Amanheceu, abri os olhos:
- Que coisa estranha. Eu sonhei que tinha feito "aquilo" com ele - ri, sentava com dificuldade na cama - Ai, por que será que tô tão dolori... - Parei num instante.
Levantei o lençol para olhar de baixo dele. Eu estava nu, naquela cama. Aquilo não foi um sonho. Fiquei atônito. Ele chegou no quarto, com sua roupa de trabalho.
- O que foi Hikaru-kun?
Levei o lençol até metade do rosto.
- Nada.
"Ele me estuprou!!"
- Sensei, aconteceu alguma coisa? - perguntei, referindo-me a...Er...Bem..."Aquilo"
- Não, nada.
"Ele não me estuprou"
- O dia foi normal. Ah, seu professor de física passou um trabalho. Vou deixar em cima da mesa pra você - sorri.
"Ele não entendeu a minha pergunta..."
- Hã?Como assim?
- Desculpe, eu não quis acordar você. É difícil voltar à rotina logo de cara depois das primeiras vezes - sorri.
"OH MEU DEUS!!OH MEU DEUS!!!"
- Quer dizer que já voltou da escola? Que horas são??
- Duas da tarde - sorri - Devo ter exigido muito de você, não é?
"Como tem coragem de dizer isso??!!!" Pressionei as mãos no lençol. Nós havíamos feito mesmo.
- Então, se quiser eu trago o almoço até você.
- Nã-Não precisa. Eu já vou.
- Está bem - começa a caminhar até a porta.
- Espera!! O que disse na escola?
- A verdade.
- Ah tá...A VERDADE??
- Sim, que você estava com dores no corpo e indisposto.
- E não acharam estranho?
"Isso é muito estranho"
- Estranho é você morar aqui, no apartamento do seu professor, não acha? - sorri gentilmente e sai.
Comecei a lutar comigo mesmo.
- Isso nem se compara com "aquilo" - olhos arregalados, ainda incrédulo - Mas, pegou até o trabalho que passaram pra mim. Ele é mesmo gentil - sorri - Acho que tudo bem ele ser o primeiro... - Corei, começando a babar - Ele é mesmo gentil - Balancei a cabeça negativamente - Mas o que estou pensando???!! Hikaru Shinji!!Ele é um homem e é seu professor!!Isso NÃO deveria acontecer!! - Começando a babar de novo - Mas ele foi tão gentil ontem... NÃO!!Você não deveria gostar disso!!Pára com isso, seu idiota! Aaaah - Cansei e baixei a cabeça - Ele sempre faz minha cabeça doer... E cadê minhas roupas??Como ele quer que eu levante desse jeito. Além disso... Eu acho que tomei banho ontem, deveria estar vestido
Ele fala de longe:
- É porque fizemos duas vezes.
Fiquei vermelho. Ele tinha ouvido tudo e mais... Nós fizemos "aquilo" DUAS VEZES!! "Ele deve ter me estuprado... Definitivamente..."
Voltei a cobrir o rosto com o lençol.
- Droga.
Durante o dia todo, a cada vez que me olhava, meu rosto enrubescia. Não haviam dúvidas de que eu tinha gostado daquilo e me sentia envergonhado por isso. Ele nunca demonstra qualquer fraqueza, mas eu sou tão fácil de decifrar... "Mesmo que tenha dito que me ama, não sinto como se o tivesse em minhas mãos, mas, eu pertenço à ele, em todos os sentidos. Isso me constrange e me deixa feliz ao mesmo tempo, e ainda, me preocupa mais saber que estou feliz com isso. Quero dizer... Que tipo de homem eu me tornei?! Ele disse que me ama... Mesmo que seja recíproco, mesmo que estejamos juntos, nós não poderíamos ter uma relação normal". Se fossemos descobertos, não queria nem pensar no que aconteceria!
"Um professor e um aluno não podem ter esse tipo de relação" não é?! Mas, por hora, só queria lembrar que ele me ama.
