Eu nunca fui beijada

Capítulo 9 - Bob ao resgate

Água galopava a toda velocidade, desviando de galhos e raízes de grandes árvores na floresta, e eu me segurava a ela como podia. O pânico já me dominava por inteira, minhas mãos formigavam e meu estômago estava embrulhado. Bob, com o unicórnio do professor, tinha sumido de vista às minhas costas, e isso era um mau sinal. Estávamos entrando tão fundo na floresta que os raios de sol não passavam pelos galhos, tornando tudo escuro. Eu já nem sequer gritava mais, minha voz simplesmente não saía. Não tinha como parar o unicórnio, não poderia fazer isso com um feitiço. Comecei a sentir lágrimas de desespero escorrendo pelo meu rosto, sentia que tudo iria acabar mal.

Foi quando ouvi galopes, que pareciam não vir de lugar algum, virei a cabeça para os lados e não encontrei nada. Contudo, surgiu novamente Cristal, mas agora à minha frente. Bob o fazia galopar muito rápido.

-Agüenta aí! - ele gritou ofegante.

Eu suspirei um pouco aliviada, pelo menos eu tinha esperanças. Bob conseguiu emparelhar com Cristal ao lado de Água, mesmo com as árvores tornando estreita a passagem.

-Não sei como pará-la! Você vai ter que passar para o meu unicórnio!

-O quê? Não! E se eu cair? - era muito arriscado, galopávamos em grande velocidade.

-Você não vai cair. Eu te seguro. Vem! - disse erguendo o braço em minha direção.

Ao ver a distância entre os unicórnios senti um calafrio. Fechei os olhos e respirei fundo.

-Não posso! - não conseguia, o medo me paralisava.

-Claire, você tem que vir. Se não daqui a pouco eu não consigo emparelhar mais! - ele gritou parecendo desesperado.

Olhei para frente, um galho me atingiu na cabeça com força, o que me deixou tonta.

-Você está bem? - ouvi Bob gritar com uma voz distante.

Tirei uma das mãos e levei a testa, a senti molhada e achei que era suor. Mas quando olhei minha mão notei que na verdade era sangue.

-Não. - respondi um tanto atrasada.

A passagem se estreitou mais e Bob se aproximou mais de Água com Cristal.

-Agora, Claire! Daqui a pouco não dará para emparelhar mais!

Algo dentro de mim disse que se eu não fizesse alguma coisa acabaria me perdendo de Bob e tudo seria pior. Extraí forças não sei de onde e segurei o braço que ele me oferecia. Ele me puxou com força e saí de cima de Água, passando a ficar meio pendurada em Cristal, fechei os olhos, não queria encarar meu medo.

-Calma! Já está segura! - ele gritou me puxando para cima do unicórnio branco e me colocando sentada em sua frente.

Abri os olhos que estavam fechados desde a hora que tinha ficado pendurada, respirei aliviada enquanto ele deu meia volta, com o unicórnio indo em direção à luz novamente, no entanto em menor velocidade.

-Tudo bem? Nossa, está saindo muito sangue desse corte. - ele disse enquanto pegava um lenço em seu bolso e pressionava no corte na minha testa.

-Ai! Está doendo! Deixa que eu seguro isso. - respondi pegando o lenço com minha mão direita, que tremia do nervoso que eu tinha passado. -Obrigada, Bob. Se não fosse por você eu... não sei o que seria de mim.

-De nada. É que nem pensei duas vezes quando vi você em perigo. - ele respondeu aproximando o rosto do meu suavemente.

Nossos narizes se tocaram, ele desviou e quase colocou seus lábios sobre os meus. Naquele momento eu estava tão confusa, que tive a impressão que ele era Harry me salvando novamente, nem pensei que eu era uma falsa aluna, que estava a trabalho em Hogwarts. Mas alguém nos interrompeu, e impediu o beijo, assim como meu devaneio.

-Estão bem? - era o professor que nos alcançava com o unicórnio amarelado.

-Estávamos. - Bob respondeu.

-Como? - obviamente Asryel não entendeu essa resposta.

-Tudo bem, professor. - respondi enquanto voltava ao normal.

Ele nos acompanhou até sairmos da floresta, perguntando sobre como tudo tinha acontecido. Perguntas que Bob respondeu, porque eu ainda não estava bem.

Chegamos onde estavam os outros alunos, percebi olhares de espanto ao me ver. Bob desceu de Cristal e me ajudou a descer, eu ainda por conseqüência da batida na cabeça estava tonta e me apoiei nele em pé.

-Vou levá-la para a enfermaria. - Bob disse ao professor e inesperadamente me pegou no colo.

