Olá pessoal, quero agradecer aos reviews de Barbara Vitoria, sincepotter, Luna8888 e BabiSnapePotter.

Muito obrigada mesmo, vocês me fazem querer sempre continuar a escrever.

Desculpem a demora, espero que gostem do capítulo e perdoem os erros.

Capítulo 8 – Somente verdades e lembranças.

- Você?

A voz da senhora Granger, apesar de alta, carregou consigo a surpresa e raiva que fez Hermione se levantar da cadeira e aproximar-se de sua mãe. A mulher olhava boquiaberta para o homem a sua frente, captava cada centímetro de sua pele pálida onde grande parte estava escondida por vestes velhas e puídas, as mãos do homem tremiam ao serem levadas até os cabelos bagunçados. O rosto lhe dava uma aparência velha e desgastada como alguém cansado que já sofrera muito na vida. No mundo trouxa ele passaria despercebido, nada mais que alguém cuja a vida fora jogada na sarjeta. Particularmente poderia confirmar que nunca vira tal homem na vida, mas seu inconsciente brigava tentando mandar as imagens esquecidas. Imagens que a afogaram assim que prendeu-se nos olhos castanhos.

Hermione amparou a mãe quando a viu cambalear para trás, pensou que fosse desmaiar, mas em nenhum momento a mulher desviou os olhos dos dele, sempre encarando-o como a um fantasma de entes queridos que há muito se foram. Os chamados da grifinória entravam em seu corpo, mas não eram respondidos, era como se a mulher não estivesse ali e sim em uma garagem em meio a chuva e vento. Seu corpo se arrepiou com o passo dado por ele, assim como nas imagens que passavam diante de seus olhos. Via-se nitidamente naquela madrugada, treze anos antes, a noite em que acordara com o desespero de seu recém marido e sem lembrar-se de nada que pudesse ter acontecido.

- Mãe? – Chamou Hermione. – Mãe, o que houve?

- Acho melhor ajudar a Senhora Granger a se sentar de novo. – Disse Dumbledore.

Snape adiantou-se ficando na frente de Lupin que levantara o braço no intuito de ajudar a mulher. Os olhos dos dois se encontraram e Lupin recuou um passo antes que o mestre de poções virasse e sem pedir licença pegasse a mulher pelos braços e a levantasse guiando-a até a cadeira onde Hermione estivera sentada.

- Tudo bem, agora, por favor, me digam o que está acontecendo aqui. – Pediu Hermione olhando de uma pessoa para a outra até que se virou encarando Lupin. – Professor Lupin, não quero acreditar no que estou pensando então vou te perguntar. Por que minha mãe reconheceu o senhor?

Lupin demorou para responder, ele olhou no fundo dos olhos de HHermione, depois para a mulher sentada com a mão no peito que arfava. - Não sei lhe dizer, Hermione.

- Mentira. Minha mãe é trouxa, não teria motivo nenhum para conhecê-lo e, no entanto, ela quase desmaiou ao ver o senhor.

- Se diz tão inteligente e ainda não foi capaz de ligar os fatos, Granger? – Caçoou Snape dando um sorriso torto.

Foi movida pelo sorriso zombeteiro de Snape que Hermione abriu os olhos para aquilo que não queria ver e que ninguém tinha coragem de lhe contar. Lembrou-se do sonho estranho que teve, da visão ao olhar nos olhos de Lupin ainda no Expresso de Hogwarts, dos sumiços do professor, de seus sonhos que a perturbavam e de sua própria transformação.

- Não eram sonhos. – Sussurrou olhando para o nada. – Eram lembranças. Lembranças de vocês, de quando vocês... Meu Deus, não!

- Senhorita Granger. – Chamou Dumbledore quando a menina começou a chorar. – Por favor, sente-se. Entendo que esse assunto é delicado e deveras complicado. Mas a verdade precisa ser dita, por mais que seja cruel.

- Você é meu pai. – Disse a menina com a voz quebrada, seus olhos estavam marejados. – Por que mamãe? - Perguntou virando-se para a mulher ainda sentada e encolhida. - Como teve coragem de fazer isso com o papai?

