Capítulo 09: Os Guardiões
Eriol realmente não sabia mais o que fazer. Shaoran parecia estar fora de si, e o inglês sabia muito bem o que isso significava. Ele estava se apaixonando. Ou será que Sakura o estava enfeitiçando? Não acreditava nesta hipótese, mas não podia simplesmente descartá-la. Enquanto isso, só podia pedir para que o amigo não fizesse nenhuma bobagem.
Naquela manhã, quando ele acordou e percebeu que o amigo já não estava mais em casa, ele pediu para que Wei os acobertasse e dissesse que tinham saído pela cidade, caso Meilin perguntasse alguma coisa. O mordomo concordou com seu sorriso sempre sereno, sem explicitar o que pensava sobre o assunto.
Eriol seguiu para a Marina de Tomoeda e suas preocupações só pioraram ao perceber que a lancha de Shaoran não estava lá. Ele tinha mesmo seguido com aquela ideia arriscada. Suspirou profundamente. O jeito agora era espera-lo voltar. Sentou-se numa lanchonete que tinha ali perto e que não lhe tirava a vista do mar.
Não soube quanto tempo se passou quando sentiu uma movimentação na cadeira ao seu lado.
- Tem estado tão preocupado, Eriol. - a voz suave e gentiu falou ao seu lado.
- Não é nada demais – ele respondeu sorrindo para ela.
- Já desabafei tantas vezes com você, sabe que pode fazer o mesmo comigo. Sou toda ouvidos.
Suas palavras fizeram o sorriso de Eriol aumentar, mas, infelizmente, ele não podia desabafar todas as suas preocupações. No entanto, ele o fez do jeito que pôde, ocultando toda a parte da magia, é claro.
A paisagem exótica passava depressa sem que a sereia pudesse admirá-la. Não que ela estivesse preocupada em fazê-lo. Sua mente estava um turbilhão de pensamentos confusos. Ainda assim, um sorriso gigante estava estampado em seu rosto e seus olhos tinham um brilho de felicidade pura, como se a sereia não soubesse dos problemas que a aguardavam.
Sakura sentia-se tão leve. Seus lábios ainda podiam sentir a quentura do toque de minutos atrás. Ela não sabia exatamente o que tinha acontecido, tão pouco tivera tempo de pedir explicações para Shaoran. A única coisa que sabia era que sentira um vazio enorme no momento em que eles se afastaram.
Naquele momento, o brilho do sol já tinha se escondido no horizonte, mas sua luz continuava a iluminar o céu, colorindo-o de forma tão incomum aos olhos verdes.
- Minha nossa! Já está tão tarde assim? - o chinês exclamou, com o rosto tão corado quanto o da sereia, como uma forma de fugir das perguntas que certamente viriam.
A realidade abatera Sakura de forma tão violenta que ela esquecera-se do que havia acabado de acontecer.
- Kami-sama! Eu preciso ir! - ela disse em desespero, já pulando no mar. Porém, antes que fosse embora, ela se voltou para Shaoran com um olhar confuso e apreensivo.
- Vá. Amanhã conversamos – ele disse lhe reconfortando, embora não gostasse das próprias palavras.
No entanto, quando a sereia virou-se para ir embora, o feiticeiro sentiu seu coração se apertar. Num impulso, pulou para junto dela. Ela voltou-se assustada no mesmo instante em que o sentiu abraçando-a pela cintura, puxando-a para mais um beijo.
- Até amanhã – ele disse meio zonzo quando finalmente se obrigou a deixá-la ir.
- Até – ela respondeu igualmente zonza.
Agora, ali estava ela, tendo todas aquelas sensações marcadas em seu corpo, pedindo para que o tempo passasse o mais depressa possível e o amanhã logo chegasse.
Mal sabia ela que aquele dia estava longe de acabar.
Shaoran ainda ficou um tempo admirando as primeiras estrelas se formarem no céu. Por mais que não quisesse ir embora, de nada adiantava permanecer ali sem a presença dela. Portanto, finalmente se levantou e seguiu seu rumo de volta para casa, tentando ignorar o vazio que a sereia deixara.
