Capítulo VIII: Reminiscências
As ruas estavam caladas e apenas algumas janelas tinham luzes saindo pelas frestas, ao passar por elas ouvia algumas risadas e sons de televisões, estava tudo muito quieto. Subiu vagarosamente a alameda onde ficava seu hotel e entrou sem dar muitas explicações. Não queria mais nada a não ser deitar a cabeça no saco de areia que eles chamavam de travesseiro, que acabava sendo mais confortável do que o que tinha na prisão e dormir seus quase sono cercado de pesadelos.
Foi deitar a cabeça no travesseiro e o telefone tocou. Achou que ainda era de noite e que a briga dele com Leon tinha praticamente acabado, mas estava enganado, mal tinha se levantado, já viu o Sol invadir o quarto pelas frestas da cortina. Sentiu-se estranho porque dormiu um sono pesado e sem maiores problemas. Porém, aquele barulho de telefone ainda o irritava, atendeu-o com certa raiva, pronto para mandar o pobre ser ao inferno:
- O que é? – Falou grave e sonolento.
- Julian? É a Chris... – Christine falava sussurrando enquanto se enrolava nos lençóis tentando não acordar seu cliente.
- Chris, eu sei que é você... O que você quer?
- Nossa, chupou limão siciliano? – Levantou-se calmamente indo olhar a janela – Escute com atenção, Cléo está indo para a Sicília, ela está muito brava só que eu não entendi o porque... Parece que ela não pode ter filhos. Acho que está indo atrás de você...
Riu debochado sentando-se na cama e acendendo um cigarro:
- Chris, pelo amor de Deus, Cléo não conseguiria fazer nada contra mim por mais que tentasse... Teria de ser algo muito pior do que isso...
- Bem, isso é verdade... E no fim das contas, achou a Layla?
- Se eu lhe contar promete que não vai espalhar?
Christine fitou a cama, e o homem nela se mexeu dando um longo suspiro:
- Eu quero que ela morra, eu prometo que não contarei.
- Layla tem uma filha com Leon.
- O que?
...
Nesse momento tudo fez sentido:
- JULIAN!
Não precisou gritar novamente. O telefone já ficara mudo. O cigarro já não estava mais nos lábios. Ele não estava mais na cama. Ela se vingaria da Layla, não porque soubesse do filho, isso era pouco provável, ela se vingaria do amor de Leon por Layla. Mesmo ela desconfiando do segredo.
Julian se apressou em trocar as roupas ensangüentadas por outras novas, pegar o extremamente necessário e sair correndo. Já não fazia idéia de quanto tempo ela estaria na cidade, mas todos os lados correriam altos riscos.
- X-
Dormiram abraçados. Felizes e calmos, sem desconfiar de nada.
Antes do sol nascer Leon já estava de pé, ou parcialmente acordado. Tinha que sair de lá antes de a filha acordar, afinal, não era o pai dela de verdade, e aquilo não soaria bem para a imagem imaculada de Layla para com a filha. Fitou a pessoa a sua frente. Layla dormia como um anjo, deitada sobre o braço estendido de Leon, parcialmente entrelaçando os dedos dele nos seus, mas completamente absorta em seus sonhos.
Com o máximo de cuidado retirou o braço. Ela se movimentou esguia, deixou o lençol escorregar e parar na cintura. Deus adorava pregar peças nele. Mas não, iria embora, custasse o que custasse. Cobriu-a novamente e começou a se trocar. Já era tarde.
Buscou as roupas em cada canto do quarto, acabaram por fazer uma grande bagunça, prazerosa, que já deixava saudades:
- É isso o que você faz com as mulheres com que dorme? Deixa-as exaustas e depois foge?
- Não estou fugindo. Fugiria se fosse uma outra qualquer. Estou só indo embora. Não quero que ela me veja aqui...
Layla suspirou sentando na cama e abraçando os joelhos:
- Sinto por ter feito você passar por isso mas... – Suspirou longamente, cansara-se de se justificar.
- Layla, o que você fez foi o certo, para você, não irei contestar isso. Se o mundo visse a verdade, eu e você e ela também, isso seria muito mais doloroso e cruel. Está tudo bem.
- Sim... Está.
Terminando de vestir a calça, Leon voltou a cama e sentando-se próximo dela disse:
- Você vai voltar não vai? Até lá fique forte e me avise apenas da decisão que tomar. Seja ela qual for irei te apoiar.
- Mesmo se eu dizer que o pai dela é o Yuri? – Seus olhos cruzaram os dele. Claro que Leon, num lapso, sentiu o ódio nascer e morrer, naquele momento.
