Aleluia! Fim de caso! OK, sei que vcs já estão com o cadafalso preparado para me enforcarem. Palavras minhas: segunda-feira SEM FALTA. Bom, mas eu não especifiquei qual segunda. Especefiquei? Tá, tá, cara-de-pau, eu sei. Brincadeirinha, gente, é que não deu mesmo.
Esse capítulo ficou enorme e olha que eu tentei ser o mais breve possível sem deixar falhas na história, enfim. Tem muita explicação nele, mas era preciso.
Enfim, sem mais conversas (só no fim do capítulo) e boa leitura!
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Anteriormente:
– A Indomável já é minha marca registrada e com ela tem funcionado muito bem. Acredite em mim, tio, sei o que estou fazendo.
– Tudo bem – Bobby suspirou. Não adiantava discutir com a sobrinha, por isso, mudou o assunto – Você pretende incluí-los também no programa?
– Sim, eu até queria ter feito isso antes mesmo sem conhecê-los antes, mas... eu achava que não fossem merecedores.
– E isso por quê? Eu sempre falei com você da capacidade e integridade deles. Eu só não te sugeri antes porque... você sabe... eu não gosto de tocar nesse assunto porque você acaba tentando me convencer a aceitar e sabe que não vou.
(...)
– Me explica então por que Mark Thompson foi assassinado pelo Alan? Se é verdade que está sob algum feitiço de proteção perpétuo? – retrucou Dean
– Não deu pra ler o resto porque eu quase fui pega pela Marta nessa hora, tive que me esconder. Parece que tinha uma advertência, um porém para esse feitiço ser quebrado. Talvez esse seja o motivo do Mark ter sido uma vítima, inclusive... – Vic baixou os olhos como se recordasse de algo.
– Inclusive? – Sam incentivou
– Agora há pouco quando eu estava com a Marta, ela falou coisas como se o filho não pudesse ter morrido, como se ele fosse imune ao cavaleiro. Acho que é certo pensar que a Marta estava protegendo sua família da mesma forma que sua ancestral Elizabeth, mas algo saiu errado e o Mark foi atingido pela maldição.
(...)
– Brian Thompson, você está preso pelo assassinato de quinze pessoas, incluindo seu irmão Mark e de ter provocado o incêndio na casa de Richard Van Tassel – anunciou Davis
– O quê? Que absurdo é esse? – Marta gritou descontrolada. Collins a segurava
– As provas estão aqui – continuou o agente – Esses são os galões de gasolina e neste saco estão quinze cabeças... a do seu filho Mark também está aí.
Marta não gritou. Olhou aterrorizada para o saco. E sem que ninguém esperasse, desmaiou. Sam a amparou nos braços juntos com Victoria.
– Mãe! - Brian gritou disposto a acudir Marta, entretanto, foi impedido por Russell.
– Queira nos acompanhar, Brian Thompson.
Capítulo 8
A lenda do cavaleiro sem cabeça - (4ª parte) Final
Eram quase dez horas da noite. Estava desde o horário da manhã naquela cela da delegacia.
Estava cansado. Tivera um interrogatório estafante com o agente Davis. Sabia que tinha o direito de permanecer calado e só falar na presença de um advogado, entretanto, não pudera se conter ao ser acusado pelo federal num tom nada amigável.
Alegara inocência e que aquelas evidências encontradas foram postas lá para incriminá-lo. Só que o federal lhe jogara na cara a declaração de Marta de que somente ela e os filhos tinham conhecimento da existência do labirinto.
Além disso, o rapaz não tinha álibi em nenhuma das ocasiões das mortes. Deitava sempre cedo, antes da mãe, depois de umas dez horas, contudo, nem mesmo Marta poderia garantir que ele permanecera no quarto. E, além disso, na noite anterior em que o irmão fora assassinado, Brian se encontrara com dois amigos na discoteca, porém fora embora cedo, perto de umas onze e meia. Entretanto, não havia quem pudesse confirmar seu álibi depois dessa hora, pois ficou perambulando pelas ruas até chegar à ponte da Vila onde queria pensar em sua vida.
Só chegou ao hotel por volta das três e meia da madrugada e fora informado pelo porteiro da morte de Mark.
Sabia da existência da passagem secreta, todavia, só fora duas ou três vezes por lá quando criança e, mesmo assim, nunca adentrara totalmente o local porque lhe dava arrepios.
Tais foram suas alegações para Russell, que desdenhou a todas e aconselhou o rapaz a admitir a culpa sobre aqueles crimes.
Felizmente, o xerife veio em seu auxílio e não permitiu que fosse submetido a mais pressão do federal e a mais perguntas sem um defensor que o protegesse.
Dali a três dias, seria solicitada sua transferência para a cidade de Nova Iorque. Aqueles crimes eram hediondos demais para serem julgados como algo comum numa pequena Vila como North Tarrytown.
Não bastasse toda aquela pressão que enfrentava, houve manifestação na porta da delegacia. As pessoas da Vila queriam linchá-lo por todos aqueles assassinatos. Foi um custo o xerife e seus auxiliares acalmarem a multidão. Todavia, da cela, podia ouvir os insultos que gritavam do lado de fora.
Suspirou. E havia ainda sua mãe. Fora visitá-lo na tarde daquele mesmo dia. Estava muito abalada e, se não estivesse acompanhada dos três produtores de filmes, teria sucumbido a outro desmaio. Jurara inocência a ela e, Marta não hesitou em nenhum momento em acreditar nele. Parecia ser a única pessoa.
Ele sorriu amargamente. Kath. Ela também foi até lá, no princípio da noite, pouco depois que sua mãe saiu.
Pensara que ela foi lhe dar seu apoio, dizer que o amava e acreditava nele, contudo, fora uma decepção. Ela teve coragem de lhe perguntar se realmente fizera tudo aquilo. Estava pálida, com olheiras profundas – sinal de quem chorara muito. Ela o indagara, mas pôde perceber em seus olhos que ela já tinha tirado suas próprias conclusões: ele era o culpado, o assassino.
Aquilo o chocou de tal forma, magoou-o tanto, que não conseguiu responder à indagação dela. Por fim, como ela insistisse na maldita pergunta, ele admitiu a culpa só para feri-la, para magoá-la como ela fizera com ele. Em seguida, mandou-a embora.
Como ela pôde duvidar dele depois de tudo o que passaram?
Brian encostou nas grades da cela e foi escorregando até chegar ao chão.
Nada mais importava.
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- Onde está minha filha? - perguntou Tessa a uma empregada tão logo voltou de uma visita à casa de Lorna Schmidt.
- Ela continua no quarto, madame.
Chorando com certeza, pensou.
Desde que souberam da prisão do rapaz e das provas que pesavam sobre ele, a mansão fora invadida por um monte de parentes contando a novidade. O telefone não parou de tocar. Souberam até de uma manifestação que ocorrera em frente à delegacia de vários habitantes exigindo justiça e punição ao assassino de North Tarrytown. Agora estavam todos convencidos que o cavaleiro sem cabeça não passara de um embuste para amedrontar a população.
Tessa vira o desespero da filha; seu olhar de descrença ao ouvir as declarações de vários parentes atestando a culpa do rapaz. Ela chegara até a discutir com uma prima ao defender a inocência de Brian sem se importar que os outros suspeitassem de sua relação clandestina com o moço. Até que, por fim, diante de tantas afrontas e tanto falatório, Kath correra desesperada até a delegacia para falar com o moço. Tessa tentou demovê-la daquela atitude, entretanto, Kath foi decidida. E depois, retornou aos prantos e correu até o quarto, de onde não saiu mais, apesar dos rogos da mãe para conversarem.
A Tassel refletiu por alguns instantes até que tomou uma decisão. Sua filha não ia mais sofrer nenhum tipo de tormento.
-Vou sair outra vez. Se Kath perguntar, diga que... que vou resolver os problemas dela de uma vez por todas – anunciou
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Dean, Sam e Vic estavam investigando a imensa galeria oculta sob o hotel. Não foi difícil para eles terem acesso à entrada: ainda que um federal ficasse de vigia, pois aquela parte do local ainda estava sob investigação, aproveitaram um breve momento em que o agente foi ao banheiro e entraram.
O guarda-roupa estava aberto e as lascas da porta destruída ainda estavam no chão. Adentraram o túnel e acenderam as lanternas.
Estavam procurando evidências que inocentassem Brian. Não acreditavam muito em sua culpa, ainda mais porque Sam declarara que não sentira aquele cheiro fétido quando mais cedo foi revistar o quarto do moço. Além disso, ao acompanharem Marta na visita ao filho, puderam perceber nos olhos do moço a inocência estampada. Só se ele fosse um excelente ator para mostrar um olhar tão limpo.
O lugar era um breu total e apenas com a luz das lanternas era possível enxergar qualquer coisa. Fedia a mofo e aquele cheiro podre das cabeças em decomposição ainda estava impregnado.
Localizaram a parte em que as cabeças e os galões de gasolina foram encontrados. O rastro de sangue ainda estava lá. Também havia várias pegadas que se destacavam no pó do chão do local. E eram recentes. Algumas deviam ser dos federais e do xerife na hora em que recolheram as evidências; e outras, adentravam a passagem afora. Detiveram-se sobre essas últimas.
- Não parecem ser do Brian – comentou Vic ao se abaixar e analisá-las mais de perto.
- Como você pode saber disso? – perguntou Dean
- Reparei nos pés dele. Não são grandes e essas pegadas parecem de alguém com pés bem grandes.
- Do Sam talvez – zombou o loiro
- Há-há-há – replicou Sam com falsa graça – É sério, Dean. Vamos ver pra onde elas nos levam.
E seguiram por aquela galeria. Era bastante comprida. E era realmente de arrepiar: aranhas e suas teias por toda parte, ratos e baratas. Em dado momento, Victoria sentiu uma barata passar em cima de seu pé.
- Ahhhhhhhhhhhh! – gritou. Tinha horror aquele bicho.
Percebeu que se agarrara ao primeiro que estava perto. Era Dean. Os braços da moça estavam em volta do pescoço do homem que adorou aquela aproximação e não escondia um sorriso de malícia.
Collins se soltou na hora dele. Um calor a envolveu.
- Desculpe.
- Tudo bem. Se precisar mais uma vez se agarrar quando estiver com medo, eu estou aqui – o sorriso dele se alargou mais ainda. Vic teve vontade de lhe xingar, porém, preferiu ignorá-lo e seguiu em frente.
Sam olhou feio para Dean que continuou ostentando seu sorriso. E ambos ficaram surpresos em descobrir que a Indomável parecia ter medo de baratas. Não se espantava com os ratos e aranhas, mas ficava meio temerosa se via alguma barata.
Fianlamente, depois de um bom tempo percorrendo aquele labirinto, chegaram ao que parecia o fim da linha. Havia uma escada alta de ferro que dava numa espécie de bueiro com uma tampa de grades. Os rapazes subiram primeiro e, Sam, que estava na frente de Collins, gentilmente deu a mão à mulher e ajudou-a a subir. Sentiram aquela eletricidade mais uma vez percorrerem seus corpos naquele simples contato.
Vic soltou sua mão da dele, mas o encarou profundamente tal como ele o fazia.
- Ei, parece que voltamos ao cemitério – comentou Dean sem perceber o clima. Estava de costas para eles.
Os dois quebraram o contato visual e observaram o local onde tinham chegado. De fato, era o cemitério da Vila. Estavam perto de uma sepultura pertencente a um ancestral dos Thompson.
- E nem sinal de mais rastros – observou Sam tentando vasculhar algum indício.
