Capítulo 9 – A Desconfiança Persiste
O Sol se fazia presente em Laurence, quando os irmãos chegaram a casa de Bobby. O caçador mais velho estava tão preocupado com o sumiço repentino de todos – inclusive do anjo que ajudara Sam e Dean –, que tinha pensado em ir procurá-los, até mesmo se arrumara para pegar seu carro. Surpreendeu-se, porém, com o barulho do motor do Impala do loiro. E ficou ainda mais atônito ao ver o estado precário de Castiel. O ser celeste era carregado pelo Winchester mais velho; mesmo que estivesse a dormir, a expressão do anjo se mantinha assustada, como se temesse algo.
– O que diabos aconteceu agora? – a pergunta de Bobby era mais direta e incisiva do que de costume. – Como ele ficou desse jeito... Meu Deus?
– Falei mais algumas bobagens ao Cass ontem à noite – explicou Dean. – Por isso o pegaram.
– De novo, rapaz? – o tom do caçador mais velho era de extrema irritação. – Será que não entendeu que farão de tudo para pegá-lo? – o loiro assentiu. – Então deixe de dizer besteiras, e cuide para que não o atinjam!
Sam, por sua vez, continuava calado. Apenas se concentrava em tratar dos vários ferimentos existentes no corpo do anjo. Às vezes olhava pela janela, era como se esperasse que Azrael, ou até mesmo Lúcifer surgissem.
– Sim, pode deixar, Bobby, não vou falar mais nenhuma bobagem – comentou o Winchester mais velho. – Agora se me dão licença, preciso sair para tomar um ar.
– Espere aí... – o mais novo, porém, não terminou a frase; o irmão saíra deixando Cass, Bobby e ele ali. O que até certo ponto era bom; assim os dois poderiam auxiliar melhor o ser celeste, que sequer se mexia, devido à gravidade dos machucados.
– Dean sabe se cuidar, fique tranqüilo; ele não irá longe; sabe que há demônios por perto e não será tão burro assim – comentou Bobby.
– É, tem razão – respondeu Sam. – Mas algo me diz que ele saiu por um motivo em especial.
– Qual?
– Encontrar alguém... – após olhar para Castiel, que dormia profundamente, Sam pediu ao caçador que fossem à cozinha. Assim que lá chegaram, lhe explicou que Lúcifer os ajudara; contou-lhe da violenta luta que Rafael e o rebelde travaram; e relatou sua surpresa por tê-lo visto.
– Não entendo mais nada. Você não o prendeu na gaiola e saiu logo em seguida?
– É. Mas acho que alguém o soltou quando me trouxeram de volta.
– Que coisa mais doida – murmurou Bobby.
(...).
Dean dirigia seu amado Impala pelas ruas de Laurence. Resolveu, então, parar em frente à residência que morara quando pequeno. Entretanto, demorou a descer do veículo. Quando o fez, levou um susto; Lúcifer parara ao seu lado.
– O que quer, cretino?
– Olá Dean! Vou bem, obrigado – respondeu, com um sorriso debochado. – E Castiel?
– Sammy cuida dele... O que quer aqui? – perguntou o loiro. Jamais imaginava que conversaria amigavelmente com o diabo.
– Apenas explicar o que devo.
– Desembucha.
– Saí do Inferno juntamente com Samuel. Rafael nos libertou; ele achava que eu seguiria o mesmo plano.
– Que plano?
– O de me aliar a Kasbeel. Mas não vou ser tão estúpido.
– Por que?
– Porque não quero concorrência – esclareceu. – E além do mais, Castiel é peça chave nisso tudo, juntamente com Jimmy.
– Como assim?
– Kasbeel precisa do receptáculo de seu amigo para iniciar a destruição, entende agora?
– Sim, por isso você o defendeu.
– É isso aí.
– Mas me diga uma coisa, por que Sam saiu do buraco também?
