu dei meu melhor para ler as entrelinhas e descobrir o que estava passando na cabeça dele. Era claro em seu rosto, entretanto, ele estava confuso com tantos pensamentos.
-Você é hétero, Pierre.
-Quando eu disse que era? Você assumiu naturalmente que eu era hétero; eu apenas escolhi não concordar ou discordar.
Parecia que eu o tinha pegado nessa.
-Você é gay, então?
-Não. Eu gosto de garotas, David. Bem, não neste momento, de todo modo; eu gosto mais de você. Mas eu sempre preferi garotas, principalmente, tipo, antes de conhecer você. – o buraco em que eu estava me enterrando estava ficando mais e mais fundo com cada palavra, então eu calei a boca.
David assentiu em entendimento.
-Então, você é bi?
Eu mordi meu lábio e desviei o olhar. A palavra bissexual sugeria que eu gostava de garotas e garotos em geral, e isso não era verdade.
-Esse é o problema. Eu sempre gostei de garotas, mas você é o único garoto que eu gosto ou vou gostar.
-Então, você é hétero, exceto por mim?
-Sim. – eu murmurei. – Eu estou realmente feliz por ter te conhecido, por que eu nunca saberia como é estar com...
-Oh, meu Deus! – David me interrompeu, suas mãos indo para seus cabelos; ele soava como se fosse chorar. – Eu sou tão idiota! – abrindo a porta rapidamente, ele se virou e olhou para mim com raiva veemente. – Vá embora, Pierre.
Eu hesitei levemente, o que eu tinha feito?
-Por quê?
Dos pés a cabeça, ele estava tremendo; eu nunca o tinha visto tão bravo em todo o tempo que o conheço. Se ele não ficasse tão estranhamente adorável, suas bochechas vermelhas em fúria, então eu teria ficado com medo dele.
-Apenas. Dê. O. Fora.
-Pelo menos me diga o que eu fiz.
Ele bateu a porta e se afastou dela, andando em círculos raivosamente ao redor do seu quarto e nunca parando de olhar para mim.
-Como eu pude ser tão cego? – ele perguntou para si mesmo. – Eu não posso fazer isso, Pierre, eu não vou fazer isso.
-David, se acalme; eu não estou te entendendo. – eu o alcancei e peguei seu braço suavemente, parando-o e o virando para me olhar. – O que está errado?
Soltando seu braço do meu aperto, ele olhou para mim. Seus olhos estavam largos e vidrados, cheios de lágrimas.
-Você estava experimentando, não estava?
Eu franzi o cenho.
-Eu não estou te seguindo.
-Oh, Deus, Pierre, você sabe o que eu quero dizer! – sua voz nunca tinha estado tão alta e seus círculos raivosos ao meu redor começaram novamente, só que bem mais rápido dessa vez. De vez em quando ele gesticulava em sua frente, como se isso fosse ajudá-lo a colocar toda a informação no lugar certo.
-Você sabe o que dizem: os caras vão para a faculdade e experimentam com outro cara, só para ver como é. Uma coisa de uma única vez.
Entendo o que ele queria dizer agora, eu tentei negar, mas ele esticou sua mão para me calar.
Sua voz estava começando a se elevar, saindo histérica, ele estava quase rindo.
-Você só fez isso um ou dois anos mais cedo. Você me beijou só para ver como era, não significou nada para você, né? Eu não vou ser sua experiência, Pierre!
Parando abruptamente, ele se jogou em sua cama. Eu me ajoelhei na frente dele, pousando minhas mãos em seus ombros. Eu falei calmamente, preocupado que um tom mais alto o faria começar novamente.
-Você não é uma experiência. – balançando sua cabeça levemente, ele tentou afastar minha mão, mas eu a mantive no mesmo lugar. – A palavra 'experiência' implica que eu planejei isso. Que eu planejei vir aqui e conhecer um cara maravilhoso. Que eu esperava desenvolver uma queda enorme por ele, ficar bêbado e beijá-lo. Eu não planejei nada disso, e eu não esperava... – minha voz morreu.
Eu não o estava encarando, mas eu senti os músculos de seus ombros ficarem tenso e contrair, indicando que ele tinha olhando para cima, para mim.
-Você não esperava o quê?
-Me apaixonar por ele. – eu balancei minha cabeça para minha própria estupidez. – Quero dizer, você. Eu não esperava me apaixonar por você.
Seus olhos se arregalaram, mais entendimento do que choque e seus lábios se projetando para frente, enquanto ele falava: - Oh.
-Yeah.
A batida em sua porta soou alta, antes da porta se abrir. Seb entrou, andando ao redor de todo quarto, como se não estivéssemos lá, olhando dentro do armário de David, antes de bufar de raiva por não encontrar ninguém lá. Ele se virou sobre seus calcanhares, parecendo levemente aliviado.