- Não tem importância – disse Vic – De qualquer jeito, estou convencida que o Brian não tem nada a ver com essas mortes. Não tem lógica ele ter colocado aquele saco num lugar bem próximo do quarto onde qualquer um poderia ter notado aquele cheiro se chegasse perto do guarda-roupa, como a mãe dele, por exemplo – olhou para Sam – E você mesmo disse que não sentiu cheiro algum quando esteve lá mais cedo.
- O que significa que alguém colocou as cabeças lá há pouco tempo para incriminar o Brian – continuou Sam – E deve ser a mesma pessoa que fez a denúncia. Se não... como poderia saber que elas estavam lá?
- Nossa! Esse Davis é um tapado! – assobiou Dean – Nem parou pra pensar nisso.
- Talvez pressa em encerrar um caso longo – sugeriu Sam
- Esse caso está cada vez mais complicado –admitiu Collins – Só nos resta mais uma alternativa.
- Qual?
- Interrogar a Marta.
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Marta estava terminando de limpar as mesas do restaurante do hotel. Havia empregados específicos para isso, mas queria fazer aquele serviço ela mesma ou enlouqueceria.
O que fizera para merecer tanta dor? Primeiro, o marido morria num trágico acidente de carro, deixando dois filhos ainda pequenos para ela criar; depois, vivia com as constantes humilhações que alguns membros daquelas malditas famílias Tassel e Schmidt faziam questão de lhe impingir sempre que tinham oportunidade; e agora, tinha um filho assassinado brutalmente e outro, preso e acusado de ser o autor da morte do próprio irmão e de mais quatorze pessoas. Era muito para sua cabeça!
No final da tarde, fora visitar Brian na prisão e não pudera dizer quase nada em sua presença tamanho o choque em vê-lo ali confinado. Ainda bem que aqueles produtores, hóspedes maravilhosos, tiveram a gentileza de lhe acompanhar ou ela teria desabado.
É claro que seu filho era inocente! Ele não precisava dizer nada! Alguém estava controlando o cavaleiro sem cabeça. Mas o que lhe doía era saber que Mark devia ser cúmplice da pessoa que tentara incriminar Brian. Caso contrário, jamais teria sido vítima da maldição. Ela o sabia.
- Precisamos conversar... Marta.
A mulher se virou. Ficou pasma; diante dela estava Tessa Van Tassel, a mulher que mais odiava no mundo. Trajava um longo vestido preto e um chapéu com um véu espesso de mesma cor, calçava sapatos de salto. Ainda estava de luto pelas mortes do filho James e o marido, bem como de outros parentes. O rosto ostentava uma máscara de frieza e impassibilidade.
- Como ousa entrar aqui? Quem lhe deu permissão? – esbravejou a Thompson – Edmund!
- Não perca seu tempo chamado pelo porteiro. Ele foi passear. Ele sabe que não se deve se meter com um Tassel. – a mulher esboçou um sorriso frio e cínico
- E o que você quer aqui? Por acaso veio me jogar na cara que é bem feito o meu filho estar preso? Que finalmente o assassino de seu marido e de seu filho vai pagar pelas mortes deles?
- Tenho certeza de que seu filho é inocente – cortou Tessa sem responder a nenhuma das perguntas
Por essa, Marta não esperava! A princípio, ficou sem palavras, mas logo esbravejou:
- A quem você quer enganar? Que história é essa?
- Acalme-se e me deixe explicar.
- Calma? Como eu posso ter calma? Você sempre me odiou! – abaixou o tom de voz e imprimiu uma nota de desdém – Você nunca suportou o fato de eu ter me casado com o Gerald, não é mesmo?
- Cale a boca – Tessa falou baixo, mas sua voz assumiu um tom raivoso.
- Nunca se conformou de sua família ter separado vocês dois e dele ter se casado comigo, não é?
- Eu disse pra se calar – a outra aumentou o tom de voz
- Mas a culpa foi sua! Você é quem desistiu dele, o deixou sem chão quando concordou em se casar com aquele miserável do Richard Van Tassel!
- Cale-se, maldita! – Tessa não conteve o seu grito de raiva, uma raiva reprimida há muito tempo.
Marta esboçou um sorriso satisfeito ao conseguir tocar na ferida de sua rival.
Nesse momento, Collins e os Winchesters chegaram perto da porta do refeitório. Ouviram o grito de Tessa. Os três pararam num dos lados do umbral da porta; estavam surpresos em ver a Tassel por ali e resolveram ouvir a conversa.
- Não se atreva a falar da minha relação com o Gerald – continuou Tessa deixando transparecer a mágoa que sempre procurou ocultar – Ele pode ter sido seu marido... mas eu continuei o amando a vida toda... mesmo depois da morte dele – fez uma pausa - E sei que... ele também continuou me amando.
- Infelizmente sim – Marta não negou – Ele foi um ótimo marido e um ótimo pai pra nossos filhos... mas nunca vi no olhar dele o brilho que ele tinha quando estava..com você. É por isso que eu sempre te odiei. A mim não importava essa rixa idiota de família, mas o fato de você sempre ter estado entre a gente.
- Poxa! – sussurrou Dean com uma careta de espanto – Collins virou para trás e o cutucou para que se calasse. Voltaram a prestar atenção na conversa.
- E agora você vem aqui tripudiar sobre a minha desgraça dizendo esse absurdo de que acredita na inocência do meu filho? - tornou Marta
- Não estou tripudiando. Sei que é verdade... sei porque de certa forma... eu sou responsável por todas essas mortes que tem ocorrido, de ter trazido o cavaleiro de volta pra nossas vidas.
- O quê? – mais uma vez Dean sussurrava com outra careta. Sam, dessa vez, foi quem o cutucou.
- O que quer dizer? – espantou-se Marta – Você... você sabe do cavaleiro, o Alan Schmidt?
- Todos os membros principais dos Tassel e dos Schmidt sabem dessa história. Até mesmo minha filha, mas poucos sabem os detalhes mais importantes... E sei sobre o feitiço também.
- Sua louca! Então você está dizendo que fez o feitiço que o trouxe de volta... e fez com que ele matasse todas essas pessoas, seu próprio filho, seu marido? E o meu... o meu filho?
Marta quase avançou na mulher, mas ela logo se explicou:
- É claro que não! Que tipo de monstro você acha que eu sou? Me deixe ser mais clara. Eu não trouxe o cavaleiro de volta... mas eu mandei roubar os diários do Alan. Eu descobri sobre os feitiços, eu os queria pra mim.
- Pra quê?
- Eu pretendia sim trazer o cavaleiro de volta... mas pra matar o meu marido.
- Como? – Marta estava abismada.
- Eu o odiava! Sempre o odiei por todos esses anos de casada. Ele se casou comigo só pelo dinheiro e minha posição. E fez da minha vida um inferno – a mulher não mais olhava Marta. Parecia visualizar as cenas de maus tratos do esposo – Me batia por qualquer motivo sem que eu merecesse... me traía com todas as vagabundas da Vila... e como se não bastasse, eu descobri que foi ele quem provocou o acidente do Gerald.
- O queeê?! – Marta quase teve um ataque cardíaco.
- Não me pergunte como eu descobri isso, mas sim, não foi acidente o que matou seu marido. Foi assassinato encomendado pelo Richard.
- E por que... Por que ele fez isso? – a mulher colocou a mão na boca incapaz de acreditar
- Por vaidade. Por saber que eu ainda amava o Gerald.
- Meu Deus! Esse homem... era um demônio!
- E ele queria condenar minha filha ao mesmo destino – continuou Tessa. – Queria obrigá-la a se casar com um homem que ela não amava e que ia fazer de sua vida um inferno. A única diferença do Wiliam pra meu marido é que parece que ele sente algo pela Kath, mas... creio que não seja amor, é mais como... uma obsessão, um desejo de posse, que da mesma forma pode destruir a vida dela como foi... com a minha. Eu não podia permitir isso, que minha filha passasse pelas mesmas coisa que eu passei.
- Então você invocou o cavaleiro.
- Não... eu nem cheguei a ler sobre a fórmula de como trazê-lo, eram vários os diários, uns dez ou onze, pelo que me lembro. E... no fim das contas, não teria coragem de realizá-lo, não sou assassina – fez uma pausa – Só que... alguém roubou os diários de mim e invocou a alma do Alan.
Justo nessa hora, Dean soltou um espirro barulhento que não deixou de ser ouvido pelas duas mulheres. Olharam assustadas em direção à porta.
- Quem está aí? – perguntou Marta.
Vic e Sam olharam feio para Dean que esboçou um sorriso desconcertado. Saíram de onde estavam e apresentaram-se diante das duas mulheres.
- Vocês? – espantou-se Marta – Há quanto tempo... estão aí?
- Por favor, senhora Thompson, nos deixe explicar... – começou Collins
- Humpf. Era de se esperar de um bando de produtores de Hollywood – interrompeu Tessa olhando Vic mais uma vez com desprezo – A necessidade de vocês em produzir filmes é tão forte a ponto de meterem os narizes em assuntos que não lhes dizem respeito?
- Não somos produtores de Hollywood – interviu Sam.
- Como? – Marta pensou ter ouvido mal.
- Isso mesmo que vocês ouviram – confirmou Victoria – Não somos produtores de filmes... isso é apenas um disfarce.
- Disfarce? Então... quem são vocês?
- Somos caçadores de seres malignos como fantasmas, demônios, monstros e coisas desse tipo.
- Estão de brincadeira, não? – dessa vez, era Tessa que imprimia um tom de incredulidade à voz.
- Não. Infelizmente, não. E foi pra isso que viemos a North Tarrytown, por causa das notícias do cavaleiro sem cabeça. Nós fizemos algumas investigações e já sabemos sobre a identidade dele, sobre Edward Thompson, Catriena Van Tassel, a maldição que perseguiu os Thompson, enfim...
- Nós podemos ajudar a acabar com o fantasma – continuou Sam – Mas precisamos que nos informem mais coisas sobre o feitiço que o trouxe de volta e como pará-lo.
- Queremos mesmo ajudar. É o nosso trabalho, mas... precisam confiar em nós – concluiu Vic
As duas mulheres perceberam que os caçadores diziam a verdade e trocaram olhares entre si. Tessa assentiu.
- O quanto vocês ouviram? – inquiriu Marta.
- Desde o amor declarado da senhora Tassel por seu marido – Dean falou sem cerimônias
Ambas as senhoras ficaram constrangidas, porém, Tessa tomou a palavra.
- Então devem ter ouvido quando eu disse que mandei roubar os diários no Arquivo Público para trazer o cavaleiro de volta, mas que nem cheguei a tomar conhecimento do feitiço e que alguém roubou os diários de mim...
Os caçadores assentiram.
- A senhora não tem a menor ideia de quem pode ter feito isso? – indagou Collins.
- Eu não sei... não consigo imaginar. Eu tinha decidido a devolver os diários... na verdade, decidi até queimá-los pra que aqueles escritos não caíssem em mãos erradas. Eu os escondi do meu marido, é claro. Deixava entre as roupas numa das gavetas do meu guarda-roupa. Nunca permiti que nenhuma empregada guardasse minhas roupas, eu mesma gostava de fazer isso. Então, teve um dia que desci até a sala de minha casa com os diários em mãos, disposta a queimá-los nos fundos sem que ninguém me visse... mas ouvi a campainha da porta tocar e uma empregada foi atender. Era uma amiga minha de longa data. Pedi que ela esperasse e fui correndo escondê-los. Resolvi deixá-los um momento em cima da mesa do escritório da biblioteca do meu marido. Como ninguém além dele tinha permissão de entrar lá e ele não se encontrava, achei que não teria problema em deixar por alguns momentos os diários enquanto recebia minha amiga. Não queria ter o trabalho de ter que guardá-los de novo. Eu desci e ela ficou quase umas duas horas conversando comigo. Depois da visita, eu subi até a biblioteca louca pra me livrar dos diários, mas... quando voltei, eles não estavam lá.