– Porque foi a condição que eu impus a Rafael. Fingi concordar com o plano para ser solto. E disse que não voltaria para cá sem seu irmão, desde que, claro, estivéssemos separados e desde que os poderes do rapaz fossem reativados sem necessitar de sangue demoníaco.
– Eu... Eu... Bem – Dean gaguejava. – Não sei como... Como agradecer.
– Vamos deixar as formalidades para outra hora, certo?
– Ta beleza – sentiu-se aliviado, pois o rebelde pulara aquela parte um tanto embaraçosa para si. – Como fazemos para prender o tal Kasbeel?
– Ninguém o colocará preso em lugar algum; nós vamos matá-lo.
– Eu ouvi bem... Você disse... "nós"? – perguntou, visivelmente surpreso. – Pretende trabalhar com a gente?
– E por que não?
– Porque tentamos matar você, ora essa! Acho que é um bom motivo para que não nos queira ver tão cedo.
– Tem razão – ele fez uma pausa. – Mas vou abrir uma exceção. Não quero que Kasbeel acabe com tudo.
– Tudo... Como assim tudo?
– Terra, Inferno, Sistema Solar, etc., Rafael confia nele, mas não deveria fazê-lo, se fosse realmente esperto; Ele vai trair os anjos.
– Como sabe disso?
– Porque o conheço muito bem. Assim como conheço seu amigo. Sei que o torturaram, tentei impedi-los; infelizmente não foi possível. Eles usaram argumentos bastante convincentes para que Castiel não pense em pedir ajuda a você e a Sammy – Dean bufou ao vê-lo chamar o irmão daquele modo. – Mas não se preocupe; vamos dar um jeito nisso.
– É mesmo? – disse, sarcasticamente. – Tem algo em mente?
– Um passo de cada vez, rapaz – ele olhou o loiro. Aquele olhar, profundo, penetrante e triste ao extremo, que escondia inúmeros segredos, e que era bastante semelhante ao de Cass, lhe perturbava de uma maneira estranha. Dean não sabia o porquê, mas confiava em Lúcifer – embora considerasse arriscado e insensato. Claro que tinha vontade de esmurrá-lo, por tudo que houve em mais de vinte longos anos de eterna busca e de perdas irreparáveis. Mas não era o momento adequado para isso. Caso tomasse tal decisão, poderia atrasar ainda mais as coisas, piorar, de maneira inconseqüente, os fatos que viriam. – Há uma arma, que está no Quarto Céu, toda banhada a ouro; ela pode matar Kasbeel – explicou o outro.
– Fantástico – comentou o Winchester, em uma tentativa de aliviar o clima de tensão. – Mas por que só ela funcionará no maldito?
– Porque ele é um anjo especial; bebeu sangue demoníaco quando se revoltou contra o Céu. E, além disso, foi criado por mim.
– Agora fiquei tonto... Desde quando anjos bebem essa droga? – o caçador o encarou; tinha uma expressão de visível interesse. – E... Você o criou?
– Ele foi o primeiro a se nutrir dessa forma irresponsável, foi o que o levou à prisão no Céu. Mas por ter sangue demoníaco e por ser um anjo, há peculiaridades nele; Miguel fez a arma de que falei antes, para aniquilar Kasbeel, caso ele resolvesse fugir. Bem, quanto a criá-lo... Não o fiz tecnicamente, isso é com Deus – comentou. – Eu deveria lhe dar conhecimento. É uma cadeia de aprendizagem; Miguel, meu irmão mais velho, me ensinou tudo que eu necessitava aprender; eu, por outro lado, orientei Azrael, que deveria ensinar Castiel, com o meu auxílio; depois era a vez do pequeno Kasbeel; e assim sucessivamente...
– Mas você não compareceu para ajudar Azrael, nem Castiel?
– Exatamente. Miguel se encarregara de passar orientações a Gabriel e a Rafael; eu deveria fazer o mesmo aos três. Por isso, também, estou aqui.
