Capítulo 08
Quando chegaram à quadra do segundo suspeito, algo os perturbou: um grande pacote pardo estava encostado na porta da casa ao lado da de Solomon. Grissom foi correndo ver o que era e respirou aliviado quando contou a Sara:
- Apenas um milheiro de panfletos.
- Panfletos, Griss?
Sara já podia imaginar como eles eram. Abriu um pedaço do pacote e estendeu um deles para Grissom.
- William Levine! Me acompanha, senhorita Sidle?
Eles bateram na porta entreaberta e Grissom anunciou:
- Polícia de Las Vegas!
Como ninguém respondeu, eles continuaram a entrar. A casa estava escura por causa das cortinas fechadas. Grissom começou a olhar a sala de estar e Sara se dirigiu à sala de jantar. No corredor ela encontrou um mural com fotos. Todas eram de Carlos Muñoz.
- Hey, Sara. Olha o que achei? - chamou Grissom da sala.
Ela tirou uma das fotos do mural e foi se encontrar com ele. O que viu a intrigou. Em cima da mesa, uma grande faca espetava um bilhete e uma notícia¹ de jornal. A matéria era sobre um atentado de cunho religioso e o bilhete dizia:
"É isso que cristãos merecem.
Seu vizinho."
- Acho que Solomon não gostava de Carlos Muñoz, o dono da casa. - disse Sara colocando uma foto de Carlos e Kelly sobre a mesa.
Grissom olhou aquilo, olhou para Sara e sorriu.
- Boas cercas fazem bons vizinhos? Vamos visitar Solomon!
Eles saíram e bateram na casa do suspeito. Solomon abriu. Vestia uma blusa de tecido sintético azul. Do mesmo tipo encontrado na cena do crime.
- Solomon Wülner? - perguntou Grissom.
- Sim.
- Gil Grissom, Sara Sidle. Somos da Perícia. Podemos entrar?
- O que querem?
- Apenas fazer algumas perguntas.
Solomon hesitou, mas deixou que eles entrassem. Grissom e o suspeito se sentaram. Sara perguntou se podia dar uma olhada e foi autorizada.
- Trabalha no Domínio de Lady Heather? - começou Grissom.
- Sim.
- Trabalhou ontem?
- Até as 22h. Depois vim para casa.
- Tem um álibi?
- Por que precisaria?
- Achamos seu vizinho morto lá ontem. Junto com uma garota.
- Não estava lá. Não tenho nada a ver com isso.
- Havia fibras azuis na cena.
Solomon desviou o olhar.
- Grissom? - chamou Sara da porta.
Ele foi se encontrar com ela. Solomon o seguiu.
Sara havia encontrado uma maleta branca com o nome "Willam Levine". Dentro dela, pomada de cânfora, aparelhos de massagem – inclusive um rolo com padrão de bolinhas – e uma adaga. Sara estendeu um cotonete para Grissom:
- Sangue. Encontrei também em um pequeno bastão de ferro amassado. - contou ela.
- Policial, prenda este rapaz, por favor. - falou Grissom se dirigindo ao policial que os acompanhava.
- Ainda não consigo entender tudo. Você consegue? - perguntou Grissom a Sara.
Ela parecia perdida em outro mundo até que olhou para ele e disse:
- Precisamos voltar ao Domínio.
- Tem certeza?
- Eu quero!
Eles saíram da casa e entraram no Denali.
Lady Heather os recebeu, como sempre. Notou que eles estavam diferentes. Sara parecia tranqüila e Grissom perdera sua expressão carregada.
- Lady Heather, precisamos dar uma olhada em seus registros. - pediu Sara.
- Claro, me acompanhem. - respondeu ela, conduzindo-os até sua saleta.
Grissom ficou olhando as fotos nas paredes. As duas mulheres analisavam o livro de entradas.
- G. - falou Sara sem perceber, despertando a atenção de Heather. - Solomon mentiu para nós. Achei um borrão no horário de Kelly. Ela estava marcada com ele, não com Carlos!
- Que estranho! - replicou Heather. - O que Sol estaria fazendo aqui? Eu o vi deixar o Domínio!