A mulher os olhou pesarosa. Mostrava em seu semblante um grande sentimento de culpa.
- A senhora não tem nenhum suspeito? – inquiriu Sam
- Pensei nos empregados da casa, mas... não podia perguntar diretamente a eles sobre o que eu procurava e também nenhum deles ia me confessar. E quando essas mortes começaram a acontecer, eu tive certeza de que só podia ser alguém que odiava a todos os Tassel e os Schmidt.
Marta a olhou enviesada como se achasse que ela fosse acusar seu filho Brian. Como se lesse seus pensamentos, Tessa continuou:
- É claro que eu sabia que não podia ser um Thompson. Nenhum deles pisava a velha casa que foi de Catriena Van Tassel há mais de duzentos anos.
- Além da senhora, da sua amiga e de seus empregados alguém mais estava na casa? – tornou Victoria.
- Estava minha filha Katharina.
Os caçadores se entreolharam, mas não tinham coragem de falar o que lhes passara na cabeça.
- Sim, eu também pensei nessa possibilidade – a Tassel sorriu exprimindo em voz alta o pensamento que eles não ousavam formular – Mas... minha filha teria que ser um monstro pra querer matar o próprio irmão e o próprio pai.
- Acredite, senhora, já vimos de tudo – Dean admitiu – Au!
Collins lhe deu uma pisada no pé sem se virar para ele e, com semblante tranquilo, perguntou:
- Mais alguém?
- Nesse dia, William Schmidt foi visitar minha filha. Mas ele estava lá fora o tempo todo em que minha amiga e eu ficamos na sala. Só Kath... que subiu por uns momentos. Cheguei mesmo assim a suspeitar um pouco dele... mas por que ele faria isso com alguns de seus parentes mais próximos? E depois, como ele foi quase morto pelo cavaleiro, afastei minha suspeitas de vez.
Dessa vez, a troca de olhares entre os caçadores foi mais demorada.
- Isso dele ter sido quase morto foi o que ele disse – tornou Vic.
- Espere...Vocês estão achando que ele...
- É melhor a gente ir até a casa dele.
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Katharina não estava com a menor disposição de receber ninguém, principalmente William. Tinha certeza de que o moço fora lá pra tripudiar sobre sua dor e dizer algo como "Eu te avisei.". Todavia, as regras de etiqueta mais uma vez impunham seu peso sobre as ações da jovem.
- Bill.
- Kath.
Ela desceu as escadarias sem a menor pressa ou entusiasmo. E mesmo assim, o rapaz parecia tranquilo, sem ansiedade para que ela fosse até ele.
- O que deseja? – seu rosto não escondia a contrariedade de falar com ele.
- Queria saber como você está... depois de toda essa descoberta.
- Pra quê? Pra jogar na minha cara que você tinha razão? Que eu me apaixonei por um monstro, uma pessoa de duas caras? Fique à vontade se isso te faz tão bem – Kath não teve vergonha em demonstrar o quanto estava destruída por dentro.
- Não, Kath, de maneira nenhuma. Eu jamais faria isso... Sei o que eu disse na última vez que eu estive aqui, mas... foi da boca pra fora. Não queria que você estivesse passando por algo assim, por essa decepção.
- Não diga que lamenta.
- Pelo Thompson, não, mas por você, sim.
Kath mirou por alguns instantes os olhos do jovem. Pareciam sinceros, ele parecia se solidarizar com sua dor, mas ela também acreditou na sinceridade dos sentimentos de Brian, vira transparência em seus olhos... e deu no deu.
Vendo o ar confuso da moça, Bill continuou:
- Kath, vamos dar uma volta. Você precisa de um pouco de ar.
- Bill, são onze e meia da noite e eu estava me preparando pra dormir.
- E você ia conseguir? – interrompeu – Kath, seu rosto está até inchado. Ora, vamos... só pra se distrair um pouco. Não se preocupe... eu não vou confundir as coisas... posso aceitar o fato de não sermos mais noivos, mas... me deixe pelo menos ser um ombro amigo.
- Você... meu amigo? – ela não pode deixar de rir tamanha a ironia.
- E por que não? Olha... eu ainda espero que você possa me dar uma chance...
- Bill...
- Mas eu não quero te forçar a nada. Eu realmente estou preocupado com você, Kath. Por favor, só um pouco... vamos conversar nem que seja um pouco lá fora perto dos estábulos. Eu não vou falar nada contra... ele. Estou disposto a só ouvir... Por favor – estendeu a mão para ela.
Alguma coisa dentro de Kath a alertou para que recusasse aquela oferta. Entretanto, estava tão confusa, tão carente, que precisava desabafar. Nunca tivera amigas verdadeiras, sabia que todas só tinham interesse por ela por causa de sua riqueza e posição social. Quanto à mãe, nunca houvera um diálogo entre elas. Tessa parecia querer se esconder num mundo próprio, ignorando a existência da filha. Com o pai e o irmão, ela muito menos teve alguma intimidade. Fora em Brian que ela buscara todo o amor, carinho, proteção e amizade que ela não encontrava em sua família. E agora... ela constatava que essa pessoa nunca existira, fora só uma tola ilusão romântica.
- Está... bem. – pegou na mão do Schmidt e tentou sorrir sem sucesso – Mas só um pouco...está tarde e não pega bem ficarmos sozinhos lá fora.
- Prometo me comportar – ele sorriu – Isso você não pode reclamar de mim.
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Os dois Impalas 67 percorriam o breve caminho até à mansão dos Schmidt. No branco, estavam três mulheres: Victoria no volante, Marta no banco de passageiro e Tessa no banco de trás.
Havia um silêncio tenso entre elas. Embora Tessa aparentasse uma expressão impassível, o mesmo não se podia dizer de suas mãos que se apertavam com nervosismo. Quanto a Marta, era visível sua aflição. Vic resolveu quebrar o silêncio indagando a esta sobre algo que estava martelando sua cabeça. No entanto, era melhor abordá-la de uma forma mais indireta.
- Senhora Thompson, posso lhe fazer uma pergunta?
- Ah... sim... claro.
- A senhora é uma bruxa, não?
A mulher não pareceu muito surpresa com a pergunta. E, ao invés de responder, fez outra pergunta:
- Você esteve no meu quarto investigando? – o tom não era acusativo, apenas queria uma confirmação
- Sim – admitiu a caçadora desviando o olhar um pouco constrangida.
A mulher sorriu. Não estava zangada.
- Então você deve ter visto meu baú e o manual de minha ancestral Elizabeth Thompson. O de feitiços de proteção à família.
- Não deu pra ler muita coisa.
- Qual a pergunta que você queria realmente fazer? – tornou a mulher. Sabia que Vic não lhe fizera uma pergunta para cuja resposta já sabia; ela só estava querendo ganhar terreno.
- Eu li algumas páginas sobre... o feitiço de proteção que ela conferiu à sua família contra a maldição do cavaleiro. Por que... então... seu filho Mark foi atingido?
Mais cedo ou mais tarde, Marta teria que encarar a dura realidade que não queria traduzir em pensamento. Por mais que seu filho tivesse sido vítima da maldição, ele também fora o culpado.
- Se um descendente dos Thompson invocar o cavaleiro ou mesmo só ajudar quem o invoca, fica vulnerável à maldição.
- Então...
- Então... Mark deve ter sido cúmplice da pessoa que trouxe Alan à vida. Quando ele morreu, achei que fosse o autor dos crimes e que ao parar com a matança, o feitiço tivesse se voltado contra ele.
- Não entendo. Como assim?
- A pessoa que invoca o cavaleiro não pode parar com a maldição – Tessa interveio na conversa – Caso contrário, é a próxima e última vítima do cavaleiro antes dele voltar à sua tumba. Foi o que aconteceu com... Charlie Schmidt.
- Charlie Schmidt? Foi ele que matou o Alan... matou o próprio irmão? – Vic ficou abismada.
- Não eram só feitiços que continham no diário do Alan, havia também confissões de sua vida íntima. Ele tinha obsessão por Catriena e queria seu amor de qualquer jeito. Na última anotação, escreveu que não importava se não ganhasse a aposta que fez com Edward, pretendia experimentar um daqueles feitiços para tirar o rival de seu caminho – fez uma pausa – Ele também escreveu por diversas vezes que sabia que seu irmão o invejava e o odiava porque ele herdaria maior parte da fortuna dos Schmidt. E também Charlie parecia sofrer da mesma obsessão por Catriena. Ele também foi encontrado degolado depois que a maldição parou contra os Thompson – fez uma pausa – Sei de tudo isso porque li nos diários de George Schmidt, irmão mais novo de Charlie e Alan. Estão guardados na biblioteca da mansão. Richard nunca acreditou muito nessa história da maldição do cavaleiro. Era um cético, mas preservava alguns documentos da família por tradição.
- Minha ancestral Elizabeth fez o feitço de proteção que parou com a ameaça do fantasma – continuou Marta - E o preço era que se voltaria contra a pessoa que o invocou. Então... fosse por vontade própria ou não, a maldição não poderia parar sem fazer sua última vítima na figura de quem a iniciou.
- A morte de Charlie foi registrada como suicídio – tornou Tessa – Os Tassel e os Schmidt descobriram que somente ele poderia ter sido o responsável pela morte de Alan e de tantos Thompson. É claro que nunca admitiram a verdade suja que esconderam por séculos – proferiu num tom que indicava o reconhecimento de uma injustiça.
- Isso significa que se o Bill realmente for o autor dessas mortes... – Vic começou a a concluir
- Se nós pararmos com a maldição, o cavaleiro virá até ele. Isso se ele já não fez isso antes, se deixou de invocá-lo hoje na mesma hora. Acredito que seu propósito foi alcançado ao incriminar meu filho.
Collins não disse mais nada. Ela sabia que bastava queimar os restos mortais de alguém para destruir seu espírito de uma vez por todas. Mas será que mesmo assim não traria consequências trágicas para o jovem Bill?
Por mais que o rapaz merecesse sofrer do mesmo mal que impusera às suas vítimas, Vic era contra tal pensamento. Não se achava no direito de julgar as ações das pessoas. Não era Deus para isso. Ela estava ali para salvar pessoas, não para condená-las por mais que merecessem.
Sua linha de pensamento foi interrompida ao chegarem no portão grande da mansão dos Schmidt. Ela e suas passageiras desceram do veículo e juntaram-se aos Winchesters. Tessa tocou o interfone. A voz do guarda se pronunciou pedindo que se identificassem.
- É Tessa Van Tassel – disse a senhora – Precisamos falar com urgência com... William Schmidt... ou com os pais dele.
O guarda se apresentou diante deles. Era um sujeito alto, claro e de cabelos pretos e curtos.
- Boa noite, senhora Tassel. – cumprimentou e olhou com estranheza para as outras pessoas que estavam com ela.
- Boa noite, Perry.
- Olha, o Sr. Bill não se encontra e nem o senhor Rudolf. Só a senhora Lorna.
- Ótimo. Preciso falar com ela. Sei que está muito tarde e que estive aqui antes, mas voltei porque...é caso de vida ou morte. Diga isso para ela.
O guarda assentiu e falou pelo interfone com sua patroa. Minutos depois, abria o portão para eles. Logo adentravam o interior da mansão.
- Tessa... o que está acontecendo? – olhou confusa para a amiga e com certo desagrado para Marta e os três caçadores.
- Lorna, não temos tempo a perder! Onde está Bill? – Tessa dispensara a cerimônia para só indagar a amiga
- Ora... ele disse que ia até sua casa ver a Kath.
A mulher arregalou os olhos.
- Tem certeza disso?
