Disclaimer: Os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumada e a ele todos os direitos são reservados. Mas a personagem Sofia e os parentes do miro são de minha autoria, portanto podem ficar a vontade para utilizá-los, desde que eu seja previamente comunicada e inserida no disclaimer! Músicas incidentais: Final Feliz (Jorge Vercillo) e Quase sem Querer (Legião Urbana).
O QUE PODE MUDAR A SUA VIDA?
Capítulo VIII – Falsos passos
Há alguns dias que o Santuário não recebia visitas e a calmaria continuava, trazendo-nos o desconforto de estranhos pressentimentos. Estava a meditar fora da casa de Áries, sentindo a brisa fresca daquela tarde nublada. Alguns soldados aproximaram-se com passos apressados. Mesmo de olhos fechados, pude notar que atrás deles seguia uma energia feminina conhecida e indaguei-os polidamente.
- Precisando de algo, amigos?
- Senhor Mú, há uma jovem chamada Sofia que insiste em subir para falar com o dourado de Escorpião. Já explicamos que não é possível, mas...
Abri os olhos, enquanto sorria e a buscava entre os homens de Athena. Agora eu conseguia recordar-me daquela sensação pacífica que aquela menina transmitia, parcialmente apagada naquele instante por uma angústia crescente em seus olhos negros.
- A entrada dela está liberada pela senhorita Kido. Podem deixá-la passar, eu mesmo a acompanharei até Escorpião.
Os soldados rasos afastaram-se receosos e pude vislumbrar Sofia, trajada com um colete rubro sobre uma blusa escura, uma calça-corçaria jeans e um par de All Stars da mesma cor que o colete. Seus cabelos estavam soltos, deixando o lado esquerdo de seu rosto parcialmente coberto por alguns cachos.
- Olá, Mú.
- Já faz tanto tempo.
Ela sorriu timidamente, com o olhar muito distante, mas nada respondeu.
- Você está bem? Miro não tem trazido boas notícias de seus familiares.
Ela suspirou pesadamente e ficou extremamente séria, mantendo a cabeça baixa.
- Estou bem, dentro do possível.
Chega de fingir
eu não tenho nada a esconder
Agora é pra valer
haja o que houver
Aproximei-me para estender-lhe a mão, notando que além de pálida, ela estava trêmula.
- Está tremendo. Venha e sente-se um pouco, vou trazer um copo de água.
- Não. É melhor eu...
- Eu insisto. Miro vai preocupar-se em vê-la assim.
Ela cedeu, receosa e entramos na casa de Áries. Deixei-a no sofá e busquei um copo de água na tentativa de acalmá-la. Percebendo o aroma suave que saía do local; após beber um gole de água, apontou-me a porta do quarto.
- Incenso?
- Tenho o costume de acender de vez em quando. Se estiver lhe incomodando posso...
- Almíscar... Meu favorito.
Ela nitidamente tentava disfarçar o nervoso que sentia, mas suas mãos tremiam tanto que acabou derrubando o copo que segurava.
- Ai, Mú, me desculpe! É que não consigo parar de tremer, sinto muito! Eu recolho tudo isso num instante e...
- Deixe aí, depois eu recolho. Feche um pouco os olhos e respire devagar por um tempo, vai ver como funciona.
Sofia seguiu meu conselho e apertou a mão que lhe ofereci. Suspirou profundamente várias vezes e uma lágrima escorreu pela sua delicada face durante o processo. Com todo aquele silêncio, era possível ouvir, mesmo que muito baixo, fortes acordes tibetanos. Aos poucos, estes sons e vozes pareceram ajudá-la a acalmar-se. A menina enxugou a lágrima com as costas da mão e abriu os olhos devagar, em um último suspiro profundo.
- Está melhor?
- Sim, obrigada.
A menina soltou minha mão, sem jeito e levantou-se tentando desconversar.
- Que música maravilhosa você está ouvindo, não tinha reparado nela até agora.
- Se gosta de música tibetana posso lhe emprestar alguns cds, são ótimos para meditar.
- Imagino que sim. Qualquer dia desses aceitarei o empréstimo.
- Agora que está mais calma, diga-me se devo intrometer-me.
- Ah, não é nenhuma novidade. Não se preocupe.
- Problemas muito sérios em casa?
- Muito sérios. Nem sei como cheguei aqui.
