N.A.: Once Upon A Time não me pertence. Obviamente. Se pertencesse, o Rumpel faria o papel de Grinch em um especial de natal. xD Todos os créditos aos senhores Edward Kitsis e Adam Horowitz e à ABC.
Mais um alô pro pessoal do grupo RumbelleBR, que me faz querer escrever mais e melhor =D
Gigantes agradecimentos à minha beta, Mellie, que despistou uma horda selvagem de crianças para me ajudar na fic xD Minha heroína.
Isabelle acordou em um susto, sentando-se no sofá e olhando em torno da sala escura. Uma dor forte martelava em sua cabeça e ela sentiu uma forte fisgada no pescoço ao se levantar, o preço a pagar por ter dormido de mau jeito. Ela piscou repetidamente os olhos, que ardiam, inchados do choro noturno. A dor rapidamente afastou a confusão nublada do sono e a recordou dos acontecimentos do dia anterior.
E o dia havia começado tão promissor... Isabelle fora almoçar com seu pai, como parte da reaproximação que lhe tinha prometido no hospital. Ainda havia uma mancha de mágoa entre eles, quando as lembranças da sua internação forçada angustiavam Isabelle. Mas ela estava tentando se reconciliar com essa parte de sua história e seguir em frente. Suas visitas esporádicas à loja de flores eram cada vez mais leves e agradáveis.
Naquele dia, porém, as coisas haviam sido bem diferentes. Ele tinha, de alguma forma, descoberto sobre sua recente proximidade com o Sr. Gold, e parecia bastante desagradado. Os protestos de Isabelle logo foram silenciados sob uma onda crescente de acusações contra ele.
Ela não conseguia conciliar a imagem que tinha do Sr. Gold com as atitudes que seu pai descrevia, mas sua insistência e a certeza com que ele falava eram marcantes. A história da surra que levara era especialmente perturbadora para Isabelle. Foi com o espírito angustiado que ela havia esperado a visita do Sr. Gold à noite. A conversa acabara sendo outro desastre.
As insistentes batidas à porta tiraram Isabelle de suas lembranças e ela percebeu o que a havia acordado. Ela olhou confusa para o elegante relógio de parede – presente dele de boas-vindas à nova casa. Já passava de duas da manhã. Ao abrir a porta, o ar frio da madrugada fez Isabelle arrepiar-se e ela esfregou os braços automaticamente. O Sr. Gold, protegido por um pesado casaco cinza, a encarou, hesitante.
"Desculpe o horário. Estava esperando que pudesse entrar para conversarmos..."
Ela se afastou para que ele passasse, surpresa.
"São mais de duas da manhã!"
"Eu sei. Desculpe, não consegui dormir. Não queria deixar o dia terminar daquele jeito..."
"Já passa de meia-noite. O dia já acabou." Ela respondeu secamente.
"Não queria que o dia começasse desse jeito, então."
Isabelle o avaliou em silêncio por alguns segundos. Ela não conseguiria simplesmente expulsá-lo novamente. Com um suspiro irritado, ela perguntou: "O que você quer aqui, Gold?"
"Eu vim trazer isto..." Ele lhe estendeu uma sacola que Isabelle não havia notado até então. Ela estreitou os olhos em uma curiosidade desconfiada. Ele estava muito errado se pensava que podia comprá-la com algum presente.
Ela suspeitosamente estendeu a mão para a sacola. De dentro dela, Isabelle tirou uma xícara de fina porcelana branca, de base azul com bordas douradas brilhantes. Ela se viu encantada pela delicada peça, repousando os olhos pelo desenho de leves traços azuis que enfeitava sua face e deixando seu dedo passar suavemente pela borda lascada da xícara. Ela notou que o Sr. Gold a observava intensamente, como se esperando alguma reação de sua parte, e girou a xícara nas mãos, intrigada.
"O que é isso?"
"Isso foi o que seu pai me roubou."
Isabelle lhe lançou um olhar inteiramente espantado.
"Meu bem mais valioso."
Ela notou o olhar de reverente carinho que o Sr. Gold direcionava à xícara. Com a voz desarmada, ela repetiu a pergunta: "E o que é isso?"
"Eu amei uma mulher. Há muito, muito tempo atrás. Isso, Belle, era tudo o que me sobrava dela."
Isabelle ficou admirando a peça entre suas mãos, tomada por um silêncio surpreso.
"Foi por isso que você foi atrás do meu pai?" Ela perguntou, finalmente.