No dia seguinte pediram para que fosse entregar alguns livros ao sensei. Fui confiante e extremamente feliz, pra não dizer abobalhado. Ele estava em uma sala de 2º ano, segundo a informação.
- Sense... - cantarolava até ser interrompido por uma garota de mini-saia e olhar avassalador. Pior, ela olhava pra ele.
Observei pela porta a maneira descarada como a garota agia. Entregava à ele um bento[1] feito por ela, ele agradecia com um sorriso gentil.
"Só porque ele é amável, tem olhos azuis, braços fortes, compreensivo, que gosta de seguir seus instintos e é perfeito??!! Ele não lhe pertence maldita de mini-saia!! Sai daí agora!!"
Resolvi fazer algo a respeito. Abri a porta e joguei os livros na cabeça dela. Ela desmaiou, a cabeça começou a sangrar e ficou sem ir pra escola por uma semana. Hohoho! Brincadeira, não foi isso que aconteceu.
- Hikaru-kun?
Voltei à realidade.
- Sensei, o professor de geografia pediu para devolver estes livros - disse, afastando discretamente a garota dele, me colocando em seu lugar.
- Ah, obrigado - sorri.
- Shinji-sempai? - a descarada dirigiu-se à mim.
Olhei e sorri forçado. Por que as pessoas menos próximas me chamam pelo nome e as íntimas pelo sobrenome?? Acabei tendo trauma por pessoas que me chamam pelo nome.
- Gente! É o Shinji-sempai!! O capitão do time de basquete!
As garotas começaram a gritar como loucas! Arregalei os olhos e o sensei me levou para fora.
- Er... Desculpe por isso - sorri desajeitado.
- Ah, sem problemas - olhei para o lado.
"O que me preocupava era o assédio sexual que você tava sofrendo lá dentro".
- Você está bem?
- Hã?
- Se sente bem? Não está dolorido?
- Ah - corei - Estou bem.
- Hikaru-kun, ainda não comemoramos sua volta ao time como capitão.
- Ah, não precisa!
- Está decidido.
- Hã?
- Vamos comemorar - sorri, colocando a mão sobre minha cabeça, afagando-me - Amo você.
Corei violentamente.
- Sensei, alguém vai ouvir! - franzi a testa.
Ele me pegou pela mão.
- O que vai fazer?
Me levou até o banheiro masculino, às pressas. Suspirou, encostado à porta.
- Você precisa voltar pra sala e eu também!
- Precisava de um beijo seu - fitou-me sério.
Corei mais uma vez.
- Hã?
Me puxou pelo braço, colando seu corpo ao meu.
- Sensei!!
- Você não sente ciúmes?
- O quê?
- Por me ver junto daquelas garotas?
"Ele percebeu". Quando abri a boca para falar, ele interrompeu:
- Eu senti. Quando elas vieram todas pra cima de você. Desculpe, precisava de um beijo seu...
- Por...quê?
- Pra lembrar que você só pertence à mim - beijou meus lábios, abraçando-me, quase cravando suas unhas nas minhas costas.
Sentia-me anestesiado. Correspondi ao beijo com paixão, sentindo-me tentado a repetir o que fizemos dois dias atrás. Nos separamos e ele se foi.
- Eu pertenço à você... Não posso ficar feliz em ouvir isso! Mesmo que seja verdade - toquei minha própria boca, lembrando do toque da dele - Saindo da sala no meio da aula... Isso começou a ficar perigoso.
Saí do banheiro, passando pelos corredores, desatento. Esbarrei em alguém e logo me desculpei. Uma voz soou-me familiar.
- Desculpa nada. Da próxima vez você morre! - Akira fazia voz grossa, em uma tentativa falha de parecer intimidador.
- Akira!
Ele sorriu. Era a primeira vez que o via depois daquela cena. Não sabia exatamente por onde começar.
- Desculpa por aquilo. Eu já tenho um lugar pra ficar, então, obrigado por tudo - abaixei a cabeça.
- Ah, não foi nada. É uma pena que vá voltar a morar com aquela pessoa, pois, perdi toda minha diversão - ri.
