9 - A morte observa?
Quando Apareceram na sala de estar dos Creevey, Harry notou, que desde a sua visita anterior, todos os móveis tinham sido empurrados contra a parede. Justin Finch-Fletchley estava de pé no canto perto da porta. Ele olhou com surpresa para a maneira em que haviam chegado. George deixou imediatamente o braço de Harry, Ginny manteve os braços em volta do pescoço e olhou-o nos olhos.
"Foi a minha primeira vez", ela sussurrou com voz rouca. George engasgou-se. Harry riu.
"Então espero que tenhas gostado", sorriu, "já me podes largar Ginny".
"Mas não me apetece", respondeu-lhe suavemente.
"Rápido, saiam daí, os outros irão Aparecer nesse sítio, vão para a cozinha, por favor", Justin advertiu em pânico.
George saiu rapidamente do local. Justin olhou preocupado para Harry e Ginny.
"Vamos Ginny", disse Harry. Ela soltou-o e saíram da sala.
"Boa ideia afastar os móveis, bom trabalho", disse Harry a Justin quando passou por ele.
"E Justin", acrescentou, "O Colin sabia o que estava a fazer, todos nós sabíamos, e todos fizemos as nossas escolhas. Ele escolheu voltar a Hogwarts, assim como escolheu ficar e lutar, apesar da Professora McGonagall o ter mandado ir embora. Não tiveste culpa por ele ter morrido".
Deixando Justin sem resposta, Harry seguiu Ginny pela porta da sala de estar para o corredor estreito ladeado de portas. Harry sabia pela sua visita anterior que o corredor ia dar directamente à cozinha. A porta da cozinha estava aberta e Ginny esperou por ele antes de entrar.
"Estás pronto?" Ginny fungou com tristeza. O estado de espírito dela, assim como a expressão na sua cara, tinham mudado, "vamos lá despedir-nos do Colin". Sorriram melancolicamente um para o outro e Harry pegou na mão estendida com luvas de renda de Ginny.
Quando entraram na cozinha, George já estava a cumprimentar os pais e o irmão de Colin, Dennis. Harry cumprimentou os pais de Colin e apresentou Ginny como a sua namorada.
"Eu reconheço-te das fotos do Colin", disse Mrs. Creevey, Ginny respondeu com um sorriso triste, "ele comentava que eras muito fotogénica".
Olhando pela janela Harry podia ver que a casa, embora pequena, tinha um jardim traseiro comprido, e nele estavam já mais de duas dezenas de adolescentes.
"A maioria dos colegas do Colin já chegou", explicou Dennis a Harry enquanto Ginny conversava com os pais dele, "chegaram mesmo há pouco de autocarro. Como nenhum aprendeu a Aparecer o ministro forneceu-lhes Chaves de Portal e concentraram-se num celeiro abandonado numa quinta e o Justin alugou um autocarro".
O Dennis Creevey que Harry se lembrava era muito parecido com o irmão, pequeno, entusiasta e excitável. Apesar da idade, catorze ou quinze anos, o rapaz de fato e gravata pretos com quem estava a conversar parecia ter apenas doze.
"Todos nós tivemos que crescer demasiado depressa", disse Harry observando o irmão de Colin. Dennis olhou para ele surpreso.
"Eu preferia que não tivesse sido necessário," continuou Harry, "tantas pessoas boas perderam a vida por causa dum louco. Temos que fazer o que está ao nosso alcance para ter a certeza que não volte a acontecer".
Harry de repente percebeu que Ginny, Mr. e Mrs. Creevey ficaram em silêncio, quando ouviram as suas reflexões.
"Peço desculpa", Harry virou-se para Mr. e Mrs. Creevey, "estava apenas a pensar em voz alta". Fez uma pausa, "eu realmente sinto muito pela vossa perda. O Colin merecia uma vida, uma vida boa. Ele…"
"Mr. Potter", interrompeu bruscamente Mr. Creevey, "o Colin quando regressou a casa no primeiro ano, contou-nos sobre o grande Harry Potter, e, eu não fiquei impressionado. Pensei que era apenas um convencido, alguém que era famoso e usava a fama apenas para proveito próprio. Mas você provou-nos o contrário, tanto no fim-de-semana passado com ontem de manhã. Você é um homem melhor, de longe, do que eu pensava que seria. Sinto muito também e obrigado". Ele estendeu a mão e deu um passou-bem a Harry.
