DOCE DEZEMBRO
Capítulo 9
- Para onde estamos indo mesmo?
- Já disse... você logo vai descobrir; e vai ser antes de chegarmos.
- Tem certeza de que não era melhor irmos de carro? Podíamos chegar mais rápido...
- Puxa, mas como você é impaciente, Ikki! – riu Hyoga – Às vezes, você deveria se preocupar menos com o destino e aproveitar mais a caminhada...
Ikki escutou esse comentário e instantaneamente fez a ligação com os poemas que lera do jovem naquela manhã. Pelo visto, Hyoga continuava com a mesma opinião de tantos anos atrás... "É a tal idéia de aproveitar cada momento... Carpe Diem...".
Estava relembrando alguns versos que tinha lido e que pareciam confirmar o modo de ser de Hyoga quando se familiarizou com o local em que estavam. Ora, aquele era o caminho que levava ao parque!
- Você levou mesmo a sério quando eu disse que o parque poderia ser meu recanto de paz, hein? – falou Ikki, tentando fazer pouco caso do que dissera de manhã.
- Não é só por isso que estamos indo para lá.
- Não?
- Ikki, pergunte menos e aprecie mais o passeio. Olhe o que você está perdendo... – falou Hyoga, apontando para o céu que apresentava uma coloração belíssima de fim de tarde.
Realmente, a visão do pôr-do-sol era maravilhosa. Ikki se deu conta de que nunca parava para dar atenção a esses momentos do dia e agora via o quanto estava perdendo. Era mesmo um espetáculo... Assim, seguiram em silêncio por alguns minutos até chegar ao parque.
Lá, havia muitas crianças empinando pipas, andando de bicicletas, acompanhadas dos pais, com algodão doce e sorvete nas mãos. Na ponte que ficava sobre o lago, alguns casais apaixonados observavam o sol se pondo. À margem deste, algumas pessoas jogavam pipoca para os patos que nadavam por lá. Hyoga convidou Ikki a sentar-se ali, perto da margem, debaixo de uma frondosa árvore.
- Esse é um dos melhores lugares do parque para assistirmos ao pôr-do-sol. E vai ficar ainda melhor quando as estrelas começarem a aparecer...
Ikki ficou observando tudo ao seu redor. Tantas pessoas, tanto calor humano. Todos pareciam tão felizes ali e essa felicidade parecia estar em tanta abundância que era como se ele recebesse parte dela só por estar também naquele lugar.
Hyoga, por sua vez, observava cada gesto de Ikki. Era preciso saber se estava acertando, se precisava mudar de abordagem ou o que quer que fosse para atingir seu objetivo. Mas, ao ver o sorriso nos lábios do belo moreno, que tinha seu rosto iluminado pela luz do sol que ia diminuindo a cada instante, o rapaz de cabelos dourados percebeu não apenas que estava tudo certo... percebeu também que aquele sorriso no rosto de Ikki deveria ser uma raridade. Não o conhecia há tanto tempo; é verdade, mas Hyoga sabia dizer quando presenciava um momento único, que poucas vezes acontecia. Era um talento que possuía; ele era capaz de ver um brilho especial que resplandecia em situações assim. Era dessa forma que Hyoga enxergava o sorriso de Ikki naquele instante... resplandecente, mágico... único. E, sem perceber, sentiu uma vontade verdadeira de propiciar mais momentos assim para o jovem executivo. "Quem diria... E eu achando que não me importava mais com essas coisas...", pensou Hyoga, sorrindo para si mesmo.
Hyoga foi acordado de seus pensamentos quando Ikki levantou-se de repente. Sem que tivesse chance de perguntar aonde ele ia, viu o rapaz correr em direção a um pipoqueiro que passava ali perto. Em seguida, Ikki acenou para que Hyoga viesse até onde ele estava – à margem do lago.
- O que houve? Ficou com uma vontade incontrolável de comer pipoca, é? – brincou Hyoga, que achou verdadeiramente graciosa a imagem daquele homem que segurava o saquinho de pipoca com tanta empolgação.
- Vamos alimentar os patos. Eu nunca fiz isso. – disse Ikki, chegando mais perto da água.