- Fugiu, ou se impôs aos seus pais?
- Se impor é um bom sinônimo para grande falta de respeito, consideração e obediência, rs.
Não tô nem aí
eu não tô nem aqui pr'o que dizem
eu quero ser feliz
e viver pra ti
- Não deve ter sido tão grave.
- Foi... Mas eu tinha que vir.
- Compreendo. Já tem forças para subir?
- Sim, vamos.
A caminhada foi silenciosa e apesar de os outros dourados terem tentado puxar conversa no caminho, também respeitei a vontade dela em se preservar até chegarmos na 8º casa.
- Aqui estamos.
- Obrigada. Prometo que da próxima vez venho sozinha, para não incomodá-lo.
- Se fizer isto, os outros dourados farão fila para acompanhá-la, acredite. Não é incômodo algum.
Miro saiu à porta, percebendo nossa presença e acenou silenciosamente na minha direção. Aquele era o recado para que eu saísse sem perguntas.
- Oi, Miro.
- Não devia estar aqui.
- Não era bem esta a reação que eu estava esperando...
Sofia sorri sem graça e coloca as mechas de seu cabelo atrás da orelha, revelando uma grande marca vermelha na face. Escorpião aproxima-se para examinar a mancha e fica visivelmente indignado, deduzindo o que teria ocorrido.
- Diga que não foi seu pai que lhe fez isso.
- Não foi meu pai que fez isso. Pode me cumprimentar agora?
Sofia não estava somente muito séria, estava magoada e indisposta demais para dialogar sobre o assunto.
- Não devia ter fugido, Sofia.
- Não fugi. Posso entrar?
- Claro, desculpe... Estou preocupado em vê-la assim.
Entraram rapidamente, Escorpião com a consciência pesada por tê-la tratado com rispidez em um momento crítico. Pegou um pouco de gelo e colocou sobre o rosto dela, com ar preocupado. Ela pareceu ficar emburrada e suspirou no meio de uma careta.
- Você vai querer que eu conte tudo.
- Acho que tenho um certo direito de saber o que houve.
- Não quero falar sobre isso.
- Se me contar o que houve, não tocamos mais no assunto. Mas se não contar, vou ter motivo pra ir até a fazenda tirar satisfação com o tio Egídio.
- Isso é chantagem.
- Não vou a lugar algum. E assim você fica parada para eu colocar gelo nessa pancada, antes que fique pior.
- Hunf...
- Não precisa contar tudo. Só a pior parte.
- Bem a parte que não quero contar.
- Vamos, não me deixe com raiva do tio, sem saber por quê.
- Espero que eu finalmente ganhe uma recepção mais calorosa depois de contar.
Miro riu-se, sem graça por ter esquecido daquele "pequeno" detalhe por conta da sua preocupação. Passou a outra mão pelas mechas de cabelo dela e sorriu carinhoso.
- Nem precisava pedir, é que eu fiquei tão atordoado que... Desculpa, amor. – e beijou-lhe no topo da cabeça.
Pode me abraçar sem medo...
pode encostar sua mão na minha
Outro suspiro, seguido de um gemido, por conta da compressa gelada. Só depois de alguns longos minutos é que ela finalmente resolveu falar.
"- Papai, quantas vezes vou ter que insistir para que o senhor entenda?! Há mais de três meses que o Miro tenta falar com o senhor e você o coloca fora daqui!
- Não tem o que insistir. Não vai tornar a vê-lo e eu não tenho nada o que conversar com aquele maldito!
- Já falei pra nunca mais chamá-lo assim!
- Pois repito que chamo aquele insolente do que eu achar melhor!
- Pois então se ele é um maldito, eu sou a maldição que ele despejou na tua vida, não foi?! E agora vem com esta história maluca de querer que eu me case com o imbecil do Aquiles ou com o esbanjador do Tales, pra se livrar dessa maldição!
- Não me diga um absurdo desses! Eu só quero o que é melhor pra você!
- Não, o senhor está fazendo o que é melhor pra você! O que falta pra você nos entender, pai?! Eu já disse que...
- Não me falta nada! Vocês dois já me deram desgosto o suficiente por uma única vida. Volte lá para o quarto e desista de me fazer mudar de idéia, vai se casar com um dos dois e portanto, trate de escolher, antes que eu o faça!
- Não pode me obrigar a fazer isso! E muito menos impedir que eu o veja.