"Não foi um movimento muito inteligente." Ele riu, tristemente. "Não costumo tomar atitudes que possam me levar à cadeia. Não abertamente, pelo menos. Não em impulsos impensados."
Isabelle franziu a testa diante da declaração, mas não comentou nada. Ele se aproximou dela e envolveu suas mãos e a xícara entre as dele.
"Acho que fiquei um pouco desesperado com o sumiço da xícara."
"Essa mulher... foi tão importante assim?"
"Mais importante que qualquer coisa."
Ela mordeu de leve o lábio inferior e o Sr. Gold pensou ver um leve reflexo de ciúmes nos seus olhos antes que ela voltasse a atenção para a xícara entre suas mãos, e ele quase teve que rir. Porque era ela mesma a mais importante que qualquer coisa. Era a verdade. E ainda assim, ele lhe deixara ir. Não, ele a expulsara.
Ele não podia perder seus poderes, é claro. Não porque eles fossem mais importantes que Belle, mas porque ele ainda precisava encontrar seu filho. Era essa a desculpa que repetira para si mesmo por anos. Mas ele sabia que não havia real justificativa para seus atos. Para tê-la maltratado e expulsado do castelo. Aquilo fora sua própria covardia, seu medo do que ela estava lhe oferecendo. E aquilo não iria acontecer de novo. Ele faria o que pudesse para tê-la ao seu lado.
"Sinto muito por seu pai."
Ela balançou a cabeça, em uma aceitação silenciosa das desculpas. Estranhamente, Isabelle já não conseguia julgá-lo como antes. O que ele havia feito era inaceitável, é claro. Mas não fora uma atitude fria e distante de um agiota. Não era o reflexo do homem sem coração que toda a cidade conhecia.
Suas atitudes eram muito humanas, profundas, ainda que mal direcionadas. Ao olhar no fundo de seus olhos, Isabelle podia ver podia ver o mar intrincado de sentimentos e pensamentos que sempre a fascinara. A angústia e intensidade que sentia nele a fizeram arrepiar-se.
"O que aconteceu com ela?"
"Eu a perdi" Ele respondeu, simplesmente.
"E, desde então, você não amou ninguém... e ninguém te amou."
"Até agora." Ele a olhou intensamente, e Isabelle sentiu borboletas dançarem em seu estômago. "Ela me fazia querer ser alguém diferente. Alguém melhor. E eu a perdi por ter medo de mudar." Ele passou os dedos de leve pelo rosto de Isabelle e a olhou intensamente. "Eu não quero que isso aconteça de novo. Belle, eu já perdi tanto que eu amava... Eu não quero te perder."
O coração de Isabelle parecia pular em seu peito, mas ela afastou o rosto ligeiramente.
"Você não pode fazer esse tipo de coisa e achar que não é nada..."
Ele deixou sua mão cair ao lado do seu corpo, com ar derrotado.
"Eu não sou uma boa pessoa, Belle."
"Eu vejo uma boa pessoa quando estou com você. Se você vai ignorar essa parte de você, é sua escolha."
Ele a encarou em silêncio, até que ela soltou um longo suspiro e segurou sua mão, puxando-o de leve.
"Venha, vamos para a cozinha." O Sr. Gold pareceu surpreso. "Essa conversa não acabou. Mas não vejo porque não podemos continuar com uma xícara de chá e um pedaço de bolo."
"Então... estamos bem?"
"Não. Mas acho que vamos ficar." Ela lhe deu um pequeno sorriso hesitante, e seguiu para a cozinha, ainda segurando sua mão.
Ela balançou a fumegante xícara nas mãos distraidamente, vendo um pequeno redemoinho se formar no chá.
"Certo... Comprar um bebê, hm?"
Ele franziu a testa.
"'Comprar' é um termo muito forte. Não foi isso que aconteceu."
"Então o que aconteceu, exatamente?"
O Sr. Gold pensou que seria meio difícil contar exatamente o que acontecera. Algumas adaptações teriam que ser feitas, dando mais destaque à versão falsa da história, criada pela maldição. Pelo menos ele não teria que explicar por que matara a fada-madrinha da Cinderella.
"Esse não foi um acordo que eu procurei fazer. A pobre garota estava perdida, ela implorou por ajuda. Ela foi bastante insistente, na verdade." Claro, ela não sabia que ele iria exigir seu primogênito... mas por que se ater a detalhes?
"Não deve ser fácil, naquela idade..."
"O pai da criança não queria se envolver. O avô só estava interessado em se livrar do problema. Ela estava sozinha."