-Não precisa, eu estou bem. Me põe no chão, por favor, Bob.

Ele me olhou receoso, não parecia querer me devolver ao chão.

-Não seja teimosa! Você não está bem. - disse virando e indo em direção ao castelo comigo no colo.

-Espera! - era Shely que corria em nossa direção, nos alcançando perto do portão principal.

-O que foi agora, Shely? - Bob perguntou um pouco irritado.

-Não foi acidente o unicórnio sair correndo daquele jeito. - ela respondeu um pouco sem ar.

-Como? - perguntei surpresa.

-Foi o Macnair. Ele feriu o animal para ele correr. Estava se vingando de você, Claire.

-Aquele desgraçado! - Bob parecia furioso.

-Você falou para o professor? - perguntei.

-Ele disse que eu não podia ter certeza e...

-Outro desgraçado!

-Calma, Bob.

-Calma nada! E a senhorita vai para a enfermaria agora. - ele disse e entrou comigo no colo pelo portão, deixando Shely para trás do lado de fora.

Subíamos a escadaria quando alguém nos dirigiu a palavra.

-O que houve?

Bob se virou encontramos Malfoy, com uma cara nada boa.

-Um acidente. - Bob respondeu. -Graças a um aluno da sua Casa, professor, Claire se feriu.

Ele se aproximou com uma expressão estranha.

-Como assim? Você está bem? - perguntou ao nosso lado.

-Bem? Claro que não e...

-Quieto, Bob. Me deixa falar! Não aconteceu nada, Malfoy. Estou bem, foi só um acidente. - respondi.

-Então, por que ele está te carregando?

-Só um pouco de tontura e...

-Um corte. - Malfoy completou, colocando seu dedo sobre minha testa.

-Nada de mais. - respondi.

-Dá licença, professor. - Bob disse se virando de costas para Malfoy.

-Te vejo mais tarde, Corr. - ouvi de longe ele dizer, mas não pude responder que não iria para a detenção com ele hoje, já que Bob e eu já estávamos afastados o suficiente para ele não me ouvir.

Chegando na enfermaria Madame Pomfrey correu em minha direção.

-Que você aprontou agora, mocinha? - disse com um olhar ao mesmo tempo bravo e preocupado. -Coloca ela aqui, por favor, Brown. - apontou para uma das camas.

-Ela não fez nada, Madame. - Bob respondeu.

-Acho que vou ter que mandar seu defensor para a aula, Claire. Licença, Bob. Sua aula o aguarda.

-Eu quero ficar. - ele protestou, mas depois de receber um olhar desaprovador acabou por desistir. -Está bem, estou indo. Depois te vejo. - me disse dando um beijo inesperado em minha bochecha.

Depois que ele saiu da enfermaria Madame Pomfrey virou-se para mim.

-Parece que temos um corte, e um rapaz apaixonado. - ela disse sorridente.

-Não. É só uma coisa de criança.

-Eu nunca o vi tão preocupado, e você deve saber que Bob já teve muitas namoradas.

-Sim, eu sei. - respondi e protestei. -Ai! Está doendo!

-Tenho que limpar esse corte antes de fechá-lo. Conte-me, o que aconteceu?

Enquanto ela cuidava do meu ferimento ficamos conversando, depois Madame Pomfrey pediu para eu ficar deitada um pouco antes de ir embora, alegando que 'Ferimentos na cabeça são perigosos!'.

Estava deitada, apenas descasando com os olhos fechados quando uma confusão adentrou a enfermaria. Sentei para ver o que era, e não gostei. Surgiram Asryel, Macnair e Bob, esses dois últimos feridos, pareciam ter rolado pelo gramado dos jardins.

-Madame Pomfrey, tive que trazê-los aqui antes de mandá-los para detenção. - o professor disse, agora com o lindo sorriso que emoldurava o rosto substituído por um juntar de sobrancelhas que alegava preocupação.

"Também coitado, na sua primeira aula ocorre toda essa confusão." - pensei enquanto levantava da cama.

-Bob, o que você fez? - perguntei irritada próxima a ele.

-Eu... eu acabei com esse imbecil! - ele respondeu, no inicio envergonhado e depois bravo, apontando para Macnair. Seus olhos estavam com um tom de verde escuro e sua boca formava uma linha fina.

Reparei nos seus ferimentos, eram poucos, o que parecia mais machucado era o braço esquerdo com um corte. Por outro lado, Macnair estava muito mais machucado, com um olho roxo e o outro com um corte no supercílio.

-Eu não fiz nada! - Macnair gritava. -Você é louco, e ela também! - disse apontando para mim.

-Não fala dela! - Bob respondeu indo em direção e o segurando pelo colarinho.