Harry não sabia o que dizer. Ele foi salvo pela chegada de Luna, Hermione e Ron. Hermione e Luna pareciam estar discutindo. Quando Mr. e Mrs. Creevey se viraram para cumprimentá-los, Ginny agarrou a mão de Harry.
"Vamos lá para fora", ela sugeriu, "apresento-te alguns dos meus colegas".
Harry olhou para o jardim. Três degraus conduziam para um pequeno pátio pavimentado. O relvado estendia-se até uma parede de pedra, atrás da parede havia arbustos grossos, e pelo som de água a correr, um rio. Esperou na porta para Ginny passar, mas ela insistiu que ele fosse à frente.
Quando Harry deu um passo para o pátio Ginny parou no degrau acima. Com as botas, era quase tão alta quanto ele. Ela agarrou-o no ombro, rodando-o, aproximou-se e beijou-o levemente na testa, depois deu um passo ao lado dele. Todos os alunos do sexto ano ficaram a olhar para eles.
Os colegas de Ginny estavam divididos em pequenos grupos, pareciam algo nervosos. Quando olhou para eles, Harry conseguiu distinguir sem dificuldade os puro-sangue, eles estavam visivelmente desconfortáveis em usar as roupas Muggle mal ajustadas ao seu corpo. No grupo maior, Harry reconheceu Jack Sloper, e muitos outros que não se lembrava do nome. Aparentemente todos os colegas de Ginny dos Gryffindor compareceram. Alguns membros de outras casas, se bem que em menor número, estavam também presentes. Uma rapariga alta de óculos feios de aro preto e com um vestido preto demasiado comprido estava sozinha. Estava visivelmente triste. George estava também sozinho e com o olhar um pouco perdido.
"George", chamou Ginny, "anda conhecer os meus colegas".
Sem grande vontade, George arrastou os pés no chão com as mãos nos bolsos para se juntar a eles. O bom humor que tinha de manhã desapareceu completamente. Ginny e Harry foram ao encontro dele e Ginny passou a mão livre pelo braço do seu irmão. Ela então levou-os até à rapariga solitária, que parecia horrorizada por irem a caminhar na sua direcção. Ela recuou para os deixar passar, quando pararam ao lado dela, baixou o olhar e corou.
"Olá", disse Ginny, "Fenella, este é o meu irmão George, e este é o Harry".
"Olá Fenella", disse Harry. George apenas grunhiu.
"Olá", Fenella sussurrou, olhando, como todos fazem, para a testa de Harry para encontrar a cicatriz, baixando novamente o olhar.
"A Fenella estava no clube de fotografia com o Colin, trabalharam muito juntos. O Colin tinha muita consideração por ela, disse-me uma vez que era a fotógrafa mais talentosa da escola".
"A sério?" sussurrou Fenella. Finalmente conseguiu levantar o olhar.
"O Colin era melhor, muito melhor que eu", disse ela, entre lágrimas, abanando a cabeça.
Harry observou-a com cuidado, ela estava obviamente afectada com a morte de Colin, mas parecia preocupada, possivelmente, até mesmo com medo, sobre algo. Seria simplesmente por estar perto "d'O Escolhido", ou…
"Foste tu que forneceste ao Colin o material fotográfico?", arriscou Harry.
Com isto, Fenella explodiu em lágrimas.
"Desculpa não compreendeste", Harry entrou em pânico, "o Colin não contou a ninguém, eu apenas supus, foste muito corajosa".
"Ele morreu...", soluçou, "a culpa foi minha".
"A culpa não foi tua, a culpa é de quem o matou", Harry frisou.
Ginny abriu a bolsa e tirou um lenço. Quando fez isso, Harry percebeu que o seu Avisoscópio estava a detectar algo. Assustado, olhou em volta, mas não viu nada. Olhou então desconfiado para Fenella, ela parecia estar realmente magoada e certamente não parecia ser uma ameaça.
George afastou-se assim que Fenella começou a chorar e estava agora a falar com Ron, Hermione e Luna, que tinham acabado de chegar ao jardim. Ginny virou-se para Harry e, com um simples olhar, indicou que devia ignorar o Avisoscópio por agora, e deixá-la por alguns momentos a lidar com Fenella, que ainda chorava.