- Não foi culpa dela. – Disse Lupin desistindo de fingir e aproximando-se de Hermione que recuou um passo. Os olhos de Snape estavam furiosos em sua direção. – Posso lhe dizer que foi minha culpa se fizer com que se sinta melhor, mas também não foi. Aconteceu o que os lobisomens não podem evitar. Sabe que alguns de nós podem procriar, a maioria são nascidos, mas alguns que foram mordidos também conseguem. Eu sou um deles. – O homem deu as costas para a menina e foi até a janela, começara a garoar e as gotas escorriam pelo vidro.

Lupin espalmou as mãos no parapeito e baixou a cabeça suspirando. Jamais imaginou que um dia chegaria a ter aquela conversa, no entanto, ela estava ali, diante de si. Não havia para onde fugir, mesmo que as águas gélidas do Lago Negro fossem convidativas para uma tentativa. Não havia como fugir da verdade e ela implorava para ser dita.

- Eu estaria mentindo se dissesse que não me lembro daquela noite. Eu lembro, todos os dias eu me lembrei, a cada momento, eu lembrei. Era um dia comum para mim, nada de extraordinário, eu vivia em uma casa velha que estava a venda. Era pequena, singela, mas havia um porão reforçado, feito provavelmente na época da segunda guerra mundial. Era perfeito para me esconder, eu poderia me trancar lá e esperar as tortuosas horas. - Lupin fechou os olhos lembrando-se daquele dia, quase tocando as lembranças de tão vivas que estavam em sua mente. - Era para ser um dia comum, mas então, quando estava perto do anoitecer, apenas alguns minutos antes de trancar-me eu senti a presença dela. - O professor virou-se olhando para a Senhora Granger que devagar retornou o olhar. Lupin continuou sua narrativa, mas parecia enxergar apenas os olhos marejados dela. - Era um perfume tão intenso, tão doce e gostoso. Algo que jamais havia sentido antes, eu não podia me afastar, por isso fiquei observando-a sair de sua casa recém comprada junto com o outro homem, eu o ignorei completamente, era insignificante para mim, só ela me importava. Eu nem mesmo reparei que permaneci parado no mesmo lugar até que eles retornaram. Já era noite. A lua estava no céu, cheia, e eu não havia me transformado. Estranhei isso, mas permaneci no mesmo lugar até que o perfume isolou-se dentro da casa e eu pude retornar a realidade. Imediatamente sai correndo de lá tentando me esconder no porão, mas a transformação veio rápida, não tive tempo de me trancar então estava a solta na cidade.

"Normalmente eu não me recordo do que houve nessas noites, meu lado lupino nubla a minha mente e razão. Aquela noite eu estava completamente lúcido, mesmo transformado eu conseguia entender onde estava e o que estava acontecendo. Chovia demais e o vento era cruel, ainda assim permaneci perto da casa, olhando para ela o tempo todo como se isso fizesse com que a mulher viesse até mim. E então ela veio, vestida em uma camisola leve, descalça, cabelos soltos. Simplesmente linda."

A Senhora Granger nem mesmo percebera que o homem estava agora quase lhe tocando. Lupin nem mesmo piscava enquanto narrava sua história. Hermione estava apreensiva atrás do homem olhando para suas costas vestidas com o sobretudo velho e puído. Era a primeira vez que olhava para o professor Lupin com receio, como se não quisesse sua presença. Nem mesmo percebera que dera passos para trás, distanciando-se de Lupin e aproximando-se de Snape.

- Eu fugi, eu juro que fugi de você. – Continuou Lupin mostrando agora um desespero em sua voz, como se quisesse imprimir em cada palavra a vontade de provar sua verdade. – Eu sabia que poderia te machucar e eu não queria, por isso fui embora, mas você veio atrás. Você entrou naquela garagem ou barraco, sei lá o que era aquilo. E então eu voltei a ser humano e não tive mais controle das minhas ações, eu precisava de você, eu precisava tê-la, precisava...

- Acredito que todos sabemos o que você estava precisando naquela noite, Lupin. – Disse Snape cruzando os braços diante do peito. – Poupe-nos dos detalhes sobre seu acasalamento com a Senhora Granger.

- Concordo com Severus de que não precisamos saber todos os detalhes, mas está mais do que claro que houve o acasalamento de um lobisomem e uma humana há treze anos e que Hermione é fruto desse acontecimento. – Disse Dumbledore arrumando os óculos de meia lua. – Agora que a verdade veio a tona em todas as partes vamos acordar os próximos passos. Senhorita Granger, acredito que o professor Snape já lhe mostrou onde ficará nas noites de transformação, começando hoje.