- Então trate de ser bem cautelosa para que eu não descubra, pois eu acabo com a raça de vocês dois! Agora trate de subir para o quarto, não te dei ordem para sair!
- Eu não vou mais ficar trancada nesta casa e esconder o que eu sinto! Quer vocês gostem ou não, eu o Miro estamos namorando e eu não vou me casar com nenhum idiota que esteja de olho na herança do meu tio!!!
- Está pedindo que eu a coloque para fora desta casa, menina ingrata?
- Você não faria isso, pois morre de medo que eu vá morar com ele.
Em resposta a ousadia da menina, o que se segue é um pesado tapa no rosto. Indignada com a atitude violenta do pai adotivo, Sofia contém suas lágrimas com dificuldade, ferida muito mais por dentro que em sua face. O silêncio é o que revela o arrependimento do pai e a imensa tristeza da filha, que não consegue pronunciar mais nenhuma palavra. Ela tenta fugir, mas é segurada fortemente pelo braço esquerdo.
- Pouco me importa o que você pensa que devo ou não fazer, mas eu não vou deixar que minha filha se transforme numa vadia sem rumo! Ele nunca vai poder dar um futuro pra você e vai acabar fazendo-a sofrer ainda mais!
As lágrimas desciam livremente pela face de Sofia, que desejou por aqueles longos segundos, que sua audição lhe fosse arrancada.
- Então é isso, pai? Eu sou uma vadia e o senhor quer limpar o seu nome, fazendo eu me casar logo?! Que nojo de você, pai! Tenho nojo de você!
Tentou desvencilhar-se outra vez, notando que o próprio pai estava prestes a chorar.
- Eu só não quero que você sofra, Sofia! Entenda de uma vez que não quero que sofra! Não vê que a única coisa que o Miro tem pra te oferecer é sofrimento?!
- Me solte, seu nojento!
Sofia soluçava desesperada e o pai acabou soltando-lhe o braço por vê-la daquele jeito.
- Eu odeio você! Eu odeio!!!
Sofia correu para a porta desesperadamente.
- Esta não é a minha filha! Se sair por esta porta está sentenciando a sua...
- E você não é, nem nunca foi o meu pai! – e bateu a porta, saindo sem rumo pelas ruas sem conseguir parar de chorar."
- Eu não sabia o que fazer, nem pra onde ir... Eu não tinha nem força nas pernas depois daquelas coisas horríveis que ouvi e que eu disse! Não sei como, nem por onde saíram aquelas palavras. Então pensei... que talvez fosse minha última chance de ver você, depois do que fiz. Por sorte, o Mú autorizou minha entrada e me tranqüilizou bastante antes de eu subir mas... eu nem queria ter te contado nada disto. Sei que vai odiar o meu pai e até tem certa razão pra isso.
Sofia terminara sua narrativa com os olhos marejados e Miro, embasbacado com a gravidade da discussão, a observava boquiaberto, incapaz de dizer palavra.
- Ai, meu rosto tá congelando!
Miro retira a compressa de gelo do rosto dela meio assustado, mas permanece calado. Incomodada com o silêncio, Sofia baixou o rosto com o olhar distante.
- Eu precisava enfrentá-lo, Miro. Se eu continuar obedecendo-o cegamente, nós nunca vamos resolver isto. Do jeito que são todos teimosos, não vão aceitar por conversa, ou explicações... Não adianta ficarmos esperando a boa vontade deles, assim nunca vamos ficar juntos.
- Difícil admitir, mas talvez tenha razão. Mas não precisava ter chegado a ponto de...
- Foi ele que me ofendeu primeiro! Você sabe o que significou pra mim, ouvir o meu pai me chamar de vadia? Consegue ter uma idéia de como eu estou me sentindo? Meu pai tem vergonha de mim, Miro! E o pior de tudo, é que eu não fiz nada!
- Se virem que não desistimos, vão acabar acostumando. Cedo ou tarde.
- Já é tarde!
Meu amor,
Deixa o tempo se arrastar sem fim
- Não fique chateada. Apesar de estar furioso pelo que ele fez e disse, você sabe melhor do que eu, que ele disse aquilo da boca pra fora, pois é muito impulsivo e teimoso.
- Igualzinho a alguém que eu conheço.
- Temos te dado péssimos exemplos.
