Capítulo 9 – Melancolia

Sakura começa a ter outra crise de choro e sobe correndo as escadas e se joga na cama. Sua cabeça doía pela confusão que estava vivendo. Naquela noite, ela não iria tomar qualquer decisão, só pretendia chorar até adormecer, tentando tirar todo o peso de seu coração.

Sasuke, por sua vez, também chorava, mas não visivelmente. Seu coração é que chorava. Quem o visse, não seria capaz de detectar qualquer emoção em sua face, apenas a frieza costumeira, mas sua alma doía de tristeza.

Ele caminha a noite toda por Konoha, tentando colocar em ordem o caos de sua mente, estabelecendo metas de como iria se portar nessa nova vida, o que comentaria ou não, quais jutsus demonstraria. Mas apesar de todo seu esforço, sua mente não se concentrava, teimando em voltar sempre a Sakura. Ele se recriminava por tê-la feito sofrer de novo, contudo, não havia nada que pudesse fazer. O passado já havia sido alterado e não tinha o porquê de sofrer por isso. Mas ambos sabiam que era mentira. Ele não se arrependera da escolha feita e trilharia os mesmos caminhos se as circunstâncias se repetissem. Isso era o que tortura o coração dela. Como ela conseguiria confiar nele se ele apresentasse uma índole tão flexível.

Após algumas horas, ele se senta em frente ao lago, observando a brisa da noite que batia nas árvores floridas de sakuras, em volta da superfície, levando um doce aroma até ele. Nem mesmo lá, ele conseguia se centrar. Ela estaria em todo lugar, com sua lembrança sempre o perseguindo.

O tempo passa e ele vê a cidade despertar e a vida continuar seu curso pelas ruas movimentadas. Mas ele permanece lá, sentado, apenas observando desanimado. Que diferença faria se ele fosse ou voltasse, contasse suas razões ou não, ninguém nunca confiaria nele. Não importava se o passado tivesse sido alterado, provavelmente seu destino era ficar só. Restava apenas se conformar com isso.

E com pensamentos tão sombrios, ele permanece lá até perto da hora do almoço, quando escuta um berro estridente, bem conhecido seu.

- O que está fazendo aqui, teme?

- Hunf. Vendo a grama crescer – responde sem virar para fitar o amigo.

- Que coisa boba para se fazer. Sua mãe e Sakura estão preocupadas.

- Com o que?

- Como assim? Com você.

- Sou adulto.

- Tá, mas sua mãe encontrou com a Sakura e avisou que você não tinha voltado para casa. Por sua vez, sua namorada falou que tinham brigado e que você tinha saído cedo da casa dela.

- E o que você tem a ver com isso?

- A Sakura me pediu para te achar.

- Pois já achou.

- Você tem treino hoje com Kakashi.

Agora Sasuke se levanta e o olha bravo.

- O resumo de minha vida está fixado em algum mural?

- Do que está falando, teme?

- Hunf. Deixa pra lá. Você vai no treino? – pergunta, com o desânimo tomando novamente conta dele.

- Vou dar uma olhada.

- Até mais então.

- Até e não se preocupe, pois vou avisar Sakura que lhe encontrei.

Sasuke já ia partir, mas o olha e se aproxima dele.

- Obrigado.

- Por o que? – pergunta espantado com o agradecimento tão incomum do amigo.

- Por ser meu amigo.

Naruto percebe que ele não está bem. A briga deveria ter sido pior do que imaginara.

- Não se preocupe, Sakura lhe ama muito. Ela não ficará brava para sempre e logo lhe perdoará e vocês farão as pazes.

Sasuke se espanta com a perspicácia tão rara no amigo, mas responde melancólico.

- Eu espero.

Após isso, os dois se despedem e cada um segue seu curso. Sasuke chega em sua casa e sua família já está reunida para o almoço. Ele entra e faz um breve cumprimento de cabeça e se junta a eles.

- Você está atrasado – diz o pai de forma severa.

Ele só concorda de forma distraída, perdido em seus pensamentos, enquanto fita a comida.

A mãe fica nervosa com a reação tão apática dele, enquanto a irmã tenta entender o que se passava nesses últimos tempos. Desde que o irmão fora internado, sua família estava com um comportamento muito atípico.

- Depois temos que conversar – avisa o pai.

- Hai.