- Sim, diretor, mostrou. – Respondeu Hermione após alguns segundos ainda olhando desconfiada para Lupin.

- Severus, ainda há poção Mata Cão?

- Sim, diretor, porém não posso ministrar essa poção para a senhorita Granger, tenho que fazer outro caldeirão de poção, pois preciso que seja com as medidas da menina. Acredito que conseguirei que fique pronto para o próximo ciclo lunar, durante esse ciclo ela ficará inteiramente a mercê de seus instintos.

- Por que ela não pode ficar na Casa dos Gritos comigo? – Questionou Lupin franzindo o cenho para Dumbledore e apontando para Hermione.

- Remus, entendo que os dois como Lobisomens poderiam ficar juntos em um mesmo ambiente, até seria mais fácil para se conterem, porém, no caso de vocês não será possível. Pelo que consegui pesquisar no pouco tempo que tive quando lobisomens nascidos se transformam eles buscam seus progenitores, por isso Hermione seguiu até a Casa dos Gritos atrás de você, mesmo que não soubesse o porque de ser guiada até lá. Porém você a atacou, pois não conseguiu identifica-la como sua cria. – Hermione fez careta ao ouvir essa palavra, Snape sorriu torto.

- Mas agora eu sei que ela é minha filha, eu consigo identificar seu cheiro. Eu tenho uma ligação com ela.

- Tinha, não tem mais. Assim como na natureza e com qualquer ser vivo, o laço consanguíneo acaba quando se encontra o par ideal e como sabemos os lobisomens nascidos precisam do par ideal para procriar.

- Tá e o que tem isso? – Questionou Lupin.

- Isso quer dizer que Hermione já encontrou o par ideal e seu laço paterno quebrou, você não a reconhecerá, pois ela já não pertence mais aos pais e sim ao homem que a tomara como sua e a fará gerir uma vida. Você poderia mata-la se a encontrasse transformado e como já testemunhamos, mas ainda não descobrimos o motivo, a magia da senhorita Granger é tão intensa que é capaz de anular os feitiços da Casa dos Gritos colocados por mim. Acho que devo presentear a Grifinória com pontos por isso.

- Mas então... – Começou a senhora Granger. – Quem é essa pessoa? Você tem namorado filha?

- Não mamãe, não tenho namorado. – Respondeu Hermione virando-se para o diretor. – Professor Dumbledore, me perdoe, mas acho que o senhor está enganado. Eu não encontrei ninguém, eu nem ao menos penso nisso.

- Senhorita Granger, você não escolherá seu parceiro, você talvez nem o ame. Talvez esse homem seja até mesmo alguém que você não goste ou que não goste de você, mas que com o tempo vai te amar. Você só não sabe quem é essa pessoa ainda.

Um barulho na porta fez Hermione olhar para trás e observar Snape sair do escritório do diretor. A visão da capa negra indo embora a deixou estranha, como se um pedaço de si tivesse ido embora junto.

- Ou talvez. – Continuou Dumbledore colocando a mão no ombro da menina. – Você já tenha encontrado, só não se deu conta ainda.

SSSSSSSSSSSSSSSSSSS

Hermione seguia lado a lado com a mulher, mas nem mesmo olhava em seus olhos, apenas dava passo após passo em direção ao portão onde um bruxo a levaria para a estação de Hogsmead e depois para Londres onde a senhora Granger pegaria o caminho de casa e se encontraria com seu esposo. Sabia que seu pai estaria muito nervoso e ansioso por saber o motivo da ida urgente de sua mulher até a escola da filha. Acontecera alguma coisa? Ele perguntaria e Hermione conseguia até mesmo ver a testa franzida e os olhos claros cheios de preocupação.

- Você vai contar para o papai, não vai?

A senhora Granger parou no meio da caminhada e olhou para a menina que se virou para encará-la. A semelhança entre as duas era tão grande que podia dizer que estava diante de seu reflexo quando mais jovem, mas Hermione tinha sua própria identidade, como o jeito com que cruzava os braços em frente ao peito e cerrava os lábios com força e determinação. Sabia que não conseguiria sair dali sem dar uma resposta a menina.

- Não sei, Hermione, tudo isso é muito repentino.

