Disclaimer: Os personagens de GW não são meus… mas… Satoshi sim… eu criei e desenvolvi este personagem, bem como a historia.
Pairing: 1x2
Agradecimentos: A Aries Sin pelas dicas sobre recitais e a gentileza em estar sempre dando um help pelo msn; Anne pelo comentário (eu ainda não tenho seu e-mail pra responder suas reviews); e a Dhandara por ter a paciência de revisar o capítulo.
Eu acredito em uma loucura chamada "Agora"
O tempo flui, machucando meu coração
Quero viver
Não posso deixar meu coração me matar
Ainda não achei o que eu procuro
Capítulo 9
Satoshi não acreditava no que seus olhos estavam vendo. Anos… seis anos sem qualquer noticia; sem saber seu paradeiro; sem ter a certeza de que o garoto que conhecera em sua infância estaria vivo ou morto. E agora estava diante do próprio. E não estava enganado quando afirmava para si mesmo que aquele rapaz ali era Duo Maxwell; o mesmo melhor amigo que até hoje lamentava a ausência. Era ele sim… mais desenvolvido fisicamente, apesar de seu corpo continuar mantendo os traços delicados e esbeltos, mas os olhos violetas e os longos cabelos castanhos, mesclados por luzes que davam um tom bem mais claro aos fios, ainda na costumeira trança, não permitiam que se enganasse.
A confusão percorria sua mente, ao mesmo tempo em que emoções chegavam a arrebatar seu coração. Não sabia o que pensar… ou o que deduzir. Queria se aproximar, mas ainda sim resguardava-se. Duo estava diferente. Ele próprio não tinha certeza se o amigo o reconheceria se o visse. Além do mais, ele estava ali, beijando outra pessoa… um homem mais velho, que se vestia de forma impecável, assim como Duo… O que afinal acontecera? Estavam em Leiden na Holanda. Fizera com que seu pai o matriculasse numa escola no exterior para que pudesse estudar bem longe dele, e viver sua vida longe das mentiras e das lembranças que tinha, estando perto daquele homem, mas Duo… Duo havia desaparecido sem pistas. A esperança de reencontrá-lo havia morrido, mas era completamente insano vê-lo novamente ali; depois de seis anos, justamente no local que escolhera para se refugiar de tantas coisas.
Queria saber o que havia acontecido; queria conversar; queria poder abraçá-lo e entender o porque de estarem tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Infelizmente não se atrevia a se aproximar… não faria isso… não ali… naquele momento… nem naquele lugar. Ainda em sua mente vinha uma questão muito importante: Por que, se Duo estava bem durante todo esse tempo, nunca o procurara?
Era seu melhor amigo. Acreditava nisso, e sabia que era verdadeiro. Mas não chegava à sua cabeça qualquer compreensão que levasse ao motivo de Duo não ter buscado por sua ajuda quando o pai o molestara, e agora que via que o outro estava realmente bem, e muito bem por sinal, por que jamais lhe telefonara? Por que nunca deu noticias? Mesmo sabendo que ele estaria preocupado com seu bem-estar? Eram muitas perguntas e ele fazia questão das respostas.
Sobressaltou-se quando sentiu uma mão em seu ombro tirando-o de seu transe parcial. Olhou a figura a seu lado. Carey lhe sorria, e parecia não ter percebido para onde estivera seu foco de visão anteriormente, mas era difícil de saber, já que a garota era cega demais para ver algo que não fosse ele.
- O segundo ato já vai começar. – falou-lhe com um pouco de empolgação. – Como não voltava, vim procurá-lo.
De repente não se viu mais tão a vontade na companhia da colega. Ainda ponderava se deveria ir ou não abordar Duo. O recital já não lhe encantava tanto assim. Sua vontade de descobrir sobre a vida do americano; de falar com ele; havia sobrepujado qualquer outro interesse que pudesse existir além daquilo, àquela noite.
Voltou a olhar para a sacada onde tinha prendido sua atenção anteriormente e observou por um instante mais Duo e o homem, que agora não mais se beijavam, apenas conversavam. Em seguida voltou-se para a garota e acompanhou-a, voltando pelo caminho que levava até o teatro.