Continuei sem jeito.
- Se quiser podemos pegar suas coisas na minha casa hoje. Eu ajudo a levar.
- Tudo bem.
- Ah, Hikaru... Já conversei com a Mika - falou com expressão séria - Não se preocupe, ela não dirá nada à ninguém.
- Obrigado. Sabe Akira...
- Hum?
- Eu não tenho palavras pra agradecer tudo o que tem feito por mim.
Ele sorriu e pôs a mão sobre minha cabeça.
- Tudo bem, já que você é uma pessoa importante pra mim.
Corei, surpreso com aquelas palavras.
- Então, até mais tarde. Tenho que voltar pra sala - afastou-se, acenando.
- Ah, a aula!! Eu também.
Corri até a sala. A monótona aula de geografia continuava. Acabei cochilando.
- Hikaru-kun? Hikaru-kun?
Abri os olhos levemente.
- Essa voz... Sensei...
Recuperei a consciência e vi seu rosto tão próximo do meu, levantei a cabeça surpreso.
- Será que você... Estava dormindo na minha aula? - Encarou-me sério, ajeitando os óculos com o indicador.
- I-Imagina!! Eu só tava...
- E ainda sonhando algo pervertido, francamente...
- Hã?
- Seu nariz está sangrando.
- Aaah - Coloquei as mãos sobre o rosto e sorri desajeitado - Isso é só... Eu devo ter batido o nariz na mesa quando caí de sono...
- Aah, então estava mesmo sonhando?!
Arregalei os olhos e abaixei a cabeça. Ele sussurrou em meu ouvido:
- Não precisa se prender a um sonho se posso dar o que você quer aqui mesmo - sorriu.
Estava ainda mais assustado. "Ele é louco?"
- Não diga besteiras!
- Se não disser, você vai pensar. Não acha que é melhor se eu disser?
Fiquei vermelho.
- Eu bati meu nariz na mesa. Foi só isso, tá?! - respondi irritado.
- De qualquer forma estava dormindo na minha aula. Mesmo que seja você, não posso tratá-lo de forma diferente dos outros alunos. Espero que esteja ciente de que perdeu uma explicação.
- Me desculpe. Isso não vai mais acontecer.
Ele colocou seu lenço sobre a mesa e sorriu.
- Vou cobrar de você depois.
- Espera, você acabou de dizer que não vai me tratar diferente dos outros alunos.
- E está certo - Retirou os óculos para limpá-los com um outro lenço - Vou puni-lo assim como faria com os outros - fitou-me friamente.
Senti uma brisa congelante invadir a sala.
- Agora acho melhor ir antes que perca o intervalo - sorriu gentilmente
Medonho.
Depois da aula, fui pegar minhas coisas na casa do Akira.
- Tem certeza que não quer ajuda?
- Sem problemas, é pouca coisa, posso levar sozinho - sorri.
- Tá. Amanhã começam os treinos pesados né.
- Aah, nem lembrava disso.
- Não vai faltar hein - ri com ironia.
- Vou ignorar a piadinha.
- Aaah, você já foi mais engraçado...
Encarei-o, ameaçador. Ele riu por um instante.
- Hikaru... Será que eu posso levar as suas coisas?
- Mas, não precisa, eu já disse que consigo sozinho.
- Eu sei, eu só... Queria sair um pouco - sorri um tanto forçado.
Ele estava agindo estranho. Sempre foi misterioso e sereno, apesar de sorrir e fazer piadinhas comigo. Mas, agora, parecia sofrer, aquilo me deixou preocupado.
- Akira... Quer almoçar lá em casa? O sensei faz o melhor curry do Japão! Não que o da sua mãe seja ruim, mas, é incrível! Mas se não gostar, ele pode fazer outras coisas. Acho que não vai ter problema. O que acha? - convidava com empolgação.
- Tudo bem - sorri.
Abri a porta.
- Tadaima.
- Ah, okaeri! - o sensei dizia de longe - Finalmente chegou!
