A parca claridade que conseguia passar pelas grossas paredes da barraca me fez abrir os olhos. Movi lentamente e senti um peso extra circundando minha cintura.

Sorri maravilhada, mesmo sentindo meu corpo dolorido.

As lágrimas invadiram meus olhos ao lembrar a noite que passamos juntos... a minha primeira vez não poderia ter sido mais perfeita.

Um suspiro escapou de meus lábios ao sentir o toque de Harry em minhas pernas.

Sorri com prazer enquanto as mãos masculinas subiam cada vez mais.

Pequenos beijos contornavam meu rosto e pescoço. E ao mesmo tempo em que eu arranhava suavemente suas costas.

- Tem certeza? – questionou um arfante Harry ao pousar as mãos em meus seios.

- Eu quero o seu toque em minha pele, Harry. Somente o seu, para sempre.

As lembranças ruins dos comensais não mais existiam, estavam fortemente escondidas, encolhidas em algum lugar, espaço e vez as maravilhosas lembranças da noite passada com Harry.

Lentamente me virei tentando não acordá-lo, e quando olhei para o rosto do bruxo vi os olhos verdes tão conhecidos me observando.

- Bom dia, amor. – ele sussurrou.

- Bom dia. – corei. – Achei que estivesse dormindo.

Harry sorriu e uma mão atrevida começou a acariciar minha coxa.

- Faz algum tempo que estou acordado – beijou meus lábios e murmurou de encontro a eles. -, me deliciando com as lembranças do seu corpo.

Eu sorri e escondi meu rosto em seu peito.

O riso do bruxo fez meu corpo se encher de alegria.

- Não acredito que Hermione Granger está envergonhada. – uma mão levemente acariciou meu seio e desceu lentamente até parar entre minhas coxas. Meu corpo tremeu de prazer e senti meu rosto enrubescer ainda mais. – Está bem?

- Um pouco dolorida. – admiti e olhei para os olhos claros dele.

- Me desculpe... – ele disse em tom preocupado e retirou a mão.

- Não! – pousei minha mão em seu peito. – Você foi muito gentil e carinhoso. – sorri bobamente - Foi perfeito, Harry! – beijei os lábios dele - Eu amo você.

A boca masculina imediatamente exigiu a minha e eu me rendi a ele com total satisfação.

Não ousei me preocupar com o que poderia estar acontecendo fora de nossa barraca. Não me preocupei com a guerra, com Voldemort, com Grayback, com Dolohov. E egoistamente nem mesmo me preocupei com Gina.

Dizem que não há espaço para amor no meio de uma guerra, que não há como o amor nascer em meio de corpos mutilados e sangue.

Não haveria chance se fossemos descobertos... E inevitavelmente nós seriamos descobertos no momento em que puséssemos os pés para fora da barraca.

A essa altura dos acontecimentos não deveria haver dúvidas que existia algo muito mais forte e profundo entre nós dois. Não haveria duvidas que existia paixão.

Tolos... Tolos inconsequentes. - eles diriam.

Não se pode ter esperanças de que tudo acabará bem e nem confiar a vida a alguém que esteja loucamente apaixonado...

Afinal todos sabem que a paixão nos força a fazer loucuras.

Acordei novamente não pela claridade que já havia se extinguido, mas pelo frio. Não senti a presença de Harry e sentei na cama apreensiva.

Meu corpo ainda sofria com algumas dores e sem pensar duas vezes fui direto para mais um banho. Entrei embaixo da ducha morna e deixei a água massagear meus músculos tensos. Fechei os olhos e sorri ao lembrar de como eu e Harry fizemos amor neste mesmo lugar, embaixo desta mesma ducha, algumas horas antes.

Meu rosto esquentou e eu me questionei o quanto demoraria até que eu parasse de corar.

Respirei fundo três vezes antes de sair da barraca, já vestida e com os cabelos secos. Estranhamente não ouvia o barulho de vozes e passos no acampamento, não era tão tarde para que todos já estivessem recolhidos.

Segurei a varinha com força e saí da barraca, uma fogueira alta ardia no meio do acampamento, havia uma multidão reunida ali. Continuei seguindo tentando achar Harry ou Lupin e a cada passo que dava rostos surpresos me encaravam, sem tentar esconder cochichavam abertamente sobre mim.

Passei pela multidão o mais rápido que consegui, embora cada bruxo que estivesse ali fosse amigo e lutasse pela mesma causa, era, no mínimo, estranho os ver reagindo dessa maneira.

Preocupados, cautelosos.