Satoshi não deixou que seu ímpeto guiasse a razão e o fizesse agir de forma precipitada. Quando se sentou de novo ao lado de Carey; apesar de escutar a colega falar sem parar a seu lado, sua atenção estava voltada para tentar ver quando Duo iria entrar e onde este se sentaria. Não demorou muito para que localizasse o rapaz, acompanhado do mesmo homem e agindo de forma mais discreta. Apenas caminhavam um ao lado do outro em direção a seus lugares e conversavam durante o pequeno trajeto. Uma pontada de mágoa surgiu novamente, quando Satoshi viu os sorrisos fáceis que Duo exibia ao que quer que fosse que o homem lhe dizia. Era estranho não ver nele nada do que imaginara quando ainda tinha esperanças de reencontrá-lo. Sempre pensou que o que acontecera teria deixado o amigo transtornado, traumatizado ou algo do tipo, mas Duo estava ali; sorrindo e agindo como uma pessoa normal, como se o passado que vivera não houvesse existido, e sorria sem reservas. Não entendia. Era certo que haviam se passado seis anos; muita coisa podia ter acontecido nesse período, e ele queria saber o que fora de tão magnífico que acontecera para Duo estar tão bem assim. Não que ele quisesse vê-lo mal, mas precisava entender o que diabos ocorrera.
A música do piano chegava a sua percepção, mas não conseguiu de modo algum apreciar o recital. Seu olhar estava fixo no jovem americano. De onde estava sentado tinha uma visão diagonal do lado em que Duo se sentara com seu acompanhante e isso lhe permitia que, por aquele pouco tempo, admirasse as mudanças que seu rosto sofrera. Este mantinha os mesmo traços finos. E os olhos, que pareciam realmente prestar atenção no musica no palco, continham um brilho diferente. Pareciam mais sérios do os do menino que lutara para protegê-lo dos arruaceiros em sua antiga escola no Japão.
De repente alguém ao seu lado aproximou o rosto e sussurrou:
- Ele é muito bonito, não é mesmo?
Satoshi desviou sua atenção para a pessoa e viu que era um dos colegas de Carey, com quem conversara um pouco no foyer e este parecia ter percebido que estava olhando para Duo de forma constante. Preferiu nada comentar, esperando que o outro rapaz deixasse o assunto morrer, mas não teve tanta sorte.
- Por uma quantidade alta de dinheiro você pode arrumar e ter sua vez com ele. – o outro continuou em seu tom baixo e olhando na direção de Duo e seu acompanhante.
Satoshi não entendeu, mas no fundo algo lhe apontou na mente e interessou-se pelo que o rapaz poderia lhe informar sobre seu antigo amigo de infância.
- Como assim?
Sentiu-se um canalha ao ver o outro sorrir; provavelmente imaginando que ele estaria interessado mesmo em Duo, mas esperou pela resposta e não foi algo que ele gostou de ouvir.
- Aquela belezinha ali trabalha para um dos mais bem freqüentados clubes de acompanhantes de Leiden. – ele falou com total certeza e conhecimento. – O cara que o está acompanhado é um magnata meio exibicionista, e sempre que tem eventos em que quer uma boa companhia, contrata esse rapaz. Se não me engano se chama Duo e o preço para uma boa noite de foda com ele é bem caro. Você pode encontrá-lo no Eclíptica, se estiver interessado.
Satoshi não conseguia processar direito o que aquele homem dizia. Era muito para poder aceitar tão repentinamente. Duo… o que mais queria era reencontrá-lo e ele estava ali; não muito distante do seu alcance, mas sua idealização de poder um dia estar novamente ao lado do amigo de infância, distorcia-se. Seis anos, e Duo havia se transformado em algo que jamais desejaria, pois não havia engano; o homem a seu lado acabara de lhe confirmar que era um acompanhante de luxo… um garoto de programa. Era uma punhalada estranha que sentia. Duo havia sumido todos aqueles anos e sequer se incomodara em avisar que estava vivo, e estava vivendo a vida na promiscuidade? Será que tinha se enganado tanto assim com o americano?
Existiam tantas coisas mal resolvidas e que aquela atual situação não ajudavam em nada a resolver, simplesmente porque uma raiva enorme começava a consumi-lo. Duo lhe mentira, fugira, e agora o encontrava bem e despreocupado. Todo aquele tempo criara uma falsa ilusão sobre o garoto de tranças. Sempre tendo-o na mente como alguém que precisava dele; alguém com quem ele falhara; mas agora percebia que não. Duo estava bem, e não parecia estar precisando em nada dele. O caminho que ele escolhera era exatamente o que mais condenava.
A continuação do recital passou como um borrão para Satoshi. Justo ele que adorava eventos como aquele, não conseguiu desfrutar nem um segundo da bela música que encantava a todos no recinto. A raiva e incompreensão o corroíam. Estava usando todo seu alto controle para não se levantar e abordar o americano. Para ele, não existiam desculpas ou explicações que pudessem lhe dar motivos para cessar aquela turbulência que se fazia em seus sentimentos.
Despertou de seu debate interno quando escutou os aplausos e viu que o recital havia chegado ao fim. Começou a aplaudir como os demais, e voltou a focar mais uma vez o olhar na direção onde Duo estava sentando e surpreendeu-se ao não vê-lo mais no local onde estava, bem como seu acompanhante. Ambos não haviam ficado para a peça final de agradecimento do pianista e, em sua mente, Satoshi podia até imaginar o motivo da saída apressada, afinal, segundo aquele colega de Carey, Duo se tornara mesmo um prostituto.