- Puxa, seu pais nunca te levaram para dar comida pros patinhos? – perguntou Hyoga, que parou um pouco mais distante da água, com os braços cruzados.
Ikki estava de costas para Hyoga. Seu semblante expressou, momentaneamente, a dor que ainda guardava lá dentro. Mas não deixaria esse sentimento vir à tona; ele nunca deixava.
- Meus pais morreram quando eu era muito novo. Acidente de carro. – limitou-se a responder, enquanto atirava a pipoca aos patos que disputavam para pegar cada grão lançado.
Hyoga percebeu que havia tocado em um assunto muito delicado. Sabia como era doloroso perder alguém. Se para ele, que perdera a mãe, já tinha sido muito difícil, imaginava o quanto deveria ter sido árduo para Ikki, que tinha perdido pai e mãe.
- E você? Engordou muitos patos quando era criança? – disse Ikki, buscando desviar o foco da conversa, pois não gostava que sentissem pena dele.
- Eu? Não... nunca gostei muito de patos.
- Sério? – riu Ikki – Por quê? Algum deles já te bicou e te deixou traumatizado?
- Na verdade... – disse Hyoga, melancólico – Você conhece aquela história do patinho feio?
- Conheço, claro. O que tem?
- Minha mãe me contava essa história antes de eu dormir. Era uma das minhas prediletas. Eu me lembro que toda vez que ela me contava, eu sentia uma imensa tristeza pelo patinho nunca conseguir se encaixar à sua família, sendo sempre mal-quisto e rebaixado por ela... Felizmente, no final, ele conseguia superar tudo isso, encontrando seu verdadeiro lugar no mundo, o que me deixava bastante alegre.
- Ah, entendo. – falou Ikki que, a fim de prestar mais atenção ao que Hyoga dizia, despejou todo o conteúdo do saquinho de uma vez no lago, criando um alvoroço entre os patos – Essa história te traz muitas lembranças da sua mãe e isso deixa você triste.
- Não, esse não é o problema. Nunca tive problemas com minhas recordações, como aconteceu com meu pai. O problema é que, depois da morte da minha mãe, eu passei a me sentir o próprio patinho feio dentro da minha casa. Meu pai era incapaz de me compreender, não conseguíamos concordar em absolutamente nada e ele me fazia sentir uma aberração por pensar e ser diferente dele. Eu sentia aquela mesma sensação ruim de quando minha mãe me contava a história, só que essa sensação desagradável me acompanhava todos os dias e não havia previsão de um final feliz, como no conto de fadas.
Ikki ficou olhando para Hyoga. O parque já estava começando a esvaziar, pois escurecera e as primeiras estrelas do céu já brilhavam lá no alto.
- Olha, - começou a falar Ikki, que agora observava as estrelas no céu – a sua história ainda não acabou. Você ainda pode vir a se tornar um cisne.
- Como é?
- Um cisne, como na história. O patinho feio não se encaixava àquela realidade porque, na verdade, ele era um cisne, lembra? O mesmo pode ocorrer com você. Ainda há muitas oportunidades para você se encontrar e descobrir quem é, realmente.
- E quem disse que eu preciso me encontrar? De onde tirou essa idéia de que eu não sei quem sou? – falou Hyoga, um pouco irritado.
- Muito simples: se você soubesse mesmo, não teria mais problemas com essa história.
Hyoga fez um gesto de que ia responder algo, mas calou-se. O que ele poderia dizer? Ikki estava certo. "Que bagunça; agora é ele quem está me analisando, quando deveria ser o contrário". Achou melhor mudar o rumo dessa conversa:
- Escuta, você está com fome?
- Não muito.
- Não tem problema. Vem comigo!
- Aonde você quer ir agora?
- Eu disse que te trouxe aqui por um motivo. Vamos lá, que eu quero te mostrar!
- Nossa, Pato... mas você é muito elétrico, hein? Depois, dizia que eu é que não conseguia parar... – gracejou Ikki.
Hyoga parou de súbito e olhou para o moreno, que exibia um belo sorriso.
- Pato?
- É, Pato. – disse Ikki, que começou a caminhar na direção que Hyoga estava indo antes de parar para encará-lo – Vou te chamar assim, agora. Pelo menos, até você descobrir quem é. Aí, eu posso começar a te chamar de Cisne.