"Entendo..."
"Você acharia que ela teria condições de cuidar da criança?"
"Parece que ela está fazendo um bom trabalho."
"Que bom. De qualquer forma, ela não estava em uma situação muito boa na época. Eu paguei suas despesas médicas e prometi encontrar um bom lar para a criança."
Isabelle mordeu o lábio inferior, pensativa. Aquilo não parecia mesmo uma 'compra' de um bebê.
"Ela acabou tendo sorte, então. Pôde ter ajuda durante a gravidez, e acabou ficando com a criança."
"Sorte? De certa forma..."
"Não precisava ter dificultado tanto quando ela mudou de ideia sobre ficar com o bebê."
"Quando eu firmo um contrato, é para valer. Meus acordos sempre são cumpridos. Ela deveria pensar bem antes de fazer um trato comigo. Antes de insistir por um acordo."
Ela estreitou os olhos, mas não disse nada. No fim, a história toda havia sido bem diferente do que seu pai havia pintado. Isabelle imaginava o que teria acontecido com a garota desesperada se o Sr. Gold não tivesse aceitado fazer o acordo.
"De qualquer forma, tudo acabou bem. A Srta. Swan me convenceu a mudar o acordo."
"Que bom." Ela ficou em silêncio por um minuto, e por fim riu, com um brilho quase brincalhão no olhar. "Suponho que eu não deva ter esperanças de você ter uma justificativa boa também para o pequeno show pirotécnico na prefeitura?"
"Uma justificativa, eu tenho. Não sei se você vai considerar 'boa'."
"Pois bem...?"
"A Srta. Swan precisava vencer a eleição para xerife." Ele deu de ombros, e Isabelle encarou-o ironicamente.
"Estranho, nunca soube que você e a Emma eram assim tão amigos."
"Eu gosto da Srta. Swan. Ela tem algo interessante de confiança... ou presunção. E não tem medo de mim." E era a salvadora, é claro. Ele riu para si mesmo. "De qualquer forma, esse não é o ponto. Eu não podia deixar a prefeita deitar suas garras sobre a força policial da cidade novamente."
"A prefeita? É esse o ponto? Qual é o seu problema com ela, algum tipo de disputa por poder?"
"Suponho que alguns possam ver dessa forma, mas não é bem isso. É bem maior. Mais antigo."
Isabelle pareceu intrigada por um instante, mas seu tom era chateado quando voltou a falar. "Não importa. Alguém poderia ter morrido, se o incêndio saísse do controle!"
"Oh, não havia perigo algum. Eu sei o que faço."
"Isso deveria me tranquilizar, então?! Que você 'saiba o que faz' quando se trata de um incêncio criminoso?"
Ela lhe lançou um olhar aborrecido, e ele soltou um suspiro frustrado.
"Belle, você não entende! Você não a conhece. Não sabe do que ela foi capaz. É capaz." Isabelle sentiu o peso de seu olhar angustiado sobre ela. Ele segurou sua mão sobre a mesa, como se precisasse se assegurar que ela estava mesmo lá. Finalmente, ele desviou o olhar e recostou-se na cadeira, soltando sua mão. "De qualquer forma, ela tem a cidade nas mãos... mas não será por muito tempo."
Isabelle não conseguiu reunir coragem para indagar mais sobre o assunto. Com um humor forçado, ela lhe sorriu. "Bom, pelo menos me diga que eu não preciso me preocupar com mais incêndios por aí por algum tempo."
Ele retribuiu o sorriso e colocou a mão sobre o peito com falsa cerimônia.
"Tem minha palavra, Srta. French. Sem mais incêndios por algum tempo."
"Que tal 'para sempre'?"
"Um passo de cada vez, querida."
Isabelle teve que rir.
"A que devo a visita?" Regina estampou um sorriso tão largo quanto falso, enquanto o Sr. Gold se dirigia a cadeira em frente a sua escrivaninha no escritório elegantemente decorado em tons de preto e branco.
"Vamos pular as falsas cordialidades, queridinha. Não estou com paciência hoje."
"Ora, ora, Rumpel! Estamos um pouco nervosos hoje?"
"Oh, sim, estamos. E acredito que você saiba por que."
"Não faço ideia." Ela juntou as mãos sobre a escrivaninha, avaliando-o com um sorriso cínico. O Sr. Gold trincou os dentes, lançando-lhe adagas com o olhar.
"Então você não sabe que o Sr. French resolveu apresentar a Belle seus... protestos... quanto a nossa relação?"
