Os Perigos da Noite

– Muito bem… Vamos decidir os turnos! – Aragorn falou, quando o acampamento já estava arranjado e já todos tinham comido.

– Eu fico com o primeiro turno. – Liz ofereceu-se rapidamente.

– Eu fico contigo. – Boromir disse, olhando-a ao que ela acenou.

– O próximo será meu e de Legolas. – Aragorn avisou. – Boa noite!

– Boa noite! – Desejaram Boromir e Liz ao mesmo tempo, vendo os outros deitarem-se.

– Então, como estás? – Perguntou Boromir um pouco depois a Liz. – Vi como ficaste abalada.

– Estou bem, Boromir, e vou melhorar. – Ela respondeu, olhando-o com um sorriso. – E tu?

– Preocupado contigo. – Ele respondeu, acariciando-lhe o rosto. Liz fechou os olhos com o toque. – A tua pele é tão suave. – Ela ouviu o homem dizer. – Os teus cabelos são tão sedosos…

Ela sentiu a mão de Boromir na sua nuca e, de seguida, sentiu os lábios dele tocarem os seus com suavidade. Liz não sabia o que fazer, então optou por corresponder ao beijo, tornando-o mais urgente e desesperado.

– Boromir… - Ela separou-se dele. – Não!

– O quê? – Boromir estava pertíssimo dela e olhava-a diretamente nos seus olhos.

– Eu não me sinto assim em relação a ti.

– Mas eu posso ter esperança de que venhas a sentir? – Ele perguntou.

– Eu… Eu não sei… - Ela respondeu, mordendo o lábio inferior.

– Deixa-me tentar.

Ele beijou-a mais uma vez, enquanto Legolas os observava discretamente.

– Boromir… - Liz separou-se do beijo. – Não assim. – Ela ergueu-se. – Preciso de me trocar. Sinto o sangue ressequido na minha pele e não quero que os Orcs o cheirem.

Liz pegou num pano molhado e dirigiu-se a um canto para ter alguma privacidade a tirar a roupa. Legolas seguiu o movimento da mulher até ela começar a desabotoar o seu vestido. De seguida, o Elfo decidiu olhar para Boromir.

O Humano olhava para onde estava Liz, e isso deixou o Elfo bastante irritado. Ela queria privacidade, caramba! Ele pensava mesmo que era por a ter beijado que possuía agora o corpo da ruiva? Será que Boromir não percebia que a ela só lhe interessava que ele ficasse cada vez mais apaixonado para lhe conseguir dar o golpe?

– Boromir… - Legolas levantou-se, sussurrando o nome do capitão, que pousou o olhar nele aborrecidamente. – Onde está Liz?

– Ela foi mudar de roupa e lavar o seu sangue. – Ele respondeu.

Legolas sentou-se ao lado do Humano, tentando ouvir mais alguma coisa que não fosse a respiração de todos da companhia e o som da água molhando o corpo de Liz enquanto ela dava suaves gemidos, possivelmente graças ao frio da noite. Ele achou a ação da ruiva despropositada.

– E tu? Estás sem sono? – Perguntou Boromir, olhando-o.

– Não consigo dormir. – Legolas respondeu simplesmente. – Os meus sentidos estão demasiado aguçados para ficarem descansados numa altura como esta. Não querem deixar escapar nada.

– Como funciona isso de ser Elfo? – Boromir perguntou, resignando-se com a presença de Legolas, que o olhou sem entender a questão. – Quando te pergunto isso é porque sei o que é ser um Homem como eu. Sei como é. Mas pouco sei dos Elfos… O meu irmão Faramir é o sábio da família, aquele que lê mais, aquele que procura o conhecimento… Ele deve saber muito sobre vocês do povo bom, puro.

– Oh… - Legolas fechou os olhos, ouvindo a água correr pelo corpo de Liz e pensando se ele era realmente puro como Boromir dizia. – Temos mais capacidades que os Homens. Todos os nossos sentidos são muito mais fortes que os vossos. Ouvimos e vemos melhor. Sentimos mais… Pelo menos, é essa a sensação que tenho. Não conheci muitos Homens para tecer julgamentos sobre eles.

– És diferente então, caro Legolas! – Boromir sorriu. – Facilmente somos julgados, somos tidos como ambiciosos, causadores de guerra, arruaceiros, mentirosos, desonestos, vendidos… E talvez muitos de nós assim sejam. Nós somos muito impulsivos e as nossas paixões são fortes e levam-nos muitas vezes à loucura… - Legolas teve a certeza de que Boromir pensava em Liz ao dizer tais palavras. Era mais do que óbvio que ele estava apaixonado por ela.