- Explique, Heather. - pediu Grissom.
- Eles dois tiveram uma briga no início do expediente. Brigavam por tudo: horários, salas, materiais...
- E pelo que brigaram ontem? - perguntou Sara.
- Etnia e religião, acho. Carlos usa outro nome – William – para ser melhor aceito. Acho isso uma besteira, mas ele se importava. Sol o chamou de "latino bitolado", por ele ser Cristão. Carlos o chamou de "Nazista meia-boca". Sol é Alemão e Judeu, vai entender...
Todos riram.
- Heather, porque não contou isso antes? - Grissom quis saber.
- Achei que não era relevante. Vi Solomon ir embora. Eu o despedi. Ele só criava encrenca.
- Eu já sei o que aconteceu! - falou Sara.
Ela os levou até o quarto do fim do corredor e contou:
- Carlos/William e Solomon brigaram aqui, a sala de massagem; Solomon deve ter pisado no tubo de pomada e ficado com vestígios no sapato e na calça. Eles devem ter brigado por causa de Kelly. Ela namorava Carlos, achamos uma foto deles na casa dele, mas estava marcada com Solomon. Você o despediu – falou ela olhando para Heather - ele fingiu sair, mas se escondeu atrás de uma moita lá fora. Kelly chegou e veio procurar Carlos. Como o achou, deve ter ficado por aqui e recebido a massagem com o aparelho de bolinhas.
- Mas Solomon voltou e deu um jeito de chamar a atenção de Carlos. - continuou Grissom já entendendo a idéia de Sara.
- Exato! - retomou ela. - Ele chamou Carlos, ele parou uma provável massagem no lado direito de Kelly, eles entraram aqui – falou enquanto os levava para o outro quarto – e começaram a brigar. Solomon perdeu um pedaço da roupa, atacou Carlos com a adaga...
- Mas Kelly ouviu e veio ver o que estava acontecendo. Viu Carlos machucado e saindo pela porta. - prosseguiu Lady Heather que também já havia entendido.
- Isso. Ela gritou. Solomon a atingiu, a trouxe para cá. Deitou ela de costas, pegou a echarpe, talvez para incriminar Carlos, correu para o escritório e mudou os dados do livro. Já devia estar com a maleta. Ele juntou tudo e foi embora. - concluiu Sara.
- Por que ele levaria a maleta? - perguntou Heather?
- Ele deve ter jogado a adaga lá quando pegou o bastão de ferro para atingir Kelly. Precisava limpar tudo. - explicou Sara.
- E o panfleto rasgado? - questionou Grissom.
- Estava no bolso de Solomon. Brass me ligou avisando. Caso encerrado! - exultou Sara.
- As fibras azuis não eram da sua echarpe, eram da blusa de Solomon. - falou Sara quando se despediu de Heather. - Me desculpe por julgá-la.
- Não se preocupe, já estou acostumada a ser julgada.
- Isso não atenua o que fiz.
- Está segura agora.
- Estou. "O que realmente importa é o que acontece em nós, e não a nós."² Até mais, Lady Heather. - disse Sara saindo.
Heather pensou nas palavras de Sara. Ela falava como Grissom. Mas não era apenas de boca para fora. Ali estavam as palavras de um homem impregnadas na essência de uma mulher.
Grissom esperou os policiais liberarem o local antes de sair. Heather o esperava no salão:
- Quebra-cabeça completo! - brincou ela.
- Verdade.
- Bom trabalho, Grissom.
- Não o fiz sozinho. Há toda uma equipe.
- E há Sara...
Ele apenas sorriu. Heather nunca falhava com relação a ele. Sempre o vira por trás de suas máscaras.
- Pelo que teve de passar, Gil? O que teve de superar? Insegurança, ciúmes, discórdias...
- Quando se tem alguém por perto, alguém que te compreenda apesar de tudo, nenhuma barreira é intransponível.
- Gosta mesmo dela, não é Grissom?
- Sara é tudo o que quero. É tudo o que sempre quis. A propósito, encontrei!
- Encontrou? O que? - a Dominatrix não conseguia compreender.
- A saída do seu labirinto! Até mais, Heather.