Então, ele franziu o cenho.
-Eu não gosto de nenhum de vocês no momento. – David e eu olhamos um para o outro, então para Seb. – Seus... Seus beijoqueiros idiotas! – ele disse com raiva, seus braços se balançando.
-É só dinheiro, Seb. – David disse calmamente.
Eu olhei para ele com os olhos cerrados.
-Você sabia sobre a aposta, huh?
-Seb me contou. Como você ficou sabendo?
-Jeff me contou.
Uma leve risada escapou por seus lábios, fazendo minhas orelhas se aguçarem rapidamente; eu não tinha ouvido esse som há algum tempo, e eu senti falta.
-Que amigos nós temos.
Bufando ruidosamente, Seb marchou até nós.
-Eu estou bem aqui, sabem! Eu perdi malditos cinqüenta dólares!
Rolando meus olhos, eu me levantei, puxando David comigo. Eu o coloquei na frente de Seb.
-Você é gay. – eu disse.
Seb empalideceu, parecendo extremamente ofendido, mas ainda assim embaraçado.
-Não, eu não sou.
-Me divirta.
-Okay. – ele pareceu mais que confuso, provavelmente copiando a expressão de David, que eu não podia ver, já que ele estava com a cabeça abaixada e eu estava atrás dele. – Eu sou gay. – Seb disse relutantemente.
-Você gosta de garotos.
-Eu gosto de garotos. – ele repetiu obediente.
De trás, eu ergui o queixo de David, então Seb conseguiria ver seu rosto, mas ao invés, ele preferiu olhar para trás do ombro de David, para mim.
Eu suspirei, falando calmamente.
-Você conseguiria resistir a isso? – eu gesticulei com a minha mão livre para o garoto entre nós. – Ele é maravilhoso de todos os jeitos, lindo e perfeito. Ele realmente se importa comigo, o que é raro, e para ser honesto, Seb, eu preciso dele. Ele é meu, porra, eu não ligo se isso é brega, ele é meu oxigênio.
David ofegou levemente, virando sua cabeça para olhar para mim com sua boca aberta. Eu engoli, antes de continuar.
-É como se eu tivesse preso no vácuo toda a minha vida, e ele me ajuda a respirar agora. Se você fosse eu, ou se você fosse gay, como você conseguiria não beijá-lo?
Os olhos de Seb se arregalaram em choque. Ele falou com sofrimento.
-Se eu fosse gay, eu acho que eu também o teria beijado.
Eu assenti em triunfo, girando David e o puxando contra meu peito. Seus braços magros, a primeira coisa que eu notei quando o conheci, se ergueram, se enlaçando apertadamente ao redor do meu corpo. Ele me apertou, como se tivesse medo de soltar. Sorrindo contra seu cabelo, que, para meu alivio, ainda tinha o mesmo cheiro, eu inspirei, enchendo meus pulmões com puro David e pensando que o verdadeiro oxigênio fosse para o inferno: isso era tudo o que eu precisava.
Seb nos olhou especulativamente, sua expressão mudando de confusão para arrependimento, para entendimento. Ele foi capaz de ver que nós não iríamos nos abster de nos beijarmos.
-Desculpe ter ficado bravo com vocês, caras. – tentativamente dando um tapinha no ombro de David, ele passou por nós e foi embora, fechando a porta silenciosamente.
-Você falou sério? Tudo o que você disse? – David sussurrou. Sua boca estava tão perto, que sua respiração batia úmida contra minha pele, através da minha camiseta.
-É claro que sim. – eu ergui minha cabeça, inclinando-a. – Eu meio que queria não ter dito primeiro para o Seb, entretanto.
-Pelo menos eu ouvi. – ele esfregou sua bochecha contra meu peito.
-David?
Ele fez um 'hmmm', enviando vibrações para mim.
-Você gostaria de ser meu namorado? – okay, isso soou meio que estranho vindo de mim, e a verbalização disso foi sincero demais, mas ainda assim foi malditamente bom dizer isso finalmente.
Ele olhou para cima, sorrindo angelicamente.
-Sim, por favor.
Alivio e alegria passaram por mim e eu o soltei. Segurando seu rosto entre minhas mãos e o puxei na minha direção, juntando nossos lábios. O beijo mais incrível e natural se seguiu e eu garanti que demorasse um pouco para terminar: eu precisava apreciar cada momento.
Não era mais minha boca e a boca de David, era nosso beijo; absolutamente, a menor quantidade de camadas que poderia existir entre nós. Era a coisa mais louca e perfeita que nós poderíamos dividir, bem, com a minha memória intacta, de todo modo. Era como se eu houvesse saído do meu corpo e estivesse flutuando, olhando para mim mesmo. Se eu fosse qualquer outra pessoa, eu ficaria malditamente invejoso de mim por ser parte deste beijo.