Quando parou a lancha na Marina de Tomoeda, o céu já estava coberto de estrelas. Tomoeda era uma cidade pequena, por isso tinham uma vista noturna privilegiada.
Estava já caminhando para a saída quando notou o quanto estava faminto. Ainda tinha uma boa caminhada até a mansão dos Hiiragizawa. Decidiu então passar na lanchonete antes de seguir seu caminho.
Não se surpreendeu ao ver dois rostos familiares o observando. Rika logo se levantou, despedindo-se de Eriol e o comprimentando rapidamente. O chinês então sentou-se no assento antes ocupado pela jovem.
- Quando vão admitir que estão namorando? - Shaoran indagou quando Rika já estava distante.
- Você está apaixonado – Eriol afirmou, ignorando a implicância do amigo e indo direto ao ponto.
Naquele instante, o sorriso, que permanecia estampado em seus lábios desde o beijo, sem que ele percebesse, desapareceu. E, só então, Shaoran parara para pensar neste assunto.
Apaixonado? Por mais que seu primeiro impulso fosse negar com todas as letras, ele não podia simplesmente fazê-lo, porque seu coração gritava que era verdade. E esta simples constatação explicava todas as suas ações daquela tarde.
Ao ver a expressão que se formou na face de Shaoran, Eriol entendeu que seus temores eram verdadeiros. Ele não precisava passar um sermão em Shaoran, pois sabia, pelo rosto preocupado do chinês, que ele tinha conhecimento do quanto aquilo era errado.
Decidindo que iria se preocupar com isso depois, Eriol fez a única coisa que lhe restava...
- Como foi o passeio?
O sorriso voltou aos lábios do chinês, acompanhado por uma face rubra.
Sakura adentrou o castelo com cautela dobrada, embora soubesse ser inútil. Ela estava enrascada em todos os sentidos. No entanto, qual não foi a sua surpresa ao perceber que a passagem para o seu aposento estava livre, sem nenhum sinal de Touya.
Sabendo que não teria uma segunda chance, ela nadou o mais rápido que pôde para o quarto.
- Sakura! Por Kami! Onde esteve?! - Tomoyo lhe atirou perguntas no momento em que a viu.
Seu clone logo desapareceu, pois não era mais necessário. E, no segundo seguinte, a passagem para o quarto fora abruptamente aberta, assustando as sereias.
Os olhos castanhos opacos observavam profundamente seus olhos verdes, como se tentassem perfurar-lhe a alma.
- O Rei deseja vê-la – Touya disse segurando seu braço fortemente, já puxando-a para fora do cômodo, sem que a mesma tivesse chance de retrucar.
Tomoyo estava indo atrás deles, quando Touya fechou a passagem em sua cara. Sakura não conseguia protestar, nem lutar contra a força de Touya. Ela estava em choque, as palavras de Touya ecoando em sua cabela enquanto sua mente vagava para lembranças distantes, de dez anos atrás.
A pequena sereia nadava rapidamente pelos corredores escuros. Sabia que tinha exagerado daquela vez, mas simplesmente não aguentava passar o dia inteiro naquele quarto. Ela sempre ia para junto daquela janela escondida e admirava a vista do mundo lá fora.
A mãe não a repreendia, apenas pedia para que não demorasse muito a voltar. Ela alegava que não conseguia ter a filha longe por muito tempo. A verdade era que Sakura era a única coisa preciosa que restara à Nadeshiko.
Sakura entrou no quarto já se desculpando pela demora, ansiando pelo sorriso compreensivo da mãe e seu abraço reconfortante. Porém, não foi isso o que ela encontrou.
Nadeshiko estava deitada, seus longos cabelos esvoaçando com o leve movimento das águas, o corpo mole indicando seu estado de sono. Sakura sorriu levemente com a cena, enquanto se aproximava.