Ainda relutava em acreditar que pudesse ser verdade e ainda sentindo-se um pouco abalado por realmente ter reencontrado Duo.
- Satoshi, está tudo bem? – Carey perguntou um pouco preocupada ao ver que o amigo estava agindo de forma esquisita desde que voltaram para o segundo ato.
- Tudo ótimo. – ele respondeu, contradizendo seus próprios sentimentos.
-
O avião de Heero havia descido há poucos minutos no aeroporto. Satoshi tentava não aparentar seu descontentamento em estar ali, esperando por seu pai, mas falhava terrivelmente. Era de manhã cedo, mas apesar de sua aula na faculdade só começar a tarde, já estava preocupado em se atrasar. Ridículo, mas era algo que se acontecesse realmente poderia jogar a culpa em cima do pai e ser mais uma chateação em cima da pilha que já tinha em relação ao homem.
Estava encostado a uma pilastra, com os braços cruzados por sobre o peito. Vestia-se com roupas casuais. Trajava um jeans escuro, botas marrons, uma camisa azul de botões que estava devidamente coberta pela jaqueta jeans de cor marfim. Aquele dia havia amanhecido com o sol um pouco frio, e mesmo que viesse a esquentar depois, fazia necessário o uso de algo mais fechado.
Suspirou, passando uma das mãos pelos fios escuros de seu cabelo que haviam caído levemente sobre seu rosto e em seguida voltou a cruzar os braços. Não estava ansioso, ou nervoso, apenas chateado. Chateado por ter aceitado o pedido de Quatre em ser cordial com seu pai, e principalmente por, desde o dia do recital, não ter conseguido tirar Duo da cabeça.
Poderia ter abordado o americano no evento; ter falado com ele, exigido explicações… mas não o fez. Não queria agir precipitadamente, e tomar as coisas de forma errada. Permitiu-se um tempo para pensar. Aceitar que Duo verdadeiramente estava vivo e bem. E assimilar o que aquele homem, amigo de Carey, havia lhe contado. Era tão irônico que chegava a ser engraçado. Tanto tempo passado e se reencontravam na Holanda, onde descobria que seu melhor amigo viera a se tornara um garoto de programa. Mas especulava se aquilo era verdade ou não. O homem poderia ter se enganado ou mentido. Pouco provável, mas iria averiguar com toda certeza, pois mesmo se confirmasse o que lhe havia sido dito, queria conversar e ver Duo novamente.
Ver Duo novamente era mais do que um sonho se realizando… mas não naquelas circunstâncias.
Não demorou para que o portão de desembarque abrisse e as pessoas começassem a entrar no saguão, e não foi difícil logo encontrar seu pai vindo em sua direção… acompanhado de Solo? Quatre havia lhe contado que o pai vinha para uma reunião com alguns clientes, mas geralmente quem o acompanhava era Trowa.
Bem, parecia que as coisas poderiam ter mudado, afinal não tinha muito contato com o pai desde que deixara o Japão, poucas eram as vezes em que ia visitá-lo, e Solo havia se tornado um funcionário muito próximo. Pelo menos uma coisa boa que o pai havia feito para se redimir da besteira toda que fora seu caso com Duo: dar ao irmão dele uma chance de estabilizar-se profissionalmente na empresa. Mas no fundo via aquilo como uma forma de abafar seu caso com um menino menor, e vinte e três anos mais novo do que ele. Só de lembrar desse fato a raiva começava a corroer -lhe, por isso resolveu afastar as recordações, ou corria o risco de não tratar tão bem o pai quanto Quatre esperava.
Heero, logo que localizou o filho no meio da pequena confusão deixou que um leve sorriso tingisse seus lábios. Fazia quase um ano que não se encontravam, Satoshi só voltava mesmo para casa no final do ano, e, mesmo assim, toda vez que o revia, percebia as mudanças que o tempo trazia. Com vinte anos, Satoshi estava um homem formado e tinha que concordar com Quatre que seus traços, as feições de seu rosto, ficaram por demais parecidas com as dele. Mas os cabelos, que sempre deixara cair na altura do pescoço, lhe davam um diferencial. Conseguindo algumas mudanças de comportamento por parte de Satoshi, via-o facilmente levando os negócios na empresa. Só precisava convencê-lo, e por isso pedira que Solo viesse e conversasse com ele.
