10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ
Arashi Kaminari

Capítulo 9

Quatre poderia se ocupar com outras coisas. Naquele momento, tudo já estava caminhando mais ou menos nos conformes do plano maluco de Wufei. Não que o árabe se importasse muito, bastava que o plano funcionasse e ele estaria satisfeito. Mas, graças àquela armação, tinha mais tempo ao lado de Mariméia e isso já era o bastante para que ficasse feliz pelo resto da semana.

Quando o sinal do intervalo tocou, já estava esperando-a na porta da sala dela. Queria alguns minutos da sua companhia – não para tentar namorar ou qualquer coisa. Precisava saber de uma coisinha para ter certeza se o plano iria obter total sucesso ou total fracasso.

Levou-a até aonde os rastafáris brancos tinham o hábito de queimar erva: um lugar com um jardinzinho, debaixo de uma das pontes que ligava um prédio ao outro, atrás do enorme campo de educação física. Ali, pelo menos naquele horário, teriam sossego. Sem falar que se arriscava a dizer que ninguém mais seria louco de aparecer naquele lugar, sem saber se os rastafáris estavam por perto. Era incrível como o coordenador sempre os encontrava ali quando se reuniam, apesar de nunca ter conseguido um flagra. Os rastafáris eram sempre mais rápidos e sumiam com toda a erva de alguma forma misteriosa, que ninguém mais além deles mesmos sabia.

– E então? Ouviu falar na festa de David Lane? – Quatre perguntou, puxando o assunto e tentando prever em qual ponto mais a frente poderia tirar sua dúvida.

– Ouvi sim. E queria muito, muito ir. Mas não sei se vou poder, a não ser que meu irmão também vá.

– Eu sei. Estou dando um jeito nisso. – o garoto disse, ficando um pouco desconfortável a fazer a pergunta logo em seguida. Talvez não conseguisse uma deixa tão boa, como a que a garota havia acabado de dar, depois. Não sabia qual seria a reação da menina. Ela poderia detestar o nojento do colégio, mas mesmo assim eles ainda eram irmãos. O loiro só esperava que ela não o matasse por se atrever a fazê-la. – Por acaso ele não é...?

– Fã de homens? Acho que não. – que alívio! Ela não havia se zangado. Podia até dizer que ela havia levado tudo na esportiva até demais. Acreditava que se ela fosse irmã de Donner, já o teria xingado de tudo quanto era nome e corrido para contar ao irmão. – Eu lembro ter visto a foto de... Esquece.

Foto de quem? Será que ela já havia visto uma prova concreta da sexualidade de Duo e não queria contar?

– Esse "esquece" significa que existe a possibilidade?

– É, né? Mas eu não acredito que ele seja afim de homens. – ela respondeu, com uma feição não muito agradável.

– Tem algo contra?

– Não. Só acho que ele não é desse tipo.

Ela apenas achava. Aquilo não era certeza de nada. No que seria a estaca zero para outros, para Quatre era uma vitória. Algo lhe dizia que havia acertado quanto a Duo.

oOo

Trowa corria achando que seu treinador não devia ter pagado o suficiente para a puta fazer um bom serviço no dia anterior. O homem estava tirando o couro dele e dos outros atletas, fazendo-os correr debaixo do sol infernal de início de tarde; e com isso, acabando com a sua linda pele sedosa e bem tratada. O garoto de olhos verdes estava começando a achar que deveria reclamar quanto aos danos que os exercícios estavam causando à sua pele. Afinal, ela fazia parte do seu sustento. Sua aparência havia de ser sempre perfeita para que ganhasse bons trabalhos, mas parecia que ia ficar fora do ar por uns bons tempos, por causa de uma maldita insolação que aparentemente iria romper a qualquer momento.

Percorreu alguns metros para completar sua última volta daquela seção, quando sua visão lhe mostrou o que tanto queria naquele dia em especial. Heero Verona, o tal cara que Wufei Chang havia indicado, estava junto a um amigo, sentado numa mureta que dividia o concreto do estacionamento do jardim da entrada.

Pediu licença ao seu treinador e recolheu sua mochila rapidamente do seu armário no vestiário. Secou-se numa toalha de rosto de qualquer jeito e com Chris em seu encalço, caminhou até o rapaz cabeludo e o amigo de aparência entorpecida dele.