- Faça o que achar melhor. Afinal, ela é sua filha. E disso você tem absoluta certeza – Voltou a ficar de pé e a terminar de se vestir.
Layla suspirou irritada. De volta ao Leon de sempre, ela diria se pudesse, mas fez melhor:
- Sabe qual é o nome dela?
- Sim, Juliette. A principal personagem de Shakespeare, que morreu por causa de um amor proibido. Que irônico.
- Juliette Hamilton Oswald.
Ele engoliu seco, virando-se para ela:
- Por quê?
- Porque... Você É o pai dela.
O silêncio pairou no ar. A respiração de Leon estava alterada, Layla podia ver pela quantidade de vezes que seu peito inchava e esvaziava:
- Pare Leon. Vai hiperventilar. Allan não te ensinou isso?
- Ele não me ensinou a conter esses tipos de informações.
Layla sorriu docemente, se levantando e indo na direção de Leon. Deu-lhe um longo abraço que ele retribuiu com certa força:
- Ai!
- Perdão. Só que isso era algo inédito na minha vida.
- Juliette morreu em prol de um amor que ela não viveu. Queria um final feliz, afinal, nosso amor vai viver por pelo menos o resto de nossas vidas. E eu gostaria muito que ela te enterrasse, me enterrasse e levasse nosso netos para nos visitar no cemitério, porque é isso que os filhos fazem.
- Preferiria vê-la em apresentações do colégio, na festa de debutantes, na formatura do colégio ou faculdade, ou quem sabe...
Então os dois disseram juntos:
- Ganhando um prêmio!
Riram brevemente da brincadeira, ambos pensando no futuro tão incerto quanto os próximos minutos.
-Antes de eu voltar, lhe contarei o que farei. Até lá...
- Confiarei em você.
Ela sorriu voltado a se vestir. Leon cuidou de arrumar a cama e não deixar vestígios. Mas Layla guardava uma última surpresa.
- Hoje é dia de comprarmos flores na cidade, mas nunca compramos só flores. Se quiser podemos fingir ser bons amigos, assim você poderá conhecê-la melhor. O que acha?
- Eu adoraria.
E,assim, o dia subia pela janela.
- X –
Chegar a costa no começo da manhã era horrível. Os pescadores estavam voltando e ela fora obrigada a ouvir todos os tipos possíveis de cantadas salpicadas com cheiro de peixe fresco. Claro que aquilo era o de menos, aquele lugar fora o seu lar durante a infância antes de o seu pai seqüestrá-la para Milão e lhe mostrar o mundo do qual mereceria viver. Para sempre.
- Mamãe... Será que o seu veneno já não a matou? – Riu de forma amarga, subindo em direção a vila.
- X –
Foi difícil dormir naquela noite. Mexia-se diversas vezes na cama se recordando dos dois moços que estiveram com ela naquela noite. O primeiro tinha cara de anjo bagunceiro, mas mesmo assim muito bonito. O outro rapaz era... O que a mãe dele sempre amou? Seria o do pingente ou o do anel? Ah, a dúvida. A vontade era que a noite passasse como num raio, mas ela estava exausta demais para esperar, caiu num sono velado e silencioso, sem nada a declarar.
Pela manhã levantou-se cedo como o usual para se preparar para ir com a mãe comprar flores e outras coisas a mais fora da lista, sempre faziam isso pois era uma forma de conhecerem as pessoas da cidade e passarem um tempo a mais juntas. Escolheu um vestido azul sempre com sandálias baixas, penteou o cabelo e sorriu para si mesma no espelho, iria se divertir naquele dia.
Correu para a escada descendo-a com certa velocidade, o suficientemente rápido para que sua mãe lhe gritasse a plenos pulmões o quanto era perigoso aquilo:
- Juliette! Não corra na escada! – Layla falou grave da sala enquanto servia chá ao convidado especial.
Ao chegar ao patamar da sala corou levemente ao ver o rapaz de cabelos prateados, pernas cruzadas e face séria fechar o jornal para receber o chá das mãos de sua mãe para as dele. Sorriu de forma delicada e meio formal desejando-lhe bom dia.
- Bom Dia Leon! – Juliette respondeu acenando para ele.
- Bom dia, Juliette – Leon respondeu, gostando de pronunciar tal nome. O nome de sua filha.
- Juliette, Leon irá fazer compras essa manhã conosco e no final da tarde voltará para a casa dele no Canadá. Está tudo bem para você?