- Ele merece saber.

- Eu sei, jamais menti para seu pai durante todos esses anos em que nos conhecemos. Jamais. E se não contei dessa vez foi por não me lembrar de nada. Tudo veio a tona hoje e agora eu só tenho na minha cabeça a preocupação com você e em como você ficará.

- Eu ficarei bem.

- Está mentindo. Eu sei que está. Você é minha filha e eu te conheço como ninguém. Pode dizer que ficará bem, que não está com medo, mas você está apavorada. – Hermione tentou se afastar e virar o rosto, mas a senhora Granger segurou firme em seus braços fazendo-a olhar em seus olhos. – Eu sei que está com medo, meu amor, apenas fale. Fale pra mim. Sou sua melhor amiga, Hermione, sempre fui. Por favor, não faça com que isso mude. Eu te amo, eu te amo demais.

A grifinória sentiu a garganta doer com a força que fazia para não chorar, mas no fim não podia simplesmente segurar a angustia que queria escapar.

- Sim, mamãe, eu estou com medo. – Disse sentindo as lágrimas descerem por seu rosto. – Eu estou morrendo de medo e estou com raiva porque eu não pedi isso. Eu nunca pedi isso, o erro foi da senhora e eu que tenho que pagar por ele.

- Hermione, se eu pudesse estar no seu lugar eu estaria.

- Eu sei, eu sei. Desculpa. – Hermione abraçou a mãe de repente apertando-a com força. – Sei que não é sua culpa mamãe, mas estou com tanto medo do que irá acontecer.

- Shiiii, está tudo bem meu amor, está tudo bem. Eu estou aqui com você. Vai ficar tudo bem. Vamos superar isso como sempre superamos tudo, juntas.

Hermione chorou copiosamente no ombro da mãe sentindo o calor de seus braços acalentar sua alma e acalmar o desespero até que se tornou apenas um leve torpor.

- Se quiser eu peço ao professor Dumbledore para ficar alguns dias com você.

- Não! – Disse Hermione rapidamente liberando-se do abraço e encarando a mulher com seriedade. – Não. Eu ficarei trancada todas as noites e não quero que veja isso.

- Hermione, você não tem do que ter vergonha, eu sou sua mãe.

- Mesmo assim, não quero que vejo no que eu vou me tornar, o que eu sou. E você tem que ir para casa para conversar com papai.

- Ah, não sei se devo contar a ele, Hermione.

- Deve sim. – Disse a menina com firmeza limpando o rosto nas mangas da camisa. – Ele é seu marido, meu pai. Ele merece saber a verdade.

Um silêncio constrangedor instalou-se entre as duas enquanto Hermione encarava a mãe com firmeza quase tremendo, sentindo dentro de si uma raiva descomunal crescer. Era como se uma fagulha tivesse começado um incêndio que aos poucos se alastrava por seu corpo. Deu um passo para trás encostando as costas no portão de ferro.

- É melhor a senhora ir embora.

- Está me expulsando, Hermione? – Perguntou a senhora Granger com a voz baixa.

O tom magoado da voz de sua mãe fez Hermione quase gritar. Seu corpo estava estranho, sua mente um tanto quanto confusa e suas emoções a flor da pele. Sentiu as lágrimas mais uma vez caírem por seu rosto e soube que precisava se afastar da mulher o mais rápido possível, porém não sabia como fazer isso sem magoá-la mais do que já estava magoada e com o coração ferido. Por sorte duas vozes foram ouvidas ao mesmo tempo.

- Senhorita Granger.

- Senhora Granger?

Enquanto a senhora Granger olhou por sobre o ombro de Hermione, diretamente para o bruxo que a chamara do lado de fora dos portões de Hogwarts, a menina olhou para o homem parado adiante olhando-a com firmeza e intensidade.

- Você precisa ir. Eu ficarei bem, mamãe. Conte a verdade ao papai. Adeus.

Hermione não dera tempo para que a mulher falasse mais alguma coisa, apenas adiantou-se indo em direção a Snape que abria o portão da escola com um aceno de varinha. Parou ao lado do homem e ficou de costas para o portão apenas aguardando.

- Tchau Hermione.