Quando termina o almoço, os dois seguem para conversar em outra sala. A irmã logo sai pra treinar, enquanto a mãe fica arrumando a louça.

- O que foi Sasuke? Por que está assim?

Os dois nunca tinham conversado assuntos pessoais antes. O pai sempre se portara de forma severa, fazendo com que Sasuke tentasse enfrentar suas dificuldades sozinhos. Praticamente, por toda sua vida, ele nunca se voltara ao pai em seus momentos difíceis. Portanto, aquele comportamento lhe era inesperado, deixando-o duvidoso quanto à conveniência de se abrir com ele.

- Nada.

- Você brigou com a Sakura.

Ele se espanta com a facilidade do pai de ler sua alma. Há muito se orgulhava de trancar seus sentimento no fundo de seu ser, deixando transparecer apenas a frieza costumeira. De forma reticente, resolve se arriscar um pouco na conversa.

- Sim...

- Por que?

Após um suspiro triste, ele responde.

- Pelo meu passado. Eu fiz algumas coisas que ela não gostou. Agora, tem medo de confiar em mim.

- Só por isso você está desse jeito?

- Não. Não é só por isso. Mas se ela diz que me ama, se porta dessa maneira, como as outras pessoas reagiriam se soubessem de tudo o que fiz.

- Outros quem?

- O Sr., a mãe, Sayuri, Kakashi, Naruto, meus amigos, a vila. Talvez ela esteja certa e eu não seja digno de confiança. Talvez meu destino seja ficar sozinho.

- Não seja um tolo melodramático. Não se comporte como um genin fraco. Você é um Uchiha, líder da ANBU. Não se esqueça disso e se porte como tal. Você é um exemplo pra muitos shinobis iniciantes. Se fez algo que se envergonhe no passado, não faz mais diferença. Trate de honrar seu presente e futuro, para não manchar o seu nome e daqueles que se preocupam com você.

- Mas o destino...

- Nós é que fazemos nosso destino. Você, acima de qualquer um, deveria saber disso. Você foi capaz de voltar e alterar a sorte de nosso clã, salvando-o de uma extinção.

- O Sr. está certo... – responde ainda melancólico.

- Vou lhe contar o que realmente aconteceu naqueles dois dias, para você recordar toda vez que sua confiança falhar novamente.

E o pai começa a narrar o que acontecera.

- Às vezes, o destino parece pregar peças com os seres humanos e, ironicamente ou não, quem primeiro encontrou com você no passado, foi você mesmo, quando era apenas uma criança.

- Foi no final da tarde. Você tinha gasto quase todo seu chakra fazendo o jutsu e acabou perdendo a consciência. Sua mãe logo o socorreu quando o viu inconsciente, principalmente pelo símbolo Uchiha em suas vestes.

- Mas nós logo reconhecemos quando acordou. Praticamente sua aparência não tinha modificado muito com a idade, se transformando apenas nas feições de um rapaz. Eu sabia do jutsu e do pergaminho, então logo deduzi que algo grave tinha feito você voltar. Assim que abriu os olhos, sua mãe lhe questionou.

- Filho?

- Mãe? Pai? Não acredito, o jutsu deu certo.

- Você teve sorte. Esse jutsu é muito perigoso.

- Eu precisava tentar.

- Você sabia da existência de um jutsu assim? – pergunta a mãe incrédula ao pai.

- É mais um dos segredos dos Uchihas – responde de uma forma firme, para encerrar a questão naquele ponto.

- O que aconteceu de grave para utilizá-lo? – pergunta a Sasuke.

Nesse momento, a narração é interrompida por uma batida leve na porta.

- Sim? – pergunta de forma severa o pai.

A mãe aparece no vão.

- Sakura está aqui.

Um brilho de esperança surge no olhar de Sasuke. Talvez ela tivesse vindo para dar a resposta. O pai logo nota e compreende a importância da kunoichi na vida de seu filho. Ele sabia que não importaria tudo o que ele falasse, apenas um beijo dela surtiria dez vezes mais resultado. Não haveria o porquê de continuar a conversa naquele momento.

- Vá Sasuke. Fale com ela, mas não se esqueça que você é um Uchiha.


Caros leitores. Minha proposta nesse capítulo foi discutir se realmente conseguimos mudar algo. Não seremos meros joguetes do destino? Será que se realmente pudéssemos voltar no tempo e alterar algumas coisas, será que elas, no final, seriam diferentes?