- Sim! Ah... Mas já? – Ela fez cara de triste franzindo a testa.
- Sinto muito mas já me ausentei demais de minhas obrigações – Ele respondeu bebericando do chá – Mas vamos apenas nos divertir no dia de hoje, deixe as despedidas para mais tarde, pode ser?
- Sim... Pode... – Ainda triste ela respondeu, para no segundo seguinte mudar de expressão afim de sair logo de casa – Já podemos ir? Podemos? Podemos?
Layla, que já havia se aprontado e escondido todas as evidências da presença de Leon na noite passada, apenas pegou a sua bolsa e lembrou a sua empregada de sua saída:
- Sim, já podemos ir.
Leon se levantou e andou em direção a porta abrindo-a delicadamente para as damas:
- Por favor.
Layla sorriu colocando a chave na bolsa e saindo na seqüência. Já Juliette, empurrou Leon para fora fechando a porta atrás de si. Surpreendeu-o ao pegar em sua mão e puxá-lo com sua mínima força porém grande delicadeza rumo ao portão:
- Vamos! Vamos! Temos que ver as flores que chegam da costa... E... E tomar sorvete... E várias outras coisas!
Ele sinceramente estava assustado, queria na verdade abraçá-la e ouvi-la chamá-lo de pai, mas estava se contentando com o fato de ele bestar lá com ela. E ele estar lá por ela.
Subiam a ladeira rumo a cidade, não que fosse tão distante assim da casa de Layla, mas eram como dois mundos diferentes no mesmo lugar. Leon fitava Layla sempre que tinha uma chance, bem discretamente enquanto ouvia a filha contar de suas aventuras, de seus sonhos, de pedacinhos de sua vida. Será que ele iria poder fazer parte de outros pedaços da vida dela? Ele tinha dúvidas que ardiam muito em sua alma, mas deixava-os para depois, para quando Layla tomar a sua decisão.
A cidade parecia normal, comum, quieta. Haviam muitos velhinhos e poucas crianças. Juliette deveria se sentir sozinha naquele lugar, das que conhecia, via que estas estudavam com ela. Não sentiu nada muito diferente, afinal, crianças às vezes são muito maldosas e não queriam aquilo para sua filha. Tudo cheirava adocicado dado as flores e as comidas. Itália era a casa de Cléo, não que isso importasse, mas imaginava ele que, deveria ser em um desses lugares que ela crescera, mas não justificava seu comportamento muitas vezes luxurioso e banal.
As compras seguiam como de costume, Layla levava séculos para escolher a muda que melhor se encaixaria em seu jardim e Juliette ficava ao seu lado apenas observando. Quando passavam em frente às lojas que lhe interessava corria e procurava alguma novidade. Era engraçado ele diria, engraçado e gracioso, poderia ficar lá para sempre que não o incomodaria.
- X -
Julian bateu apressadamente a porta da casa de Layla. Mas a empregada apenas o atendeu com cara de poucos amigos:
- Senhor, eles saíram para a cidade há um certo tempo...
- NÃO! – Ele gritou – Se eles voltarem fale para não saírem por nada nesse mundo entendeu?
Mal deu tempo para a moça responder e já saiu em disparada, precisava correr cada vez mais ou o pior aconteceria.
- X-
Cléo, por outro lado, se aproximava da feirinha, já havia descoberto o hotel de Julian e não encontrara nada de importante em seu quarto a não ser camisinhas e roupas ensangüentadas, típico dele. O senhorio do local suava, claro, nunca havia visto alguém tão linda e perigosa como ele ao seu lado, mas não iria estar muito bem para contar a história depois daquilo. Logo após a vistoria rumou para a cidade, forasteiros como Layla sempre eram notados, as ruas estavam cheias, e cheias naquele local era cheia de velhinhos a um passo da cova, poucas crianças que provavelmente estudavam juntas, alguns turistas e... Layla.
Layla! Ela a viu! Numa loja, comprando flores.
- Quanta decadência Fênix Dourada – Riu baixo se escondendo atrás de uma banca de livros.
Sozinha... Bonita. Cabelo curto. Iria matá-la por roubar seu amor e sua chance. Iria se vingar dela, ao inferno o casamento com Kevin, sua vida, suas justificativas, em sua cabeça apenas havia a cena de Layla morta ou bem acabada a ponto nunca mais ser amada por alguém. Era assim que ela ficaria quando pusesse as mãos nela.