Harry dirigiu-se ao grupo dos Gryffindor e para a única pessoa de quem se lembrava do nome. Jack Sloper cumprimentou-o efusivamente e apresentou-o aos restantes colegas de Ginny. Harry prontamente esqueceu todos os nomes quando se encontrou a ser bombardeado por perguntas.
"Tu e a Ginny voltaram a namorar?" perguntou uma rapariga de rosto redondo.
"Sim", respondeu alegremente.
"Vais voltar para a escola no próximo ano?", perguntou outra rapariga, aparentemente chateada com a resposta anterior.
"Não", respondeu Harry.
"Então a Ginny vai voltar a ser capitã de Quidditch?" perguntou Jack.
"Vocês chegaram a jogar?" Harry estava incrédulo.
"Apenas jogámos um jogo, Gryffindor contra Slytherin. Escusado será dizer que perdemos, o Amycus Carrow foi o árbitro. Seja como for aquele jogo deu problemas a mais ao Snape e aos Carrow. Eu voltei à equipa como Keeper", continuou Jack.
Sloper tinha sido um beater medíocre, perguntou-se se seria melhor Keeper.
Uma rapariga loira, querendo obviamente mudar de assunto, perguntou: "Por que é que a Ginny está com aquela Slytherin arraçada de gigante?"
Instantaneamente Harry percebeu por que Fenella estava de pé sozinha. A rapariga loira estava a olhar para ele com os olhos semicerrados. Uma parte dele gritou "Slytherin", no entanto Colin tinha confiado nela, e ela admitiu ter fornecido ao seu amigo o equipamento que tinha ajudado a salvar dezenas de Nascidos-Muggle. Um Slytherin parecia um suspeito lógico. Harry olhou friamente para a loira. A atitude dela trouxe desagradavelmente memórias de Romilda Vane, ele não ficou impressionado com o seu uso de "arraçada de gigante" como um insulto. Ele olhou-a nos olhos.
"O Colin era amigo da Fenella, e ela fez o esforço de vir até aqui. Provavelmente sozinha. É a única Slytherin presente?"
Uma das outras raparigas assentiu.
"Bem", Harry continuou, "então foi muito corajoso da parte dela. Era amiga do Colin, sendo assim é bem vinda!"
"Se, como suspeito, ela correu o risco de ajudar o Colin enquanto esteve escondido, ela é completamente de confiança".
A resposta deixou a rapariga loira completamente envergonhada e incapaz de olhar para ele. Vários outros alunos estavam igualmente embaraços. Olhando para Fenella e Ginny, Harry viu que Luna se juntou a elas, os brincos dela estavam a abanar como doidos enquanto ela tentava enxotar algo invisível da cabeça de Fenella provavelmente wrackspurts. Ele voltou-se de novo para os Gryffindor.
"Aprendi a parar de julgar as pessoas apenas pela aparência há um par de anos atrás", disse-lhes.
"Lee!" Gritou George.
Harry virou-se e viu que o amigo de George, Lee Jordan, tinha chegado. Tinha chegado com Angelina Johnson, Alicia Spinnet, Katie Bell e a sua amiga Leanne.
"Com licença", disse aos colegas de Ginny, "preciso de falar com uma pessoa".
Harry dirigiu-se a elas, enquanto Lee e George caminharam na direcção um do outro. Angelina parou, tentando decidir se seguia Lee ou Katie.
"Leanne", disse Harry, estendendo a mão, "bem-vinda ao clube".
Leanne Cowper corou.
"O-obrigada", gaguejou. Katie parecia envergonhada pela sua amiga.
"Pelo amor de Deus, Leanne", ela suspirou, "é só o Harry".
Ele sorriu, "sou apenas o Harry".
"Ele não morde", disse Katie.
"Harry?" disse Angelina quando se aproximou.
Angelina abraçou-o e beijou-lhe a bochecha. Alicia sorriu, deu um passo para a frente, e fez o mesmo.
"Obrigado", Harry resmungou.
"Eu não vou ficar de fora", disse Katie, ela abraçou e beijou Harry também, em seguida, olhou para Leanne, que deu um passo apressado para trás. Ele estava a começar a se sentir envergonhado, as chasers estavam todas sorrindo para ele.
"Estás diferente", disse-lhe Angelina, "menos preocupado, o que não é surpreendente na verdade, voltaste a andar com a Ginny?"
Harry assentiu.