- Não quero mais falar disso. - E pegou a compressa nas mãos, seguindo até a cozinha para deixa-la na pia.
Miro a seguiu e aproximou o rosto do dela, segurando-lhe o queixo entre os dedos.
- Nunca te vi tão nervosa, sabia? Não precisa ficar desse jeito. Você mesma diz que não resolve...- beijou-lhe o queixo carinhosamente. - Fica calma, já passou.
- Tá só começando Miro. – respondeu decepcionada.
Mas Miro não queria mais tocar no assunto. Só tinha olhos para aqueles delicados lábios rosados de quem tanto sentira falta.
- Tem razão. – respondeu mecanicamente. - Nós também, só estamos começando...
Meu amor
Não há mal nenhum gostar assim
Oh, meu bem
Acredite no final feliz
Meu amor, oh, meu amor!
Beijou-a suavemente, em seguida com maior intensidade. Tomou-lhe a cintura e prolongou o beijo, deixando morrer uma lágrima que escorreu sobre o rosto da menina. Correu os lábios pela lateral de sua face e levemente lhe sussurrou uma declaração intensa e sincera ao ouvido, deixando-a derramar as últimas lágrimas pelo ocorrido em seus ombros acolhedores.
- S'ayapo, Miro. S'ayapo...
- Nós sabíamos que ia ser assim, lembra? Seja forte e agüente firme, vamos vencê-los pelo cansaço.
- Eu não quero perder você, Miro. Estou com tanto medo...
- Chhh... Você está aqui agora. Não vai me perder.
O cavaleiro apertou-a contra si com força, oferecendo-lhe um beijo longo e arrebatador, segurando-lhe a nuca como se a tomasse inteira para si. As mãos dela corriam trêmulas pelas costas dele, como se sentisse que poderia cair a qualquer momento com a falta de chão que aquele gesto intenso lhe causava. Miro ardia de desejo por ela, tamanha a raiva que sentiu pelo tio em tentar entregá-la para outros braços, que não os dele. Sofia não ia se casar com nenhum pirralho interesseiro, pois ele jamais permitiria isso. Obsessivo, já começava a perceber que gostava da idéia de ser o único homem da vida dela e não suportaria que mudassem isto por ele, amava-a demais e sentia calafrios só de imaginar que outro homem a tocasse, ainda mais a contragosto dela mesma.
Sofia afastou-se empurrando-o levemente pelos braços. Estava ofengante e constrangida. Miro prontamente compreendeu o que havia com ela e esboçou um sorriso, sabendo que a namorada tivera um acesso de desejo que a assustou. Envolveu-a pela cintura e beijou-lhe de leve o pescoço, com o cuidado de deixar seu hálito quente tocar-lhe a pele antes dos lábios.
- Seu pai só pode estar louco, se acha que vou deixar que um moleque petulante encoste em você.
Arrepiada, ela encolheu-se imediatamente.
- Isso faz cócegas, Miro!
- Detesto ser eu a ter que te contar, mas depois dos treze anos, esta sensação muda de nome.
- Miro!!!
- Tanto tenho razão, que você compreendeu. – respondeu com ar triunfante.
- Você é um bobo!
O ar de malícia retorna as faces de Escorpião, que acena negativamente com a cabeça a despeito do comentário da prima.
- Mas nem de longe. – puxou-a pelo pulso e mordiscou-lhe os lábios num beijo breve. – Se eu fosse bobo, você já seria noiva de um comerciante grego bem estúpido.
Ela suspirou pesadamente, ante aquelas palavras, apesar de sorrir.
- Nem me lembre disto. Estou quase fugindo de casa, pra não ter que agüentar essa loucura do meu pai.
- Não precisa fugir. Eu ajudo você a sair dessa. Só de imaginar algum pirralho tentando se aproveitar de você, eu... Isso não vai acontecer. – Sofia sorri divertida. – Qual é a graça?
- Você está morrendo de ciúmes! Já é a segunda vez que fala de um moleque ou pirralho se aproveitando de mim.
- Não é ciúmes, acontece que é inaceitável o que seu pai está tentando fazer com você! Tentando se livrar de mim, ele te joga direto pros braços de algum desconhecido, que... – a menina dispara a rir-se dele, que por fim, suspira derrotado. – É obvio que estou louco de ciúmes.
Ele aguarda que ela tire proveito para rir mais ao vê-lo admitir-se enciumado como estava, mas aquela cálida ninfa sempre o surpreendia... E daquela vez não foi diferente.