O americano tinha um certo conceito nas opiniões de Satoshi. Desde o sumiço de Duo, o filho mantinha-se sempre em contato com o loiro, e uma amizade crescera durante os anos. Apesar de Solo não agir por influência de ninguém, concordara em ajudá-lo, pois aceitara seu ponto de vista de que para Satoshi seria melhor seguir um caminho que já estava estabilizado para ele, do que o de se arriscar sozinho naquela aventura. Sim; porque em sua sincera opinião, chamava estudar Arqueologia, de aventura ou de loucura. Não lhe entrava na cabeça o fato de Satoshi estar gastando seu tempo estudando algo tão sem sentido, quando poderia estar focando seus conhecimentos para algo que viesse a contribuir no futuro, quando fosse assumir seu lugar. Mas tinha certeza que mudaria a idéia do filho, de um modo ou de outro.
- Como tem passado, Satoshi? – Heero perguntou enquanto dava um breve abraço no filho, que para sua surpresa foi correspondido.
- Muito bem. - ele respondeu, em seguida cumprimentando Solo. – Vocês parecem bem também.
Heero estava um pouco ressabiado com a atitude do filho, mas sabia que quando voltasse teria que agradecer a Quatre, pois desconfiava que o amigo teria uma parcela de culpa em todo aquele ato cordial do filho.
- Vamos. Eu os levo até o hotel. – Satoshi se ofereceu recebendo um olhar intrigado de Heero.
- Qual é, Heero? – Solo falou descontraído. – Não vai querer pegar um táxi, com o Satoshi de carro aqui, não é mesmo?
Heero tinha sim a idéia de chamar um táxi, mas pelo simples fato de já estar acostumado a isso. Não ligara a idéia do filho já dirigir.
- Claro que não. – disse já vendo uma leve contrariedade no olhar do filho. – Vamos.
Satoshi quase pensou que o pai não aceitaria a idéia de entrar num carro guiado por ele, mas acabou surpreendido com a reação positiva. Para ele não mudava muita coisa, mas pelo menos ele não estava demonstrando a tão comum demanda, que era uma característica que jamais vira Heero Yui abandonar.
Ele guiou, em seu carro, seu pai e Solo até o centro de Leiden, onde os levou até o hotel em que já haviam feito as reservas. Era um dos melhores hotéis da cidade e não poderia esperar por menos, vindo de seu pai. Este não se contentava com pouco, mas quanto a isso, não lhe dizia respeito criticar. O pai vivia o estilo de vida que sua condição financeira permitia e ele, por sua vez, pretendia, assim que se formasse, viver conforme suas próprias condições lhe proporcionassem. Não tinha intenção de ficar dependendo monetariamente da conta bancaria de seu pai e muito menos trabalhar para ele. Independência total das amarras que tinha era o que queria, e não duvidava de sua capacidade em conseguí-la.
Não quis subir até os quartos e decidiu por despedir-se na recepção do hotel mesmo. Já havia feito o papel de bom filho por um dia.
- Agora que vocês já estão bem acomodados, eu tenho que ir. – disse, sentindo-se bem aliviado com aquelas palavras de despedida. Tinha enfim passado no primeiro teste.
Heero olhou-o com estranheza. A verdade era que queria ter um pouco mais de tempo, principalmente para que Solo pudesse conversar com ele.
- Já? – perguntou com seu tom quase critico.
Satoshi conhecia aquele jeito de falar. Heero Yui não estava satisfeito por querer escapulir tão cedo.
- Eu tenho aula e preciso ir até em casa arrumar as coisas para não chegar atrasado. – desculpou-se, otimista de que não precisaria insistir com sua desculpa para não permanecer ali.
Heero ponderou e Solo, vendo o olhar quase frustrado de Satoshi, resolveu interpelar.
- Continua aplicado como sempre, não é mesmo, Sato? Já que está com pressa agora, não se incomoda de quando eu tiver um tempo livre ir visitá-lo, certo? – disse o mais cordial possível.
Satoshi quase soltou um suspiro aliviado, mas manteve a postura e apenas assentiu.
- Claro que não me incomodo. Me telefone e a gente marca. – disse agradecendo mentalmente ao loiro.
Heero até que não achou a idéia ruim. Talvez fosse mesmo uma boa idéia que Solo conversasse sozinho com Satoshi, assim ele não pensaria que era uma artimanha sua para poder trazê-lo para a realidade.
- Eu entro em contato com você depois então, Satoshi. – deu sua liberação para que o filho fosse embora. – Ficaremos alguns dias, por isso ainda teremos um bom tempo para conversar.
Satoshi deixou um sorriso que não chegava a seus olhos aparecer, e em seguida, com uma breve despedida, deixou o saguão do hotel.
No caminho para o carro, pensou em Solo. Queria poder contar ao americano sobre o irmão mais novo. Contar que finalmente tinha-o encontrado, mas com seu pai por perto, não achava uma boa idéia. Além do mais, primeiro queria conversar diretamente com Duo; ter certeza de que este realmente estava trabalhando como garoto de programa, e entender tudo o que se passara durante os anos em que estiveram separados. O por quê dele nunca ter procurado por ele ou até mesmo ao próprio irmão. Antes disso, não abordaria Solo com o assunto. Era melhor esperar.