- Afinal, o que está acontecendo? Perry disse que você falou se tratar de caso de vida ou morte – pôs a mão no coração – Tem alguma coisa a ver com o Bill?
- Não... quer dizer, tem... olha, daqui a pouco te explico, preciso só falar uns minutos com...meus amigos – disse e virou-se para eles com tom disfarçado de pânico na voz – O Bill está lá em casa com minha filha! O que... eu faço? Se ele for mesmo o autor por trás disso...
- Calma, senhora Tassel, pode deixar que vamos dar um jeito. – disse Vic e dirigiu-se aos seus colegas – Vocês dois podem ir até lá?
- Podemos, mas... e você? O que vai fazer? – perguntou Sam
- Vou tentar encontrar os diários e a cabeça de Alan e queimar se encontrar. Só que não sei se vai resolver no caso do Bill...
- Como assim?
Em breves palavras lhes relatou o que as duas mulheres lhes contaram sobre a maldição.
- Você acha que o cavaleiro pode voltar e matar o Bill mesmo se queimarmos de vez os restos dele?
- Eu não sei... mas é um risco que vamos ter que correr. Não podemos deixar que um louco continue incitando o cavaleiro contra inocentes.
- OK. Dean e eu iremos até lá tentar avisá-lo e ajudá-lo. Você fica aqui e faz o que for preciso.
Tomem cuidado, pensou Vic assim que eles deram as costas.
- 0 –
Estavam no porão da residência, o lugar mais provável em que deveria estar escondido as evidências que procuravam do envolvimento de Bill com o cavaleiro.
Depois que Dean e Sam saíram, Vic indagou à Lorna onde ficava o quarto de Bil. A mulher, muito confusa, explicara que ficava no terceiro andar de cima. Ficou mais confusa ainda quando a caçadora subiu sem cerimônias para o aposento.
Lorna ficou indignada com aquela invasão, pediu à Tessa uma explicação e ameaçou chamar a polícia. As três mulheres não tiveram remédio senão revelar toda a verdade.
A princípio, Lorna não quis acreditar em história tão absurda, entretanto, várias coisas que andara observando no comportamento de seu filho nos últimos tempos – e que estranhara – iam se encaixando. Por fim, ela mesma concordou em ajudar nas buscas rezando para que fosse um engano, para que seu filho não tivesse nada a ver com algo tão maligno.
Buscaram no quarto do moço, mas nada. Interrogada por Collins sobre algum outro local em que poderiam estar os diários, Lorna se lembrou do porão, lugar que ninguém da casa entrava, nem mesmo os empregados, pois se dizia que bem debaixo de suas estruturas fora uma antiga masmorra subterrânea improvisada para prender soldados britânicos na época da Guerra entre Estados Unidos e Inglaterra. Só que ela teve a impressão de ver Bill indo naquela direção umas duas vezes.
Vic desceu até o local acompanhada pelas três senhoras. O lugar era imenso e muito escuro. Acenderam um interruptor bem antigo que iluminava parcialmente o lugar.
Chegaram até o meio do porão, onde havia vários pedaços de pedra, como se algo tivesse sido quebrado. Escondido sob aquele pedregulho, havia uma espécie de alçapão de madeira. Era bem pesado, mas Vic conseguiu abrir a portinhola.
- É melhor que eu desça sozinha – sugeriu – Não quero colocá-las em uma situação de risco.
As mulheres concordaram. Victoria desceu um grande lance de escada. A lanterna era tudo o que iluminava seu caminho. Havia um cheiro estranho e fétido por lá também. Collins reconheceu o estranho cheiro. E ficava cada vez mais forte. Por fim, ela avistou o que parecia, de fato, uma masmorra subterrânea. O lugar estava cheio de ratos e teias de aranha. Dava arrepios só de olhar.
Vic prosseguiu em direção ao cheiro e deparou-se com uma grande rocha. Era algum tipo de grande porta e lacrava o que parecia uma entrada. Tentou abrir, mas nada. A rocha tinha uma marca no meio: eram duas serpentes enroscadas, uma mordendo a cauda da outra. Onde ela tinha visto tal símbolo? Veio um estalo. Subiu rapidamente a escadaria:
- Senhora Thompson! Senhora Thompson! – chamou
- Sim? – a mulher respondeu. Ficou surpresa com a volta repentina da moça.
- A senhora tem um medalhão, não é? Com um símbolo de duas serpentes. Pode me emprestar?
Marta estranhou o pedido, todavia, nada respondeu e cedeu-lhe o objeto.
Vic desceu novamente até a grande rocha e colocou o emblema no buraco. Encaixou. Na mesma hora, a porta deu um estalo e abriu-se. Era acionada por um tipo de manivela rudimentar que só se abria com aquele emblema, uma espécie de chave.
O cheiro se acentuou. Dentro da gruta, havia vários crânios e o local parecia dar passagem a um largo túnel. Vic notou um rastro de sangue que se dirigia adentro daquela gruta para algum lugar e que começava num canto daquele local. Ela tinha certeza de que lá estivera o saco com as quinze cabeças que fora encontrado pelos federais. E em outro canto estavam vários cadernos grossos e uma caixa. Uma caixa de madeira com capacidade para conter uma cabeça.
- 0 –
- Alô! – Sam atendeu – Vic? Encontrou os diários de Alan? Sei.
Dean olhou intrigado para o irmão.
- OK. A gente está quase chegando lá - desligou
- E então? – perguntou o loiro ansioso – A cabeça e os diários do Alan estavam mesmo na mansão com o Wiliam?
- Os diários sim, mas a cabeça... não.
- Mas que merda! – esbravejou - E onde está?
- Deve estar com o Bill.
- 0 –
A noite estava escura e não havia quase nenhuma nuvem no céu. Bill e Kath caminhavam em silêncio. Ela não se sentia totalmente à vontade para desabafar suas angústias para seu ex-noivo. Encostaram-se numa das paredes de madeira que circundavam o estábulo.
- Desde que papai morreu nunca mais vim aqui – confidenciou Kath
- E como você se sente... agora?
- Acho que... estou começando a superar.
- Está, Kath. Está. Assim como você também vai superar essa história do Brian.
O rosto da moça se crispou de dor.
- Kath, me desculpa, eu não devia...
- Por que ele fez isso, Bill? – externou toda sua angústia sem se importar de se expôr para Bill – Por que ele tinha que ser o assassino de todos esses crimes? Por que ele matou o meu pai... o meu irmão?
- Sei lá – deu de ombros cinicamente – Talvez... vingança. Pelo seu pai ter interferido no namoro de vocês e do seu irmão ter humilhado ele várias vezes.
- Mas isso não justifica... Ele deveria saber que isso ia me machucar, ia me ferir. Se ele me amasse de verdade, ele... – fez uma pausa. Engoliu em seco. – A verdade é que ele nunca me amou, é isso. Ele deve ter fingido me amar esse tempo todo.
- Pode ser até que ele estivesse querendo se casar com você só pelo seu dinheiro. Não se esqueça de que ele e a família são todos uns arruinados que só vivem da renda daquele hotel. Mas acho que não é suficiente pra as ambições dele.
- É. Acho que sim.
- Vem cá, Kath.
Bill se aproveitou da fragilidade da moça e abraçou-a. Aspirou o perfume delicado de sua pele e o dos cabelos. Kath sentiu o abraço apertado de Bill comprimi-la contra o peito, mas não se importou. Estava muito confusa e carente. Tanto que não percebeu a manobra do rapaz quando este abaixou o rosto pra beijá-la. Era o primeiro beijo que trocavam. No começo, ela até correspondeu, contudo, lembrou-se de que não era Brian que estava beijando.
- Não posso , Bill. Me desculpe – ela se afastou dele
- Tudo bem, Kath. Não se preocupe – ele tentou tocá-la, mas ela o repeliu.
- É melhor você ir embora. Eu quero entrar, eu preciso dormir.
- Kath, olha...
- Ei, cara! Fique longe dela! – o grito de advertência de Dean se fez ouvir pelos jovens
- Vocês! – Bill fez uma expressão de indignação ao ver os Winchesters se aproximando – O que vocês fazem aqui a essa hora?
- Bill, que modos são esses? – censurou Kath – Eles são os produtores do filme. São boa gente – virou-se com simpatia para eles - Me desculpem, posso ajudá-los em alguma coisa?
- Pode. É melhor você ficar longe desse sujeito e entrar pra dentro! – tornou Dean
- O quê?
- Er... desculpe, senhorita – interveio Sam - É que precisamos falar com o William. É um assunto de máxima urgência. E não seria bom que a senhorita estivesse presente.
- Que assunto vocês teriam comigo? – indagou o moço indignado. Estava com um mau pressentimento – Seja o que for, podem falar na frente da Kath.
Os caçadores se entreolharam.
- OK, chapa. Não diga que não avisamos – falou Dean com ar de superioridade – Onde está a cabeça?
- O quê?
- É isso mesmo. Onde está a cabeça?
- Do que... eles estão falando? – perguntou Kath confusa.
- Eu... não faço a menor ideia – Bill ficou nervoso
- Ah, faz sim, cara. E muito. Sabemos de tudo: dos diários do Alan, da cabeça dele, do feitiço, de tudo.
- Alan? Estão falando... de Alan Schmidt?
- Não dê ideia a eles, Kath. Esses sujeitos estão pirados. Saiam dessa casa agora ou vou chamar a polícia.
- Opa, opa! Que eu saiba essa casa não é sua, é da mocinha aí. E a mãe dela falou no celular com o segurança pra nos deixar passar e vir aqui até falar com você.
- Eu não sei do que vocês estão falando e não tenho nada a lhes dizer.
- Olha aqui, seu idiota... – Dean bufou e começou a perder a paciência
- Bill, você tem que nos entregar a cabeça. Temos que destruí-la caso contrário você será a próxima vítima do cavaleiro. Você... o invocou hoje ou não?
Sam teve sua resposta ao ver a expressão de pavor no rosto do moço.
- O cavaleiro... Mas... como assim? – Kath estava cada vez mais confusa – O Brian... ele estava se passando pelo cavaleiro... pra matar meus parentes. Ele...
- Foi armação do seu... pretendente – Dean apontou Bill - O cavaleiro existe sim e é ninguém menos do que o fantasma do Alan Schmidt. Só que estava sendo controlado por um feitiço... um feitiço realizado por ele.
Kath estava boquiaberta. Nada daquilo fazia sentido. É verdade que começara a acreditar na lenda após aqueles assassinatos, porém, com a prisão de seu namorado, ela já tinha se convencido que tudo não passava de um embuste. E agora aqueles homens iam até ali dizer que tudo era verdade... e que Brian era inocente?
- Kath, não escute esses sujeitos - Bill recobrou sua calma - Eles são loucos, estão atrás de alguma sensação pro filme deles e devem ter inventado isso pra nos usar de cobaias.
- OK, Sam. A gente tentou. Deixe esse imbecil ser morto pelo cavaleiro – praguejou Dean
Sam suspirou e ia repreender o irmão:
- Dean... – um denso nevoeiro interrompeu o que ia proferir
- Ah, não me diga que é o que estou pensando que é – falou o loiro com expressão em alerta e voz monótona.
- Não. Ele não pode... ele é controlado por mim.
Um relincho os assustou. Depois de alguns segundos, puderam vislumbrar naquela neblina a figura do cavaleiro sem cabeça.
- Deus do céu! Ele existe mesmo! – Kath disse num sussurro e colocou a mão na boca.
Súbito, Bill disparou a correr.
- Não! Ele não vai me pegar!
- Espere, William! – Sam correu atrás do rapaz tentando distinguir alguma coisa naquele nevoeiro.