- Eu sempre vou amar você, Miro. É o único com quem desejo estar... – ela o deixa completamente sem ação com sua voz doce e a declaração inesperada.
Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso.
Só que agora é diferente:
Estou tão tranqüilo
E tão contente
- Eu devo ter ganhado na sorte...
- Ah, sim! Certamente o sogro que tem, só pode ser fruto de muita sorte!
- Quando foi que o tio Egídio virou meu sogro? – respondeu com cinismo.
- Tem razão, esta sorte fica pro Aquiles ou pro T... – Miro adquire ar repreendedor e cobre-lhe a boca com a palma da mão.
- Nem pense em terminar esta frase! Caramba, você é vingativa, que língua mais afiada... Além disto, antes de qualquer coisa ele já era meu tio. A sorte mesmo foi quando encontrei você.
- Você ta tão romântico hoje, Miro, tô te achando esquisito!
- É que você está sensível, então preciso te agradar mais que o normal.
- Vou ficar sensível pra sempre, então.
- Você nunca foi boba mesmo, mas me manipular já é um disparate!
A menina balançou a cabeça divertida e tocou-lhe a face carinhosamente. Era ela a fonte de todas as fraquezas do escorpiano e todas elas ficavam a mostra na presença dela. A criança era ele. Um menino nas mãos de uma mulher tão delicada e encantadora, que lhe aquecia o coração com cada sorriso, com cada olhar. Era como uma doença sem cura, em que um único remédio era capaz de aliviá-lo, mas também o viciasse, criando novos sintomas. E ele sentia-se exatamente como um dependente daqueles olhos escuros que o fitavam profundamente. Tocou sua mão e beijou-a, vencido e rendido aos seus encantos angelicais.
- Que bom que está aqui, apesar dos motivos desagradáveis.
- Agora você é que está me manipulando!
- E funcionou?
Ela acenou afirmativamente, com olhar apaixonado e acolhedor. Miro inclinou-se para beijá-la mais uma vez, sentindo-se o tolo mais feliz do mundo. Tocou-lhe o queixo, dirigindo os lábios até a orelha dela, deixando que sentisse sua respiração. Em resposta, ela o abraçou pelos ombros e beijou-lhe pescoço, imitando-o. Um arrepio percorreu-lhe a espinha e fechou os olhos, segurando-a pela cintura. Intimidada pelos sentimentos dele e pelos próprios, voltou a afastar-se dos braços dele.
- Se importa se eu fizer alguma coisa pra comermos? Estou com um pouco de fome, agora que a raiva passou.
Miro fez uma careta que a divertiu, afastando-o do desejo repentino, pela sensação de pesar.
- Eu sou um completo idiota, Sofia, desculpe. Vamos fazer o seguinte, o microondas faz pipoca sozinho depois que eu aperto aquele botão, então acho que é uma boa idéia. E deve ter algum refrigerante por aqui também...
Sofia sorria divertida com a falta de jeito de Miro, procurando as coisas na cozinha como se tivesse esquecido onde costumava guardá-las e praguejando por sua falta de memória. Por fim, lá estava ele triunfante com a pipoca pronta, entregando-lhe o copo de refrigerante ao conduzi-la até sua sala. Obviamente que desejava muito mais levá-la ao seu quarto, mas sabia que era cedo demais. Com Sofia ele teria de ter muita paciência e cautela com relação aos seus próprios desejos.
Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém
Ligou a tv para deixá-la mais à vontade. Sabia bem que o fato de estar sozinha na casa de um homem mais velho devia deixá-la tensa, pois ele próprio estava. Era a primeira vez que ficavam realmente sozinhos, sem parentes, amigos ou desconhecidos por perto. Isso lhe trazia diversos pensamentos que não conseguia evitar, apesar de condenar-se tremendamente por tê-los. Enquanto comiam, fez-se um silêncio exasperado, fruto da insegurança de ambos. Sofia foi a primeira a quebrá-lo, ao suspirar e pender a cabeça sobre os ombros do amado, que a enlaçou pelos ombros.
- Por que a gente ficou quieto de repente?
- Por que você ficou quieta.
- Você também ficou.
- Achei que queria ficar quieta, até acabar com a fome enorme que estava. Comeu tanta pipoca que ainda tem mais da metade dela!