Hyoga cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha, como era seu costume fazer toda vez que se sentia contrariado com algo. Entretanto, não conseguiu se zangar; Ikki falou de modo tão divertido que o escritor acabou sorrindo também.
- Que seja! – suspirou, resignado - Vamos logo então...
- Cachorro-quente?
- Veja lá como você fala; isso aqui não é um simples cachorro-quente... É "o" cachorro-quente!
- Não vejo grande diferença em relação aos outros. Tem pão, salsicha...
- Ikki, dá logo uma mordida que você vai entender o que eu estou dizendo! – riu Hyoga, entregando-lhe o cachorro-quente. Em seguida, pagou ao homem que cuidava do carrinho no qual estava escrito em letras bem grandes: HOT DOG.
O escritor russo ficou olhando para Ikki enquanto este dava sua primeira mordida. Seus olhos pareciam perguntar o que ele tinha achado. O moreno olhou de volta para Hyoga e percebeu que já conseguia encarar Hyoga sem se sentir tão incomodado. A sensação de incômodo fora embora, ficando apenas a agradável sensação de familiaridade que ele não sabia de onde vinha. Aliás, nem estava mais tão preocupado em descobrir.
- Hum... é gostoso mesmo!
- Eu não disse? Esse cachorro-quente é uma verdadeira perdição! Quando você o come, é como se estivesse vivendo um momento sublime!
- Ei, calma lá! Também não é para tanto assim... – riu Ikki – Eu gostei do sanduíche, mas não estou nas nuvens...
- Porque você não se deixa voar. Se vivenciasse com todas as forças as tantas sensações maravilhosas que a vida nos proporciona, você estaria acostumado a viver nas nuvens.
- Não, não... Obrigado, mas gosto de ter meus pés bem fincados no chão.
"É... Ainda vou ter um trabalhinho com ele", pensou Hyoga, desanimado com o último comentário de Ikki.
- Mas não encare o que eu disse como uma crítica, por favor! – emendou Ikki – Entendo seu modo de viver a vida, você é poeta, enxerga as coisas de uma forma distinta...
- Como sabe que sou poeta?
- Oras, eu... Era segredo, por acaso?
- Não, mas eu nunca falei sobre isso com você ou seu irmão. Falei? – questionou Hyoga, com dúvidas.
- Não, você nunca nos disse nada a respeito. Mas eu li seu livro.
- Meu livro? Meu livro de poesias?
- Sim. Um bem antigo, chamado...
- "Poesia".
- Isso! Esse mesmo.
- Onde você o encontrou, Ikki?
- Num sebo. Hoje de manhã.
Hyoga ficou calado, cabisbaixo, como se estivesse absorvendo todas essas informações.
- Escute, seu livro é muito bom. Foi o primeiro que escreveu?
- Sim, o primeiro e único.
- Puxa, é uma pena que não tenha escrito outro. Você tem talento. Agora sei porque meu irmão fez tanta questão de escolher você para ajudá-lo.
Hyoga parecia não ouvi-lo. Estavam andando de volta para a casa de Hyoga e este estava com seu olhar perdido.
- Me parece que você é exatamente o que transparece naqueles poemas: adora viver intensamente cada momento. Estou certo? – perguntou Ikki, tentando chamar de volta a atenção do jovem poeta.
- Ah, sim, claro. Viver intensamente, gosto sim... – respondeu Hyoga, sem muito ânimo e evitando olhar Ikki nos olhos.
Ikki sempre fora muito bom para perceber que existem momentos de falar e de calar. Agora, definitivamente, era um ótimo momento de silenciar. Sabia respeitar o espaço das pessoas. Seguiram até a casa de Hyoga calados.
Lá chegando, Ikki tratou de abrir a porta de seu carro e, de dentro de seu porta-luvas, pegou o livro de poesias e o mostrou ao rapaz de cabelos louros.
- Viu? Até que está bem conservado, apesar de ter uns 10 anos, não é mesmo?
Hyoga pegou o livro que Ikki lhe estendia. Olhava para o livro como se estivesse reencontrando um objeto perdido há muito tempo.