Eu pensei: aquecido, molhando, agitado.
Eu pensei, com uma maldição alegre: Nossa, isso é a perfeição!
Melhor que qualquer lembrança vaga, melhor que qualquer fantasia.
David segurou meus pulsos e me afastou um pouco, ofegando pesadamente, a centímetros da minha boca.
-Puta merda.
-Yeah? – eu sorri largamente.
-Isso foi... Uau. – na última palavra, sua respiração bateu diretamente no meu rosto e fez meu cabelo se mover um pouco. Um pequeno flashback de quando nos conhecemos.
-Isso foi... Uau. – eu ri. – Nada como eu imaginei que seria.
Ele assentiu, desviando o olhar brevemente, antes de juntar nossos olhos novamente.
-Você tem que fazer isso com mais freqüência.
-É o que eu planejo. – gentilmente segurando seus ombros, eu o puxei de volta, acolhendo, pela primeira vez, sua nova aparência de tal proximidade. - Sobre o que é tudo isso?
-O quê?
-O cabelo, os olhos e as roupas. – eu segurei o ombro de sua camiseta, puxando-a e soltando-a para voltar ao lugar. – Está tão diferente.
Ele sorriu largamente.
-É para você.
-Eu?
-Yeah. – ele deu de ombros. – Eu achei que você estaria bravo comigo, quando você voltasse e você sempre disse como você gostava de como eu me destacava. Então, eu achei que quanto mais eu me destacasse, mais você ia gostar de mim. E além do mais... – ele passou por mim, ficou parando em cima da cama e indicou um de seus pôsteres do Green Day. – Fica bom no Billie-Joe.
Eu ergui uma das minhas sobrancelhas em confusão e andei até o final da sua cama, onde ele estava olhando para mim.
-Eu não poderia gostar mais de você nesse momento, não importa qual a sua aparência e, além do mais, eu não acho Billie-Joe tão atraente.
Se inclinando, então seus olhos estão no mesmo nível que os meus, David sorriu maliciosamente.
-Bem, ele não é uma Lara Croft.
Eu deixei escapar um ofego.
-Quem te falou sobre isso?!
-Você me disse! – ele sorriu tanto, que covinhas apareceram em seu rosto; essa era a primeira vez. – Depois que paramos de nos beijar. Você disse que eu beijava melhor do que você imagina que Lara Croft beijaria.
Com o tanto de vezes que eu tenho corado ultimamente, eu posso também ficar com as bochechas rosadas permanentemente; eu realmente falava a verdade quando estava bêbado.
-Eu não me lembro de ter dito isso, ou sequer de te beijar.
-É, eu sei. Patrick é muito informativo. – ele se sentou na cama, as costas contra a parede e as pernas esticadas na frente do corpo. – Cara, eu estou feliz que tudo tenha se ajeitado.
-Você está feliz? Jesus, eu nunca passei tanto tempo preocupado em toda minha vida.
Ele indicou o ponto ao seu lado, silenciosamente me pedindo para sentar; eu obedeci.
-Eu também, para falar a verdade. – ele riu e, bastante conspicuamente, pegou minha mão.
Nós sorrimos um para o outro.
-Quem é seu colega de quarto? – eu perguntei. Eu e minha curiosidade, agindo nos momentos mais aleatórios.
-Não tenho um. – ele me olhou. – Sabe o antigo colega do Jeff, que foi expulso por que foi pego transando no campus?
-Sim.
-O outro cara era o meu colega de quarto. Eu nunca tive um novo. – ele fez um bico, pausando brevemente para pensar. – É uma pena, de verdade; ele era bastante gostoso. – eu dei um tapa em seu braço e afastei minha mão dele, em raiva zombeteira. Ele apenas riu e pegou minha mão novamente. – Eu estou brincando.
-Eu sei. Você deve se sentir solitário, entretanto. – algo estava me dizendo que ele não ia mais passar tantas noites solitárias. Eu sorri perante o pensamento.
Ele fez uma careta.
-Eu não me importo, mais espaço pra mim.
Eu olhei a outra mesa, no fundo do quarto, coberta por produtos de cabelo e escovas.
-É, por que você é uma garota. Sabe, isso me faz pensar. Nós vamos ser expulsos por estarmos juntos?
David sorriu maldosamente, virando meu rosto para me olhar.
-Ninguém precisa saber.
-Certo, mas tudo bem se contarmos para os caras, né?
-É claro, eles não vão nos dedurar; eles sabem que eu os mataria. – a imagem de Seb sendo empalado com uma escova de cabelo me veio à cabeça. Ou Jeff, envenenado com tinta de cabelo em seu refrigerante de laranja. – Não se preocupe, Pierre, nós vamos fazer dar certo. – ele prometeu, assentindo. – Nós vamos fazer dar certo.