- Chato. É que... sei que vai parecer infantil e talvez seja mesmo, mas só agora me dei conta que estou sozinha com você.
Miro a apertou mais forte e beijou-lhe a testa, afastando a pipoca e olhando nos olhos de Sofia.
- Isso te assusta?
- Um pouco. Não que eu ache que você... Quer dizer, é que eu...
- Não conserta! Já estou ofendido. Assim eu me sinto o próprio lobo mau! Alguém já te avisou que nessa história eu sou o lenhador?
- Não tira sarro de mim.
Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira
- Hum.
Ele sorri e retira o copo da mão dela, encostando-o na mesinha.
- Então eu não posso te decepcionar.
- Como é?
- Se teme que eu faça algo, é porque quer que eu tente...
- Você ficou maluc...?
Miro reclinou-se sobre ela e enlaçou-a num beijo ardente sem tirar o sorriso dos lábios. Ela lutou pouco contra a carícia, logo afrouxando os braços que ele segurava e se entregando aos beijos dele. Percebendo isto, Miro soltou-lhe os braços para percorrer as mãos pelo restante de seu corpo. Desceu pela cintura até segurar-lhe as coxas, enquanto com a outra mão invadia-lhe as costas por baixo da blusa. Sentiu que o coração e a respiração dela haviam disparado, mas ela o segurou pela nuca e pelas costas corajosamente, aceitando aquele primeiro passo. Sabia que Miro não faria nada que ela não quisesse fazer e admitiu a si mesma que gostara do toque quente e forte de sua mão sobre sua pele. Percebendo isto, Miro não conteve sua vontade de beijar-lhe o pescoço e mordiscar-lhe o lóbulo da orelha, fazendo com que a amada fechasse os olhos e soltasse um gemido. Ambos estavam reclinados no braço do sofá, completamente entregues um ao outro. Ficaram assim ainda por muito tempo, beijando-se e aproveitando aquele momento único de estarem verdadeiramente juntos.
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber tudo.
Já não me preocupo
Se eu não sei por quê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você
As carícias são interrompidas pela mão de Sofia, que o impedira de tocar-lhe os seios quando percebeu que ele o faria. Miro sentiu-se estúpido por cometer tal gafe e desculpou-se sinceramente constrangido, tentando beijá-la novamente, mas ela esquivou-se e forçou-o a sentar-se. Sem graça, Sofia retoma o copo do refrigerante para disfarçar, mas falha na tentativa ao tomar tudo em um só gole.
- Ta tão brava assim? Eu sei que agi como um completo idiota, mas...
- Ta tudo bem, Miro. Esquece isso antes que eu fique mais sem graça.
- Desculpa, amor, eu juro que...
- Sei que não com más intenções. Pára de se desculpar, que a criança da casa sou eu!
Foi só então que ele percebeu que a namorada estava muito mais intimidada com a idade e inexperiência própria, que com o fato dele ter agido impulsivamente e achou até certa graça naquilo. Abraçou-a pelos ombros e lhe sorriu.
- Ei! Não fica assim, não. Eu não fico pensando isto de você.
- Eu queria não ficar tão nervosa com estas coisas, mas eu fico.
- Pára com isto. Não tem que forçar nada só pra me agradar. Eu não vou deixar de gostar de você, só porque tenho que tomar cuidado com o que eu faço. Não seja boba.
- Deve ser complicado pra você, ter que...
- Não quero que fique se importando com uma coisa tão tola. Já está começando a falar como os tios e isso até me chateia. Não é complicado, coisa nenhuma. É novo. E tudo que é novo precisa de adaptação. Eu não vou morrer só porque desejo você, muito pelo contrário, faz parte do que eu sinto e gosto muito disto. Assim como também faz parte disso, respeitar o seu próprio tempo.
Sofia fica em silêncio com aquelas palavras, sem saber o que dizer depois daquele pequeno sermão. Percebendo-a ainda mais compelida, afastou-lhe os cabelos e beijou-lhe a nuca ao abraçá-la mais forte.
Tão correto e tão bonito:
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?
- Eu amo você exatamente como é, não se obrigue a nada por mim. Quero que fique bem quando estivermos juntos. Portanto pode continuar bancando o Hitler, se achar necessário!
Miro já estava tirando sarro da situação, mas sabia muito bem que isso a irritaria e tomou um tapa no ombro. Mas quando ele se preparou para outro tapa, ela lhe sorriu e ofereceu-lhe um selinho.
