Ethan Chandler e Lady Rowena saíram do hotel e seguiram a pé pela rua repleta de gente. Foram em absoluto silêncio. Ele sabia que não muito longe existia um pequeno jardim onde poderiam conversar com tranquilidade. Caminharam um pouco até acharem um banco vazio. O lugar tinha pouca gente naquela hora, só algumas mulheres tomando conta de crianças pequenas que brincavam.
Ela tirou o chapéu e as luvas e ele tornou a fitar aqueles olhos desconcertantes.
-O que vou lhe contar, por mais bizarro que lhe pareça, pode ser confirmado por meu irmão James e pela nossa família e criados, em Tremaine. É a primeira vez que toco nesse assunto com um estranho, se Deus permitir, espero que seja também a última. Sou única filha entre dois irmãos. Meu irmão Edgar era o chefe da casa, quando os fatos que vou narrar aconteceram. Minha mãe morreu quando eu tinha sete anos. Edgar e James tinham nove e cinco, respectivamente. Fomos criados por nosso pai e por minha tia Cora. Ela dedicou-se a nós e nunca se casou. Quando meu pai adoeceu. recomendou a meus dois irmãos que velassem por mim e que me arranjassem um bom casamento. Era desejo de toda a família que eu desposasse um homem rico. Meu pai morreu e durante o período do luto, não se cogitou nenhum projeto nesse sentido.
Um dia. um americano ainda jovem veio para Tremaine. Comprara as propriedades que haviam pertencido a Sir Francis Mallory. Era um belo castelo com terras adjacentes e uma boa faixa de mar. Os herdeiros do velho sonhavam em fazer dinheiro rápido para se mudarem para o continente. O homem se chamava William Wilson, era riquíssimo e viúvo. Morara muitos anos na Alemanha, enviuvara e resolvera se fixar na Inglaterra. Não sei que força do destino o levou a Cornualha. Não sei que maldição fez com que ele atravessasse o nosso caminho. Era um homem soturno, de boa aparência, muito fechado em si mesmo. Nosso pároco e meu irmão Edgar só viram nele um excelente partido.
Ela parou para tomar fôlego. Parecia emocionada.
-Sob a luz da posição, fiz um ótimo casamento. Mas meu marido parecia perturbado por alguma coisa. Todos os esforços que eu fazia para me aproximar dele, eram repelidos com frieza. Havia um abismo entre nós, tanto no plano físico quanto no dos sentimentos. Ele tinha em seu gabinete um retrato de sua esposa morta. Ficava horas diante dele,perdido em contemplação. Com o tempo entendi que ele se casara para tentar encontrar companhia, algum estímulo que o afastasse da lembrança daquele amor perdido. Mas seus esforços eram vãos. Ele sempre era atraído de volta para ela.
-Vocês eram fisicamente parecidas?
-Não, Mr. Chandler, não havia a melhor semelhança física entre nós. Ela era pálida, cabelos negros, maçãs do rosto salientes como as das pessoas de origem eslava. E sei que era muito culta. Era uma mulher riquíssima, o grosso da fortuna dele viera pelo casamento. Mas eu poderia apostar que ele se casara por amor. Ele guardara consigo todos os livros dela e vários objetos pessoais. Eu sou apenas uma mulher comum.
-Então acha que ele se casou com a senhora somente para esquecê-la?
-Realmente não sei. Nunca cheguei a uma compreensão do motivo que levou William a se casar comigo. Mas o fato é que o lugar onde vivíamos foi mudando. William gerara a mudança. No tempo de Sir Francis a propriedade era alegre. As torres do castelo foram se enchendo de hera e de sombras. E eu comecei a definhar, até que tombei gravemente doente.
-E o seu marido?
-Operou-se uma mudança em seu comportamento. Sempre fora frio, distante, protocolar. Mas vendo que eu me acabava lentamente, notei que ele observava com interesse a evolução da minha doença. Minha tia Cora me servia de enfermeira e notou que ele parecia se interessar vivamente pela deterioração da minha saúde, mantendo até um diário. No diário ele registrava o desejo de que Ligeia voltasse. Ele ainda a amava e não via na morte senão uma barreira.
Ethan sentiu um misto de nojo e piedade por aquele homem que nem mesmo conhecia. E uma inconfessável ponta de empatia.
-E, como se livrou dele, afinal?
Rowena baixou os olhos.
-Uma noite ele declarou que eu estava morta. O médico veio e atestou que eu estava realmente morta. William, porém, resistiu a me enterrar.
-Mas ele então ele a salvou. A senhora agora está aqui, bem viva.
-Não sei como explicar Mr. Chandler, mas William entrou em colapso. Em seu delírio, afirmava que Ligeia estava voltando em meu corpo. Atacou meus irmãos e feriu gravemente Edgar com uma faca. Depois foi para o alto da torre, trancou-se por dentro e acabou se jogando de lá. Meu irmão morreu três dias depois devido aos ferimentos.
-E a senhora? Como descobriram que não estava morta?
Ela respirava com dificuldade. Ethan percebeu que era difícil para ela lembrar de tudo aquilo. Ela virou o rosto e encarou-o. Parecia extenuada.
-Mas eu estava morta, Mr. Chandler. Só não sei como e por que voltei...
-Isso é altamente improvável, milady.
-O fato é que eu não sou mais a mesma pessoa. Mudei por fora e por dentro.
Ele apertou os olhos e deu um sorriso cético. Então, ela trouxe o pesado medalhão para fora do casaco. Soltou o fecho do pescoço e colocou-o nas mãos dele.
-Abra, por favor.
Dentro havia o retrato em miniatura de uma mulher loura. O retrato de Rowena Trevanion no apogeu de sua juventude e beleza. Mas na pintura os olhos eram outros. Os olhos eram meigos e azuis.