E logo o cavaleiro disparou a montaria passando perto de Dean e de Kath. O loiro se postou na frente da jovem como que para protegê-la. O fantasma nem se importou com eles indo na mesma direção que Bill.
- Merda! – praguejou Dean. Voltou-se para Kath – Escute, volte para a mansão e fique lá. Não se preocupe que o cavaleiro não irá atrás de você.
Como a moça permanecesse parada, ele teve que gritar.
- Vai!
Ela correu como nunca fez na vida.
Bill estava desesperado. Não era possível que depois de todo o seu plano bem arquitetado, bem planejado, ele fosse acabar daquele jeito. De repente, o cavaleiro apareceu em sua frente pronto a desferir o golpe, mas foi detido por um disparo de sal do revólver de Sam e desapareceu.
Bill ficou parado, mal acreditando que estava a salvo. Sam chegou perto dele.
- Você está bem? – perguntou
O jovem assentiu ainda abalado. Dean conseguiu localizá-los. Estava com uma espécie de sinalizador que se assemelhava a um fogo de artifício.
- Ele... ele se foi? – indagou o moço
- Por enquanto – respondeu Sam – Vamos, nos dê a cabeça dele.
- Eu... eu não posso.
- Cara, você é retardado ou o quê? – Dean impaciente pegou o rapaz pela gola e o sacudiu – Como assim não pode?
- Não está comigo... não está comigo!
- Espera aí, Dean! – Sam se meteu no meio deles e fez com que o irmão soltasse Bill – Não está com você... Então onde está?
- Eu... joguei no rio.
- Queeê?! – berrou Dean – Mas que otário! Por que fez isso, cara?
Bill ia abrir a boca para se explicar, contudo, o cavaleiro tornou a aparecer e quase desfere um golpe no rapaz. Por sorte, os Winchesters sentiram sua presença e caíram no chão derrubando o rapaz.
- Rápido, Sam! Leve ele pro carro! – gritou o loiro enquanto pegava o revólver e atirava no fantasma. O espírito desapareceu mais uma vez.
Dean aproveitou e entrou correndo no Impala no banco do volante. Sam já estava no banco de passageiro e Bill atrás. O Winchester deu partida no carro e acelerou direto pra saída.
- Tome – pegou uma espingarda de cano duplo perto do chão do pedal e entregou-a para o irmão – A espingarda tem um alcance maior. Eu dirijo e você atira.
- Pra onde estamos indo? – perguntou Bill com uma nota aguda de pânico na voz.
- Pro rio. Temos que pegar a cabeça do fantasma e queimar. É o único jeito de mandá-lo embora de uma vez por todas – contestou Dean
- Você sabe mais ou menos onde atirou a cabeça no rio? – indagou Sam
- Sei, foi... – o barulho do machado na traseira do carro fez Bill se calar. Era o cavaleiro outra vez.
- Filho da mãe! – gritou Dean – Na minha querida não! Manda chumbo, Sam!
Foi o que o Winchester fez. Pôs metade do corpo para fora da janela do veículo e atirou. Por mais um tempo ficaram livres do cavaleiro.
- Vamos, cara! Onde foi que você jogou a cabeça? – tornou Dean com impaciência.
- Foi mais ou menos perto da ponte.
- Reze pra que a correnteza não a tenha levado embora ou você está ferrado! – tornou Dean sem a menor cerimônia, o que fez o moço tremer – Aliás, pra quê você foi jogar a cabeça fora?
- Porque eu não ia mais precisar dela... já que o Brian está preso – falou num tom frio e sem um pingo de remorso.
Dean ficou calado assim como Sam, porém, se não estivesse dirigindo era bem capaz de meter o soco no rosto do Schmidt tamanha a frieza dos atos dele.
O caminho até o Rio Pocantico era consideravelmente longo e, por diversas vezes, o fantasma apareceu dando golpes no carro e ameaçando rompê-lo para tentar golpear William. Felizmente, Sam estava conseguindo dominar a situação com os disparos de sal grosso.
Em dado momento, o celular de Dean tocou. Era Victoria querendo saber onde estavam para se juntar a eles.
- Estamos indo ao Rio Pocantico. Bill jogou a cabeça do Alan lá perto da ponte e vamos tentar... – outro golpe do cavaleiro no teto interrompeu a conversa. O loiro se abaixou – Droga! Nada... nada, é só o cavaleiro atrás da gente, doido pra matar o Bill. Não se preocupe, Sam o está parando de vez em quando com sal grosso. A gente se encontra lá.
Desligou. Avistaram a ponte. Pararam. Queriam sair do carro, mas Bill se recusava a colocar o pé para fora.
- Vamos! Nós temos que ir – insistia Sam – Você tem que nos ajudar a procurar a cabeça.
- Não! Ele pode parecer... e me matar! – dizia trêmulo
- Pensasse nisso antes de mexer com coisas que não eram da sua conta, otário! – vociferou Dean – Anda logo! Você não pode ficar aí pra sempre.
- Mas...
- Saia daí! – Dean perdeu a paciência e puxou o rapaz com brusquidão quase o derrubando no chão. Segurou-o pela gola e apontou o dedo no rosto dele – Antes você do que meu carro.
O nevoeiro apareceu e começou a circundá-los.
- Vamos nessa! – gritou Sam e acendeu um dos sinalizadores para se guiarem pelo caminho.
O barulho dos cascos do cavalo indicavam a aproximação da entidade. Sam tentou atirar nele, contudo, o fantasma acertou a espingarda com um golpe do machado e partiu-a ao meio. Ele ia para o lado de Dean que estava com Bill e ergueu o machado disposto a rachar o Winchester no meio se preciso fosse só para acertar Bill. Felizmente, o loiro pegou seu revólver com sal a tempo e atirou.
- Estão bem? – indagou Sam ao se aproximar deles.
Dean assentiu.
- Vamos, Bill, nos mostre o local – tornou
O nevoeiro se dissipou e eles aproveitaram para descer um morro que os levava até a ponte guiados por Bill.
- Cadê ela? Onde você jogou mais ou menos? – indagou Dean.
- Foi... por ali – indicou um ponto próximo das vigas de sustentação da ponte.
Correram para lá e mais uma vez foram interceptados por Alan. Disparam os revólveres e ele sumiu.
- Rápido! Temos que chegar logo lá! – gritou Sam – A minha munição acabou com esse último ataque.
- Porcaria! A minha também! – esbravejou Dean
- Mas o quê...? – Bill entrou em pânico
- Anda logo, moleza! – Dean o instigou
Felizmente, conseguiram chegar debaixo da ponte. Bill tentou localizar onde estava o crânio enquanto Sam iluminava o caminho.
- Essa não... – Dean os alertou – É melhor se apressarem.
Os dois pararam e olharam na mesma direção que o Winchester. O espírito estava parado a uns cem metros deles. Bill quis correr, mas Sam o segurou.
- Espere... Não saia de perto da ponte.
- Co... como? – perguntou o rapaz tremendo
- Por quê, Sam? – Dean também estranhou.
- Vejam.
- O quê?
- Ele não consegue se aproximar.
De fato, o cavaleiro os olhava a distância impedido por algum tipo de força, como se houvesse uma barreira que não o deixava transpor a distância entre eles.
- E por quê ele não pode chegar até aqui? – inquiriu Dean
- Pelo que eu li nas pesquisas sobre a lenda... logo ali depois da ponte, fica a Igreja da Vila, o que o impede de chegar mais adiante. Essa ponte foi construída na mesma época que a Igreja e benzida pelos padres – voltou-se pra Bill – Fique aqui que ele não poderá chegar até você. Só me diga exatamente onde você jogou o crânio.
- Perto daquelas pedras. – apontou um entulho das pedras do outro lado da ponte, na direção contrária em que estava o cavaleiro, a uns duzentos metros.
- Eu vou até lá.
- Sam... – advertiu Dean
- Não se preocupe, não é a mim que ele quer. Não vai... me ferir.
- Espero que tenha razão.
Entretanto, por precaução, Sam arrancou uma pequena viga de ferro da ponte que estava frouxa, caso o cavaleiro resolvesse ir até ele e o pegasse no lugar do Schmidt.
Foi até as pedras e usou a luz da lanterna para tentar achar o crânio, mas havia muitas pedras brancas que o confundiam, pois lembravam vagamente uma caveira.
- Conseguiu achar? – gritou Dean depois de algum tempo de busca
- Ainda não – gritou Sam em resposta
- Ele sumiu – Bill chamou a atenção dos Winchesters.
De fato, o cavaleiro não estava mais no último ponto em que o avistaram.
- Droga? Pra onde o filho da mãe foi? – esbravejou Dean – Sam, saia logo daí!
- Só um momentinho! Acho que... acho que encontrei – disse enquanto andava com cuidado entre uma pedras. Viu a caveira de Alan incrustada numa pedra prestes a ser arrastada pela correnteza. – Achei! Eu vou pegar!
Súbito, o fantasma apareceu com o machado erguido para degolar o Winchester. Ia levá-lo no lugar de Bill.
- Sam! – Dean gritou desesperado
Bem na hora, Vic apareceu do alto do morro e atirou sal grosso com sua espingarda. O espírito desapareceu. Com o susto, Sam quase caiu no rio, porém, equilibrou-se a tempo. O pedaço de ferro que levara não teve a mesma sorte.
- Sam! Sam! – gritou Vic preocupada – Você está bem?
O Winchester fez sinal com o braço. Dean respirou aliviado. Teve vontade de correr até a caçadora e agarrá-la de beijos. Bom, na verdade tinha essa vontade a toda hora.
- Cuidado, Victória! – gritou ele - Vá para perto da ponte antes que ele apareça.
Assim a caçadora o fez.
Quanto a Sam, por fim, conseguiu pegar o crânio e correu até debaixo da ponte.
- Rápido, o isqueiro e o sal – disse
- OK! – Dean tateou os bolsos – Mas que porra! Devo ter deixado no porta-luvas do carro. O seu não está aí não?
- Está, mas... não tenho sal.
- Nem eu. Temos que ir até o carro.
- Tudo bem aí? – Vic gritou de cima da ponte
- Tudo. Só um momento. – respondeu Sam – Eu vou, mas você fica aí tomando conta dele... pra que não fuja – avisou.
Bill não gostou nem um pouco daquela recomendação, mas nada disse.
-OK. Só se ele for louco de querer sair daqui. Victoria, pode dar cobertura ao Sam? – gritou
- Por quê? Vocês não queimaram o crânio ainda?
- Não... não temos o que é preciso aqui – detestava admitir sua falha, ainda mas conhecendo o gênio da Indomável - Pode ou não dar cobertura a ele até o carro?
- Esperem aí! Eu já vou descer.
Ficaram aguardando temerosos. E nada do fantasma aparecer. Com certeza, estava tramando algo para pegá-los de tocaia. Depois de um bom tempo, Vic pareceu no campo de visão deles empunhando uma espingarda. Aproximava-se destemida quando o espírito de Alan se postou em seu caminho a fazendo cair e largar a arma.
- Victoria! – os dois gritaram desesperados saindo da ponte e correndo até ela.
O fantasma acertou o machado na altura da cabeça de Vic, entretanto, ela se desviou e rolou de lado, e o golpe pegou no chão. Rapidamente, ela pegou o fuzil e disparou sal no fantasma que sumiu. Estava um pouco atordoada e ralara um pouco os joelhos, mas estava bem.
- Victoria! – Sam foi o primeiro a se aproximar e ajudou-a a se levantar com uma das mãos– Você está bem?
- Estou.
Dean se aproximou também bastante preocupado.
- Você não se machucou? – quis se aproximar
- Não. Estou bem, obrigada – disse com rispidez e fez um gesto para que o Winchester se mantivesse à distância - Me deixem adivinhar: vocês se esqueceram de trazer sal e isqueiro para queimar o crânio. Estou certa?
