Capítulo Oito - E.V.O.L.

Assim que Marina chegou na casa de Bianca, seu queixo caiu.

A garota jpa havia ficado impressionada quando entrou no condomínio. As ruas eram largas e bem cuidadas, e as casas enormes e coloridas. Marina nunca parou para pensar no quão rica era a família de Bianca, mas agora a curiosidade falava mais alto.

Foi fácil encontrar a casa da garota: era a única com mais de vinte carros estacionados em volta e música eletrônica se derramando para fora. Havia alguns adolescentes parados no gramado da entrada, segurando vários copos enquanto riam e conversavam.

"Vamos procurar o Nicolas e a Elena" disse Marina, levando Bruno para dentro. A casa de Bianca era basicamene feita de vidro, fazendo o ambiente se tornar muito mais claro. Havia gente para todos os lugares, alguns Marina conhecia, outros ela nunca havia visto. O lugar estava incrivelmente cheio para uma simples festa, mas Marina sabia que "simples" era uma palavra que não se encaixava no vocabulário de Bianca. Ela se virou para Bruno.

"Vai procurar algo para nós bebermos enquanto eu procuro meus amigos, ok?"

"Tudo bem" ele disse, apertando a mão dela. "Também preciso procurar meus irmãos."

Marina arqueou as sobrancelhas.

"Irmãos? Tem mais alguma coisa que eu precise saber sobre você?"

Ele fingiu pensar por um instante. Chegou perto dela e sussurrou em seu ouvido.

"Eu tenho uma queda por garotas de cabelos escuros" ele piscou para ela e se afastou, sumindo no meio do pessoal. Marina piscou, tonta. Depois se virou e foi procurar o primo.


"Ai meu Deus, esse lugar é incrível."

Nicolas olhava maravilhado para a biblioteca particular de Daniel. O aposento não era grande, apenas um pouco maior que o quarto de Nicolas, mas as paredes eram abarrotadas de livros do chão ao teto, e a quarta parede era inteiramente feita de vidro, que dava para os jardins da parte de trás da casa. Havia também um divã e uma escrivaninha, todos organizadamente dispostos pelo ambiente.

Daniel sorriu. Ele estava encostado no batente da porta, parecendo sem graça. Vestia apenas uma bermuda e uma camisa, e estava descalço. A música do lado de fora estava fraca ali dentro, um leve zumbido ecoando pela parede de vidro.

"Uma parte desses livros eu já tinha, mas a maioria eu ganhei com a cirurgia da Bianca" ele falou. "Pelo menos aqueles peitos serviram para alguma coisa."

Nicolas riu.

"Eu não entendo" ele disse lentamente. "Como vocÊ e a Bianca podem ser irmãos e ser tão diferentes um do outro?"

Daniel deu de ombros, sentando-se no divã.

"Acho que é poque fomos criados de maneiras diferentes." Quando Nicolas arqueou as sobrancelhas interrogativamente, ele continuou. "Quer dizer, meu pai me criou para ser seu sucessor. Ele é dono de uma rede de academias, e quer que eu siga o caminho dele, coitado. E a minha irmã... Bem, ela sempre teve tudo o que queria na palma da mão. O qu se esperar de alguém assim?"

Nicolas entendia.

"Pena que as coisas não saíram como o seu pai planejava" Nicolas disse. "Quer dizer, você não parece do tipo executivo."

Daniel concordou.

"Talvez um dia isso aconteça, mas não agora. Eu não quero jogar minha juventude fora para ficar atrás de uma mesa aprendendo como ser uma cópia fiel do meu pai."

Nicolas de repente ficou tenso, pois era exatamente isso o que ele pretendia fazer: deixar de aproveitar a vida para poder se dedicar a um futuro cinzento.

Daniel se levantou, indo até Nicolas.

"Eu quero viver primeiro. Quero ter histórias para contar quando for velho. Quero sair, olhar o mundo, sentir adrenalina, me apaixonar..."

"...mesmo que se machuque no final" Nicolas disse automaticamente, o que fez Daniel parar.

"Como assim?"

O garoto se sentiu subitamente envergonhado.

"Bem... Quando eu te encontrei pela primeira vez, você estava sentado no chão da Biblioteca, chorando enquanto escutava Dope."

A expressão de Daniel se mantinha neutra, mas seus olhos brilharam sombriamente com a lembrança.

"Eu gostava dele" Daniel confessou. "Gostava mesmo. Foi o meu primeiro amor, sabe? Antes dele, eu me escondia, não assumia minha sexualidade. Mas depois que o conheci... Tudo mudou. Eu tomei coragem, me assumi para os meus pais. Foi um Inferno, mas eu não me importava pois finalmente estaria livre para ficar com ele. Até que eu descobri que o filho da puta nem gay era, ele tinha uma namorava. Só estava comigo porque eu era o filho do meu pai" ele riu sarcasticamente, depois encarou o chão parecendo pela primeira vez, desamparado.