Ela tocou nos braços da mãe sacudindo-os suavemente. A mãe tinha um sono leve, logo acordaria. Mas a agonia começou a tomar conta da pequena, visto que a sereia não movera um músculo sequer. Ela aumentou a vontade de seus gestos, tornando-os mais e mais violentos, ao mesmo tempo em que chamava pela mãe, esperando pelo momento em que ela abriria os olhos.
Lágrimas já se formavam nos olhos verdes quando uma voz cortante e fria chegou aos seus ouvidos.
- Ela não vai acordar.
Sakura virou-se assustada. O sereiano parado na entrada do quarto tinha cabelos pretos e compridos até os ombros. Sua calda era tão negra como Sakura jamais havia visto. No entanto, seus olhos estavam concentrados nos dele. Ele não tinha o olhar opaco e vazio como todos os outros que já tinha visto, também não era alegre e cheio de vida como o da sua mãe, a quem ele olhava fixamente.
Ele era sombrio e assustador, foi como a pequena conseguiu descrevê-lo.
Passado o choque de sua repentina aparição, Sakura começou a entender suas palavras. Voltou-se novamente para a mãe, chorando compulsivamente. Abraçou-se a ela na eperança de que ela retribuísse seu gesto e dissesse com aquela voz, doce e gentil, que tudo ficaria bem. E a cada segundo a pequena percebia a dura realidade, enquanto apertava-se mais ao corpo da sereia, como se aquilo pudesse trazê-la de volta.
Pelo que pareceu uma eternidade, ela permaneceu afogada naquela melancolia, mas o que, na realidade, não passara de alguns minutos, acabou abruptamente.
O Rei havia puxado-a para longe, impedindo que Sakura se aproximasse mais uma vez, obrigando-a a assistir aqueles estranhos carregando sua mãe embora, para um lugar que ela nunca viria a conhecer.
Com a partida da mãe, aquele cômodo lhe pareceu mais apertado do que nunca. Restara apenas a presença marcante e assustadora daquele desconhecido.
Novamente a porta se abriu, revelando uma sereia tão pequena quanto ela, de cabelos negros arroxados, olhos violetas tão opacos quanto aos que já estava acostumada. Os lábios em uma linha reta, nem triste, nem feliz.
- Essa é a sua companhia de agora em diante – ele disse atirando a sereia para si, e então saiu do cômodo, fechando-o com brutalidade.
A sua companhera não dissera uma única palavra, até o luto de Sakura acabar. Foi quando ela decidiu que os olhos de Tomoyo eram belos demais para permanecerem sem brilho.
Mais tarde, ela descobriria que aquele ser frio e assustador era o Rei de seu povo.
Sakura piscou os olhos algumas vezes, sentindo-os já ardendo, ameaçando derramar algumas lágrimas. Sempre que mencionavam o Rei de seu povo, aquela lembrança vinha à tona, nitidamente, como se tivesse acontecido no dia anterior.
E só então ela se dera conta de que Touya falava sério, pois eles se encontravam de frente para a porta da sala do trono. Ela sabia porque passara por ali algumas vezes quando era pequena. Sakura ia mesmo rever aquele ser que mexia tanto com ela, mesmo tendo o visto apenas uma vez. Seu coração disparou no peito. Ela não sabia o que sentia. Raiva, medo. Talvez ambos. Ela só conseguia visualizar aqueles olhos negros com um brilho assustador que ela nunca conseguiu definir. E também não teve muito tempo para refletir como iria reagir ao vê-lo, porque Touya abrira a porta rapidamente, atirando-a violentamente para dentro do cômodo.
Era um espaço enorme e vazio, conseguia ser ainda mais sombrio do que o resto do castelo. Algumas luzes vermelhas, fruto de magia, iluminavam o lugar, embora não houvesse nada para ser iluminado além da enorme concha que se localizava no alto e ao fundo do aposento.
E era justamente lá que ele estava, desta vez olhando fixamente para ela, o que era muito pior do que a lembrança dela de anos atrás, quando ele mantinha o olhar fixo em sua mãe.