A cada passo que dava em direção a Verona, Trowa sentia sua repulsa por ele crescer. Não sabia se era pelo o estilo que o rapaz havia adotado e que achava que todos desejavam ter; ou se era pela aparente despreocupação, que na sua opinião era, totalmente fingida; ou aquele jeito irritante como o qual ele se portava, como se fosse o cara do pedaço. Não conseguia colocar em sua cabeça que uma garota em sã consciência se aproximaria de um sujeito do tipo de Heero. E o pior era que ele não era o único. Existiam vários iguais a ele, espalhados em inúmeros bares pelo país.

Ah! Mas como era esquecido. Heero havia saído da prisão há pouco tempo mesmo, não havia? Deveria estar sem noção alguma de moda. Teria que dar um toque no rapaz, senão ele não conseguiria nada com Duo. Caramba! Era mesmo. Estava ali pensando em tudo o que Verona deveria ser e esquecendo o que estava indo fazer. Nada que uma boa verdinha não ajudasse.

O primeiro passo era tentar pensar como Heero, para ele não se sentir acuado. Trowa acreditava que as pessoas tinham medo de se aproximar de sua pessoa ou perdiam a fala só por saberem o que ele representava no mundo. Havia de ir com calma, fingir ser amigo do japonês até conseguir o que precisava.

– Oi. Tudo bem? – o modelo cumprimentou, assim que se aproximou. Heero apenas levantou a cabeça, olhou para o rapaz de olhos verdes para ter certeza se era com ele que o rapaz estava se dirigindo e voltou sua visão para o lugar onde ela estava centrada anteriormente. O ego de Trowa já foi falando mais alto. Achava que o rapaz de orbes azuis devia estar congelado ao perceber que o cara mais popular do colégio estava ao lado dele. Era hora de pôr na prática o plano a: fingir ser amigo. – Eu comi um pato e tanto ontem à noite.

O japonês soltou uma baforada do seu cigarro, voltou seu olhar novamente para o americano de origem latina e então, Trowa pode perceber o que não havia percebido antes. Aquele olhar era de descrença e vindo de quem vinha, não era uma descrença positiva para o seu lado.

– Você conhece esse cara? – Heero perguntou ao seu amigo maltrapilho, levando o cigarro de volta a boca.

– Eu não. – Evan respondeu com falsa surpresa, completando – E você?

– Eu te conheço?

Trowa acreditava que Heero havia achado que se perguntasse de forma agressiva e seca, o faria sair correndo no mesmo instante como qualquer outro estudante normal faria. Mas Trowa não se colocava em meio a classificação "qualquer estudante", muito menos "qualquer um". Sem falar que ainda havia uma aposta para ganhar e ele nunca admitiria perder. Não existia a palavra derrota no dicionário da família Donner.

– Tá vendo aquele garoto? – cortou a embromação. Heero não estava muito a fim de papo furado e ele não tinha tempo a perder. Direcionou seu olhar a Duo, que esperava sua amiga, sentado num banco ao canto do pátio.

– Tô.

– É Duo Stratford. Eu quero que saia com ele.

O descendente de latino começou a se achar louco quando aceitou a proposta de Chang e teve a certeza da própria maluquice, quando viu a reação do rapaz a sua frente e de seu amigo desajustado. Verona fingiu se engasgar com a fumaça do próprio cigarro, enquanto o amigo batia em suas costas dizendo que ele estava tendo um pesadelo de olhos abertos. Trowa só esperava que ele não partisse para a agressão. Queria resolver tudo com diálogo, antes de tomar atitudes drásticas.

– É claro, lindinho! – Heero rebateu, com uma falsa voz afetada, continuando em seguida com uma vez de total descrença – E a Madonna me quer na cama dela. Qual é a tua cara? Está me estranhando?

– Não. É claro que não. – Trowa respondeu, calmamente. Não podia demonstrar ter medo do japonês, senão o cara pensaria que ele poderia comandar o jogo – Só que eu estou com um problema e resolvi arriscar. Afinal, existe tanta história nesse colégio...