Sua expressão de felicidade sumiu no instante em que viu que eu tinha companhia, mas, logo a surpresa cessou e ele voltou a sorrir.
- Ah, Nishida-kun!
- Boa tarde, Fujimoto-san.
- Sensei, o Akira pode almoçar com a gente hoje?
- Bem, é meio inesperado, mas... Claro - sorri - O que você quer comer, Nishida-kun?
Dei um tapa de leve nas costas dele, para que falasse.
- Curry.
Eu disfarcei minha felicidade.
- Também? Ah, fazer o quê né...
O apartamento era espaçoso e bem organizado, com exceção de seu escritório onde o caos dominava. Escritório este, que tomou o espaço do que deveria ser a cozinha, desta forma, ela teve de ser construída na sala.
Akira acabou ficando até o anoitecer. Tentei fazer com que ele se abrisse várias vezes, mas, não consegui. Antes de ir embora, apenas agradeceu e disse "até amanhã". Aquilo continuava a me perturbar. Voltei ao apartamento pensativo. Sentei-me e repousei a cabeça sobre a mesa de jantar. Ele logo quebrou o silêncio.
- O que vai querer jantar essa noite? - sorria gentilmente como sempre.
- Não sei - continuava afundado em pensamentos.
- O que foi? Enjoou de curry? Finalmente! - suspirou - Então, que tal butabara[2]?
Silêncio.
- Omelete? Onigiri? Se quiser, posso fazer alguma sobremesa.
- Não tô com vontade de comer.
Ele suspirou mais uma vez. Sentou-se à minha frente, tirou os óculos e pôs sobre a mesa.
- Se não comer vai adoecer.
Levantei a cabeça prestes a chorar. Não era simplesmente por estar preocupado com o Akira e sim por ser tão incompetente. As pessoas sempre têm de me ajudar em tudo e eu nunca consigo retribuir. Aquilo era inadmissível.
Ele levantou no mesmo instante, dando a volta na mesa e tomando meus lábios. Aquilo me pareceu egoísta por um momento, mas, ele só estava se preocupando comigo.
Nos separamos. Virou-se e desabotoou os primeiros botões da camisa, deixando-a mais folgada.
- Você é um bom amigo
- O quê?
- Você é um bom amigo pra ele.
- Mas, eu não consigo nem saber o que está acontecendo.
- Mas sabe como ele se sente e tenta animá-lo - isso é mais que suficiente.
- Mas...
- Quando ele estiver pronto, vai falar.
Silêncio.
- Se precisar de algo ou se mudar de idéia quanto à comida, estarei no escritório.
Fiquei lá por mais um tempo. Passando os olhos pelo lugar onde estava, sem propósito algum, notei uma coisa interessante. A foto que fui forçado a tirar, estava no quadro preso à parede.
Comecei a pensar que talvez não fosse tão ruim ter pessoas por perto dispostas a me ajudar. Eu fiz as coisas sozinho a maior parte do tempo e agora não preciso mais.
Corri até o escritório.
- Sensei - disse, ainda ofegante.
- Ah, mudou de idéia? - fazia anotações na escrivaninha
Entrelacei meus braços no pescoço dele e disse calmamente próximo ao seu ouvido:
- Vou continuar me esforçando pra ser útil. Não só ao Akira, mas, pra você. Porque... - tímido, continuei - quero estar ao seu lado sempre.
Larguei-o, envergonhado.
- Hikaru...
- Era só isso. Pode continuar trabalhando - andei em direção à porta.
Fui puxado pelo braço. Parei e olhei diretamente em seus olhos. Fiquei ainda mais envergonhado. Aquilo sempre se repetia. Aquele olhar tão profundo que parecia ver através de mim. Meu coração acelerava.
- E o trabalho? - quem o decifrava agora era eu.
- Ainda preciso punir um certo aluno - ele sorriu.
Naquela noite, ele não pôde trabalhar. Seu trabalho foi estudar minuciosamente meu corpo e me amar profundamente.
"Isso começou a ficar perigoso"