-
Satoshi saiu de seu apartamento em um horário que achou adequado para poder chegar ao tal local em que o colega de Carey havia lhe indicado, como sendo o lugar onde Duo trabalhava. Tinha esperanças de não encontrá-lo lá, como também tinha de poder voltar a vê-lo novamente para que pudessem conversar. Não fora difícil conseguir o endereço de onde ficava o tal club.Na Holanda, a exploração da prostituição era algo comum; era uma profissão legalizada. Mesmo assim, para ele, era promiscuo e errado. Não acreditava que vender o corpo para obtenção de dinheiro pudesse juntar respeito e satisfação financeira. Talvez seus costumes, ou até mesmo a situação que vivera, conhecendo Duo e descobrindo que este se vendia para seu pai, o fizessem ter aquele tipo de concepção, mas nada no mundo o faria aceitar aquela condição como algo comum e digno.
E se Duo estivesse mesmo envolvido com isso, não sabia se seria capaz de aceitar.
Chegou ao local, e a primeira coisa que notou foi a confirmação de que se tratava de um lugar de pompa. Não era um club de acompanhantes qualquer. Era elegante. E ao primeiro olhar, não se diria que se tratava de um local onde era promovida a prostituição.
Sentou-se em uma mesa que estava vazia e não demorou para que uma das atendentes viesse abordá-lo.
- Tem preferência por alguém, ou posso indicar uma boa companhia para você?
Satoshi olhou para a moça loira, vestida insinuante demais para uma atendente, e por um momento ficou confuso no que realmente poderia dizer a ela. Estava à procura de seu amigo e não de diversão, mas se ele estava mesmo trabalhando ali, só teria um jeito de conseguir sua atenção.
- Eu gostaria de poder conversar com Duo. – pediu, sentindo um certo nervosismo quando viu a moça franzir o cenho. Por um segundo pensou que ela lhe chamaria de maluco e que ali não tinha ninguém com aquele nome.
- Você realmente tem bom gosto e sorte, rapaz. Duo acabou de chegar. – ela lhe deu uma piscadela e acrescentou: - Vou avisá-lo.
Satoshi sentiu seu coração descompassar, e um misto de contentamento e decepção o invadiu. Iria mesmo falar com Duo, mas naquelas circunstancias.
A atendente se afastou e ele tentou manter apenas a certeza de que queria conversar com o americano. Poderia descobrir assim os motivos dele estar trabalhando naquele lugar. Mas primeiramente queria saber o que tinha acontecido. Estava desde aquela noite do recital buscando em sua mente as mais variadas situações para que Duo não tivesse ao menos tentado entrar em contato com ele, e não conseguiu encontrar nenhuma que justificasse realmente aquela falta de consideração para alguém que se dizia ser seu melhor amigo. Alguém que na última vez que vira tinha partilhado seu primeiro beijo.
-
Duo ainda estava no escritório conversando com Treize quando Noelle bateu na porta e entrou. Ela sorriu-lhe de uma maneira que ele já sabia bem o que significava. Sentado na beira da mesa do amante, ele lhe piscou e perguntou:
- Qual mesa?
- Quatro.
Duo olhou para Treize e deu-lhe de ombros com um sorriso malicioso e, com um pequeno impulso, desceu da mesa.
- Eu quero ver o que você vai fazer quando eu exigir minhas férias.
Treize meneou a cabeça displicente e respondeu:
- Provavelmente aproveitar nas minhas férias o que os tolos que aqui freqüentam não poderão estar desfrutando.
Duo riu, dando-lhe um leve beijo na boca e ainda com o rosto próximo ao dele, contradisse:
- Temos um impasse, pois acho que quem vai estar aproveitando então sou eu, T-chan.
Treize se conteve para não puxar Duo para outro beijo e apenas permitiu que o amante se afastasse, com aquele sorriso malicioso e cativante nos lábios. Ficou observando seu andar gracioso e provocante, até que deixasse seu escritório na companhia de Noelle, e relembrou que o quê conquistara não fora aquela malícia e jeito sedutor que ele esbanjava por onde quer que fosse. O que o atraíra em Duo num primeiro momento fora a carência e fragilidade do menino que acolhera em uma das ruas de Tóquio. Um menino que se tornara dependente dele, e o seduzira de forma inocente. Deixara-se envolver, e hoje não se arrependia de ter feito de tudo por ele. Duo hoje era independente, e nada lembrava daquele menino encolhido e amedrontado, que tirara de um beco. Isso só o deixava ainda mais orgulhoso e fascinado.