"Problemas com o sogro, Rumpel?"
"O mais curioso é que eu duvido muito que ele tivesse acesso a todas as informações que andou espalhando sobre mim. Não sem alguma ajuda, pelo menos."
"Você não está insinuando que eu...?"
"Já chega de brincadeiras! Não seria uma novidade para você usar o Sr. French para tentar me atingir. A única questão é: por que você faria isso? Não acho que você atrairia minha atenção desnecessariamente."
Regina lhe lançou um olhar cortante de desagrado.
"Muito bem. A verdade é que temos um assunto pendende. Você está em débito comigo, Sr. Gold."
"'Débito'? Eu estou em débito com você?"
"Sim. Se me lembro bem, um certo acordo foi firmado quando eu o ajudei a livrar-se de uma indesejável estadia na cadeia. E, no entanto, até agora nada de particularmente desagradável aconteceu à Kathryn Nolan. Bom, nada além de adultério."
"E você acha que eu lhe devo alguma coisa?! Depois de descobrir que você manteve Belle presa por três décadas? Queridinha, acredite, você está em débito comigo por ainda estar viva!" Ele deixou todo seu ódio escorrer em seu olhar e continuou, entre dentes cerrados: "Eu pensei que tinha deixado claro para você não interferir na nossa vida."
"Se eu me lembro bem, suas palavras foram 'não se aproximar dela' e 'não prejudicá-la'. E eu nem mesmo coloquei os olhos sobre sua garota depois que ela saiu do hospital! Agora, sobre prejudicá-la... Tudo que eu fiz foi alertar um pai atencioso sobre as escolhas perigosas que sua filha estava fazendo. Dificilmente isso pode ser classificado como prejuízo. Creio que posso dizer até que eu estava fazendo um favor a ela!"
"Se eu fosse você, eu tomaria mais cuidado com suas atitides, Vossa Majestade. Podem ter consequências indesejáveis." Ao seu tom frio de ameaça, o Sr. Gold viu um leve arrepio passar pela pele da rainha, mas a ela logo disfarçou com um riso falso.
"Um dia, você foi o homem mais temido de todos os reinos, Rumpelstiltskin. Mas hoje eu tenho o poder. Você é só um velho aleijado e amargurado. Não se engane, sua garotinha vai perceber isso, cedo ou tarde."
O Sr. Gold sentiu o ódio turvar sua visão, as articulações de seus dedos estavam brancas com a força com que ele segurava a bengala à frente do corpo, contendo-se para não atacá-la. Finalmente, respirando profundamente, ele se recostou na cadeira, ainda tremendo de raiva.
Com um sorriso venenoso, ele falou: "Por favor..." Diante das palavras, ele viu Regina congelar na cadeira, e um brilho de diversão cruel chegou ao seu olhar quando ele percebeu o pânico passar por ela. "Pegue uma maçã para mim." Ele apontou para a cesta de maçãs sobre a mesinha de centro, sem desviar o olhar por um minuto de seu rosto.
O corpo dela se retesou por um segundo, enquanto ela resistia ao impulso incontrolável da magia, antes de se levantar e voltar com uma bela maçã em mãos.
"Obrigado, queridinha. Sabe como é ruim para um velho aleijado ficar se levantando toda hora."
Ela abriu a boca para falar, uma expressão furiosa no olhar, mas ele a deteve com um movimento de mão. "Silêncio, por favor." Ele sorriu cruelmente diante da cólera impotente da rainha, de lábios firmemente fechado ao seu comando.
"Agora, eu vou lhe dizer como as coisas vão ser." Ele pausou para uma mordida deliberadamente lenta na maçã, aproveitando a ansiedade crescente nos olhos dela. "Eu vou honrar nosso acordo, sobre a Sra. Nolan. E você não vai mais interferir de forma alguma na vida de Belle, direta ou indiretamente. Estamos entendidos, Vossa Majestade?"
Ela acenou de leve, ainda incapaz de falar. O Sr. Gold colocou a maçã mordida sobre a mesa e levantou-se, curvando-se em gentileza cínica ao se despedir. "Tenha um ótimo dia."
Enquanto saía da prefeitura, ele pensou que já estava mesmo na hora de algo grande agitar as águas paradas de Storybrooke. A salvadora estava muito envolvida em pequenas picuinhas com a prefeita, mas já estava na hora das engrenagens da maldição voltarem a rodar. Se Kathryn Nolan tivesse que pagar o preço, que fosse.