Sakura notou quando Touya tomou a dianteira e curvou-se perante o seu soberano. Ela se deu conta de que era seu dever fazer o mesmo, mas nunca em sua vida curvaria-se para aquele ser, pelo menos não por vontade própria.
Touya logo notou a insolência de Sakura, e estava disposto a lhe dar uma surra se não concordasse em demonstrar respeito pelo Rei. No entanto, este não se surpreendia. Era igual a mãe, e à Mizuki. Nenhuma delas em anos aceitou se curvar para ele, não seria Sakura que agora o faria. Então ele fez um gesto para Touya, ordenando que ele deixasse passar aquela insolência. Aquilo não agradou o sereiano, mas não havia nada que pudesse fazer.
O silêncio era incômodo para todos, apenas o Rei parecia estar apreciando a situação. Sakura sentia-se acuada perante o olhar avaliador dele, como se ele soubesse todos os segredos da sua alma. Mesmo assim, recusava-se a desviar o olhar. Era quase possível ver as faíscas saindo dos olhos de ambos.
- Então... Você me chamou aqui só para ver o quanto eu cresci? - Sakura finalmente tomou coragem para falar, ainda analisando o brilho obscuro naquele olhar negro, tentando decifrá-lo.
O Rei sorriu de lado com aquele atrevimento. Touya cerrou os punhos, controlando-se para não desobedecer a ordem de seu senhor e bater naquela sereia. Já Mizuki, que observava escondida em uma passagem ao fim do cômodo, sorriu orgulhosa.
- É igual a mãe – ele disse simplesmente.
Desta vez, foi Sakura quem cerrou os punhos. Não entendia porque, mas não lhe agradava nem um pouco aquele sereiano falar de sua mãe.
- Acredito que você entenda perfeitamente o motivo de estar aqui, não é, Sakura?
Sim, ela sabia, mas não iria dar o braço a torcer.
- E o que pretende? Me castigar? - ela o instigou, duvidando que ele fosse fazer qualquer coisa.
O Rei olhou-a como se aceitasse o desafio. Estalou os dedos e, logo em seguida, as portas atrás de Sakura se abriram. Ela virou-se assustada com o que estava por vir, embora nunca fosse admitir aquilo.
A sua frente estavam um golfinho, com um olhar sério e um tanto entristecido, como se não estivesse ali por vontade própria, e um sereiano com longos cabelos prateados, a mesma cor da calda e dos olhos, tão opacos como o de todos os outros. Sakura não sabia porquê, mas pela segunda vez em sua vida ela sentiu uma necessidade imensa de gerar algum brilho naquele olhar.
- Estes são Kerberus e Yue, seus guardiões – o Rei anunciou satisfeito. - Eles garantirão que você obedeça as regras daqui para frente.
A sereia sentiu-se aliviada. Seu único castigo era ser vigiada. Sabia que o Rei não tinha coragem de fazer nada grave com ela, ou sabe-se lá quais eram os seus verdadeiros motivos para não castigá-la de forma apropriada.
Touya tinha os mesmos pensamentos de Sakura. Achava que a sereia merecia um castigo muito pior do que aquele, se é que isto podia ser considerado uma punição.
- Vocês podem ir agora.
Sakura não esperou um segundo pedido, nem preocupou-se em olhar para o Rei de novo. Tudo o que queria era sair de perto daquela criatura e de todas as sensações ruins que ele lhe causava.
Já era relativamente tarde quando os feiticeiros chegaram em casa. Era provável que suas primas já tivessem jantado e os cobririam de perguntas. Não que eles fossem respondê-las, obviamente. Porém, quando eles abriram a porta da mansão, apenas um deles foi parar no chão.
- Eriol! Onde estava?! - Nakuro gritava enquanto sacudia o primo caído.
- Nakuro... Você é pesada... - o inglês disse com dificuldade.