-
Duo caminhou sem pressa até a mesa que Noelle havia lhe indicado. Sorrindo para alguns clientes conhecidos, e deixando que outros o admirassem, enquanto seguia para seu destino. Era totalmente consciente da atenção que atraía, e completamente satisfeito com isso. Quando se aproximou da mesa quatro, onde seu cliente o esperava, estranhou ao ver o perfil do jovem; que estava com a cabeça baixa e parecia um tanto concentrado em pensamentos. Não era nenhum dos clientes com quem já estava acostumado a ser requisitado ou que já tivesse visto freqüentando o club. De qualquer forma, não era incomum aparecerem novos clientes, vindos por indicação de algum freqüentador.
- Boa noite. – cumprimentou antes de fazer qualquer movimento para se sentar, deixando-se ficar de pé em frente à mesa.
Satoshi sentiu um arrepio ao escutar a voz rouca, e tentou assimilar com a do garoto de seis anos atrás. Era uma comparação que chegava a perceber de longe. Uma certa semelhança. Era sim a mesma voz, só que mais forte, mas ainda assim, podia sentir a mesma vibração da voz de Duo.
Levantou o rosto.
O que sentira no recital quando o identificara pela primeira vez, sequer se comparava a intensidade do que era estar diretamente encarando o rosto; o olhar que estava agora bem diante de si. Os cabelos mais claros devido às luzes nos fios castanhos, a roupa: um jeans preto justo e um colete branco, que mantinha-se aberto deixando a mostra as marcas de seu abdômen, e os braços onde os leves músculos ressaltavam-se. Os olhos violetas que assombravam seus pesadelos e sonhos estavam mais vivazes do que nunca, e naquele momento compartilhavam de um sentimento pelo qual ele fora abatido quando o reencontrara no recital.
- Boa noite, Duo. – respondeu ao cumprimento, mantendo a voz fria e controlada, mesmo que por dentro sua única vontade fosse poder abraçá-lo.
Duo, num primeiro instante tentou assimilar se quem ele estava vendo à sua frente era mesmo quem estava pensando. Estava na Holanda. O Japão era um sonho distante, mas aquele rapaz ali era parecido demais com…
- Satoshi Yui. – deixou o nome do rapaz brincar em seus lábios juntamente com um sorriso irônico.
Grande ironia do destino. Uma piada que ele não via graça alguma, mas que também não deixaria que o abalasse. Era alguém que ressurgia de seu passado. A pergunta era: E daí?
Acomodou-se, sentando-se na confortável poltrona, e deixando-se ficar de frente para o jovem, que há muito tempo não via nem ouvia falar. Não era burro. Sabia que aquele encontro não era acidental, caso contrário, não teria sido requisitado pelo nome.
- O mundo dá voltas, ou esse encontro aqui não é obra do destino. – disse, tentando não perder o humor em sua voz.
Satoshi, mais uma vez, se viu pego de surpresa. Não havia sido assim que imaginara uma reação de Duo. Ele estava agindo como se fosse um reencontro comum de colegas de colégio que se separaram e não se viam há muito tempo. Estava agindo como se muito não houvesse a se explicar ou o que tivesse acontecido no passado não tivesse importância.
Tentou continuar agindo com frieza.
- Não é uma coincidência. – confirmou, achando difícil olhar diretamente para os novos traços do rosto do amigo e não esquecer o motivo do por quê estava no club. – Eu vi você no recital dias atrás, e descobri onde trabalhava.
Um dos atendentes interrompeu momentaneamente a conversa.
- Querem algo para beber? – ele perguntou.
Duo olhou para Satoshi como se perguntasse a mesma coisa, e o oriental resolveu fazer um pedido:
- Uma cerveja e você? – perguntou para Duo.
- Pode me trazer o de sempre, Harper. – pediu, mantendo o sorriso jovial.
O jovem atendente se retirou e Duo voltou sua atenção para Satoshi, analisando-o por um momento. Estava bonito; com os traços do rosto mais marcantes, e mesmo que ainda mantivesse os cabelos pretos naquele estilo mais despojado, seus olhos e feições lembravam de forma gritante o pai.
- Você me viu no recital, você descobriu onde eu trabalhava, e daí? – perguntou displicente. – Sentiu saudades? Vontade de colocar a conversa em dia?
Satoshi franziu o cenho, estranhando a atitude do americano. E deixou-se fugir da postura controlada.
- Duo, você desapareceu durante anos. – ele acusou, colocando uma das mãos em punho em cima da mesa. – O que aconteceu? Por que nunca tivemos noticias suas?
Duo não demonstrou, mas aquele assunto o incomodava. Eram lembranças que não fazia questão alguma de relembrar, ou de contar para o rapaz a sua frente. Que diferença isso faria agora? Queria que o sofrimento continuasse onde estava. Em algum lugar perdido no fundo de sua mente.