- Er...não é bem assim... – começou Dean coçando a cabeça
- Eu trouxe o isqueiro, mas sal, a gente... – Sam também tentou se explicar
- OK, já entendi. Vamos! Rápido, o crânio!
Sam o colocou no chão. Victoria jogou sal e acendeu seu isqueiro. Em pouco tempo, a última parte dos restos mortais de Alan era consumida pelas chamas.
- Eu nunca saio de casa ou do meu carro sem sal e isqueiro – disse pra eles – Achei que fossem mais prevenidos.
Os dois nada disseram envergonhados. Sentiram como se fossem dois aprendizes e não caçadores experientes, diante do tom repressivo de Collins.
- É, acho que... com isso é o fim – comentou Dean depois que as chams se apagaram.
O fantasma não retornou após uma espera de dez minutos.
- Pode sair, Bill! Acabou! – gritou Sam
- O fantasma... se foi? – gritou em resposta.
- Eles sempre se vão depois que queimamos os ossos – avisou Dean - E faz um bom tempo que ele não reapareceu.
Ao invés do moço se aproximar dos caçadores, correu na direção contrária subindo o morro.
- Ele está fugindo – Vic correu atrás dele
- Ei! Volte aqui! – chamou Dean.
Contudo, o moço não obedeceu. Subiu correndo o morro. Ia fugir. Apesar de duvidar que o FBI fosse dar crédito àquela história do fantasma, não ia ficar ali e pagar para ver. Avistou o carro dos Winchesters. Era provável que a chave não estivesse no veículo, mas sabia juntar os fios e dar a partida. Fazia isso quando pequeno e não tinha carteira de habilitação. Dirigia escondido dos pais.
Antes que desse mais um passo até o veículo, Tessa surgiu na sua frente com uma arma apontada para ele.
O moço parou surpreso.
- Senhora... Tassel.
- Fique parado aí mesmo, seu desgraçado!
- Senhora Tassel, eu não sei o que andaram dizendo pra senhora, mas...
- Cale a boca, seu cretino! – a mulher deu um disparo no chão como sinal de advertência. O rapaz se assustou e levantou os braços – Seu assassino! Monstro! Você... você matou meu filho, o Jim! Ele era seu amigo. Como pôde?
Nesse momento, os três caçadores chegaram próximos à cena que se desenrolava.
- Senhora Tassel? O que faz aqui? – estranhou Vic, afinal, tinha deixado Tessa na casa dos Schmidt.
- Eu pedi pro meu motorista me buscar e me trazer até aqui. – respondeu sem tirar os olhos de Bill e nem abaixar a arma – Vim aqui pra acabar com esse maldito assassino!
- Senhora Tassel, por favor. Abaixe essa arma – disse Sam com cautela – Nós já demos um jeito no cavaleiro. Ninguém mais vai morrer.
- Ninguém se aproxime! – gritou a mulher – Eu quero que esse maldito conte exatamente como fez tudo isso. E como conjurou a alma de Alan Schmidt.
- Senhora Tessa... – Bill tentou argumentar
- Anda, maldito, fale!
- Tá, tá... – disse apavorado – Está bem. Eu confesso tudo. Vou contar como aconteceu.
- 0 –
Bill estava na casa dos Tassel como de costume para visitar sua prometida. Passeava na propriedade da família ao lado de Kath e insistira para que fossem ao cinema naquele dia. Eram quase seis horas da tarde. A moça aceitou, mas pediu que ele o aguardasse porque pretendia se arrumar.
Todavia, como Kath demorasse, resolveu subir até o quarto dela... e espiá-la. Subiu sem que ninguém o notasse. Pelo que ele sabia, Tessa se encontrava em seu quarto. Não havia ninguém no corredor e ele abriu lentamente uma fresta da porta do quarto de Kath para vê-la se trocando. Contudo, não pôde satisfazer seu intento, pois ouviu a porta do quarto da senhora Tassel se destrancar.
Rapidamente, escondeu-se na biblioteca da casa. Por sorte, a porta estava destrancada. Ouviu atrás desta os passos da mulher passando pelo corredor. Aguardou mais alguns instantes antes de sair. Abriu a porta e estava a ponto de se esgueirar dali quando ouviu a campainha tocar. Esperou. Percebeu que Tessa regressava e voltou a se esconder na biblioteca.
Ouviu os passos dela se deterem em frente à porta do local. Bill entrou em pânico e ocultou-se na lateral de uma das estantes, só que não escondia seu corpo por inteiro. A porta se abriu e Tessa entrou. Já imaginava a vergonha que ia passar por aquela invasão, entretanto, a senhora nem percebeu a presença dele tal o estado de inquietação em que se encontrava.
Ela fechou a porta e seus passos se afastaram. Bill soltou um suspiro de alívio; não acreditava em sua sorte. Saiu do esconderijo e olhou para a mesa em que pelo canto do olho notou que Tessa deixara alguma coisa. Pareciam cadernos. O moço se aproximou e viu que eram bem antigos com uma capa dura, uns onze volumes grossos.
Por curiosidade, abriu um. Eram diários. No final de cada anotação constava a assinatura da pessoa que o escrevera: Alan Schmidt. Bill ficou eufórico! Não podia acreditar! Eram os registros de Alan Schmidt, os quais ele sempre quis ter acesso no Arquivo Público, só que eram restritos. Não sabia por qual motivo estavam nas mãos da senhora Tassel, mas sabia que tinha que dar um jeito de levá-los consigo.
Não ouvira Kath sair do quarto. Esperava que ela estivesse se trocando. O único problema era passar por Tessa, ela devia estar na sala. Então teria que fazer uma manobra louca.
Aproximou-se da janela da biblioteca. Não era muito alto, dava para pular pelo menos para alguém como ele com porte atlético. Jogou os diários no chão que dava para os fundos da casa. Rezava para que ninguém viesse ali e nem o visse. Cruzou o peitoral da janela. Suspirou e pendurou-se. Soltou as mãos do peitoral e pulou. O impacto de seus pés no solo não foi muito forte, embora tenha sentido certa dor nos pés. Logo recolheu os exemplares caídos; algumas folhas haviam se soltado, mas ele as pegou todas.
Correu até seu carro, destrancou o porta-malas e colocou os diários dentro. Poucos instantes depois, Katharina vinha ao seu encontro e foram juntos ao cinema.
Depois, chegou em casa e trancou-se em seu quarto com os diários cuidadosamente guardados em uma mochila que estava no banco traseiro do carro. Leu cada diário, cada anotação, cada feitiço inscrito durante uns três dias, quase sem sair do aposento. Lá estava muitas oportunidades que tinha para destruir aquele que considerava seu maior inimigo: Brian Thompson. Mesmo que Katharina fosse sua prometida, sabia que ela amava o maldito gerente.
Podia usar um daqueles feitiços para matá-lo e ninguém suspeitaria dele. Contudo, não estava satisfeito. Do que adiantaria a morte de seu rival se Kath continuaria o amando? Não, aquilo só reforçaria o sentimento da moça, como um amor ideal tal como nos romances.
Ele tinha que ir além, tinha que destruir a imagem que Katharina possuía do gerente. Decidiu repetir a mesma história de mais de duzentos anos atrás: fazer com que Brian se transformasse em assassino aos olhos de todos, inclusive de Kath.
Além do mais, estaria se livrando de alguns obstáculos para sua ambição de poder e dinheiro: Richard Van Tassel, o que detinha o controle do poder e do dinheiro em North Tarrytown até mais do que Rudolf Schmidt; e seu herdeiro, James. Só assim, ele poderia reconquistar a posição que dantes fora dos Schmidt naquela Vila até umas décadas atrás. E também eliminaria alguns parentes que desgostava, primos e tios que feriram seu orgulho de alguma forma.
Estava decidido: ressuscitaria o fantasma de Alan Schmidt, o cavaleiro sem cabeça. Entretanto, para invocá-lo, precisava de sua cabeça. Onde poderia estar? No túmulo do cemitério da cidade sabia que não.
Talvez devesse experimentar um daqueles feitiços e invocar algum espírito que lhe fornecesse a informação. Dito e feito. Numa noite, pronunciou algumas das palavras de um feitiço. Seu quarto tremeu, as luzes começaram a piscar e logo apareceu uma alma do outro mundo, um espírito errante da Vila, que lhe deu todas as indicações.
A cabeça de Alan estava encerrada numa masmorra subterrânea do porão, lugar considerado amaldiçoado e proibido de entrar desde a época da morte de seu tataravô Charlie. Bill sempre teve vontade de descer mais adiante no porão, mas seu pai não permitia, não que acreditasse em alguma maldição; era mais por respeito à tradição familiar. E depois o lugar devia estar infestado de ratos, aranhas e outros bichos nojentos.
De qualquer jeito, Bill tinha que usar um medalhão com o símbolo de duas cobras – uma mordendo o rabo da outra – para abrir uma grande rocha que fechava o local que guardava a cabeça. O medalhão estava no pescoço de um irmão de Charlie e Alan: George Schmidt.
Após essas informações, o espírito se foi. Bill agiu exatamente conforme as instruções no dia seguinte. Não teve dificuldade em ter acesso à tumba desse ancestral indireto. Com posse do amuleto, foi até o porão e viu uma pedra bem grande que cobria um buraco que levava até as masmorras. Quebrou-a com uma picareta e depois de um bom tempo, viu o alçapão de madeira, desceu as masmorras, viu a grande rocha que fechava a entrada, usou o medalhão para abri-la e, automaticamente, ela se abriu.
Havia um túnel largo e vários crânios espalhados. Provavelmente as antigas vítimas do cavaleiro. Bill entrou e não demorou em encontrar num canto uma caixa de madeira – dentro dela estava o crânio de Alan. Satisfeito com seu achado, William podia realizar o seu plano, entretanto, tinha que pensar numa forma de incriminar Bill pelos crimes que pretendia realizar.
E já sabia como. Lembrou-se de que uma vez na discoteca da Vila, vira o irmão do gerente, Mark Thompson. Pensou em se aproximar e provocá-lo, todavia, escutara uma conversa do rapaz com um amigo e desabafava com este que odiava o próprio irmão e faria qualquer coisa para destruí-lo. Até matar se fosse preciso. Bill achou aquilo estranho e desistiu de provocar o rapaz, porém, achou que aquela informação poderia lhe ser útil algum dia.
E agora sabia o que fazer. Na primeira oportunidade que teve, foi falar com o rapaz quando este fora a um supermercado e convidou-o para um café. Confessou que ouvira sua conversa na discoteca e que tinham uma coisa em comum: odiavam Brian. E propôs que se juntassem para acabar com a reputação do moço e contou-lhe seu plano. Mark não hesitou nem por um instante. E lhe contou a rotina do irmão, que este costumava dormir lá pelas dez horas da noite. Também lhe revelou sobre a passagem secreta que havia no hotel e até se dispôs a mostrá-la.
Após esses pormenores, Bill finalmente, iniciou o feitiço de invocação ao cavaleiro. Claro que não o fez em seu quarto. Decidiu que a masmorra seria o lugar perfeito para concretizar seu intento; e também esconderia os diários lá; não seria conveniente que a empregada encontrasse aqueles cadernos em seu quarto, por mais que ele tivesse o cuidado de escondê-los. Ali seria o esconderijo deles.
Para o ritual de invocação, só tinha que derramar gotas de seu sangue sobre o crânio de Alan, erguê-lo e dizer algumas palavras de invocação três vezes.
O feitiço foi realizado, entretanto, não viu sinal do cavaleiro. A princípio, achou que não tinha dado certo, todavia, quando deu meia-volta, tomou um susto ao ver um cavalo negro a apenas um metro dele e montado no animal, um corpo vestido com um sobretudo da época do século XIX. Sem a cabeça.