Shaoran não ligou muito para a discussão que se seguia entre os primos. Ele adentrou mais a casa até chegar na sala de estar, onde Meilin encontrava-se tranquila, esparramada no sofá, enquanto lia um livro. Ela nem ao menos levantara os olhos para vê-lo. O chinês sentiu que deveria dizer alguma coisa, nem que fosse uma banalidade ou um cumprimento qualquer. No entanto, ele não conseguiu pensar em nada, então apenas subiu as escadas e seguiu para o seu quarto.
Quando Shaoran desapareceu de vista, Meilin fechou o olhos com um suspiro. Ignorá-lo daquela forma lhe dava um nó no peito. Mas sempre se lembrava da cena que presenciara, do carinho que Shaoran nunca aceitou dela. Aquilo a fazia travar o maxilar e voltar a sua pose de idiferença.
Minutos depois, Eriol passou por ela, também incomodado com o seu comportamento. Ele lhe desejou boa noite, mas fora igualmente ignorado. Com um suspiro, também seguiu para o seu quarto.
- O que foi que aconteceu? - Nakuro perguntou notando o clima que se instalara.
- Eu vou para o meu quarto – Meilin disse simplesmente pegando o seu livro e subindo as escadas.
Nakuro a observou entrar no quarto sem entender nada. Decidiu que perguntaria ao Eriol mais tarde. Enquanto isso, ajudaria Wei com o jantar.
Shaoran tomou um banho relaxante ainda incomodado com as atitudes da prima. Apesar de toda a sua frieza, ele gostava muito da chinesa. Era lamentável aquela paixão toda que a prima sentia por ele, mas ele não conseguia olhá-la sem vê-la apenas como uma querida irmã. Meilin nunca aceitara isso.
A garota sempre fora muito possessiva, principalmente depois que oficializaram o noivado dos dois. Shaoran sabia que um dia teria que aprender a ver a prima como mulher, mas sempre adiava esse momento. Ele nunca podia sair com outras meninas que lhe interessavam, pois Meilin nunca saía de perto dele. Algumas vezes ele conseguia escapar e ficar com outras garotas, como foi o caso daquele dia.
O chinês já tivera algumas experiências do tipo, mas nunca havia sentido algo parecido com o que sentira naquela tarde. Fora como se tivesse feito a coisa mais certa do mundo, embora tudo apontasse para o contrário.
Não, o chinês nunca havia se apaixonado, nem sequer acreditava em tal coisa. Sempre tivera em mente que seu casamento seria arranjado. Era uma união fraternal, sem amor. Mas quando olhava para Sakura... sentia seu corpo esquentar de uma forma tão confortável. Ele tinha necessidade de tocá-la, de tê-la por perto. Sentiu um aperto no peito quando tiveram que se separar, mas consoláva-lhe saber que a veria no dia seguinte. Talvez até beijar-lhe novamente... Ainda podia sentir o calor em seus lábios, o toque de sua pele...
Shaoran soltou um suspiro com as lembranças. Queria que aquele momento não terminasse nunca, que o tempo tivesse parado, que aquelas sensações durassem para sempre.
Isso era amar?
Os olhos verdes analisavam a criaturinha de cabeça para baixo. Ele estava num cantinho, encolhido, de olhos fechados descansando. De vez em quando ele abria um pouco os olhos para encarar aquele olhar curioso sobre si, e novamente tornava a fechá-los. Esta cena se repetiu algumas vezes.
Tomoyo também olhava curiosa para os novos guardiões de Sakura, enquanto Yue permanecia alheio a tudo, parado em seu posto – na porta do quarto – para impedir Sakura de sair.
De repente Sakura saiu da concha, onde estava deitada, e nadou ainda de cabeça para baixo na direção do golfinho. Este abriu os olhos com a aproximação, fixando-os em Sakura, imaginando o que ela pretendia.
Sakura chegou mais perto e olhou a criatura do fucinho à calda. De repente ela virou-se, ficando cara a cara com ele.
- Eu já decidi – disse de repente, atraindo todos os olhares para si, inclusive de Yue – Vai ser Kero!