A despedida da mãe era apenas um sussurro que normalmente não seria ouvido de onde estava, mas que devido os sentidos aguçados parecia uma faca cravada em sua alma. Reservou-se a apenas respirar enquanto ouvia os passos se afastarem e então o som das rodas da carruagem se afastar até morrer no horizonte. Assim que sentiu-se segura levantou a cabeça e encontrou Snape a olhando com interesse esquadrinhando-a de cima para baixo.

- O professor Lupin deseja lhe ver antes de se recolher.

- Não quero falar com ele.

- Não acredito que tenha escolha.

- Eu tenho escolhas, professor Snape, e escolho não falar com ele. Ele não é nada para mim, no momento não o considero nem mesmo meu professor ou sequer um conhecido.

Snape nada disse, mas um sorriso torto apareceu no canto de seus lábios. Hermione respirou fundo e fechou os olhos por um único segundo, quando os abriu se viu caindo nos negros tuneis de Snape, sentiu-se até certo ponto tonta, mas sua raiva abrandava aos poucos até tornar-se mero calor em seu âmago. Sentiu seus dedos mexerem-se mínimos centímetros para frente como se quisessem tocar o homem, mas rapidamente fechou a mão em punho contendo essa louca vontade e apenas o seguiu quando o mesmo mandou. Era tarde, logo a fraca luz solar morreria no horizonte dando espaço para o brilho lunar que a invadiria com força. Não havia nada que fazer para impedir e por isso caminhou atrás dele sem nada dizer. Foi somente quando ele abriu o portão feito de grades firmes e reforçadas que ela falou.

- Eu ficarei aqui sozinha?

- Sim. - Respondeu Snape trancando o portão e apontando a varinha para as grades, pronto para recitar os feitiços que a deixariam presa por uma noite inteira com seus piores pesadelos. - Sem a poção será perigoso demais ter alguém ficar aqui embaixo. A não ser que queira fazer a primeira refeição humana, mas devo avisar que canibalismo é proibido em Hogwarts.

- Não precisa ser rude professor. Só queria que Harry e Rony estivessem aqui comigo. Eles devem estar preocupados.

- Seus amiguinhos foram informados que a senhorita está com uma infecção e por isso deve permanecer em uma área reservada da ala hospitalar.

- Queria poder contar a eles.

- Não posso negar que a imagem daqueles dois acéfalos devorados por um lobisomem recém transformado me agrade muito, mas o diretor acha melhor não contar nada até que a poção Mata Cão esteja pronta. Infelizmente ele acha que a morte de dois alunos, mesmo sendo esses os alunos, uma tragédia para a escola. Talvez depois a senhorita possa contar pessoalmente sobre sua condição e eles lhe adotem como cãozinho de estimação.

Hermione sentiu-se incrivelmente ofendida pelas palavras do homem de preto que a olhava com ferocidade, mas ao abrir a boca descobriu que não havia o que falar e apenas riu-se baixinho enquanto encostava as costas na parede e escorregava até o chão onde se sentou com as pernas cruzadas.

- Qual é a graça, senhorita Granger?

- Mesmo que tenha falado coisas rudes e que tenha me chamado de cachorrinho, eu percebi que essa foi a maior conversa que já tivemos. Algo que jamais pensei ser possível e por mais estranho que pareça, eu gostei.

- Não se acostume, não tenho dom para babá ou psicólogo de animais. Agora cale a boca que preciso efetuar os feitiços antes que se transforme e queira matar todos nesse castelo.

Hermione se calou e ficou apenas contemplando o professor recitar baixinho alguns feitiços estranhos e possivelmente muito antigos para estarem nos livros que já lera para a escola. Ele podia não ter gostado do que falara, mas era verdade, gostara realmente de conversar com o homem. Snape era ferino, sarcástico e com uma tendência horrível a querer matar todo mundo, mas era estranhamente confortável falar com ele. Não havia a necessidade de explicar-se sempre que dizia algo como quando conversava com os amigos, Snape era inteligente e conseguia entender as coisas nas entrelinhas além de poder dar as respostas claramente e prontamente. Claro que queria falar com seus amigos, mas naquele momento, enquanto sentia que seu corpo queimava e que o grito sairia de sua garganta assim que os ossos começassem a quebrar e alongar, só queria que o homem de preto continuasse do outro lado do portão.

Snape não se mexeu um único centímetro até que o sol começasse a nascer e a menina nua na cela adormecesse.

N/A: E ai pessoal?: Gostaram?