"Ainda bem, onde está o Oliver? Ainda não o vi."
"Ele não pertenceu ao ED", respondeu Katie, "para além disso ele não conseguia vir, não sabias que foi ele quem encontrou o Colin?"
Angelina abanou a cabeça.
"Coitado do Colin, como está o Dennis? E como está o George?" Angelina perguntou, piscando os olhos para conter as lágrimas.
"Ambos estão como seria de esperar", Harry franziu a testa e olhou em volta.
George ainda estava com Lee Jordan, que tinha um braço em torno do seu ombro, os dois jovens olharam para Harry e as quatro raparigas. Ginny e Luna, tinham-se juntado ao resto dos colegas dela, acompanhadas por Fenella. Ron e Hermione estavam de pé, afastados de todos, eles não tinham sequer falado com alguém.
"O George sente muito a falta do Fred", continuou Harry, "todos nós sentimos".
As quatro jovens mulheres assentiram tristemente.
"Por momentos ele esquece-se", Harry disse-lhes, "mas não por muito tempo. Ele parece ficar melhor quando encontra alguém para gozar. Da minha parte não me importo".
"Por que é que ele goza contigo?" Katie perguntou curiosa.
"Principalmente por minha causa", Ginny respondeu dando a mão a Harry, "vocês deviam ir falar com ele, ele precisa da companhia de amigos".
Quando ficou ao lado de Ginny, Harry ouviu novamente o alerta do Avisoscópio. Ele olhou em volta pensando.
"Não é a Fenella?" murmurou.
Ginny abanou a cabeça. "Começou a dar sinal quando vim para aqui", sussurrou-lhe ao ouvido. Harry olhou desconfiado para Leanne, mas ela tinha acabado de chegar.
"Provavelmente um falso aviso devido ao número de pessoas aqui", considerou Harry.
As três chasers e Leanne estavam juntas num pequeno círculo fechado.
"Que se passa ali?" murmurou Harry.
"Devem estar a falar do George", Ginny disse-lhe em voz baixa, "A Angelina andou com o Fred durante algum tempo, até que ele perdeu o interesse. A Alicia andou com o George mas gostava era do Fred mas a Alicia passou grande parte do ano com o Lee, e eu acho que eles andam. Mexericos".
Harry na verdade não percebeu nada mas assentiu com a cabeça na mesma.
"Tu não fazes mesmo ideia como funcionam as mulheres, pois não?" brincou ela.
"Sei quem é a minha namorada", ele sussurrou, "que mais há para saber?"
Ginny sorriu, em seguida, acenou para a porta da cozinha. Hannah Abbot, Susan Bones e Ernie MacMillan tinham chegado. Harry começou a levar Ginny em direcção deles, mas ela parou, soltou a mão e virou-se para o grupo de Leanne.
"Depois vou ter contigo", disse-lhe, "vamos meninas, vamos lá animar o George" e enxotou-as para a direcção do seu irmão.
Harry discutia Execução das Leis Mágicas com Susan, que parecia muito interessada em seguir a mesma carreira que ele, quando o próximo grupo chegou. Terry Boot, Michael Corner, Anthony Goldstein e Cho Chang desceram os degraus da cozinha juntos. Os homens dos Ravenclaw pararam no pátio, olhando para a multidão no jardim. Cho sorriu timidamente e acenou para Harry. Ela parecia muito bonita com uma saia preta curta e um casaco preto. Os seus longos cabelos brilhavam ao sol enquanto caminhava graciosamente em direcção a ele. Enquanto Cho se aproximava, Harry sentiu um braço em volta da cintura, Ginny estava de volta ao seu lado. Ele olhou para baixo para ela.
"A Tabitha está zangada contigo", Ginny informou-o.
"Tabitha?" Harry lutou para se lembrar de quem era Tabitha.
"A loira, ela não estava à espera que o grande Harry Potter pudesse defender uma Slytherin", Harry encolheu os ombros e virou-se para cumprimentar Cho. Para sua surpresa ela tinha parado a alguns metros e olhava para eles atentamente.
"Oh… olá, Cho", disse Ginny, como se tivesse acabado de notar a outra rapariga.
"Como estás?" perguntou Harry.
"Estou bem e tu?" Cho respondeu, um pouco seca, Harry pensou.
"Eu estou…" Harry ia dizer feliz mas a palavra não parecia adequada às circunstâncias.