-Largue ele, Brown. - Madame Pomfrey dizia enquanto levantava sua varinha. -Ou vou ser obrigada a estuporá-lo! - Bob relutante largou Macnair, esse caiu no chão com um estrondo. -É melhor você ir com o professor ver o diretor, Brown. Você só tem esse corte no braço, depois volte para eu curá-lo. - ela continuou.

Bob lançou um olhar mortal a Macnair e saiu acompanhado do professor Asryel. Macnair deu um sorriso de vitória para mim.

-Vou pegar ingredientes para uma poção lá dentro, espere um pouco. - Madame Pomfrey disse entrando em outra sala da enfermaria, nos deixando a sós.

-Eu sei que foi você! - disse furiosa.

-Você e seu namoradinho têm razão. Pensa que pode se meter com um Macnair e se safar facilmente? E de onde veio esse tem mais. - ele respondeu cheio de ódio.

-Nem com a morte de sua família você aprende, não é mesmo? - respondi ironicamente e sai da enfermaria, largando-o com mais ódio ainda.

Entrei no Salão Comunal e encontrei minhas duas amigas me esperando aflitas.

-Tudo bem? - Cameron começou. -Iríamos lá te ver, mas com a confusão... O que deu no Bob para fazer isso? Ele nunca brigou.

-Eu já disse Cameron, o Macnair queria se vingar pela Claire ter nos ajudado naquele dia. - Shely respondeu como se dissesse aquilo pela milésima vez.

-Mas ele nunca foi violento... O Bob está a fim de você, Claire? - ela exigiu com um olhar estranho.

-Ai, vocês estão me deixando tonta! - respondi me sentando em uma das poltronas.

-Aqui. - Shely disse pegando algo num canto do salão. -Sua bolsa, esqueceu lá fora.

-Obrigada, Shely. - respondi aliviada, tinha a esquecido mesmo.

Foi quando Magie desceu a escada do dormitório feminino e olhou para mim, relutante ela disse:

-Você não acha que vou sozinha para a detenção, acha? - com seu ar superior e saindo pelo retrato.

-Esqueci! - tinha fugido completamente da minha cabeça a detenção depois da briga na enfermaria. -Depois nos vemos, meninas.

Levantei correndo, peguei minha mochila e corri atrás de Magie.

No caminho até a biblioteca me lembrei da carta que tinha recebido de Errol mais cedo, em qualquer oportunidade a leria na detenção.

"Gina, você está chamando muita atenção nessa escola, duas detenções, brigas com você e por você... assim vou acabar descoberta! Preciso urgentemente ser mais discreta." - pensava enquanto andava.

Chegando na biblioteca, Regina Fon, funcionária substituta de Madame Pince, que havia falecido de causas naturais, falava com Magie. Quando me viu perguntou:

-Você é a outra garota na detenção?

-Sim. - respondi com um suspiro.

-Então, vocês duas me acompanhem. - ela continuou, saindo do balcão e nos levando até uma parte mais oculta da grande biblioteca. Parou em frente a uma grande estante e tirou de sua bolsa dois livros novos, tinta e penas. -É simples. Vocês se dividem, mas permaneçam nessa seção da biblioteca, e vão copiando no livro que eu der, o nome dos livros, dos autores e número do cadastro deles. Depois de terminarem essa estante inteira estão dispensadas. E não quero conversas ou discussões.

Saiu deixando Magie e eu sem maiores explicações. Um silêncio desconfortável caiu sobre nós. Peguei meu livro, que estava totalmente em branco como o que Malfoy me dera na outra detenção, escolhi uma das extremidades distantes da estante e comecei meu trabalho. Ela foi para a extremidade oposta.

Depois de uma hora não tínhamos catalogado nem metade da enorme estante, meus braços doíam de tanto escrever, assim como as pernas por ter que subir na escadinha para ver os livros que estavam no alto. Pela expressão, Magie também estava exausta.

Mais uma hora e nós duas estávamos lado a lado catalogando os livros do meio da estante, por várias vezes nossos cotovelos se tocaram e ela me lançou os piores olhares. Não agüentei mais o silêncio opressor e acabei por falar com ela.

-Magie, desculpe. Não devia ter te batido. - disse baixo olhando para um dos livros e procurando o número.

-Você não acha que te desculparei, acha? - ela respondeu num tom irritado.

-Por que implica tanto comigo?

-Não implico!

-Claro que sim! Desde o primeiro dia, no expresso.

-Você estava dando em cima do meu namorado desde o começo!

-Mentira, só fui simpática com o Jimmy.

-Olha só! Até o chama pelo primeiro nome!