Apostou sua última ficha. Afinal, o japonês não poderia negar que era um páreo duro contra Duo na contagem de boatos feitos a cerca da vida dos dois. Era incrível como sempre surgia um e outro boato, todos os dias, uns verdadeiros e outros totalmente sem cabeça nem cabeça. Uns que até ele mesmo duvidava. Contava com que Heero não se importasse. Que manteria aquela pose de quem não estava nem aí para ninguém. Caso ele resolvesse se importar, Trowa estaria numa bela encrenca. Mas como sempre tinha sorte, o rapaz de orbes verdes esperava que a sua sorrisse mais uma vez para ele.

– Como aquela que você arriou as calças para o seu treinador depois de torcer o tornozelo? – perguntou Evan, o estúpido amigo de Verona na opinião de Donner, achando que estava abafando ao se intrometer.

– Não. Elas são mais parecidas com aquela que diz que sua mãe foi enrabada no banheiro, depois de pagar um boquete para o teu professor de trabalhos manuais.

Quando percebeu a intenção de Evan, Donner deixou sua pose de lado. Nunca iria deixar um drogado qualquer tocar nele. De imediato o garoto veio na sua direção e no momento em que estava pronto para plantar sua mão na cara do retardado, antes dele enfiar a mão na sua, Heero e Chris intervieram e não permitiram que se pegassem ali mesmo no pátio.

Foi a sorte. Ninguém pareceu perceber nada, nem o inspetor que passava por ali. Alguns dos poucos espectadores logo desviaram os olhares quando Verona e Carter os separaram usando os próprios corpos como barreira.

Há muito tempo Trowa estava querendo uma briga. Iria quebrar a cara do sujeitinho. Não tinha nada a perder mesmo. Evan era um Zé ninguém.

– Evan! Evan! – Heero gritava, segurando os braços do amigo, tentando trazê-lo a realidade. Em seguida, pediu para o amigo se afastar e com um sinal de cabeça, pediu para que Trowa pedisse a Chris para fazer o mesmo. Assim que percebeu o sinal, Trowa despachou o amigo com apenas um estalar de dedos.

– Por algum motivo eu não fui para a sua cara. – Verona disse por entre a baforada que soltou no rosto de Donner.

– Não se preocupe, eu também não fui com a sua. Mas você é minha última opção. Fique feliz!

– Me dê um bom motivo para não te quebrar.

– Vinte pratas.

– Além de me insultar, ainda tenta me subornar? – indagou, franzindo as sobrancelhas, num gesto que mais tarde Trowa veio a saber que era bem comum em Heero.

– Escuta, cabeludo. Eu quero sair com a irmã daquele cara, mas eu não posso até que ele namore. O pai deles é pirado. Tem uma regra...

– É uma história tocante. É verdade. – Heero o interrompeu, sussurrando em seguida – Mas não é problema meu.

– Seria problema seu, se eu te desse uma generosa quantia em dinheiro?

– Quer me pagar para sair com um garoto? – o japonês indagou, com uma expressão totalmente confusa. Trowa interpretou como se Heero estivesse o achando um louco. E de certa forma, ele estava agindo como um mesmo.

– Entendeu agora? Não faça essa cara. Existem histórias bem piores do que a proposta que estou te fazendo.

– Você quer que eu me passe por viado?

– Não vai ser tão ruim assim. Só terá que aturar aquele mala, fora isso, nada demais. Qual é?

– Quanto?

– Vinte pratas. Eu já falei. – o modelo respondeu, mostrando as verdinhas.

Um dos nerds responsáveis pela divulgação do baile de formatura colava um panfleto em cada uma das pilastras do pátio. Sally, a amiga de Duo, saiu de um dos prédios e descolou um dos panfletos, lendo-o com certo interesse, enquanto Duo se aproximava.

Ele, por sua vez, arrancou um outro panfleto da parede e parecia que ia entrar em parafuso, quando o garoto que estava anunciando os viu e perguntou o que eles estavam fazendo destruindo o seu trabalho.

A resposta de Duo foi bem simples; pegou o papel que estava em sua mão, juntou-o com o que estava na mão de Sally, fez uma bola e a enfiou na boca do nerd – como se ele fosse um porco com uma maçã na boca. Todo o colegial que estava no pátio riu da desgraça do nerd, que teve que soltar todo o seu material de trabalho no chão, para conseguir ter suas mãos livres para tirar a bola de sua própria boca antes de se asfixiar.

Heero deu uma olhada de rabo de olho em Trowa, como quem não estava nada satisfeito com o preço depois de ter visto o que viu.