Nicolas então agiu por impulso. Não soube porque fez aquilo, simplesmente aconteceu. Ele deu alguns passos e abraçou Daniel. O garoto estava rígido, pego de surpresa. MAs então retribuiu o abraço.

"Não te conheço tanto quanto gostaria" ele disse, enfiando o rosto no pescoço de Daniel. O garoto tremeu. "Mas te acho incrível. Não é todo mundo que tem a coragem de fazer o que você fez. E sobre esse idiota... Esquece ele. Não vale a pena."

Daniel nada disse. Apenas ficou lá, abraçado com Nicolas, o que era engraçado porque ele precisava se abaixar para poder abraçar Nicolas direito. Ele então se levantou e sorriu para Nicolas.

"Vamos" ele disse, pegando a mão do garoto. "Vamos curtir um pouco a festa."


Marina encontrou Nicolas saindo de um corredor de mãos dadas com Daniel. Ela ficou surpresa, pois não sabia que eles estavam tão próximos assim.

Claro, uma voz no fundo de sua mente falou, você agora só tem olhos para o Bruno.

Marina ignorou a voz e seguiu até Nicolas.

"Hey" ela disse, com um sorriso.

Daniel a olhou com interesse.

"Então você é a famosa Marina?" ele disse.

"Eu mesma" Marina disse, cautelosa. "Achou que eu era algum tipo de piranha? Sua irmã deve ter falado coisas incríveis sobre mim."

"Na verdade, foi isso o que ela disse" Daniel falou, sem se abalar. "Mas conhecendo a minha irmã, tudo o que ela diz é o contrário da verdade, então sabia que você devia ser uma boa pessoa."

Marina corou, sem graça.

"Vamos lá para baixo?" Nicolas disse.

"Vamos sim" ela disse, enquanto eles seguiam pelo corredor. Marina ficou curiosa para perguntar ao primo o que eles estavam fazendo, mas se conteve.

Seu telefone vibrou. Marina o pegou - era uma mensagem de Elena.

Tem uma galinha querendo roubar seu homeeeeeeeem

Primeiramente Marina não entendeu. O que Elena estava querendo dizer? Estava louca? Depois, ficou tensa.

"Tem alguém dando em cima do Bruno" ela murmurou para si mesma, cheia de ódio.


"Isso só pode ser piada" Marina disse, furiosa.

"Uma péssima piada" disse Elena, ao lado dela.

Nicolas se limitou em balançar a cabeça silenciosamente.

Os três estavam no jardim de trás da casa de Bianca. O lugar era incrível, tinha uma piscina enorme no centro e uma área com mesas e cadeiras ao lado. Num canto mais afastado, havia uma mesa comprida com todo o tipo de comida e bebida, e no fundo do jardim um palanque havia sido montado, onde duas caixas de som enormes pulsavam com a música que o DJ da festa tocava, que agora estava se limitando a uma playlist remixada das músicas de Marina and The Diamonds.

Eles olhavam para Bruno. O garoto estava perto da piscina, numa conversa entretida com... Bianca. A menina usava um top minúsculo e saia (ou seria uma toalha de rosto?), e mantinha o cabelo loiro preso num coque. Eles estavam numa conversa animada, rindo e balançando lentamente ao som dançante de "Lies".

"Típico" Daniel disse, e Marina olhou para ele. "Ela quer o garoto mais bonito da festa."

"Acontece que o menino mais bonito da festa já tem dono" Marina disse, subitamente com raiva. Ela avançou até eles, pronta para afogar Bianca, se necessário, mas Nicolas segurou seu braço. "Me solta!"

"Você quer realmente fazer isso?" ele perguntou. "Você e o Bruno ainda estão se conhecendo. Sei que a coisa entre vocês é forte, mas você quer realmente cair na porrada com a Bianca só porque eles estão conversando?"

Marina encarou Nicolas. Sua respiração desacelerou, enquanto a razão tomava conta dela mesma. É claro que Nicolas tinha razão. Ela se soltou de seu aperto e arrumou o cabelo.

"Tem razão. Não preciso partir para a violência. Tenho algo melhor que isso" ela disse, e começou a andar em direção aos dois.

Bruno a viu primeiro. Seu sorriso se alargou e ele a chamou com as mãos. Bianca, que sustentava um sorriso enorme no rosto, ficou espantada quando a garota apareceu, e depois seu olhar faiscou com raiva.

"Olá" Marina disse, ficando ao lado de Bruno e pegando a sua mão. "Oi, Bianca" ela disse, com um sorriso no rosto, "Já conheceu o meu... amigo Bruno? Viemos juntos hoje."

Bianca olhava para a cara dela sem nem piscar. Ela estava pronta para explodir, Marina sentia isso.

"Seu... amigo?" ela disse, olhando para Bruno.

"Por enquanto" Bruno falou, piscando para Marina. Apesar de tudo, ela se sentiu subitamente feliz e anestesiada.