"... novamente sem palavras". Ginny terminou a frase por ele.
"Ele está bem agora. Não é Harry?" Ginny disse a Cho, Harry assentiu com a cabeça.
"Ele passou por momentos difíceis, todos nós passámos, mas vamos superar juntos, não é?" ela continuou, descansando a cabeça no ombro de Harry.
"Vocês dois estão juntos novamente?" Cho perguntou, Harry assentiu a cabeça novamente, perguntando quantas vezes mais seria feita essa pergunta.
"Na verdade nunca nos separámos", Ginny frisou.
Cho e Ginny estavam concentradas uma na outra, ambas sorrindo educadamente. No silêncio desconfortável Harry ouviu novamente o aviso fraco do seu Avisoscópio vindo da bolsa de Ginny. Ele olhou em volta, Fenella agora estava com Luna. Eles estavam no meio do jardim relativamente isolados. Não era ela, não poderiam ser os Ravenclaw e não poderia ser Cho, eles ainda não tinham chegado quando o Avisoscópio começou a dar sinal.
Ele olhou ao redor do jardim, quase toda a gente estava aqui. Neville e Dean Thomas tinham acabado de chegar. Eles iam em direcção de Harry. Dean olhava para Ginny, Neville estava sorrindo para Harry. Então Harry viu algo que o fez dar um apertão involuntário na mão de Ginny. A sua reacção foi suficiente para fazer Ginny tirar os olhos de Cho. Elas ainda olhavam uma para a outra, Harry percebeu.
"Parvati", Harry sussurrou.
Parvati Patil, e a sua gémea, Padma, ambas vestidas com um sari branco, destacando-se dos seus amigos estavam no topo das escadas. Atrás delas vinham Seamus Finnigan, e Justin Finch-Fletchley.
"Preciso de falar com ela", continuou. Ginny soltou-o.
Harry cumprimentou brevemente Neville e Dean e encaminhou-se na direcção dos recém-chegados.
"Parvati", Harry sussurrou, ela virou-se e olhou para ele vendo o choque e preocupação no seu rosto.
"Sinto muito pela Lavender, sei que era a tua melhor amiga, não merecia ter morrido, principalmente daquela maneira".
"Obrigada Harry", Parvati respondeu tristemente, "não merecia ter morrido, mas ela iria sofrer muito se sobrevive-se, as feridas não iriam curar".
Harry pensou por momentos na rapariga um tanto tola e sentimental que foi Lavender Brown, ela era alegre e gostava de ser o centro das atenções, tendendo a reagir de forma extrema a situações do quotidiano, seja a rir ou chorar histericamente. No entanto também demonstrou coragem para enfrentar as forças de Riddle na última batalha, para além disso, foi das primeiras a juntar-se a Neville na clandestinidade.
"Lamentamos também pelo Fred", Parvati olhou para a irmã quando falou, "sabemos que eram quase família".
"Obrigado", respondeu Harry, o barulho duns saltos altos atrás dele e o aroma de flores alertou-o que Ginny se aproximava. Quando ele se voltou para trás viu que ela tinha a cara muito séria.
"Olá Parvati e Padma", disse Ginny, "vinha cumprimentar-vos, mas preciso de falar com o Harry".
"Ele é todo teu", respondeu prontamente Parvati.
Harry assustou-se com o tom das palavras de Parvati. Havia algo na maneira como tinha falado. Era como se ela estivesse reconhecendo a posse de Ginny, ao invés de apenas permitir que interrompe-se uma conversa.
Harry e Ginny afastaram-se um pouco de todos. Ginny apontou para a bolsa.
"Tens a certeza que isto está a funcionar bem?" murmurou.
Ele abanou a cabeça, conseguia ouvir o aviso cada vez mais alto quando ela se aproximou, finalmente percebeu, não era a Fenella nem a Cho, era Ginny, cada vez que ela se aproximava dele o Avisoscópio alertava. Ele olhou para ela, deu um passo em frente, abraçou-a sussurrou-lhe ao ouvido:
"É por causa de mim não é?"
"Sim", ela murmurou.
"Eu preciso que tu cries uma diversão longe de mim", ele sussurrou. Ginny empurrou-o, deu-lhe uma bofetada e correu fingindo chorar para um espantado Michael Corner.
"Michael", ela gritou em voz alta, "preciso de falar contigo sobre o idiota do Potter".