– Tá legal. Trinta.

– Vamos ver isso direito. – Heero disse, dando uma tragada – Nós vamos ao cinema. São quinze pratas. – começou a tentar negociar soltando uma baforada – Ah! Vamos querer pipocas. São cinqüenta e três. E ele vai querer umas balas, certo? Vamos dizer, umas setenta e cinco pratas. – e não satisfeito, completou depois de uma outra tragada – É claro que meu beijo não está incluído. Quero ser muito bem pago para beijar um outro homem.

– Isso não é uma negociação. É pegar ou largar, tá legal sem terra?

– Cinqüenta e temos um trato, mauricinho.

E depois de soltar mais uma fumaceira no rosto de Donner, Heero se afastou com os cinqüenta dólares no bolso.

oOo

Jogou imediatamente o cigarro no chão e pisou em cima dele para apagá-lo. Heero não queria causar uma má impressão logo de início. Pessoas difíceis não gostavam de ver, logo na primeira vez, outra pessoa que a oprimisse somente com a imagem... Apesar da imagem de Duo oprimir muito mais a dele do que vice-versa.

Os longos cabelos presos numa trança malfeita, a franja úmida jogada para um lado e o restante para o outro, um blusão azul qualquer com um moletom preto, uma bolsa estilo carteiro no ombro e um par de sandálias de tiras de couro cru nos pés, completavam o visual que para qualquer um daquele colégio, de patricinhas e mauricinhos leitores da revista Cosmo, seria aterrorizador.

Stratford era a personificação do desleixamento para os outros, mas para os olhos azuis de Verona, ele estava apenas querendo ser ele mesmo. Ou talvez, apenas querendo afastar toda aquela corja de cima dele. E Heero não o culpava, tirando por Donner, dava para se ver que não existia muita gente legal naquela droga de colégio. Mas o que mais havia lhe chamado a atenção, não foram as roupas, nem o cabelo; foram os olhos. Diferentes. Bem diferentes. Um azul... Não, um roxo... Um violeta seria mais preciso. Lindos.

Aproximou-se dele, assim que a amiga de Duo parou para falar com o pessoal do grupo de teatro que estava passando por ali. Nem deu chance para o americano se juntar a ela. Era melhor tentar sozinho na primeira vez. O gênio do rapaz de trança não parecia ser dos melhores.

– E aí? Como é que vai?

Achava que naquele colégio Duo não tinha muitos amigos, porque ele olhou para um lado e para o outro antes de olha-lo e responder com um sorriso totalmente enigmático.

– Na verdade, soltando fogo pelas ventas e você?

– Uma maneira de chamar a atenção das pessoas, né? Eu estava te observando hoje.

– É minha missão na vida, mas obviamente conquistei seu olhar como ver funciona. O mundo faz sentido de novo.

– Eu te pego na sexta, então.

– Ah, claro! Sexta. Ahan! – ironizou, ajeitando a bolsa no ombro.

– Bem. Eu vou te levar para lugares onde nunca esteve.

– Para onde? Uma lanchonete da Broadway? – Duo rebateu com sarcasmo, continuando a andar até o carro quando a sua amiga se aproximou. Fê-la rir com as palavras que proferiu em seguida – Você é cego ou o quê? Ainda não percebeu que tenho algo a mais entre as pernas?

– Eu sei que é um homem.

– Então é loucura mesmo! – o garoto de trança disse, entrando no carro e abrindo a porta do passageiro para a sua amiga loirinha entrar e jogar as coisas no banco de trás.

– Então você é chegado.

– Por acaso sabe meu nome, rapazinho? – o americano indagou, dando a partida no carro.

– Eu sei muito mais do que imagina. – Heero respondeu, debruçando-se na janela do carro, conseguindo com isso que Duo quase o arrastasse junto com o veículo ao andar com ele alguns metros para que se afastasse.

– Duvido. Duvido mesmo. Se me conhecesse, não se arriscaria tanto.

Desistiu ao ver o carro fazer a curva. Aquele ali daria muito trabalho.


Por Arashi Kaminari, 26 e 27 de novembro de 2005.

Notas da autora:

Um ano de fanfic completado em 14 de setembro.

Maiores informações quanto a demora disponível em http / w w w . arashikaminari . weblogger . terra . com . br .