Quando Layla se movimentou Cléo buscou discrição para segui-la. Mas era um tanto difícil. O ódio assolou sua alma ao ver aquele Deus ao seu lado. Suas mãos se fecharam, as unhas fincaram em suas palmas. Seria lá o ninho do amor deles? Respirou fundo. Desejava-a morta a cada movimento dos dois juntos. Ah, a vingança estava ficando cada vez mais apetitosa, pensar que, Leon iria vir correndo para seus braços quando Layla desaparecesse. Queria aquilo. E muito.
Mas Juliette veio por completar o quadro. E aquilo fez Cléo sentir um estralo na parte frontal de seu cérebro.
- Quem é você, pirralha? – Falou para si andando cada vez mais silenciosamente, por entre as pessoas e barracas. Aproximou-se o máximo que pôde através de um beco e próximo a eles, ouviu discretamente um fragmento de conversa que a fez realmente acreditar em suas dúvidas.
- Juliette ... – Layla chamava – Vamos para casa. Dê seus pacotes para o Leon que ele os levará para você...
- Está tudo bem, mamãe! Podemos ir na sorveteria agora, Leon? Podemos? Podemos?
- Podemos ir Layla?
- Sim é caminho para casa...
O resto era mera formalidade.
Escorregou até o chão e enterrou a cabeça entre as pernas e as mãos nos cabelos.
"Mamãe"; "Filha"; "Casa". Leon.
- Traidor, traidor, traidor!
As lágrimas ardiam naquela face. O azul dos olhos era negro, ela já não era mais Cléo. Levantou-se agressiva, empurrou a tudo e a todos. Corria pela rua paralela a que a "família perfeita" seguia. Uma hora ou outra, ela iria fugir.
"Crianças fazem isso o tempo todo, se perdem e, pobrezinhas, aparecem mortas dias depois..." matutava em sua cabeça o plano. Para quê Layla se tinha Juliette.
Sentiu uma ânsia terrível só de pensar naquele nome. Morreria como no conto, pelas mãos do amor de seus pais.
- X -
Espreitou a pequena garota quando esta passou em alta velocidade por entre o beco e a sorveteria. Não, seus pais ainda estavam longe curtindo aquela vida que deveria ser dela. Mas... Como seduzir uma menina que aparentemente tem tudo?
- Framboesa, por favor! – Ela disse a atendente.
Enquanto a moça preparava a bola, Juliette sentiu logo atrás de sim um perfume doce e diferente, logo virou-se e encarou talvez uma das mais lindas mulheres que ela já vira. A moça estava sorridente e se vestia em roupas lindas! Como gostaria de ir com ela.
- Aqui está. – A atendente entregou o sorvete a moça, e Cléo prontamente o pagou.
- Não precisa, minha mãe vai vir aqui pagar!
- É? – Cléo sorriu espreitando aqueles cabelos loiros e os olhos de Leon, sentiu-se como vendo-o a sua frente, Layla era mesmo uma cadela – Sua mãe acabou de me pedir para pagar porque ela foi comprar algo na loja ali ao lado e pediu para mim levá-la até lá. Você me acompanha?
- Ela pediu? – Juliette lambia o sorvete saboroso conforme se dirigia a porta junto da moça.
- Uhum – Cléo assentiu confiante.
- E quem é minha mãe então?
- Layla Hamilton oras e ela está com um rapaz chamado Leon, eu os conheço.
- Jura? Conta-me mais sobre o Leon?
- Posso te contar no caminho, que tal? – Cléo então, discretamente a guiava para o beco.
- Que loja que é moça... Moça? Moça... Não!
Cléo amordaçou-a e começou a arrastá-la pelo beco em direção a um carro já parado que a estava esperado. Entrou com certa pressa jogando a pequena no carro. Juliette logo tentou se rebelar mas fora fortemente atingida por um tapa de Cléo que a fez desfalecer em seguida. Cléo se arrumou no banco e mandou que o carro seguisse rumo a um destino que somente ela conhecia, para executar sua vingança.
N/A: Agora esotu dando início ao começo do fim. Foi difícil deixar a Cléo cega de vingança e ver a Juliette ser sequestrada por ela mas, é a vida como ela deve ser nesta história. E virão por ai altas revelações sobre Julian e outras coisas a mais. Espero que estejam gostando e mandem reviews please!
PS: E agora os capítulos tenderão a ser maiores dado que fica difícil encontrar quebras no texto, espero que não se importem de ler um pouco mais ^^
Título do Capítulo: Na verdade é uma homenagem a uma série de capítulo de mesmo nome do mangá de Samurai X, do qual eu sou super fã.