Ficou amedrontado e, a o mesmo tempo, eufórico. O cavaleiro estava com seu machado de aço como se aguardasse alguma ordem. Bill leu as instruções e viu que só precisava erguer o crânio e proferir o nome da pessoa que queria morta. Eram mais ou menos onze horas da noite. Ele sabia que sempre naquele horário, deveria invocar o cavaleiro para que continuasse sua matança.
Bill o fez. Proferiu o nome de sua primeira vítima: Erik Schmidt, um tio, irmão de seu pai. Bill o detestava, pois sabia que era um falso e que adulava seu pai só para ter uma parte da herança quando este morresse.
A partir dali, começou a série de assassinatos. O cavaleiro só atacava a noite – hora preferida dos entes malignos e sobrenaturais - num horário definido pelo moço em sua invocação. Este já aparecia no local que mataria a pessoa indicada por Bill e, após sua ação, logo estava ali no túnel com a cabeça da vítima. Em seguida, sumia novamente e só reaparecia ao ser invocado outra vez e depois para o ataque. Desse modo, não havia o risco do fantasma ser visto na propriedade dos Schmidt. Mesmo assim, Bill tinha que invocá-lo sempre na mesma hora: onze horas, mas podia fazê-lo de qualquer lugar; bastava só levar a caveira, tocá-la e pronunciar o nome da vítima e a hora de seu ataque.
O sangue do corpo das vítimas era drenado pelo fantasma, como se fosse uma espécie de alimento, algo que o ligava ao mundo dos vivos. O único sangue que restava era o das cabeças as quais levava para o túnel da masmorra.
Após o assassinato de Mark, Bill achou que já era o suficiente para incriminar Brian. Por isso, lá pelas dez horas da manhã – horas depois da morte do ruivo – desceu às masmorras e localizou a cabeça do Thompson deixada pelo fantasma no túnel. O Schmidt a pegou, colocou-a num saco com as outras quatorze cabeças que juntara e caminhou até o final daquele túnel. Dava numa das bifurcações do esgoto da Vila, que ficava abaixo do cemitério, a poucos metros de distância onde devia estar a entrada do labirinto escondido na casa dos Thompson.
Bill saiu pela tampa do esgoto com o saco. Era bem pesado, mas graças ao seu físico conseguiu tirá-lo de lá. Ao sair pelo cemitério, avistou se havia alguém a vista, talvez um dos coveiros, mas não tinha ninguém. Carregou o saco até a grade que ficava perto do túmulo do ancestral Thompson e por ela desceu até o labirinto. Após um tempo de caminhada, não teve dificuldade em achar a saída localizada perto da porta lacrada do quarto de Brian – lá já estavam os galões de gasolina deixados anteriormente pelo próprio Mark, pouco antes de ser morto. E foi lá que também deixou o saco.
Saiu do lugar e só teve que dar a falsa chamada na delegacia para incriminar Brian.
E depois que o Thompson foi preso, decidiu jogar o crânio nas águas do Rio Pocantico. Levava aquela cabeça com ele a todo lugar dentro de sua mochila. Mas sempre sentia uma vibração ruim, uma sensação de morte e de dor com aquela coisa. Por isso, resolveu se livrar logo daquilo assim que passou perto da ponte, pois achava que não mais precisaria da caveira. Quanto aos diários, deixá-los-ia lá mesmo no túnel das masmorras. Não pretendia mais retornar aquele lugar.
- 0 –
Bill contara cada passo de seu plano. Ele falava como se tivesse feito uma grande proeza; os olhos até brilhavam ao se lembrar de cada detalhe de sua trama. Tanto os caçadores quanto Tessa estavam abismados com tamanha frieza e maldade do rapaz que não medira esforços em tirar vidas apenas para a satisfação de seu orgulho e ambição.
- Maldito! Como... como pôde ter coragem? – esbravejou Tessa sem conter as lágrimas. De dor. E de ódio.
- Então aquela vez em que o cavaleiro apareceu para você e para o seu primo na discoteca, sempre foi o Harry a vítima? – indagou Collins
- É claro... eu já tinha notado que a senhora Tassel estava meio desconfiada de mim porque me olhava de uma forma estranha, se bem que... ela nunca tinha gostado mesmo de mim – estreitou os olhos ao dizer isso - Eu precisava desviar as suspeitas dela de alguma forma. E depois, foi a oportunidade que eu vi de começar a jogar as suspeitas em cima do Brian. Imagina! Ele tinha discutido comigo naquele dia e até desejado que o cavaleiro me pegasse.
- E foi capaz de usar seu primo pra isso?
- Ele era um chato e puxa-saco mesmo. Não me fez a menor falta.
Os três permaneceram calados. Estavam enojados com aquele rapaz.
- E o Mark? Seu cúmplice? Por que o matou? – indagou Sam.
- Outro imbecil que não servia pra mais nada. Só sabia falar o quanto se sentia preterido por causa do irmão, o quanto a mãe só sabia elogiar Brian, o quanto Brian sempre foi considerado o melhor pelos colegas da escola e pelas garotas e blá-blá-blá. Era outro chato... e cabeça oca também – fez uma pausa – E depois era um Thompson, tinha que morrer. Ele tinha discutido com o irmão e me telefonou no dia várias vezes querendo conversar. O idiota queria me pressionar pra já incriminar Brian. Não sabe como fiquei contente em saber da discussão que teve na frente de várias pessoas, inclusive vocês – apontou pra os caçadores – Eu só tive que marcar um encontro com ele urgente ontem num lugar deserto e o idiota foi todo confiante. Ah, sim, e só pra constar foi ele que incendiou o estábulo na casa dos Tassel. Ele se fez passar por um dos garçons contratados na festa do noivado com a minha ajuda. Era tão insignificante que ninguém notou a presença dele lá. Não foi difícil pra ele ter acesso à estrebaria e aproveitar um momento de distração dos empregados pra incendiar o local e atrair a atenção do senhor Tassel. Eu não queria que o cavaleiro invadisse a festa e, por algum descuido, machucasse a Kath ou meus pais – alegou como que para atenuar seu ato.
- Já chega, miserável! Já chega de ouvir tanta perversidade! Você vai confessar tudo isso que fez para o xerife e para o FBI!
- Nunca! - desafiou à Tessa – A senhora pode atirar se quiser, mas não vou falar nada. Prefiro morrer a ir preso e deixar o Brian livre pra ficar com a Kath. Se a Kath não pode ser minha, não será de mais ninguém. E depois, na maioria dessas mortes, eu tinha um álibi perfeito. Não tem como me incriminarem com provas tão frágeis. E quem vai acreditar numa história louca dessa de cavaleiro sem cabeça?
- Eu vou. Depois de tudo o que vi e ouvi aqui, eu vou acreditar – pronunciou uma vez alta no meio da escuridão.
Era o agente Davis. Estava escondido entre uns arbustos e ouvira toda a história.
- Agente Davis! – exclamou Collins – O que faz aqui?
- Eu o chamei logo depois que você me deixou na casa de Lorna. Disse que vocês estavam com o verdadeiro assassino das mortes – respondeu Tessa – Eu imaginei que talvez precisassem de toda ajuda possível.
- Vi o cavaleiro perseguindo vocês em seu carro numa estrada que cortava o caminho que dava para o rio - falou com os Winchesters - Infelizmente, meu carro falhou na hora e não pude segui-los. Tive que pedir carona. Eu só cheguei a tempo de ver o cavaleiro quase matar a senhorita Ryan, mas felizmente ela soube se salvar – sorriu para Collins – E vi quando ele desapareceu quando a senhorita atirou nele. Não acreditei no que meus olhos viam. A senhora Tessa chegou e me encontrou aqui e me explicou mais ou menos o que aconteceu. E depois vi vocês queimarem algo e o senhor Bill aqui escapulir de suas vistas. A senhora Tassel me pediu uma arma e falou pra que eu me escondesse, pois pretendia arrancar uma confissão do senhor Schmidt.
- E você teve coragem de entregar a arma para ela? – Vic ficou chocada
- Ela sabe ser convincente – justificou-se com um sorriso nervoso – E depois queria tirar a história a limpo – virou-se para o moço com desprezo – É, meu rapaz, você está encrencado.
- Nunca! – Bill avançou e tomou o revólver de Tessa aproveitando um momento de distração da mulher. Empurrou-a para o lado. Todos ficaram surpresos com a manobra do moço - Todo mundo pra trás ou eu atiro!
- Calma, rapaz! Calma! – Russell tentava controlar a situação – Isso não vai te levar a nada.
- Cale a boca! – balançava o revólver para todos os lados disposto a atirar no primeiro que desse um passo em falso. Apontou a arma para Dean – Me dá a chave do seu carro!
- O... o quê? – o loiro piscou várias vezes pensando ter escutado mal.
- Agora!
- Anda, Dean! Entrega as chaves para ele! – ordenou Sam
O loiro não podia acreditar. Não podia conceber que aquele louco quisesse roubar "sua querida".
De repente, antes que Dean pudesse fazer qualquer movimento, eis que o chão se abre debaixo de Bill e surge o cavaleiro montado no corcel que ergue o moço no alto pela cabeça com uma das mãos. O cavaleiro e sua montaria estavam em brasa, a ponto de explodir, mas levariam definitivamente com eles a sua última vítima.
- Nãaaaaoo! Me ajudeeeeem! – gritou o rapaz com desespero e dor pela maneira como era segurado.
Não deu tempo para nenhuma ação dos caçadores. O fantasma de um só golpe degolou William e o corpo deste caiu no chão. O fantasma se desmanchou junto com o cavalo e a cabeça de seu invocador.
Era o fim definitivo de Alan Schmidt. E também o de William Schmidt.
Os caçadores, Tessa e Russell estavam assombrados e boquiabertos com o acontecido.
- Er... não era para ele ter desaparecido de vez assim que queimamos seus restos? – perguntou Dean em voz quase inaudível
- Parece que toda regra tem uma exceção – replicou Sam
- Tem certas coisas que não vou poder colocar em meu relatório – comentou Russell incapaz de acreditar no que acabava de presenciar.
- 0 –
Brian estava livre e inocente da acusação contra ele. Mal cabia em si de felicidade.
- Obrigada por tudo, xerife. Por ter tomado conta do meu filho – agradeceu Marta.
- Que isso, Marta. Foi um prazer. Nunca acreditei na culpa do Brian – declarou Cunningham
Mãe e filho estavam saindo abraçados da delegacia.
- Brian... – uma voz sussurrada chamou o moço.
Era Kath. Estava a alguns metros de frente para a porta junto com sua mãe. A expressão de seu rosto era de remorso e tristeza por ter duvidado do namorado.
Houve uma longa pausa de silêncio. Brian olhou Kath. Havia uma grande mágoa pelas coisas que ela lhe disse e por não ter confiado nele.
Nem Marta e nem Tessa falavam nada. Apenas se encaravam. Aquilo era problema de seus filhos e apoiariam-nos na decisão que tomassem.
- Brian... – Kath disse o nome dele mais uma vez e aproximou-se hesitante – Me... me perdoa.
O jovem olhou para a moça. Era visível o sofrimento dela tanto quanto o dele. Será que permitiria que um mal entendido, um momento de fraqueza dela rompesse uma relação tão linda e sincera como a deles?
A escolha era dele. Se deixasse o orgulho falar mais alto, sabia que se arrependeria pelo resto da vida. E Bill venceria mesmo depois de morto.
Não teve mais dúvidas. Correu até ela e abraçou-a fortemente com muita paixão. Ambos choraram pela dor da separação. E também de felicidade. Nunca mais ninguém os separaria.