Todos a olharam confusos.
- O que vai ser Kero? - Tomoyo indagou.
- Kerberus é um nome comprido demais – ela explicou, recebendo um olhar nada satisfeito do golfinho – Eu vou te chamar de Kero! Kero-chan – Sakura terminou cutucando o fucinho de Kerberus.
Ele tentou lhe morder, demonstrando que não gostara do apelido, mas Sakura foi mais ágil e nadou de volta para a concha, agora desviando a sua atenção para o sereiano, que rapidamente desviou o olhar.
- Eu acho que ele não gostou muito desse nome – Tomoyo disse, se aproximando de Kerberus – mas não dá pra negar que combina perfeitamente – ela riu, sendo acompanhada por Sakura.
Kero voltou a descansar indignado, mas depois de um tempo sua expressão se aliviou, como se também achasse graça da situação. Yue voltou a se tornar alheio, olhando fixamente para o nada.
Sakura parou de rir e voltou-se para o sereiano. Sempre que o via lembrava-se de Tomoyo quando a conheceu. Era exatamente a mesma coisa. O olhar sem o menor sentimento. Aquilo lhe incomodava de uma forma que ela não conseguia explicar. Sakura sentia que tinha que ajudá-lo, tinha que salvá-lo, mas de quê?
Lá estava ele novamente, revirando livros e livros. Havia lido todos de trás para frente e nada de encontrar o que queria. Qualquer referência à sereias não passava de uma linha, deixando sempre claro que elas estavam extintas há séculos.
Shaoran não conseguia acreditar que durante todo esse tempo, nenhuma havia sido vista. E justo ele tinha se encontrado com uma. Havia muitas peças faltando naquele quebra-cabeça, e os livros que ali estavam não lhe ajudavam em nada. Soltou um suspiro de frustração.
- O que exatamente você procura nesses livros, Shaoran? - Eriol perguntou enquanto se aproximava do amigo.
- Eu não sei... Eu sinto como se houvesse alguma coisa importante escondida aqui, em algum lugar.
- Bom, você já revirou todos os livros que trouxemos sobre criaturas mágicas. Talvez o que você procure esteja num lugar menos óbvio.
- O que quer dizer? - o chinês perguntou curioso.
- Você se lembra da história da magia, não lembra? - Eriol começou a explicar enquanto revirava alguns livros espalhados pela mesa em que Shaoran estava sentado.
- A história da magia que se solidificou em uma concha no fundo do mar? O que tem ela?
- Bem, Sakura nos disse que o seu povo ficara responsável por cuidar da fonte da magia, certo? - ele agora procurava por alguma coisa pelas estantes.
- Sim, e...? - Shaoran ainda não entendia aonde Eriol queria chegar.
O inglês não respondeu de imediato. Ele retirou um livro da estante, soltando-o em cima da mesa, de frente ao Shaoran. O impacto causou um som que ecoou por todo o local, ao mesmo tempo em que levantou todo o pó da mesa, fazendo Shaoran tocir um bocado antes de conseguir ler o título do livro.
- A fonte mágica? Os anciões diziam algumas coisas escritas aí não passam de lendas.
- Eles também diziam que sereias estavam extintas, não é? - Eriol argumentou.
- É... talvez valha a pena dar uma olhada – Shaoran concluiu.
O raio vermelho atingiu em cheio um dos quadrados desenhados na pedra, acertando a cabeça de um bichinho.
- O cavalo-marinho morreu.
Em seguida, outro raio foi atirado, desta vez não atingindo nada além da pedra.
- Sua vez.
Mais um raio foi disparado, desta vez vindo do lado oposto, acertando a calda de um tubarão.
- Você ganhou – Sakura falou desanimada, enquanto a amiga dava um sorriso superior.
Kerberus, que mantinha a cabeça apoiada na concha onde as sereias jogavam, levantou-se desinteressado e voltou ao seu canto para descansar mais.
- Eu quero revanche – diz a sereia de olhos verdes.