-Mas foi ele que disse que eu podia chamá-lo assim. Por que você tem tanto medo de perdê-lo, Magie?

-Para você é Margareth. - ela disse escrevendo no livro. -Nunca disse para me chamar de Magie, Corr. - fechou o livro. -Terminei! Tchauzinho.

Ela saiu rapidamente do corredor em que estávamos, para mim ainda faltava uma parte da estante, Magie foi mais rápida que eu. Aproveitei a solidão para pegar a carta na bolsa e lê-la:

"Querida Gina

Não se preocupe com sua mãe, ela recebeu sua carta e se acalmou um pouco. Não deixarei Molly atrapalhar a sua chance de ter uma colocação melhor no seu emprego, é que ela não entende isso por nunca ter trabalhado.

Mas bem que você podia ter ao menos contado ao seu pai o que faria, não? Você sabe que te apoiaria acima de tudo. Faça o que tem que fazer, e como nos lhe ensinamos, sem passar por cima de ninguém para alcançar seus objetivos.

Do seu pai que te ama:

Artur Weasley"

Fiquei emocionada só de ler. Sentia saudades, parecia que não via a minha família há tanto tempo... Mas era apenas duas semanas sem vê-los, eu já tinha ficado, definitivamente, muito mais tempo longe. Acho que estava sensibilizada.

Enxuguei uma lágrima que insistiu em escorrer do meu olho, guardei cuidadosamente a carta e voltei a recatalogar os livros restantes. Mais meia hora e acabei. Fui até o balcão da biblioteca, e como Fon já tinha ido embora, coloquei o livro, que antes estava em branco e agora tinha várias páginas preenchidas, em cima do balcão e saí.

Minutos depois cheguei ao Salão Comunal e me joguei ruidosamente em uma das poltronas, estava tão exausta do dia de hoje que não conseguia dar nem mais um passo, muito menos subir um lance de escadas até o dormitório.

Fechei meus olhos, e como em outra noite anterior, Bob surgiu ao meu lado. Eu me assustei com sua aparição repentina.

-Por que você faz isso? - perguntei me sentando.

-O quê? - ele indagou se sentando ao meu lado.

-Me assusta! Parece que gosta. - disse não podendo evitar um bocejo.

-Eu fiquei esperando você voltar. Precisamos conversar. - ele disse sério.

"Ah, não! Chegou a hora..." - pensei triste por ter que mentir mais uma vez.

-Sobre o quê? Seu braço está melhor?

-Meu braço está ótimo. É sobre outro assunto. - ele parou e suspirou, parecia nervoso. -Lembra que eu perguntei se você tinha namorado, Claire?

-Lembro. - respondi e fiquei em silêncio.

Bob também ficou quieto e depois de uns minutos constrangedores ele pareceu criar coragem e falou novamente.

-Então, você tem?

-Tenho. - respondi olhando para minhas mãos, não queria olhar para ele. "Como era o nome que eu tinha inventado... Ah! Era Ian... Dalsemer, é isso mesmo?"

-Tem... - Bob respondeu soando decepcionado.

-Ele estuda em Kurshken, se chama Ian Dalsemer. - respondi me levantando e bocejando novamente, tentei soar despreocupada. -Boa noite, Bob.

-Boa noite... Claire.

E, tirando forças reservas, subi as escadas para o dormitório, deixando Bob sozinho. No quarto me troquei, deitei na minha cama e em menos de um minuto adormeci.

Continua...

N.A.: Tadinho do Bob... (será que só eu tenho dó dele?) E o Malfoy? Parece preocupado d+ com a Gina, né?! Ih... não sei não! Esperem o prox cap!!!

Agradeço a todo povo fofis que me deixou review do cap 8: Black Angel, Sabrina Malfoy, Angel DeLynx, Bru Malfoy (pelos outros reviews também), Diana Prallon (leiam Outra Estação, tá ótima!), Soi, Green (malukete!), Amy Lee, Victor Ichijouji (nem preciso dizer para lerem Uma viagem inesperada, né?!), Carol (que gostou da briga da Gina com a Magie - eu também adorei dar umas porradas nela!), Jaqueline Granger (Uma dor chamada saudade - muito linda!) e Ly Malfoy (que respondeu à resposta do review ^_^'). Ah! Quando me deixarem um review, ponham também o seu e-mail, para eu poder responder (se vocês quiserem que eu responda, agora se me acharem a maior chata, aí nem precisa...). Não posso esquecer de agradecer também à minha beta, a Nessa Potter, se não fosse por ela vocês teriam sérios problemas com minhas crases inconvenientes...

Valeu! Bijinhos!

REVIEWS JÁ!!!!