"Ah, então... Divirtam-se" Bianca disse, se afastando, mas no ultimo instante ela se virou. "E, Marina... Me aguarde."

A garota nada disse enquanto Bianca marchava furiosamente em direção à casa, sumindo uns segundos depois. Bruno olhou interrogativamente para Marina.

"Tem alguma coisa acontecendo que eu deva me preocupar?" ele disse.

"Não, imagina" ela disse, enquanto E.V.O.L. começava a tocar. Marina adorava essa música. Ela puxou Bruno para a pista de dança.

"Você parecia com ciúmes" ele disse disse, enquanto dançava suavemente pela pista de dança cheia.

"E se eu estivesse?" Marina perguntou, fazendo bico.

Bruno a olhou intensamente.

"Como se fosse necessário" ele disse. "Você é de longe a pessoa mais linda dessa festa."

Marina ficou abalada com o comentário, mas continuou o jogo.

"Não me convenceu."

Bruno riu.

"Talvez isso aqui a convença" ele disse, e a beijou.

A primeira coisa que Marina sentiu foi o choque, seguido de incredulidade. Parecia irreal, como se fosse tudo fruto de sua imaginação. Bruno a beijava cautelosamente, com cuidado. Sua boca tinha gosto do refrigerante de laranja que ele estava bebendo a alguns segundos atrás, e Marina percebeu que de repente amava refrigerante de laranja. Ela colocou os braços em volta de seu pescoço e intensificou o beijo. Bruno passou as mãos por suas costas enquanto ambos entravam naquele espaço único, como se o mundo se dissolvesse em volta deles e só sobrassem os dois.

Depois de um tempo, ambos estavam sem ar, mas não se desgrudavam. Marina interrompeu o beijo. Sua pele ardia e sua mente viajava, a música da Marina and The Diamonds ecoando em sua cabeça.

It only takes two lonely people,
to fuck love up and make it evil...

Marina abriu os olhos, em paz consigo mesma. Ela olhou para Bruno. O garoto parecia tão afobado quanto ela, respirando com dificuldade.

"Eu devo confessar que estava esperando por isso desde aquele dia no prédio" ele disse, rindo.

Marina, tomada pelo impulso, respondeu:

"E eu estava esperando por isso desde o dia em que nos encontramos na piscina."

Bruno pareceu surpreendido.

"É mesmo? Sou tão atraente assim?" perguntou enquanto a música continuava seu refrão.

It only takes a drop of evil,
to fuck up two beautiful people...

"Não estraga o momento" ela disse enquanto se aproximava dele e o beijava de novo. Seu coração voltou a bater mais forte.

"Caio?" uma voz disse atrás deles.

Marina não ligou. Pela primeira vez na vida ela simplesmente não reagiu ao som do nome Caio. Estava lá com Bruno, seu Bruno, e não queria saber de Caio nenhum.

Porém Bruno interrompeu o beijo.

"Jonas" ele disse, olhando para trás de Marina. A menina se virou também, vendo um garoto parado atrás deles, parecendo sem graça. "Eu te procurei pela festa inteira, onde você se meteu?"

"Estava por aí" ele disse, aproximando-se. "Desculpa, não quis interromper... vocês."

Pela primeira vez, Bruno pareceu constrangido.

"Não tem problema. Marina, esse é o meu irmão, Jonas. Jonas, essa é a Marina" ele disse, apresentando os dois.

Marina apertou a mão dele, meio tensa. Algo a incomodava...

"Então você é a famosa Marina?" Jonas disse. "Meu irmão não falava de nada que não seja relacionado a você."

"isso não é verdade" Bruno disse, dando um soco de leve no ombro do irmão.

Um frio tomou conta da barriga de Marina.

"Você o chamou de... Caio?" Marina perguntou à Jonas.

Bruno, parecendo se lembrar de algo de repente, respondeu.

"Ah, eu não te contei? Caio é meu nome do meio" ele falou, meio acanhado. "Não gosto muito do meu nome, mas... É, meu nome inteiro é Bruno Caio."

Silêncio. Marina olhava para Bruno como se de repente não o conhecesse. O chão parecia se inclinar sob seus pés. Seus ouvidos estalaram. A música continuava a tocar, agora parecendo fluir de outra dimensão.

L.O.V.E., L.O.V.E.
L.O.V.E., E.V.O.L.

Caio... O nome dele era Caio... Mais um Caio...

"Marina, você está bem?" Bruno se aproximou, mas ela recuou. Marina não pensava, estava em pânico. Aquilo não podia estar acontecendo, não com ela.

Não.

"Marina?" Bruno disse, mas ela não se importou. Correu da pista de dança. Passou voando pelas pessoas, empurrando todas elas. Não quis saber de procurar Nicolas, nem Elena, nem ninguém. Voou pela casa cheia e saiu para a rua vazia, completamente louca, enquanto o verso final da música a acompanhava.

L.O.V.E. love is evil.