- Foi por isso que veio até aqui? – perguntou com um falso tom de incredulidade. - Queria me cobrar explicações sobre o passado? – pelo olhar que Satoshi lhe encarava meio sem palavras, nem precisava esperar pela resposta e permitiu-se rir por um momento, e em seguida debochou: - Aposto que esperava lágrimas e abraços calorosos seguidos de uma historiazinha triste da vida do pobre Duo e de como ele veio parar na Holanda, e justamente vendendo o corpo pra ganhar a vida. Acertei?
Satoshi começava a se perguntar se aquele era mesmo o Duo que conhecera. Se aquele era o mesmo garoto que lhe confidenciara sobre tantas coisas e que era incapaz de magoar propositalmente quem quer que fosse; pois naquele momento, ele estava sendo magoado e não via nem um tom de remorso na voz do outro rapaz que indicasse que não era proposital. Aonde fora parar o Duo Maxwell a quem tanto prezava ter como amigo?
- Duo, isso não é uma piada. – disse num tom severo. – Você sumiu, deixou todo mundo preocupado, me deixou esses anos todos imaginando que poderia estar morto quando pelo jeito estava vivendo muito bem e despreocupado longe de tudo.
A raiva por aquelas palavras queimou em seu âmago. "… Vivendo muito bem e despreocupado?" – indagou a si próprio com uma amargura e ódio que não chegavam aos seus belos olhos violetas, que mantinha acompanhando a expressão de displicência em seu rosto.
- Não sabia que você continuava tomando as coisas pela parte superficial como elas se apresentam, Sato.
Satoshi iria replicar, quando o atendente voltou com os pedidos, colocando a cerveja e a dose de licor de anis sobre a mesa. Com um sorriso, deixou-os mais uma vez a sós.
- E eu pensei que te conhecia melhor do que isso.
- Eu também faço essas palavras minhas. – Duo rebateu imediatamente, tomando um pouco da bebida que tanto apreciava.
Satoshi estava vendo a conversa girar em círculos e começava a perceber que Duo evitava lhe responder diretamente qualquer pergunta ou insinuação. Ele parecia não se importar com sua opinião e mantinha aquele ar de deboche e superioridade que estava irritando-o imensamente.
- Por que quando seu pai te violentou você não me ligou? – perguntou sem perceber a mão de Duo se fechar com mais força em torno do copo que apoiava na mesa. – Por que não me procurou, Duo?
Duo estreitou os olhos e apoiando os braços por sobre a mesa, quis saber:
- Quem foi que te contou isso?
"Esquivando-se mais uma vez". - Satoshi pegou o trançado novamente evitando responder diretamente.
- Matsuo. Ele foi a mando de meu pai até a sua casa para te buscar quando invadiu e viu tudo.
"Então foi o motorista…" – Duo finalmente ficou sabendo. Ele não se lembrava do rosto da pessoa que o livrara do corpo daquele homem sobre o seu, e agora descobria que tinha sido o motorista dos Yui. Mas não queria buscar por aquelas lembranças, não fazia a mínima questão de aprofundar aquela parte da conversa. E tentou arriscar um modo de quebrar aquele interrogatório do amigo.
- E como vai o seu pai? – deixou seu tom soar sutil, mas com visível interesse, mesmo que no fundo não existisse nenhum. – Como está Heero?
Satoshi estava no limiar de seu auto-controle. Duo fugia de responder à suas perguntas, e sem mais nem menos o que lhe interessava era saber sobre seu pai? Sórdido, foi a única palavra que conseguiu pensar naquele momento, para encaixar-se a atitude do americano, que parecia ansioso para saber sobre o homem a quem se vendia quando ainda tinha quinze anos.
- Por que, Duo? Está pensando em fazer algum dinheiro mais uma vez com o velho? – disse imitando seu tom de ironia e tentando jogar o mesmo jogo.
Ele deu de ombros e inclinou-se sobre a mesa, para falar em confidencia.
- Quem sabe? Seu velho pagava bem e eu admito, fazia sexo como ninguém.
Satoshi ficou chocado e com ódio daquela pessoa a sua frente. Depois de tudo… depois de ter acontecido tudo aquilo, veio a pergunta a sua mente que mais lhe incomodava: Seria possível que Duo ainda pensasse em seu pai?
A situação se tornara divertida para Duo. Estava gostando de arrancar as reações que via no rosto de Satoshi, que desistira de tentar se manter impassível por um momento. Talvez aquele reencontro não tivesse sido tão ruim afinal e queria testar uma teoria.