O Elfo virou o rosto quando sentiu Liz voltar para junto de Boromir, ainda a tempo de ver uma ruga de confusão no seu rosto ao ver o Elfo. Legolas apostava que ela estava frustrada, pois, devido à sua presença, não podia enganar mais Boromir por aquela noite.

– Acordem os outros! – Liz pediu, pegando no seu arco e alertando os dois companheiros. – Consigo ouvir os Orcs e eles acabaram de encontrar o nosso rastro.

– O que…?

Legolas ficou com a pergunta a meio, porque desfocando a sua atenção nos movimentos de Liz, pôde perceber do que ela falava, e o barulho dos Orcs era ensurdecedor.

– Acordem!

Boromir já estava de pé a chamar por Aragorn e Gimli. A Legolas coube os quatro Hobbits, enquanto Liz arrumava as coisas rapidamente.

– Frodo! Cuidado! – Liz gritou, vendo o Hobbit erguido. – Baixa-te! – Ele ficou paralisado. – Eu disse para te baixares! – Falou ela, metendo-se à frente do pequeno e lançando uma flecha para alguém que ela conseguia ver na escuridão. Ao mesmo tempo, ela sentiu duas flechas perfurarem-na, uma na coxa direita e outra na sua barriga.

– Liz! – Frodo gritou, tentando alcançá-la.

– Não! – Ela disse com algum custo, pegando numa outra seta e atirando-a. – Não te aproximes de mim e mantém-te baixo a arrumar as coisas!

– Liz! – Frodo ignorou a ordem da mulher, que não conseguia recuar.

– Frodo! – Aragorn chegou a tempo de impedir que ele tocasse na ruiva. – Eu trato da Liz, vai ajudar o Legolas! – Aragorn mandou, apontando para o Elfo que os olhava enquanto desferia algumas flechas.

– Ok!

Liz sentiu o sabor do sangue na sua boca, enquanto se ajoelhava lentamente, atirando mais algumas setas.

– Lamento imenso, Aragorn! – Liz falou arduamente. – Não era suposto isto ter acontecido.

– Ouve, não é assim tão grave! – Aragorn tentava parecer calmo, enquanto via os ferimentos da mulher. – Tu és uma criatura forte.

– Aragorn! – Gimli chamou-o, vendo que já estavam todos prontos para partir.

– Anda! – Ele ofereceu-lhe os seus braços para a carregar.

– Sabes onde fica a floresta de Lórien, meu querido amigo… - Liz começou. – Toma! – Discretamente, Liz deu o anel de Paz a ele, que o aceitou na sua mão, fechando-a para que ninguém o visse. – Dirige-te para lá com a Companhia, eu vou tentar dar-vos o máximo de tempo! – Aragorn tinha alguma tristeza no olhar. – São poucos Orcs, alguns vão dar a volta à floresta de Lórien e seguirão pelo rio, são poucos os que se aventuram por aqui. Mas Legolas tem uma ligação de sangue com o povo de Galadriel, isso vai ajudar-vos. – Ela sussurrou para o amigo. – Obrigada!

– A tua hora não pode ter chegado ainda, tens que cumprir a tua Missão. – Aragorn disse-lhe a ela.

– Não importa quem cumpra a missão, Aragorn. – Liz afirmou. – Importa apenas que ela seja cumprida. Sempre foi assim, percebes? Esta Missão faz a pessoa ser quem é. Foi o que aconteceu comigo! – Ele levantou-se, acenando positivamente. – Vão! Corram! E, embora eu nunca os tenha conhecido, mandem cumprimentos a Galadriel e Celeborn da minha parte se ela vos permitir que vivam! – Ela brincou com um sorriso nos lábios para a Irmandade.

– Não! – Boromir gritou. – Nós não a podemos deixar sozinha, Aragorn!

– Faz o que o nosso líder manda! – Liz mandou a Boromir. – Aragorn quer que partam agora e me deixem! Vão!

– Nós voltaremos, Liz! – Gimli respondeu. – Tu serás a eterna fogueira.

– Obrigada, Mestre Gimli. – Ela sorriu. – Muitas surpresas te esperam ainda neste caminho.

Os oito partiram, deixando Liz sozinha, que tirou as flechas do seu corpo e tentou estancar as feridas com alguma roupa. Ela ergueu-se, sentindo as dores excruciantes e protegeu-se por uma árvore, olhando para a floresta à luz da noite. Ela via alguns Orcs a se moverem e ouvia muitos ao longe.

– Preparem-se para conhecer a pontaria exímia da Guardiã! – Ela sussurrou para si mesma com um sorriso nos lábios e o sangue a escorrer pela sua boca, enquanto preparava o seu arco mais uma vez.