Ikki, que sabia desvendar olhares, percebeu o que se passava e perguntou:
- Você, por acaso, tem um exemplar desse livro na sua casa?
- Não. – foi só o que Hyoga pôde dizer.
- Não é possível, Pato! Com aquele bando de livro que eu vi na sua sala, você não tem um exemplar do único que escreveu? Isso está errado!
Hyoga manteve o olhar triste por sobre o livro que estava em suas mãos.
- Ok, vamos resolver isso... Fica com esse livro de presente.– disse Ikki, com um sorriso gentil no rosto.
Hyoga sorriu e Ikki pôde ver que aquele era um presente bastante significativo. Depois, ficou meio sem-graça, pois o outro nada falava, apenas o fitava e isso deixava o executivo bastante constrangido. Assim, para se livrar dessa situação, que era muito embaraçosa para ele, disse:
- Ah! Tem um poema de que eu gostei muito! Acho até que é meu preferido dentre todos. Posso lhe mostrar?
- Claro. – disse Hyoga, com aparência mais serena.
- Deixa eu ver... – Ikki pegou o livro das mãos de Hyoga e começou a folheá-lo – Achei. Aqui está; gostei muito desse: "A vez".
Hyoga olhou. Lembrava de quando havia escrito esse poema.
- Eu gostei, particularmente, desses versos. – e apontou para os versos finais do poema:
"Ame um se quiser
Ame vários se puder
A escolha é sua
O coração é seu
Os rostos são muitos
E a vida, uma só.
O amor não tem hora marcada."
Hyoga estava lendo esses versos quando o celular de Ikki tocou. Era Shun:
- Oi, Shun. Sim, fui eu. Desculpa, devia ter te avisado. Estou com os papéis aqui, não se preocupe. Tá certo, já vou levar para você. Tudo bem, chego aí em uns 15 minutos. Tchau.
O executivo desligou o celular e viu que Hyoga ainda mantinha os olhos presos àquela página. Por ele, continuaria ali, mas tinha de ir, pois Shun havia chegado em casa e tinha se assustado ao ver que seus papéis tinham desaparecido.
- Bem... está na minha hora.
Hyoga finalmente levantou os olhos para Ikki. Era um olhar diferente, que Ikki ainda não tinha vislumbrado no rapaz loiro. Era um olhar bonito, cativante... decididamente singular.
- Tudo bem, eu também preciso entrar e fazer algumas coisas.
- Então... eu vou indo. – falava Ikki, sem saber ao certo como se despedir (ainda mais porque não desejava partir). – Shun está me esperando. – o executivo falou essa última frase muito mais para se lembrar de que precisava mesmo ir.
- Certo... Espero que tenha gostado do passeio.
- Ah, sim. Gostei muito, obrigado.
- Consegui me redimir pelo que ocorreu hoje de manhã? – falou Hyoga, sorridente de novo.
- É...Acho que dessa vez, conseguiu. – brincou Ikki.
E ficaram os dois a se olhar, sem ter mais o que dizer, mas sem conseguir se mover para irem embora.
- Ah! – foi Hyoga quem quebrou o desconfortável silêncio – Se quiser vir aqui amanhã, eu posso mostrar uns outros textos que já escrevi. Acho que ia gostar, já que elogiou tanto esses poemas velhos...
- Venho sim! – respondeu Ikki, tão rápido que se sentiu um pouco acanhado por demonstrar alguma empolgação – Porque... você sabe, eu estou à toa, então qualquer coisa que preencha meu tempo será bem-vinda. – disse, tentando não parecer tão interessado.
- Claro. Então, passe aqui de tarde, ok?
- Ok. Até lá, então.
- Até. E boa noite!
- Boa noite, Pato! Tchau!
E assim, Hyoga entrou em sua casa enquanto Ikki abria a porta de seu porsche. Sentado dentro de seu carro, um sorriso iluminou o rosto do jovem de cabelos azuis escuros. Deu a partida e foi para a casa do irmão, sentindo-se tão leve como nunca antes.
Continua...
N/A: Esses versos do poema "A Vez", que atribuí a Hyoga, pertencem a um poema que realmente existe e é de minha autoria.
Lua Prateada.