Harry ficou tão assustado que quase perdeu a oportunidade. Recuperando, enfiou a mão no casaco e num movimento fluído tirou a varinha do bolso.
"Homenum revelio", murmurou.
Ali! Pensou triunfante, atrás da Ginny.
Quando olhou, viu um movimento perto de Ginny. Não estava invisível. Reconheceu o alvo imediatamente, silenciosamente lançou um feitiço para imobilizar o corpo. O feitiço atravessou o jardim, aparentemente parando a meio do ar. Ele aproximou-se do sítio com a varinha sempre apontada para o chão.
Começaram a surgir berros.
"O que aconteceu?"
"O que aconteceu ao não se puder usar magia?"
"Harry!"
"C'um caraças", ecoou em todo o jardim.
A maioria dos membros do ED já tinha a varinha pronta, mas permaneceu em silêncio observando Harry. Ginny também já tinha tirado a sua, assim como o Avisoscópio da bolsa. Ela virou-se, ignorando o ainda mais confuso Michael, e correu em direcção a Harry.
"Calem-se!" ordenou Harry, os berros pararam abruptamente. O único ruído era o aviso do Avisoscópio, ficando cada vez mais alto.
"Invisível?" perguntou Ginny.
Como Ginny apontou a varinha em direcção dele, Harry percebeu que alguns dos presentes apontaram também a varinha para ele, a sério que estão a pensar que vou enfeitiçar a Ginny? Ginny apercebeu-se do mesmo e apontou a varinha para o chão.
"Não", respondeu Harry. Deu dois passos para a frente, olhando com cuidado para o chão.
"Aleijaste-me", disse a Ginny, com tristeza esfregando a bochecha.
"Querias uma diversão", Ginny respondeu em voz alta o suficiente para todos ouvirem, "apenas tiveste aquilo que me pediste".
"Não deixem os Muggles saírem de casa", Harry ordenou. Ouviu um movimento atrás dele mas não se preocupou em virar-se, ele sabia que alguém tinha obedecido. Ginny deu-lhe um beijo na bochecha magoada.
"Onde?" perguntou ela, Harry apontou para um pequeno pedaço de grama, à primeira vista indistinguível do resto do relvado.
"Hermione?" Harry chamou, percebendo que iria precisar da sua ajuda.
"Quando nós estivemos na Casa dos Gritos com o Padfoot e o Moony, eles usaram um feitiço para revelar o Scabbers, lembraste qual foi?"
"S-sim, c-claro", gaguejou Hermione. Harry estava preocupado, ele precisava da verdadeira Hermione, não da rapariga nervosa e fraca que voltou da Austrália.
"Então vem aqui por favor", ordenou-lhe, "sabes lançá-lo?"
"E-eu acho que sim", ela balbuciou enquanto se aproximava lentamente.
"Agora, Hermione, AQUI! Eu preciso de ti agora!" Harry estava a ser bruto com ela, ele sabia, e o Ron não tardava a vir em sua defesa a qualquer momento. Como previsto, Ron deu uma inspiração curta.
"Calma Ron, eu preciso da Hermione", implorou Harry.
"Mas…" começou Ron.
"Cala-te Ron!", sussurrou Ginny, Hermione estava ao lado de Harry.
"Olha com atenção", Harry insistiu apontando com a varinha para um ponto no relvado.
"Para o quê?" Hermione perguntou confusa.
Harry deu um passo em frente e agachou-se baixando a varinha mais perto do chão. Hermione seguiu o movimento e o olhar de Harry, com algum esforço finalmente viu.
"Ai a vaca!" ela guinchou. Levantou-se rapidamente com um propósito claro, e acenou com a varinha. Um flash de luz azul e branco caiu no relvado, excepto que ele não atingiu apenas o relvado.
Harry teve que dar um passo atrás quando um besouro* rapidamente foi crescendo e apareceu aos olhos de todos. Após a transformação, uma forma familiar e indesejável apareceu.
"C'um caraças! É a Rita Skeeter!" Exclamou Ron.
"Tens que me ensinar esse feitiço, Hermione", disse Harry, "muito útil, obrigado".
O Exército de Dumbledore deu um passo em frente cercando a repórter imobilizada.
"Muito bem, Harry", Ginny sussurrou.
* Algumas traduções em Português Europeu referem erradamente Rita Skeeter como abelha na sua forma animagus.