Meu coração disparava a cada passo que dava, não conseguia achar Harry, Lupin nem mesmo Rony e Luna no meio da multidão.

Estava quase alcançando a barraca de Lupin quando Córmaco saiu em disparada do meio da multidão em minha direção.

Num reflexo ergui a varinha e o bruxo estancou muito perto de mim.

- O que está acontecendo, Córmaco?

- Tem que vir comigo, Hermione! – ele deu um passo para frente e eu apertei os olhos.

- Acho melhor ficar onde está. – ele sorriu e levantou as mãos. Não gostei do jeito que ele sorria. – O que está acontecendo, Córmaco? Onde está o Harry?

- Ele não está aqui, Hermione! – abriu os braços. – Você mesma já comprovou isso.

- Onde ele está? – perguntei pausadamente.

Ele não respondeu por um tempo, apenas me encarou. Sorrindo suspirou e olhou para um ponto atrás dele.

- Eu espero, Mione, que ele esteja bem morto!

- O que...

Antes que pudesse completar a frase uma explosão fez com que muitas barracas voassem pelos ares. Uma delas era a de Harry.

- Harry! – gritei desesperada. Vi o movimento de Córmaco e no mesmo instante me joguei para o lado, um feitiço queimou a grama onde eu deveria estar. - Petricficus Totalus! – bradei.

O bruxo defendeu-se e correu até mim.

- Estupore! – gritei e ouvi o gemido do garoto.

Levantei do chão e comecei a correr o mais rápido que pude. Um feitiço passou muito perto de mim e então mudei de direção.

- Pare Hermione! – gritou Córmaco. – Expelliarmus.

Minha varinha voou de minha mão e caiu alguns metros para frente. Olhei para trás no exato momento que bruxo lançava mais um feitiço. Novamente me joguei no chão, para frente. Ouvi o urro de raiva atrás de mim, e com uma rapidez que não sabia possuir me levantei e então comecei a correr de novo.

Agarrei minha varinha do chão, puxando grama e terra junto com ela. Virei para onde Córmaco estava e pude ler facilmente em seus lábios o inicio da palavra Bombarda. Porém antes que pudesse pronunciá-la, uma palavra muito pior saiu de meus lábios:

- Crucio!

Em um momento estava vendo Córmaco se contorcer no chão em minha frente e no outro, braços fortes me cercavam e apertavam.

Me vi exprimida contra um peito largo e protetoramente segura no meio de braços fortes. Não precisei ouvir a voz nem mesmo olhar o rosto do homem que me segurava com paixão.

Conhecia muito bem os lábios que desceram rapidamente sobre os meus.

- Você precisa sair daqui. – a voz entrecortada dele me fez voltar a razão.

Abri os olhos e me dei conta do estado em que Harry estava.

Sague cobria sua camiseta branca e um corte em seu braço não parava de sangrar.

- Harry... – minha voz e minhas mãos tremiam. – Onde estava? O que aconteceu? – eu estava apavorada.

- Você tem que sair daqui, entendeu? – ele segurou meu rosto.

- Não vou sem você! – Harry revirou os olhos e eu agarrei seus punhos. - O que aconteceu?

- Ontem quando você foi para a floresta e eu fui atrás... – ele balançou a cabeça. – Enquanto dávamos um fim em Grayback e Dolohov o resto deles atacaram. Metade dos nossos morreu, Hermione. Não vimos nada porque aparatamos no meio da noite na barraca. Eu só saí no meio da tarde de hoje e tudo já estava limpo quando tomei conhecimento por Lupin e Luna.

- Não! – gritei. – Não pode ser... não assim. Não pode acabar assim Harry! – lagrimas também escorriam pelo rosto do bruxo. - Como eles descobriram? Como eles conseguiram entrar?

- Sectusempra!

Harry caiu aos meus pés, com o peito aberto, sangrando. Olhei para frente e vi o sorriso de Córmaco. Tombei para trás com o feitiço que me atingiu, não conseguia respirar, o ar não entrava nos meus pulmões. Tentei gritar, tentei alcançar minha varinha, mas já era tarde. Córmaco Mclaggen já estava em cima de mim, apontando a varinha para meu peito.

Por um momento ainda pude ver o olhos verdes de Harry fixos nos meus, certamente dizendo: Eu te amo.

***
Meus olhos estavam fechados, uma dor queimava no centro de meu peito que subia e descia lentamente. Não sabia há quanto tempo estava acordado, sem abrir os olhos, não queria encarar o que havia restado de nosso acampamento.