– Então não quer salvar o mundo? – Samael engoliu em seco com aquela questão. Ele amava a Terra, ainda que o ódio pelos homens fosse grande o bastante.
– Há vários motivos que me levam a estar aqui – comentou. – Acho que não preciso expor todos a você de uma vez só, não é?
– Não, claro... Ok, entendi. Diga-me uma coisa, por que Cass se sente responsável pelo desgraçado, se era você quem deveria orientá-los, em primeiro lugar?
– Porque era uma atribuição dada a ele, quando Azrael o orientou antes de partir para as missões de guerra. Só que Castiel era muito jovem ainda, não tinha experiência suficiente para ensinar nada a Kasbeel, que por isso se rebelou.
– Saquei, e agora ele quer se vingar?
– Digamos que pegar o corpo de Jimmy Novak e, de quebra, aniquilar o irmão o deixe ainda mais motivado.
– Ta, entendi tudo agora. Vamos buscar a arma que você falou?
– Azrael foi tentar encontrá-la, não se preocupe. Se ele não a achar, teremos de procurá-la em outros lugares.
– Onde?
– Não sei.
– Legal! – debochou. – Enquanto isso o Cass vira alvo deles?
– Não. É só você ser menos ríspido com o anjo. Não sei ao certo o que houve lá, apenas sei que ele foi torturado e, como falei antes, que disseram coisas a Castiel. Mas... Não sei o que lhe foi dito. Sente com ele, converse com aquele que nunca o abandonou, Dean Winchester.
Era difícil admitir, mas o rebelde tinha razão. Precisava esclarecer o que ocorrera nos momentos em que o irmão e ele procuravam o local onde Cass estava. O loiro não levava muito jeito para aquele tipo de diálogo, mas era amigo de alguém que nutria uma lealdade extrema para com ele. E era preciso deixar tudo esclarecido o quanto antes.
– Vou atrás de Azrael, depois volto – Samael partiu em um bater de asas.
Dean continuava a desconfiar dele; não queria crer que cooperaria na tentativa de matar Kasbeel. Ainda achava que o rebelde mostraria a que veio na hora certa.
Lúcifer, por outro lado, apenas queria acabar com aquilo tudo o mais rápido possível. Inquietava-lhe a idéia de que Miguel poderia abandonar a gaiola em que Sam os jogara. Não sabia como reagiria se o poderoso Arcanjo reaparecesse para atrapalhá-lo, ou até mesmo para auxiliá-lo. E não deveria pensar em tal possibilidade; havia coisas mais relevantes e complexas para se ocupar. Por mais que não refletisse a respeito do assunto, se sentia culpado por ver Castiel em apuros.
A essência angelical e bondosa de Samael Estrela da Manhã não morrera com a rebelião ocorrida no Céu milênios atrás; apenas enfraquecera com a obscuridade do Inferno. Ele, porém, a sentiu queimar quando saiu de lá, liberto por Kasbeel. Era estranho e diferente se conter, devido ao turbilhão de sensações que tomava conta do peito dele agora. De uma forma indescritível, Lúcifer se via envolvido pela luz de serenidade, bondade e inocência que os olhos azuis de Castiel emanavam. Ele notou, ao ver o ser celeste tão fragilizado e acuado frente a Rafael e aos outros, que tudo que lhe ensinara continuava ali, não somente no olhar, mas principalmente no coração.
Retornou à rua onde conversara com Dean minutos antes. E sorriu ao vislumbrar o loiro entrar no Chevy Impala e dar a partida. O Winchester largou um pacote com comida no banco ao lado e passou a dirigir. Rumava para a casa de Robert Singer. Samael sentiu, então, que poderia ir ao encontro de Azrael; era necessário acabar com Kasbeel, antes que ele conseguisse despertar os demônios que estavam presos no Inferno.