- Infelizmente, essas foram as últimas pedras – Tomoyo falou temendo a reação da amiga, enquanto recolhia as pedras cheias de furos e desenhos que antes usavam para jogar.
- Bem, não tem problema. É só sairmos para buscar mais.
Mas quando ela se virou, deu de cara com o sereiano sério montando guarda na porta. E só então ela se deu conta do que aqueles guardiões realmente significavam. Não havia mais escapatória. Ela ficaria presa ali sabe-se lá até quando. Talvez para sempre! Sakura congelou onde estava, apavorada com a ideia de nunca mais sair daquele lugar horrível, de nunca ter a sensação de liberdade novamente...
- Sakura? Tá tudo bem? - Tomoyo indagou preocupada.
A sereia não respondeu. Sua cabeça estava a mil tentando pensar alguma solução. Incapaz de encontrar alguma, ela se atirou subtamente contra a concha onde estava anteriormente. Com o movimento bruto, ela atriu os olhos dourados de Kerberus.
- Sakura? - a outra tentou novamente.
- O que eu faço? O que eu faço? O que eu faço? - ela murmurava sem parar enquanto rolava de um lado para o outro.
- Sakura! - Tomoyo agora gritou chateada por estar sendo ignorada.
A sereia levantou em um pulo de susto, encarando a amiga que a olhava fixamente preocupada. Sakura conhecia bem aquele olhar, e não gostava dele. No entanto, ao invés de começar o seu descurso de "eu te avisei", Tomoyo suspirou enquanto se deitava junto a outra.
- Dê um tempo. Talvez o Rei mude de ideia se você for uma boa sereia.
- Duvido muito – ela murmurou afundando o rosto na concha.
- Bem, eu vou pegar a nossa comida. Talvez de estômago cheio, você fique mais animada.
Tomoyo já estava saindo do quarto, sendo seguida pelos olhos atentos de Sakura. Yue não impediu sua passagem, e aquilo fez uma luz surgir em Sakura.
Ela não podia sair, ela jamais veria a superfície novamente e nunca mais se encontraria com Shaoran. Aquela tarde, aquela tarde maravilhosa, a melhor tarde de sua vida, havia sido a sua última com ele. Esses pensamentos fizeram o seu pobre coração se contrair, apertando o seu peito em uma sensação que ela nunca sentira antes com tanta intensidade. Aquilo a fez querer chorar compulsivamente.
Tomoyo voltou alguns minutos depois encontrando a amiga em um estado lastimável. Nunca antes vira aquele olhar, sempre tão alegre, expressando tamanha tristeza.
- Sakura, o que houve? - ela perguntou já abandonando a bandeja que carregava em um lugar qualquer.
- Shaoran... - ela disse simplesmente, e não era necessário mais nenhuma palavra para que a sereia entendesse.
- Vocês ainda vão se ver de novo, algum dia – ela disse com a voz gentil, embora nem ela mesma acreditasse muito em suas palavras.
- Quando? E se demorar tempo demais? E se ele se esquecer de mim? E se ele pensar que eu não quero mais falar com ele por causa de hoje? - ela disse com a voz ficando mais trêmula a cada hipótese.
- O que aconteceu hoje? - Tomoyo perguntou com curiosidade, que só fez aumentar quando a face de Sakura ficou vermelha como um tomate.
Elas não tinham experiência alguma com demonstrações de afeto, já que tal coisa jamais existira naquele mundo. Mas Sakura sabia o que era um beijo. Sua mãe lhe ensinara. No entanto, jamais imaginou que ele pudesse ser dado no local que Shaoran deu. E ainda mais aprofundando-o daquele jeito, em um toque tão íntimo que Sakura não era capaz de entender. No entanto, as sensações que voltavam apenas com a memória daquele ato faziam seu coração disparar, seu corpo esquentar e sua face corar, mesmo que ela não soubesse o motivo. De uma coisa ela tinha certeza: ela queria que aquilo se prolongasse pelo resto de sua vida.