- Você não toma jeito nunca.
- Então devo ter arranjado a namorada certa, pra me corrigir.
- Tá me chamando de chata?
- Não. De certinha.
- Eu não sou certinha!
- Claro que é.
- Claro que não!
- Me convença.
- Minha tia odeia minhas roupas, odeia a altura que ouço música, detesto meus colegas do colégio porque acho todos fúteis e vivo subindo no telhado sem que meus pais saibam.
- E?
- E o quê?
- Cadê a parte de não ser certinha?
- Briguei com meu pai, joguei na cara dele que tenho nojo dele e que não é meu pai verdadeiro. E por fim, estou na casa de um homem que mora sozinho sem o consentimento de meus pais.
- É, você tem me saído bem ousada, chorando de arrependimento pela discussão com o pai que te chamou de um nome bem feio sem que lhe desse motivos e tesourando seu namorado abusado. – respondeu com cinismo.
- Miro, vai a merda.
Ele olha pra ela boquiaberto, fingindo-se indignado com o que acabara de ouvir.
- Quem te ensinou isso?
- Pára, Miro!
Os dois caíram no riso e terminaram abraçados.
- Minha rebelde, detesto lembrar, mas acho que ta meio tarde, era bom que voltasse pra casa agora.
- Não sei nem com que cara eu entro em casa hoje, depois do que aconteceu.
- Com a mesma de sempre. Vai ficar um clima pesado por uns dias, mas depois passa. Se sentir-se muito mal, fica na casa da tia Madge essa noite. E depois eu te ligo para saber como está.
- Acho que vou pra casa da titia mesmo. Pelo menos hoje. E ele vai saber que eu estou lá, de qualquer forma, mas dane-se.
- Então vou pedir um motorista pra te levar até em casa.
- Não. É entrar em outra discussão com meu pai na certa. Ainda está bem claro, eu chego em casa inteira, sem nenhum pirralho petulante no caminho, rs.
- Engraçadinha.
Miro tinha razão ao concluir que o clima pesado aos poucos se dissiparia. Com o passar dos meses, ainda houveram muitas discussões familiares até que finalmente pareceram aceitar meio a contragosto a decisão dos dois jovens. As brigas ainda ocorriam com menor freqüência e intensidade, pois os mais velhos sabiam-se derrotados pelo amor dos sobrinhos que ignoravam cada vez mais seus atos reprovadores e exagerados. Também eles, chegaram a brigar entre si diversas vezes por conta das intrigas familiares que tanto magoavam Sofia, mas logo acabavam em lágrimas e juras de amor cada vez mais intensas. Ficavam longos dias sem conseguir se ver, algumas vezes mais de um mês. E era isso que acabava os deixando tensos quando se falavam ao telefone, ameaçando terminar com aquela loucura repetidamente e novamente impedidos de desistir quando finalmente se encontravam.
Me disseram que você estava chorando
E foi então que percebi
Como lhe quero tanto...
Numa noite, Sofia telefonou-lhe aos prantos. Estava desesperada e sem saber o que fazer. De tanto questioná-la, Miro descobriu que o tio conseguira obrigá-la a noivar-se com Aquiles, que agora passara a visitar-lhe quase todos os dias. Miro teve ímpetos de esmurrar o próprio tio até a morte quando a ouviu confessar. Estava furioso e teve sorte de estar distante dele ao receber a trágica notícia. Por mais de quarenta minutos ficou a questionar Sofia se ele a havia desrespeitado e ela acabou tão nervosa que brigaram novamente. Sem controle de seus atos, Miro acabou por descobrir quem era o garoto que achava-se no direito de cortejar aquela que amava.
Pensando mais friamente, numa manhã, invadiu o escritório do pai dele e teve uma longa discussão sobre a herança que lhe era de direito e jamais passaria para as mãos do filho por conta de um simples noivado. Inventou uma história de que a fazenda estava falindo e que o casamento era só uma maneira dos tios tentarem levantar as finanças e ele não devia deixar que o filho passasse por aquela humilhação. Além do mais, havia rumores de que ela possuía um namorado muito mais velho e que já jurara Aquiles de morte. Não pegaria nada bem para a família entrar naquela fria por poucos centavos. Na semana seguinte, inexplicavelmente, Aquiles e sua família desapareceram sem nunca dar notícias.