De lados opostos, estavam suas mães. E ambas sorriram uma para a outra. Era o fim da rixa entre as famílias.
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O caso foi encerrado pelo FBI. Óbvio que o agente Russell teve que inventar uma história bem plausível para explicar todos os pormenores, corroborada pelos testemunhos de Tessa Van Tassell, Marta Thompson e Lorna Schmidt.
Na versão oficial do relatório de investigação constava que Wiliam Schmidt fora o autor dos assassinatos de North Tarrytown tendo como cúmplice e executor dos crimes, Mark Thompson, que fora assassinado por ele. Bill tinha o álibi de que estava na mansão à hora da morte do Thompson, em seu quarto, entretanto, foi negado por Lorna Schmidt em seu depoimento. Rudolf não estava presente na mansão, por isso, não pôde confirmar ou negar nada.
A morte de Bill fora declarada como acidental. Ele marcara um encontro com Tessa alegando caso de vida ou morte. Ao chegar ao local, a Tassel fora pega de surpresa pelo moço que tentou matá-la com a mesma arma dos outros crimes, no entanto, a mulher conseguiu escapar e, justo nessa hora, Russell aparecera e mandou o jovem se entregar. Ele tentou escapar, mas escorregou junto com o machado e caíra com o pescoço em cima da lâmina que o degolou. Tal era o depoimento de Tessa confirmado pelo agente.
Davis teve que improvisar outro machado de aço como a arma oficial dos crimes, já que o verdadeiro sumiu junto com o fantasma.
Os diários de Alan foram queimados por Collins e os Winchesters com a aquiescência de Tessa. Assim, evitariam problemas futuros. E os caçadores sequer foram mencionados no caso.
- 0 –
- O que mais me surpreendeu nesse caso foi que tanto Charles Schmidt quanto Mark Thompson foram capazes de matar ou trair o próprio irmão – comentou Sam sentado no sofá do quarto.
- Acho que não é uma coisa que devia te surpreender – retrucou Dean um pouco amargo. Ao ver a expressão magoada do irmão, Dean fez uma careta e corrigiu-se – Desculpe. Esqueça o que eu disse.
- Tudo bem. Vou fingir que tive um surto temporário de surdez – Sam deu um sorriso forçado.
- Ótimo. E sabe do que mais? – disse para desviar assunto – Eu acho que o Tim Burton deve ter lido esses diários do Alan. Tem uma ou outra coisa do filme que se assemelham um pouco com esse caso... a maneira pela qual o cavaleiro era invocado, por exemplo.
- Ou o mais provável é que a arquivista deve ter feito um relatório completo do que sabia.
- É... com certeza – o loiro fez uma careta.
- Vamos? – disse Collins ao sair do banheiro.
A bagagem dos três estava pronta para pegarem a estrada.
Desceram até a recepção para fechar a conta.
- Vocês tem que ir mesmo? – indagou Marta
- Temos. Ou muita gente da Vila vai começar a nos cobrar o filme – disse Dean
- Vai ser uma decepção quando virem que não saiu filme algum – concordou a mulher pesarosa – Mas realmente vocês tem que ir? Não sabe como vou sentir a falta de vocês. Fizeram por mim e por meu Brian muito mais do que possam imaginar.
- Precisamos ir. Tem mais gente pra ajudar por aí – respondeu Vic – E como está ele?
- Está melhor... deve estar com a namorada agora. Estão até falando em casamento... quando todas essas tragédias tiveram sido um pouco esquecidas. – a mulher sentiu um aperto no coração ao se lembrar de seu caçula morto.
- E a senhora está bem? Pode lidar com essa versão dos FBI de que seu filho Mark foi um dos responsáveis por esses crimes?
- Eu tinha que escolher entre preservar a imagem do meu filho morto... ou a liberdade do que me resta. Não havia como não fazer tal escolha. E de qualquer jeito não deixa de ser verdade o fato de Mark ter colaborado para esses crimes... mas eu nunca deixarei de amá-lo por isso.
Vic assentiu.
- Tem uma coisa que eu não entendo – continuou a caçadora – Como a senhora tem um medalhão com o mesmo símbolo que o daquela rocha nas masmorras?
- Bem, esse medalhão pertenceu à minha antepassada Elizabeth. Ela era a irmã caçula dos três irmãos Schmidt e fugiu pra se casar com um Thompson. Ela foi renegada pela família. Mas tanto ela como George aprenderam alguma coisa sobre feitiço de proteção com Alan. Eles os ensinou mais por brincadeira. Nunca achou que fossem levar a sério. Ele mesmo não ousava colocar em prática os feitiços mais poderosos que estudava. Só que os dois resolveram pesquisarem mais a fundo esse tipo de feitiço, para protegerem a família. Só Charlie que saiu a ovelha negra da família e fez mau uso dos feitiços que descobriu no diário do irmão para seus propósitos perversos e gananciosos.
- Entendo.
- Então, senhora Thompson ... Quanto ficou a conta total da nossa estadia? – indagou Sam
- Não se preocupem com isso. Já está acertada.
- Ahn? Como assim? – inquiriu Dean
- Vocês não têm que pagar nada. A conta já foi paga e está fechada.
- É por conta da casa?
- Não – a mulher sorriu – Eu até queria fazer isso. Era o mínimo por tudo que fizeram por mim e meu filho, mas... outra pessoa se adiantou. Um tal de Bobby Singer. Disse que se quiserem maiores explicações, é só falar com ele.
- OK – Dean fez uma cara de estranheza, mas deu um sorriso bem aberto.
Sam também fez uma expressão intrigada, mas nada comentou. Quanto a Collins, seu rosto estava impassível.
Os três levavam suas bagagens até o estacionamento quando um carro se aproximou e parou perto de seus Impalas. Era o agente Russell.
- Que bom que ainda não foram! – disse ele aliviado – Eu precisava me despedir... de vocês.
- Não seja por isso. Tchau! – disse Dean curto e seco.
- Tchau! – respondeu Davis no mesmo tom – Me dão licença pra falar com a senhorita Ryan?
O loiro ia protestar, entretanto, Sam o interrompeu.
-Claro, enquanto isso, nós vamos guardar nossas bagagens – disse Sam um tanto incomodado, mas resolveu dar espaço ao agente, afinal, ele fora eficiente e leal em não colocar a verdadeira natureza daquele caso no relatório oficial do FBI.
- Você também está de partida, agente Davis? – perguntou Vic assim que os Winchesters se afastaram
- Por favor, senhorita Ryan, sem formalidades. Isso já deveria ter acabado entre a gente.
- OK... Russell. Nesse caso, pode me chamar de... Lana.
- Bem, Lana...sim, estou de partida, mas precisava me despedir de você.
Vic nada disse. Apenas sorriu um pouco constrangida.
- Imagino que seu verdadeiro nome não seja Lana, não é? – continuou ele
Ela ia contestar, mas ele a interrompeu.
- E suponho que o seu verdadeiro trabalho seja o de cuidar desse tipo de coisa que enfrentamos aqui. Você... e seus colegas.
- É, sem ficção nenhuma – resolveu admitir
- Vou sentir sua falta – confessou e aproximou-se.
- Davis, olha... – ela ficou mais constrangida e pretendia ser sincera.
- Não se preocupe, Lana, não tem que me dizer nada. Eu sei. Os únicos homens que interessam a você estão ali encostados naquele Impala preto com uma vontade enorme de me esganar por ficar aqui conversando com você – apontou os Winchesters.
- N... não! Que isso? Somos só colegas – ela negou veemente.
- Pode até ser, mas acho que por pouco tempo – ele replicou – Uma hora vai acabar acontecendo alguma coisa entre vocês. Bom, com algum dos dois. Não ouso apostar em quem, se o Peter Paul ou o Sasha. Você parece ter uma ligação muito forte com os dois.
Collins não soube o que dizer.
- Seja qual dos dois que for, vai ser um cara de muita sorte. – pegou na mão da caçadora e beijou-a - Faça uma boa viagem, Lana. Até mais! – afastou-se
- Até mais... Russell – disse – E obrigada por tudo.
Davis se afastou de costas fitando a caçadora intensamente. Depois, virou-se e retomou o caminho até seu carro.
- Tomem bem conta de sua parceira, meus caros. Ela é muito valiosa! Qualquer um adoraria levá-la. – não pôde deixar de provocá-los.
- Há-há-há – foi a resposta de Dean.
Sam não disse nada, todavia, estreitou os olhos para o agente.
- E boa viagem! – gritou após abrir a porta do carro e entrar
- Boa viagem pra você também! – gritou Dean em resposta. E assim que o federal e o veículo se afastaram, acrescentou– E que vá para o quinto dos infernos!
- Que isso, Dean? – Sam o repreendeu levemente – O cara até que se mostrou bem legal no final das contas.
- Mas não deixa de ser irritante da mesma forma. E cá entre a gente, maninho, você desejou a mesma coisa que eu.
- Há... não desejei nada.
- Desejou sim.
- Pé na estrada, pessoal! – disse Vic interrompendo a pequena discussão que começava. Foi até seu carro.
- Ei, Collins! – gritou Dean enquanto a caçadora guardava a bagagem
- Sim?
- E aí? O que achou da atuação da gente nesse caso? – ele não resistiu em perguntar – Comprovou a grande lenda que somos nós, os Winchesters?
Vic se voltou para ele com um sorriso irônico. Sam já imaginava uma resposta que não lhe agradaria escutar.
- Sinceramente... essa lenda deixou a desejar.
- Ahn... O que você quer dizer? – o loiro esticou o pescoço como se não estivesse escutado direito
- Pra começar, você esqueceu seu isqueiro no carro e vocês dois não pegaram o sal para queimar o crânio do Alan, o que atrasou e poderia comprometer o caso.
- Mas...
- E você, Sam Winchester, se descuidou e quase foi morto pelo cavaleiro. A primeira regra de um caçador é: cuide-se.
- Tudo bem, Victoria. Vou me lembrar disso – Sam deu um sorriso amarelo.
- E pra completar, os dois deixaram o Bill escapar. Se não fosse Tessa Van Tassel ou o agente Davis, nós nunca conseguiríamos provar a inocência do Brian Thompson antes do Bill ter sido morto.
Nenhum dos dois replicou.
- Respondida a sua pergunta, Winchester?
- Sim. – o loiro falou. Fez um bico de insatisfação.
- Então vamos. Não podemos perder mais tempo. Ah! Eu vou na frente.
Não esperou resposta. Terminou de colocar sua bagagem no porta-malas, entrou no carro e deu partida. Sam e Dean ainda estavam lá obsevando todos os seus movimentos.
Ela esboçou um sorriso. Estava orgulhosa do desempenho de seus homens, embora dissesse o contrário. Eles eram realmente os grandes e famosos Winchesters.
Eram os seus heróis.
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Pois é. Quem diria? Tentei explicar cada detalhe, mas se deixei alguma ponta solta, ficou algo obscuro ou exagerado, depois me avisem para eu reformular. Me desculpem se o capítulo ficou grande, os próximos serão menores ( vou procurar não passar de dez mil palavras e até fazer menos do que isso).
Gente, o capítulo seguinte vai ser um dos episódios da Temporada na sequência. Como eu lhes avisei no trailer, devo reescrever apenas os capítulos centrais. Aqueles que não têm tanta relevância para a temática principal, vou desconsiderar e substituir por aventuras inéditas criadas por mim (como esse caso). Por isso, não se espantem se eu der "algum pulo", é porque não achei o episódio essencial pra trama.
Comecei a reescrever a partir do episódio "O Fim", conforme vcs leram. Então pela sequência na lógica apresentada, o próximo episódio da série será... Não! Morram de curiosidade e quebrem a cabeça pra adivinhar!
Até a próxima e mandem reviews.