Nem de nossos amigos.

Flashes de Luna cuidando de meus ferimentos vieram à tona. Em meio ao meu delírio pude ver os olhos claros cheios de medo tentando passar confiança e segurança.

Sabia que estava em alguma barraca, deitado em uma cama que não era a minha, mas não tinha o menor conhecimento de onde o acampamento fora armado. Nem mesmo tinha ideia do tamanho do desastre do ataque dos comensais. Porém, o que mais me perturbava era a ausência de Hermione.

Ouvi alguém entrando na barraca e forcei meus olhos a se abrirem. Uma cabeleira loira parou ao meu lado e eu tentei sorrir para Luna.

- Quem bom que acordou, Harry! – a bruxa pousou a mão em minha testa. – Não está mais com febre.

- Onde... – tentei falar, mas parecia ter areia em minha boca.

Imediatamente a borda de um copo pousou em meus lábios, e a água fluiu entre eles.

- Obrigado. – disse, respirando fundo. – Onde estamos?

- Perto do lago, próximo ao primeiro lugar onde acampamos.

- Seguro...

- Sim, reforçamos todo o dia a proteção ao redor do nosso acampamento. Todos estão de olhos vivos e ouvidos apurados, não há nenhuma movimentação ao redor.

Olhei para a garota a minha frente. A palidez de Luna está mais acentuada, se é que isso era possível. Não havia como não notar os olhos vermelhos e inchados, olheiras acentuavam ainda mais a dor e o cansaço no rosto da bruxa.

- Hermione? – minha voz não passou de um murmúrio.

Luna abaixou os olhos e meu coração disparou.

- Ela... – a loira apertou as mãos contra o rosto. – Aconteceram algumas coisas, Harry. – ela soluçou. - Os comensais invadiram o acampamento, as barracas explodiram, e depois que você foi atingido. – as lagrimas rolavam pelo rosto de Luna quando ela retirou as mãos. – Córmaco a atingiu e a levou, Harry. Ele agarrou Hermione e correu, Lupin não conseguiu chegar a tempo. Você estava sangrando muito. Por momentos pensamos que também perderíamos você, mas depois de duas semanas, por fim, você acordou.

Joguei minhas pernas para fora da cama e tentei ficar de pé com as poucas forças que consegui reunir. Não pude dar o primeiro passo antes de ir contra o chão. Somente ouvi o grito de Luna antes que a dor me consumisse.

Acordei no mesmo lugar, na mesma cama. Vozes de fora ecoavam em minha cabeça, não me deixando voltar para a escuridão. Com movimentos lentos sentei na cama, não sentia tanta dor em meu corpo, apenas uma ardência em meu peito.

Consegui me levantar sem maiores problemas. A cada pequeno passo que dava em direção a entrada da barraca, percebia o volume das vozes e a comoção do lado de fora aumentar.

Quando saí, a luz me cegou por um momento e tive que ficar parado por uns instantes até que pudesse me acostumar com a claridade. As vozes se calaram, apenas pude ouvir murmúrios e gemidos.

A primeira coisa que vi na minha frente foi Rony, de lado, ajoelhado no chão, chorando e abraçando alguém que estava em seus braços, alguém muito magro e machucado.

Eu não conseguia reconhecer a pessoa.

Um grupo, em roda, se concentrava um pouco mais distante, dei alguns passos na direção deles, mas Luna imediatamente agarrou meu punho.

- Harry...- choramingou ela.

Ronald Weasley deve ter ouvido a bruxa, pois vi ódio em seus olhos quando se levantou e virou em minha direção.

Não pude expressar outra reação a não ser choque ao ver que o corpo que tremia e Ronald segurava era o de Gina.

Minhas pernas seguiram o ritmo do coração disparado, me aproximei do grupo que começou a me olhar com dor e pesar. Minhas mãos tremiam ao empurrar bruxos que teimavam em ficar na minha frente. Dei de cara com Lupin, que me segurou e tentou me afastar.

- Harry, não precisa ver isso. – ele murmurou.

Eu o empurrei com força para o lado, nada importava agora, eu precisa ver para ter certeza que não era ela, não podia ser.

Ao parar no meio da roda, meus joelhos cederam e eu caí ao lado do corpo, a pele fria e o sangue não foram provas suficientes para que eu acreditasse que ela estava morta. Fiquei sem chão, tudo se perdeu, nada além de choque e dor se alojou em mim.

Em meus braços se encontrava o corpo sem vida, nu e ensanguentado de Hermione.