Ainda assim, ela não teve coragem de falar tudo aquilo em voz alta, não na frente de Kero e Yue. Então ela limitou-se a contar que os dois tinham feito um passeio diferente.
Tomoyo sabia que ela estava escondendo alguma coisa. Conhecia Sakura bem demais. E sabia que ela tinha algum motivo para não lhe contar, então não insistiu.
De repente, da melancolia dominante dos olhos verdes, surgiu um brilho de esperança.
- É isso! - ela gritou, atraindo mais uma vez os olhares de todos no aposento.
- É isso o que? - Tomoyo quis saber enquanto assistia a amiga revirar as gavetas do único móvel presente no local.
Sakura não responder de imediato. Sua face iluminou-se ainda mais quando encontrou aquilo que procurava.
- O que é? - a amiga não se aguentava de curiosidade.
Sakura olhou rapidamente para Yue, com medo do que ele faria se ela revelasse o seu plano, mas os olhos azulados do sereiano estavam fixos na porta fechada. Ela então se aproximou de Tomoyo, lhe revelando silenciosamente o objeto que tinha nas mãos.
- Sakura, você não... - a sereia começou a falar, entendendo o que a amiga queria, mas Sakura a impediu de continuar.
- Por favor, Tomoyo! - ela implorou em um sussurro desesperado.
- Não, não e não!
- Por favor, por favor, por favor!
A discussão continuou por um tempo sob os olhares atentos de Kero, até que Tomoyo finalmente resolveu ceder.
- Você me deve uma, Sakura!
- AH! Obrigada! - a sereia agradeceu, jogando-se em cima da amiga em uma abraço apertado, enquanto em seus olhos retornava o brilho de alegria.
Kerberus não pôde evitar um sorriso tímido, antes de tornar a fechar seus olhos em um descanso fingido.
Continua
*levanta os olhos levemente para conferir se não há perigo em aparecer, mas no momento em que põe os olhos para fora, leva uma pedrada na cabeça*
xD
Gente, mil perdões. Eu nem sei como tenho coragem de demorar tanto assim pra postar esse cap, principalmente porque ele já está pronto há semanas... Eu me enrolei com a faculdade e outras coisas mais... Peço mil desculpas, não só pela demora, mas também pelo cap sem graça... Bom, eu não achei tão sem graça assim, mas acredito que alguns de vocês podem ficar decepcionados, principalmente porque eu não continuei a cena do beijo como devia xD
Bom, alguns pontos a ressaltar... Kero-chan e Yue apareceram =D Alguém esperava por essa? Exceto quem se lembra da história original hehe. Quem lembra da original também já sabe que objeto a Sakura procurou tão desesperadamente e qual o favor que ela pediu para a Tomoyo. Mas não se preocupem, logo no próximo capítulo isto será explicado.
Só para deixar claro, o jogo que Sakura e Tomoyo estavam jogando era um tipo de batalha naval (xD) Não consegui pensar em nenhum jogo melhor para a cena. Sua única relevância foi a dependência de pedras para jogar, quando estas acabaram foi que Sakura realmente se deu conta do que estava acontecendo ao seu redor.
Já é a segunda vez que eu falo sobre a "concha mágica", é um nome bem bobo e idiota, diga-se de passagem. É apenas uma história que eu criei para a origem da magia, ainda não sei como vou explicá-la de forma completa na fic, mas ela vai ser importante.
Mais um ponto que eu acho um tanto inútil, mas é bom para evitar confusões... Acontece o seguinte, na primeira vez que eu postei essa fic, um amigo meu pensou que o golfinho Kerberus tivesse características do guardião Kerberus do anime e do manga (cor laranja, jubas, sei lá o que se passou na cabeça dessa pessoa). Então, para deixar claro, o Kero não é nada mais do que um GOLFINHO. xD
Mil obrigadas para: Priscila Cullen, SARINHA LI, JMouncher, Jaylor, Aishiteru-san, Princesa Sakura, Tifa Lockhart Valentine.
Ainda mereço reviews?
Beijos!