Satoshi viu Duo se levantar e se afligiu por um instante, pensando que este estava indo embora, mas sentiu-se inconfortável quando este rodeou a mesa e sentou-se na poltrona a seu lado, apoiando um dos braços no encosto atrás dele e ficando próximo o bastante para que sentisse o cheiro doce da bebida que Duo havia ingerido.
- Será que os anos fizeram com que ficasse tão bom quanto seu pai, Sato? – indagou num tom baixo e sedutor, olhando diretamente nos olhos azuis. Os lábios a centímetros dos do oriental.
Satoshi foi invadido pelo ímpeto de jogar Duo longe pela pergunta cretina que este lhe havia feito, fugindo totalmente do contexto da conversa que pretendia ter. Infelizmente seus pensamentos travaram quando antes que pudesse reagir, os lábios macios de Duo colaram-se aos seus e uma de suas mãos tocou sua face fazendo um leve carinho, deslizando por sua têmpora, onde entrelaçou os dedos nos cabelos do lado de sua cabeça.
Duo buscava os lábios do antigo amigo sem pressa, provando de forma serena e deliciando-se quando recebeu uma resposta. A boca de Satoshi começou a movimentar-se junto com a sua, e uma mão forte posicionou-se abaixo de sua trança, agarrando-se aos cabelos de sua nuca.
Satoshi pegava-se desprovido de suas resistências e permitiu-se corresponder a súbita investida de Duo. Beijava-o com vontade agora, mas sem pressa. O gosto do anis que pairava na boca do americano, agora invadia a sua, enquanto sua língua o instigava e desafiava.
Aquele momento o fazia esquecer do resto e se lembrar das incontáveis vezes que sonhara em ter o amigo daquele jeito. Que desejara poder beijá-lo daquela forma, e jamais permitir que se separassem novamente.
Duo se pegou excitado com a situação, com o beijo. Não previra uma reação própria, apenas queria saber se Satoshi continuava com a mesma paixonite tola de antigamente, e a forma como ele o estava beijando… carinhoso, mas com uma volúpia contida, que poderia se partir a qualquer momento… o calor que sentia emanar de seu corpo, faziam-no querer experimentar mais do que aquele beijo com o oriental. Não era louco, ou coisa do tipo, mas não se negava a satisfazer suas próprias necessidades sexuais, não importava quais fossem.
- Vamos para um lugar mais confortável. - Duo murmurou entre o beijo, querendo ter mais privacidade para aproveitar tudo o que podia.
As palavras de Duo, ditas em meio ao beijo, de contra seus lábios, trouxeram mais realidade a mente de Satoshi. Que merda era aquela que estava fazendo? Simples: havia se deixado seduzir pelas artimanhas do americano; que conseguira evitar todas as suas perguntas, e ainda parecia querer fazer comparações. Não fora isso que insinuara antes de beijá-lo? Saber se era tão bom quanto o pai? Duo estava enganado se pensava que conseguiria brincar com ele como fizera antes de desaparecer.
Duo definitivamente não prestava. Nunca prestara.
Afastou-o bruscamente de si, observando com raiva e ao mesmo tempo desejo, o belo jovem à sua frente, ofegante e com os lábios avermelhados pelo beijo que a pouco dividiram. Um ímpeto insano de retomar o beijo e esquecer todo o resto invadiu-o, mas refreou-se mantendo os pensamentos em ordem.
- Acho que esse beijo já deu para você ter uma idéia se posso ser tão bom quanto meu pai ou não. – disse meneando a cabeça, com disfarçada satisfação, para excitação evidente na calça justa que Duo vestia.
Duo não se deixou abater. Desceu a mão, acariciando por cima da calça, o próprio sexo endurecido, como se ajudando a aliviar um pouco da excitação que sentia e ao mesmo tempo vendo que instigava Satoshi.
- Confesso que esperava receber uma atenção mais completa, vindo de você. – insinuou com uma feição travessa.
Satoshi concentrou-se na traição que sentia ter passado, para assim não sucumbir e agarrar o americano.
- Você não vai conseguir nada comigo, Duo. – afirmou levantando-se. – Evitou me responder, e é obvio que todo esse tempo eu fui enganado por você. Aquele garoto que eu imaginava ser ingênuo, sensível e, acima de tudo, meu amigo, nunca existiu. – viu o rosto de Duo não se alterar nem um milímetro do sorriso irônico que usava. – Um belo manipulador é o que eu concluo agora que você seja; e sempre foi Duo Maxwell. Lamento ter perdido meu tempo preocupando-me com você.
Satoshi tirou o dinheiro da carteira e jogou sobre a mesa, deixando-a em seguida.
Duo ficou observando Satoshi deixar o estabelecimento e sorrindo debochadamente falou para ninguém:
- O prazer foi meu.
-
Notas:
Duo está estranho? Well… algumas explicações sobre o passado dele aparecerão no próximo capítulo.