Houve ainda a tentativa noivá-la com Tales, mas já corrida a notícia do que houvera com Aquiles, compromissaram-no com outra moça das redondezas. Egídio começava a preocupar-se com a reputação da filha, que agora saía de casa sem o seu consentimento por diversas vezes e começava a ficar mal falada pelos vizinhos mais maldosos.
Os anos se passavam e o relacionamento deles amadurecia e se intensificava, ficando cada vez mais difícil para Miro conter o desejo que sentia, já que havia maior sintonia e intimidade entre eles. Mas agora o problema era outro: Sofia visitava mais a Miro que o inverso, pois ele evitava ir a fazenda, já que isso sempre lhe causava transtornos e discussões. Assim, acabaram diminuindo a freqüência com que saíam juntos e o namoro praticamente se resumia às vezes que ela ia ao Santuário. Aquilo dava ainda mais motivos para a família maldizer dele e daquele relacionamento infrutífero. Sofia estava no limite do stress, pois era ela que escutava a tudo e o defendia vinte quatro horas por dia. Quando chegava para vê-lo, ele já não queria mais escutar nada sobre aqueles conflitos que tanto lhe aborreciam e ela não conseguia desabafar-se. Sofia começava a cansar-se daquela guerra que parecia travar cada vez mais sozinha por aquele que amava.
Já não me preocupo
Se eu não sei por quê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
Os outros dourados já percebiam o clima de tensão entre o casal e a injustiça para com a moça, tentando alertar o cavaleiro de Escorpião antes que a perdesse, embora ele não demonstrasse verdadeira atenção aos conselhos. Numa noite, infelizmente, as coisas pioraram significativamente.
- Miro, faz quatro anos que eu te peço pra enfrentar esta situação com mais vontade! Quanto mais você se afasta da fazenda, mais dá motivo para que eles o maldigam!
- Não me importo mais.
- Mas eu me importo! Tem idéia do que eu fico ouvindo todos os dias, por causa disso?!
- Você tem que ignorar isto. Não te leva a nada dar ouvidos.
- Se nem você consegue ignorar, como acha que eu vou conseguir?! Você não pode fugir pra sempre disso e eu não posso viver assim pra sempre!!!
- Sofia, você sabe que eu te amo muito. Mas nunca pude te prometer muita coisa, já que eu não posso deixar o Santuário.
- Azar o seu, porque eu posso!!!
Ela fez menção de sair, mas ele a deteve.
- Espera. O que você está fazendo? Está terminando?
- O que você acha?
- Não faz isso comigo, Sofia.
- Não sou eu que estou fazendo, Miro. É você que está. Eu te amo demais, mas não posso continuar sofrendo assim com a sua ausência! To cansada de vir aqui! Nem sair, a gente sai mais!
- E não era você que vivia trancada em casa?! Pelo menos aqui, podemos ter paz!
- Não saía porque não tinha ninguém que valesse a pena, né, Miro? Eu tinha quinze anos, agora eu tenho dezenove! Acha que continuaria a mesma pessoa?! Que ridículo! Me solta, que está me machucando.
- Não desiste agora, amor... É exatamente o que eles querem que faça.
- Pois que bom pra eles, por que venceram!
- Sofia, volta aqui!!!
- Me deixa, Miro! Me deixa!
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você
Sofia saiu correndo as pressas e chorava tanto, que não percebeu ao chegar ao final das escadarias, que um grupo estranho se aproximava das doze casas sorrateiramente. Só houve tempo de sentir um calor intenso atingir-lhe o ventre e arremessá-la contra as rochas de um pilar. Teve tempo ainda de ouvir algumas risadas sinistras e olhares maldosos aproximarem-se, antes de sentir o gosto do próprio sangue e desfalecer...
CONTINUA...
NA: Ai eu fui muito má agora!!! Eu sei, eu sei...Cruelacruel! Bruxa! Medéia! Nossa, fui muito maldosa nesse final, haha! Mas eu estava precisando quebrar um pouquinho dessa paz mundial pra esquentar as coisas, rs!
Gente, só tenho a agradecer a todo o apoio que recebo nesta fic, que torço para continuar recebendo! Muito obrigada a todo mundo que a acompanha e aguardem, que as coisas uma hora vão melhorar para este fofo casal! Beijos!
;Déia
